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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Marcelo D2 canta Bezerra da Silva


Depois do dia do samba, 02 de dezembro, fazemos a nossa singela homenagem a esse gênero que agoniza mas não morre, principalmente a recriações como a do próprio D2, que o misturou ao rap (ou mesmo ao som mais pesado, como no primeiro disco do Planet Hemp).
Aqui ele é bem reverente ao Mestre da Malandragem, Bezerra da Silva, não misturando nada e mudando bem pouco as letras.
A capa é uma adaptação de uma do próprio Bezerra, do disco 'Eu não sou santo'...em vez de revólveres, como no original, aqui D2 usa microfones.
Não tem muito o que comentar sobre as músicas, são do repertório do Mestre Bezerra, que na verdade pouco compunha, garimpando as pérolas que gravava nos subúrbios, onde encontrava excelente compositores.

Começa muito bem, 'Se não fosse o samba'. Eu ainda prefiro nesse caso o original, que começa só com o vozeirão do Bezerra, mas vale muito a homenagem.
"E se não fosse o samba
quem sabe hoje em dia eu seria do bicho.
Não deixou a elite me fazer marginal
E em seguida me jogar no lixo"
(esclarecendo, 'do bicho' no dialeto carioca não quer dizer necessariamente ligado ao jogo do bicho, e sim ser marginal, do crime etc)

Seguindo vem muitas outras boas (claro que sinto falta de algumas geniais, como 'Bebeu demais' e 'Tem coca aí na geladeira'): 'Partideiro sem nó na garganta' e a genial 'A semente'.
"Meu vizinho jogou
Uma semente no seu quintal
De repente brotou
Um tremendo matagal (Meu vizinho jogou...)
Quando alguém lhe perguntava
Que mato é esse que eu nunca vi?
Ele só respondia
Não sei, não conheço isso nasceu ai
Mas foi pintando sujeira
O patamo estava sempre na jogada
Porque o cheiro era bom
E ali sempre estava uma rapaziada
Os homens desconfiaram
Ao ver todo dia uma aglomeração
E deram o bote perfeito
E levaram todos eles para averiguação e daí...
Na hora do sapeca-ia-ia o safado gritou:
Não precisa me bater, que eu dou de bandeja tudo pro senhor
Olha aí eu conheço aquele mato, chefia
E também sei quem plantou
Quando os federais grampearam
E levaram o vizinho inocente
Na delegacia ele disse
Doutor não sou agricultor, desconheço a semente"

(dialeto do Bezerra: patamo é aquela van antiga da polícia, o 'veraneio vascaína')

Mais na sequência: 'A necessidade' (cantada com alguém que não consegui descobrir no encarte, acho que é o  Leandro Sapucahy) e 'Bicho feroz', que um amigo insensato ou provocador já cantou (como músico contratado!!) numa festa de policiais...
"Você com revólver na mão é um bicho feroz
Sem ele anda rebolando e até muda de voz
( Isso aqui...cá pra nós )"

'Quem usa antena é televisão', 'Meu bom juiz' e 'Malandro rife' mantém a bola no alto, Bezerra merece.


'Pega eu' é um bordão muito usado 'nas internas' entre nós colaboradores do blog como provocação, mas a música é sobre um ladrão que se arrepende ao entrar num barraco de alguém muito pobre e aqui vem ela sorridente e quase igual à original.
"Eu não tenho nada de luxo
Que possa agradar um ladrão
É só uma cadeira quebrada
Um jornal que é meu colchão
Eu tenho uma panela de barro
E dois tijolos como um fogão
O ladrão ficou maluco
De vê tanta miséria
Em cima de um cristão
Que saiu gritando pela rua
Pega eu que eu sou ladrão!"

