Obs: menção especial a todos os amigos que participaram daquela viagem no verão de 93/94, como Léo Baiano (que levou o acervo do Caetano para aquela viagem), Digão, Zedu, Valdemar e Luiz Marcelo Baiano (que organizou a viagem), entre outros.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
Caetano Veloso - Transa
Obs: menção especial a todos os amigos que participaram daquela viagem no verão de 93/94, como Léo Baiano (que levou o acervo do Caetano para aquela viagem), Digão, Zedu, Valdemar e Luiz Marcelo Baiano (que organizou a viagem), entre outros.
domingo, 8 de janeiro de 2012
Tropicália ou Panis et Circences (1968)

Após mais de 200 resenhas de discos no presente Blog, reparei que até o momento, não constava simplesmente um dos discos mais geniais: Tropicalia ou Panis et Cincences, de Caetano, Gil e toda trupe tropicalista. Talvez a razão pela demora esteja justamente no fato de ser tão fundamental na discografia brasileira e mundial (poderia ser hors concours em qualquer lista do gênero), que é uma grande responsabilidade resenha-lo aqui.
Impulsionados pelo impacto de suas músicas no festival da Record de 1967, Caetano, Gil, Mutantes e companhia (ilimitada nesse caso) resolveram tocar o projeto em frente e lançar um disco que se tornou uma espécie de Manifesto do Tropicalismo. Sintomaticamente, sua gravação iniciou-se justamente em maio de 1968, ao mesmo tempo em que o mundo explodia em protestos e revoluções. No caso particular desse disco, pode-se dizer que serviu para revolucionar a música brasileira, superando debates entre bossa nova e jovem guarda, e trazendo ideais da Semana de Arte Moderna de 1922 para a música brasileira.
Contando com arranjos vanguardistas do maestro Rogério Duprat (falecido em 2006), sem receio de misturar sons e influências diversas, o resultado não poderia ser melhor. Possivelmente, o lançamento de Sargent Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, também influenciou na concepção desse disco.
O disco abre com o som de órgão de igreja para ser interrompido por um sininho que lembra vendedores ambulantes de rua em “Miserere Nobis”, de Gilberto Gil e Capinan, interpretado pelo Gil. Nessa canção já dá para ter uma ideia da profusão de sons que constituirá o restante do álbum.
Em seguida, Caetano interpreta “Coração Materno”, uma velha seresta de Vicente Celestino que, curiosamente, faleceu em agosto de 1968, quando estava de saída para assistir a um show de Caetano e Gil. A minha tese é de que a inclusão de uma seresta de 1951 no disco foi uma espécie de provocação à Bossa Nova, cuja uma das bandeiras tinhas sido se contrapor ao jeito de cantar velhas serestas.
Curiosamente, a canção “Tropicália’, de Caetano, ficou fora do disco, mas certamente a outra que deu nome ao disco acabou sendo uma das mais marcantes: “Panis et Circenses”, de Gil e Caetano, outra que se tornou clássica na interpretação dos Mutantes. O interessante é que música está repleta de “brincadeiras”, como o som de vitrola desligando no meio da música para retomar em seguida, assim como a sonorização de uma verdadeira sala de jantar, com direito à voz de Manoel Barenbein (produtor do disco) pedindo para passar a salada tendo, ao fundo, o som de Danúbio Azul. Essa canção também fez parte do primeiro disco exclusivo dos Mutantes, lançado no mesmo ano.
No avesso do espelho...Mas desaparecida...Ela aparece na fotografia...Do outro lado da vida. A canção seguinte, “Lindonéia”, de Caetano e Gil, recebe a interpretação da ex-bossanovista Nara Leão, simbolizada na capa do disco com uma retrato enquadrado em preto e branco.
É somente requentar... E usar... porque é made, made, made, made in Brazil. Tempo para a crítica inteligente e satírica de Tom Zé em “Parque Industrial”, contando com a participação de praticamente toda a trupe tropicalista na interpretação. Outra canção marcante.
Depois de “Geléia Geral” (Gilberto Gil e Torquato Neto), com a voz de Gil e sons de fanfarra reforçando o toque circense, vem “Baby” (de Caetano) na voz divina de Gal, acompanhada de leve por Caetano. Trata-se de outra canção marcante da música brasileira.
