sábado, 15 de dezembro de 2012
Moacir Santos - Ouro Negro
Um dos maiores da música popular brasileira.
Um dos maiores desconhecidos da música popular brasileira.
Um dos Músicos dos Músicos.
"A benção Maestro Moacir Santos que não és um só, mas tantos, tantos como o meu Brasil de todos os santos, inclusive meu São Sebastião" ('Samba da Benção', Vinícius de Moraes)
Um exemplo do improvável: "transformar um negrinho do interior de Pernambuco, nascido menos de quatro décadas após a abolição da escravatura e órfão aos 3 anos de idade, em um dos músicos brasileiros mais reconhecidos, nacional e internacionalmente, em todos os tempos" (trecho retirado, como vários outros desta resenha, do encarte do cd e do Songbook).
"Tom Jobim dizia que, no Brasil, é proibido ao aborígene sair da taba. Moacir Santos foi um dos que saíram e o Brasil fez desabar sobre seu nome um manto de silêncio. Pois chega de silêncio. Nanã sabe das Coisas e diz que chegou a hora de o Brasil saber de Moacir, reaprender Moacir, merecer Moacir" (Ruy Castro)
Veio do interior para Recife, depois João Pessoa, Rio de Janeiro, Los Angeles, mundo. Você não conhece? Nunca ouviu falar? Envergonhe-se.
"Moacir foi Maestro, por concurso, da Rádio Nacional. Todos os músicos profissionais, naquela época, iam estudar música 'superior' com ele. Era um professor sensacional, meio metafísico, explicava a harmonia, os intervalos entre as notas, as dissonâncias, usando como exemplo as estrelas. Fui estudar com ele essas 'sabedorias', ficamos muito amigos e por causa dessa amizade ele começou a me mostrar as composições que fazia no piano e não mostrava a ninguém. Tocava para mim as músicas e dizia: - Olha essa 'coisa' que eu fiz, escuta essa outra 'coisa'." (Baden Powell)
A palavra 'Coisa' é muito usada pelo Maestro, arranjador, compositor e saxofonista Moacir José dos Santos. Nascido em Flores do Pajeú (na verdade ali foi registrado, o local de nascimento deu-se em local incerto do interior de Pernambuco, entre Serra Talhada, Bom Nome e Belmonte), em julho de 1926 (mesmo ano de Miles Davis e John Coltrane). Entregue a uma família branca 'remediada', teve instrução ginasial e musical, para sorte nossa. Aos 14 anos, dominando vários instrumentos de banda, além de banjo, violão e bandolim, fugiu: Serrânia, Arco Verde, Recife, Catro, Timabúba, João Pessoa, onde se torna sargento-músico da PM, depois integrando a legendária orquestra de Severino Araújo, de mudança para o Rio, onde chega casado com Cleonice.
"Sempre tive o anseio em produzir músicas com a catalogação erudita, como por exemplo Opus 3, Nº 1. Quando Baden Powell foi estudar comigo e me convidou para participar do disco com o baterista americano Jimmy Pratt, na antiga Phillips, o engenheiro de gravação perguntou o nome da música e eu respondi: 'Isso é uma coisa'...Aí me ocorreu a ideia de numerá-las." (Moacir Santos)
Ingressando na Rádio Nacional, RJ, como saxofonista, frequenta bailes também. Mas ao contrário de muitos de seus colegas, estudou sempre e muito, formando-se em Regência e tendo como mestres Cláudio Santoro, Guerra-Peixe, H. J. Koellreuter, de quem mais tarde seria assistente, e Ernst Kreneck, com quem aprende as manhas do dodecafonismo.
"A África não deixa em paz o negro, de qualquer país que seja, qualquer que seja o lugar de onde venha ou para onde vá." (Jacques-Stephen Alexis, poeta haitiano)
Começa algum reconhecimento depois de promovido a arranjador e regente na Rádio, ao lado de Radamés Gnatalli, Leo Perachi e Lirio Panicalli, sendo eleito pelos colegas da Rádio 'o músico do ano'.
Teve muitos alunos conhecidos e reconhecidos na música popular brasileira: Paulo Moura, Sérgio Mendes, João Donato, Raul de Souza, Doum Romão, Bola Sete, Roberto Menescal, Geraldo Vespar, Chiquito Braga, Nara Leão, Dori Caymmi etc, o que o incluiu como um dos patronos da bossa nova.
Paralelamente, o maestro trabalhou com muitas e importantes trilhas para o Cinema Novo brasileiro, entre eles os filmes 'Seara vermelha', 'Ganga Zumba', 'Os fuzis', 'O beijo' e o mais importante, 'Amor no Pacífico (Love in the Pacific)', que lhe trouxe a oportunidade de trabalhar com uma orquestra de 65 excelentes músicos e lhe abriu o mercado internacional, levando-o a se mudar para os EUA, em 1967. Lá, gravou discos solos, um deles indicado ao Grammy, deu aulas e compôs trilhas para cinema (tendo trabalhado até na equipe de Henry Mancini), construindo uma sólida reputação como compositor, arranjador e docente, membro que era da Associação de Professores de Música da Califórnia.
Repito aqui o que já foi merecidamente reconhecido por grande parte da melhor crítica musical: Moacir Santos produziu, nas décadas de 60 e 70, a música popular mais sofisticada e ao mesmo tempo mais enraizada nas tradições afro-brasileiras.
À época do lançamento desse disco, uma coisa que se repetia muito era que a única crítica que o disco merecia era relativa ao título que, por ter sido patrocinado pela Petrobras, poderia remeter ao petróleo e não ao Maestro...
Esse é um disco irretocável, mesmo sendo duplo. As músicas foram recriadas em cima dos arranjos originais, que haviam se perdido quando o selo Forma foi vendida à PolyGram (na época Philips e hoje Universal...), de vários discos: Coisas (Forma, 1965, este que já foi o disco mais valorizado no mercado dos vinis), Maestro (Blue Note, 1972), Saudade (Blue Note, 1974) e Carnival of Spirits (Blue Note, 1975).
Juntamente ou posteriormente (não tenho certeza) foram lançados o Songbook (que eu tenho mas pratico e leio pouco) e um DVD (que encontrei agora no site Livraria da Folha).
Muitos excelentes músicos participam do disco, entre eles Mario Adnet (que também o produziu junto com Zé Nogueira), Ricardo Silveira, Cristóvão Bastos, Marcos Nimrichter, Jorge Helder, Nailos Proveta, Teco Cardoso, Hugo Pilger, Jessé Sadoc, Marcelo Martins etc.
Algumas das músicas receberam letras (por Nei Lopes) e cantores: Coisa nº 8, Navegação (com Milton Nascimento), Sou eu (com Djavan), Orfeu (com Ed Motta), Maracatu, Nação do amor (com Gilberto Gil), Oduduá (com João Bosco), De repente estou feliz (com Joyce e João Donato) e Bodas de prata dourada (com Sheila Smith e Muíza Adnet).
A título de curiosidade, 'Coisa nº 6' tornou-se 'Dia de festa' com letra do Geraldo Vandré, gravada pelo próprio; aqui neste disco está a versão instrumental.
Comentar cada faixa seria uma tarefa muito além da minha capacidade de traduzir esta Música em palavras, além de ficar chato por todos os detalhes musicais, então dessa vez vou transcrever os comentários do próprio Maestro diretamente do encarte.
