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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Tribalistas



Há alguns meses, a revista Playboy, deu provas concretas da decadência que atinge todo o grupo Abril ao tentar, com críticos de própria editora, oriundos de publicações medíocres como a Veja ou Contigo, elaborar uma lista do que seriam os 10 piores discos nacionais, e citou, juntamente com artistas renomados, os Tribalistas. Certamente a intenção devia ser polemizar, mas certamente nem isso conseguiu diante da baixa qualidade dos textos e da falta de conhecimento dos seus “críticos”. Dentro de um cenário de axé music, sertanejo universitário e outros estilos que tocam por ai que não apareceram, citar como pior nomes como Milton Nascimento, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Rita Lee e o próprio Tribalistas soa como algo completamente ridículo.

Mas deixando as polêmicas de lado, ou até mesmo para reforçá-las, acho que esse disco merece sim aparecer em lista, mas certamente entre os melhores. Está certo que a superexposição de algumas canções na época do lançamento (incluídas em trilhas sonoras de novelas), acabou desgastando-as, mas nada que desmerecesse esse trabalho que, do meu modo de ver é, antes de tudo, resultado de uma sintonia natural entre três grandes artistas em um momento único da carreira de cada um.

Produzido pela própria Marisa Monte (que novamente caprichou no encarte, contemplando cifras) e contando ainda com participação Dadi Carvalho, Cézar Mendes e Margareth Menezes entre outros, o disco inicia com um sonoro Bom dia Comunidade na voz de Arnaldo Antunes em “Carnavália”, uma verdadeira canção abre-alas, na qual se sobressai o perfeito casamento vocal entre Marisa Monte e Arnaldo Antunes, levados por uma percussão de Carlinhos Brown que parece feita sob medida para o disco: Vamos pra avenida ...Desfilar a vida...Carnavalizar.

As duas canções seguintes (“Um a Um” e “Velha Infância”) são baladas que estouraram nas rádios na época do lançamento e de tanto tocarem, acabaram cansando um pouco. Mas isso não tira o mérito de serem boas canções de amor.

“Passe em casa” é uma das melhores em minha opinião: música leve, solta, com uma percussão bem original criada por Carlinhos Brown. É daquelas músicas que dá gosto em ouvir.

Em “O amor é Feio”, destaca-se o barítono Arnaldo Antunes em primeiro plano, com arranjo que dá a cara de música infantil, daquelas de boa qualidade que foram produzidas recentemente.

Depois das canções “É Você” e “Carnalismo”, que possuem a cara (além da voz) da Marisa Monte e poderiam facilmente ter saído de um de seus últimos discos (músicas que ultimamente não deixam muita saudade), “Mary Cristo” é praticamente uma doce canção de natal, ideal para ser ouvida nessa época do ano (dezembro).

...quem está falando é a fada madrinha. Iniciando com a fala de uma criança, neta de Chico Buarque, “Anjo da Guarda” é outra que parece música para criança, acompanhada por uma riqueza de sons e percussão bem criativa.  ‘La de longe” vai no mesmo ritmo, transmitindo aquela suavidade tão predominante na maior parte desse disco, assim como “Pecado é lhe deixar de molho”, a canção seguinte.

Eu sou de ninguém...eu sou de todo mundo... e todo mundo é meu também...: “Já sei namorar” é outra que teve como maior pecado a superexposição na época, com o consequente desgaste natural. Mas nada que uma quarentena não resolva. Depois de alguns anos, agora consigo voltar a escutar e, melhor ainda, curtir como ela deve ser. Sem pretensão e bastante original.

Pé em Deus...e Fé na Taba. O disco encerra com “Tribalistas”, praticamente uma canção manifesto que consegue transmitir em alto astral a ideia (e a naturalidade) de como o disco foi concebido. Um resultado de um encontro de três músicos que estavam em perfeita sintonia no exato momento: dois homens e uma mulher...Arnaldo, Carlinhos e Zé (apelido da Marisa, decorrente de Marisete).

Como os próprios autores definem, esse disco foi resultado natural de um encontro sem pretensões na Bahia (para depois ser gravado no Rio). As músicas foram nascendo com naturalidade, sem pressões, decorrente de uma sintonia que já se fazia presente nos discos solos de cada um deles. Trata-se de um momento em que a carreira de cada um deles convergiu e o disco foi o filho de parto normal. Depois cada um continuou o seu caminho. Talvez até mesmo o sucesso do disco na época tenha surpreendido-os também (mais de 1,5 milhão de cópias vendidas em época já com internet).

