Mostrando postagens com marcador 1996. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 1996. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Alfagamabetizado, Carlinhos Brown


Mais um da Bahia, meu rei...
Apesar dos protestos dos amigos sem tolerância musical, principalmente daqueles que nunca ouviram este excelente disco que, mesmo não sendo tão sofisticado quanto a próxima postagem do mestre X, tem seu borogodó.
O álbum também consta do livro '1001 discos para ouvir antes de morrer', na mesma página da Bethânia resenhada aí embaixo. Na resenha, diz-se do artista, 'o Prince brasileiro' (!), um ser capaz de representar a essência e a voz do seu povo (!!). Um exagero, talvez, mas tem seu fundo de razão. O livro ainda ressalta o fato do artista fundir a tradição musical tradicional com música moderna, com um 'resultado colossal' (!!!). Também toca no fato disso ser feito com 'maturidade e até sofisticação', com 'integração tão coesa que a linha de fusão se torna quase imperceptível', e aqui eu assinaria embaixo com tranqüilidade!
Buscando imagens da capa, descobri que o disco tem uma outra capa, mais vermelha, diferente da que eu tenho. Independente disso, é mais um disco com produção gráfica caprichada, fotos criativas e bonitas. Mas é meio difícil acompanhar as letras e saber dos músicos envolvidos...
O Carlinhos Brown, que também foi líder da Timabalada, apareceu para o grande público tocando percussão com o Caetano (ele é autor de 'Meia lua inteira'), num show do disco Estrangeiro que começava com luz no Carlinhos e ele, espertamente, direcionava a luz através do pandeiro pro Caê. Daí pro mundo e para os Tribalistas...mas isso já é outro disco, que, por precaução, pra evitar apedrejamento, vou sugerir que a minha filha de 13 anos faça...ou quem sabe a herdeira do Mateus, que eu nem sei se gosta também. Sei que ela gosta de Ramones, o que já é um baita desgosto...pro pai, claro, pra nós é divertido.

Mas vamos ao disco e suas (muitas) faixas:

1. Angel's Robot List: quase uma vinheta, com uma voz citando a alfabeto grego (isso é redundância?) e uns ruídos por trás;

2. Pandeiro-deiro: aqui começa com percussão africana seguida de belas vozes baianas e umas guitarras muito legais, além de um arranjo de sopros muito legal; a voz só aparece bem depois. Participação ilustre de Marcos Suzano no pandeiro solo. A letra, apesar de muito sonora, é total nonsense.

3. Covered Saints: uma das minhas preferidas, calminha, bonita, bilíngüe, solinho bacana de guitarra, merece a ouvida mesmo dos mais radicais. Além de belos vocais, aqui a letra acerta (ou pelo menos faz algum sentido). O porém fica por um violino que sola no limite da (des)afinação, o que, tendo em vista o capricho e o nível dos atuais programas de auto-afinação, deve ser proposital. Mas me irrita profundamente.
'Triste quer saber
se ainda mora em mim
não sei dizer
chega de você
te sinto mais livre no querer
o amor que diga
que fim dar
se de forma ímpar
in a beautiful way
you're devoring me'
Tocava muito na excelente e saudosa (pra mim) Rádio Globo carioca (ainda existe?).

4. Cumplicidade de armário: começa com aquele surdo virado típico do axé, mas não segue assim, acrescentando mais uma guitarra muderna e uma levada pop-reggae. Brown neste disco se cercou de músicos gringos, tendo um som bem internacional e pop, mas com a cara dele. Lembra um pouco a sonoridade do 'Lilás' do Djavan, só que mais animado.

5. Argila: mais uma muito bonita, com bons violões/guitarras, voz cantando sutilmente e harmonia surpreendente pra quem acha que o cara é monotemático.

6. Tour: bem pop, pra tocar na rádio, suingada e leve, com aquela percussão baianíssima e aquele refrão pra cantar no carnaval.
'all right
I'm allright
sinto felicidade
não invente de fazer maaala (sic)'

7. Bog la bag: esta aqui lembra o Prince mesmo! Se ele fosse à Bahia...vc já foi? Então vá. Percussão frenética, junto com a cantoria em carlinhosbrownês. Letra com ajuda do Celso Fonseca. E mais uma vez uma guitarrona, quase metal, a cargo do Roseval Evangelista (!).

8. O bode: mais uma com muita percussão que, apesar de repetitivo, é bem mixado sem embolar com as vozes e outros instrumentos. Mais uma que deve ter feito seu sucesso no carnaval.
'Levanta sacode
que lá vem o bode
corre Chico' (será um aviso ao ex-sogro?)

9. Comunidade-Lobos: um boa surpresa, uma composição quase instrumental e quase erudita com violoncelo e um monte de instrumentos tocados pelo Brown, calmaria com batucada.

10. Frases Ventias: calminha e bonita, a voz aparece limpa, com violões e violoncelo, seguidos de mais vozes e percussões (surdo baixo, enxada, vaso, cúpula de surdo, lé, djembê solo, o que será isso tudo??!).

11. Quixabeira (com música incidental 'Samba Santamarense' e 'Amor de longe'): música de domínio público, aqui com as luxuosas vozes da 'máfia do dendê', os Doces Bárbaros: Caetano, Gal, Bethânia e Gil, muito legal.
'Tu não faz como um passarinho
que fez um ninho e avoou
mas eu fiquei sozinho
sem teu carinho
sem teu amor'

12. Seo Zé: esta aqui tem uma curiosidade, traz o título de um outro disco ('Cor de rosa e carvão'), sendo a música de autoria de Bronw, Marisa Monte (em breve por aqui) e Nando Reis. É uma rumba/bolero destoando um pouco do disco, mas traz variedade. Tem também uns vocais discretos da Marisa.

13. Mares de ti: um pouco mais lenta, etérea e bonita, pop, podia até ter tocado nas rádios, o cara tem o faro pra facilidade, que parece mas não é fácil. Mais um solo de guitarra hard, curtinho!