CD 1:
'Coisa nº 5 - Nanã': "Fico muito feliz de vocês terem gravado a versão original porque foi assim que ouvi e assim que fiz. É uma grande procissão."
'Suk-cha': "Foi uma rosa que ofereci à minha primeira nora que era coreana..."
'Coisa nº 6': "Essa música é uma festa..."
'Coisa nº 8 - Navegação': "A inspiração vem de uma música de Luiz Gonzaga, 'Vem morena' e um tema de filme americano, estrelado por Kirk Douglas, que tinha semelhança com a de Gonzaga. Apenas três notinhas foram suficientes para que construísse o meu tema. Se essas notas me impressionam é o bastante..."
'Amphibious': "Estava viajando de João Pessoa para Recife, era maestro da Rádio Tabajara da Paraíba. Assis tocava trompete na orquestra e tínhamos muita afinidade. Ele me mostrou a primeira parte do tema, que já havíamos batizado de Amphibious e em seguida, fiz a segunda..."
'Mãe Iracema': "É a história de José de Alencar, das duas tribos que estavam em guerra. Iracema flechou um índio rival, no olho, e ele não reagiu quando viu que se tratava de uma mulher. Ela correu para prestar socorro e então isso resultou em um grande amor entre os dois. Quando nasceu o filho ela pronunciou o nome Moacy que, em tupi-guarani, significa 'Oh, filho da minha dor'. Essa música é dedicada a todas as Iracemas..."
'Coisa nº 1': "Foi apenas um truque rítmico, um drible de Moacir Santos..."
'Sou eu [Luanne]': "Esse nome, Luanne, surgiu exatamente onde ele é cantado na melodia. Isso é coisa dos anjos..."
'Bluishmen': "Bluishmen são os negros que, de tão retintos, chegam a ser azulados. Esses são de uma tribo africana que fica na costa, na mesma direção do Ceará. Deve ter sido o mesmo lugar, na época que os continentes eram uma coisa só. A paisagem é a mesma, praias, coqueiros, palmeiras..."
'Kathy': "Foi feita a pedidos para a namorada do Rick, tropetista que tocava na minha orquestra nos Estados Unidos. Apesar do nome ter cinco letras, o fato da música ser em 5/4 é pura coincidência. Coisa dos anjos..."
'Kamba': "Essa foi composta logo que chegamos ao Rio, em homenagem ao nascimento do nosso filho. Cleonice estava na maternidade Clara Basbaum, em Botafogo, e quando liguei para saber notícias, ele havia acabado de nascer. Comecei a cantar esa música no trem, a caminho do hospital. Nessa época, morávamos ao lado de um terreiro, ouvia frequentemente cantos de umbanda, mesmo que não quisesse..."
'Coisa nº 9': "Isso é um lamento.''
'Orfeu [Quiet Carnival]': "Estava dando uma aula numa escola dos Estados Unidos, chamada Nova Music, quando terminei fui para casa e ouvi no rádio uma música que estava no hit parade das 10 mais, uma coisa muito repetitiva. Dessas eu faço uma dúzia na hora! Comecei a compor uma música cheia de repetições, mudando as notas no final de cada frase. Isso fez tanto sucesso entre os músicos, que diziam que ganharia o Grammy..."
'Amalgamation': "Estava começando um curso de música para cinema na USLA, no início dos anos 70 e comecei ese tema naquela época. Adoro quebrar formas tradicionais usando solos ad libtum antes de apresentar o tema. Essa música foi concluída há uns dois anos."
CD 2:
'Coisa nº 7 [Evocative]': "Uma brincadeira pianística..."
'Coisa nº 2': "Antes de ir para São Paulo dirigir a orquestra da TV Record, participei de um curso de música internacional, em Teresópolis. Lá aconteceu um fato simples mas que me impressionou. N passagem entre uma aula e outra, uma moça deixou cair uns desenhos no chão e eu a ajudei a pegar. Ela estudava artes plásticas; começou então a me mostrar seus trabalhos e um deles era a pintura de uma rosa. Ela disse: 'Isso é Villa-Lobos' - apontando para a rosa. Mais tarde, em São Paulo, tive uma sensação parecida ao tocar um exercício simples, em Si Bemol, do Método de Czerny. Lembrei da história do quadro 'Villa-Lobos'. A inspiração veio dessa sensação..."
'Lamento astral': "Nós morávamos ainda em Nova Iorque, no final dos anos sessenta. Uma noite Cleonice passou mal, eu a coloquei no chuveiro e saí desesperado pela rua, atrás de uma farmácia. Foi assim que surgiu essa melodia na minha cabeça"
'Maracatu, Nação do Amor': "Antes de gravar o meu primeiro disco nos Estados Unidos, mostrei ao dono da gravadora Blue Note a trilha que havia feito para 'Amor no Pacífico'. Ele gostou, mas pediu que eu gravasse mais músicas ritmadas, nada tão doce como aquela trilha. Voltando para casa, olhei para o céu azul, me lembrei do Brasil e comecei a cantar essa coisa africana..."
'Coisa nº 4': "Foi como imaginei os negros fugindo das senzalas. A melodia, com as notas longas, significa a esperança..."
'Coisa nº 10': "Essa também é um truque musical..."
'Jequié': "Isso é uma inspiração no modo lídio. Coloquei esse nome por causa de uma viagem que fiz à minha terra natal e passei pela cidade de Jequié"
(nota minha: modos são 7, originados da cada nota escala maior, muito utilizados na Idade Média, antes e paralelamente ao sistema de tonalidades, 'primitivo' mas sempre redescoberto e reinventado; o modo Lídio é aquele que você ouve no tema dos Simpsons, por exemplo)
'Oduduá': "Pr uma incrível 'coincidência' os letristas da primeira versão não sabiam da minha história quando escreveram a letra. Só fui descobrir meu nome completo e minha idade exata na década de oitenta, nos registros da Igraja das Flores. Acho que os anjos contaram a eles..."
trecho da letra:
"Diz, Oduduá, quem sou eu?
Pra onde vou? De onde vim?
Quem me fez voar tantos céus
Navegar, tanto assim?"
'Coisa nº 3': "Fui assistir a um filme francês e ouvi, pela primeira vez, o som das ambulâncias de lá. Voltei para casa compondo..."
'Anon': "Anon quer dizer sem nome, vem de anônimo. É inspirada em uma marchinha de carnaval que ouvi quando era criança, em Recife. Não sosseguei enquanto não fiz alguma coisa com ela. A capoeira apareceu no caminho..."
'Quermesse': "Compus esse tema na época da Rádio Nacional. Paulo Tapajóes era meu amigo e prometeu interceder a meu favor para ingressar no quadro dos maestros. Disse a ele que aceitaria desde que não interferisse nos meus estudos com Koellreuter. Escrevi a melodia para trompa e foi o meu tema para o programa 'Quando os maestros se encontram'. Mais tarde, nos Estados Unidos, transformei na festa que acontecia no pátio da Igreja de Flores"
'De repente, estou feliz': "Esta foi para Cléo, completamente"
'Maracatucutê': "Um tema típico de Moacir Santos que, de vez em quando, aparece na minha cabeça..."
'Bodas de prata dourada': "Esta foi composta em homenagem aos nossos quarenta anos de casados. Achei que talvez não chegasse às Bodas de Ouro"
[Moacir e Cleonice estavam casados há 54 anos em 2001, ano de lançamento deste CD]
Moacir faleceu em 2006.
