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domingo, 25 de novembro de 2012

Cazuza - Burguesia, ou melhor, o último disco de nossas vidas


Se por um lado Sonífera Ilha, o primeiro disco dos Titãs, teve como mérito o fato de que sua pouca inspiração não tenha sido suficiente para que aquele ótimo grupo desistisse da carreira (como foi resenhado nesse blog), de forma invertida, algo semelhante aplica-se ao último trabalho do Cazuza: Burguesia, que se insere nessa lista não por sua excelência, mas por um contexto maior. 

Com a voz notadamente debilitada, decorrente de sua luta contra os efeitos devastadores da AIDS, Cazuza fez questão de acelerar o processo de criação, gravando em ritmo cada vez maior. Como resultado dessa pressa em produzir, o artista optou por lançar um LP duplo de inéditas (algo raro na época para músicos nacionais), que terminou por ser seu último trabalho em 1989.

Fazendo uso do formato de LP duplo, Cazuza optou por separar claramente os estilos. Enquanto no primeiro disco predomina o ritmo de rock nacional, semelhantes aos seus primeiros trabalhos ainda como Barão Vermelho, no segundo disco ele optou por um som que se aproximam mais da MPB ou da Bossa Nova.

Logicamente, no afã de produzir muito em pouco tempo e com a saúde abalada fortemente, há canções de qualidade discutível que não servem para retratar a sua carreira, como, por exemplo, o single utilizado para divulgar o disco, “Burguesia”, composta com versos pobres demais (A burguesia fede, a burguesia quer ficar rica, enquanto houver burguesia, não vai haver poesia....) para quem deixou como legado músicas tão brilhantes.

Após abrir o disco com “Burguesia”, vem “Nabucodonosor”, outra canção pouco representativa, mas que serviu para dar o tom biográfico bastante presente ao longo do disco, como em “Tudo é Amor”, canção que eu particularmente gosto mais nesse primeiro disco (Mesmo se for pra transformar...Num inferno um céu conformista...Mesmo se for pra guerrear...Escolha as armas mais bonitas).

As músicas subsequentes “Garota de Bauru”, “Eu Agradeço”, “Eu quero alguém” e “Baby Lonest” também não deixaram muitas saudades. Em “Como já dizia Djavan” recuperou sua velha parceria com Frejat em um som com a cara do Barão Vermelho: E as estrelas ainda vão nos mostrar...Que o amor não é inviável..Num mundo inacreditável...Dois homens apaixonados.

O primeiro LP finaliza com “Perto do Fogo”, um blues selecionado especialmente para fazer a ponte com o segundo LP, com todo seu inconformismo: “Quando tudo explodir... Mas não vai explodir nada...Vão ficar os homens se olhando....Dizendo: ‘O momento está chegando’...2000, é ano 2000...E não vai mudar nada”.

No segundo LP, as angústias vividas por Cazuza ficam mais evidentes, inclusive nas canções que não são de sua autoria, mas que parecem que foram feitas especialmente para esse último trabalho dele, como a ótima versão de “Quase um Segundo” (de Hebert Vianna), “Esse Cara” (Caetano Velloso), “Cartão Postal” (Rita Lee e Paulo Coelho) e “Preconceito” (Antonio Maria e Fernando Lobo), uma espécie de tango que valoriza o lado intérprete do Cazuza: “Se as nossas vidas juntas vão ter sempre um triste fim... Se existe um preconceito muito forte separando você de mim”.

O tom biográfico que já se fez presente no primeiro LP fica mais enfático nesse segundo LP, principalmente em canções como as belas “Cobaias de Deus” (Se você quer saber como eu me sinto...Vá a um laboratório ou um labirinto...Seja atropelado por esse trem da morte...), “Filho Único” (Estou na mais completa solidão...Do ser que é amado e não ama...Me ajude a conhecer a verdade...).

