Gênese da indicação: troca de e.mails *: Rolou um link (creio eu, pois não li) com considerações de Lobão. O que vem e repercussão interna parcial.
quinta-feira, 2 de maio de 2013
Lobão nº 00668
Gênese da indicação: troca de e.mails *: Rolou um link (creio eu, pois não li) com considerações de Lobão. O que vem e repercussão interna parcial.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Atenciosamente, Duofel
Tem pouca música instrumental por aqui, é um fato.Decorrente do fato de que realmente há poucos discos de música instrumental interessantes. Há muito exibicionismo, muita encheção de lingüiça e pouca originalidade, além de pouca criatividade e raras composições legais.
Mas, e sempre tem um mas, temos excelentes discos.
E este aqui é um deles.
O Duofel é uma dupla de violonistas (Fernando Melo e Luiz Bueno), daí o nome: dupla formada por Fernando e Luiz.
A princípio em conjunto de baile, depois em bares e casas noturnas, a dupla tocava muito (em freqüência e habilidade), posteriormente passando a suporte da banda de Tetê Espíndola. Inclusive são responsáveis pelo arranjo de 'Escrito nas estrelas' (se isto é um mérito eu realmente não sei...).
Posteriormente passaram a um terreno mais especificamente instrumental, com fortes influências de Egberto Gismonti e do gênio Hermeto Pascoal.
Depois de uns 5 álbuns chegaram a este aqui, onde várias composições próprias homenageiam suas influências e poucas são releituras bem livres e diferentes das originais.
O disco tem 2 versões e as outras são inspiradas em artistas importantes para a dupla.
Procissão (Gilberto Gil) inicia bem, meio etérea com uns instrumentos com arco (acho que são os Zig Zum, seja lá o que for isso), com a melodia fiel, clima de festa meio marcial (como uma procissão, oras...), improvisos no meio, bem legal. Começo bem pra cima!
Os violonistas alternam violões de aço, de nylon e de 12 cordas conforme a música.
Além deles há outros excelentes músicos, como Nenê (bateria), Sylvio Mazzuca Jr (baixo), Michel Freidenson (teclado e piano), Caíto Marcondes (percussão) e Teco Cardoso (flauta e sax soprano).
A música seguinte, Subindo o Tapajós, homenageia Sebastião Tapajós, violonista da 'clássica escola européia e a própria escola brasileira de violão personificada'! Tema bonito, sutil, dinâmica, vc quase consegue ver os caras se olhando e os instrumentos dialogando, música viva, muito longe da chatice instrumental.
Tetê Espíndola, cantora já citada, meio madrinha do duo, é a homenageada da música da vez, Floresta dos Elfos, já que ela havia sugerido o nome Duo Elfos. Gongos, sons de chuva, percussão discreta, tema límpido, bonito de ouvir.
Azul cor de manteiga homenageia o sensacional Hermeto Pascoal, que já trabalhou com os caras no disco 'Kids of Brazil'. Mais um belo tema. Mais caótica, meio pulante, com um pan bem legal, boa pra ouvir com fones ou caixas bem afastados.
Fax para Uakti é pro Uakti, óbvio...Se vc não conhece, deveria (e nós deveríamos botar um disco deles aqui, claro, quem sabe o 'I Ching'). Bem viajante, com uns sons psicodélicos de arco de rabeca, muito legal. Se o Syd Barret estivesse vivo...
Norwegian wood (this bird has flown) é dos Beatles (não conhece? Volte já pra Marte, porra!). Uma releitura ao mesmo tempo fiel e criativa, com improvisos viajantes mas sempre na estrutura consagrada.
O amigo da chuva tem um quê de música indiana, proncipalmente na percussão quase frenética, o que tem a ver com o homenageado Badal Roy, tablista indiano ligado ao free jazz norte americano.
É pra Jards homenageia o Jards Macalé, numa levada meio malandra, cheia de ginga e quebradas, ou melhor, breques.
Boissucanga é o nome de uma praia do litoral norte de São Paulo (muitos cariocas não sabem que há praias lindas por lá, azar o deles; azar não, ignorância), um trio de rock progressivo e o nome da música mais dinâmica por aqui, harmônicos saltitantes em afinações alternativas, um ping pong de violões desenfreados, bateria quebrando tudo e também tocando baixinho jazzy, quebradas e talz...O homenageado é o parceiro do trio de mesmo nome citado, Armando Sinkovitz.