Nessa verdadeira salada geral do tropicalismo também tem espaço para o ritmo caribenho em “Tres Caravelas”, versão de João de Barro para “Las Tres Carabelas” originalmente gravada pelo The Shadows, que no presente disco foi interpretada por Caetano e Gil.
O disco segue ao som de clarins que remetem a bandas militares em “Enquanto seu lobo não vem”, mais uma canção com uma sutil e inteligente crítica ao momento político. Destaque ainda para o trecho da Internacional Comunista inserido logo após o verso: Vamos passear nos Estados Unidos do Brasil...Vamos passear escondidos.
A brilhante voz da Gal Costa ressurge em “Mamãe Coragem”, de Caetano e Torquato Neto, uma espécie de manifesto feminista tropicalista, seguindo com os batuques de “Bat Macumba” de Gil e Caetano que se tornou clássico na voz do primeiro, contando ainda com a participação dos Mutantes (essa canção também fez parte do repertório do primeiro disco dos Mutantes, lançado também em 1968).
Para finalizar (e confundir ainda mais os ouvinte), “Hino do Senhor do Bonfim”, com a participação de quase todos tropicalistas, ao som de banda.
Importante citar também a genial capa do disco, que contou com todos os tropicalistas posando como se fosse uma tradicional família brasileira, com diversos detalhes interessantes, como as guitarras empunhadas pelos irmãos Baptista como se fossem armas revolucionárias (na época se debatia a pertinência das guitarras na música brasileira); ou ainda o penico nas mãos de Rogério Duprat como se fosse uma xícara de chá, além da já citada foto da Nara Leão.
A importância desse disco é tão grande que serviu de inspiração para importantes nomes da música internacional como David Byrne e Beck entre outros. 25 anos depois, Gil e Caetano fizeram uma versão 2 do Tropicália, já resenhado aqui também . De fato, Tropicália ou Panis et Cincencis abalou as estruturas da música brasileira ao romper com conceitos e preconceitos. Se a ideia era abalar as estruturas da música brasileira, os tropicalistas podem se vangloriar do pleno sucesso obtido na empreitada. Cabe à gente reverenciar eternamente esse manifesto em forma de disco.
[Paul]
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Tropicália 2 - Caetano e Gil (1993)

A Tropicália foi um movimento artístico ímpar na cultura brasileira - não só por ter expressado uma nova atitude perante à política, a moral e ao corpo, mas porque soube fazer tudo isso de um jeito diferente. Os tropicalistas inventaram uma nova estética: misturaram plástico à miçanga, guitarra ao berimbau, Coca-Cola à Brigitte Bardot. A cena musical brasileira em 1968 foi se tornando cada vez mais polivox: conversavam o velho e o novo, e o Brasil com o mundo.
Em 1993, a Tropicália completou 25 anos e os dois pop-tropicalistas Caetano e Gil comemoram fazendo o que fazem muito bem: música! Se uniram ao Liminha, tropicalista histórico da primeira hora na produção e, juntos, foram costurando um novo projeto que tinha a ver com o passado, mas que também tinha muito a ver com o que a Tropicália tinha feito de todos eles. Como se a criatura estivesse sendo engolida pela boca do criador.
O cd abre com “Haiti” – rap em baixa velocidade, violoncelo de Moreno e percussão de Ramiro Mussoto se misturam à história lado B do Haiti. E na música, estórias vão se cruzando com questões raciais que não se apagam com o tempo, a outras estórias, e a sensação que nos resta é a de que não precisamos ir até ao Caribe, que o Haiti, é aqui. O Haiti não é aqui.
“Cinema Novo” é uma obra de arte. O cinema como fonte de inspiração para a Tropicália. A tela era um lugar, onde sem dúvida, se estabelecia “outras conversas sobre os jeitos do Brasil”. E num balanço delicioso, alegre, a música vai contando a estória do impacto do cinema na música. É a pororoca entre as duas artes: “as imagens do país desse cinema entraram nas palavras das canções”. Cinema Novo, o novo Cinema Transcendental.