A respeitar meus irmãos...E a amar quem me ama),
e Manhatã (Agora eu vivo no dentista...Como um bom capitalista...Só tenho visto de turista...Mas sou tratado como artista...E até garçon me chama de sir...Oh! Baby, baby, só vendo pra crer).


O disco ainda conta com as sensíveis “Bruma” e “Azul e Amarelo” (em co-autoria com Lobão e Cartola) para finalizar com “Quando eu estiver cantando” (Porque o meu canto redime o meu lado mau...Porque o meu canto é pra quem me ama).

Enfim, esse disco merece ser lembrado não por sua qualidade técnica ou momento de extrema inspiração, já que o resultado final, tecnicamente falando, deixou a desejar. Mas certamente pode ser um disco-símbolo da luta contra a AIDS, que teve o mérito de traduzir toda sua angústia, tristeza, inconformismo e incertezas pessoais, e que certamente compunham o cenário vigente no Brasil no final da década de 1980.

Eu mesmo confesso que me desiludi logo que comprei esse disco naquela época, mas depois de um tempo percebi que o seu valor não devia ser procurado simplesmente nas canções, mas sim sob outra ótica: um trabalho de um artista que tinha pressa para produzir, para deixar um legado maior na sua luta contra o tempo. E se errou com a canção de trabalho (Burguesia), certamente acertou com outras, como a bela interpretação de “Cartão Postal”, afinal o adeus traz a esperança escondida
Pra que sofrer com despedida?


[Paul] 

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Big bang, Paralamas do Sucesso



Aproveitando que comprei (e estou devorando) o 'Vamo batê lata', biografia do Paralamas pelo Jamari França - do excelente blog Jam Sessions do ogloboonline, da qual tirei muitas informações aqui expostas, vamos a mais um dos caras.

Durante a gravação, a banda inventou e divulgou que o disco se chamaria 'Rumo ao planeta ovo' e a imprensa caiu e divulgou.

Agora um septeto, com tecladista e naipe de metais, é um disco que aproveita essas possibilidades sonoras.



Inicia com o sacolejante xaxado 'Perplexo', levada pelo baterista João Barone quebrando tudo, além dos sopros mostrando a cara com vigor, incluindo um solo de trompete a cargo de Demétrio Bezerra no finzinho. Fala da perplexidade da população diante dos planos furados do governo (Cruzado 1 e 2), apesar da nova Constituição ("fim da censura, do dinheiro/ muda nome, corta zero/ entra na fila de outra fila pra pagar"). E a incredulidade e a disposição de luta, claro: "Não penso mais no futuro/ é tudo imprevisível/ posso morrer de vergonha/ mas eu ainda estou vivo/ eu vou lutar/ eu sou Maguila, não sou Tyson". No fim, Maguila foi à lona e elegemos Collor...



'Dos restos', co-autoria com Liminha, já traz uma guitarrona poderosa num riff maneiríssimo e ainda a resistência e a perplexidade: "Pra essa nova moral oportunista/ eu me viro e digo não", "Será que eu existo?/ será que não?/ surgem novas criaturas/ novos pontos de interrogação". Tem um solinho rápido no meio, harmonizado e criativo.

Coladinha (muito legal quando as músicas ficam mixadas assim!) já entra 'Pólvora', reggae rápido quase ska bombando com todo mundo sincronizadíssimo, além de uma das melhores letras de Mr Vianna, que aqui cita o título do disco ("as teorias que explicam o universo"). Dá aquela subida de tom no meio e acaba sensacional!



Diminuindo o ritmo vem a new bossa (obrigado, Jamari!) 'Nebulosa do amor', linda e intimista, depois coerentemente regravada no 'Acústico'. Cuíca de Armando Marçal dialogando com o naipe de metais.



'Vulcão dub' é uma instrumental arrasa quarteirão, com metais solando e alternando as luzes entre si. HUUUU!



'Se você me quer' começa diferente e quase acústica, pandeiro e violões, quase um samba, com pitadas de música sertaneja, vai crescendo a massa sonora no meio.