Faça um favor a si mesmo, ouça!
Links:
Wikipedia
Tese de pós na UESC
(Dão)
domingo, 8 de janeiro de 2012
Tropicália ou Panis et Circences (1968)

Após mais de 200 resenhas de discos no presente Blog, reparei que até o momento, não constava simplesmente um dos discos mais geniais: Tropicalia ou Panis et Cincences, de Caetano, Gil e toda trupe tropicalista. Talvez a razão pela demora esteja justamente no fato de ser tão fundamental na discografia brasileira e mundial (poderia ser hors concours em qualquer lista do gênero), que é uma grande responsabilidade resenha-lo aqui.
Impulsionados pelo impacto de suas músicas no festival da Record de 1967, Caetano, Gil, Mutantes e companhia (ilimitada nesse caso) resolveram tocar o projeto em frente e lançar um disco que se tornou uma espécie de Manifesto do Tropicalismo. Sintomaticamente, sua gravação iniciou-se justamente em maio de 1968, ao mesmo tempo em que o mundo explodia em protestos e revoluções. No caso particular desse disco, pode-se dizer que serviu para revolucionar a música brasileira, superando debates entre bossa nova e jovem guarda, e trazendo ideais da Semana de Arte Moderna de 1922 para a música brasileira.
Contando com arranjos vanguardistas do maestro Rogério Duprat (falecido em 2006), sem receio de misturar sons e influências diversas, o resultado não poderia ser melhor. Possivelmente, o lançamento de Sargent Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, também influenciou na concepção desse disco.
O disco abre com o som de órgão de igreja para ser interrompido por um sininho que lembra vendedores ambulantes de rua em “Miserere Nobis”, de Gilberto Gil e Capinan, interpretado pelo Gil. Nessa canção já dá para ter uma ideia da profusão de sons que constituirá o restante do álbum.
Em seguida, Caetano interpreta “Coração Materno”, uma velha seresta de Vicente Celestino que, curiosamente, faleceu em agosto de 1968, quando estava de saída para assistir a um show de Caetano e Gil. A minha tese é de que a inclusão de uma seresta de 1951 no disco foi uma espécie de provocação à Bossa Nova, cuja uma das bandeiras tinhas sido se contrapor ao jeito de cantar velhas serestas.
Curiosamente, a canção “Tropicália’, de Caetano, ficou fora do disco, mas certamente a outra que deu nome ao disco acabou sendo uma das mais marcantes: “Panis et Circenses”, de Gil e Caetano, outra que se tornou clássica na interpretação dos Mutantes. O interessante é que música está repleta de “brincadeiras”, como o som de vitrola desligando no meio da música para retomar em seguida, assim como a sonorização de uma verdadeira sala de jantar, com direito à voz de Manoel Barenbein (produtor do disco) pedindo para passar a salada tendo, ao fundo, o som de Danúbio Azul. Essa canção também fez parte do primeiro disco exclusivo dos Mutantes, lançado no mesmo ano.
No avesso do espelho...Mas desaparecida...Ela aparece na fotografia...Do outro lado da vida. A canção seguinte, “Lindonéia”, de Caetano e Gil, recebe a interpretação da ex-bossanovista Nara Leão, simbolizada na capa do disco com uma retrato enquadrado em preto e branco.
É somente requentar... E usar... porque é made, made, made, made in Brazil. Tempo para a crítica inteligente e satírica de Tom Zé em “Parque Industrial”, contando com a participação de praticamente toda a trupe tropicalista na interpretação. Outra canção marcante.
Depois de “Geléia Geral” (Gilberto Gil e Torquato Neto), com a voz de Gil e sons de fanfarra reforçando o toque circense, vem “Baby” (de Caetano) na voz divina de Gal, acompanhada de leve por Caetano. Trata-se de outra canção marcante da música brasileira.
Nessa verdadeira salada geral do tropicalismo também tem espaço para o ritmo caribenho em “Tres Caravelas”, versão de João de Barro para “Las Tres Carabelas” originalmente gravada pelo The Shadows, que no presente disco foi interpretada por Caetano e Gil.
O disco segue ao som de clarins que remetem a bandas militares em “Enquanto seu lobo não vem”, mais uma canção com uma sutil e inteligente crítica ao momento político. Destaque ainda para o trecho da Internacional Comunista inserido logo após o verso: Vamos passear nos Estados Unidos do Brasil...Vamos passear escondidos.
A brilhante voz da Gal Costa ressurge em “Mamãe Coragem”, de Caetano e Torquato Neto, uma espécie de manifesto feminista tropicalista, seguindo com os batuques de “Bat Macumba” de Gil e Caetano que se tornou clássico na voz do primeiro, contando ainda com a participação dos Mutantes (essa canção também fez parte do repertório do primeiro disco dos Mutantes, lançado também em 1968).
Para finalizar (e confundir ainda mais os ouvinte), “Hino do Senhor do Bonfim”, com a participação de quase todos tropicalistas, ao som de banda.
Importante citar também a genial capa do disco, que contou com todos os tropicalistas posando como se fosse uma tradicional família brasileira, com diversos detalhes interessantes, como as guitarras empunhadas pelos irmãos Baptista como se fossem armas revolucionárias (na época se debatia a pertinência das guitarras na música brasileira); ou ainda o penico nas mãos de Rogério Duprat como se fosse uma xícara de chá, além da já citada foto da Nara Leão.
A importância desse disco é tão grande que serviu de inspiração para importantes nomes da música internacional como David Byrne e Beck entre outros. 25 anos depois, Gil e Caetano fizeram uma versão 2 do Tropicália, já resenhado aqui também . De fato, Tropicália ou Panis et Cincencis abalou as estruturas da música brasileira ao romper com conceitos e preconceitos. Se a ideia era abalar as estruturas da música brasileira, os tropicalistas podem se vangloriar do pleno sucesso obtido na empreitada. Cabe à gente reverenciar eternamente esse manifesto em forma de disco.
[Paul]
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
(RE)Gil: o outro lado do lado de cá (Refavela - 1977)

Escuto o Refavela do Gil. Impossível o Refavela sem o Refazenda. Ou melhor: impossível não é. Mas um é melhor com o outro. Um é o lado B do outro lado A. Yin e Yang.
Gil assina um manifesto sobre o Refavela: o Zeca Total enquanto o Refazenda seria o Jeca Total. É uma pista.
Refavela vila/abrigo das migrações forçadas pela caravela.
Mas Gil vai além. Este disco tem uma sonoridade de volta. Tem um ar da costa oeste africana. A sensação de quem vê o sol nascendo atrás do morro e se pondo dentro d’água. Há certa solidão, um ar introspectivo que me lembra o embarque do Amyr Klink naquela mesma costa oeste.
África, lado A do Brasil, lado B da África.
Não posso avaliar o impacto deste disco à época do seu lançamento, já que, nessa época minhas preocupações não transcendiam muito o estrelão ou a garagem de matchboxes... Só conheci o disco muito depois. Sempre me impressionou. Não canso de ouvi-lo. Uma das vantagens deste é que raramente se encontram suas canções em coletâneas por aí. Nenhuma parte se desassocia do todo, nenhuma se sobressai, e parece que soltas, ficam com saudades, como se ouvir uma de canções traísse o resto do disco.