14. Zanza: tem a diferença de ter a voz filtrada (isto é, com alterações de equalização, com o corte de algumas, sacou?) do Carlinhos, cadenciada e tranquila.

15. A namorada: o hit do disco! Pra levantar a galera, alterna umas guitarras pesadas com wah-wah, sopros (isto é, saxofones, trompete, trombones, sacou?) bem arranjados e claros, guitarra suingada, baixo sensacional do Arthur Maia, refrão grudento, iêiêiês, levada disco, rufos de bateria em fusas (1/16 de compasso, sacou?) e por aí vai...
'A namorada tem namorada'!!!
Apareceu até no filme 'Speed 2 - Cruise control'!

16. Vanju Concessa: pra terminar e acalmar a festa, clima capoeira com berimbau, percussão baiana e Suzanesca, guitarrinha pica-pau e aquela letra nonsense típica.

Produzido por Wally Badarou (Level 42, Fela Kuti, Salif Keifa etc) e Arto Lindsay.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Âmbar, Maria Bethânia







Continuando na Bahia, vamos à musa Maria Bethânia.

Este é um dos que também são citados no livro original, 1001 discos para ouvir antes de morrer.

É um disco belíssimo, às vezes com aquela performance e interpretação intensos da cantora, mas é assim mesmo, entrega e emoção.

Repertório primoroso, como é de costume em intérpretes não autoras que têm bom gosto, sensibilidade e curiosidade de garimpar novos autores.

Som extremamente límpido, tendo sida a gravação feita em vários locais: SP, RJ, LA, Bruxelas e Londres (Abbey Road!!), com a mixagem tb no Abbey e a masterização em LA zzzzzzz.....

Ainda mais o disco tem um trabalho gráfico muito caprichado e bonito, pena q eu não achei mais imagens para anexar aqui. Um bom motivo pra comprar.

Consta também que é um disco comemorativo: 35 anos de carreira, 35 álbuns e 50 anos de idade.

E começa com a bonita faixa-título, da Adriana Calcanhoto, um violão em estéreo discreto e bonito, um fundo orquestrado leve, assim como a percussão do multiplatinado Paulinho da Costa. Depois entra o trompete brilhante e sinuoso do Steve Tavaglione.

'Tá tudo aceso em mim

tá tudo assim tão claro

tá tudo brilhando em mim'



'Chão de estrelas' (Sílvio Caldas/Orestes Barbosa) é uma bela e depressiva canção, mas a versão definitiva é a dos Mutantes, eu sempre fico esperando a zoação deles...Mas nada com a Bethânia fica feio, né?

'E tu, pisava nos astros distraída

sem saber que a aventura dessa vida

é a cabrocha, o luar e o violão'



'Iluminada' é uma surpresa muito legal, um arranjo nada careta com muitas vozes 'saltitantes', fazendo fundo, percussão e harmonia. Quem será que são Marie Doulne (Zap Mama), Sabine Kabongo e Angelique Wilkie??



'Onde estará o meu amor' (Chico Cesar, parente do Xampu) começa só voz, grave e imponente, aos poucos entrando a harmonia através da harmônica (gaita, pros leigos) e depois a banda, com um clima meio sertanejo e rural, com o vialão de aço do Victor Biglione.



'Lua vermelha' (Carlinhos Brown/Arnaldo Antunes) é a mais bonita pra mim, etérea, calma, letra linda, auxílio luxuoso do pandeiro.



'O circo' (Orlando Moraes/Antônio Cícero) é daquela de crooner, bailão chique num grande salão com acantora vestida de gala. Arranjo meio jazzy, inclusive com uma slide guitar pelo Victor Biglione, que ao fim sola sem slide. Bonito isso.

'Leão, camelo, acrobata

e não há luar

E os deuses gostam de se disfarçar'



'Invocação', mais uma do primo do Xampu, é solene, quase uma oração pagã, com vozes graves ao fundo, bem percussiva e com cordas muito criativas.

'Deus dos sem deuses

Deus do céu sem Deus

Deus dos ateus

Rogo a ti cem vezes

Responde quem és?

Serás Deus ou Deusa?

Que sexo terá?

Mostra teu dedo, tua língua, tua face

Deus dos sem deuses'



Mais uma da Adriana Calcanhoto: 'Uns versos', belas cordas, belos violões, cordas lindas, letra bonita...Bethânia escolhe e interpreta com extremo bom gosto.



'Allez y', do Carlinhos Brown - e perguntem pra ele o que significa, é simples, voz, cordas e violão. Quando digo cordas, são os instrumentos orquestrais que usam cordas: contrabaixos, violoncelos, violinos e violas, sacou?



'Todos os lugares' é mais uma de crooner, piano, voz e cordas doces.



'Quando eu penso na Bahia' (Ary Barroso/ Luiz Peixoto) traz o convidado Chico Buarque cheio de 'iáiá' e 'iôiô' pra cá e pra lá...sambinha animado e legal.



'Ave Maria' tem aquele clima de igreja, violinos celestiais, beata beata beata. Mas é bela também, como uma oração sincera. E ainda tem guitarra e baixo!



'Eterno em mim', do mano Caetano, é grandiosa, com um arranjo que acentua isso, cordas em cascata, seguidas de um piano e voz que ficam bem bonitos.

'Duas coisas que dentro de mim

não podem ter fim

dois azuis no mesmo azul

meu horizonte sem nuvem nem monte

em mim o eterno é música e amor'



E pra terminar pra cima, 'Brisa', um poema musicado de Manuel Bandeira. VViola bonita, bem brejeiro (sempre quis usar esse adjetivo!), além de violão e guitarra discretos.

'Aqui faz muito calor

no nordeste faz calor também

mas lá tem brisa'

sábado, 9 de julho de 2011

Dente de ouro, Blues Etílicos




E pra um dia frio, blues.


