domingo, 30 de novembro de 2008

Dez de Dezembro - Cássia Eller (2002)


Essa estória de resenhar músicas tem sido muito legal... Esse movimento da escolha, no meu caso, passa sempre por um namoro prévio. Eu fico lá, ouvindo o cd, curtindo, ouvindo de novo e tal. E é sempre uma re-descoberta!
Eu tava ensaiando para escrever algo sobre a Cássia Eller - ela foi a primeira cantora por quem me apaixonei de verdade, dessas paixões de quando a gente quer ter todos os discos, quando a gente fica meio viciado.
E foi uma surpresa pra mim quando me peguei escolhendo o “DEZ DE DEZEMBRO”... Esse disco tem uma vibe diferente e acho que foi aí que fui capturada.
É um disco que faz sentir a presença forte de alguém que não tá mais aqui. Nando Reis escolheu e alinhavou as canções como ninguém. Só mesmo uma amizade de uma natureza tão especial transforma um conjunto de músicas numa coisa tão viva.
“Dez de Dezembro” é delicado, suave e marcante como uma prova de amor deve ser. É uma carta de amor que me toca e me faz chegar à cabeça as melhores sonoridades, as melhores palavras já amarradas. Esse cd é fruto de vários encontros e mais, “Dez de Dezembro” é uma homenagem de Nando à Cássia, mas também de Cássia a tudo e a todos. Aqui ela está escancarada e eu fico super feliz ao escrever sobre essa trama de homenagens da qual me sinto parte, afinal todas essas músicas passaram a fazer sentido para mim também.

Os Beatles abrem o cd e Cássia entra em cena com “Get Back”. Eu quase não conheço os Beatles mas devo dizer que essa música fica perfeita na voz da Cássia! Ela está confortável, como se esse mundo corresse em seu sangue. Ela escolhe um Beatles que é a cara dela. E no fundo, se você prestar bem atenção, Zélia Duncan, sempre discreta, canta junto. A percussão e o violão são um arraso. A música sobe e desce, abre e fecha. Cássia dá movimento a “Get Back”.
Sobre “Julia” ... Bem, para essa não é necessário gastar dedos e palavras:
“Julia, Julia, oceanchild, calls me
So I sing a song of love, Julia
Seashell eyes, windy smile, calls me.”
O que dizer depois disso?

“No Recreio” é uma explosão. É a melhor declaração de amor que alguém pode receber... E a palavra recreio é a ideal... Recreio é o momento onde as coisas são uma delícia! Nando inventa um recreio para a vida adulta. Não é o máximo? O som entra potente, e todos os instrumentos vão conversando: entra a guitarra sozinha, chega o baixo, o violão, a percussão, e o som explode com força e desespero, mas a voz de Cássia transforma essa potência em algo doce, em algo visual. “Quando é que você vai sacar?/ Que o vão que fazem suas mãos/ É porque você não está comigo?”. É o encontro simples e perfeito.
“No Recreio” é a ansiedade vislumbrando o amor possível. É uma música-filme, onde a trilha sonora dos instrumentos te deixa aflito, com os nervos à flor da pele, mas a fala, a voz, as frases são o que te dão a solução: “Só é possivel te amar/ Escorre aos litros, o amor”.

“All Star” é dedicado à Cássia. Não vale, né? Esse cd é o maior disco de amor… Aqui Cássia canta lindamente uma homenagem à amizade. “Não vejo a hora de te encontrar/ E continuar aquela conversa/ Que não terminamos ontem, ficou pra hoje”.
Cássia (e seu violão) vai te conquistando timidamente e você vai se entregando timidamente, como nas melhores amizades.
Quando eu assisto aos DVDs da Cássia e vejo os dois, ela e o Nando, naquela amizade onde o beijo na boca era possível, e agora, embalada por essa música, com essa voz se espalhando por toda a minha casa... Poxa, esse disco não podia mesmo ser outra coisa senão essa vontade de ouvir, ouvir e ouvir.

Dura e quebrada, “Eu sou Neguinha” roda sabendo o que quer. Cássia é certeira, canta Caetano com uma intimidade de tirar o fôlego. É isso, Cássia como ninguém, fica íntima das músicas e as traduz, deixando-as únicas. E com uma naturalidade impecável, ela faz o ontem conversar com o hoje: temos aqui a presença do X.
“Que as coisas conversam coisas supreendentes/ Fatalmente erram, acham solução/ E que, o mesmo signo que eu tento ler e ser/ É apenas o possível ou impossível em mim/ em mim em mil em mim em mil”.
“Eu sou Neguinha” me lembra uma marcha, algo que se deve seguir, não necessariamante por sua vontade, mas pela força em si – todos seguem a marcha, algo coletivo – “Mas aquilo ia e eu ia e eu ia eu ia eu ia”. Cássia arrasa porque põe aspereza na música. Como num prisma, ela absorve todas as emoções possíveis e espalha uma coisa nova, diferente, atravessada.
Ufa.

“Meu amor partiu/ Cansou dos meu vícios…” Com uma voz rouca e num blues quase rasgado, Cássia vem cansada em “Nada Vai Mudar Isso”, de Paulinho Moska. Como um camaleão, ela mimetiza e mergulha completamente no astral da música. Aqui ela se descabela por seu amor que partiu, mesmo sabendo que ele voltará, mas com outro feitiço. Em “Nada Vai Mudar Isso” fala daquele amor que a gente tira na marra de dentro da gente, mesmo sabendo que a gente corre o risco desse amor voltar, quem sabe ainda mais forte… Como se o amor tivesse vontade própria: “Meu amor se expulsou de mim”.
De matar.

E como boa camaleoa que Cássia é, “Fiz o que Pude” de rock vira um xote sem perdão! É uma misturança arretada de boa… Gil xorora com seu xororô, deixando a música ainda mais apaixonante. Cássia roqueia com seu rock deixando a música ainda mais delirante.
E fizeram a melhor coisa! Em “Fiz o que Pude” Cássia resolve não dar muito bola pra dor e te pede a mão pra uma dança, de um jeito charmoso, malicioso e gritado...

Essa já chega provocando: “Não quero nem saber/ Aonde está você/ Não que eu não saiba não”.
“Nenhum Roberto” é a música das coisas óbvias, não que eu não saiba não… Daquelas coisas que a gente sabe, sabe a ordem das vogais, das consoantes de trás pra frente, não que eu não saiba não… E daí?
João Barone, na sua bateria perfeita e maravilhosa, acompanha Cássia na música de Nando e com a ponta perfeita de Frejat todos engrenam numa alegria danada, brincando, buscando, se divertindo. “Nenhum Roberto” é uma gostosura! É pauleira, sonzaço total, um trem-bala.
Não que eu não saiba não…
E tudo se resume numa risada!

A coisa mais delicada chega em “Little Wings”… Cássia nos faz ir para um outro planeta. Deliciosamente cada palavra é cantada e sentida com uma intensidade que me deixa sem palavras. Jimi Hendrix adoraria ouvir “Little Wings” nessa voz quase que chorada, que quase nos faz levitar. Eu fico aqui viajando (grande herança de Cássia – a viagem…) nos músicos fazendo esse som, esse violão cheio de personalidade que vai te seduzindo, que te leva lá pra cima e depois te traz de mansinho pra baixo, como numa viagem num tapete mágico.
It’s alright she said it’s alright…

“Nos aviões que vomitavam pára-quedas/ Nas casamatas, caso vivas, caso morras/ E nos delírios, meus grilos rever/ O casamento, o rompimento, o sacramento, o documento/ Como um passatempo, quero mais te ver/ Oh, com aflição”.
“Vila do Sossego” de Zé Ramalho, abre uma ilha no teu sossego, te sangra a ferida, te pega e você não sabe por que e nem onde. Cássia canta todo esse desassossego como se estivesse lendo uma carta ditada por vozes sábias do além – “Que nas torturas toda carne se trai”…
Cássia tem isso de transitar pela dor, pela beleza, pela delicadeza e pela força sem peder o passo, sem deixar que a gente perca o passo...

“Dez de Dezembro” vai embora grandioso como Cássia... Em “Só Se For a Dois” - a última música do disco e uma das músicas mais belas de Cazuza - Cássia quase gritando canta que “As possibilidades de felicidade/ São egoístas meu amor/ Viver a liberdade, amar de verdade/ Só se for a dois”.
O piano nessa música dá a leveza, a percussão a vida, a voz de Cássia a delícia, e a poesia de Cazuza, a verdade…

“Essa é minha flor... a sua Repetalada”
E tudo isso acabou…

[ANDRÉA]

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Adoniran Barbosa (1975)

Quando Deus fez o homem

Quis fazer um vagolino que nunca tinha fome

E que tinha no destino, nunca pegar no batente e viver folgadamente

O homem era feliz enquanto Deus ansim quis

Mas depois pegou Adão, tirou uma costela e fez a mulher...

Desde então o homem trabalha pr'ela...

Vai daí o homem reza todo dia uma oração:

Se quisé tirá de mim arguma coisa de bão...

Me tira o trabáio, a muié não...


Do ponto de vista estritamente musical, este álbum de 1975 nada mais é que a continuação daquele lançado no ano anterior. Nada mais justo, para um artista com a produção de Adoniran que estava estreando na era do disco. As diferenças ficam por conta dos arranjos mais diversificados deste segundo trabalho e o fato de que só um super-clássico aparece aqui. Samba do Arnesto ficou célebre não só por ser uma música genial, de apelo extremamente popular, mas também por ter marcado o uso “vulgar” do português (que aparece em quase toda obra do autor), um português incorreto na gramática mas perfeito na musicalidade, puro Adoniran.


O disco começa avisando o ouvinte que o silêncio da madrugada está pra ser desfeito pois o samba na casa verde enfezou! Segue o pagode com um agradecimento em forma de canção onde Adoniran faz questão de usar a língua castiça em Vide Verso meu Endereço. Tocar na Banda tem o som de coreto de praça em cidade do interior, uma música que cairia muito bem no repertório psicodélico dos Mutantes!


