![]() |
| À esquerda, a primeira capa, branca após censurarem a capa original com Calabar escrito, e à direita, a capa de outras edições, com o nome Chico Canta |
![]() |
| Capa original censurada |
Paul
Não precisa nem explicar, né? Os gringos lançaram aquele livrão bacana, bom de deixar do lado do trono pra gente receber nossa dose diária de leitura musical. Essa é a versão nacional, feita por gente que entende, por uns que não entendem bulhufas, mas sem dúvida por gente que ama visceralmente a música. E aí, sabe como é, a gente fica inventando essas coisas só pra ter um motivo pra passar mais tempo curtindo um sonzinho bacana.
![]() |
| À esquerda, a primeira capa, branca após censurarem a capa original com Calabar escrito, e à direita, a capa de outras edições, com o nome Chico Canta |
![]() |
| Capa original censurada |

Nos antigos discos de vinil, uma das vantagens era que as capas assumiam um papel muito mais importante do que nos práticos CDs, a ponto de algumas terem se tornado verdadeiras obras de arte. O problema era quando a capa acabava adquirindo uma importância maior do que a obra musical em si, como ocorreu em Todos os Seus Olhos, disco do Tom Zé de 1973. Nesse caso a polêmica levantada pela capa que seria uma foto de uma bolinha de gude em um ânus em pleno regime militar acabou relegando às canções um papel secundário, mesmo quando tinham todos os elementos para serem protagonistas. Desse modo, o presente post tem como objetivo recolocar as coisas no seu devido lugar.
Confesso que só vim a conhecer efetivamente esse disco há cerca de 10 anos, quando Charles Gavin, baterista do Titãs e também grande estudioso da música brasileira, passou a relançar clássicos de vinil em formato CD, inclusive juntando duas obras de cada músico (esse disco foi relançado juntamente com o também memorável Se o Caso é Chorar, em 2000).
Contando com um texto de apresentação do poeta concretista Augusto de Campos (dando pistas da trilha a ser seguida por Tom Zé), o disco abre (e termina) com “Complexo de Épico”, uma nítida resposta provocativa à canção “Épico”, do ex-companheiro do movimento tropicalista Caetano Veloso, que naquela época seguia rumo completamente distinto.
Todo compositor brasileiro é um complexado...
Porque então essa mania danada,
Essa preocupação de falar tão sério,
De parecer tão sério...
Em seguida, uma releitura de “A Noite do Meu Bem”, de Dolores Duran (única canção que não é de sua autoria no disco), introduzindo alterações no ritmo da clássica canção. Dois anos depois, em Estudando o Samba, ele repetiu a mesma experiência na canção “Felicidade” de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. O resultado surpreende em ambos os casos.
Depois de “Cademar” (parceira com Augusto de Campos), em “Todos os Olhos” Tom Zé aproveita para negar o papel de “herói” que muitos esperavam dele: (...) Mas eu sou inocente, eu sou inocente, eu sou inocente. O disco segue com um criativo diálogo musical com Odair Cabeça de Poeta em “Dodó e Zezé” e um animado forrozinho “Quando eu era sem ninguém”, para adotar um Tom completamente melancólico em “Brigitte Bardot”, que nos dias de hoje poderia facilmente ser adaptada a tantas outras musas de outrora.
A Brigitte Bardot está ficando velha
Envelheceu antes dos nossos sonhos(...)
E os nossos sonhos querem pedir divórcio(...)
A seguir, as ruas de São Paulo adquirem vida própria na “Augusta, Angélica e Consolação”, uma linda homenagem desse baiano à cidade que ele havia adotado. Além de original, a letra finaliza com uma bela passagem:
Eu fui morar na Estação da Luz
Porque estava tudo escuro
Dentro do meu coração.
No seu disco anterior (Se o Caso é Chorar) já havia utilizado do mesmo subterfúgio na excelente “A Briga do Edifício Itália com o Hilton Hotel”, quando as personagens eram prédios invejosos da capital paulista, que continua com vida própria na canção seguinte, “Botaram Tanta Fumaça”, uma espécie de xote que fala das doenças que a cidade estava enfrentando com tanto lixo e fumaça. Lembre-se que estamos falando do início dos anos 1970, quando qualquer preocupação ambiental mal existia e a tônica vigente era de que as indústrias traziam “progresso”.
A fase concretista de Tom Zé volta com força total em “O riso e a faca” . Antes de finalizar novamente com “Complexo de Épico”, o cantor brinca com sons, tempos e contratempos na música “Um oh! E um ah!”.
Enfim, nessa obra Tom Zé desfilou criatividade e originalidade, alterando os estilos, com canções que conseguiam ser ao mesmo tempo poéticas e provocativas.
Quanto à capa, recentemente o fotógrafo Reinaldo de Moraes, autor da foto, revelou que a idéia de Décio Pignatari era, de fato, retratar um ânus, mas que depois de muitas tentativas infrutíferas com uma namorada de ocasião anônima, acabaram mesmo tirando foto da bolinha de gude na boca dela. Nessa, até o Tom Zé foi enganado, e se divertiu com isso, como revelou posteriormente.
[Paul]

ok, nosso primeiro tim, vamos e venhamos: demorô pacas! Mas veja bem caro leitor, o Dão esqueceu, o Zeba postaria um disco do Tim pra falar sobre o Cassiano e o Baiano, bem, este, depois que o ônibus atropelou-lhe o celular, vamos ter que esperar aquelas 8 resenhas que já estavam prontas pra depois da copa do mundo. Da Rússia, claro.
Tim Maia não tava nem aí para a ditadura ou movimento hippie ou tropicália. Só queria cantar suas verdades (e mentiras), e isso ele fez como ninguém. É o cara que durante anos só absorveu, e depois começou a absolver. Graças a deus (ou não, depois do último post por aqui, eu ando até com medo...)!
O disco de 73 é menos um desfile de canções clássicas que faz os dois anteriores parecerem volumes de uma (excelente) coletânea, mas além de fechar uma trilogia (bem, essa mania é típica, eleger trilogias, ainda que, duvido que tenha sido eu a eleger esta), porque depois deste, o síndico embarcaria na viagem racional.
Mesmo assim, em relação aos anteriores, algo aqui me parece que vai mais além, os arranjos me parecem mas cuidadosos e mais focados no soul (bem este último não chega a ser ir mais além, aliás em certo sentido, é exatamente o contrário), e se ele não tinha uma excelente coleção de canções, soube com maestria cuidar para que a parte instrumental desse conta do recado. Algumas canções beiram o esquecimento imediato, como Música no Ar, A paz do Meu Mundo é Você e Preciso ser Amado (que conta com o raro episódio de se ouvir tim, voz e violão), muita coisa em inglês (3 de 12 músicas), mas de quebra, Encontramos aqui duas lindas canções de amor, Gostava Tanto de Você e a minha favorita de todas, Réu Confesso. Oxalá todo final de romance rendesse uma música como esta, seria o melhor de dois mundos...
Das músicas em inglês, destaque para Over Again, onde apesar da letra, a música é Brasil a toda, muito balanço, é o síndico single malt! O disco fecha com a belíssima instrumental Amores, que me faz lembrar Baby Huey, e além do que, justíssimo, pois o ponto forte deste terceiro disco é realmente o instrumental.
[M]
ps: Acho que me enganei... Primeiro Tim?



