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domingo, 9 de outubro de 2011

V, Legião Urbana (ainda em 1991...)





Outro dia, no vício inerte da tv a cabo, vi (mais) um programa sobre os discos de 1991 - que, inclusive, coerentemente, colocava o 'Screamadelica' como número 1 à frente do 'Nevermind', prefigurando ou antecipando ou criando o futuro, ou seja, a música eletrônica como vanguarda da música/rock - que citava este disco aqui como um lançamento de rock progressivo em 1991. Fiquei pensando e quase concordando, resolvi postar esse que, atipicamente, foi o disco que mais escutei dos caras.

Há, realmente, um agradecimento no disco 'Aos anos 70' (no meu disco, que é a versão barateada sem encarte e outros 'luxos', isto não aparece). Há mesmo muitas referências/citações eruditas e um clima pra lá de sombrio.

Pelo próprio Renato: "Ih, tem umas coisas medievais, uns instrumentais. O primeiro lado é uma viagem. Vão dizer assim: 'Legião repete fórmula e lança disco progressivo (risos)..."

Só pra lembrar, já que estamos falando de Brasília, ontem, no programa Zoombido do Moska no Canal Brasil, foi entrevistado o Philippe Seabra do Plebe Rude (bom programa, recomeindo!). Quase postei hoje 'O concreto já rachou', pra mim um dos melhores dos anos 80, mas por um acordo de cavalheiros o Xampu o fará (em breve, espero), depois eu posto 'Nunca fomos tão brasileiros'.

Contexto do disco: crise econômica do governo Collor, dependência química de Renato Russo, aids de Renato (nunca assumida publicamente) e Cazuza (homenageado com a música do disco anterior 'Feedback song for a dying friend').

O argumento do disco progressivo começa forte já na primeira música, 'Love song (Cantiga de amor)', um poema do trovador português medieval do sec XIII Nuno Fernandes Torneol musicado pela banda, bela e delicadamente.

'Metal contra as nuvens' tem uma introdução também quase progressiva (afinal o que é rock progressivo? Encaminharei esse post ao amigo e especialista Leonardo Naohum, autor de um guia essencial e produtor de shows no RJ e aguardarei boas discussões...), sendo dividida em 4 partes e com mais de 11 minutos...se isto não é progressivo, porraaaaa...

Tem inclusive uma parte quase metal! Guitarras (mal) distorcidas, embolando um pouco.

"Sou metal, raio, relâmpago e trovão

Sou metal, eu sou o ouro em seu brasão

Sou metal, me sabe o sopro do dragão"

Depois volta o suave e acústico. Boa canção, mesmo enorme tem um senso de unidade, soa redondinha e completa.

'A Ordem dos Templários', que não é inspirada em nenhum livro do Dan Brown, é instrumental e bonita, mais um ponto a favor do argumento do disco de progressivo. Inclui a peça 'Douce Dame Joulie' de Guillaume da Machaut do sec XIV. Sons de vento ao final...

'A montanha mágica', provável referência ao livro de Thomas Mann, parece fazer referências a dependência química, mas seria erradamente simplificador reduzir a interpretação a só isto. No meio há uns efeitos de reverb e ecos muito legal, melhor percebidos com fones. A introdução foi adaptada da peça 'Canon' de Johann Pachelbel.

"Minha papoula da Índia

Minha flor da Tailândia

És o que tenho de suave

E me fazes tão mal

Existe um descontrole, que corrompe e cresce

Pode até ser, mais estou pronto prá mais uma

O que é que desvirtua e ensina?

O que fizemos de nossas próprias vidas

(...)

Mas, é claro que não vamos lhe fazer mal

Nem é por isso que estamos aqui

Cada criança com seu próprio canivete

Cada líder com seu próprio 38


Chega, vou mudar a minha vida

Deixa o copo encher até a borda

Que eu quero um dia de sol

E um copo d'água"

Aqui entramos na parte mais ouvida, por mim e pelas rádios do Brazilzão de meu Deus, começando com a linda 'O teatro dos vampiros', que faz lembrar da crise econômica da época, entre outros temas tratados...tá parecendo tese acadêmica essa porra?

"Sempre precisei de um pouco de atenção

Acho que não sei quem sou

Só sei do que não gosto

(...)

Os assassinos estão livres, nós não estamos

Vamos sair - mas não temos mais dinheiro

Os meus amigos todos estão procurando emprego

Voltamos a viver como há dez anos atrás

E a cada hora que passa

Envelhecemos dez semanas

Vamos lá, tudo bem - eu só quero me divertir

Esquecer, dessa noite ter um lugar legal pra ir

Já entregamos o alvo e a artilharia

Comparamos nossas vidas

E esperamos que um dia

Nossas vidas possam se encontrar (...)"