Rock rural e instrumental! Surpresa é sair daquela simplicidade típica e do bucolismo, a música Atenção: lombada é bem animada, mesmo tendo 'só' dois violões de aço pilotados cheios de velocidade e sutileza. Zé Geraldo, o homenageado da vez, foi ajudado pela dupla como músicos e arranjadores no disco 'Caminhos de Minas', onde também tocaram guitarra e baixo.
Jazz à Vienne, nome de um dos maiores festivais de jazz da Europa, homenageia Michel Jules, violinista e compositor francês, que divulgou a dupla. Aqui a música é mais tranqüila, plácida, com um lindo sax soprano, cadências de acordes sofisticados.
Pra terminar um samba maluco, Garoando no Bixiga, com banda mais pesada, levada na frente que te faz mexer, tema insistente e incisivo. Aqui se homenageia a cidade de Sampa, 'muitas vezes quente e romântica, outras tantas caótica e agressiva, mas sempre se renovando', através de seu ilustre filho, a 'figura caricata de Adoniran Barbosa'.
(Dão)
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Tudo Azul....Tudo Azul meu Amor

Em 1999, paralelamente ao trabalho de cantora e compositora, Marisa Monte decidiu resgatar todo o trabalho da Velha Guarda da Portela, cuja comunidade em Madureira tinha forte relação (seu pai - Carlos Monte - tinha sido diretor da Escola de Samba). O resultado ficou belíssimo, a começar pelo encarte. Em uma época em que as gravadoras estavam reduzindo os custos e os CDs vinham com pouco material, Tudo Azul vai na contramão, incluindo letras cifradas e páginas azuis com trabalho artístico de primeira (fotos de Rodrigo Monte).
A seleção das músicas também foi digna de louvor,incluindo canções dos principais expoentes da Velha Guarda da Portela: Monarco, Alvaide, Chico Santana, Chatim, Manacéia, Áurea Maria, David do Pandeiro, Candeia, Alvarenga, Jair do Cavaquinho, Colombo, Casquinha, Ramon Russo, Casemiro da Cuíca, Alberto Lonato, Josias e Ventura, autores das 18 canções gravadas.
Com “Portela desde que eu nasci”, o disco inicia-se marcando terreno:
Eu sou portela ...Desde os tempos de criança...Ainda guardo na lembrança...Algo e vou revelar
Em seguida, a inspirada letra de “O Mundo é Assim” (Alvaiade) dá o tom ao mesmo tempo nostálgico e filosófico:
O dia se renova todo dia
Eu envelheço cada dia e cada mês
O mundo passa por mim todos os dias
Enquanto eu passo pelo mundo uma vez
Continuando com a clássica “Nascer e Florescer”, na Manacéa, na voz de Monarco e emenda com “Vai Saudade”, canção em que se destaca o cavaquinho de Jair do Cavaquinho (com o perdão da redundância).
A temática nostálgica prossegue nas músicas seguintes (“Vai Saudade” e Sabiá Cantador”), e acaba levando a memória do ouvinte a uma agradável tarde de sábado regado a cervejinha em uma mesa de bar, acompanhado de bons e velhos amigos.
Em “A Noite que tudo Esconde”, destaca-se a participação especial justíssima de Paulinho da Viola, que afinal de contas, é o responsável direto pela primeira constituição da Velha Guarda da Portela em 1970 (informação que consta do próprio encarte de Tudo Azul).
Depois de “Eu te quero”, “Volta meu amor” conta com a participação especial da própria Marisa Monte, e o resultado não poderia ter sido melhor: Uma canção belíssima:
Volta, volta, meu amor
Quero sentir novamente seu calor
O disco segue em melhor estilo com “Falsas Juras” (Eu já lhe disse.... Que não quero mais o seu amor porque... As falsa juras nos seus beijos... Me fizeram padecer) e emenda em “Tentação”, bela canção levada só com a cuíca e voz de Casemiro da Cuíca.
Você me abandonou...Ô ô eu não vou chorar...Mas hei de me vingar...Não vou te ferir...Eu não vou te envenenar...O castigo que eu vou te dar é o desprezo...Eu te mato devagar (...).A dor de cotovelo levada de forma alegre permanece dominante na canção “Você me abandonou”.