Malvina é uma de suas primeiras composições (de 1951, quando ganhou até concurso de marcha carnavalesca), canção-manifesto à mulher que deseja abandoná-lo não é das mais famosas quando se fala em Adoniran, e de fato sua obra é repleta de canções melhores que esta. Em Não Quero Entrar Adoniran não se julga digno de entrar na sua ex-casa, de sua ex-mulher, ele vem só mesmo pra buscar o meu cachorrinho, o meu cobertor e (é óbvio) o meu violão...


Piove, Piove! Ha tempo que piove quá... Gigi

E io, sempre io! soto la tua finestra

e voi senza me sentire, ridere ridere ridere de questo infelice qui!


Ti ricordi Gioconda di quela sera in Guarujá

Quando il mare te portava via... E me chiamaste:

Aiuto Marcelo! La tua Giconda ha paura de quest'onda!


O Samba Italiano deve ser o samba mais charmoso do mundo... Além da letra e da interpretação inigualável de Adoniran, a música é levada por uma batida deliciosa de bateria, um cavaquinho e um violino. O resultado da improvável salada é de lamber os beiços!


Em Triste Margarida, Adoniran volta ao tema das desventuras do amor, com a história do jardineiro que se fingiu de engenheiro do metrô pra conquistar o bem-querer de uma mulher. A bateria que embalou o Samba Italiano retorna em Mulher, Patrão e Cachaça, triângulo amoroso onde os personagens são eu, (o narrador) Violão da Silveira (seu criado); ela, Cuíca de Souza e o Cavaquinho de Oliveira Penteado. Adoniran consegue criar esta história a partir dos sons dos instrumentos de forma genial, quando o cavaquinho centrava, a cuíca soluçava e eu entrava de baixaria... Quando o violão se descobre traído e resolve tirar satisfação, é o amigo pandeiro quem aconselha:


Não seja bobo, não se escracha

Mulher, patrão e cachaça

Em qualquer canto se acha


A próxima canção é um samba ligeiro cuja descrição não pode ser melhor que os seus próprios versos:


Pafunça, Pafunça, Pafunça que pena Pafunça,

que nossa amizade virou bagunça...

O teu coração sem amor, se esfriô, se desligô

Inté parece Pafunça aqueles alivadô...

que tá escrito não fununça e a gente sobe a pé

E pra me judiá Pafunça, nem meu nome tu pronunça!...


E assim segue a sina de Adoniran, ouvindo Conselho de Mulher dizendo pra ele largar da boemia e ir trabalhar, afinal pogréssio, eu sempre escuitei falá: pogréssio vem do trabáio, então amanhã cedo nóis vai trabaiá...


E este delicioso segundo LP de Adoniran termina com o samba Joga a Chave,


Joga a chave meu bem! Aqui fora tá ruim demais...

Cheguei tarde perturbei teu sono, amanhã eu não perturbo mais.


E quando você acha que ele se redimiu é que vem a solução genial, a “malandreza” típica de Adoniran:


Faço um furo na porta, amarro um cordão no trinco

pra abrir pro lado de fora...

Não perturbo mais teu sono, chegue meia-noite e cinco

ou então a qualquer hora...


Não sei de onde veio a história de que São Paulo é o túmulo do samba, mas se for por causa da música de Adoniran, que eu seja enterrado nele. [M]


Adoniran Barbosa (1974)


De gravatinha borboleta, chapéu de lado e bigodinho fino, João Rubinato ficou célebre como Adoniran Barbosa. A imagem é a de um malandro quase às avessas, o sambista que cantou São Paulo, a capital, como ninguém. Primeiro porque a música de Adoniran tem é cheiro de interior (bem, ele nasceu em Jundiaí, viveu tempos em Sto. André...). Segundo porque Adoniran é de um lirismo único, simples e inocente, até mesmo nos momentos em que é mais malandro.


Adoniran fez de tudo um pouco. Pintor, garçom, encanador, metalúrgico, até começar a carreira fazendo novelas de rádio e aos poucos compondo suas primeiras marchinhas carnavalescas lá pelos anos 30, até que iniciasse a sua célebre carreira de compositor nos anos 50, com seus primeiros sucessos. Como a época era de música de rádio e compactos simples, seu primeiro LP só viria a acontecer em 1974, com a regravação de antigos sucessos. Abrigo de Vagabundo abre este disco de “estréia” com a continuação da história da Saudosa Maloca, que legalizada, ninguém pode demolir e é oferecida ao vagabundos que não têm onde dormir. Bom Dia Tristeza, parceria do compositor com o poetinha Vinícius de Moraes, é uma das poucas composições “sérias” de Adoniran, refletida até no arranjo que inclui uma orquestração que acompanha um violão virtuoso, num lamento choroso atípico na obra do sambista. Adoniran convida a própria tristeza a beber com ele na mesa de bar e pede seu ombro como consolo, como se esta tristeza fosse uma pessoa, um companheiro da noite.


As Mariposas é um dos clássicos de Adoniran. Sua malícia aqui é bem humorada, tipicamente Adoniran, que inclui a introdução e um breque falado na sua voz rouca, numa mistura improvável (mas muito bem realizada) de Don Juan com Mazzaropi. Depois deste banho de bom-humor, Adoniran consegue transformar a tragédia da perda de um lar num dos momentos mais líricos e marcantes da música brasileira em Saudosa Maloca.


Iracema que se segue é outro exemplo da poesia de Adoniran. A perda do seu grande amor é narrada de maneira quase cômica, pois a amada morre vinte dias antes do casório por ter atravessado a av. São João na contra-mão. Já Fui uma Brasa é o lamento do artista que saiu de moda e vê ocupar “seu lugar”, outros nomes, outras canções, outras modas. Mesmo lamentando, Adoniran não perde a banca e desafia: eu também um dia já fui uma brasa, ..., mas se assoprar posso acender de novo.


Como o disco é marcado pelo balanço entre canções menos conhecidas e os clássicos do seu repertório, não poderia faltar O Trem das Onze. Esses dias tive que ouvir um comentário que classificava o samba como a história de um otário que prefere voltar pra casa da mãe, do que passar a noite com a namorada. Óbvio que no contexto em que a música foi escrita, outra possibilidade não existia.


Com a corda Mi, do meu cavaquinho

Fiz uma aliança pra ela, prova de carinho


Com uma introdução destas, qualquer música já seria boa. Mas Adoniran é um contador de histórias completo, e narra o sacrifício que é para o boêmio seresteiro se desfazer assim de parte do seu instrumento para dar a sua amada uma Prova de Carinho. Segue a esta um sambão-gafieira chamado Acende o Candieiro, que tem o ritmo acelerado e elementos de sopro. Apaga o Fogo Mané é uma canção de adeus, o poeta sai a procura da mulher (Inês, que o abandonara) na rua, na central, no hospital e no xadrez. A penúltima música é Véspera de Natal que narra a desventura do pai de família que resolveu bancar o papai noel: Ai meu deus que sacrifício! O orifício da chaminé era pequeno... E o disco termina com Deus te Abençôe, um sensível samba que conta a história do filho que rala pra caramba trabalhando de pedreiro que faz questão de mimar a mãe.


Histórias simples de gente do povo, com o sotaque convincente de um artista genuíno. Ave Adoniran! [M]


quinta-feira, 27 de novembro de 2008

E vai rolar a festa...


Refestança
(Gilberto Gil & Rita Lee)

Começa já pra cima esse excelente disco ao vivo! ‘Refestança dança, dança, dança, dança quem pode dançar; refestança canta, canta, canta quem pode cantar; só não pode quem não quiser...’ (Refestança, a música). Guitarrinhas rock’n’roll, solinhos em stereo, os sons ao vivo são ótimos.
‘Proibido fumar’ do Rei, canta Rita com um riff ótimo de guitarra. Fumar o quê? Os dois foram presos, não sei se antes ou depois desse disco, por porte da erva em Florianópolis, que hoje um amigo meu chama de ‘a Jamaica brasileira’... Pois é, mas continua proibido.
‘Odara’ é uma boa surpresa, tudo a ver com o clima de festa. Começa climática, mas anima rápido.
‘Domingo no parque’ é antológica, qualquer versão. Essa aqui tem uns backing vocais de dar gosto!
‘Back in Bahia’, uma das preferidas da amiga Andréia, na voz de Rita é também excelente, animada e ‘pra cima’.
Segue ‘Giló’, uma homenagem de Rita a Gil, não é das minhas preferidas.
E aí Gil segue cantando uma ‘da comadre’, ‘Ovelha negra’, uma música que traduz perfeitamente a vida marginal, a opção da minoria, o fazer o que você sabe ser o melhor pra você, mesmo ouvindo que é e sendo ‘a ovelha negra’, tão ou mais política do que qualquer ‘caminhando e cantando’. A versão é voz(es) e o violão maravilhoso de Gil. Mais do que suficiente. E tem aquele solinho. [Mateus, você que tem esse disco, pode informar os músicos?]
Continuando o arrasta-pé, ‘Eu só quero um xodó’, do Gonzagão, com umas guitarras boas que fariam o Lua sorrir.
Sem parar, em ‘De leve (get back)’, Rita mantém a animação. De quem será essa versão? Do Lulu Santos? Nelson Motta? Ou da Rita?
Pra não dizer que não se falou em festa, ‘Arrombou a festa’, uma das muitas músicas tributo aos personagens da música popular brasileira.Pra terminar a festa (ou para recomeçar), ‘Refestança’ de novo...

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Afrociberdelia - Chico Science e Nação Zumbi (1996)

Após emergir da Lama e do Caos (ver posts anteriores), que chacoalhou e devastou a terra brasilis dois anos antes, Chico Science retorna com sua Nação Zumbi propondo Afrociberdelia, senão como cura, pelo menos como remédio. Onde poderia se esperar mais do mesmo, uma continuação daquilo que havia dado certo no trabalho anterior encontram-se novos elementos no som de uma banda que tinha a preocupação de se reinventar sem perder a autenticidade, já no segundo trabalho, o que nos brindou com um dos melhores discos da década.


Eu vim com a nação zumbi, ao seu ouvido falar...

É Mateus Enter, o embaixador do maracatu enganando todo mundo num paródia heavy de Enter Sandman (Metallica), a trova que anuncia o início da festança. Com Pernambuco debaixo dos pés e a mente na imensidão vem, depois desta introdução, O Cidadão do Mundo. Se o som da banda perde em energia cinética (massa X quadrado da velocidade) ganha em afrociberdelia, e isso já fica claro nesta segunda faixa. A levada de baixo e bateria (uma novidade que depois se tornaria rotina no som da Nação Zumbi) acompanhada pelo violão (!) de Lúcio Maia é interrompida pelo breque com percussão de maracatu rural (uma paixão de Chico) e samples de sopro. O tema, banditismo è também recorrente na obra do compositor.


Etnia, música manifesto contra o racismo, também começa pesada, ameaçadora. Mas logo é dominada por scratches, samples e a batida de maracatu. No final, a miscigenação dos sons, a guitarra tornando o maracatu psicodélico, berimbau elétrico: nada de errado em nossa etnia!


Quilombo Groove é a faixa instrumental que abre Macô, um dos hits da banda. Além de uma canja mais que especial de Gilberto Gil nos vocais, a música traz uma levada de guitarra sutilmente funkeada e passagens de flauta que tornam a canção uma espécie de síntese da afrociberdelia. E Macô, quem é ou o que é, basta voltar à introdução, que contém um sample de Jorge Ben aconselhando: tosse! tosse! todo mundo tossindo!


Lúcio Maia repete ao longo de Um Passeio no Mudo Livre o lindo lick de introdução (a la John Frusciante), que tem uma letra desabafo, no estilo Sossego do síndico Tim Maia, se bem que muito menos explícito. A seção de sopros aqui é essencial, e o solo de trombone fazem deste um dos grandes momentos instrumentais do disco. Mas a minha favorita (?) vem depois desta: faminto e calmo e samba chegou... Carregado no wah-wah e com uma batida levemente acelerada, que lembra realmente um samba, Samba do Lado é outra faixa que poderia vira hino do movimento afrociberdélico (se o movimento existisse) com seu refrão que vai subindo de meio-tom em meio-tom até você ficar sem fôlego.


E não se dá um descanso, pois Maracatu Atômico (de Jorge Mautner) é outra afrociberdélica até a alma! A versão de CSNZ é uma aula de como fazer um cover. Sem descaracterizar a música, mantendo a estrutura melódica intacta, eles conseguem uma versão quase autoral: o maracatu fica mais atômico que nunca com Chico e a Nação, e ainda tem um gostinho de viagem ao fundo do mar (*).


Depois de narrar o Encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no Céu, o Corpo de Lama, é outra a firmar o marco psicodélico sobre o maracatu da Nação, antes de servir uma Sobremesa, experiência em inglês (mirando o mercado além-mar?) que Chico termina, aliviado ao que parece, na língua pátria.


Então entra uma linha de baixo e um vocal que parece sampleado de alguma coisa num inglês meio Jamaica que anunciam Manguetown. Tema que cairia bem no disco anterior, mas com a sonoridade típica deste aqui, Manguetown descreve a cidade e seus moradores andando por entre becos, andando em coletivos, ninguém foge ao cheiro sujo da lama da Manguetown! Crônica da capital pernambucana, o ponto final é de um realismo nada psicodélico: Fui no mangue catar lixo, pegar caranguejo, conversar com urubu.


Um Satélite na Cabeça é a faixa mais rock’n’roll do disco, marcada principalmente pela ênfase na bateria ao invés da seção percussiva da Nação e pelo vocal mais irado de Chico. A faixa prepara terreno, pois depois da psicocibernética instrumental Baião Ambiental, a banda vai quebrar tudo em Sangue de Bairro, que fez parte da trilha sonora de Baile Perfumado, gerando um clipe alucinado pelos cânions de Paulo Afonso (BA) enquanto o cangaceiro conta as sensações de ser decapitado. Heavy Metal perfeito primeiro porque está inserido num disco de outro gênero (um disco inteiro nesta toada seria um massacre), e depois pelos detalhes sutis da percussão (tem um triângulo que é especial mas, cá pra nós: alguns nem tão sutis. O maracatu da Nação prenuncia aqui a tonelada de peso que eles viriam a assumir num disco posterior). Enquanto o Mundo Explode acelera e pesa ainda mais (energia cinética a toda!) e tem os breques marcados pela percussão de Candomblé, enquanto que Interlude Zumbi é só percussão, voz e um berimbau alucinado.


Criança de Domingo é psico-folk-pop perfeito reinventado para o formato da Nação. Música mais lenta, Chico canta uma elegia otimista às pequenas alegrias do dia-a-dia. Seria a música perfeita para fechar o disco, mas eles ainda tem voz para uma história de amor. Simples, sem requintes românticos, Amor de Muito traz os metais de volta aos arranjos e apesar da batida do maracatu estar explícita, fica um ar quase bossa-nova (sem barquinhos, peixinhos e outras frescuras). O disco terminaria com uma faixa instrumental levada por Lucio Maia (psicodelicamente, é claro) na guitarra, se a gravadora não decidisse incluir três remixes distintos e totalmente dispensáveis do Maracatu Atômico (na era pré-mp3, o pessoal da grana achava que tinha que aproveitar ao máximo a memória do disquinho).


Chico deixaria a nação e a Nação tragicamente, num acidente de carro, o que não deixa de conferir à sua obra o charme dos heróis caídos em combate. Charme que ele certamente dispensaria em troca de poder desfrutar da Manguetown, como uma Criança de Domingo, passeando no Mundo Livre com toda sua afrociberdelia.


[MATEUS]

(*) Seriado de TV da década de 70.


domingo, 23 de novembro de 2008

Expresso 2222 - Gilberto Gil (1972)


Não tem jeito, tem músico que faz som bom de ouvir, que faz som bom de dançar, que faz som bom de escrever… E Gil nasceu sob este signo: inspira até a última gota.
Em “EXPRESSO 2222” , Gil está de volta ao Brasil e são super claras a sua alegria e também as marcas do exílio no outro hemisfério. Mas as marcas são as melhores… O disco é arejado e alegre, é envolvente. Temos aqui a sorte de um Gil com a cabeça já em outro século, experimentado e aberto para a vida. Nada melhor…

O disco começa numa boa com as flautas femininas e com os tambores fortes e masculinos, Gil e a Banda de Pífaros de Caruaru entram deslizando com “Pipoca Moderna”. Uma música que mexe com cada músculo do corpo, começando pela cintura e vai subindo devagarinho, chegando aos ombros, numa batida marcante. Alegremente você já tá respirando tudo isso, sorrindo, relax... “Pipoca Moderna” é moderna, feliz alívio de quem voltou pra casa. O título é lindo e inusitado.

“Back in Bahia”… Essa música é super especial: quem já sofreu de banzo sabe do que eu tô falando. Ela é uma bomba… Essa música é uma granada, que quando estoura, espalha pétalas. A música começa devagar, respeitando a ferida que a saudade abre, mas Gil malandro que só, não deixa barato! Te chacoalha com o som alegre, super rock - que ele trouxe na mala da ilha do norte - te faz reviver todas as sensações de calor, de cor, de amor pra mostrar que vale a pena! Aquelas palavras inventadas, os sons criados vão te inebriando como um gás, te envolvendo até te convencer que “Hoje eu me sinto como se ter ido fosse necessário para voltar/ Tanto mais vivo de vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá”. É assim que eu me sinto até hoje…

“Canto da Ema” chega num piano malicioso e num xote rapidinho. Gil não quer que sua morena se vá, mesmo com o sinal sinistro do canto da ema. O disco inteiro é uma delícia de ouvir e tem que ser a dois. “Canto da Ema” é erótica, e tem algo de Caribe, na escolha de alguns sons. O piano melódico e agudo cheira bastante aqueles mares de lá.

“Chiclete com Banana” tem algo de futurista. Num batuque suingado e charmoso, Gil tá a fim de miscelânea. Tá a fim de misturar. Essa música é sensacional! Gil propõe uma conversa entre diferentes tradições musicais. Gil continua na sua viagem, chega longe, trança os hemisférios num diálogo utópico.

“Ele e Eu” é uma cama de gato! As palavras se entrosam e viram outras, a música vai rodando e a gente se sente num tobogã, num sobe e desce da mesma voz entonada de mil jeitos e tons diferentes, com inesperados breaks. Linda!
“Ele vive eletriconsumida, consumada ou mudamente/ Bem mais calmo/ Porque curte cada golpe do martelo”.
“Eu vivo calmargalarga, abertamente/ Bem mais louco/ Porque espero pelo beijo arrependido/ Da serpente do começo”.
Gil voltou outro de Londres, menos baiano, baianíssimo em cada milímetro. O ritmo de “Ele e Eu” é lento e penetrante. Tem a mesma força do rio quando a gente não consegue enxergar a outra margem… A música termina dengosa e a bateria vai te abandonando devagarinho…

“Expresso 2222”. Adoro o nome da música e fico viajando num trem todo colorido por fora, onde cada vagão é pintado de uma cor e de um jeito - um psicodélico, um grafitado e por aí vai. Esse trem tem a natureza do sonho, o destino é a liberdade e tem estação no mundo todo.
O violão é de matar! A percussão chega com o chocalho de arroz e depois com o afiado som do triângulo. Essa música tem velocidade especial. Sabe aquela velocidade do trem que você, mesmo do lado de fora, se correr um pouco, ainda consegue acompanhar? É dessa velocidade que eu tô falando. Uma velocidade ritmada, que precisa de fôlego.
“Expresso 2222” pede fôlego, exige sonho… É uma cápsula futurista, que se você olhar pela janelinha, dentro tem vento, tem fogo, tem água e sal. É o futuro que contém rastros do passado.
Baita inspiração…

“ O sonho acabou/ Quem não dormiu no sleeping-bag nem sequer sonhou…”
E o Gil, mestre total de novos sons usa e abusa da sua linguagem criativa e com seu violão canta a tristeza da realidade e lamenta por aqueles que não puderam sonhar.
“O Sonho Acabou” é a marca da ditadura, é o fim dos Beatles - “O sonho acabou hoje/ Quando o céu foi de-manhando, dessolvindo, vindo, vindo/ Dissolvendo a noite na boca do dia”.