"Se você me quer eu te quero

se não eu não me desespero

afinal eu respiro por meus próprios meios

afinal eu vivo enquanto espero"



'Rabicho do cachorro rabugento' é no estilo 'Melô do marinheiro', reggae repente com bateria usando timbres eletrônicos, engraçadinho, cantado por Bi Ribeiro (canal esquerdo) e João Barone (canal direito). A música volta ao fim, com o nome 'Cachorro na feira'.



'Esqueça o que te disseram' é mais uma influenciada pela ju ju music africana, que já tinha gerado 'Alagados', com a qual inclusive é parecida. Vocais quase de lambada...

"É preciso sangue frio pra ver

que o sangue é quente

e que vai ser diferente"



'Lanterna dos afogados' é uma das mais belas canções do Herbert, belos arpejos, imagens ambíguas, podendo ser um local físico ou emocional. Foi uma das primeiras que eu notei (deve haver outras) que era afinada meio tom abaixo, o que facilita o trabalho sincronizado com os metais, em geral nos tons transpostos de Eb ou Bb. Alterna um belo solo de flugelhorn com um matador de guitarra por Mestre Vianna. Talvez uma das últimas geradas das infelicidades amorosas com Paula Toller (momento Caras...).



'Bang bang', reggae típico com bons riffs de metais, tenso, quando um bala perdida que matasse um jovem ainda era notícia. Hoje deixou de ser, pela freqüência e banalidade.

'Mas naquele dia até Deus se escondeu

não quis ouvir pedidos de socorro

a voz da razão sumiu

quando a polícia civil subiu o morro"



'Lá em algum lugar' é mais uma romântica, lentinha meio motel, bela e discreta guitarra, com o saxofone safado de George Israel (Kid Abelha).

"Eu sei que em algum lugar ficou uma luz acesa

no escuro desse amor que se apagou

a luz que um dia brilhou só existe num canto do coração"



'Jubiabá', versão do folclórico baiano Jerônimo para 'Give me the things', completa o excelente repertório do discaço. Animada e acelerada, quase um axé music.



Do release poético de lançamento, pelo então titã Arnaldo Antunes, trechos:

"O pé que dança decodifica melhor o recado.

As misturas rítmicas (África Londres Caribe Bahia Mangueira Kingston) se dão com uma naturalidade orgânica. Os contrastes já não são a meta, mas a matéria prima.

Entre a bossa a roça.

Entre a fossa e a troça.

Banalidade para pensar: 'Pode ser exatamente o que eu digo/e também pode não".

Profundidade para dançar: 'O que é tudo isso diante da pólvora?/(Dessa paixão que se renova)'.

Novos pontos de interrogação."



Na seqüência vêm mais discos dos Paralamas, além de pitacos complementares e secundários nos já postados da banda.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Continuando a saga Sepultura



Beneath the remains


Aqui começa uma seqüência de grandes discos do Sepultura. Depois do excelente 'Schizofrenia' a banda ganhou respeito e pode gravar um disco com mais condições, depois de uma semana de negociação do Max Cavalera com a gravadora Roadrunner em Nova Iorque, com orçamento inicial de US$8.000, que depois dobrou...

Foi contratado como produtor Scott Burns, que já havia trabalhado com bandas de metal extremo na Flórida (Obituary, Death, Morbid Angel), uma escolha certeira para a originalidade e sonoridade brilhante do disco.

O disco conta mais uma vez com os sintetizadores eventuais do amigo de BH Henrique Portugal (Skank).


Começando com a faixa título, que inicia com um dedilhado limpo e vozes fantasmagóricas, seguindo em frente depois com riffs acelerados e a voz bruta de Max, além de várias mudanças de ritmo, característica marcante da banda.