O rtimo cadencia em “Vem Amor” para acelerar novamente em “Benjamim” e emendar em “Tudo Azul”, canção que providencialmente batiza o disco, em referência não só ao bem estar, mas também à cor da tradicional escola de samba do Rio: “Tudo azul...Tudo azul...meu amor”.
A cadência mais lenta de “Minha Vontade” conta com a participação especial de Cristina Buarque para, em seguida, dar lugar ao ritmo do pandeiro e a cuíca em “Sempre o Teu Amor”.
Para finalizar, depois de mais uma participação do excelente cavaquinho de Mauro Diniz em “Corri pra ver” (ao todo participa de 4 canções), o disco encerra com a participação especial de Zeca Pagodinho, que divide o vocal com Monarco em “Lenço”: Pega esse lenço e não chora...enxuga o pranto, diga adeus e vá embora”.
E enxugando o pranto diante do término dessa preciosidade, o disco finaliza no melhor estilo. Com esse trabalho, Marisa Monte presta um grande favor a todos amantes da boa música, resgatando um trabalho que, antes de tudo, envolve emoção e sentimento, do tempo em que a música era, antes de tudo, uma manifestação cultural autêntica e não o ganha-pão de ninguém.
[Paul]
PS: para escutar o disco:
http://grooveshark.com/#/playlist/Dj+Paul+Velha+Guarda+Da+Portela+Tudo+Azul/62013188
sábado, 1 de outubro de 2011
Ney Matogrosso, Olhos de farol

É um disco lindo, onde mais uma vez o intérprete Ney traz vários autores para seu garimpado repertório.
O disco conta com muitos músicos da melhor estirpe, só pra citar alguns (fora os citados abaixo): Marcos Suzano, Leandro Braga, Zé Nogueira, Marcio Montarroyos, Arthur Maia, Serginho Trombone e por aí vai...
'Miséria no Japão' já tinha aparecido no disco do Pedro Luís e a Parede, se não me engano. mas vale o bis numa voz de verdade, né? PLAP é muito legal, mas falta um cantor de verdade...
Letra primorosa, refletindo sobre a percepção sobre riqueza e pobreza:
"Quem te disse que miséria é só aqui?
Quem foi que disse que a miséria não ri?
Quem tá pensando que não se chora miséria no Japão?
Quem tá falando que não existem tesouros na favela?
A vida é bela
Tá tudo estranho
É tudo caro
Mundo é tamanho"
Na seqüência, uma do Paulinho Moska, 'Gotas de tempo puro', mais uma bela letra numa canção pop redondinha, com uns sopros bem bonitos e coloridos.
"Choveu dentro de mim
Gotas de tempo puro
Trovoadas de passado
Relâmpagos do futuro
(...)
O que a humanidade grita é
Eu quero a liberdade, é lógico
Mas o que a natureza ensina
É que nada tem que ser cronológico"
'Vira latas de raça' é uma boa surpresa por seus autores (Rita Lee e Beto Lee, que tocou outro dia com os Mutantes e inclusive tem um disco a ser resenhado por aqui que o Mateus vai gostar de ouvir), além de ser mais uma boa canção com um pezinho na latinidade a la Santana pelo Ricardo Silveira (que também é responsável por vários arranjos), com letra citando o tropicalismo.
"Não posso ser outra coisa se não James Dean
Eu sempre fui mais bonzinho quando sou ruim
Minha dor não dói, sou marginal, sou herói!"
'Novamente' (do conterrâneo niteroense Fred Martins e de Alexandre Lemos) é das mais bonitas do disco, uma sonoridade delicada e etérea, com uma percussão suave.
"Quem sabe o que se dá em mim?
Quem sabe o que será de nós?
O tempo que antecipa o fim
Também desata os nós
Quem sabe soletrar adeus
Sem lágrimas, nenhuma dor
Os pássaros atrás do sol
As dunas de poeira
O céu de anil no pólo sul
A dinamite no paiol
Não há limite no anormal
É que nem sempre o amor
É tão azul"
'Chance de Aladim' (Luli) é suave, lenta, cheia de espaços. Uma das melhores letras do disco, mas grande, vá ouvir e preste atenção!