Blues brazuca, com letras típicas - algumas em português, versões, muitas instrumentais e um suíngue apimentado.


Maior banda brasileira de blues, com 26 anos de estrada, merece estrear a seção blueseira do nosso blog.




Play the blues!




Que inclusive começa rock'n'roll: 'It's my soul' tem essa vibe, aquele shuffle típico com aquela gaita bem tocada pelo sensacional Flávio Guimarães, além do slide do Otávio Rocha! Soul blues.




'O sol também se levanta' é um exemplo de blues bem transportado pro Brasil, uma letra sobre ressaca (podia ter tocado no dia seguinte do Itupervastock), instrumental acústico.


"O sol me acorda e ainda é cedo!


Eu fico logo de mal humor


A minha cabeça ta rodando, de onde é que vem esse tambor


É de manha e eu tô numa ressaca, eu me arrasto até o banheiro


me sentindo enjoado enfio a cara no chuveiro


É nessas horas, eu digo pra mim mesmo nunca mais vou beber


Mas vem caindo a tardinha...


Preparo outra caipirinha"




'Cachorrada' é instrumental, com uns metais (gaita, trompete by Greg Wilson e sax barítono by Henrique Band) muito legais, além do solo matador!




Aí vem a maneiríssima faixa-título, uma música de capoeira com berimbau e atabaque do Mestre Garrincha, arranjada pro formato blues com slide dobro e tudo! Muito muito legal! Solo de gaita sensacional.


"Ela tem dente de ouro


Aih meu deus foi eu quem mandei 'botar'


Vou rogar é, uma praga prá esse dente se quebrar


Ela de mim não se lembra, aih meu deus nem dela vou me lembrar


Casa de palha é palhoça, se eu fosse fogo queimava


Toda mulher ciumenta, se eu fosse a morte eu matava"




Mais uma instrumental 'Dromedário', cheia de wah-wahs, solo de baixo e gaita altíssima.




'Misty mountain' é mais contemplativa, começando com um violão e voz bonitos, solinho de gaita e entra a banda, dinâmica é tudo...vale a audição, eu sempre gosto de ouvir essa lá de cima das montanhas.




Mais uma instrumental, 'Texas frogs', animada e alto astral, tá até esquentando esse frio gélido curitibano.




'It ain't easy' é um suinguezinho maneiro, não tipicamente blues, mas se mistura bem no geral.




'William's influence' é uma instrumental com um som de gaita diferente, é a cromática. Só não sei quem é o William...




Toca Raul!! 'Canceriano sem lar (Clínica Tobias blues)' ficou muito legal, num blues acústico com aquelas paradinhas típicas e um slide dobro malandro.




Na seqüência mais uma instrumental, 'Albert's mix', agora com um pouco mais de drive! A música termina de repente, estranhíssimo, deve ser o Albert King cortando a mix...




'Águas barrentas', provavelmente em homenagem ao Muddy Waters, sacode a casa.




'Mambo chutney' é bem latina, com uma guitarra balançante, congas e trompete, legal.




'Liberdade' é uma boa surpresa, de Fernando Pessoa (acho que é o poeta português) e Márcia de Carvalho, bluesão quase acústico com uma voz com distorção ao fundo.




Que já emenda numa instrumental mais lenta e bem curtinha, 'Elefante'. Acho que tem instrumentais demais, por mais que sejam legais, né?




'Cerveja' lembra por que eles são etílicos! Co-autoria dos caras com o Fausto Fawcett, que inclusive canta aqui com aquela voz carioca típica.


"Vou virar vou virar esse copo


Cheio de espuma cheio de ouro


Vem cerveja vem beijar meu sangue


Alquimia de espuma libertaria


O mundo é veia aberta a minha volta


Hoje eu to bebendo cerveja


Toda bebida é binóculo da alma


É raio x da perdição dos sentimentos


Cerveja me libera, me leva ao paraíso


Ah loura liquida me leva pro seu liquid sky


O mundo é veia aberta a minha volta


Hoje eu to bebendo cerveja


É paraíso dos desejos, encruzilhada violenta de tesão


Que me importa como o tempo passa


Cerveja me libera


Pra tempestade da carne


Pra tempestade da rua pra tempestade do sexo


Pra tempestade de tudo


O mundo é veia aberta a minha volta


Hoje eu to bebendo cerveja"




E depois de 16 músicas, 'Little Martha' (D. Allman) termina bonito o disco, acústica e leve.




Long live the blues.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

música pra festa!




Rappa mundi: mesmo sem ser da Bahia, esse segundo disco do Rappa é perfeito pra animar festas, churrascos e assemelhados.
Não que seja superficial ou banal. O som é ótimo, suingado, animado, mas tem muitos bons timbres e muitos detalhes de sons, principalmente barulhinhos eletrônicos, melhor ouvidos em fones de ouvido. E flui do pop ao reggae e passa ao rock, com pitadas de dub jamaicano da melhor safra. E apesar de 3 versões e músicas de outros autores, dá pra ouvir direto e nem desconfiar disso. Um disco redondinho.

Começa muito bem com a conhecida 'A feira', com uma letra ambígua e malandra sobre 'ervas que aliviam e temperam'. Um excelente cartão de visitas, resumindo tudo descrito acima.

Na seqüência vem 'Miséria S. A.', de Pedro Luís (que também merece discos por aqui!). Lembro a primeira vez que prestei atenção na letra engraçada: estava numa pousada em Visconde de Mauá, RJ, pós almoço, naquela preguiça, naquele estado intermediário entre a vigília e o sono. Quando ouvi a música (com uma grande amiga), rimos tanto que o sono se foi... Pra quem não conhece, é aquele discurso de pedintes de dinheiro transformado em música.

'Vapor barato', de Waly Salomão (que em disco posterior do Rappa se envolveu mais com a produção) e Jards Macalé, já foi gravada por muita gente, mas as pessoas da minha geração (entre 30 e muitos e 40 e poucos), que não eram muito fãs de MPB, reconhecem essa como A Versão. Sempre um hit ao vivo!