Como a própria canção que encerra o disco previu, “o tribalismo é um antimovimento... que vai se desintegrar no próximo momento”. Percebe-se que, de cara, o disco era mesmo para ser mesmo um filho único desse encontro de parceiros musicais.

Quanto às críticas, também souberam responder com alto estilo no próprio disco, afinal os tribalistas já não querem ter razão...não querem ter certeza, não querem ter juízo nem religião.

[Paul]

sábado, 6 de outubro de 2012

Cidade de Deus - Antonio Pinto & Ed Cortes



Nem precisa falar do filme, um dos melhores da história, e isso em listas estrangeiras, como a do jornal inglês The Guardian. Mesmo a ótima trilha sonora foi por demais comentada, principalmente pela popularização da antes renegada fase racional de Tim Maia, a ponto da revista Rolling Stone brasileira considerar aquela boa cópia de bandas americanas um dos dez melhores discos brasileiros da história. O disco é bom, claro, mas fala sério. É muita falta de conhecimento da história. Ou muita vontade de embarcar num hype. Ou os dois, não importa, revista de rock pode até criar um hype, mas embarcar em um é que nem chegar atrasado e ainda pegar o bonde errado. É indesculpável. Bem, nunca mais perdi meu tempo com ela.
Mas voltando, o que foi pouco comentado foi a parte instrumental da trilha sonora, composta por Antonio Pinto (já comentado aqui no disco Pequeno Cidadão) e Ed Cortes. Verdadeiro tratado e síntese do funk brasileiro. Mas não o carioca, falo daquele criado por James Brown e que por aqui foi devidamente adaptado e misturado, gerando música de altíssima qualidade, inclusive pelo já citado Tim, que é influência, claro. Assim como a Black Rio. E Jorge, claro, num violãozinho ali no meio de Funk da Virada. Parece que quiseram homenagear seus heróis, mas de maneira sutil.
A trilha começa literalmente com porradas, socos na porta e o clássico diálogo pulpfictioniano: Quem é, quem é? (...) Quem falou que a boca é sua, rapá?  (...) Colé Dadinho? Dadinho é o caralho, meu nome agora é Zé Pequeno, porra! E atacam os metais.
Não vou descrever as músicas, não, essa é mais a onda de Dão, mas a sequência instrumental começa com as três primeiras (Meu nome é Zé Pequeno, Vida de otário e Funk da virada), perfeitamente mixadas, prontas pra botar numa festa. São curtinhas, dá 5m30 no total.
A quarta música, Estória da Boca, é mais lenta, cuiquinha pontuando, clima de samba, combina com a sexta, A Transa, mais lenta ainda, que o nome já diz, é cheia de suingue e bem sensual.
Daí, pule pra 13a e 14a, Morte de Zé Pequeno (sacanagem, já conta o final o filme) e Batucada Remix, uma versão eletrônica de todas elas juntas, mixadas pelos DJs Camilo Rocha e Yah.
Nunca ouvi ninguém falar, mas dá pra perceber influências em muita coisa que foi feita dali em diante, o Drum‘n’Bass brasileiro sendo um. Certamente influenciou também o Bixiga 70, que terá seu disco de 2011 comentado aqui, e que desde já recomendo fortemente. Mais recentemente, Antonio Pinto participou, tocando baixo, compondo e arranjando, do Almaz, banda com Lucio Maia na guitarra, Pupilo na batera e Seu Jorge nos vocais, que atualizou a bossa-nova, incorporando psicodelia, peso e guitarras, e que também vai aparecer por aqui.
O clima geral é retrô, mas Pinto e Cortes foram muito além. Atualizaram os anos 70, juntaram um monte de groove e timbre antigo com umas batidas mais novas e mostraram que a caravana passa. E passa bem.