Refavela, a canção é ponto de partida. É a caravela fazendo a viagem de volta. Por quê? Porque se você soubesse o valor que preto tem, tu tomava banho de piche e virava preto também... canta em Ilê Ayê, de Paulinho Camafeu. E vamos rumo ao Norte da Saudade, que eu vou ver meu bem, aganjú, xangô, alapalá!
O melhor lugar do mundo é aqui. E agora. Zengil. Sua obra é bastante zen, e esta música é sua mais completa tradução. Aqui onde indefinido. Agora que é quase quando. Poesia pura. Música pura. Éter.
E como toda boa viagem, esta não poderia deixar de ser também em torno de si mesmo. É só balançar, que a corda me leva de volta pra ela, a torre no alto da montanha. Porque deus fez tão bonitas as Marias que aparecem na vida, sussurrando no ouvido, tomando chafé no hospício, laços de fita rosa choque e azul... E mais que ninguém Gil balança, e quem não balança com ele? Difícil escolher uma entre tantas músicas lindas neste disco maravilhoso, mas Sandra...
Gil não viaja sozinho. Gosto dos teclados do disco. Gosto muito dos elementos percussivos, menos pro samba, mais pra mãe África. Gosto muito do violão que tá diferente aqui. Gosto do sopros transitando entre o reggae o soul e a gafieira. Sobretudo gosto muito da guitarra de Perinho Santana. Seja nos pequenos comentários, seja nos solos esparsos, ele é elemento chave no disco, o toque de um artista que se entende com o grande mestre, Perinho mistura Hendrix e a Cor do Som. Perfeita companhia pro nosso Gilberto.
Gil volta, não na caravela mas no (Samba do) Avião. Só que, diferente do vôo original do maestro que retornava dos esteites, da grande maçã e seus carneggie hall, Gil volta da África. Seu vôo é multicor, festivo. Note a intro da música: baixo, teclado, tamborim, chocalho e a guitarra vão embarcando suavemente... E vem vindo sopros, voz, violão... Pura psicodelia gilbertiana... Pronto, mais uma favorita...
Quem volta de viagem, morrendo de saudades, chega com a bagagem repleta de novidades e aprendizados, e Gil chega com a mensagem de uma Era Nova, e incluso nas descobertas dalém mar, o Balafon.
E como quem tá de volta, cheio de banzo: eu quero é moqueca! Gil celebra sua volta e (auto)reencontro com a Patuscada de Gandhi.
Refavela, o Expresso 2222 e Realce são meus discos favoritos, do meu artista favorito. La crème de la crème...
[M, a um amor que conheceu a costa leste e seu índico oceano]
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Tropicália 2 - Caetano e Gil (1993)

A Tropicália foi um movimento artístico ímpar na cultura brasileira - não só por ter expressado uma nova atitude perante à política, a moral e ao corpo, mas porque soube fazer tudo isso de um jeito diferente. Os tropicalistas inventaram uma nova estética: misturaram plástico à miçanga, guitarra ao berimbau, Coca-Cola à Brigitte Bardot. A cena musical brasileira em 1968 foi se tornando cada vez mais polivox: conversavam o velho e o novo, e o Brasil com o mundo.
Em 1993, a Tropicália completou 25 anos e os dois pop-tropicalistas Caetano e Gil comemoram fazendo o que fazem muito bem: música! Se uniram ao Liminha, tropicalista histórico da primeira hora na produção e, juntos, foram costurando um novo projeto que tinha a ver com o passado, mas que também tinha muito a ver com o que a Tropicália tinha feito de todos eles. Como se a criatura estivesse sendo engolida pela boca do criador.
O cd abre com “Haiti” – rap em baixa velocidade, violoncelo de Moreno e percussão de Ramiro Mussoto se misturam à história lado B do Haiti. E na música, estórias vão se cruzando com questões raciais que não se apagam com o tempo, a outras estórias, e a sensação que nos resta é a de que não precisamos ir até ao Caribe, que o Haiti, é aqui. O Haiti não é aqui.
“Cinema Novo” é uma obra de arte. O cinema como fonte de inspiração para a Tropicália. A tela era um lugar, onde sem dúvida, se estabelecia “outras conversas sobre os jeitos do Brasil”. E num balanço delicioso, alegre, a música vai contando a estória do impacto do cinema na música. É a pororoca entre as duas artes: “as imagens do país desse cinema entraram nas palavras das canções”. Cinema Novo, o novo Cinema Transcendental.
“Nossa Gente” e “Cada macaco no seu galho”, bahianíssimas total. É o carnaval que corre nas veias e escorre desses dois baianos. A primeira do Olodum, dona da melhor frase do ano : avisa lá que eu vou chegar mais tarde! E segunda do Riachão, com a participação do Carlinhos Brown, engrossando a presença soteropolitana no cd.
O som negro roquenrrol de Jimi Hendrix era ouvido adoidado pela trupe tropicalista no apartamento paulistano, entre móveis de acrílico coloridos, onde morou Caetano entre 1967 e 68. Influência fundamental na Tropicália, Jimmi Hendrix não poderia faltar em “Tropicália 2”. “Wait until tomorrow”: leitura suingada, abrasileirada, com a presença mais uma vez da turma de Carlinhos Brown e de Nara Gil.
“Tradição” é uma das minhas músicas favoritas do Gil. É uma música que traz coisas da Bahia, um sentimento do lugar, mesmo pra quem nunca tenha vivido lá… Traz também o desabrochar de uma personalidade. É um menino que olha para uma menina, mas acaba observando que o rapaz que estava com ela era diferente de tudo que ele tinha visto até então. Uma coisa meio rock’n’roll, com calça americana. “Tradição” conta a estória de um projeto de ser um homem diferente, que acaba sendo mais importante do que ter aquela menina. O lindo na música é o interesse e a identificação pelo diferente.
“As coisas” a lindíssima de Arnaldo Antunes, além de mais suave na voz de Gil e Caetano, ganha também uma batida mais rock com as brincadeiras de Pedro Sá na guitarra e Liminha no baixo. Gosto especialmente da inclusão da aguda “As coisas”. Essa escolha é mais uma prova da intenção polivox tropicalista.
“Baião Atemporal”, gravada em Los Angeles, é quase uma oração para Tom Zé. De Irará para o mundo.
“Tropicália 2” é uma metamorfose feita em tom de festa. É o encontro com a necessidade de Caetano Veloso em esticar a palavra e seu sentido até a explosão, com a natureza aventureira e livre de Gilberto Gil …
[ANDRÉA]
domingo, 26 de junho de 2011
Kaya N'Gan Daya, Gilberto Gil

quarta-feira, 22 de junho de 2011
Gilberto Gil Songbook (Almir Chediak, 1992)

Sim, condensei os três volumes numa resenha só. Desde já devo admitir que não teria a paciência e a dedicação do Dão para fazer uma resenha por disco, o que teria sido, talvez, mais justo com a obra (tampouco vou colocar uma tag para cada artista, sinto muito! Se alguém quiser, fique à vontade...). Aliás, louve-se a dedicação de nosso yogi metal, ele tem mantido o blogue respirando, e, não menos importante, respirando ares diversos com a ampliação da lista de artistas e estilos representados. Talvez tenha se assustado quando alguém fez aquela continha (não fui eu!) mostrando que, no ritmo que estávamos há uns três meses atrás, demoraríamos uns 25 anos para chegar nos 1001...