'Poema' tem uma origem curiosa, com a letra de Cazuza (parece que feita para a sua avó por ocasião de seu falecimento) musicada postumamente pelo Frejat (que também toca e programa loops por aqui!). Linda música sobre pequenas mortes cotidianas, internas e externas.
"De repente a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua
Que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio mas também bonito
Porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu
Há minutos atrás"
Chegamos a mais um dos pontos altos, 'Olhos de farol' (Ronaldo Bastos e Flávio Henrique), sendo que esta poderia estar no anterior 'Cair da terde', com seus arranjos quase eruditos e voz baixa. Mais uma linda.
'Depois melhora' (Luiz Tatit) é tranquila e triste, poucos instrumentos, com delicadeza, como agrada ao Mateus...o disco não tem músicas ruins, nem pontos baixos!
"Sempre que alguém daqui vai embora
Dói bastante mais depois melhora e com o tempo
Vira um sentimento que nem sempre aflora mas que fica na memória"
'Mais além' (Lenine!, Bráulio Tavares, Lula Quiroga, Ivan Santos) é sensacional! Cordas majestosas, dinâmica inteligente, letra viajante, piano belo, muitas coisas boas numa canção ótima. O curioso pra mim é que a música sempre tocava num seriado da Globo (com médicas incluindo a Patricia Pillar), mas a voz nunca entrava e eu ficava querendo saber de quem era. Tempos pré google que não voltam mais.
Aqui a voz do Ney se sobressai.
"O homem sobre a areia como era no início
Roçando duas pedras, uma em cada mão
Descobre a fagulha
Que incendeia o paraíso
E imaginou que havia inventado Deus
É mais, é mais, é mais, é mais, é mais além
(Mais além)"
'O som do mundo' (dos Skanks Samuel Rosa e Chico Amaral) é popzinho agradável reggae, talvez umas das menos boas.
'Fazê o quê' (mais uma do Pedro Luís) tem cara de sertanejo, viola e voz meio repente, mais uma boa surpresa.
"Se tem Hermeto, Bispo, Marley, Gentileza
Isso só me dá certeza
Da nobreza que dá certo
Vô fazê, vô fazê
Música pra enriquecer (o quê?)
Os corações e o planeta
Basta um papel e uma caneta"
E estamos chegando ao fim...'Bomba H' (Alzira Espíndola e Itamar Assumpção) não deixa a qualidade diminuir.
'A cara do Brasil' (Celso Viáfora, Vicente Barreto) já foi citada num blog do Paulinho, pela letra que, entre outras coisas que definem o Brasil, aborda o futebol. Meio circense e divertida, apesar de séria.
"A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho
Ninguém precisa consertar
Se não der certo a gente se virar sozinho
decerto então nunca vai dar
(...)
Brasil Mauro Silva, Dunga e Zinho
que é o Brasil zero a zero e campeão
ou o Brasil que parou pelo caminho:
Zico, Sócrates, Júnior e Falcão"
E aí, qual é o seu Brasil???
terça-feira, 7 de junho de 2011
Som de caráter urbano e de salão, Sheik Tosado

quinta-feira, 26 de maio de 2011
Yanomami's Blues, Wahari (1999)

Acho difícil escrever sobre um disco desconhecido da maioria, e tentar descrevê-lo... Os discos são afinal para ser ouvidos, muito mais que comentados, e às vezes a descrição acaba ficando um tanto enfadonha. Eu gosto muito deste disco apesar de escutar pouco (por preferir ouvir canções à música instrumental), ele é bonito e tem um variação de humores muito interessante.
Wahari é o som do vento entrando pelas frestas das ocas e significa (se é que é possível uma tradução) vento brando da noite na língua Yanomami. É também o nome de uma banda curitibana (não, eu não sou amigo, sequer conheço qualquer um destes músicos...) formada pelos irmãos Augusto e Gustavo Weber (que na verdade são de Capanema, Oeste do estado) responsáveis pelo núcleo melódico da banda, o primeiro concentrando-se na guitarra e cítara e o segundo nas violas. Completam a banda Frederico Ferraz e Nilton Rodrigues, responsáveis por percussões as mais diversas, incluindo pandeiro, bongô, berimbau, triângulo, o que dá um ar bem brasileiro ao som do vento aqui.