Mas Gil é um ser que transpira liberdade. Esse sonho acabou, tudo bem, mas vamos inventar outro, esse é o seu desafio. E inevitavelmente o disco continua girando e ele nos surpreende com “Oriente”, que é exatamente isso “Se oriente rapaz/ Pela rotação da Terra em torno do Sol/ Sorridente rapaz/ Pela continuidade do sonho de Adão”.
Nessa música tão delicada, e num tom de conversa com alguém de quem se gosta muito, poeticamente Gil canta com as melhores palavras o tamanho do mundo, a grandiosidade de qualquer viagem, até daquela feita pela aranha na sua teia.
Essa música me acalma, me faz bem. Um mundo onde as coisas são possíveis, inclusive nossos desejos…

Caetano entra com uma voz trêmula e tímida em “Cada Macaco no seu Galho” e assim que Gil entra, a música estoura! Eles cantam o orgulho de serem baianos e você que procure o teu galho. Essa é pra gente cantar e dançar. E a música vai ficando rapidinha, parece até que Gil e Caetano estão numa corrida pra ver quem chega primeiro na Bahia!

Se eu tivesse que escolher a minha música de carnaval, eu escolheria “Está na Cara, Está na Cura”. Essa música é muito massa! “Está na cara/ Que você não vê/ Que a caretice está no medo/ Você não vê”.
“Expresso 2222” termina em ritmo de folia e não podia mesmo ser de outro jeito! Gil que foi, que voltou, que sofreu e que viveu, nos presenteia com essa lindeza , que é um suspiro de liberdade musical.

Eu vou indo e completamente contagiada por esse astral, deixo aqui umas linhas dos Beatles, que são para mim a melhor tradução de “Expresso 2222”...
“The deeper you go the higher you fly
The higher you fly the deeper you go
So come on come on"

[ANDRÉA]

Estrangeiro - Caetano Veloso (1989)


Caetano Veloso é tido como dos maiores gênios da MPB. Isso se dá, em larga medida, pelo que produziu entre Transa (1972) e Estrangeiro (1989). Durante esses quase vinte anos, o compositor baiano apresentou ao público uma música de altíssima qualidade. Curiosamente, as duas "pontas" desse ciclo trazem o melhor do melhor. Se "Transa" é maravilhoso em sua simplicidade e tristeza no exílio londrino, "Estrangeiro" é sofisticado, colorido e aponta para o futuro da música brasileira, mesclando tecnologia e influências diversas. É desse último disco que falo agora.

Produzido por Peter Sherer e Arto Lindsay (esse último trabalharia, anos depois, com Marisa Monte e também com David Byrne), "Estrangeiro" começa chamando a atenção pela capa - a reprodução de uma pintura de Hélio Eichbauer para o cenário da peça de Oswald de Andrade "O rei da vela" em montagem do Teatro Oficina, no ano de 1967. Ecos do tropicalismo, referência constante na obra de Caetano.

A faixa de abertura é "O Estrangeiro", o grande momento do disco. Com a participação dos produtores Sherer e Lindsay e também com Naná Vasconcelos na percussão e voz, a música é fenomenal. Um piano acompanhado de bateria eletrônica e algumas distorções de fundo seguem Caetano, que recita os primeiros versos.

"O pintor Paul Gauguin amou a luz na Baía de Guanabara/
O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela/
A Baía de Guanabara/
O antropólogo Claude Levy-strauss detestou a Baía de Guanabara:/
Pareceu-lhe uma boca banguela/
E eu menos a conhecera mais a amara?/
Sou cego de tanto vê-la, te tanto tê-la estrela/
O que é uma coisa bela?

O amor é cego/
Ray Charles é cego/
Stevie Wonder é cego/
E o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem..."

E por aí segue, em sua letra quilométrica e recheada de citações. Mais de seis minutos de uma bela produção, que conta ainda com um interessante solo de guitarra. Sem dúvida, um dos maiores momentos da MPB em todos os tempos, apesar da discordância de alguns.

Na sequência, aparecem "Rai das cores", "Branquinha" e "Os outros românticos", três momentos fortes e extremamente bem conduzidos. Fica claro o peso da mão de Lindsay, que influenciava muito o compositor baiano à época das gravações. O disco traz ainda uma parceria em inglês do trio Caetano-Sherer-Lindsay, "Jasper", e as medianas (quando comparadas com as demais) "Este amor", "Outro retrato" e "Etc.". Assim como em outros trabalhos, Caetano dedica muitas dessas canções a antigos e eternos amores e amigos (a ex-Dedé Veloso, Paulinha Lavigne e Jorge Mautner).

A última canção é a mais alegre e colorida da obra. "Meia-lua inteira", do até então desconhecido Carlinhos Brown ("Carlinhos por parte de mãe, Brown do mundo", diz o genro de Chico Buarque), foi o grande hit do disco e chegou a fazer parte da trilha sonora de uma novela global. Com o próprio Brown na percussão e uma levada de guitarra deliciosa, fecha "Estrangeiro" em elevadíssimo astral.

'Meia Lua Inteira/
Sopapo na cara do fraco/
Estrangeiro gozador/
Cocar de coqueiro baixo/
Quando engano se enganou.../
São dim, dão, dão São Bento/
Grande homem de movimento/
Martelo do tribunal/
Sumiu na mata adentro/
Foi pego sem documento/
No terreiro regional.../

Uera rá rá rá/
Uera rá rá rá/
Terça-Feira Capoeira rá rá rá/
Tô no pé de onde der rá rá rá rá/
Verdadeiro rá rá rá/
Derradeiro rá rá rá/
Não me impede de cantar rá rá rá rá/
Tô no pé de onde der rá rá rá rá.../

Bimba birimba a mim que diga/
Taco de arame, cabaça, barriga/
São dim, dão, dão São Bento/
Grande homem de movimento/
Nunca foi um marginal/
Sumiu na praça a tempo/
Caminhando contra o vento/
Sobre a prata capital..."

Encerra-se assim a fase "genial" de Caetano Veloso. Depois disso, ele fez grandes turnês (sozinho e com Gilberto Gil), gravou em espanhol e em inglês, participou de trilhas sonoras de filmes nacionais e até flertou com o rock ("Cê", seu último disco, já resenhado por aqui). Nada, porém, que chegasse aos pés de sua produção setentista e oitentista. Em alguns momentos, chega a ser constrangedor.

"Estrangeiro", de todo modo, redime o baiano dessas críticas. Um disco para ser escutado e escutado e escutado, sempre. Brilhante.

(André Xampu)

Ao Vivo na USP – Gilberto Gil (1973)



Dessa vez vou falar de um disco que não foi lançado, mas descoberto. Trinta anos depois, foi encontrada uma fita com um show que Gil fez na Poli-USP em 1973 em protesto contra o assassinato dos estudantes Honestino Guimarães, à época presidente da UNE, e Alexandre Vanucchi Leme, pelo governo militar. Reza a lenda que o show, programado para meia hora de voz e violão, acabou durando três e foi repleto de estórias de Gil, bate-papos, interação com o público, num clima de intimidade que foi perfeitamente captado pela gravação.

As estórias são um ponto alto do show. Exemplo: o público pede Cálice, música dele e de Chico, prevista para ser tocada no Festival Phono 73, mas que na hora H o som foi desligado, para a irritação dos dois. Ele não só conta essa estória, como explica que como cada um iria cantar sua parte na apresentação, ele acabou não decorando a parte de Chico. Finalmente alguém da platéia escreve a letra em um papel para ele cantar. Terminada, ele pede pra ficar com o papel, pois não tinha a letra. Claramente viajandão, ele está no melhor da sua verve, da sua retórica gilbertiana (que nem nesse vídeo aqui http://www.youtube.com/watch?v=LfYM3iFG8qU).

Essas estórias saborosíssimas por si só já justificariam a citação desse disco, mas acima de tudo isso, há a música. Muito à vontade entre os estudantes, num show sem roteiro, como não se vê mais, ele vai desfilando canções próprias (Procissão, Expresso 2222, Back in Bahia) e do repertório de artistas que gosta, como Germano Matias (Senhor Delegado), Gordurinha e Almira Castilho (Chiclete com Banana), Dominguinhos (Eu só Quero um Xodó), João Gilberto (que lhe ajudou a entender Eu quero um samba), Clementina de Jesus (de quem ele evoca o espírito em O Sonho Acabou) e mostra consciência da importância e da qualidade da própria obra (“Não vai nenhuma vaidade, eu tô falando de fora de mim, agora. Eu gosto de Domingo no Parque, acho uma música belíssima. Se não fosse minha eu admiraria mais ainda”, fala aos risos, dele e de todos).

Gil dispensa justificativas, mas nesse caso vale um comentário. Caetano tem uma tese que a linha evolutiva da música popular brasileira se deu por meio de artistas que usavam o violão como instrumento preferencial de sua arte: Caymmi, João Gilberto, Jorge Ben e Gilberto Gil. E aqui a gente tem a oportunidade de ouvir o violão de Gil por inteiro, despido e, nesse caso, numa versão às avessas do rei nu, não há vestimenta mais rica. Ele passeia por sambas tradicionais, novos, xote, rock, bossa, afoxé, num largo leque de influências e interesses, todos transformados por sua forma personalíssima de tocar. Mostra em seu violão, na prática, a tese de Caetano. E depois de escutá-lo tocando, fica difícil não concordar com ela.

Luiz Marcelo

sábado, 22 de novembro de 2008

Por Pouco - Mundo Livre S/A (2000)


Como dizia Otto, Fred Zero Quatro é a mistura de Jorge Ben com The Clash. Difícil pensar numa combinação como essa, mas isso só se você ainda não ouviu Por Pouco. A variedade de ritmos (rock, reggae, rockabilly) e o discurso politizado do Clash estão presentes. O samba, bossa, samba rock, suíngue, lirismo, safadeza de Jorge Ben, também. A eles coloque-se uma pitada de Tom Zé e, pensando bem, não poderia haver melhor definição para este disco.