[LM]

domingo, 26 de junho de 2011

Kaya N'Gan Daya, Gilberto Gil


Neste dia 26 de junho aproveito pra postar um disco do aniversariante Gilberto Gil. Não por acaso, eu também faço aniversário hoje.
Porque provavelmente a coisa se deu assim: em 1970, Gil em Londres, acorda, breakfast, a galera acorda, parabéns!, rolêzinho sob o sol de verão, almoço, volta pra casa, acende um, papelzinho colorido na boca, o som começa a rolar, violões e percussão de leve pra não incomodar a vizinhança britânica.
Lá pelas tantas Gil, que estava curtindo e vendo shows do Pink Floyd e Led Zeppelin, pensa: "pô, queria um guitarrista aqui, mas um que achasse João Gilberto tão genial quanto Hendrix, que gostasse tanto de rock quanto de Tom, Chico e Caetano!". Neste exato momento, Apolo, Dionísio e as 9 Musas atenderam seu pedido: eu nasci.
Bem, talvez não tenha sido exatamente assim...
E, claro, ele não tinha como saber que eu gostaria muito de Gilberto Gil e também de Bob Marley, aliás Robert Nesta Marley.
Que são os co-autores do disco de hoje, onde nosso herói ítalo-baiano recria e interpreta sucessos e nem-tão-sucessos assim do nosso herói jamaicano.
Gil foi bastante fiel aos arranjos originais, mexendo um tiquinho aqui e ali, sempre com sua voz deixando as músicas com a sua cara. Ele inclusive faz no encarte um paralelo entre Bob e Luiz Gonzaga.
'Buffalo soldier' é fiel ao original com alguns metais fazendo a diferença. Também uns floreios de voz do Gilberto, uma modulação e um canto africano ao fim.
'One drop' traz as vozes das I-Three (Rita Marley, Marcia Griffiths & Judy Mowatt), trazendo uma cor tipicamente jamaicana à canção, que traz aqui como diferença um banjo a cargo de Setrgio Chiavazzoli.
"I know JAH'd never let us down"
'Waiting in vain' é mais uma bem fiel, com aquele tecladinho magrinho e tudo. Aqui o mesmo Sergio faz um cavaquinho discreto, principalmente no clima sambinha no final.
'Table tennis table', a única inédita original do disco, tem Liminha ao baixo, que na maioria das músicas traz Arthur Maia. Aqui também tem o Ramiro Mussoto na percussão, já resenhado aqui pela amiga Andréa.
'Three little birds' ficou bem íntima, com violãozinho de fogueira e triângulo surpreendendo na percussão. Aqui a sanfoninha deixa o clima mais forró.
'Não chore mais (no woman no cry)' já havia sido gravada por Gil, numa versão de sucesso e que, pelo menos pra mim, foi o rpimeiro contato com o Bob. Aqui a regravação é reverente, mas traz um arranjo de cordas na primeira parte acústica, ficando mais adocicada. No meio o arranjo muda e entra o reggae com tudo, tocado aqui pelos Paralamas do Sucesso com o Tom Capone. Maneiro. Com solo do Herbert Vianna.
'Positive vibrations' é sensacional, aqui com força e vigor, lembrando que positividade não tem nada de fraco. Tem até um guitarra cítara fazendo uns detalhes.
'Could you be loved' traz um arranjo bem fiel mas com músicos convidados de alto calibre: Sly Dunbar na batera, Robbie Shakespeare no baixo, Samuel Rosa e Henrique Portugal do Skank. No meio tem um trechinho bem curto e no final um pouco maior lembrando que estamos com Sly & Robbie, mestres do Dub drum'n'bass.
'Kaya N'Gan Daya (Kaya)' vem em versão em inglês/português com cara brazuca, já iniciada pelo berimbau chamando pra curtição. No meio se converte em português, com uma letra malandra sobre a erva conhecida:
"Eu posso ver
o sol aparecer
sobre a chuva que cai
tão bom rever
a tribo, o fumacê
do cachimbo da paz
(e muito mais)"
Pra quem não sabe o que é Kaya, sempre vale uma googlada.
Em outros tempos pré-lei proibindo o fumo em ambiente fechados, festas no Pampo em Itacoatiara/Niterói/RJ, sempre recomendavam "se for fumar kaya na praia"...
'Rebel Music' é mais uma das fiéis e reverentes ao mestre do reggae.
'Them belly full (but we hungry)' traz de novo a presença luxuosa dos Paralamas, agora com João Fera tb. Versão seca e precisa, como deve ser uma música sobre fome. Com abordagem positiva, sempre:
"We're gonna dance to JAH music, dance
Forget your troubles and dance
Forget your sorrow and dance
Forget your sickness and dance
Them belly full but we hungry
A hungry mob is an angry mob"
'Tempo só (time will tell)', uma das minhas preferidas, traz outra versão inglês/português, mais lírica, calminha, cheia de espaços e barulinhos. Engraçado o Gil ter uma música paralela ao tema, 'Tempo Rei'.
''Time alone, oh! time will tell
you think you're in heaven, but you're living in hell"
'Easy skankin'' tb é bem fiel, tranquila e easy. Tem uma guitarrinha com filtros, discreta, pelo meio da música.
'Turn your lights down low' traz aquele clima romântico bonito, excelente pra dançar juntinho, se é que isto ainda se pratica...Solinho de sanfona de Cícero Assis.
'Eleve-se alto ao céu (lively up yourself)' é cantada em português somente. Mais uma legal, disco acabando. Solinho de guitarra mais nervoso, talvez do Tom Capone.
'Lick samba' termina em alto astral transformando o que não era samba no próprio, característico do Recôncavo baiano, aqui com a voz especial de Rita Marley e percussões variadas.
Valeu Bob, valeu Gil.
Agora eu vou ali acender (ou apagar) minhas velinhas...