Vento noturno portanto é a música nome da banda e inicia no oriente, com cítara e tabla e vem vindo pro ocidente com elementos percussivos, violão, violoncelo e viola entrando aos poucos, sem deixar que estes são confundam e mantendo uma harmonia impressionante. Já em Yanomami’s Blues o caminho é outro: nasce bem blues com violão e slide e aos poucos vem navegando rumo ao sul na percussão cheio de elementos típicos da música brasileira-africana, berimbau e bongôs entre outros.
O disco segue girando e em Terra Aberta a locomotiva é a viola. Aqui são duas, a tradicional de 10 cordas (5 oitavadas) e o que aqui é chamado de viola de sete bocas (e que eu já vi por aí com o nome de viola dinâmica. É o similar ao dobro ou resonator guitar, só que nacional...). E logo os vagões são coloridamente preenchidos por flautas e percussão variada. Estas três músicas trazem a síntese do trabalho do grupo, a mistura de blues, moda de viola e música indiana, formando uma espécie de “introdução” ao conteúdo musical do grupo. Pode parecer meio pizza de feijoada com costela de carneiro, mas estes elementos tão distintos aqui aparecem em convivência pacífica e natural, sem forçação de barra.
Viajando ao Espaço, voltam com a instrumentação repleta de tons da índia e uma linda guitarra tocada limpa, limpinha. Junto com London Bossa, que é outra embalada pela guitarra de Augusto, estas duas dão um ar mais urbano e contemporâneo ao disco, assim como duas músicas que aparecem mais pro final, A Bela Chinesa e Rio Soul, com toques de jazz-blues fusion temperados por elementos tipicamente Wahari.
Já Capanema’s Way é centrada nas cordas dos convidados Maska (violino) e Alesandro Laroca (violoncelo) que levam a canção como uma viagem de trem pelo interior. No final entram suavemente vozes femininas em coro. Além das três primeiras, destaca-se o Raga Nordestino que faz belo o improvável, começa ooooohmmmmm no harmonium (de Plínio Silva) e cítara e depois deriva pra olê Mulé Rendeira na viola, violão e triângulo. Lindíssima. E gosto também da Catira, ritmo e dança rural típico de SP, MG, bem caipira, com um toque pessoal de muita classe sem deixar de respeitar a tradição original.
Fecha o álbum uma inusitada versão do supremo clássico de Ari Baroso, Aquarela do Brasil, bem à moda da banda: começa com a cítara embalada pela tabla de Kiko Pereira, entoando esta velha conhecida nossa. Aos poucos, a índia vai sendo sambada pela percussão bem brasileira. Nada mais apropriado.
[M]
ps: para conhcecer melhor : www.wahari.com.br/
terça-feira, 7 de julho de 2009
Na Pressão - Lenine (1999)

Lenine é um garimpeiro. Eu fico de boca aberta com a graça com que ele transita pela língua portuguesa e pinça suas palavras. Palavras que só podiam mesmo estar ali pela sua beleza, precisão, efeito, sutileza e agudeza.
E aí, depois do garimpo, Lenine põe essas palavras para dançarem, num encontro perfeito entre frases, estrofes, vozes e instrumentos. O encontro é magnético, atraindo vários dos meus sentidos, um de cada vez.
“Na Pressão” não poderia ganhar melhor nome. O embrulho anuncia a potência da bomba: na capa do encarte um carro em chamas.
A bomba visual explode estilhaçando meus ouvidos com “Jack Sou Brasileiro”. Jack tem sotaque e balanço. “Jack Sou Brasileiro” está para o Brasil assim como “Rio 40 graus” está para o Rio. Aritmética musical, sambal, cocal, funk-rockal.
Lenine aparece plastificado – só mesmo um plástico colado no corpo poderia conter tudo o que significa ser brasileiro – sua dor e sua delícia. Batida incrível. Palavras musicais.
“Na Pressão” - a barriga da grávida é de arrepiar. A pele está no limite da tensão, tornando-a lisa, de um redondo quase plano.
“Dinamite é o feijão/ Dentro do molho dela.”.
A barriga e a música estão no limite da tensão. A barriga como metáfora para a surpresa, para o inesperado. Ali dentro corre o mundo – barriga branca, mandinga negra. Lenine branco, Naná Vasconcelos negro. Dois continentes.