'Ilê ayê', do baiano Paulinho Camafeu, também é uma versão sensacional, começando com uma guitarra com drive lindo e uma bateria atropelando tudo, cortesia dos Mestres Xandão e Yuka. Orgulho negro balançando o esqueleto.

'Hey Joe' (de Bill Roberts) é mais uma versão (de Ivo Meirelles e Marcelo Yuka). Mistura uma levada reggae (que incorpora riffs hendrixianos!, além de um break maneiríssimo) com passagens vocais rapeadas pelo Marcelo D2, parceiro e cúmplice da invasão carioca que se perpetrou na época e prossegue até hoje. A letra foi adaptada à realidade violenta e armada do Rio. 'Também morre quem atira'.

'Pescador de ilusões' é hoje uma música obrigatória nos shows do Rappa, cantada a plenos pulmões onde quer que seja tocada. E com razão, é pop, bela e cativante.

'Uma ajuda' traz o balanço pesado de volta, mesmo sendo quase romântica em sua letra. 'Como é bom te ver, é uma ajuda, se é!'

A seqüência daqui pra frente é matadora: 'Eu quero ver gol' (praia e futebol), 'Eu não sei mentir direito' (no país do futebol, o jogo de cintura ou ginga ou jeitinho brasuca podem se manifestar de muitas maneiras, e algumas positivas), 'O homem bomba' e a sensacional 'Tumulto' são, além de boas músicas, relatos cotidianos e críticas sociais muito autênticos e sem chatice, você ouve e se sente na narrativa, entendendo toda a situação, mesmo sem ser do Rio. Todas com excelentes quebradas de bateria, levadas reggae impulsionantes e aquele baixo preciso, além dos barulinhos eletrônicos.

O disco dá uma relaxada no final, que ninguém é de ferro.
'Lei da sobrevivência (palha de cana)' tem uma guitarra discretamente distorcida, mas já é mais lenta, antecipando o fim.

'Óia o rapa' (nota: rapa é um gíria carioca que significa a repressão aos vendedores de rua), de Lenine e Sergio Natureza, termina com chave de ouro, com uma bateria que parece eletrônica pela duras quebradas que não param de rolar ao fundo, além de uma voz distorcida (que parece do Lenine).
Eu já comprei o cd duas vezes, e duas vezes me roubaram. O jeito foi baixar... Espero que eles voltem a compor e tocar ao vivo em breve!!!
Ah, produção de Liminha.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Bebadosamba, Paulinho da Viola (1996)


De certa forma, o Bebadosamba é a continuação da (minha) triste história de Pérola Negra e sua tentativa de ganhar uns beijinhos aqui e ali. Luis Melodia me havia ensinado que a trilha muitas vezes vem a reboque do roteiro e não vice-versa. Mas a roda do tempo gira e depois que a Marisa Monte decidiu gravar a Dança da Solidão no seu disco rosa, a música do Paulinho da Viola foi redescoberta por um público um pouco maior do que o que vinha sendo costumeiro seu nos anos 80 e 90.
E acompanhando os giros da roda do tempo, vinha o fato de que os vestidinhos na cantina do IEL eram mais coloridos e melhor recheados que os da cantina do IMECC, e então Jimmy Page continuava sendo uma fraqueza minha, mas confessada em ocasiões muito restritas...
Luiz Melodia não era mais o cara, o cara agora era o Paulinho da Viola, que aliás, diga-se de passagem que esse nome é meio estranho, porque a viola pra mim é aquela de 10 cordas da música caipira, mas como paulinho do cavaquinho é por demais óbvio e paulinho do violão tem um puta som esquisito, esse nome fica bem legal.
Paulinho da Viola aproveitou o vento favorável e caprichou neste samba bêbado, e o urso colimério aqui, flanando no espaço acabou dele bebendo, descobrindo e curtindo essa jóia, apesar de não ser, estritamente, um homem do samba. Sua volta foi em grande estilo, com capa e encarte cheios de desenhos de Elifas Andreatto, que havia sido seu parceiro de disco na sua fase áurea, uns 20 anos antes.
Musicalmente falando, o samba do Paulinho não é o da avenida, não é o samba heavy metal, é mais aquele samba de mesa de buteco, cujo único compromisso é ali, consigo mesmo, e com as ampolas douradas que dividem a mesinha. Daí que o nome Bebadosamba é baita de adequado. Em muitas das canções o tema é o próprio samba, em outros é a vida cotidiana, o amor, a Portela... Tudo delicadamente embalado pelos arranjos que incluem, ora, o piano inusitado de Cristóvão Bastos, ora a formação clássica do samba de mesa de buteco, ora um conjunto completo de choro. E de quebra, minha canção favorita na obra do Paulinho (mesmo considerado a pilha de clássicos dos anos 70): Timoneiro. Com letra de Hermínio Belo de Carvalho, a música começa com um balanço marcado no surdo, como o vai e vem das ondas:
Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar...

[M]

terça-feira, 16 de junho de 2009

LoveLeeRita - Ná Ozzetti (1996)


A Ná “desrroqueou” a Rita! E isso não é uma coisa que se pode fazer assim, todos os dias, certo?
Ná Ozzetti coloriu o som da Rita com cores diferentes, mais leves, com a cores de sua tradição vinda do Rumo e também de sua formação lírica. Demorei pra me convencer que o “LOVELEERITA” era legal, que podia sim, transformar o rock da Rita Lee em outra coisa e no fim, sair algo bonito.
E também acho que toda tentativa de interpretação tem muito de coragem, ousadia e amor. E que deve ser massa cantar Rita Lee, ah, isso deve! Irresistível…
Enfim, uma super homenagem com um repertório escolhido a dedo, precioso mesmo…