terça-feira, 7 de junho de 2011

Falange canibal, Lenine



Ele voltou!

Continuamos com peso aqui. Outro dia estava ouvindo Living Colour e lembrei desse disco aqui, no qual o grupo de rock estranhamente negro (como se o rock não tivesse começado negro!) faz uma participação especial.

Falange Canibal originalmente era um pequeno palco aberto num bar na Lapa, "uma zona franca da arte, um território de livre trânsito para todas as tendências, uma terra de ninguém ocupada por todos. Encruzilhada de caminhos. Ponto de aglutinação."

Mantendo seu caminho de agregador, Lenine transforma um projeto coletivo numa obra bela e forte.

Além do grupo citado, há muitos outros convidados: Vulgue Tolstoi (grupo que forneceu o parceiro constante guitarrista Júnior Tolstoi), Monoaural (Kasin e Berna Ceppas), Tom Capone (produtor infeliamente falecido prematuramente, que aqui também contribui com programações, guitarra, baixos e otras cositas más), Xandão (guitarrista do Rappa e Caroçu).

Além dos amigos compositores, que dividem com o anfitrião quase todas as músicas, com exceção da última. A saber: Carlos Rennó, Ivan Santos, Bráulio Tavares, Sérgio Natureza (esse deve ter vindo direto de Mauá ou São Tomé das Letras...), Dudu Falcão, Paulo César Pinheiro e Lula Queiroga.

A produção também é dividida por muita gente, incluindo Lenine, Tom Capone, Mauro Manzoli.


Gosto muito da sonoridade moderna e caprichada do Lenine. 'Ecos do ão' fala sobre o fonema característico da nossa língua (e sempre difícil para estrangeiros) como linha condutora para também refletir sobre nós brasileiros.

"nós temos violência e perversão/ mas temos o talento e a invenção/ desejos de beleza em profusão/ e ideias na cabeça coração/ a singeleza e a sofisticação/ o choro, a bossa, o samba e o violão/ mas se nós temos planos, e eles são/ o fim da fome e da difamação/ por que não pô-los logo em ação?/ tal seja agora a inauguração/ da nossa nova civilização/ tão singular igual ao nosso ão/ e sejam belos, livres, luminosos/ os nossos sonhos de nação"


Em seguida uma mais lenta, 'Sonhei', bela como de costume e com aquele violão percussivo e extremamente bem tocado. Mais uma com boa mistura de sons eletrônicos e acústicos, inclusive um bonito oboé.


'Umbigo' começa com um violão magrinho e bateria do cara do Living Colour, Will Calhoun. Também a voz em inglês de Ani Difranco (alguém sabe quem é ela?), Eumir Deodato (o cara existe de verdade!! se vc não sabe quem é vai procurar no google) no hammond e piano elétrico com mão pesada. "gosto muito de conversar comigo/ umbigo meu nome é espelho/ não dou ouvidos nem peço conselhos/ umbigo meu nome é certeza/ só é real o que convém à realeza"


'Lavadeira do rio' começa meio balançada, eletrônica até, com uma guitarra invertida discreta. Depois vira um bom rockão! Tem até aquele clichê de bateria só com vocais empolgantes. Será que o cara ouve hard rock?? Esta aqui tem participações especiais da galera do Skank (sem o Samuel) e da Velha Guarda da Mangueira no coro.


'Encantamento' é uma montagem/colagem de várias músicas, emenda e surge a original do Lenine como se tudo levasse a isso.