A segunda faixa, 'Inner self', teve até video na MTV, com cenas de skate e a banda numa produção tosca. A música se tornou um hit da banda, sempre cantada pela massa metaleira. Tem até uma passagem estranha no meio, com uma parte dedilhada e a voz falada.

'Stronger than hate' vem em seguida com força e rapidez, com um tapping de baixo no final.

'Mass hypnosis', mais uma letra excelente da banda que melhorava muito os temas, fugindo do satanismo/anarquismo primitivo anterior. Também sempre cantada pela galera, teve um video ao vivo que rolava às vezes, tirado de um show gratuito que a banda deu em sampa, novo lar dos mineiros. Um solo muito legal e uma bateria matadora no break pós-solo, com mais um dedilhado muito legal.

Foi após esse disco que os vi pela primeira vez no Circo Voador-RJ, me impressionou o som nítido e as variações de dinâmicas. A banda começava a ficar grande e extremamente profissional.

'Sarcastic existence' começa com a bateria com bumbo duplo e a massa sonora aparece na seqüência.

'Slaves of pain' mantem o pique e a bateção de cabeça continua, até a hérnia cervical chegar...idade é foda.

'Lobotomy' é mais do mesmo, o que não chega a ser ruim, mas o estilo faz com que as músicas não sejam muito diferentes entre si, mesmo com muitas mudanças durante a música.

'Hungry' também é bem legal e mais uma do estilo 'muitas mudanças, que música é essa mesmo?'.

'Primitive future' encerra muito bem o álbum, com um dos melhores vocais (pra quem gosta do estilo) do Max.


A reedição de 1997 traz mais 3 músicas, sendo 2 versões 'drum tracks' (Inner self & Mass hipnosys) e o cover dos Mutantes 'A hora e a vez do cabelo crescer', cantada aqui em inglês. Esse cover saiu originalmente no disco Sanguinho novo, um tributo ao Arnaldo Baptista, e, se não me engano, nesse disco era cantada em português. Se alguém tiver isso, aliás, é um bom disco pra ser postado aqui!

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Rock'n'roll vai rolar e vai direto...


Quem começou a escutar o Barão Vermelho a partir daqui pode até se perguntar: "Quer dizer que eles tiveram outro vocalista antes do Frejat?".

Sim, há uma diferença clara entre o Barão da era Cazuza e o novo Barão. Perdas e Ganhos. Pessoalmente prefiro me ligar nos ganhos. É claro que Cazuza levou a poesia... ela foi embora e as letras desta nova fase algumas vezes beiram o ridículo. Mas Frejat tem voz mais bonita, mais empostada e soube encaixá-la magistralmente no novo som da banda. Sem o beija-flor e o tecladista Maurício Barros, o Barão adquire novo formato com a entrada de um novo guitarrista, Fernando Magalhães, e do percussionista Peninha. O resultado é uma banda mais vermelha, mais sanguinária do que jamais havia sido antes!

Outro ponto alto aqui é que o som ao vivo ficou muito bem captado e resolvido. É um disco muito bom de escutar, no talo então!... Vez em quando o pessoal tá enrolando pra levantar da cama lá em casa e junto com Tie Your Mother Down esta trilha é excelente na função de "levanta veiaco"!

O repertório ainda está cheio de canções da era Cazuza (é claro!), mas as versões aqui são definitivas. Ponto Fraco, Carne de Pescoço e Pro Dia Nascer Feliz tem suas versões definitivas aqui, muito melhores que as originais. Bete Balanço, Não Amo Ninguém, Porque a Gente é Assim também não deixam a peteca cair e são, no mínimo, tão boas quanto (as de estúdio). O Dão que gosta de gravações e estas coisas há de admitir que o sonzinho dos dois primeiros discos do Barão é muito magrinho... Não sei se era falta de capacidade técnica do estúdio ou da produção ou se foi intencional, o fato é que a sonoridade do Barão ficou no meio do caminho entre o rock e a new wave.
Ao Vivo não tem pra ninguém... New Wave? que é isso? marca de tênis? Roquenrrou tupiniquim da melhor qualidade este disco ainda trouxe duas músicas da era pós-Cazuza, a sensacional Pense e Dance (minha favorita da banda) e Quem Você Pensa que é? (composição inspiradíssima do Frejat), além da inédita Rock do Cachorro Morto e a homenagem à inspiração primeva (I Can't Get No) Satisfaction (o wikipadia informa ainda que uma edição relançada em 1998 incluía ainda 3 músicas. Não vou comentar porque não conheço a edição referida).
O título do disco originalmente é Barão Vivo. Talvez para lembrar que uns se foram, mas o Barão continuava (então) vivo, reinventado e mandando ver. Peça fundamental da discografia de rock brasileiro.
[M]