O projeto Songbook deve-se ao saudoso prof. Almir Chediak, que fez um esforço único e muito bem-vindo para publicar a obra de vários dos mais importantes compositores da MPB, no formato de partituras cifradas para violão. A lista é realmente extensa e não vou tirar da gaveta, que tá sem chave, qualquer um pode abrir. O legal é que o projeto derivou para a gravação do repertório desses (acho que nem todos...) artistas em outras vozes, também representativas da nossa música. Isso tira um pouco o ar de coletânea desta coletânea, que talvez devêssemos chamar de gravatânea, enquanto não aparecer um nome melhor.
Aparentemente a única divisão nos três volumes é que o volume dois concentra mais o pessoal (então) do rock: Kid Abelha, Paralamas, Barão, Cássia Eller, Erasmo... Ainda que Gal Costa e Leila Pinheiro compareçam neste volume, para quebrar o clima. Nossa rainha Rita Lee abre magistralmente este volume com uma versão stoniana do Punk da Periferia, canta como se fosse ela mesma da freguesia do ó, uó-ó-ó-ó! Aqui pra vocês! Mostra com a música do Gil é antenada e como ele é capaz de enxergar seu próprio universo no universo do outro.
Outro ponto alto é a versão de Alceu Valença para Extra II (o Rock do Segurança). De novo, a adequação do intérprete à canção é perfeita! Alceu tem um pouco daquela deliciosa e elegante malícia do Raul... Acho mesmo que é o que mais se aproxima dele no quesito, e se ele quisesse realmente entraria sem o segurança ver. Na época me parece que ele estava gravando o seu Sete Desejos, não vou conferir a data, mas o arranjo lembra muito a sensacional versão que ele (e Paulo Rafael, que toca um violão magistralmente essencial) fez para Respeita Januário, do Mestre Lua, Gonzagão. O Barão Vermelho executa a sensacional canção do exílio Back in Bahia, com a competência rock’n’roll da época pré-Êxtase. Enquanto as outras duas (principalmente a segunda) fogem um pouco das originais, Frejat e sua turma preferem uma versão de mais respeito com a original, mas cheia de toques pessoais.
Deste volume, são as três melhores. Apesar de pouco inspirada, também gosto dos Paralamas refazendo Refazenda (uma versão Os Grãos), meio falada, meio eletrônica... É que esses caras até quando são ruins são bons, haja classe! Apesar de pop e melosa demais pro meu gosto, Esotérico ficou bonitinha com Kid Abelha, enquanto que o Erasmo também manda bem em Pessoa Nefasta. Cássia Eller escolhe a difícil Oriente, canção bem intimista, executada com seu talento típico. Decepcionam: Jorge Ben com uma infeliz versão W/Brasil para Palco, Gal numa inadequadamente afetada Se Eu Quiser Falar com Deus, enquanto que a melhor música do Gil, Realce, recebe, surpreendentemente, um tratamento lamentável de Eduardo Dusek e Sandra de Sá.
Diferente do anterior, os volumes um e três espalham as possibilidades da obra de Gilberto Gil. Tim Maia lhe dá Aquele Abraço, e com ele, o Rio de Janeiro continua ainda mais lindo... Ângela Rô Rô é a voz certa para Deixar Você iiiiirrrrrrr... Elba Ramalho e Dominguinhos cantam De Onde Vem o Baião, e Beth Carvalho sintoniza a Mancada daquele que bebeu o dinheiro da escola que estava reservado para o tamborim. Chico Buarque, Ney Matogrosso e Gal Costa ficam um pouco abaixo do esperado, enquanto que Djavan simplesmente arrasa numa interpretação lindamente apaixonada de Drão.
Aliás, Djavan retorna também no volume três, com outra interpretação magnífica. Se antes, ele se apoiou no formato banda, aqui ele lamenta sozinho com seu violão as agruras do caipira em Lamento Sertanejo. Gosto também da maneira com João Bosco reinventou o Expresso 2222, música que já é perfeita, numa versão ousadamente distinta da original. Gosto do Copo Vazio, por Zizi Possi (que está longe de ser das minhas cantoras favoritas) muito bem acompanhada pelo violão bossa’n’roll de Hélio Delmiro. Também ficou bonita a versão de Roda com Verônica Sabino e Carlos Lyra, enquanto que Jorge Mautner e Nelson Jacobina executam uma gostosa Andar com Fé, assim como fazem Moraes Moreira e seu (então) menino, Davi Moraes, com a Procissão. Caetano decepciona com uma versão voz e violão para Super-Homem a Canção, como se estivesse envergonhado e com pressa de terminar a confissão, enquanto que Paulinho da Viola faz o que se poderia esperar dele, numa canção que eu desconheço a original: Felicidade Vem Depois.
Mas o ponto alto mesmo deste volume, quiçá da coleção toda, é o Domingo no Parque na voz de Margareth Menezes, acompanhada pelo albino Hermeto Pascoal na sanfona, que também assina o arranjo. Margareth, que é uma incógnita quando penso no seu repertório próprio, transitando num limbo situado entre a axé music e outros gêneros, mostra aqui (e também na versão de O Que é Que a Baiana Tem?, do Songbook do Caymmi) que com outro repertório sua história poderia ser bem diferente, porque voz ela tem de sobra.
Completam os volumes A Cor do Som, Victor Biglione (acompanhando Leila Pinheiro, num interessante versão de Divino Maravilhoso), Emílio Santiago, Geraldo Azevedo, Leny Andrade, Fafá de Belém, Nana Caymmi, Francis Hime e Flávio Venturini. Alguns destes não me chamam a atenção o suficiente para fazer comentários. Assim, preferi me ater ao que mais gosto (ou ao que mais me incomoda, em alguns casos).
É claro que, num projeto destes, a menos que você seja muito bem treinado no exercício da tolerância elástica, nem tudo vai lhe agradar. Não sei se intencionalmente, mas o espectro de intérpretes escolhidos é amplo e com este, alargam-se também as idéias sobre o repertório, arranjos, execução... É difícil gostar de tudo, e eu não gosto, algumas canções acho que ficaram péssimas (por exemplo, o assassinato que Lobão comete em Tempo Rei, uma versão de banheiro, mas não de chuveiro), outras duvidosas e algumas são muito fora da minha praia (Leny e Nana, por exemplo), não me sinto à vontade para comentar. De qualquer forma, o projeto é excepcionalmente bem sucedido ao mostrar o quanto a música de Gil é ampla e universal. Um brinde ao Almir Chediak!
[M]
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Enquanto a Bomba Atômica não cai (Gil, Luar - 1981)

Imagino que as gerações mais novas possam encontrar um som datado, típico de uma época específica, preso num lócus temporal qualquer. De certa forma isso é correto. Eu não sabia, mas o encarte da edição lançada recentemente em cd revela que Gil preparava uma retirada da cena musical em busca de uma “vida monástica”. Para esta despedida, Gil queria um som mais contemporâneo (em 1981, lembre-se) e chamou Lincoln Olivetti e uma 'tecladeira infernal', o que dá às músicas um ar mais ‘disco’.
Começando do fim, Se Eu Quiser Falar com Deus era uma música destinada ao Rei Roberto, que não gravou, e a gente entende, a letra é agnóstica e panteísta e não menciona JC. Minha professora de português nos passou essa música para analisar na sexta série, isso na escola salesiana, de padre até a medula. Dona Leda, uma silenciosa revolucionária era excelente professora, pena que lecionava a mais chata das disciplinas. Dona Leda nos mostrou a canção com Elis Regina, sua versão definitiva.