E uma palavra que une as três facetas é ironia. Tapa na cara, mas sem luva de pelica, nos melhores momentos, o disco serve de espelho da mediocridade da vida urbana brasileira do início do novo milênio, inútil, manipulada, que vem e vai no trânsito, no Jornal Nacional, no consumismo, no sonho da casa própria e na gostosa que sonhamos inutilmente um dia comer. Essa desilusão ganha um desenho extremamente sarcástico em Por Pouco, herdeira direta de Inútil, do Ultraje a Rigor, anti-hino da derrota das Diretas Já nos 80. Ela é um retrato do Brasil, o país das intenções nunca realizadas, da bola na trave, o país do futuro só que o ano 2000 chegou e a gente estava na mesma.


“Estamos quase sempre otimistas
Tudo vai dar quase certo
Pois o ano esta quase acabando
Depois de termos quase certeza
Que dento em breve teremos um quase alegre carnaval
Por pouco não trouxemos o penta
Quase acertamos na loto
Quase compramos a casa
Quase ganhamos o carro
A moça da banheira ficou quase nua
A gostosa da praia quase dá, não dá.

Desilusão que já está presente desde a primeira música. Com jeito de manifesto, o Mistério do Samba é imperativo em sua desconstrução de tudo o que o samba não é:

“O samba não é carioca

O samba não é baiano

O samba nao é do terreiro

O samba não é africano”

E por aí vai, como se dissesse, o samba é livre, “não tem mistério”, terminando na conclusão perfeita: “E como reza toda tradição, é tudo uma grande invenção”.


Nesse clima de desilusão, o disco encontra um espaço para o amor, em momentos carinhosos e safados. Que nem Mexe Mexe, composta por Jorge Ben, ele mesmo, que é Jorgebeniana até o último fio de cabelo, sem o menor pudor. Começa com uma levadinha no violão, boa de dançar, devagar, difícil não mexer pelo menos a perna embaixo da mesa. Na sequência vem o Melô das Musas, com um elogio explícito a Wânia, a mulher "com um dábliu maiúsculo, um dábliu formidável, bem maior que minha testa", gostosíssima, saindo do mar e “eu não vou sair daqui sem ver ela sair da água”.


Daí o ritmo acelera forte pra Treme-treme, versão de Shackin’ all over, que vira “se tremendo toda”, rock com clima Clashiano, nervoso. “O seu olhar me comanda e manda eu me mexer. E a tremedeira é rebatida pra você”. É nervosa também na ansiedade dele pela conquista e daí a tremedeira passa pra ela, vira um orgasmo.


E depois da transa, do sexo forte, vem aquela relaxada na cama. Meu Esquema, uma bossa suingada, sopros suaves, a declaração de amor mais masculina que conheço: “ela é meu treino de futebol, ela é meu domingão de sol, concerto de rock and roll, torcida gritando gol, playcenter, pista alucinada, inferninho, esporte radical, poderosa viciante, mas não faz mal, o que meu médico receitou, Rivaldo maravilha mandando um gol, minha chapação”. Lendo assim, parece ridículamente machista, mas Fred Zero Quatro dá a ela uma convicção que muda completamente a maneira como a gente entende cada palavra.


Mas esse é um lado do disco. O outro é o do discurso politizado que apesar de às vezes beirar o panfleto, tem também sacadas excelentes. É metralhadora giratória, e sobra pra todo lado: a violência urbana (“Algo me alvejou, ai, olha o sangueiro irm ão, segura que eu vou cair”, no samba Tomzeniano Super Homem Plus); a sociedade de consumo e o mercado (“O mercado vive em guerra... Não há lugar pra escrúpulos... Cedo ou tarde você vai se entregar ao mundo livre, não adianta, não há como escapar”, de Concorra a um Carro); os Estados Unidos em Lourinha Americana; as mega corporações, a Nike, o Congresso, os governos, os partidos e políticos em Batedores.


Dentro desta perspectiva, Por Pouco é o Cabeça Dinossauro dos anos 90. Retratos do país, cada um em seu tempo mostra quem éramos. O Cabeça, mais explícito em sua crítica às instituições, era raivosamente adolescente, portanto mais inocente, como a democracia, que engatinhava. Por Pouco faz o mesmo, mas com um cinismo de quem está ficando adulto, perdendo as ilusões. Pois é claro que nós crescemos, superamos a ressaca do impeachment, ganhamos a guerra contra a inflação, saímos da faculdade e agora precisamos conseguir um emprego, comprar uma casa e constituir família (lembram do início de Trainspotting?). Se sobrar tempo, quem sabe você não continua indo em busca de seus sonhos? Só que a essa altura você já começou a perceber que aquele futuro brilhante que sua mãe e sua avó tinham certeza que te esperava talvez esteja um pouco mais distante do que você pensava ("Droga, foi por pouco!").


Não é fácil olhar pro nosso lado ruim. O Mundo Livre S/A teve a coragem de fazer isso, olhou o país, mastigou, regurgitou e vomitou Por Pouco em nossa cara. A gente pode até não gostar, mas vai ser difícil não se reconhecer nele. E ainda mais interessante é que apesar de toda a desilusão, o disco termina otimista, com as versões para Minha Galera, de Manu Chao, e de Garota de Ipanema, que exaltam coisas simples, como os amigos, a namorada, a praia. E nisso ele não consegue fugir de ser, ele mesmo, um espelho da contradição brasileira, sempre lidando com problemas que não consegue resolver, sonhando com coisas que não consegue ter, mas sempre otimista, exalando sensualidade e sempre disposto a curtir a vida.


Luiz Marcelo

Minas - Milton Nascimento (1975)

Tarefa difícil elogiar um disco de Milton. Não por falta de talento, que acho indiscutível. Grande voz, sempre bem acompanhado, repertório com diversos clássicos, e por aí vai. O problema é que ele ficou chato, virou uma mala sem alça. Obviamente que falo do artista, pois a pessoa é tão doce e tranquila que acho que qualquer um gostaria de bater um papo, trocar uma idéia. Ele, portanto, está longe de ser um Ivan Lins, porque aí também não dá, o cara é quase imbatível, sendo que eu tô dando o benefício da dúvida, porque não conheço ninguém mais chato.

Mas voltando a Milton, depois que ele virou menestrel, cantou pra Tancredo, aquela super exposição, as músicas, sei lá, perdi a paciência e aí acabei esquecendo que o cara teve uma produção excelente antes disso. E por isso, não foi sem surpresa quando fui apresentado a este disco.

Minha reação inicial foi de desconfiança natural, “O mala do Milton?”, mas o disco já começa conquistando de cara com Paula e Bebeto, música incidental que abre e fecha Minas. Linda, com coro de amigos, coral de meninos, vocalizes de Milton, que acompanha tudo com o violão. E mais nenhum instrumento. Bonito demais! Curioso é que Paula e Bebeto, além de seu momento solo, também faz participação especial/incidental em Idolatrada e Saudade dos Aviões da Panair.

Saudade que é palavra chave no disco (e talvez em toda a arte de Milton), porque o disco não é sobre Minas Gerais, mas sobre a Minas de Milton, desde a sua infância no interior à BH do Clube da Esquina, dos Beatles, dos amigos, que em cada música é evocada em imagens, símbolos e lembranças levemente melancólicas, saudosistas, com um quê de triste. Que nem em Ponta de Areia, mais um hino ao passado, lembranças de um lugar e um tempo que não existem mais.

E referências, há várias, como a música sacra, trazida pelo coral, e que fez parte da infância de Milton e mesmo de sua formação como cantor; ao barulho de trem, em Gran Circo; além de vocalizes de Beto Guedes, seu velho parceiro e amigo, que também divide os vocais em Fé Cega, Faca Amolada. E há outros, como costumava ser entre eles: Wagner Tiso em vários teclados e na produção, Nivaldo Ornellas nos sopros, Toninho Horta na guitarra (em excelente forma, às vezes límpida, às vezes torta), todos eles artistas com produção individual respeitada, mas com a humildade de saber ser coadjuvante, ainda mais num disco que preza a simplicidade nos arranjos.

Arranjos que são um dos destaques do disco. Simples, mas sofisticados, essa mistura difícil é típica dos discos de Milton, que conseguiu grandes resultados nos anos 70. Isso fica claro em Norwegian Wood, dos Beatles, que ganha uma versão com belos vocais, divididos com Beto Guedes, uma banda, com guitarra, baixo, bateria e teclados, além de uma orquestra que consegue dar um ar dramático sem cair na suntuosidade. Desde o início percebe-se que é uma música familiar, mas demora até cair a ficha, mérito do trabalho de recriação de um clássico.

Milton produziu grandes discos e este sem dúvida é um deles. Daqueles que, mesmo quem, como eu, não é fã, gostam. Daqueles que são bons, mesmo transbordando todos aqueles clichês de Minas, da vaquinha, o morrinho, o riozinho, o trenzinho. É prova de que não se deve ter preconceitos na arte, para não corrermos o risco de perder belos momentos como os deste disco.

Luiz Marcelo

Jesus não tem dentes no País dos Banguelas Titãs (1987)


“JESUS NÃO TEM DENTES NO PAÍS DOS BANGUELAS ” é o nó do amor, da violência e do desejo. Esse cd é aquela hora que a gente volta à superfície depois de um mergulho profundo. É aquela primeira respirada, aquele momento em que a gente saca que tá vivo. E os Titãs com a sua poesia escura nos transportam para uma caixa preta e úmida, cheia de fumaça e com o eco que atordoa. Algo bastante perturbador.
É isso: a letra perturba, o som é de fliperama e quando a gente se dá conta, já fomos consumidos pela onda.

Jesus não tem dentes no país dos banguelas - Jesus é qualquer um, e mais: ele é mais um no emaranhado do nó. O título já sugere que quando se fala de jogos de sedução e violência, não há espaço para diferença e que agora vale tudo.