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Oblesqonversation... Õ Blesq Blom - Titãs (1989)


Minha primeira lembrança do Õ blesq blom, foi de um show dos titãs em Recife, no centro de convenções a meio caminho de Olinda... A banda estava instigadíssima e eu estava... bem, deixa pra lá... O legal é que quem abriu este show foram Mauro e Quitéria, pessoalmente! Então quando a banda atropelou com tudo em Miséria, miséria em qualquer canto, a platéia foi à loucura!...

Esse show foi muito bom, eu estava acompanhado de grandes amigos, nos divertimos muito e de quebra ainda encontrei umas primas na entrada, que eu nem sabia que curtiam os titãs... Tudo isso transformou õ blesq blom no meu disco favorito dos titãs. Foi minha primeira bolacha deles (comprei no dia seguinte!). Faz muito tempo que eu não ouço o disco, então prefiro começar esse papo mais de memória do que com uma impressão mais "amadurecida" sobre o disco, o que seria, talvez, injusto (com minhas lembranças, principalmente).


Que massa... cabeça feita, amigos queridos, Titãs de cabo a rabo, Mauro e Quitéria e ainda em Recife? Um privilégio... Eu já não tive tanta sorte... o meu Õ blesq blom foi só ouvido (e é ainda), mas ouvido de corpo e alma. Esse disco é muito bom! Com todos os Titãs e cheio de música de prima.

Os Titãs também pintaram cedo na minha vida, meu primeiro show deles foi o Sonífera Ilha e me lembro de ter ficado assustada pela quantidade de gente no palco. Eles eram um montão! E chegaram para fazer estória, pelo menos na minha vida...

O que é Õ blesq blom? Nesse documentário que saiu dos Titãs (que você deveria ver, porque é bem emocionante) mostra o grupo nas areias de Boa Viagem e conta a estória que foi justamente nessas areias que o grupo travou seu o primeiro contato com a voz de Quitéria e de Mauro. Parece que quando os Titãs ouviram os dois cantando aquele monte de língua misturada, que o Paulo Miklos e acho que o Marcelo Fromer, sairam correndo atrás deles, enloquecidos.

Esse disco é cheio de memória. Acho que música boa tem esse viés, o da memória...

E o encarte? Gosto do jeito que as letras estão dispostas, como num xadrez, como num jogo da velha. O título é daquele jeito, com letrinhas recortadas de revista, sabe? E sobre um fundo que parece um azulejo do Brennan. Uma misturança genial: tradição lá de cima com o rock lá de baixo! E as fotos são super inusitadas (e bem engraçadas)! Cada um meio que vira um personagem de si próprio. E o cabelo do Nando naquela época crescia para cima! O Nando sempre brincou com a sua cabeleira!

ps: Acabo de descobrir que a capa é do Arnaldo Antunes... Agora as letrinhas começam a fazer sentido...!


Musicalmente este õ blesq blom me parece um pouco diferente dos outros anteriores. Acho que aquela fúria do cabeça dinossauro e de jesus não tem dentes no país dos banguelas fica mais sutil aqui. O próprio título do disco já é um sinal. A mais furiosa talvez seja Medo, que é uma das minhas favoritas. Na voz de Arnaldo, os titãs te conclamam a perder o(s) medo(s) na marra, na porrada. Além do vocal mais gritado, o ritmo é alucinado, bateria bem marcada, guitarras mais pesadas e repetitivas.