“Nossa Gente” e “Cada macaco no seu galho”, bahianíssimas total. É o carnaval que corre nas veias e escorre desses dois baianos. A primeira do Olodum, dona da melhor frase do ano : avisa lá que eu vou chegar mais tarde! E segunda do Riachão, com a participação do Carlinhos Brown, engrossando a presença soteropolitana no cd.
O som negro roquenrrol de Jimi Hendrix era ouvido adoidado pela trupe tropicalista no apartamento paulistano, entre móveis de acrílico coloridos, onde morou Caetano entre 1967 e 68. Influência fundamental na Tropicália, Jimmi Hendrix não poderia faltar em “Tropicália 2”. “Wait until tomorrow”: leitura suingada, abrasileirada, com a presença mais uma vez da turma de Carlinhos Brown e de Nara Gil.
“Tradição” é uma das minhas músicas favoritas do Gil. É uma música que traz coisas da Bahia, um sentimento do lugar, mesmo pra quem nunca tenha vivido lá… Traz também o desabrochar de uma personalidade. É um menino que olha para uma menina, mas acaba observando que o rapaz que estava com ela era diferente de tudo que ele tinha visto até então. Uma coisa meio rock’n’roll, com calça americana. “Tradição” conta a estória de um projeto de ser um homem diferente, que acaba sendo mais importante do que ter aquela menina. O lindo na música é o interesse e a identificação pelo diferente.
“As coisas” a lindíssima de Arnaldo Antunes, além de mais suave na voz de Gil e Caetano, ganha também uma batida mais rock com as brincadeiras de Pedro Sá na guitarra e Liminha no baixo. Gosto especialmente da inclusão da aguda “As coisas”. Essa escolha é mais uma prova da intenção polivox tropicalista.
“Baião Atemporal”, gravada em Los Angeles, é quase uma oração para Tom Zé. De Irará para o mundo.
“Tropicália 2” é uma metamorfose feita em tom de festa. É o encontro com a necessidade de Caetano Veloso em esticar a palavra e seu sentido até a explosão, com a natureza aventureira e livre de Gilberto Gil …
[ANDRÉA]
Lisbela e o prisioneiro - trilha sonora

quinta-feira, 26 de maio de 2011
O Cinema Transcendental de Caetano Zenloso (1979)

O que eu gosto neste disco é o equilíbrio suave e natural apresentado na lista de canções que se não inclui aqueles super-clássicos-quarentena do baiano, traz algumas das suas mais bonitas composições. Nunca me preocupei em elencar, nem mesmo em pensamento, as minhas músicas preferidas deste mestre absoluto, mas certamente, se o fizesse, não poderia deixar de incluir Trilhos Urbanos e Oração ao Tempo.
Neste disco, temos o Caetano Zen (desde a capa!), deixando sua música fluir como uma inevitável corredeira rio abaixo. Nada de musas híbridas e suas carapinhas cúpricas. O cinema transcendental inicia a sessão saudando a Lua de São Jorge, Lua soberana, nobre porcelana sobre a seda azul. Mais zen impossível, esta música parece uma colagem de hai-cais sobre a lua. E adiante aparece Beleza Pura, não me amarra dinheiro não (bem, isso foi bem antes da Paula Lavigne). Balanço irresistível, parece um reggae, mas te pega no engano quando ele entra a contar daquela preta que começa a tratar do cabelo com as conchas do mar, com toda delícia e toda minúcia, o reggaezinho deriva pra quase um soul à (e á!) baiana, ato de pura devoção.
O Menino do Rio ganha uma versão mais lenta e arrastada e menos urgente do que aquela que ficou célebre na voz de Baby (então Consuelo. Aliás, versão definitiva, diga-se de passagem...). Seguida de uma interpretação malandra do Vampiro de Jorge Mautner, mostra um Caetano antenado em interesses menos ortodoxos...
Elegia é um poema do poeta inglês do século XVII, John Donne, traduzido por Augusto de Campos e musicado por Péricles Cavalcanti. Ainda assim, a canção passa a milhas da academia e transborda erotismo, liberto-me ficando teu escravo, nada pode ser mais preciso...