'Nem sol, nem a lua, nem eu' é daquelas belíssimas que Lenine compõe, lenta, quase sussurrada, com uns uivos caninos ou lupinos no fundo. Entre as participações especiais, Will Calhoun na wave drum (diz que os caras vieram pra gravar uma música e foram fazendo várias) e Xandão na guitarra.


'Caribantu' é só voz e muitas percussões, a cargo do Cambaio (a pós-coisa), seja lá o que for isso, talvez um coletivo de percussão. A Velha Guarda da Mangueira também faz aquele coro bonito.


'Quadro-negro' é mais uma das bonitas, aqui com efeitos eletrônicos (até na voz) e a participação do Marcelo Lobato (Rappa) na bateria, teclados, theremin e vibrafone. "quem vai pagar a conta?/ quem vai lavar a cruz?/ o último a sair do breu/ acende a luz".


Chega a mais bela do disco, 'O silêncio das estrelas', com um arranjo lindo e criativo de cordas, incluindo um recurso arriscado, o glissando (os instrumentos vão subindo/descendo sem escalas nas notas temperadas, dando a impressão de desafinação). "Solidão/ o silêncio das estrelas/ a ilusão/ eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos/ como um deus, e amanheço mortal". Termina com uma sanfona bonita, a cargo de Regis Gizavo.


'No pano da jangada' é muito legal, com uma percussão que na verdade são os pés do Lenine na areia e vozes, com vocais dobrados e processados. Viva a tecnologia e a criatividade!


'Rosebud (o verbo e a verba)' é um conto divertido, uma música latina suingada e quebrada. Participação do grupo (acho que é isso) Yerba Buena nas vozes, percussões/bateria e trompete cucaracho.


E o fim é pra cima, a música com participação integral do Living Colour, 'O homem dos olhos de raio X' que, se não me engano, foi música de novela da rede globo, como muitas outras do nosso herói pernambucano quase-carioca. Rock balançado e percussivo.


Ainda faltam alguns do Lenine, não se esqueçam...

domingo, 30 de novembro de 2008

Dez de Dezembro - Cássia Eller (2002)


Essa estória de resenhar músicas tem sido muito legal... Esse movimento da escolha, no meu caso, passa sempre por um namoro prévio. Eu fico lá, ouvindo o cd, curtindo, ouvindo de novo e tal. E é sempre uma re-descoberta!
Eu tava ensaiando para escrever algo sobre a Cássia Eller - ela foi a primeira cantora por quem me apaixonei de verdade, dessas paixões de quando a gente quer ter todos os discos, quando a gente fica meio viciado.
E foi uma surpresa pra mim quando me peguei escolhendo o “DEZ DE DEZEMBRO”... Esse disco tem uma vibe diferente e acho que foi aí que fui capturada.
É um disco que faz sentir a presença forte de alguém que não tá mais aqui. Nando Reis escolheu e alinhavou as canções como ninguém. Só mesmo uma amizade de uma natureza tão especial transforma um conjunto de músicas numa coisa tão viva.
“Dez de Dezembro” é delicado, suave e marcante como uma prova de amor deve ser. É uma carta de amor que me toca e me faz chegar à cabeça as melhores sonoridades, as melhores palavras já amarradas. Esse cd é fruto de vários encontros e mais, “Dez de Dezembro” é uma homenagem de Nando à Cássia, mas também de Cássia a tudo e a todos. Aqui ela está escancarada e eu fico super feliz ao escrever sobre essa trama de homenagens da qual me sinto parte, afinal todas essas músicas passaram a fazer sentido para mim também.

Os Beatles abrem o cd e Cássia entra em cena com “Get Back”. Eu quase não conheço os Beatles mas devo dizer que essa música fica perfeita na voz da Cássia! Ela está confortável, como se esse mundo corresse em seu sangue. Ela escolhe um Beatles que é a cara dela. E no fundo, se você prestar bem atenção, Zélia Duncan, sempre discreta, canta junto. A percussão e o violão são um arraso. A música sobe e desce, abre e fecha. Cássia dá movimento a “Get Back”.
Sobre “Julia” ... Bem, para essa não é necessário gastar dedos e palavras:
“Julia, Julia, oceanchild, calls me
So I sing a song of love, Julia
Seashell eyes, windy smile, calls me.”
O que dizer depois disso?