Pra completar a manjada 'Malandragem dá um tempo' ("vou apertar mas não vou acender agora", você conhece...), 'Minha sogra parece sapatão' (engraçadíssima, menos pras sogras), 'Na aba' ("na aba do meu chapéu você não pode ficar, meu chapéu tem aba curta, você vai cair e vai se machucar", sobre os pidões e folgados), 'Saudação às favelas' e 'Pai véio 171'.
Pra finalizar vem uma dedicatória do Marcelo ao Bezerra, um ídolo que se tornou um amigo e figura paterna, só com uma batucada ao fundo, expondo sua saudade e como está o mundo desde que ele se foi, em 2005. Ao final, parece que D2 realmente se emociona. Tocante.

Em homenagem aos compositores quase desconhecidos que o Bezerra e o Marcelo cantaram, segue a lista das músicas com seus autores:
"Se Não Fosse o Samba" (Carlinhos Russo/ Zezinho Vale)
"Partideiro Sem Nó na Garganta" (Franco Teixeira/ Adelzonilton/ Evaldo Gouveia)
"A Semente" (Felipão/ Roxinho/ Tião Miranda)
"A Necessidade" (Jorge García)
"Bicho Feroz" (Claudio Inspiração/ Tonho)
"Quem Usa Antena É Televisão" (Celsinho Funda da Barra/ Pinga)
"Meu Bom Juiz" (Beto Sem Braço/ Serginho Meriti)
"Malandro Rife" (Ary do Cavaco/ Otacilio da Mangueira)
"Pega Eu" (o Supra Sumo da Honestidade) (Criolo Doido)
"Malandragem Dá um Tempo" (Popular P./ Adelzonilton/ Moacyr Bombeiro)
"Minha Sogra Parece Sapatão" (Roxinho/ Tião Miranda/ 1000tinho)
"Na Aba" (Trambique/ Paulinho Correa/ Ney Silva)
"Saudação as Favelas" (Pedro Butina/ Sergio Fernandes)
"Pai Veio" (Luiz Moreno/ Geraldo Gomes)
"Caro Amigo Bezerra" (Marcelo D2)   

Produção de Leandro Sapucahy

Fontes de informação:
Discoteca nacional
Revista Época

(Dão)                                                                                                                                                 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