Cajuína ficou célebre, um xotezinho de improviso, simples na forma, e que mostra um Caetano já mais experimental nas palavras enquanto que Louco Por Você é o justo desfile da sensacional A Outra Banda da Terra que o acompanha neste disco maravilhoso... Aracaju, Badauê e Os Meninos Dançam não destoam, mas fecham o disco quase sem ser notadas, e não era pra menos, pois as outras canções são muito acima da média.
Voltando aos Trilhos Urbanos, o melhor o tempo esconde, e aqui Caetano mostra, leve e solto, o mestre que é, cantando e assobiando em ritmo de passeio de bonde, ora acentuando a penúltima sílaba, ora caprichando no iiiiii...
Mas aquela canção de dar inveja mesmo, de querer cobrir o cara de porrada por ser tão filhadaputamente bom, é Oração ao Tempo. O toque de Midas aqui é a percussão em ritmo de tica-tac levemente descompassado, o suficiente pra transformar o relógio e o passar contínuo e monótono do tempo em música.
Obra de um gênio. Ave caetano
[M]
ps: o post é dedicado ao Zeba e ao Xampu...
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Noites do Norte ao vivo - Caetano Veloso (2001)

Pára de ondular, agora, cobra coral:
a fim de que eu copie as cores com que te adornas,
a fim de que eu faça um colar para dar à minha amada,
a fim de que tua beleza
teu langor
tua elegância
reinem sobre as cobras
não corais.
Caetano Veloso é fruta que perfuma com cor absoluta.
“Noites do Norte ao vivo” é mistura do velho com o novo - faz do velho o novo e o novo ainda mais novo. E celebra algo muito especial: música é um universo aberto onde se pode mexer, mudar, pôr e tirar - absorve transformação. A música pode ser um mar antes navegado, mas em que, a cada viagem, você pode descobrir uma parada nova. Isso é de uma liberdade incrível.
Na voz de Caetano muita gente aparece em “Noites do Norte”. Todos gente de primeira: Gil, Jorge Ben, Lulu Santos, Tom Jobim, Waly Salomão, Luiz Melodia, Carlinhos Brown. Aparecem também aquelas pedras preciosas perdidas: Alain Tavares e Gilson Babilônia.
É um disco sem rumo, vai parando em vários portos, enfrenta águas mais ou menos turbulentas, mas é um disco fundamentalmente brasileiro e tropicalista. “Noites do Norte” permite misturas, permite interferências: fala da gente, das nossas heranças, do nosso jeito de amar, do nosso jeito de ser e de fazer rock e da nossa língua.
Parte da África na procura de explicação com a linda “Zumbi”, “Noites do Norte” ou a rápida “Sugar cane fields forever”. Mas na procura a nau se perde nas águas profundas do amor com a obra-prima de quase todos os tempos “Nosso estranho amor”, com a doce e deliciosa, dessas de cair de paixão, “Mimar você”, com “Dom de Iludir” funkeada – Caetano aí é perfeito na mistura de águas – com “Caminhos Cruzados” e finalmente com “Magrelinha”, que naquele amontoado de palavras, torna a poesia puro ecstasy.
Num rock profundo com muita percussão, música que eu queria pra mim, Caetano volta do fundo com “Tigresa”, maravilhosa. “Tropicália” que contém a agressividade sonora do rock surge para provar que o velho continua novo e ainda repleto de sentido. E do fundo surge também a nova “Rock’n’Raul”. Essa eu adoro e dispensa qualquer comentário.
Na marola, “Menino do Rio” chega com mais balanço, “Gatas extraordinárias” malandraça total e “Menino Deus” que fecha “Noites do Norte” já na praia, com sensação de missão cumprida.