E se a surpresa falhar, o caldo entorna, a garrafada de serpente se transforma em saliva da besta fera, guerrilha na fronteira perseguindo a feiticeira.
“Enquanto o tempo acelera/ E pede pressa/ Eu me recuso, faço hora/ Vou na valsa/ A vida é tão rara”.
“Paciência” é exigente. É lenta e sábia. É linda e forte. Música que me deixa em carne viva.
“Meu Amanhã” é a música que eu queria para mim! Música de amor com teor e nuance. Exagero, realidade, contradição, sonho, vontade e limite.
A viagem é inevitável. Caminho sem volta. O título é inspiradissímo – Meu Amanhã lança um olhar lá na frente, desejo de ficar junto para sempre. “Ela é minha sina/ O meu cinema/ A tela da minha cena/ A cerca do meu quintal”.
O som é todo sensual, eletrônico, uma anunciação com as melhores palavras. Não dá para não tripiar! E sempre me pego dançando.
Essa música tem um detalhe muito especial: a matemática mágica - dois vira o infinito, o amor com a lente na sua abertura máxima. Viagem sideral.
“A Rede” é uma outra favorita. Adoro o barulho do gancho da rede. O que falar desse som? Que é uma coisa? Que é um delírio? E eu caio na rede e não tem quem não caia…
A foto dos músculos másculos é outra baita rede. Sensacional.
Essa música faz parte do time daquelas que é gostoso de ouvir com a cabeça feita, canais abertos – assim todos os sons serão percebidos…
“Barulho do mar/ Pipoco de onda/ Ribombo de espuma e sal”.
“Medida da Paixão” é linda mas é muito triste… Como um amor pode escapar da gente assim e a gente não perceber? “É como se a gente pressentisse/ Tudo o que o amor não disse/ Diz agora essa aflição”.
Rua da Passagem” começa completamente Pernambuco, com direito a Siba na rabeca e banda de Pífanos de Caruaru. Gosto da mistura dos sons regionais, quase rurais com o tema que de tão urbano, cheira a concreto. Texto a quarto mãos, Arnaldo Antunes e Lenine. E aqui eu não sei o que é de quem. Mistura sem fases.
Começa som Lenine, passa Pedro Luis e a Parede e termina som Arnaldo.
Maravilhosa.
“Relampiando” dorme tranquilo na foto. O acordeom de Dominguinhos dá a leveza para a canção tão crua. A poesia do Lenine tem algo de João Cabral: a beleza do áspero, a flor do cactus. Me gusta.
A que vem agora é demais… “Eu sou meu Guia”. A levada é gostosa, e a letra é de uma esperança sem igual. Tem hora que eu acho que essa música é o Lenine lembrando dele quando criança - com os olhos no dilúvio, os dedos no violão e onde o resto de estrela da noite clareia a manhã.
“Na Pressão” faz um movimento circular: abre grande, corre o mundo, fala de tudo um pouco e fecha no pequeno, na pessoa, na unidade. E é justamente na unidade que a pressão acontece.
Tiro meu chapéu.
Come together, right now
Over me.
[ANDRÉA]
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Isso é Amor - Ira! (1999)
Houve uma época em que as bandas pop nacionais da década de 80 resolveram, quase todas, lançar discos de homenagens às suas influências. Assim foi com Barão Vermelho, Titãs, Kid Abelha... Se foi um movimento coordenado ou se foi apenas sinal de cansaço na virada nunca saberemos. De qualquer forma, alguns desses momentos foram deliciosos.
O disco do Ira! De ’99 vai nessa linha mas com uma pequena diferença: a seleção privilegia os temas de amor, talvez assumindo que, nessa praia, era melhor a banda dar voz a outros compositores do que se fiar na poesia excessivamente crua de Edgar Scandurra. O som típico do Ira! Inicia o disco com Bebendo Vinho de Wander Wildner (ex-Replicantes, ver um dos posts anteriores) e Teorema, da Legião Urbana.