“Atlântida” (Saúde 1981) fica onde? Não sei se ela desapareceu do mapa ou sumiu mesmo foi do meu imaginário. E como a música diz “Que o mundo é dos que sonham/ Que toda lenda é pura verdade”. Ná Ozzetti canta bonito, lento, cada palavra fica nova com sua voz. O violão dá um som de roda, circular, que embala o ouvinte. O cd abre sonhando…

“Com a boca no mundo” (Entradas e Bandeiras 1976) tem um suingue gostoso e logo já vai dando aquela vontade de dançar. E aos poucos vou sendo levada por esse novo tom que Ná Ozzetti imprime às canções. Essa música é a cara da Rita Lee! Ela ainda meio menina, encontrando seu passo entre seu corpo, sua voz e sua vontade de botar a boca no trombone. “Com a boca no mundo” é uma verdadeira descoberta. É interessante como a Rita Lee (sozinha ou com outros compositores que não o Roberto de Carvalho - pelo menos no LOVELEERITA) compunha músicas completamente viajantes, grandes. Aqui eu falo de amplitude mesmo. Ela viaja em milhares de temas, descobre cavernas, anda por outras estradas. Com o Roberto, as composições já são mais sexuais, apaixonadas, muitas quase corporais. Que também é o máximo…
Acho esse poder de movimento muito legal – o de como uma parceria pode mudar teu “drive”. A Rita faz isso muito bem, se entrega.

“Mania de você” (Rita Lee 1979) na versão da Ná chega mais rápida, dançante. Acho que mais pop mesmo, menos carregada de estória. “Mania de você” foi composta pelo casal quando ainda estavam na cama… Na delícia da hora.
Foi interessante essa mudança de estilo (apesar de ser fã da versão original), já que com a Ná a estória é outra… No lugar da cama, entram os mil sopros que são de matar.

Bem, “Mutante” (Saúde 1981): essa é uma das minhas músicas favoritas da vida…
Ela chega chameguenta, entrando e tomando conta de mim sem pedir licença. E eu deixo…
Mutante é linda sempre e ainda mais nessa versão, que de quebra tem um trombone. É um escândalo simplesmente.
“Kiss me baby/ Pena que você não me kiss”.
É delicada, é exagerada, é a combinação perfeita das palavras. Tudo isso junto explode nessa música de amor temperada de todos os cheiros: dor, ressentimento, paixão, tesão e abandono.
E aí, “Mutante” levanta, toma força e nos deixa.

“Quem disse que eu tenho que me cuidar/ Tem certas coisas que a gente não consegue se controlar/ Comer um fruto que é proibido/ Você não acha irresistível?”
“Fruto Proibido” (Rita Lee & Tutti Frutti1975) malandraça! Essa versão tá cheia de percussão e guitarra. Tá muito massa! A música é um desses convites que a gente não tem coragem de fazer, sabe? “Fruto Proibido” é aquela vontade de desanuviar, de trocar de fantasia e sair vivendo.

Em “Luz Del Fuego”, que também está no disco Fruto Proibido, Ná Ozzetti não aguenta e roquenrroa total! Essa música é demais! “Hoje eu represento o segredo/ Enrolado no papel”. É incrível como Luz Del Fuego mexeu com o imaginário feminino. Muita cantora já cantou essa música e sempre muito bem. É que Luz Del Fuego não tinha medo…

O título “Raio X” (Bombom 1983) é perfeito para a velocidade da música. O som se arrasta e se espalha por cada vão e aí a gente se dá conta de “Quem nunca teve um sonho/ Quem é que não é sozinho”.
Essa música me faz pensar nessas cidades grandes, onde a janela da sala dá vista para enormes viadutos de concreto. O que a modernidade pode trazer de mais solitário.

A modinha mais poética que eu já vi é essa “Modinha”(Babilônia 1978) aqui. Linda…
“Todo remédio que me cura tem uma contra-indicação”. Perfeito.

Ná Ozzetti se descabela em “Mãe Natureza” (Atrás do Porto tem uma Cidade 1974). Não segura a onda dessa música e pira. Pira ela, pira a guitarra. E bem que fazem!
“Mãe Natureza” na minha opinião é a nossa erva de cada dia, aquela que embaça a mente na pitada certa e a gente já não sabe se estamos pirando ou as coisas é que estão melhorando!
Rock’n’roll de primeira, arraso. E eu tô facinha – que venha a mãe natureza tomar conta da minha cabeça. Oh yeah!!

Me lembro da primeira vez que ouvi “Doce Vampiro” (Rita Lee 1979). Eu ainda era menina e tinha uma prima mais velha que respirava Rita Lee. Um dia ela me chamou pra me mostar essa música, e eu mesmo ainda menina, achei o máximo…“Doce Vampiro” com Rita é imbatível…

Já que eu entrei no campo da memória… Enquanto no meu mundo só cabia Caetano, meus amigos de Barão, Mateus e Paulinho já ouviam Os Mutantes, ou pelo menos já sabiam da existência do grupo. E foram eles que me ensinaram essa musiquera toda. “2001” (1969) e “Vida de Cachorro” (1972) são lindas…
Adoro isso aqui: “Na velocidade da luz/ A cor do céu me compõe/ O mar azul me dissolve/ A equação me propõe/ Computador me resolve/ Amei a velocidade”.
Não é demais?

E o LOVELEERITA acabou. E eu que comecei esse texto ressabiada, enciumada da Ná roubando a minha Rita, termino esse post numa sensação de curtição total. Que delícia isso!
Ponto para Ná Ozzetti e um milhão de pontos para Rita Lee. I you love.

[ANDRÉA]

terça-feira, 21 de abril de 2009

Canções de Brincar, Palavra Cantada (1996)


Palavra Cantada é sinônimo de música de boa qualidade. Eu poderia escrever música de boa qualidade para crianças, restringindo a palavra cantada ao segmento “música infantil”. Mas isso seria por demais injusto e por si só não justificaria sua inserção num blogue com a proposta deste aqui. Primeiro porque de certa forma o trabalho da palavra cantada inaugura uma nova maneira de fazer “música infantil” e segundo porque é de muito boa qualidade a música que fazem, independente do público alvo.