Lindo, né?

'Sereníssima' começa com um ruído de público e a Legião sempre contou com fãs devotados, pro bem ou pro mal. Aqui tem até um solo de guitarra do dado Villa-Lobos!

A frase sobre o sorriso é do já citado Thomas Mann, do livro 'Tonio Kroeger'.

"Sou um animal sentimental

Me apego facilmente a quem desperta meu desejo

Tente me obrigar a fazer o que eu não quero

E cê vai logo ver o que acontece

(...)

Tenho um sorriso bobo, parecido com soluço

Enquanto o caos segue em frente

Com toda calma do mundo"

'Vento no litoral' é um música muito romântica e muito bonita, onde a canção me leva pra esse contexto de referência, o que é muito legal. Às vezes Renato parece óbvio (e às vezes ele é), mas muitas vezes isto funciona perfeitamente na canção, e é expressivo e se conecta com quem ouve. Extremamente pessoal, claro.

Já foi regravada pela saudosa Cássia Eller.

Olha que letra linda e óbvia:

"(...)

Agora está tão longe

Vê, a linha do horizonte me distrai:

Dos nossos planos é que tenho mais saudade,

Quando olhávamos juntos na mesma direção.

Aonde está você agora

Além de aqui dentro de mim?

Agimos certo sem querer

Foi só o tempo que errou

Vai ser difícil sem você

Porque você está comigo o tempo todo

Quando vejo o mar

Existe algo que diz:

- A vida continua e se entregar é uma bobagem.

Já que você não está aqui,

O que posso fazer é cuidar de mim.

Quero ser feliz ao menos.

Lembra que o plano era ficarmos bem?

- Ei, olha só o que achei: cavalos-marinhos.

Sei que faço isso para esquecer

Eu deixo a onda me acertar

E o vento vai levando tudo embora"

Há variadas interpretações sobre os citados cavalos marinhos: fidelidade da espécie, o fato de só se encontrarem no fundo do mar (o que sugeriria suicídio pelo amor perdido!!), símbolo homossexual pelo fato do macho engravidar...enfim, viagens.



'O mundo anda tão complicado' (e quando não foi?) é sobre coisas cotidianas, quase banais e íntimas, mais uma boa canção.

"Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver

O mundo anda tão complicado

Que hoje eu quero fazer tudo por você

Quero ouvir uma canção de amor

Que fale da minha situação

De quem deixou a segurança de seu mundo

Por amor"

'L'age d'or' é pesada, trazendo guitarras e slides distorcidos, mas com um vocal suave e melódico, diferente. É também o nome de um filme surrealista de 1930 de autoria dos loucos Luis Buñuel e Salvador Dali.

"Contra minha própria vontade

Sou teimoso, sincero

Insisto em ter

Vontade própria...

(...)

Já tentei muitas coisas

De heroína a Jesus

Tudo que já fiz

Foi por vaidade

Jesus foi traído

Com um beijo

Davi teve um grande amigo

Não sei mais

Se é só questão de sorte..."

'Come share my life' termina o disco com sutileza e melancolia, só com piano e cordas. Apesar de creditada (no meu disco pelo menos) como da banda, tenho impressão que é uma canção tradicional do folclore dos EUA.

Produção da banda e de Mayrton Bahia.

Vendeu 700 mil cópias, menos da metade do que o anterior, 'As quatro estações', mesmo assim não é pouco.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Sepultura, Arise...mais um de 91!









Realmente, como observou meu amigo e parceiro musical Mateus, 1991 foi um ano pródigo em bons lançamentos para o então um pouco desacreditado rock. Talvez tenha sido o último, talvez Nevermind na verdade marque justamente o fim de uma época, como argumenta com boas razões André Forastieri (aqui: http://noticias.r7.com/blogs/andre-forastieri/2011/09/23/nevermind-nao-importa/ ), então só nos resta comemorar os seus bons discos.

Porque este aqui é um blog de pessoas que adoram música, mas somos tiozinhos de 40 e poucos anos que aprenderam a adorar música ouvindo rock, sob uma provável ilusão de ótica de que este poderia ser 'rebelde' ou mesmo 'revolucionário', mesmo sob críticas paternais de 'alienado'. Talvez divertido seja o suficiente.


Its only metal, but I love it.


Então mesmo assim, lamento não ter ido no Rock in Rio e não ter visto o impressionante Slipknot e o sempre clássico Metallica (há mais de 20 anos, em 1989, eu os vi no Maracanãzinho, com o melhor som que já passou por ali!), nem a mistureba Paralamas/Titãs/Orquestra, nem os amigos do NX Zero, nem o divertido Matanza com BNegão...Isso pra não falar no aqui resenhado SEPULTURA com um showzaço com Tambours do Bronx que obviamente merecia o palco principal.