“No Recreio” é uma explosão. É a melhor declaração de amor que alguém pode receber... E a palavra recreio é a ideal... Recreio é o momento onde as coisas são uma delícia! Nando inventa um recreio para a vida adulta. Não é o máximo? O som entra potente, e todos os instrumentos vão conversando: entra a guitarra sozinha, chega o baixo, o violão, a percussão, e o som explode com força e desespero, mas a voz de Cássia transforma essa potência em algo doce, em algo visual. “Quando é que você vai sacar?/ Que o vão que fazem suas mãos/ É porque você não está comigo?”. É o encontro simples e perfeito.
“No Recreio” é a ansiedade vislumbrando o amor possível. É uma música-filme, onde a trilha sonora dos instrumentos te deixa aflito, com os nervos à flor da pele, mas a fala, a voz, as frases são o que te dão a solução: “Só é possivel te amar/ Escorre aos litros, o amor”.

“All Star” é dedicado à Cássia. Não vale, né? Esse cd é o maior disco de amor… Aqui Cássia canta lindamente uma homenagem à amizade. “Não vejo a hora de te encontrar/ E continuar aquela conversa/ Que não terminamos ontem, ficou pra hoje”.
Cássia (e seu violão) vai te conquistando timidamente e você vai se entregando timidamente, como nas melhores amizades.
Quando eu assisto aos DVDs da Cássia e vejo os dois, ela e o Nando, naquela amizade onde o beijo na boca era possível, e agora, embalada por essa música, com essa voz se espalhando por toda a minha casa... Poxa, esse disco não podia mesmo ser outra coisa senão essa vontade de ouvir, ouvir e ouvir.

Dura e quebrada, “Eu sou Neguinha” roda sabendo o que quer. Cássia é certeira, canta Caetano com uma intimidade de tirar o fôlego. É isso, Cássia como ninguém, fica íntima das músicas e as traduz, deixando-as únicas. E com uma naturalidade impecável, ela faz o ontem conversar com o hoje: temos aqui a presença do X.
“Que as coisas conversam coisas supreendentes/ Fatalmente erram, acham solução/ E que, o mesmo signo que eu tento ler e ser/ É apenas o possível ou impossível em mim/ em mim em mil em mim em mil”.
“Eu sou Neguinha” me lembra uma marcha, algo que se deve seguir, não necessariamante por sua vontade, mas pela força em si – todos seguem a marcha, algo coletivo – “Mas aquilo ia e eu ia e eu ia eu ia eu ia”. Cássia arrasa porque põe aspereza na música. Como num prisma, ela absorve todas as emoções possíveis e espalha uma coisa nova, diferente, atravessada.
Ufa.

“Meu amor partiu/ Cansou dos meu vícios…” Com uma voz rouca e num blues quase rasgado, Cássia vem cansada em “Nada Vai Mudar Isso”, de Paulinho Moska. Como um camaleão, ela mimetiza e mergulha completamente no astral da música. Aqui ela se descabela por seu amor que partiu, mesmo sabendo que ele voltará, mas com outro feitiço. Em “Nada Vai Mudar Isso” fala daquele amor que a gente tira na marra de dentro da gente, mesmo sabendo que a gente corre o risco desse amor voltar, quem sabe ainda mais forte… Como se o amor tivesse vontade própria: “Meu amor se expulsou de mim”.
De matar.

E como boa camaleoa que Cássia é, “Fiz o que Pude” de rock vira um xote sem perdão! É uma misturança arretada de boa… Gil xorora com seu xororô, deixando a música ainda mais apaixonante. Cássia roqueia com seu rock deixando a música ainda mais delirante.
E fizeram a melhor coisa! Em “Fiz o que Pude” Cássia resolve não dar muito bola pra dor e te pede a mão pra uma dança, de um jeito charmoso, malicioso e gritado...

Essa já chega provocando: “Não quero nem saber/ Aonde está você/ Não que eu não saiba não”.
“Nenhum Roberto” é a música das coisas óbvias, não que eu não saiba não… Daquelas coisas que a gente sabe, sabe a ordem das vogais, das consoantes de trás pra frente, não que eu não saiba não… E daí?
João Barone, na sua bateria perfeita e maravilhosa, acompanha Cássia na música de Nando e com a ponta perfeita de Frejat todos engrenam numa alegria danada, brincando, buscando, se divertindo. “Nenhum Roberto” é uma gostosura! É pauleira, sonzaço total, um trem-bala.
Não que eu não saiba não…
E tudo se resume numa risada!