"Você provocou
Tempestades solares no meu coração
Com as mucosas venenosas de sua alma de mulher
Você faz o que quer
Você me exasperou
Você não sabe viver onde eu sou
Então adeus
Ou seja outra:
Alguém que aguente o sol"
[ANDRÉA]
domingo, 23 de novembro de 2008
Estrangeiro - Caetano Veloso (1989)

Caetano Veloso é tido como dos maiores gênios da MPB. Isso se dá, em larga medida, pelo que produziu entre Transa (1972) e Estrangeiro (1989). Durante esses quase vinte anos, o compositor baiano apresentou ao público uma música de altíssima qualidade. Curiosamente, as duas "pontas" desse ciclo trazem o melhor do melhor. Se "Transa" é maravilhoso em sua simplicidade e tristeza no exílio londrino, "Estrangeiro" é sofisticado, colorido e aponta para o futuro da música brasileira, mesclando tecnologia e influências diversas. É desse último disco que falo agora.
Produzido por Peter Sherer e Arto Lindsay (esse último trabalharia, anos depois, com Marisa Monte e também com David Byrne), "Estrangeiro" começa chamando a atenção pela capa - a reprodução de uma pintura de Hélio Eichbauer para o cenário da peça de Oswald de Andrade "O rei da vela" em montagem do Teatro Oficina, no ano de 1967. Ecos do tropicalismo, referência constante na obra de Caetano.
A faixa de abertura é "O Estrangeiro", o grande momento do disco. Com a participação dos produtores Sherer e Lindsay e também com Naná Vasconcelos na percussão e voz, a música é fenomenal. Um piano acompanhado de bateria eletrônica e algumas distorções de fundo seguem Caetano, que recita os primeiros versos.
"O pintor Paul Gauguin amou a luz na Baía de Guanabara/
O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela/
A Baía de Guanabara/
O antropólogo Claude Levy-strauss detestou a Baía de Guanabara:/
Pareceu-lhe uma boca banguela/
E eu menos a conhecera mais a amara?/
Sou cego de tanto vê-la, te tanto tê-la estrela/
O que é uma coisa bela?
O amor é cego/
Ray Charles é cego/
Stevie Wonder é cego/
E o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem..."
E por aí segue, em sua letra quilométrica e recheada de citações. Mais de seis minutos de uma bela produção, que conta ainda com um interessante solo de guitarra. Sem dúvida, um dos maiores momentos da MPB em todos os tempos, apesar da discordância de alguns.
Na sequência, aparecem "Rai das cores", "Branquinha" e "Os outros românticos", três momentos fortes e extremamente bem conduzidos. Fica claro o peso da mão de Lindsay, que influenciava muito o compositor baiano à época das gravações. O disco traz ainda uma parceria em inglês do trio Caetano-Sherer-Lindsay, "Jasper", e as medianas (quando comparadas com as demais) "Este amor", "Outro retrato" e "Etc.". Assim como em outros trabalhos, Caetano dedica muitas dessas canções a antigos e eternos amores e amigos (a ex-Dedé Veloso, Paulinha Lavigne e Jorge Mautner).
A última canção é a mais alegre e colorida da obra. "Meia-lua inteira", do até então desconhecido Carlinhos Brown ("Carlinhos por parte de mãe, Brown do mundo", diz o genro de Chico Buarque), foi o grande hit do disco e chegou a fazer parte da trilha sonora de uma novela global. Com o próprio Brown na percussão e uma levada de guitarra deliciosa, fecha "Estrangeiro" em elevadíssimo astral.
'Meia Lua Inteira/
Sopapo na cara do fraco/
Estrangeiro gozador/
Cocar de coqueiro baixo/
Quando engano se enganou.../
São dim, dão, dão São Bento/
Grande homem de movimento/
Martelo do tribunal/
Sumiu na mata adentro/
Foi pego sem documento/
No terreiro regional.../
Uera rá rá rá/
Uera rá rá rá/
Terça-Feira Capoeira rá rá rá/
Tô no pé de onde der rá rá rá rá/
Verdadeiro rá rá rá/
Derradeiro rá rá rá/
Não me impede de cantar rá rá rá rá/
Tô no pé de onde der rá rá rá rá.../
Bimba birimba a mim que diga/
Taco de arame, cabaça, barriga/
São dim, dão, dão São Bento/
Grande homem de movimento/
Nunca foi um marginal/
Sumiu na praça a tempo/
Caminhando contra o vento/
Sobre a prata capital..."