Palavra Cantada é formada por Sandra Peres e Paulo Tatit e mais uma série de músicos de apoio e convidados que incluem estrelas da música brasileira além de filhos, primos, sobrinhos e uma criançada da pesada.

Canções de brincar é uma deliciosa aventura pelo universo da criança e a empatia é imediata. "A pulguinha" que faz cosquinha, a “Sopa” do neném (que ninguém sabe o que tem e que enquanto a mãe vai pondo espinafre, rabanete e agrião, os pequenos vão acrescentando sorvete, jacaré e caminhão...), a “Pipoca”, canção saltitante de Arnaldo Antunes (em cuja banda, durante muito tempo, Paulo Tatit foi baixista), que também contribui com “Água”, canção embalada por percussão africana suave e a aquosa voz de Mônica Salmaso.

Em "Aniversário", a data é comemorada como uma celebração ao crescimento, o moleque sente que (hoje!) cresceu tanto que está do tamanho de um elefante, de um gigante... Em “Ora Bolas”, a bola e o planeta se misturam e se confundem, o pequeno, o grande, e o infinito . E o planeta é uma bola que rebola lá no céu, bola que pula bem no pé, no pé do menino.

Como seria natural de se esperar no universo infantil, bichos aparecem às pencas, seja em “Tá na hora de mamar”, seja relinchando, uivando ou miando como em “É a vez do tamanduá”. Enquanto isso a deliciosa “Pomar" desfila frutas e suas árvores, cantada graciosamente pelas primas acompanhadas de percussão lúdica com pandeiro, reco-reco e artefatos do gênero.

O disco todo é delicioso, costurado com uma precisão e delicadeza incrível por Paulo e Sandra e o exemplar que tem em casa chegou antes da Clara. Daí, quando ela nasceu, já conhecia as músicas desde a barriga...
[M]

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Tem Mas Acabou - Pato Fu (1996)

O que é o Pato Fu? Qual é o som da banda? Que tipo de música eles tocam? Bem, se você acha que vai encontrar a resposta a essas perguntas aqui, ou, até mesmo, se você acha que estas perguntas são importantes, então pode pular pra próxima resenha.


Pato Fu é daquelas bandas que não se encaixam em lugar nenhum, e que não tem a menor preocupação com este encaixe e o som deles reflete muito bem isso. Ora pesado, acelerado e distorcido, ora eletrônico e cheio de samples, ora lento e suave... Tudo muito bem-humorado, já chegou a ser considerado pela própria Rita Lee como os legítimos sucessores dos Mutantes, e talvez este seja mesmo o parente mais próximo.


Um bom exemplo da mistureba total é a quarta faixa deste Tem, mas Acabou, de 1996. Capetão é pesada na guitarra, cheia de colagens musicais e tem uma participação (nem poderia deixar de ser) muito bem-humorada de André Abujamra. Voltando ao começo, o disco abre com Nós Mes, que é o auto-retrato da banda. É ouvir e continuar sem as respostas às suas perguntas, se você insistiu em ler até aqui. Em seguida, Água, traz o lamento de que mora no poeirão esperando a chuva e quando ela vem, o poeirão vira lama...


Pinga é o hit do grupo. Pelo menos aqui em casa. As crianças adoram e virou a trilha oficial do nosso carro em viagens mais longas. É daquelas músicas que as crianças pedem pra repetir e cantar junto o refrão homenagem à seleção de 70:


Se eu fosse Pelé, tomava café

Se eu fosse Tostão, tirava o calção

Se eu Fosse Dario, pulava no rio

Se eu fosse Garrincha, não pulava não.


A quinta faixa é O Peso das Coisas, que, apesar do nome traz a suavidade da Fernandinha Takai nos vocais (numa época em que eles ainda dividiam os vocais entre ela e John), numa balada pop no estilo ‘essa é pra tocar no rádio’ da banda. Segue Tchau Tô Indo Já Fui, com John cantando, o que nos dá a certeza de que a decisão de deixar todos os vocais a cargo de Fernanda foi uma decisão muito acertada (ainda que tenha demorado muito a acontecer, eles ainda gravaram uns quatro discos com John cantando...). Mas a música é boa, não destoa do resto do álbum, de forma alguma. Céreblo é canção protesto a la Pato Fu, o que significa: não espera qualquer semelhança com o Chico Buarque. Assim como Nuvens é bossa nova a la Pato Fu (precisa repetir a advertência?), com Fernanda cantando (talvez tenha vindo daí a idéia do Nelson Motta de gravar um disco homenageando a Nara Leão, ver postagens anteriores).


Little Mother of the Sky apesar do nome é cantada em português por John e tem um lickzinho muito bem executado pelo mesmo. Porque Te Vas é outro ponto alto do disco. Cover da música que fez sucesso num filme espanhol da década de setenta (Marcelino Pan e Vino? Não me lembro...) aqui recebe uma interpretação e arranjo que a transformam numa música autoral. A levada ligeira com base no trio clássico de guitarra (inspiradíssima aqui), baixo e bateria recebe o acompanhamento de um naipe de metais bem latino com Fernanda detonando na voz. Perfeita!


O disco segue legal, mas depois dessa música é inevitável perder um pouco o pique. 1 de Vocês, Lá se Vai, Dentro/Fora e Feliz Ano Novo fecham o disco com bons arranjos, boas passagens de guitarra, Fernanda cantando (que é sempre uma delícia...) mas nenhuma canção excepcional como Pinga, Água ou Porque te Vas. Não foi seu primeiro disco, mas este apresentou definitivamente a banda e sua graciosa vocalista. [M]

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Afrociberdelia - Chico Science e Nação Zumbi (1996)

Após emergir da Lama e do Caos (ver posts anteriores), que chacoalhou e devastou a terra brasilis dois anos antes, Chico Science retorna com sua Nação Zumbi propondo Afrociberdelia, senão como cura, pelo menos como remédio. Onde poderia se esperar mais do mesmo, uma continuação daquilo que havia dado certo no trabalho anterior encontram-se novos elementos no som de uma banda que tinha a preocupação de se reinventar sem perder a autenticidade, já no segundo trabalho, o que nos brindou com um dos melhores discos da década.