Em Sonho Molhado, Gil chama a sanfona do parceiro Dominguinhos, e já aparece aqui uma das características da sua música: síntese. Baião-reggae-disco com a sanfona do Domingos e os teclados de Lincoln. Outros bons momentos são a semi-balada Lente do Amor, que foi trilha sonora de seriado na globo nos anos 80, a caetânica Cara a Cara, que com arranjo exibido aqui poderia muito bem ter sido gravado pelas Frenéticas.
Tomar pé / Na maré desse verão / Esperar pelo entardecer / Mergulhar / Na profunda sensação / De gozar / Desse bom viver...
Assim começa Cores Vivas, pérola perdida do repertório de Gil, mais uma música-síntese, plena de melodias, poesia simples, zen como o cinema transcendental do mano Caetano, cores da pena de pavão...
Mas este é o disco que consagrou Palco, que seria assim como uma música de despedida. Em grande estilo, convenhamos, um cesto de alegrias de quintal. Sutilmente iniciada com um assovio sintetizado, logo entra a seção arrebatadora de sopros, guitarras dedilhadas a la Andy Summers, e
papapa papaia! pa pa pa páia, pa pa pa papá!
Fogo eterno pra afugentar / o inferno pra outro lugar
Fogo eterno pra consumir / o inferno fora daqui!
Caetano cantou a Lua de São Jorge, lua deslumbrante, azul verdejante cauda de pavão. Afinal: a lua é dos poetas. E então, para Gil,
Do Luar... / do luar não há mais nada a dizer / a não ser / que a gente precisa ver o luar...
Gil canta menos com as palavras que com as lindas melodias que cria. Tanto que a palavra gênio aqui soaria até inadequada, dada a fluência natural de suas canções. Aliás, o Luar de Gil me fez entender porque eu gosto tanto do Cinema transcendental postado outro dia: é um dos discos do Caetano que mais se parece com o som do Gil...
[M]
sábado, 26 de fevereiro de 2011
Refazenda - Gilberto Gil (1975)

Hoje acordei com o canto de um passarinho estilhaçando meu sono! O inverno é marcante pela ausência do som da natureza. A neve cai silenciosamente – é linda, mas é silenciosa e branca. O som do passarinho inaugura algo novo: renascimento, refazenda,rouxinol.
Refazenda trilha o caminho da natureza: vasculha o nosso sertão e o nosso mar. É um conjunto musical que procura o simples, a beleza do natural, a necessidade de reconexão do corpo com algo mais, da saudade com o encontro.
O caminho musical-natural acontece amplo:
Em “Ela”: quando ela te faz um navegador, a musa única nas ilhas do amor. É aquela viagem de olhos fechados.
Em “Essa é pra Tocar no Rádio”: quando o desejo da melhor onda sonora se materializa através da música chegando como uma maré alta, invadindo os ouvidos do chofer de táxi, do querido ouvinte do interior e que finalmente chega para vencer o tédio, quando ele pintar.
O arco natural de Gil é móvel, transita entre o campo e a cidade e o Jeca Tatu se transforma em “Jeca Total”, aquele doente curado, representante da gente, defronte da televisão, assistindo Gabriela viver tantas cores dores da emancipação.
Com Gil não dá pra falar de “Refazenda” sem falar em movimento e novidade: "Re-cidade".
Faz parte do arco, os deslocamentos e as descobertas. Faz parte falar da saudade do que ficou, do que a gente já foi e do que a gente se tornou. E aí, o poeta em "Lamento Sertanejo" transforma dor em mel e traduz o intraduzível.
“Eu quase não falo
eu quase não sei de nada
sou como res desgarrada
nessa multidão boiada
caminhando a esmo"
Mas o recolhimento gera frutos, e às vezes; passarinhos! O Rouxinol com sua asa tratada começa a piar um rock diferente, dizendo que era um rock do oriente pra mim.
E voou deixando um cheiro de jasmim…
[ANDRÉA]
ps:O fio do sonho é apenas um cabelo.
Mas se ele pinta na cabeça
é bom deixá-lo crescer.
(& - Eudoro Augusto)
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
E vai rolar a festa...

(Gilberto Gil & Rita Lee)
Começa já pra cima esse excelente disco ao vivo! ‘Refestança dança, dança, dança, dança quem pode dançar; refestança canta, canta, canta quem pode cantar; só não pode quem não quiser...’ (Refestança, a música). Guitarrinhas rock’n’roll, solinhos em stereo, os sons ao vivo são ótimos.
‘Proibido fumar’ do Rei, canta Rita com um riff ótimo de guitarra. Fumar o quê? Os dois foram presos, não sei se antes ou depois desse disco, por porte da erva em Florianópolis, que hoje um amigo meu chama de ‘a Jamaica brasileira’... Pois é, mas continua proibido.
‘Odara’ é uma boa surpresa, tudo a ver com o clima de festa. Começa climática, mas anima rápido.
‘Domingo no parque’ é antológica, qualquer versão. Essa aqui tem uns backing vocais de dar gosto!
‘Back in Bahia’, uma das preferidas da amiga Andréia, na voz de Rita é também excelente, animada e ‘pra cima’.
Segue ‘Giló’, uma homenagem de Rita a Gil, não é das minhas preferidas.
E aí Gil segue cantando uma ‘da comadre’, ‘Ovelha negra’, uma música que traduz perfeitamente a vida marginal, a opção da minoria, o fazer o que você sabe ser o melhor pra você, mesmo ouvindo que é e sendo ‘a ovelha negra’, tão ou mais política do que qualquer ‘caminhando e cantando’. A versão é voz(es) e o violão maravilhoso de Gil. Mais do que suficiente. E tem aquele solinho. [Mateus, você que tem esse disco, pode informar os músicos?]
Continuando o arrasta-pé, ‘Eu só quero um xodó’, do Gonzagão, com umas guitarras boas que fariam o Lua sorrir.
Sem parar, em ‘De leve (get back)’, Rita mantém a animação. De quem será essa versão? Do Lulu Santos? Nelson Motta? Ou da Rita?
Pra não dizer que não se falou em festa, ‘Arrombou a festa’, uma das muitas músicas tributo aos personagens da música popular brasileira.Pra terminar a festa (ou para recomeçar), ‘Refestança’ de novo...
domingo, 23 de novembro de 2008
Expresso 2222 - Gilberto Gil (1972)

Não tem jeito, tem músico que faz som bom de ouvir, que faz som bom de dançar, que faz som bom de escrever… E Gil nasceu sob este signo: inspira até a última gota.
Em “EXPRESSO 2222” , Gil está de volta ao Brasil e são super claras a sua alegria e também as marcas do exílio no outro hemisfério. Mas as marcas são as melhores… O disco é arejado e alegre, é envolvente. Temos aqui a sorte de um Gil com a cabeça já em outro século, experimentado e aberto para a vida. Nada melhor…
O disco começa numa boa com as flautas femininas e com os tambores fortes e masculinos, Gil e a Banda de Pífaros de Caruaru entram deslizando com “Pipoca Moderna”. Uma música que mexe com cada músculo do corpo, começando pela cintura e vai subindo devagarinho, chegando aos ombros, numa batida marcante. Alegremente você já tá respirando tudo isso, sorrindo, relax... “Pipoca Moderna” é moderna, feliz alívio de quem voltou pra casa. O título é lindo e inusitado.