Mas os melhores momentos do disco ficam exatamente por conta dos momentos menos típicos. E o primeiro destes momentos vem com Telefone, música da década de 80 na voz de Gang 90 e as Absurdetes. Aqui a versão é executada com um wah-wah suave do Scandurra e a voz aveludadamente deliciosa da Fernanda Takai (ó! Meu amô-or, isso é amor...) que divide o refrão com Nasi e que acabou sugerindo o nome do disco. O Ira! Volta irado em Chorando no Campo, do Lobão, passando em seguida para uma balada acústica do Dalto (é, aquele sujeito mesmo, o ‘muito estranho’...), Flash-Back cuja melodia do refrão é muito bonita.
Samuel Rosa é o convidado certo para acompanhar a banda em Um Girassol da Cor de Seu Cabelo, clássico do super disco Clube de Esquina (essa resenha é minha, ok?). Essa música de Lô e Marcio Borges é mais um dos pontos altos do disco. A versão ficou mais balada, na levada da bateria mais pop e com um guitarra limpa do Scandurra que é sen-sa-ci-o-nal... A mudança de andamento que marca a música no final aqui é mais suave que no original também é executada aqui, mas a ênfase é o som de banda do Ira (ainda que com a sutil presença de teclado).
Mudança de Comportamento e Abraços e Brigas são as duas músicas de autoria do Scandurra que fazem parte da seleção. O que me Importa não é das minhas favoritas, mas ficou muito melhor que a versão com Erasmo e Marisa Monte que andou tocando adoidado nas rádios uns tempos atrás, graças, mais uma vez ao wah-wah majestoso do Edgar. Essa música tem um solo de guitarra ao contrário a la Beatles-Hendrix, que ficou sensacional, outra cortesia do guitarrista.
Jorge Maravilha divide com as duas outras já citadas as atenções neste disco. O rockão suingado quase jorgebenniano ficou mais sensual e mais atemporal que o original. Enquanto que com o Chico cantando o recado ao general fica mais evidente, aqui, quando Nasi chega em
Ela gota do tango, do dengo, do mengo, domingo e de cócegas!...
Ela pega e me pisca, belisca, petisca, me arrisca e me enrosca
Fica muito mais claro que no original o quanto que sua filha gosta de mim, apesar de você não gostar...
Não poderia faltar uma do rei, que virou quase um cult no final da década e o Ira! Escolhe Sentado a Beira do Caminho que é executado de maneira tradicional. A Vida tem Dessas Coisas de Ritchie é a próxima e Bingo! ficou mais ácida, mais roquenrou... menos brega-pop anos 80, mais uma vez eles acertaram a mão nesta versão. E o disco poderia terminar, seria perfeito. Mas ainda sobram Alegria de Viver versão em português que o próprio Edgar canta, e Minha Gente Amiga de Ronnie Von, que ganhou uma versão ‘Santana’ na guitarra, ainda que entremeada sutilmente por ritmos eletrônicos. É uma canção despedida para um grande disco, de uma grande banda. [MATEUS]
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Com você... meu mundo ficaria completo - Cássia Eller - 1999)
O som da Cássia Eller vinha evoluindo, é verdade e o disco anterior a este já era bem interessante, com releituras bem legais de Coroné Antônio Bento e Na Cadência do Samba e o megahit 'Malandragem'. Mas este disco é simplesmente perfeito! A parceria com Nando Reis, que além de produzir o disco junto com Luiz Brasil é o compositor de quase metade dele, é fundamental. Esta produção privilegia as canções, logo a voz de Cássia e a deixa muito à vontade, longe de querer vendê-la como uma roqueira revoltada como os primeiros discos sugeriam, algo que ela nunca foi. O som da banda ganhou demais com a percussão da Lan-Lan, o som ficou melhor resolvido, mais atemporal, sem exageros instrumentais. Além da faixa título, Nando Reis deu a Cássia o presentaço Segundo Sol, As Coisas tão mais Lindas e Infernal. Além destas, Cássia gravou Carlinhos Brown (Mapa do meu Nada, uma das melhores do disco), Marisa Monte (em parceria com Arnaldo Antunes, Pepeu Gomes e Moraes Moreira), Gilberto Gil, Caetano Veloso, Itamar Assumpção, Luiz Melodia entre outros compositores menos conhecidos. Um Branco, Um Xis, Um Zero (de Marisa, Arnaldo e Pepeu) é outro destaque, Maluca (de Luiz Capucho) também. E não se engane, o disco é de tirar o fôlego, não tem música chata, o que se destaca é por mérito de ser bom demais!!! [MATEUS]