Além do Medo, minhas favoritas são a faixa-titulo Miséria, onde eles exploram o ping-pong sonoro que já tinham usado em Diversão (do disco anterior), mas agora de uma maneira mais rítmica, dançante. E a letra é um achado, com o jogo riquezas são diferentes / riquezas são diferenças. Gosto também de Flores, que foi a música de rádio deste disco. Ainda que a letra não seja das mais titânicas, o trabalho de banda é excelente, uma música muito bem construída pelos dois guitarristas. O Pulso é outra sensacional. A construção em forma crescente é demais. Tem um divertidíssimo rock de raiz em 32 dentes e o funk Deus e o Diabo, conferindo diversidade sem tirar a coesão do trabalho. Nesta última, Paulo Miklos canta o dilema de todos nós, com deus e o diabo habitando a mesma morada... Os pontos fracos do disco (fracos porque comparados às outras!) são o camelo e o dromedário e, por incrível que pareça, as duas do Nando Reis (Raciosímio e Faculdade), justo ele que é hoje o melhor dos músicos pós-titãs...
Mas a minha favorita mesmo é Palavras, que eu comecei a gostar mesmo depois do disco de quarentena, acústico mtv, com outra roupagem, totalmente diferente:

Palavras não são más / Palavras não são quentes

Palavras são iguais, sendo diferentes

Palavras não são boas

Os números pros dias / E os nomes pras pessoas


Õ blesq blom é um disco meio híbrido, com timbres menos punks, mas ainda muito profundo, com muito sangue correndo nas veias - como se fosse criado em pleno êxtase, onde a dor te retorce, mas é uma dor incolor, e você consegue continuar criando - daí talvez um som que soe menos agressivo, mas as letras são carregadas na angústia, dando um tom poético e ácido. Acidez e poesia, tá aí. Os Titãs por muito tempo foram um dos melhores tradutores do nosso inconsciente, sabiam como ninguém nomear nossas dores e desejos.

O discp abre com a reinvenção de uma língua na voz da dupla Mauro e Quitéria, língua onde ninguém entende nada, mas todo mundo entende tudo. Todo mundo tem sua própria língua. E vem Miséria, a língua entendida sem equívoco e fantasiada com cores modernas, para fácil digestão.

Filhos Amigos Amantes Parentes Fracos Doentes Aflitos Carentes

A morte não causa mais espanto / O sol não causa mais espanto

Camelo e o Dromedário dá a leveza na angústia. Adoro uns sonzinhos que pulam no meio da música, como se fossem um ponto de interrogação sonoro. Gosto do balanço, uma coisa meio reggae, meio relaxante, que dá um gosto especial pros nossos ouvidos. Afinal, porque um camelo e um dromedário poderiam nos trazer tantas dúvidas? Magnífico!

Palavras eu preciso preciso com urgência / Palavras que se usem em caso de emergência. As palavras escapam da boca de uma maneira frenética, parece que com uma necessidade mesmo de colocá-las para fora. Palavras que se diz / Se diz e não se pensa". Eu quero todas elas!

O Pulso é outra entre as minhas favoritas totais. Aquela lista de doenças do corpo e outras da alma conectadas com aquela palavra falada pulso, que tem hora que soa uma respiração e outras com a pulsação é um escândalo! É um escândalo de vida com morte. E o corpo ainda é pouco.

E eu sigo com Medo, que é outra obra-prima. O Pulso e Medo caminham juntas, na mesma frequência, na mesma tentativa de se livrar de algo. Enquanto Medo é alucinada, rápida, desesperada, Pulso é a própria pulsão, é a vida em si. O Medo é mental, o Pulso é físico e Deus e Diabo é a nossa fantasia.