Eu vim com a nação zumbi, ao seu ouvido falar...

É Mateus Enter, o embaixador do maracatu enganando todo mundo num paródia heavy de Enter Sandman (Metallica), a trova que anuncia o início da festança. Com Pernambuco debaixo dos pés e a mente na imensidão vem, depois desta introdução, O Cidadão do Mundo. Se o som da banda perde em energia cinética (massa X quadrado da velocidade) ganha em afrociberdelia, e isso já fica claro nesta segunda faixa. A levada de baixo e bateria (uma novidade que depois se tornaria rotina no som da Nação Zumbi) acompanhada pelo violão (!) de Lúcio Maia é interrompida pelo breque com percussão de maracatu rural (uma paixão de Chico) e samples de sopro. O tema, banditismo è também recorrente na obra do compositor.


Etnia, música manifesto contra o racismo, também começa pesada, ameaçadora. Mas logo é dominada por scratches, samples e a batida de maracatu. No final, a miscigenação dos sons, a guitarra tornando o maracatu psicodélico, berimbau elétrico: nada de errado em nossa etnia!


Quilombo Groove é a faixa instrumental que abre Macô, um dos hits da banda. Além de uma canja mais que especial de Gilberto Gil nos vocais, a música traz uma levada de guitarra sutilmente funkeada e passagens de flauta que tornam a canção uma espécie de síntese da afrociberdelia. E Macô, quem é ou o que é, basta voltar à introdução, que contém um sample de Jorge Ben aconselhando: tosse! tosse! todo mundo tossindo!


Lúcio Maia repete ao longo de Um Passeio no Mudo Livre o lindo lick de introdução (a la John Frusciante), que tem uma letra desabafo, no estilo Sossego do síndico Tim Maia, se bem que muito menos explícito. A seção de sopros aqui é essencial, e o solo de trombone fazem deste um dos grandes momentos instrumentais do disco. Mas a minha favorita (?) vem depois desta: faminto e calmo e samba chegou... Carregado no wah-wah e com uma batida levemente acelerada, que lembra realmente um samba, Samba do Lado é outra faixa que poderia vira hino do movimento afrociberdélico (se o movimento existisse) com seu refrão que vai subindo de meio-tom em meio-tom até você ficar sem fôlego.


E não se dá um descanso, pois Maracatu Atômico (de Jorge Mautner) é outra afrociberdélica até a alma! A versão de CSNZ é uma aula de como fazer um cover. Sem descaracterizar a música, mantendo a estrutura melódica intacta, eles conseguem uma versão quase autoral: o maracatu fica mais atômico que nunca com Chico e a Nação, e ainda tem um gostinho de viagem ao fundo do mar (*).


Depois de narrar o Encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no Céu, o Corpo de Lama, é outra a firmar o marco psicodélico sobre o maracatu da Nação, antes de servir uma Sobremesa, experiência em inglês (mirando o mercado além-mar?) que Chico termina, aliviado ao que parece, na língua pátria.


Então entra uma linha de baixo e um vocal que parece sampleado de alguma coisa num inglês meio Jamaica que anunciam Manguetown. Tema que cairia bem no disco anterior, mas com a sonoridade típica deste aqui, Manguetown descreve a cidade e seus moradores andando por entre becos, andando em coletivos, ninguém foge ao cheiro sujo da lama da Manguetown! Crônica da capital pernambucana, o ponto final é de um realismo nada psicodélico: Fui no mangue catar lixo, pegar caranguejo, conversar com urubu.


Um Satélite na Cabeça é a faixa mais rock’n’roll do disco, marcada principalmente pela ênfase na bateria ao invés da seção percussiva da Nação e pelo vocal mais irado de Chico. A faixa prepara terreno, pois depois da psicocibernética instrumental Baião Ambiental, a banda vai quebrar tudo em Sangue de Bairro, que fez parte da trilha sonora de Baile Perfumado, gerando um clipe alucinado pelos cânions de Paulo Afonso (BA) enquanto o cangaceiro conta as sensações de ser decapitado. Heavy Metal perfeito primeiro porque está inserido num disco de outro gênero (um disco inteiro nesta toada seria um massacre), e depois pelos detalhes sutis da percussão (tem um triângulo que é especial mas, cá pra nós: alguns nem tão sutis. O maracatu da Nação prenuncia aqui a tonelada de peso que eles viriam a assumir num disco posterior). Enquanto o Mundo Explode acelera e pesa ainda mais (energia cinética a toda!) e tem os breques marcados pela percussão de Candomblé, enquanto que Interlude Zumbi é só percussão, voz e um berimbau alucinado.


Criança de Domingo é psico-folk-pop perfeito reinventado para o formato da Nação. Música mais lenta, Chico canta uma elegia otimista às pequenas alegrias do dia-a-dia. Seria a música perfeita para fechar o disco, mas eles ainda tem voz para uma história de amor. Simples, sem requintes românticos, Amor de Muito traz os metais de volta aos arranjos e apesar da batida do maracatu estar explícita, fica um ar quase bossa-nova (sem barquinhos, peixinhos e outras frescuras). O disco terminaria com uma faixa instrumental levada por Lucio Maia (psicodelicamente, é claro) na guitarra, se a gravadora não decidisse incluir três remixes distintos e totalmente dispensáveis do Maracatu Atômico (na era pré-mp3, o pessoal da grana achava que tinha que aproveitar ao máximo a memória do disquinho).