“Todo Mundo quer Amor de Verdade” começa com um som travado, desencontrado, quase desesperado. O amor é tratado como uma necessidade vital e diária, como um produto que devia ser grátis nas prateleiras. Os Titãs arrancam o amor da caixa cor-de-rosa e põe na caixa preta, aonde ninguém se vê e todo mundo se lambuza: o medroso, o faminto.
Ele quer, Ela quer.

E o som quase redondo-quase-quadrado da guitarra traz a “Comida”. Estamos na caixa preta, hipnotizados pelos sons, insaciáveis. A gente tem fome de algo mais, de tudo ao mesmo tempo agora. A gente tem fome da gente, do outro e do desejo… E se a gente não encara o desejo, ele se transforma numa força avassaladora e nos faz inimigos de nós mesmos. E num jogo sonoro os Titãs gemem e emendam, sem quase a gente perceber as duas músicas –“Comida” e “Inimigo”.
A gente já não sabe mais quem é o inimigo – só escutamos o eco e num vai e vem do desejo a gente cai na armadilha: às vezes você tem razão, às vezes não.

E o som vai ganhando poder. A violência chega grande, veloz, ferina, falando alto, dona do pedaço. "Corações e Mentes” estoura com a energia da dissociação.
"Alguma coisa aconteceu/ Inevitável acidente/ Rancor e ódio separaram/ Corações e mentes".
O amor grátis já não é mais tão grátis assim. É um amor com personalidade, dúvidas e ressentimentos. É o amor-cela, onde não se vê nem mar nem céu.
E o som, a histérica bateria do Charles Gavin vai nos envolvendo numa atmosfera de ansiedade, que é impossível não cair de boca na sonzeira, não se transformar num personagem e pulsar com a música.
“Não existe paz/ Não existe perdão/ Eu não suporto mais violência e paixão/ Não aguento mais viver dentro dessa prisão/ Meu amor, minha guerra, eu erro e você erra.”
Sou vidrada nessa música! Acho mesmo que a paixão é violenta, e tem que ser. É algo que tem que te rasgar, tem que botar no inferno, te fazer perder os sentidos. Êxtase
O teu beijo é tão doce/ O teu suor é tão salgado/ O teu beijo é tão molhado/ É tão salgado/ O teu suor.

Em “Diversão” é a diversão pelo avesso. Somos nós topando com o nosso vazio, com o nosso colorido desbotado. O som eletrônico me lembra um ambiente de porão com luz fosca onde a gente se tromba e não se fala. O outro não importa. É o anti-desejo. “Nada disso às vezes diminui/ A dor e a solidão”. É uma música imperativa, da entrega total ao nada: “Diversão é solução sim/ Diversão é solução pra mim”.

“Infelizmente” é um sermão que é quase uma praga. Ela vem pautada, cristalina, cruel. "Infelizmente” é a nossa consciência! É aquela voz que só chega à noite, que passa pelo vão da porta e cochicha no teu ouvido. É a tua verdade. As palavras são ditas devagar pra que você não corra o risco de não entendê-las. O som é pesado, denso.
Um arraso que vai embora sem dar tchau.

Nando é o dono de "Jesus não tem dentes nos país dos Banguelas”. Irado e embalado por um som cheio, ele só é capaz de cantar essa única frase. E a frase volta mais forte, num coro e a música volta mais forte e transborda. E chega o fim. “Jesus não tem dentes no País dos Banguelas” é pra você! Se vire com ela.

“Mentiras” é barulhenta. É que mentira é mesmo barulhenta… Sem mais nenhum comentário.
”Desordem” é um Jornal Nacional cantado. É o olho conservador posto em xeque. É a crítica à banalização da violência. A violência tá aí, mas e aí? “ Quem quer manter a ordem?/ Quem quer criar desordem?”

Não é à toa que depois de “Desordem”, os Titãs piram com “Lugar Nenhum”! Essa música é a gente, é a nossa desordem procurando um norte, querendo uma saída. De onde você é? A gente é um misto de tudo e isso é a grande sacada. “Eu não tô nem aí/ Eu não tô nem aqui”. E a guitarra vai te embalando, vai te fazendo se perder no labirinto dos lugares…
Essa música grita contra você ser aquilo que você naturalmente é. Você tem que se violentar e se transformar em um novo você. Tão implorando a transformação. É muito massa, porque o pedido de transformação nessa música passa pelo rompimento e negação da única certeza que a gente tem - o lugar do nosso nascimento.

Nossa! Esse cd corta como vidro! É tudo muito intenso, rápido. "Jesus não tem dentes do País dos Banguelas” te faz colocar pra fora todos os teus demônios. É quase um exorcismo! E eu gosto tanto…

“Armas pra Lutar” é a música que enterra a bandeira branca de paz no quintal. Chega. Água. É a desilusão, é a falta de tesão e ao mesmo tempo, as guitarras se falam e com elas vem uma gota de esperança para prosseguir.

Adoro a lista de “Nome aos Bois”. Acho genial como uma lista de nomes - de nomes fortes e inesquecíveis – pode ganhar força e vitalidade e tornar-se uma música. Curto também os urros do Nando. Urros de nojo.

E a energia punk termina em paz com “Violência”. E “os irmãos Morávios mandavam matar com cócegas…”
Demais.

[ANDRÉA]

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Grande Soluça! (Abre-te Sésamo. 1980. Raul Seixas)


Já que até o momento ninguém abrilhantou o espaço com algo do Raul, agradeço sinceramente a chance de ser o primeiro a indicar. Aproveito agora a oportunidade.

Neste disco encontramos o céu e o inferno do sujeito.

Como está mais próximo e a entrada é franca, começo pelo fogo da danação. E, realmente, o “Rock das Aranhas” é de doer. É tão ruim que virou um clássico de nossa adolescência e que sempre nos brindou com momentos constrangedores, agora que olho da altura dos quase 40 anos. Um exemplo: Quem não passou o constrangimento de fazer aquela performance embriagada da musica nos Karaokês da vida nos anos 90 é um verdadeiro herói. “Rock das Aranhas” é a mais legitima musica “espalha rodinha”. É certeza de terminar a noite se contentando com um solitário sanduíche num auto-lanche qualquer. De Qualquer forma, sendo Raul, terminávamos sozinhos e orgulhosos de nossa pouca dignidade. Viva “Rock das Aranhas”.

Vamos ao limbo (já que fecharam o purgatório): “aluga-se” é outra que só vergonha, em perspectiva, me trouxe. Música sensacional! Mas sempre evocada como nada convincente ameaça juvenil de calote em bares. A música não merecia este carma.

O Céu: “Minha Viola”. Posso, tranquilamente, indicar esta como a mais simples e bela música de Raul. Viola, sertão, pai, terra, tristeza, consolo e céu. Tá tudo lá. Entendo bem pouco de poesia, mas se alguém me indagar sobre uma sua definição, não pensaria duas vezes: “Minha Viola”.

“Só pra Variar” sofreu, coitada, com uma regravação infeliz do Barão Vermelho. Louvável a lembrança do grupo, mas é certo que só Raul tem a segurança dos que não se levam a sério o suficiente para “ficar banguelo numa boa”. O verdadeiro paraíso em vida está destinado apenas aos que não se levam á sério.

Tem outras boas no disco, mas termino lembrando “Baby”. Só lembrando. Provoco alguém a comentá-la.

Eu estava em um baile na cidade de Arthur Nogueira/SP quando, do palco, o líder do grupo que animava a festa anunciou a morte de Raul Seixas. Nunca vou me esquecer do silêncio que dominou o local por uns 7, 8 segundos. Também nunca vou esquecer que não foi preciso gritar “toca Raul” naquela noite. Após o anúncio a banda sacou um apropriado “Cowboy Fora da Lei” e não parou mais. Só deu Raulzito.

Como de hábito, não “peguei” ninguém naquela noite, mas o sanduíche que faturei num auto-lanche qualquer ficou na memória.

(ZEBA)

Pois é, eu acabei "repostando" o disco do raul que foi brilhantemente comentado pelo Zeba. Com o agravante de que, sim, eu havia lido a resenha - e comentado!, por sinal - eu escrevi achando que se tratava do primeiro post de Raul deste blogue, no maior efeito fosfosol às avessas... Enfim, segue minha impressões sobre o disco, ainda que minha experiência viva sobre ele não tenha sido tão glorificanto quanto esta que você acabou de ler:

Em Abre-te Sésamo de 1980, parece que o profeta Maluco Beleza que nasceu a 10.000 anos atrás abre uma nova porta. Menos existencial e profético do que nos discos que marcaram sua carreira e o lotaram o famoso Baú do Raul, neste disco, ele parece se voltar seu olhar para preocupações mais “mundanas”. Talvez seja reflexo da troca de parceiro, nenhuma coautoria com o Mago Paulo Coelho, o parceiro predominante aqui é Cláudio Roberto, que já o acompanhava desde 1977 em O Dia em que a Terra Parou.


Quem sai ganhando é a sonoridade de banda da turma que gravou este disco, em especial as guitarras de Celso Blues Boy e do parceirão Rick Ferreira que também tocou slide e violão de 12. O resultado é um disco de sonoridade bem gostosa, que alterna o rock’n’raul (taí, uma das poucas contribuições daquele menino que costumava ser tão bom...) com batidas de candomblé, temperos de forró e moda de viola. Raul volta seu estilingue para os destinos do Brasil em Aluga-se, “a solução é alugar o Brasil!” (estamos em 1980 afinal) e matreiramente sugere a falta de sua cobra no rock das aranha, clássico absoluto que foi vítima de censura na época, e mostrando que ele sabia muito bem de que substância o roquenrrou é feito afinal. A belíssima balada Ângela, onde se sobressai o trabalho de slide de Rick Ferreira, e o rockasso Só pra Variar (que foi revisitado pelo Barão Vermelho) completam os maiores destaques de um disco muito gostoso de ouvir. Nesta última, seu vocal malandro e descolado são inigualáveis (foi mal aí Frejat, mas a verdade tem que ser dita).