Aliás, como bem perguntou o blog collectorsrrom (aqui: http://collectorsroom.blogspot.com/2011/09/porque-o-brasil-nao-tem-um-festival.html ),

por que o Brasil não tem um festival exclusivo de heavy metal????




Os argumentos são tantos que nem vou me estender. Pessoalmente prefiro a não segregação, sempre gostei de ouvir vários tipos de música num festival, mas a verdade é que os organizadores de festival tem feito dias específicos para metal, não sei como será o SWU.


Sempre lembrando que apesar de assustadora em alguns sentidos, a platéia de metal em geral é menos 'problemática', como discretamente observou o globo (aqui: http://oglobo.globo.com/cultura/rockinrio/mat/2011/09/26/rock-in-rio-facts-as-curiosidades-dos-tres-primeiros-dias-de-shows-do-rock-in-rio-2011-925440293.asp ):"Hoje é rock mesmo. E por incrível que pareça, dá menos problema". Coronel Gaspar, chefe do policiamento no Rock in Rio, sobre o dia metaleiro.



Ao disco então.



Além do fato de 'ser de 1991', este álbum também comparece no livrão no qual nos inspiramos, 1001 discos pra ouvir antes de morrer.

O Sepultura em 1991 foi surpreendido em ser chamado pro Rock in Rio II, por pressão dos fã-clubes e inteligência do Medina, então tiveram que lançar às pressas antes do festival o disco numa pré-mixagem meio tosca mas interessante, chamada de Arise Rough Cuts, por isso aqui tem duas capas, a de cima é referente a este lançamento surpresa e hoje raro de encontrar.

O disco foi gravado em 1990 na Flórida, EUA, novamente com o produtor/engenheiro Scott Burns, que mais uma vez, dessa vez com mais dinheiro, fez um excelente trabalho, o disco tem um sonzaço, pesado mas nítido.


O som mudou um pouco depois de 'Beneath the remains', incorporando elementos de música industrial, iniciante na época (como Ministry por exemplo, com quem estiveram em turnê em 1992 juntamente com o inclassificável Helmet), acrescentando groove através de síncopas e quebradas na pauleira. Mas ainda é metal, thrash, death ou heavy, chame-se como quiser.

O disco entrou até na Billboard 200 USA na posição 119, alcançando a marca de um milhão de discos vendidos mundialmente em 1993.

Os sintetizadores, assim como nos 2 anteriores, ficam a cargo de Henrique, provavelmente o Henrique Portugal do Skank.



E claro, começa com uma paulada na cabeça: 'Arise'! Rapidíssima, agressiva, pesada, com um riff agoniado e uma bateria alucinada, além dos vocais sempre gritados do Max.

'Dead embryonic cells' é das minhas preferidas, pesada mas com aquela quebrada sensacional no meio, bateria com um sonzaço. Tem até um video (foram vários deste disco: Arise, Under siege e Orgasmatron!), estavam podendo os meninos...

'Desperate cry' também é legal sem ser mais do mesmo, começa com um belo dedilhado de guitarra limpa e depois vem aquele peso todo, mas quando começa a voz é que o bicho pega, uma levada avassaladora e cavalar!! E tem aquela quebrada no meio que continua sendo demais! Música longa com muitas passagens diferentes.



'Murder' e 'Subtraction' são boas músicas, sem nada especial.



'Altered state' já traz um idéia tribal a ser mais desenvolvida a partir do próximo disco (Chaos A.D.) e levada à perfeição em Roots. Mas é só no início, depois vem aquela massa sonora pesada e violenta.

'Under siege (Regnum Irae)' também começa com dedilhado, agora num violão e acompanhado por uma bateria com um som enorme. Diferente, mas depois entram os riffs brutais das guitarras e passagens mais trabalhadas, com vocais alterados eletronicamente (parecem gravados ao contrário). Mais uma música de muitas passagens, mas longe de ser confusa.



O disco prossegue à toda velocidade e peso com 'Meanigless movements', metal sem parar, mas sem maiores destaques, tanto nessa quanto na próxima música, 'Infected voice', a última do disco normal.

Digo normal porque no Brasil o disco incluía uma música a mais, um lado B do single de 'Dead embryonic cells', 'Orgasmatron' do Motörhead, que, pra variar, ficou sensacional, mesmo com a lenda de que o Max cantou bêbado...o Lemmy (se vc não sabe quem é, pare de ler já!) diz que gosta da versão mas não da voz...hahaha.

A versão relançada em 1997 também traz mais músicas: 'Intro', 'CIU (criminals in uniform)' e um mix diferente de 'