
quarta-feira, 6 de julho de 2011
The ultra sounds of Shivaratri

sexta-feira, 14 de maio de 2010
Transfiguração - Cordel do Fogo Encantado (2006)

Transfiguração: ato ou efeito de transfigurar-se; transformação; metamorfose.
Transfiguração: mudança na maneira de proceder, de pensar, de sentir.
Transfiguração: Cordel do Fogo Encantado.
Transfiguração é um cenário musical único e exigente. A cadência da fala, a poesia, o sotaque, o timbre da voz, os instrumentos de alguma forma conspiram contra você. Seu ouvido e sua atenção se conectam fielmente ao som, que te agrada, que te perturba, mas que sobretudo, te magnetiza.
É um som-cênico. O Cordel do Fogo Encantado canta o facilmente imaginável, uma música-concreta, poesia-(en)cantada. Herança clara de um passado no palco.
Mas acho que além desse vínculo forte com o teatro, o Cordel tem também uma ligação, que é quase umbilical, com a literatura. A forma de cantar de Lirinha – palavra por palavra, como se ele estivesse sentindo o gosto das vogais, das consoantes - é mistura viva entre música e poesia, camaleônico labirinto. Na verdade é um rio: numa margem a poesia, na outra a música e no meio, no leito, corre a mistura inventiva do Cordel do Fogo Encantado. Fogo que nem água apaga.
O cd começa com o barulho de uma porta de prisão: som pesado, eco, palavras sombrias e sem fôlego. “Aqui” conversa com a literatura e com o cárcere: elementos quase irmãos de uma viagem solitária – mas a música transforma a literatura numa experiência quase corporal:
“vou riscar no meu braço
um pedaço de mar
que você me deixou
e criar outra recordação do primeiro lugar
que acordei pra te ver”
“O Sinal ficou Verde” é escandalosa. É uma invasão, uma coisa meio cangaço, uma conquista. Mas se olhar de perto, grudar teu ouvido, você vai perceber que é da melhor guerra que estão falando. É sobre o domínio do corpo amado.
E vai indo… Transfiguração canta estórias - estória de um homem que sobe numa árvore e que anda mil léguas sobre as folhas e beija sua mulher perto das nuvens…
“Preta” é uma das coisas mais cuidadosas e delicadas que eu já ouvi. A leveza da seda mesclada com o aconchego do xale e a chuva vem pequena, com o seu sonho de água, para lavar o que passou…
“Louco de Deus” . Deus como uma sensação que te faz bem – Transfiguração: mudança na maneira de proceder, de pensar, de sentir – Louco de algo que te faz bem sentir, uma coisa meio colorida, que dá barato.
“O sol rodando vermelho
O sol pregado no azul
O sol redondo no céu
O sol suspenso no ar”
Em “Trans-fi-gu-ra-ção” a gente escuta as palavras deixando os lábios do cantor. A palavra saindo ainda molhada, deixando calmamente a boca para explodir lá fora e ganhar um outro corpo. A paixão é estrada que dói. Metamorfose.
“Lamento das Águas Sagradas” trazendo a brincadeira da cabra-cega: as crianças, a percussão e as palmas. Misteriosa, confusa, linda e sedutora. A mais mangue-beat de todas!
“Morte e Vida Stanley” é um pedaço de cada um de nós: nossos recados sem voz, recôncavo do sol, garras do mundo sem guia.
Transfiguração é um universo desconhecido para mim: um mundo longe, agreste, árido, de sol cor de laranja, mas que estoura em flor e me conquista pelo seu lirismo em carne viva.
[ANDRÉA]
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Maria Bethania - Pirata (2006)

Entre os quatro baianos tropicalistas mais próximos (isto é, estou excluindo o Tom Zé), Maria Bethânia é sem dúvida a artista mais diferente. Talvez por isso até, seja menos popular que os outros três, e seja tão difícil encontrar um fã ardoroso seu. Eu mesmo, só conheci um. Chamava-se Alexandre e morava na rua 9 nos idos de 1987-88, por aí.
Com direção musical do violonista Jaime Alem, que se encarrega das cordas no disco, Pirata é um disco dedicado às águas, do mar e dos rios. Como de costume, Bethânia intercala poemas e/ou trechos de poemas com canções que evocam estes temas. História pra Sinhozinho de Dorival Caymmi é a primeira canção do disco, seguida por O Tempo e o Rio de Edu Lobo e Capinam. Nas duas a ênfase é na voz e interpretação de Bethânia, com o arranjo mínimo, acompanhada só ao violão. Todo cais é uma saudade de pedra declama a cantora antes de cantar os Argonautas do mano Caetano. Apesar de regravação, a canção é obrigatória devido à temática do disco: Navegar é preciso / Viver não é preciso... Se “preciso“ aqui vem do verbo precisar indicando necessidade ou do substantivo precisão que denotada certeza, talvez já tenha sido até esclarecido pelo autor, mas a dúvida torna a canção ainda mais bela. O arranjo com violão, baixo acústico e bandolim dá um belíssimo ar de fado, de Portugal...
Bethânia declama Perto de muita água tudo é feliz antes de Santo Amaro, samba em homenagem à terra natal. Aqui fica claro o cuidado na produção do disco, essas quatro músicas em seqüência dão um crescente de ritmo, de pique no disco. Depois vem a minha favorita, De Papo pro Ar. Clássico da música caipira (caipira mesmo!) acompanhada na viola por Jaime Alem, conta a vida boa do caipira que vive do rio da caridade alheia e não se incomoda com nada. Ou melhor, quase nada: Quando no terreiro faz noite de luar / E vem a saudade me atormentar / Eu me vingo dela, tocando viola de papo pro ar...
Fui quase injusto acima, pois Sereia de Água Doce é outra das músicas lindíssimas deste disco. Samba de autoria de Vanessa da Mata (Ei! Alguém tem que resenhar o disco Vermelho!?), mostra a sintonia de Bethânia com a novíssima geração de compositores, fazendo uma sutil e muito bem dosada mescla com canções da velha guarda.
Eu que Não Sei Quase Nada do Mar de uma levada meio espanhola também é da nova safra. Passando (bem) longe da minha lista de compositores favoritos, Ana Carolina e Jorge Vercilo assinam esta belíssima canção que parece sob medida para a sensual voz de Bethânia, como exige a letra carregada de erotismo. O arranjo traz um dos raros momentos orquestrais do disco. Segue A Saudade Mata a Gente, outro clássico de João de Barro e Antônio Almeida, desacelerando um pouco o bpm depois das duas anteriores, mais uma vez com arranjo bem suave centrado em violão em voz. De Antônio Almeida, Serenô segue na toada da canção anterior, ma um pouco mais bonita que aquela:
Minha vida, ai, ai ,a / È um barquinho, ai, ai, ai / Navegando sem vela, sem luz
Quem me dera, ai, ai, ai, quem me dera / O farol dos teus olhos azuis...
Segue o samba com batida de candomblé Memória das Águas e depois com Águas de Cachoeira de Jovelina Pérola Negra, samba de terreiro com cavaquinho e acompanhamento de palmas. Jaime Alem agrega várias Cantigas Populares, na faixa que leva o mesmo nome. Ainda que misture melodias distintas nos versos tirados de diferentes cantigas, a música apresenta uma unidade surpreendente. Bethânia declama Antonio Vieira e termina com A Coroa: voz solo, acompanhada no finalzinho por tambores e coral, tudo agregado com se fosse uma só canção.
Onde Eu Nasci Passa Um Rio é outra da safra antiga de Caetano e essa aqui é a interpretação definitiva de uma canção pouco conhecida da obra do baiano. O arranjo, mais uma vez se destaca, só violão, voz e cello, conferindo a esta bela canção o tratamento que ela merece. O verso o rio da minha terra deságua em meu coração é de arrepiar... Francisco, Francisco é uma bela canção em homenagem ao velho Chico, e o disco termina de maneira bastante pessoal com Meu Divino São José.
O encarte é outro destaque, com figuras feitas de bordados...
Tudo isso faz deste, o melhor disco dos quatro baianos desde O Estrangeiro (resenhado aqui) ou até mesmo, desde Velô (que mais dia, menos dia, vai acabar pintando também). Como canta em Memória das Águas:
Amores são águas doces
Paixões são águas salgadas
Queria que a vida fosse essas águas misturadas,
neste Pirata, Bethânia consegue misturar essas águas. [M]
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Delicado? Infernal?... (Sim e não - Nando Reis - 2006)

Seu nome responde a qualquer tentativa de classificar o disco de Nando Reis e os Infernais lançado em 2006: Afinal, este é um disco de rock? Sim e não. É um disco de baladas de amor? Sim e não.
É o primeiro disco do compositor sem a sombra de Cássia Eller, que foi sua voz em "Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo" (ver entre as postagens anteriores) e no póstumo "Dez de Dezembro", disco onde a cantora gravou as canções mais célebres do compositor. Cássia se foi, mas Nando segue em frente.
Também é o primeiro disco que marca a fase "clean" de Nando Reis, afastado do álcool e de outras drogas. De alguma forma, essa nova fase transparece no álbum, ao mesmo tempo em que também estão presentes referências à sua vida "anterior", tornando este o seu mais autobiográfico trabalho.
Estranhamente o disco abre com sua música mais fraca, Sim, uma melancólica declaração de amor que será totalmente esquecida quando chegar ao final da audição. Em seguida, vem o hit deste disco: Sou Dela. A levada da música é irrestível, "grudenta" sem ser pegajosa, o pop-rock perfeito. O refrão traz uma sutil referência sobre seu momento: "Estava tão longe, num outro lugar, trancado e distante, na esfera lunar...". Mas agora, o Nando é dela e a música transborda a alegria desta descoberta e celebra este amor renovado.
N é uma balada de saudade. Uma saudade de quem fica menos de uma semana sem ver a mulher amada. Parece um exagero, mas quem já viveu uma história de amor quinzenal, de rodoviária, sabe bem como é essa saudade e a intensidade do encontro. A introdução traz um Carlos Pontual tocando um lick simples e intenso na strato, lembrando o lado mais sentimental de Clapton. Monóico é o primeiro rock'n'roll stoniano deste disco. Baita música com uma poesia um pouco diferente daquela que é a clássica do Nando Reis. No jogo de palavras há uma troca de papéis e é a mulher que o penetra. Nos Meus Olhos é outra balada, mais uma vez, um pouco diferente também da poesia típica do NR. Aqui ele mistura frases curtas e suas clássicas frases longas.
Santa Maria é um rock'n'roll stoniano de estrada, que conta a história de um amor inesquecível, marcado pelo calçar e descalçar das botas de uma mulher amada. Espatódea é simplesmente, a mais linda canção de amor de pai pra filha já escrita em português. A música dedicada à caçula Zoé diz: "não sei se o mundo é bão, mas ele está melhor desde que você chegou e explicou o mundo pra mim". O arranjo é delicado como a flor, e a gente vai percebendo o sim e não, o yin e yang se alternando ao longo do disco.
Pra Luzir o Dia é uma canção folk de poesia curta que se concentra em temas do dia-a-dia, celebrando as coisa simples desta vida: “bolo pra comer, bola pra bater”, “som para ouvir, sono pra dormir”. Uma bela e suave orquestração acompanha o arranjo. Como se o Mar é uma canção de amor que lembra os aranjos típicos da soul music brasileira dos anos 70, a la Tim Maia. Pena que a letra não seja tão boa quanto a música. Nando volta com mais uma canção de amor, pra um amor que se despede em Pra Ela Voltar, e reclama: "desde que ela foi embora nada mais funcionou".
Caneco 70 é o mais stoniano dos rocks deste disco. Desde as guitarras, até um "uh uh!" que lembra Sympathy for the Devil. Porque será que eu gosto tanto deste disco? Outra canção de estrada, conta uma história de amor real, com suas delícias e cagadas. “Teríamos futuro de eu não fosse um selvagem”. No final, uma micro autobiografia: canta seu amor pela sua São Paulo natal, pelo seu São Paulo Futebol Clube, time do coração, os pais, os filhos... Meio que justificando seu comportamento, se apresentando, sei lá...
“Não sei quantas vezes te deixei bem triste, Não sei se comigo foi feliz ou não. Não sou exatamente o cara mais fácil que existe. Mas posso te dizer que para sempre te trarei dentro do meu coração”. Não, não, não. E sim.
O disco termina com Ti Amo, um raga a la George Harrison, onde a melodia da música toda é cantada por um "ti amo", com se entoasse um mantra. Um sim. Sim de amor não só pela sua amada (aquela de Sou Dela), mas pela sua "nova" vida e os prazeres que estão por vir (como cantado em Pra Luzir o Dia). [MATEUS]
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Rock'n'roll! (Cê - Caetano Veloso 2006)
Quem disse que o clássico tem que ser velho? Quem criou a diferença entre rock e mpb? Quem foi que disse que os melhores discos do Caetano são os mais antigos?
Bullshit.
Em 2006 Caê lançou esse petardo (termo sempre usado no rock, mas que merece aqui sua presença). Rock, mpb, excelentes composições, timbres surpreendentes, vozes e melodias marcantes, espaços e silêncios entre os sons. Um clássico quase instantâneo. Quase porque o disco merece várias audições antes de se apegar a ele.
Eu não tenho muito saudosismo. Gosto de discos mais recentes do Caetano, como Noites do norte, A foreign sound, Fina estampa, Circuladô. Até compro os cds...
Claro que também admiro muito o trabalho dos anos 70 (que claro que também têm clássicos do próprio a serem postados aqui), mas em geral os timbres, principalmente os de guitarra, são sofríveis. Que me desculpe o Genial Lenny. Nos anos 80, pós-Liminha produzindo o Gil e depois do BRock, os sons melhoraram muito. E o Caetano continuou a lançar excelentes discos.
Mas discordo, por exemplo, do disco de 1968, auto-entitulado, constar no livro '1001 discos pra ouvir antes de morrer' (que obviamente serve de inspiração para este blog que vos posta), juntamente com o Circuladô, que eu adoro.
Preferiria ver o Araçá azul, mais experimental que o citado, sem nenhuma composição top e com aqueles timbres horrendos de guitarra. Mas eu acho mais merecedor da citação.
Eu tenho uma viagem recorrente matinal, naquele estado sonâmbulo quase lisérgico ao despertar: eu ouço discos que não foram lançados, tipo Hendrix com Miles, Hermeto com Tom, Janis com Lennon, Gil com Jorge (ops, esse existe...). E às vezes eu ouço o ‘Araçá blues, agora com pro-tools’, com vozes de Carmen sobrepostas a loops de Timbalada, o silêncio de João mixado ao virtuosismo de Pepeu, vozes de Orlando Silva e Caymmi fundidas com a de Janis Joplin, um cd com 128 canais barrocamente trabalhados... Será que ainda ouvirei esse neofonismo? (Adoro essa palavra! Vale uma música).
Mas vamos ao disco: inicia com ‘outro’, com um riff básico e forte, como um bom rock tem que ser; traz ainda a excelente frase ‘feliz e mau como um pau duro’! Tem um solo de guitarra excelente e atípico nos discos do Caê.
Na seqüência muda o clima, ‘minhas lágrimas’ é cheia de espaços e silêncios, com uma guitarra presente e discreta. Bonita.
Aí vem o primeiro orgasmo (cedo demais?): ‘Rocks’, reta e poderosa, com solo ‘mete o dedo na guitarra’ com feedback e tudo. ‘Você foi mor rata comigo’ é um excelente grito inimigo. Será que o Caetano pagou royalties ao Zeca?
‘Deusa urbana’ pertence a linhagem de músicas inspiradas em fêmeas. Belo é ver o medo exposto, a mucosa roxa citada, uma guitarra com trêmolo e overdrive.
‘Waly Salomão’ é mais uma marca que os poetas (o homenageado e o cantor) deixaram pra nós, música tribal e boa.
‘Não me arrependo’ inicia com uma citação de ‘Walking on the wild side’ do Lou Reed e uma bateria que lembra a música anterior. Linda letra, sobre bons sentimentos em fins de relacionamentos (tema sempre inspirador). Há aqui, e em todo o disco talvez, uma tendência a interpretar a arte como auto-biográfica (Caetano vinha de uma separação). Acho irrelevante, além de inútil e desinteressante. Talvez seja trabalho pra seu biógrafo...
‘Musa híbrida’, dançante, com uma guitarrinha safada (não sei se há um wha-wha ou um auto-wha). Tem uma levada de bateria quase axé, uns falsetes quase gays, uma letra quase Carlinhos Brown. Mas afinal o que significa ‘cúprica’? Estou sem dicionário por aqui...
Mais um orgasmo: ‘Odeio’, rockão, guitarra obsessiva e insistente, riff primal. Mas a música muda, oscila, acalma. Tem alguns dos melhores versos do disco: ‘todas mucosas pra mim’, ‘forte e feliz feito um deus, feito um diabo’, ‘só eu, velho, sou feio e ninguém’, ‘veio e não veio quem eu desejaria se dependesse de mim’, ‘São Paulo em cheio nas luzes da Bahia / tudo de bom e ruim / era o fim, é o fim, mas o fim é demais também’. Uma guitarra esquizofrênica com filtro encerra com chave de Hendrix.
‘Homem’ diz o orgulho de sê-lo, e diz tudo e diz bem. Mas fica a inveja dos orgasmos múltiplos. Fazer o quê? Gozar? O que é o tema da música seguinte, ‘porquê?’. ‘Estar-se a vir’ seria algo como ‘estou gozando’ em Portugal. Vem acompanhada de um sotaque lusitano. Se eu fosse produtor teria limado essa.
‘Um sonho’ parece que traz Morelembaum de volta, mas é uma guitarra em stacatto, bela música.‘O herói’ é uma das minhas preferidas, tema épico, dinâmica, temática bandida, narrativa que se aproxima do rap, vozes em dissonância de microtons no fim. Encerra irritando. Rock’n’roll!!!!