E os Titãs simplesmente nos descrevem, nos musicam. Õ blesq blom vai embora na mesma voz que veio - na de Mauro e Quitéria - e o que fica é a sensação de um desenho do ser humano, um desenho que foi musicado - tá lá sua mente, seu corpo, sua imaginação, suas palavras.

Carteira de identidade / Perda de identidade / Identidade dupla / Identidade xerox / Não tenho mais identidade!


[ANDRÉA] & [M]

domingo, 23 de novembro de 2008

Estrangeiro - Caetano Veloso (1989)


Caetano Veloso é tido como dos maiores gênios da MPB. Isso se dá, em larga medida, pelo que produziu entre Transa (1972) e Estrangeiro (1989). Durante esses quase vinte anos, o compositor baiano apresentou ao público uma música de altíssima qualidade. Curiosamente, as duas "pontas" desse ciclo trazem o melhor do melhor. Se "Transa" é maravilhoso em sua simplicidade e tristeza no exílio londrino, "Estrangeiro" é sofisticado, colorido e aponta para o futuro da música brasileira, mesclando tecnologia e influências diversas. É desse último disco que falo agora.

Produzido por Peter Sherer e Arto Lindsay (esse último trabalharia, anos depois, com Marisa Monte e também com David Byrne), "Estrangeiro" começa chamando a atenção pela capa - a reprodução de uma pintura de Hélio Eichbauer para o cenário da peça de Oswald de Andrade "O rei da vela" em montagem do Teatro Oficina, no ano de 1967. Ecos do tropicalismo, referência constante na obra de Caetano.

A faixa de abertura é "O Estrangeiro", o grande momento do disco. Com a participação dos produtores Sherer e Lindsay e também com Naná Vasconcelos na percussão e voz, a música é fenomenal. Um piano acompanhado de bateria eletrônica e algumas distorções de fundo seguem Caetano, que recita os primeiros versos.

"O pintor Paul Gauguin amou a luz na Baía de Guanabara/
O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela/
A Baía de Guanabara/
O antropólogo Claude Levy-strauss detestou a Baía de Guanabara:/
Pareceu-lhe uma boca banguela/
E eu menos a conhecera mais a amara?/
Sou cego de tanto vê-la, te tanto tê-la estrela/
O que é uma coisa bela?

O amor é cego/
Ray Charles é cego/
Stevie Wonder é cego/
E o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem..."

E por aí segue, em sua letra quilométrica e recheada de citações. Mais de seis minutos de uma bela produção, que conta ainda com um interessante solo de guitarra. Sem dúvida, um dos maiores momentos da MPB em todos os tempos, apesar da discordância de alguns.

Na sequência, aparecem "Rai das cores", "Branquinha" e "Os outros românticos", três momentos fortes e extremamente bem conduzidos. Fica claro o peso da mão de Lindsay, que influenciava muito o compositor baiano à época das gravações. O disco traz ainda uma parceria em inglês do trio Caetano-Sherer-Lindsay, "Jasper", e as medianas (quando comparadas com as demais) "Este amor", "Outro retrato" e "Etc.". Assim como em outros trabalhos, Caetano dedica muitas dessas canções a antigos e eternos amores e amigos (a ex-Dedé Veloso, Paulinha Lavigne e Jorge Mautner).

A última canção é a mais alegre e colorida da obra. "Meia-lua inteira", do até então desconhecido Carlinhos Brown ("Carlinhos por parte de mãe, Brown do mundo", diz o genro de Chico Buarque), foi o grande hit do disco e chegou a fazer parte da trilha sonora de uma novela global. Com o próprio Brown na percussão e uma levada de guitarra deliciosa, fecha "Estrangeiro" em elevadíssimo astral.