Encerra-se assim a fase "genial" de Caetano Veloso. Depois disso, ele fez grandes turnês (sozinho e com Gilberto Gil), gravou em espanhol e em inglês, participou de trilhas sonoras de filmes nacionais e até flertou com o rock ("Cê", seu último disco, já resenhado por aqui). Nada, porém, que chegasse aos pés de sua produção setentista e oitentista. Em alguns momentos, chega a ser constrangedor.
"Estrangeiro", de todo modo, redime o baiano dessas críticas. Um disco para ser escutado e escutado e escutado, sempre. Brilhante.
(André Xampu)
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Um Anticomputador Sentimental (Caetano Veloso 1969)

Selecionar um ou outro disco do Caetano Veloso para compor essa seleta lista não é das tarefas mais fáceis. Entre tantas obras primas, já foram citados o “petardo” Cê (Dão) e Cores Nomes, um “caetano sem gelo e limão” (Mateus).
Como bom gosto não se discute, mas se compartilha, vou dar minha contribuição, incentivado pelo recente show que tive o prazer de assistir no Municipal na semana passada.
Trata-se de “Caetano Veloso”, de 1969, disco que conheci ainda na infância graças ao bom gosto musical da Nati, minha irmã.
Pessoalmente, creio que foi uma versão tropical do conhecido “álbum branco” dos Beatles, lançado menos de um ano antes desse, a começar pela capa igualmente branca (apenas assinatura do músico - pode não parecer, mas a capa está no início do post), passando pela ausência de um nome, até sua própria configuração, com músicas aparentemente contraditórias que travam um interessante diálogo. Mais do que influência, o disco do quarteto de Liverpool pode ter servido como inspiração.
O disco abre com a irreverente “Irene”, que de modo perspicaz, reproduz, ao som da guitarra, a famosa risada que ele tanto queria ver (homenagem à sua irmã). Reparem...
Depois, a melancólica “Empty Boat”, talvez uma das primeiras composições de Caetano em inglês. Embora pouco conhecida, seu belo arranjo consegue transmitir um vazio existencial que tão bem se encaixa em certos momentos da vida (duvido que alguém já não tenha sentido).
O ritmo volta a ficar alegre com o faceiro “Marinheiro Só” com seu bonezinho, repetindo a fórmula nas músicas seguintes: “Lost in Paradise” (outra composição em inglês, na sua preparação para o exílio) seguida pela carnavalesca “Atrás do Trio Elétrico” que dispensa comentários. Só não vai quem já morreu.
O fado lusitano se faz presente com “Argonautas”, que trouxe para camisetas do Brasil todo a frase Navegar é Preciso Viver não é preciso. Ao contrário de que muita gente pensa, o sentido que Fernando Pessoa empresta ao termo “preciso” não tem nada a ver com necessário, mas sim com exatidão. Seria a contraposição da navegação (com regras da ciência exata) com a vida (cujo fim ninguém conhece). Era Caetano às vésperas do exílio.
Na seqüência, interpretação da bela “Carolina” de autoria de Chico Buarque.
Eu bem que avisei, vai acabar, de tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei pra lhe agradar, agora não sei como explicar... só Carolina não viu.
Sensivelmente bela e ao mesmo tempo triste, parece que essa música serviu de inspiração para o batismo de tantas “Carolinas”, que certamente procuram outro destino.
O disco segue com tempero argentino no tango “Cambalache” para emendar com a belíssima “Não Identificado”, uma canção dizendo tudo a ela, que ainda está(ou) sozinho, apaixonado... uma canção de amor! De tão linda, essa música foi gravada e regravada várias vezes (Gal, Bethânia, etc), cada um com uma levada diferente, mas igualmente líricas. No youtube tem um depoimento da mana do Caetano seguida de uma interpretação que faz marear os olhos (http://www.youtube.com/watch?v=sJN_a8dy7kU),
E caso canção de amor não identificado não fosse suficiente para abrir olhos de Carolinas, Caetano não poderia ter se saído melhor na seqüência: Podemos ser amigos simplesmente... coisas do amor nunca mais, interpretando Chuvas de Verão, de Fernando Lobo. Momento sublime.