A coisa mais delicada chega em “Little Wings”… Cássia nos faz ir para um outro planeta. Deliciosamente cada palavra é cantada e sentida com uma intensidade que me deixa sem palavras. Jimi Hendrix adoraria ouvir “Little Wings” nessa voz quase que chorada, que quase nos faz levitar. Eu fico aqui viajando (grande herança de Cássia – a viagem…) nos músicos fazendo esse som, esse violão cheio de personalidade que vai te seduzindo, que te leva lá pra cima e depois te traz de mansinho pra baixo, como numa viagem num tapete mágico.
It’s alright she said it’s alright…

“Nos aviões que vomitavam pára-quedas/ Nas casamatas, caso vivas, caso morras/ E nos delírios, meus grilos rever/ O casamento, o rompimento, o sacramento, o documento/ Como um passatempo, quero mais te ver/ Oh, com aflição”.
“Vila do Sossego” de Zé Ramalho, abre uma ilha no teu sossego, te sangra a ferida, te pega e você não sabe por que e nem onde. Cássia canta todo esse desassossego como se estivesse lendo uma carta ditada por vozes sábias do além – “Que nas torturas toda carne se trai”…
Cássia tem isso de transitar pela dor, pela beleza, pela delicadeza e pela força sem peder o passo, sem deixar que a gente perca o passo...

“Dez de Dezembro” vai embora grandioso como Cássia... Em “Só Se For a Dois” - a última música do disco e uma das músicas mais belas de Cazuza - Cássia quase gritando canta que “As possibilidades de felicidade/ São egoístas meu amor/ Viver a liberdade, amar de verdade/ Só se for a dois”.
O piano nessa música dá a leveza, a percussão a vida, a voz de Cássia a delícia, e a poesia de Cazuza, a verdade…

“Essa é minha flor... a sua Repetalada”
E tudo isso acabou…

[ANDRÉA]

sábado, 25 de outubro de 2008

Full Moon (Infernal - Nando Reis - 2002)



Todo mundo tem seu mundo secreto. Confesso que o Nando Reis é um personagem que há muito passeia pelo meu… Adoro sua voz rústica e desafinada, seu cabelo vermelho, sua barba, seus brincos e anéis, seu jeito de tocar o violão e principalmente o jeito que ele escreve e canta o mundo pra gente.

Me liguei no Nando através da voz da Cássia Eller em “Luz dos Olhos”. Pensei: nossa, o que é isso?! E fiquei tempos viajando naquela música, naquele fusca, naquelas malas, naquele amor tão intenso. Pirei.

Taí, o Nando é uma figura barroca, intensa, angustiada, sempre cindido, sempre buscando o amor. Transita entre o sim e o não num movimento pendular e o mais legal, entre o seu sim e o seu não, muitas estórias acontecem. Sua poesia tem temperatura, exala calor e se tivesse uma cor, seria o vermelho. NR nos toca porque ele escancara nossas dúvidas, canta com naturalidade aquilo que a gente guarda a sete chaves nas nossas gavetas.

“INFERNAL” (2001) foi meu primeiro disco do Nando. O encarte é uma obra de arte! Aquela boca cantando, aquele pé no ritmo, aquele pullover são de matar! O amarelo das paredes, o baquinho de madeira naquele canto, o sol redondo e opostamente sua alma gêmea, a lua… Bicho, eu adoro! E do outro lado, atravessando a porta sempre aberta, você se depara com a full moon… Bom, depois desse encarte a melhor coisa é logo se entregar pro recheio do disquinho. Aliás, é isso que o Nando faz com a gente, ele te convoca a mergulhar no seu mundo amoroso cheio de atalhos, de armadilhas e de prazer. Eu não sei exatamente o que mais me atrai na música dele. Será a força da realidade, será a energia estonteante dos sons, será a velocidade do seu ritmo ou será sua poesia escandalosa com a qual me identifico profundamente? Não tenho a minima idéia, talvez seja tudo isso junto, como num ímã.

Nando começa como uma bomba em “Infernal” e num reggae rasgado ele grita “Eu juro, eu te amo desde que eu nasci”. Pode alguém jurar um amor desse tamanho? O mundo que até então cabia num criado-mudo e aí chega você, estilhaçando, ampliando tudo. Infernal. O Nando canta o amor como uma possibilidade de libertação. É um abre-te sésamo! Tudo vale entre o céu e o chão.