D2 - À procura da batida perfeita


Prossegue a saga dos álbuns solo, agora com um caso especialíssimo, como se diria no jargão administrativo corrente, um case de sucesso!
Marcelo D2, ex e atual vocalista da banda Planet Hemp (que voltou e está em excursão pelo Brasil), mesmo antes do seu fim (temporário, como se vê), já havia lançado um álbum mediano (que será postado aqui em algum momento), o Eu Tiro é Onda, mas foi com esse que ele realmente estourou a boca do balão, além do sucesso popular (já previsto e inclusive criticado na música título do álbum - 'domingo no faustão terça-feira na Hebe', que Deus a tenha), ele criou um estilo novo de música brasileira, o samba rap, que, como todos, às vezes acerta e às vezes não...
O nome do álbum é referência direta ao disco do Afrika Bambaataa chamado Looking for the perfect beat.
Esse disco tem umas músicas que eu gosto muito onde ele acerta na veia, mas tem umas que pra mim são bem fraquinhas e totalmente dispensáveis.
Produção do citado na resenha logo abaixo, do disco do Seu Jorge, o americano/brasileiro Mario Caldato, juntamente com o próprio Marcelo D2 e Davi Corcos.
O disco conta uma historinha, começa com uma Intro Pra posteridade, com uns samples (acho até que é a voz da Elis Regina, mas não há crédito no disco), e já emenda com À procura da batida perfeita, feita em cima do sample creditado da música Bonfa Nova do violonista Luiz Bonfá, D2 faz seu rap por cima de uma base muito legal com uns vocais femininos bonitos, e a música termina até com uns ruídos saudosistas de vinil.
Mais uma mini introdução e começa mais uma das excelentes do disco, Vai vendo, mais uma bela mistura de samba e hip hop, cheia de scratches e terminando com um sambinha de raiz não creditado... Diz o autor 'o pesadelo do pop', mas ele virou pop.
Começo de disco matador, na sequência vem a sensacional A maldição do samba, a perfeita mistura de hip hop e samba, levada dançante, um trompete bonito e inesperado, uns coros muito legais a cargo do Seu Jorge e do Duani, um refrão maneiríssimo, showtime!!
"O gringo subiu no morro e bebeu cachaça
fumou maconha e obteve a graça
depois do samba sua vida nunca mais foi a mesma"
Ainda termina com um trechinho da música Argumento (Paulinho da Viola): "tá legal, tá legal, eu aceito o argumento, mas não me altere o samba tanto assim", e eu sempre continuo cantando "olha que a rapaziada tá sentindo a falta de um cavaco, de um pandeiro e de um tamborim"...
Pilotando o bonde da excursão é uma que poderia ter causado problemas legais ao autor, devido à potencial interpretação de apologia ao crime, no caso, posse de drogas, ainda mais que o Planet Hemp já tinha um histórico nesse sentido. Mas não deu em nada, é só uma descrição de vários tipos de ervas etc etc. Bom, aqui vou reproduzir os comentários do Seu Marcelo: "A minha versão para Rapper's delight. A base já estava pronta e faltava a letra. O Mario sugeriu uma anthem com os fans do Planet Hemp e eu resolvi contar um pouco do que vi, senti e fumei nesses anos", ou pelo menos a parte que ele lembra...É uma música simples mas divertida, com uma linha de baixo sinuosa e criativa, scratches, metais em brasa e uns tecladinhos eventuais.
Aí começa a parte mais chatinha do disco, Loadeando, onde o D2 canta com o filho Stephan, sobre evolução e a interação entre pais e filhos, e também sobre videogames, viagens etc. Mas a música é chatinha... Vale pelo refrão.
A seguinte, Profissão M. C., já retorna com a criativa mistura de rap com samba, além da mistura de rima com 'um bagulhinho'...
C.B. Sangue bom: sonzinho legal, guitarra meio reggae, D2 rimando solto por cima junto com o WILL.I.AM do Black Eyed Peas, o tema é fazer o bem e procurar a paz, dificuldade e superação, esses dilemas cotidianos e nem por isso fáceis.
"Quem é que mistura o rap com o samba? Sou eu, sou eu", assim começa Batidas e levadas, emendando uma base bem solta e rimas naquela vibe hip hop com alguns elementos de samba, principalmente os bons vocais femininos de resposta.
O álbum vai terminando e se encaminha bem assim com Re: Batucada, retomando a grande canção do primeiro disco solo Batucada, com mais um coro lindo de vozes femininas e o excelente mix de samba com rap. Homenageia no fim 'os verdadeiros arquitetos da música brasileira: Chico Science, Cartola, Jovelina, Tom Jobim, Candeia, João Nogueira, Dona Nelma, Tim Maia, meu amigo"
"Sorria
Meu bloco vem bem descendo a cidade
Vai haver carnaval de verdade
O samba não se acabou
Sorria
O samba mata a tristeza da gente
Quero ver meu povo contente
Do jeito que o rei mandou"
De passagem, tem um maluquinho falando umas paradas estranhas "Tu não sabe quem eu sou, Compadi? Quem? Ah, tá maluco, eu sou sinistro, como que tu fala assim comigo? Tu nem me conhece, tu nem me conhece...". Engraçado.
Qual é? começa com mais um corinho feminino lindo, é uma excelente música, daquelas com letra contundente, refrão grudento e pressão sonora! Guitarra suingada e funkeada!!
"Essa onda que tu tira
Qual é?
Essa marra que tu tem
Qual é?
Tira onda com ninguém
Qual é?
Qual é, neguinho, qual é?"

(Dão)
PS: essa resenha ou post é dedicada ao meu amigo Alexandre Duayer (honorável roadie do Rappa e NX Zero, que começou sua brilhante carreira trabalhando com essa máfia aqui) e ao amigo revisor Baiano...