'Meia Lua Inteira/
Sopapo na cara do fraco/
Estrangeiro gozador/
Cocar de coqueiro baixo/
Quando engano se enganou.../
São dim, dão, dão São Bento/
Grande homem de movimento/
Martelo do tribunal/
Sumiu na mata adentro/
Foi pego sem documento/
No terreiro regional.../

Uera rá rá rá/
Uera rá rá rá/
Terça-Feira Capoeira rá rá rá/
Tô no pé de onde der rá rá rá rá/
Verdadeiro rá rá rá/
Derradeiro rá rá rá/
Não me impede de cantar rá rá rá rá/
Tô no pé de onde der rá rá rá rá.../

Bimba birimba a mim que diga/
Taco de arame, cabaça, barriga/
São dim, dão, dão São Bento/
Grande homem de movimento/
Nunca foi um marginal/
Sumiu na praça a tempo/
Caminhando contra o vento/
Sobre a prata capital..."

Encerra-se assim a fase "genial" de Caetano Veloso. Depois disso, ele fez grandes turnês (sozinho e com Gilberto Gil), gravou em espanhol e em inglês, participou de trilhas sonoras de filmes nacionais e até flertou com o rock ("Cê", seu último disco, já resenhado por aqui). Nada, porém, que chegasse aos pés de sua produção setentista e oitentista. Em alguns momentos, chega a ser constrangedor.

"Estrangeiro", de todo modo, redime o baiano dessas críticas. Um disco para ser escutado e escutado e escutado, sempre. Brilhante.

(André Xampu)

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Brasil-sil-sil - Ratos de Porão (1989)


Por aqui, vamos começar com os defeitos de um disco punk: panfletário, barulhento e com letras limitadíssimas.
Mas é um discaço! Pra quem consegue ouvir seu som pesado e rápido. Pra quem não consegue, vale a capa genial...
Foi um disco de virada pro punk-hardcore nacional: som bem gravado na Alemanha e produtor gringo, o que nesse caso se traduziu num som mais nítido, tirando os vocais do João Gordo, que realmente são difíceis de entender, tanto pela velocidade quanto pela gritaria.
O disco já começa com peso, o hardcore-crossover-com-metal 'Amazônia nunca mais', panfletária claro, mas estou me repetindo...
Na seqüência 'Retrocesso', sobre o possível retorno do poder militar. Bom, a ABIN agora é dirigida por um ex-membro do SNI, então nada é tão paranóico que não possa acontecer, né?
Depois, um dos crássicos do disco: 'Aids pop repressão', que tem até um scratch chupado do hip-hop, e o refrão definitivo, 'o que é que eu fiz pra merecer isto?'.
'Lei do silêncio', ainda atual em favelas dominadas por tráficos ou milícias.
Depois de 'Gil goma', alusão ao repórter Gil Gomes, vem o outro crássico do disco: 'Beber até morrer', o que não é um incentivo, e sim uma crítica.
Algumas músicas datadas e/ou irrelevantes, como 'Plano furado II', 'Heroína suicida', 'Crianças sem futuro', 'O fim' etc. Mas num disco com 18 músicas, é inevitável.
Merecem citação ainda 'Farsa nacionalista', 'Traidor' (que começa lentinha, heresia pra um disco dos Ratos Do Porão), 'Vida animal' (divertida e escatológica), 'Porcos sanguinários' (que não é sobre palmeirenses), 'Máquina militar' e 'Terra do carnaval'.
Voltando à capa, a trilha acompanhante é 'SOS país falido'. Mas isso antes de nós pagarmos a dívida externa.
Em cd, o disco vem junto com o mais fraquinho 'Anarkophobia' (que tem a excelente 'Igreja universal'), mais 'Jardim elétrico' do disco Sanguinho novo Arnaldo Baptista revisitado. Vale a compra, pra quem não tem medo de som pesado.
A única vez que os vi ao vivo foi no Circo Voador, abrindo pro Sepultura no lançamento de 'Beneath the remains' (outro post). Fiquei impressionado com o show e a super presença do João Gordo.