“ECT” chega com um batuque redondo, gostoso, com umas interferências de quintal ao fundo, com uma guitarra graciosa e brincalhona. A carta é de amor, um susto! Uma carta que te convence a aparecer no mundo. Aqui estão os Tribalistas às avessas! Num jogo de cadeiras sai o Arnaldo e entra o Nando. No final um silêncio para um breve respiro. O resultado é uma música com a velocidade da luz.

“A Minha Gratidão é Uma Pessoa” canta a dor e a delícia do perdão. Começa lenta e ganha força, como se o Nando quisesse nos convencer que sim, que vale a pena tentar. A palavra mágica é a imperfeição, ele celebra a nossa condição de amar , desamar e reamar. A música fecha com a guitarra insistente, seguida de uns sons ondulares, insinuando paz.

O céu arde com “O Segundo Sol”. A invenção fica linda na voz do inventor. A guitarra ganha voz e o Nando calmamente recita a força do inesperado. Essa lindeza para mim é uma incógnita. Uma incógnita que me tira do sério, me incomoda pela sua beleza, pelas suas palavras inusitadas e amarradas numa trama impossível. "O Segundo Sol" é um knockout.

Acho o máximo a despretensão de “A Fila”! O balanço dessa música é inconfundível! A feira como um espaço de encontro delicioso: tem pastel, tem bolachinha, tem morango, tem gente trançando, tem gente gritando, tem gente experimentando. A feira tem cheiro, tem personalidade. O Nando imprime nas coisas cotidianas a poesia. Na feira “eu procuro o mais barato pra sobrar dinheiro para comprar muitas flores para você”. NR é um poeta incansável, ele não desiste do amor. Essa é a sua língua.

A mais linda de todas, “Os Cegos do Castelo”. Nessa música o Nando pede água.
“Eu cuidarei do seu jantar/ do céu de do mar/ e de você e de mim”. A potência amorosa dessa música é transcendente e de novo o Nando chega de mansinho, nos contando de como é o mundo no nosso porão e do desejo de escapar pela porta aberta, para o sol lá fora. É a esperança do reencontro, da chance, de quem tá desejando de corpo e alma, de novo, mais uma vez. O Nando é isso – essa sequência de amor e desamor, essa tensão humana dos erros e acertos. É uma música de carne e osso. Nua e crua.
O final é avassalador, NR sai de cena e deixa só a música, nos permitindo o olhar fixo para cegos que habitam a nossa escuridão.

Esse cd é sem fim! Um bumerangue, vai-volta-vai-de-novo e volta-com-mais-força. “Resposta” – “Bem mais que o tempo/ que nós perdemos/ ficou pra trás, também o que nos juntou”. É o lugar vazio do amor , do passado, daquele que continuou andando apesar dos versos seus, tão meus. Acho essa música um carinho para os ouvidos, uma cosquinha boa de ouvir. É serena. É um Nando menos desesperado, literalmente numa onda peace & love.

“Onde Você Mora” abre com uma guitarra quebrada, com uma melodia super sensual. Aqui a música e a poesia foram criadas num encaixe perfeito. Uma música feliz, “com a sorte de um amor tranquilo”, um amor inesquecível, num desses delírios que a gente não quer nunca mais esquecer. Privilégio um amor desse! Amor que não se mede/ amor que não se pede/ não se repete”… Ah, que covardia!

Em “Fiz o que Pude” e “Me Diga” o Nando volta visceral, tomado pelo desespero de ver seu amor escorrendo pelas suas mãos. É um NR dando uma chance para ele mesmo, em “Fiz o que Pude” de uma forma frenética e em “Me diga” de uma forma maior, onde todos seus amores entram em cena – o pai, os filhos e a mulher amada. “Me Diga” é linda, porque aqui Nando mais uma vez reconhece seus limites, ele canta os limites do próprio amor. É um alívio o sentimento dessa frase “E eu/ dependo do que eu não entendo/eu pretendo apenas/que você saiba que isso é o meu amor”.
Ele saca como é super não ser super-herói. Maravilhoso.

Então tá, acho impossível não ouvir o Nando e não se enxergar em sua poesia, não fantasiar um small world com suas palavras. Não tem saída: é como num espelho: ou você se enxerga na sua obsessão ou na sua paixão.

Esse pequeno texto é dedicado ao PQ, linda fantasia que virou realidade, ao Obama, fantasia de mudança por que torço com todas as minhas forças para que também se torne realidade e ao Mateus, que há muito tempo me disse assim: escuta o Nando, acho que você vai gostar. Ele tinha razão!
[ANDRÉA]