Para finalizar, quero o que não mereço....o começo, a poesia “Acrilírico”, com a participação do maestro do tropicalismo Rogério Duprat, seguida de “Alfômega”, do amigo Gilberto Gil, que deve ter servido de inspiração para que outro baiano – Carlinhos Brown - fizesse o também elogiado “alfagamabetizado” cerca de 25 anos depois.
Enfim.... só escutando mesmo todo o disco para sentir como essa profusão de estilos, ritmos e línguas que interliga um ie-ie-ie romântico com Carolina dos olhos fundos, passa de trio elétrico para o empty boat e mistura tango com fado produz um resultado tão genial.
[PAUL]
Segue link para baixar o disco: http://link-protector.com/176329/
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Quem foi que disse que os melhores discos do Caetano são os mais antigos? (Cores Nomes Caetano Veloso - 1982)
Eu disse!, e a prova tá aqui: este post não é apenas uma provocação ao post do "Cê", é acima de tudo, uma opinião (mas se alguém postar "Araçá Azul" eu não brinco mais!...). Bem, vamos ao que interessa: Cores Nomes, disco do Caetano de 1982. Meu disco favorito do Caetano. Porque? nem sei... Talvez porque me lembre da casa da minha irmã, este disco, Luz (Djavan, que em breve será postado), e 4Way Street (CSN&Y). Ou talvez por que o disco seja real e simplesmente muito bom!!! Abre com "um amor assim delicado, você pega e despreza!", caetano gritando uma queixa à mulher amada, "não devia ter despertado, ajoelha e não reza". Quem é que já não se sentiu assim? A música tocou demais? Sorte nossa! E pros enjoados: isso foi há mais de 20 anos, pode sentar e escutar de novo, tranquilamente. Depois, pra arrebentar, "Ele me deu um beijo na boca". A música é um show à parte da banda que o acompanha, em especial um contra-canto árabe, cortesia de Jane Duboc. Trem das Cores, "a seda azul do papel que envolve a maçã", é a próxima, uma das músicas mais bonitas do caetano. As três próximas faixas que fecham o lado A dão um descanso ao ouvinte, o que arrebenta mesmo são essas três primeiras... Descansou? Levantou, mudou o lado e lá vem "Cavaleiro de Jorge" tirando o fôlego de novo. Caetano interpreta Sina de Djavan em seguida, e essa música casa muito bem com ele. Depois vem a música de amor mais bela já escrita em português, "Meu Bem, Meu Mal". Muito mais exagerada que o exagerado de cazuza, muito mais desesperado que o amor do maestro por Luiza, "você é meu caminho, meu vinho, meu vício desde o início...". De novo ele desacelera pra terminar o disco, preguiçosamente, com Gênesis, Sonhos (de Peninha) e Surpresa...Cores de vários tons e matizes. Nomes de gente as mais diversas. Caetano puro, sem gelo ou limão. [MATEUS]
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Rock'n'roll! (Cê - Caetano Veloso 2006)
Quem disse que o clássico tem que ser velho? Quem criou a diferença entre rock e mpb? Quem foi que disse que os melhores discos do Caetano são os mais antigos?
Bullshit.
Em 2006 Caê lançou esse petardo (termo sempre usado no rock, mas que merece aqui sua presença). Rock, mpb, excelentes composições, timbres surpreendentes, vozes e melodias marcantes, espaços e silêncios entre os sons. Um clássico quase instantâneo. Quase porque o disco merece várias audições antes de se apegar a ele.
Eu não tenho muito saudosismo. Gosto de discos mais recentes do Caetano, como Noites do norte, A foreign sound, Fina estampa, Circuladô. Até compro os cds...
Claro que também admiro muito o trabalho dos anos 70 (que claro que também têm clássicos do próprio a serem postados aqui), mas em geral os timbres, principalmente os de guitarra, são sofríveis. Que me desculpe o Genial Lenny. Nos anos 80, pós-Liminha produzindo o Gil e depois do BRock, os sons melhoraram muito. E o Caetano continuou a lançar excelentes discos.
Mas discordo, por exemplo, do disco de 1968, auto-entitulado, constar no livro '1001 discos pra ouvir antes de morrer' (que obviamente serve de inspiração para este blog que vos posta), juntamente com o Circuladô, que eu adoro.