Chico deixaria a nação e a Nação tragicamente, num acidente de carro, o que não deixa de conferir à sua obra o charme dos heróis caídos em combate. Charme que ele certamente dispensaria em troca de poder desfrutar da Manguetown, como uma Criança de Domingo, passeando no Mundo Livre com toda sua afrociberdelia.


[MATEUS]

(*) Seriado de TV da década de 70.


terça-feira, 11 de novembro de 2008

Bloody!!!!! - (Roots - Sepultura - 1996)



Roots

Hoje comento um disco atípico, brasileiro sim, mas quase todo ‘cantado’ em inglês. É um marco no metal mundial, influenciando tudo o que foi feito de lá pra cá nesta área restrita e fechada do rock.
Esse disco também está citado no livro 1001 original, sendo que o Sepultura tem o álbum ‘Arise’ também na lista.
O disco já começa na pancada clássica e obrigatória em todo show: ‘Roots bloody roots’, gritada a plenos pulmões pelo fundador Max Cavalera.
‘Attitude’ começa com um berimbau, tem efeitos de DJ, uma batida quebrada, passagens mais calmas, percussões muito legais. Foge totalmente da mesmice do metal. Tem um clipe muito legal com o pessoal do Brazilian Jiu-Jitsu, procure no youtube.
Entre as influências, além da percussão (muitas das quais a cargo do Carlinhos Brown) e DJs, o Sepultura traz nesse disco afinações baixíssimas, um tom ou dois tons e meio abaixo do padrão.
Segue ‘Cut-throat’, mais uma porrada com efeitinhos dissonantes e percussão na cara. Os solos fogem do padrão metal, abusando de alavancas e dissonâncias com wah-wah.
‘Ratamahatta’ começa com uma batucada e vozes do Brown e Max, seguindo numa letra fraca em português, mas é uma música empolgante. Também tem um clipe bem legal, com animação em massinha...
‘Breed apart’ vem com um riff de batucada e guitarra muito legal – que lembra a rítimica de tamborins em sambas, na seqüência vem uma música típica do Sepultura, com quebradas, um riff agressivo no refrão e uma passagem lenta e barulhenta no meio e no fim. A novidade fica por um diálogo entre berimbau e guitarra. Muito bom.
‘Straighthate’ começa com baixo e bateria, seguindo em harmônicos de guitarra estranhos e dissonantes, feedbacks de dar gosto em Hendrix, descambando pra paulada, lenta e com vocais distorcidos.
‘Spit’ é uma música mais típica, thrash, rápida, gritada, com uma quebrada no final.
‘Lookaway’ já é outro papo, começa com uma bateria arrastada, entra o instrumental pesado que some em seguida, entra uma voz etérea, umas vozes faladas, uns efeitos de DJs (DJ Lethal, do Limp Bizkit). A música tem particpações de Johnathan Dvis (Korn) e Mike Patton nos vocais. Diferente, mas não é das minhas preferidas.
‘Dusted’ é típica música heavy, com as quebradas atípicas do Sepultura.
‘Burn stubborn’ começa com uma guitarra tipo sirene, seguida de 2 outras em estéreo fazendo o paredão de peso e preparando o riff corrido em oitavas, típico de Andréas Kisser. O vocal se alterna entre gritado nas partes rápidas e gutural/sombrio nas partes mais lentas. Ao final entram os índios Xavante com um coral que tem tudo a ver com o peso.
E aí vem a música ‘Jasco’, com Andréas ao violão, bonitinha.
‘Itsári’ (que significa raízes) mescla esse violão e os vocais ‘Datsi wawere’ (canto de cerimônia de cura dos índios) dos Xavantes, além de uma percussão tocada pela banda ao vivo na aldeia Pimentel Barbosa, MT. Muito legal.
Seguem mais 3 excelentes músicas pesadas, ‘Ambush’ (com uma batucada meio nada a ver no meio), ‘Endangered species’ (arrastada e com mais uma batucada no meio, deve ser pra justificar o cachê do Brown) e ‘Dictatorshit’.
A edição nacional vêm com dois bônus: os covers ‘Procreation (of the wicked)’ dos suíços Celtic Frost e ‘Symptom of the universe’ do Black Sabbath, que já tinha sido lançada no NIB vol 1 (tributo ao Sabbath). Boa escolha e excelente versão, com parte lentinha e tudo (que o Max não canta, mas o Andreas improvisa no violão).
Em 2005 foi lançada uma edição comemorativa com um cd extra, contendo as covers já citadas, mais ‘War’ (Bob Marley), excelente versão!! Ainda vem com umas versões demo e mixagens alternativas de músicas do disco original.
Após esse disco, Max saiu. Depois de 10 anos, o Igor Cavalera também saiu, fazendo alguns trabalhos de DJ com a mulher. Também se reuniu ao irmão e lançou uma pancada do Cavalera Conspiracy. Max lançou vários discos interessantes com sua banda experimental/metal Soulfly. Os boatos sobre uma reunião continuam vivos.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Pra Sempre Agora (Ataulfo Alves por Itamar Assumpção - 1996)

Este é o nome do projeto do Itamar Assumpção só com músicas de Ataulfo Alves. Ataulfo deixou as feministas em polvorosa com a eternização da figura da Amélia (que era mulher de verdade, não tinha a menor vaidade). O disco é fantástico, são 20 músicas do compositor mineiro na inconfundível voz de Itamar acompanhado da banda Isca de Polícia, melhor nome de banda nacional, disparado. Além de Itamar+Isca de Polícia, algumas faixas contam com convidados especiais, a banda feminia Orquídeas do Brasil por exemplo. Destaques são muitos: Na cadência do Samba, Meus Tempos de Criança, Bom Crioulo, Laranja Madura ... e a versão fantásticamente absurdamente linda de Leva Meu Samba. Que quiser conferir:
http://www.4shared.com/file/59021809/393114db/Ataulfo_Alves_por_Itamar_Assumpo__Pra.html

(MATEUS)