E o disco que fecha com chave de ouro, cevada e tabaco em A beira do Pantanal, uma valsinha caipira que tem inspiração Neil Youngiana (down by the river... i shot my baby!...), traz na capa um Raul malandro, de blazer branco fazendo pose num entardecer de cartão postal na cidade maravilhosa. Pronto para encarar os anos 80, charrete que perdeu o condutor...


[M]


Mutantes e seus Cometas no País do Baurets (1972)

Quando eu ouvi Dune Buggy pela primeira eu pirei! Tanto que nem sei mais quando nem onde foi que isso aconteceu. Era mais um motivo pra lamentar ter nascido na época errada. A música tem o vocal vigoroso do Arnaldo, gritando e cantando alucinadamente e com a banda que acompanha na mesma toada. A batera está particularmente enlouquecida aqui e a execução de órgão e guitarra estão no mesmo nível. O bugue das dunas, que passa e nem dá pra ver pode ser jingle de comercial de aditivo mas tem cara mesmo é de submarino amarelo: na hora H eu derramei na gasolina um barato que eu nem sei se é STP ou MSLD, meu Dune Buggy liga!


Outra que é de pirar é o Cantor de Mambo. Como o próprio título (mais do que) sugere, a música traz o ritmo latino perfeitamente adaptado ao som mutante (e vice-versa), sem maiores efeitos percussivos, o mambo tá na própria composição, interpretação impecável na voz de Arnaldo e nas guitarras de Sérgio.


Posso perder minha mãe, minha mulher, desde que o eu tenha o rock’n’roll é um hino anárquico, foda-se o AI-5 a anistia o general e o escambau. O meu cigarro apagou, o meu dinheiro acabou, mas eu tenho o rock’n’roll... Beijo Exagerado é uma elegia ao encontro casual, cru, rápido e certeiro. A Hora e a Vez do Cabelo Nascer e faixa que dá nome ao disco são passeios (quase) instrumentais que mostram a banda antenada com o prog-rock e o heavy metal inglês. Em Mutantes e seus... os versos só aparecem no final da música, numa gozação com a atitude do homem diante do bruxo do luxo baixado o capucho...


Essas cinco músicas mostram os Mutantes numa direção distinta dos sons mais orquestrais tropicalistas, dos tempos de colaboração com o maestro Rogério Duprat (algo que já vinha se desenhando sutilmente nos dois discos anteriores), mas ainda tinha espaço para o som que estava nas raízes dos mutantes. Rita Lee canta só em duas faixas, Vida de Cachorro, um divertido hino à liberdade que parece inspirada na história da Dama e o Vagabundo, com um arranjo acústico que lembra Blackbird; e retorna no lado B, quando eles refazem Rua Augusta, sucesso jovem-guarda de Hervé Cordovil, numa versão que não deixa dúvidas sobre como é que a Augusta foi realmente “subida”.


Balada do Louco é a faixa mais célebre e conhecida do disco, certamente dispensa maiores apresentações e comentários, é uma das poucas parcerias entre Arnaldo e Rita sem a presença de Sérgio e marca a presença de um moderno (em 1972) sintetizador que foi usado no refrão: eu juro que é melhor não ser o normal, seu eu posso pensar que deus sou eu...


E nós somos imensamente gratos por toda essa anormalidade... [MATEUS]


Fruto Proibido - Rita Lee & Tutti-Frutti (1975)

Não dá pra economizar: este é O disco de rock’n’roll brasileiro. Não porque não houveram outros discaços de rock brasileiro, aqui neste blogue encontram-se vários deles... Mas o Fruto Proibido da Rita Lee é um marco, é um gol de placa, chapéu na defesa toda, meia lua no goleiro, tudo isso de trás pra frente, por que o arremate final é do meio-campo, lembrando todos os gols que Pelé, charmosamente não fez em 70.


Primeiro que o entrosamento entre Rita e o Tutti-Frutti estava tinindo, depois do ótimo disco de 74 (ver posts anteriores). Segundo, e principalmente porque a seleção de canções deste disco é de rara felicidade e inspiração. Além de uma ou outra parceria com os tuttis e algumas composições só suas, Rita agregou, em três faixas, um novo parceiro, o dupla de Raul Seixas: Paulo Coelho. A banda perdeu a cilibrina Lucinha, mas o Carlini se ocupou muito bem das cordas. Um novo baterista que parece até o animal dos muppets de tanta pancada que soca pra todo lado, em tudo que é tambor foi agregado junto com um tecladista, de tal forma que Rita dedica-se mais a compor e cantar. E valeu a pena...


Ovelha Negra é o super-clássico dos clássicos da Rita Lee, uma adorável balada (supostamente) autobiográfica que mistura folk, rock e pop na medida certa. Carlini repete à exaustão um dos solos de guitarras mais marcantes da música brasileira, ideal para fechar com chave de diamante um disco como este.


O lado A também termina em grande estilo, na parceria mais famosa de Rita e Paulo, Esse tal de Roque Enrow, que retrata o choque de gerações embalado ruidosa e irresistivelmente pelo som do TF acompanhado de um sax a la Bobby Keys.


Outra que ficou célebre foi Agora Só Falta Você, parceria de Rita com Carlini. A música contrapõe o peso da bateria e guitarra de Carlini ao piano meio booggie que ajuda a dar mais leveza à voz de Rita Lee. Dá até pra sentir o quanto a banda se diverte tocando essa aqui...


Luz del Fuego foi trilha de um filme homônimo estrelado por Lucélia Santos (que deve até ter passado em Sala... Especial!). O lick de abertura é a deixa pra Rita Lee desenhar a história desta personagem e começar a flertar com sua face mais “feminista”. Pirataria de Rita e Marcucci é também um rockão-manifesto: quem falou que não pode ser? não, não, não eu não sei por quê... eu posso tudo! Em outra parceria com Paulo Coelho, Rita Lee dá O Toque, rockão poderoso e sem concessões que vai suavizando quando chega no refrão psicodélico: o som das nuvens, a conversa do vento, a voz dos astros, a história do tempo... Aqui a harmonização vocal é fundamental (aliás, ao longo do disco, os vocais de fundo mostram ser outro ponto certo desta produção), e o verso final é uma espécie de celebração-manifesto pela preservação da natureza: o universo segue o rumo que todos nós escolhemos.


Voltando ao lado A, Fruto Proibido é rock’n’roll clássico, numa das passagens mais suaves do disco, onde Carlini toca apenas violão e gaita, e o piano ensandecido são ideais para descrever a relação com as tentações e os frutos proibidos que Rita descreve e assume aqui. Dançar pra não Dançar é a música de abertura, numa sugestão que Caetano assumiu quando cantou deixa eu dançar, pro meu corpo ficar Odara... A música (portanto, o disco) inicia com os compassos executados só no piano, frenético, boggie-wooggie, mostrando que o som deste disco está um pouco diferente, quando o resto da banda entra, mostrando a cara do TF.


Cartão Postal é um blues irresistível, sobre encontros e despedidas, canção estradeira de levada lenta e acústica, piano e violão muito bem sintonizados, acompanhados por uma harmonização vocal impecável e Carlini num slide inspiradíssimo.

Pra que? Sofrer com despedida...

Se só vai, quem chegou...


...Pra que?... sofrer...

[MATEUS]


Secos e Molhados - Secos e Molhados (1973)




Uma das mais importantes bandas brasileiras dos anos setenta, os Secos e Molhados influenciam a cena local até hoje. A formação clássica do conjunto - que incluía Ney Matogrosso, João Ricardo e Gerson Conrad - explorou ao máximo alguns efeitos cênicos até então inéditos no Brasil, como maquiagens e figurino ousado. Nota-se, assim, uma grande sintonia dos Secos e Molhados com o cenário artístico internacional, que vivia a efervescência do glam-glitter rock (David Bowie, Alice Cooper, Kiss).


O primeiro disco, aqui resenhado, é o que se pode chamar de "clássico absoluto".

Lançado em 1973, após quinze dias de gravação, o álbum de estréia dos Secos e Molhados incorpora a músicalidade da MPB da época e à ela adiciona toques de rock, folk music, baião, fado, entre outros - uma autêntica salada sonora, que acaba dando certo (e como!). O compositor principal das canções do disco foi João Ricardo e há uma versão musicada de "Rosa de Hiroshima", de Vinícius de Moraes.

Três músicas, porém, se destacam das demais. A primeira é "Sangue Latino", que abre o disco. Balada de peso, é conduzida por violões sobrepostos e por uma linha de baixo pulsante. Logo a seguir aparece "O Vira", o maior sucesso comercial do grupo. Canção mais tocada no país em 1973, é uma espécie de sátira da música portuguesa.

A oitava faixa é a melhor de todas, em minha opinião. Com apenas 57 segundos de duração (sim, menos de um minuto), "El Rey" é das mais belas canções de protesto já compostas. Simples, apenas violão, um toque de flauta e voz. Precisa mais?

"Eu vi El Rey andar de quatro
de quatro caras diferentes.
E quatrocentas celas cheias de gente.
Eu vi El Rey andar de quatro,
de quatro patas reluzentes.
E quatrocentas mortes...

Eu vi El Rey andar de quatro,
de quatro poses atraentes.
E quatrocentas velas
feitas duendes"

A música era um claro recado para os militares. No auge da ditadura, em pleno governo Médici, era preciso muita coragem para se criticar abertamente o regime. Os Secos e Molhados tiveram essa coragem.

Por último, a capa do disco é antológica. A foto de uma mesa, com as cabeças dos quatro integrantes do conjunto "servidas" em meio a garrafas de vinho, pães, cebolas e grãos - produtos de venda de secos e molhados.

Uma obra de arte. Um trabalho fundamental.

(André Xampu)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Atrás do Porto tem uma Cidade – Rita Lee & Tutti-Frutti(1974)

Ainda que, oficialmente, este não seja o primeiro disco “solo” da Rita Lee, é o primeiro sem os Mutantes. Se dúvidas pairavam sobre o futuro da cantora/compositora sem os irmãos Dias Baptista, começaram a ser totalmente desfeitas aqui. Os Mutantes faziam parte do passado e Rita reuniu uma nova banda, o Tutti-Frutti. A Sérgio Luiz Carlini na guitarra, Lee Marcucci no baixo e batera Mamão, Rita, que se ocupou dos teclados neste disco (algo impensável nos seus tempos de Mutantes...), juntou a cilibrina do Éden, a guitarrista Lúcia Turnbull.

A sonoridade da banda é bastante diferente dos Mutantes, mostrando sim que a loira trilhava um novo rumo e bastante independente, inclusive assinando como única compositora várias das faixas. A tecladeira marca o disco, e a instrumentação usada (moderníssima na época) incluía moog, melotron e piano. As duas guitarras convivem muito bem e dão uma sonoridade um pouco mais stoniana do que se ouvia, por exemplo, nos Mutantes. E o baterista Mamão tem um estilo um pouco mais agressivo que Dinho, o que deixa o som do TF um pouco mais pesado.

Adicione-se a tudo isso, o fato de que, em 1974, o rock progressivo e outras substâncias faziam a cabeça roqueira nas terras tupiniquins... Basta uma olhadela rápida na capa que parece uma caricatura de Roger Dean (que fazia as capas do Yes).

Ah! Sim! As músicas... Rita ainda não tinha uma impecável coleção de composições como o que viria aparecer no disco seguinte, o perfeito Fruto Proibido, mas algumas pérolas estão aqui. Mamãe Natureza é talvez a maior e mais preciosa delas. O trabalho de banda é impecável, mas independente disso a música é excelente... Rockn’roll pegajoso e simples com mudanças de andamento e um solinho de guitarra irresistível, melhor impossível. Como se não bastasse, o refrão estou no colo da mamãe natureza, ela toma conta da minha cabeça... é o estado de espírito de Rita e banda. Ando Jururu vai na mesma direção e é ainda mais explícita: quero encontrar pelo caminho um cogumelo de zebu, e descansar os meus olhos no pasto, descarregar esse mundo das costas... A música inicia com um riff de baixo num andamento rápido e frenético e desacelera depois de achar o tal cogumelo, enquanto descansamos os ouvidos no pasto...

Yo no creo em brujas, pero que las ay, las ay
... é outro ponto alto, com várias mudanças de andamento e um refrão irresistível, composição dividida entre Rita, Carlini e Marcucci, assim como Tratos à Bola. Menino Bonito é outra canção que ficou célebre, uma suave balada levada no piano, baixo e bateria acompanhados por orquestra que mostra o lado mais romântico de Rita Lee, que viria a ser muito peculiar nas suas composições, um romantismo mais malicioso e debochado, aqui parece um território recém-descoberto e que será melhor explorado adiante.

No restante do disco o destaque maior é a performance da banda do que as canções em si. Por exemplo, em Eclipse do Cometa, Carlini executa um slide havaiano impecável e em Círculo Vicioso a banda entra de cabeça no progressivo (de curta duração, graças a deus tiveram bom senso...) num andamento que passa do rock pesado ao jazz com muita naturalidade. Completam o disco De Pés no Chão, Pé de Meia, e ...Tem uma Cidade, faixa instrumental com uma sonoridade levemente sombria a la Sabbath Bloddy Sabbath.

Lamentavelmente os Mutantes pararam. Mas ainda bem que Rita Lee continuou. [MATEUS]

Os Grãos – Paralamas do Sucesso (1991)


Este é o primeiro disco de rock dos Paralamas, ainda que muito do som característico da banda ainda tenha lugar garantido. Depois de Cinema Mudo, O Passo do Lui (ver nos postos anteriores), Selvagem, Bora-Bora e Big Bang; onde predominavam ska, reggae e ritmos latinos, Os Grãos trazem os Paralamas mais roqueiros, (quase) sintonizados com o som grunge que dominava o hemisfério norte. Tribunal de Bar ainda traz resquícios dos trabalhos anteriores, apesar de alguns efeitos eletrônicos. O mesmo vale para a excelente Sábado, um skazão ainda carregado de sopros, mas que contém samples de Good Times Bad Times do Led Zeppelin e uma guitarra mais ardida que o de costume.

Tendo a Lua é uma das melhores baladas do Paralamas, a melancolia do Herbert (eu hoje joguei tanta coisa fora...) é muito bem acompanhada pela banda e ele parece ter encontrado o ponto certo de inserir comentários de guitarra que vão além da simples execução do ritmo. A faixa título, Os Grãos, é um pouco mais experimental, na linha da faixa que abre o disco e que viria a ser mais explorado no disco seguinte, O Rio Severino. Carro Velho que vem depois, é uma faixa que caberia muito bem em Big Bang e é a última música deste disco mais ao estilo dos anteriores.

Vai Valer
é uma música linda, uma balada acústica orquestrada de forma imponente que confere um crescente a música que faz lembrar o folk dos anos 60 (ou o Refavela do Gil), uma balada hippie, melancolicamente otimista.
Trac-Trac é a versão em português da música de Fito Paez (que aparece nos vocais) e foi a música de rádio do disco. Pop-rock irresistível num estilo que os Paralamas não gravavam desde Vital e sua Moto.

A minha favorita é a próxima. O Rouxinol e a Rosa abre com um riff inspirado por Keith Richards: sujo e malandro. A guitarra com a distorção no ponto certo executa uma frase simples e sincopada, mas a música que entra em seguida é uma surpresa, um r&b gostoso pra quem se deixou se enganar pelo riff de abertura. O solo também é inspirado nos stones dos 70, com jeitão de Mick Taylor (pelo jeito Stikcy Fingers andava fazendo a cabeça do Herbert nesta época).

A Outra Rota
é daquelas canções de amor tristes e arrependidas de Herbert Viana, tentando descobrir caminhos a seguir. Dainos segue com uma melancolia levemente psicodélica. As duas canções lembram que o disco é um tanto irregular, com ótimas canções e outras nem tanto. Ah, Maria! recupera o fôlego das boas canções do disco e mostra o lado mais pop e inspirado da banda. Não Adianta traz um pouco das baladas mais antigas do Paralamas (como Caleidoscópio) mas com uma produção mais bem resolvida. E o disco termina com a quase-bossa Trinta Anos, lembrando que o tempo passa, eu já não uso óculos e até mesmo o rock pode ser bom quando maduro. [MATEUS]

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Isso é Amor - Ira! (1999)









Houve uma época em que as bandas pop nacionais da década de 80 resolveram, quase todas, lançar discos de homenagens às suas influências. Assim foi com Barão Vermelho, Titãs, Kid Abelha... Se foi um movimento coordenado ou se foi apenas sinal de cansaço na virada nunca saberemos. De qualquer forma, alguns desses momentos foram deliciosos.




O disco do Ira! De ’99 vai nessa linha mas com uma pequena diferença: a seleção privilegia os temas de amor, talvez assumindo que, nessa praia, era melhor a banda dar voz a outros compositores do que se fiar na poesia excessivamente crua de Edgar Scandurra. O som típico do Ira! Inicia o disco com Bebendo Vinho de Wander Wildner (ex-Replicantes, ver um dos posts anteriores) e Teorema, da Legião Urbana.




Mas os melhores momentos do disco ficam exatamente por conta dos momentos menos típicos. E o primeiro destes momentos vem com Telefone, música da década de 80 na voz de Gang 90 e as Absurdetes. Aqui a versão é executada com um wah-wah suave do Scandurra e a voz aveludadamente deliciosa da Fernanda Takai (ó! Meu amô-or, isso é amor...) que divide o refrão com Nasi e que acabou sugerindo o nome do disco. O Ira! Volta irado em Chorando no Campo, do Lobão, passando em seguida para uma balada acústica do Dalto (é, aquele sujeito mesmo, o ‘muito estranho’...), Flash-Back cuja melodia do refrão é muito bonita.




Samuel Rosa é o convidado certo para acompanhar a banda em Um Girassol da Cor de Seu Cabelo, clássico do super disco Clube de Esquina (essa resenha é minha, ok?). Essa música de Lô e Marcio Borges é mais um dos pontos altos do disco. A versão ficou mais balada, na levada da bateria mais pop e com um guitarra limpa do Scandurra que é sen-sa-ci-o-nal... A mudança de andamento que marca a música no final aqui é mais suave que no original também é executada aqui, mas a ênfase é o som de banda do Ira (ainda que com a sutil presença de teclado).




Mudança de Comportamento e Abraços e Brigas são as duas músicas de autoria do Scandurra que fazem parte da seleção. O que me Importa não é das minhas favoritas, mas ficou muito melhor que a versão com Erasmo e Marisa Monte que andou tocando adoidado nas rádios uns tempos atrás, graças, mais uma vez ao wah-wah majestoso do Edgar. Essa música tem um solo de guitarra ao contrário a la Beatles-Hendrix, que ficou sensacional, outra cortesia do guitarrista.




Jorge Maravilha divide com as duas outras já citadas as atenções neste disco. O rockão suingado quase jorgebenniano ficou mais sensual e mais atemporal que o original. Enquanto que com o Chico cantando o recado ao general fica mais evidente, aqui, quando Nasi chega em




Ela gota do tango, do dengo, do mengo, domingo e de cócegas!...


Ela pega e me pisca, belisca, petisca, me arrisca e me enrosca


Fica muito mais claro que no original o quanto que sua filha gosta de mim, apesar de você não gostar...




Não poderia faltar uma do rei, que virou quase um cult no final da década e o Ira! Escolhe Sentado a Beira do Caminho que é executado de maneira tradicional. A Vida tem Dessas Coisas de Ritchie é a próxima e Bingo! ficou mais ácida, mais roquenrou... menos brega-pop anos 80, mais uma vez eles acertaram a mão nesta versão. E o disco poderia terminar, seria perfeito. Mas ainda sobram Alegria de Viver versão em português que o próprio Edgar canta, e Minha Gente Amiga de Ronnie Von, que ganhou uma versão ‘Santana’ na guitarra, ainda que entremeada sutilmente por ritmos eletrônicos. É uma canção despedida para um grande disco, de uma grande banda. [MATEUS]