Preferiria ver o Araçá azul, mais experimental que o citado, sem nenhuma composição top e com aqueles timbres horrendos de guitarra. Mas eu acho mais merecedor da citação.
Eu tenho uma viagem recorrente matinal, naquele estado sonâmbulo quase lisérgico ao despertar: eu ouço discos que não foram lançados, tipo Hendrix com Miles, Hermeto com Tom, Janis com Lennon, Gil com Jorge (ops, esse existe...). E às vezes eu ouço o ‘Araçá blues, agora com pro-tools’, com vozes de Carmen sobrepostas a loops de Timbalada, o silêncio de João mixado ao virtuosismo de Pepeu, vozes de Orlando Silva e Caymmi fundidas com a de Janis Joplin, um cd com 128 canais barrocamente trabalhados... Será que ainda ouvirei esse neofonismo? (Adoro essa palavra! Vale uma música).
Mas vamos ao disco: inicia com ‘outro’, com um riff básico e forte, como um bom rock tem que ser; traz ainda a excelente frase ‘feliz e mau como um pau duro’! Tem um solo de guitarra excelente e atípico nos discos do Caê.
Na seqüência muda o clima, ‘minhas lágrimas’ é cheia de espaços e silêncios, com uma guitarra presente e discreta. Bonita.
Aí vem o primeiro orgasmo (cedo demais?): ‘Rocks’, reta e poderosa, com solo ‘mete o dedo na guitarra’ com feedback e tudo. ‘Você foi mor rata comigo’ é um excelente grito inimigo. Será que o Caetano pagou royalties ao Zeca?
‘Deusa urbana’ pertence a linhagem de músicas inspiradas em fêmeas. Belo é ver o medo exposto, a mucosa roxa citada, uma guitarra com trêmolo e overdrive.
‘Waly Salomão’ é mais uma marca que os poetas (o homenageado e o cantor) deixaram pra nós, música tribal e boa.
‘Não me arrependo’ inicia com uma citação de ‘Walking on the wild side’ do Lou Reed e uma bateria que lembra a música anterior. Linda letra, sobre bons sentimentos em fins de relacionamentos (tema sempre inspirador). Há aqui, e em todo o disco talvez, uma tendência a interpretar a arte como auto-biográfica (Caetano vinha de uma separação). Acho irrelevante, além de inútil e desinteressante. Talvez seja trabalho pra seu biógrafo...
‘Musa híbrida’, dançante, com uma guitarrinha safada (não sei se há um wha-wha ou um auto-wha). Tem uma levada de bateria quase axé, uns falsetes quase gays, uma letra quase Carlinhos Brown. Mas afinal o que significa ‘cúprica’? Estou sem dicionário por aqui...
Mais um orgasmo: ‘Odeio’, rockão, guitarra obsessiva e insistente, riff primal. Mas a música muda, oscila, acalma. Tem alguns dos melhores versos do disco: ‘todas mucosas pra mim’, ‘forte e feliz feito um deus, feito um diabo’, ‘só eu, velho, sou feio e ninguém’, ‘veio e não veio quem eu desejaria se dependesse de mim’, ‘São Paulo em cheio nas luzes da Bahia / tudo de bom e ruim / era o fim, é o fim, mas o fim é demais também’. Uma guitarra esquizofrênica com filtro encerra com chave de Hendrix.
‘Homem’ diz o orgulho de sê-lo, e diz tudo e diz bem. Mas fica a inveja dos orgasmos múltiplos. Fazer o quê? Gozar? O que é o tema da música seguinte, ‘porquê?’. ‘Estar-se a vir’ seria algo como ‘estou gozando’ em Portugal. Vem acompanhada de um sotaque lusitano. Se eu fosse produtor teria limado essa.
‘Um sonho’ parece que traz Morelembaum de volta, mas é uma guitarra em stacatto, bela música.‘O herói’ é uma das minhas preferidas, tema épico, dinâmica, temática bandida, narrativa que se aproxima do rap, vozes em dissonância de microtons no fim. Encerra irritando. Rock’n’roll!!!!