“Back in Bahia”… Essa música é super especial: quem já sofreu de banzo sabe do que eu tô falando. Ela é uma bomba… Essa música é uma granada, que quando estoura, espalha pétalas. A música começa devagar, respeitando a ferida que a saudade abre, mas Gil malandro que só, não deixa barato! Te chacoalha com o som alegre, super rock - que ele trouxe na mala da ilha do norte - te faz reviver todas as sensações de calor, de cor, de amor pra mostrar que vale a pena! Aquelas palavras inventadas, os sons criados vão te inebriando como um gás, te envolvendo até te convencer que “Hoje eu me sinto como se ter ido fosse necessário para voltar/ Tanto mais vivo de vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá”. É assim que eu me sinto até hoje…
“Canto da Ema” chega num piano malicioso e num xote rapidinho. Gil não quer que sua morena se vá, mesmo com o sinal sinistro do canto da ema. O disco inteiro é uma delícia de ouvir e tem que ser a dois. “Canto da Ema” é erótica, e tem algo de Caribe, na escolha de alguns sons. O piano melódico e agudo cheira bastante aqueles mares de lá.
“Chiclete com Banana” tem algo de futurista. Num batuque suingado e charmoso, Gil tá a fim de miscelânea. Tá a fim de misturar. Essa música é sensacional! Gil propõe uma conversa entre diferentes tradições musicais. Gil continua na sua viagem, chega longe, trança os hemisférios num diálogo utópico.
“Ele e Eu” é uma cama de gato! As palavras se entrosam e viram outras, a música vai rodando e a gente se sente num tobogã, num sobe e desce da mesma voz entonada de mil jeitos e tons diferentes, com inesperados breaks. Linda!
“Ele vive eletriconsumida, consumada ou mudamente/ Bem mais calmo/ Porque curte cada golpe do martelo”.
“Eu vivo calmargalarga, abertamente/ Bem mais louco/ Porque espero pelo beijo arrependido/ Da serpente do começo”.
Gil voltou outro de Londres, menos baiano, baianíssimo em cada milímetro. O ritmo de “Ele e Eu” é lento e penetrante. Tem a mesma força do rio quando a gente não consegue enxergar a outra margem… A música termina dengosa e a bateria vai te abandonando devagarinho…
“Expresso 2222”. Adoro o nome da música e fico viajando num trem todo colorido por fora, onde cada vagão é pintado de uma cor e de um jeito - um psicodélico, um grafitado e por aí vai. Esse trem tem a natureza do sonho, o destino é a liberdade e tem estação no mundo todo.
O violão é de matar! A percussão chega com o chocalho de arroz e depois com o afiado som do triângulo. Essa música tem velocidade especial. Sabe aquela velocidade do trem que você, mesmo do lado de fora, se correr um pouco, ainda consegue acompanhar? É dessa velocidade que eu tô falando. Uma velocidade ritmada, que precisa de fôlego.
“Expresso 2222” pede fôlego, exige sonho… É uma cápsula futurista, que se você olhar pela janelinha, dentro tem vento, tem fogo, tem água e sal. É o futuro que contém rastros do passado.
Baita inspiração…
“ O sonho acabou/ Quem não dormiu no sleeping-bag nem sequer sonhou…”
E o Gil, mestre total de novos sons usa e abusa da sua linguagem criativa e com seu violão canta a tristeza da realidade e lamenta por aqueles que não puderam sonhar.
“O Sonho Acabou” é a marca da ditadura, é o fim dos Beatles - “O sonho acabou hoje/ Quando o céu foi de-manhando, dessolvindo, vindo, vindo/ Dissolvendo a noite na boca do dia”.
Mas Gil é um ser que transpira liberdade. Esse sonho acabou, tudo bem, mas vamos inventar outro, esse é o seu desafio. E inevitavelmente o disco continua girando e ele nos surpreende com “Oriente”, que é exatamente isso “Se oriente rapaz/ Pela rotação da Terra em torno do Sol/ Sorridente rapaz/ Pela continuidade do sonho de Adão”.
Nessa música tão delicada, e num tom de conversa com alguém de quem se gosta muito, poeticamente Gil canta com as melhores palavras o tamanho do mundo, a grandiosidade de qualquer viagem, até daquela feita pela aranha na sua teia.
Essa música me acalma, me faz bem. Um mundo onde as coisas são possíveis, inclusive nossos desejos…
Caetano entra com uma voz trêmula e tímida em “Cada Macaco no seu Galho” e assim que Gil entra, a música estoura! Eles cantam o orgulho de serem baianos e você que procure o teu galho. Essa é pra gente cantar e dançar. E a música vai ficando rapidinha, parece até que Gil e Caetano estão numa corrida pra ver quem chega primeiro na Bahia!
Se eu tivesse que escolher a minha música de carnaval, eu escolheria “Está na Cara, Está na Cura”. Essa música é muito massa! “Está na cara/ Que você não vê/ Que a caretice está no medo/ Você não vê”.
“Expresso 2222” termina em ritmo de folia e não podia mesmo ser de outro jeito! Gil que foi, que voltou, que sofreu e que viveu, nos presenteia com essa lindeza , que é um suspiro de liberdade musical.
Eu vou indo e completamente contagiada por esse astral, deixo aqui umas linhas dos Beatles, que são para mim a melhor tradução de “Expresso 2222”...
“The deeper you go the higher you fly
The higher you fly the deeper you go
So come on come on"
[ANDRÉA]
Ao Vivo na USP – Gilberto Gil (1973)

Dessa vez vou falar de um disco que não foi lançado, mas descoberto. Trinta anos depois, foi encontrada uma fita com um show que Gil fez na Poli-USP em 1973 em protesto contra o assassinato dos estudantes Honestino Guimarães, à época presidente da UNE, e Alexandre Vanucchi Leme, pelo governo militar. Reza a lenda que o show, programado para meia hora de voz e violão, acabou durando três e foi repleto de estórias de Gil, bate-papos, interação com o público, num clima de intimidade que foi perfeitamente captado pela gravação.
As estórias são um ponto alto do show. Exemplo: o público pede Cálice, música dele e de Chico, prevista para ser tocada no Festival Phono 73, mas que na hora H o som foi desligado, para a irritação dos dois. Ele não só conta essa estória, como explica que como cada um iria cantar sua parte na apresentação, ele acabou não decorando a parte de Chico. Finalmente alguém da platéia escreve a letra em um papel para ele cantar. Terminada, ele pede pra ficar com o papel, pois não tinha a letra. Claramente viajandão, ele está no melhor da sua verve, da sua retórica gilbertiana (que nem nesse vídeo aqui http://www.youtube.com/watch?v=LfYM3iFG8qU).
Essas estórias saborosíssimas por si só já justificariam a citação desse disco, mas acima de tudo isso, há a música. Muito à vontade entre os estudantes, num show sem roteiro, como não se vê mais, ele vai desfilando canções próprias (Procissão, Expresso 2222, Back in Bahia) e do repertório de artistas que gosta, como Germano Matias (Senhor Delegado), Gordurinha e Almira Castilho (Chiclete com Banana), Dominguinhos (Eu só Quero um Xodó), João Gilberto (que lhe ajudou a entender Eu quero um samba), Clementina de Jesus (de quem ele evoca o espírito em O Sonho Acabou) e mostra consciência da importância e da qualidade da própria obra (“Não vai nenhuma vaidade, eu tô falando de fora de mim, agora. Eu gosto de Domingo no Parque, acho uma música belíssima. Se não fosse minha eu admiraria mais ainda”, fala aos risos, dele e de todos).
Gil dispensa justificativas, mas nesse caso vale um comentário. Caetano tem uma tese que a linha evolutiva da música popular brasileira se deu por meio de artistas que usavam o violão como instrumento preferencial de sua arte: Caymmi, João Gilberto, Jorge Ben e Gilberto Gil. E aqui a gente tem a oportunidade de ouvir o violão de Gil por inteiro, despido e, nesse caso, numa versão às avessas do rei nu, não há vestimenta mais rica. Ele passeia por sambas tradicionais, novos, xote, rock, bossa, afoxé, num largo leque de influências e interesses, todos transformados por sua forma personalíssima de tocar. Mostra em seu violão, na prática, a tese de Caetano. E depois de escutá-lo tocando, fica difícil não concordar com ela.
Luiz Marcelo
sábado, 8 de novembro de 2008
Raça Humana - Gilberto Gil (1984)
O Gil é garantia de viagem e "RAÇA HUMANA" (1984) é mais que um passaporte, é a viagem em si. Gosto muito de muitas coisas do Gil porque ele tem a curiosa força da osmose: entra sem pedir licença, se instala em cada pedaço do nosso corpo. O Gil é corporal, atiça tudo que é involuntário. E o segredo é se entregar para essa viagem, deixar o corpo se entregar aos sons, as poesias, as vozes. E esse cd fala de mim, fala de você – como uma sonda bem fininha, Gil vai em cada esquina da gente e canta lindamente o que ele pensa ser a raça humana.
A sonzeira começa com “Extra II”! É um rock abusado, desses que a gente enche a boca pra cantar! É um rock que é meio reggae, enfim, todas as moléculas dessa música resultam numa química perfeita, sob as melhores CNTP. E o Gil pra lá de inspirado inverte a importância das pessoas. O ninguém se transforma em alguém especial e único. “Essa aparência de um mero vagabundo/ é mera coincidência/ deve –se ao fato de eu ter vindo ao seu mundo com a incumbência/ de andar a terra, saber porque o amor/ saber porque a guerra/ olhar a cara da pessoa comum/ e da pessoa rara.
Essa música atravessa como um raio!
“Feliz por um Triz” chega aos gritos! Outro rock de matar que conta com a participação de Wally Salomão no vocal, Pedro Gil na batera e Liminha na maravilhosa guitarra. Essa música canta a nossa condição precária de pertencer à raça humana… Canta também nossa criatividade em viver a vida, canta a nossa safadeza interior, o nosso lado mais vivo. O lado que vibra mesmo estando por um triz. Acho que isso que é a esperança! É estar por um triz e de repente fica tudo bom…
Essa música não é uma delícia? “Chama-se o aladim da lâmpada neon”…
Outra a mil por hora! Eita Gil acelerado! Tudo corre nessa música! Em “Pessoa Nefasta” Gil exorciza o mal, a cobiça, o inferno, o baixo astral, a alma bissexta. E com a ajuda de todos os guias, do senhor do bonfim, da guitarra, da percussão e duma batida aguda recheada de lindos vocais que viram instrumentos musicais, Gil garante que tu pessoa nefasta pode se ver livre das dentadas do mundo.
Essa música é um arraso… Aqui o espírito é obeso e vaga como um pedaço de tábua no mar. O Gil conseguiu com muita graça, rapidez e poesia, adicionar todos os ingredientes da crença e do vocabulário dos terreiros à nossa vida moderna.
“Tempo Rei” chega slowzinha, do jeito que tem sido, transcorrendo, transformando, tempo, espaço, navegando todos os sentidos. Taí, a beleza do tempo…
Essa música é um hino: uma delicada escolha de palavras simples, de frases feitas que numa outra ordem, ganham cor e nos enfeitiçam.
Essa música, com essa voz mansa do Gil, com esse vocal doce do Ritchie, dá vontade de ir pro quintal, acender um cigarrilho, deitar na grama e olhar para as estrelas…
Vamos fugir? Assim, devagarinho, discretinho, de mansinho… The Waillers emprestam sua energia ao que há de melhor no Gil! Como não poderia deixar de ser…
Essa música inaugura o lado malicioso, sensual e delicioso do “Raça Humana”. Um reggae que transpira desejo, um reggae “onde haja só meu corpo nu junto ao seu corpo nu”. “Vamos Fugir” eu quero ouvir mil vezes! E de novo, tudo muito simples, tudo lúdico, num amor-brincadeira. Tudo muito simples para falar do mais difícil: a entrega.
E em tempos de Obama, como não achar o máximo “A Mão da Limpeza”? Gil nessa música canta todos os rastros de um dos mais primitivos sentimentos humanos - o racismo. Com humor, ironia e uma musicalidade contagiante, a letra vai pontuando a vergonha, a mentira. O que eu acho incrível nessa letra é que ela não é ressentida. A sujeira ganha um sentido universal. Esse é o engajamento do Gil: o recado vem colorido, não é um recado preto no branco.
“Índigo Blue” inunda nossos ouvidos com a música de amor mais corporal que eu já ouvi. Um delírio, um arraso, uma coisa de enloquecer, exagero mais delicado e sensual impossível. “Índigo Blue” começa e você já tá de quatro!
O Gil faz nossa imaginação caminhar nas pontas dos pés pelo corpo feminino e depois pelo masculino como se esses corpos, de peles macias, fossem lindas paisagens… E ele vai cantando todas as nossas sensações durante a trilha. Covardia.
E tudo começa devagar, como se os corpos fossem terras estrangeiras, tudo sob o indigo blue. Mas aí os dedos ficam alegres e afoitos com a descoberta. Deleite puro! E os “músculos másculos dizem respeito/ a quem por direito carrega essa terra nos ombros/ com todo respeito”, vira “seu guardião, seu amigo/ seu amante fiel”. Ah…
Adoro o título!" Índigo Blue" é A estória de amor. Aquela em que a única voz que se pode ouvir vem do corpo. Em “Índigo Blue” são os corpos que viram amantes, mesmo que as mentes não queiram…
Depois de muito suar em “Índigo Blue”, “Vem Morena” chega alegre, com um baixo sacana e te convida de novo pra uma transa. É que para Gil (Luiz Gonzaga e Zé Dantas também), a Raça Humana é um espaço, um lugar, um ser onde acontece tudo – todos os sentimentos passam e param nessa estação. "Vem Morena” é uma música sem idade, ela veste qualquer um. Ela cutuca! E tem algo que me lembra Alceu Valença, acho que é pelo “approach” nordestino do fungado quente bem no pé do pescoço.
E Gil finalmente pulsa com sua “Raça Humana”. Todas as nossas contradições são traduzidas em beleza, em ferida acesa, em fogo e em saudade. Gil empresta palavras quase religiosas e constrói uma anti-prece. Da raça humana tudo se pode esperar – isso é o lindo e também o assustador. Mas para Gil somos a “Grande Síntese” – como num mosaico, onde diferentes cores se encontram num desenho único e possível.
É de esperança que estamos falando…
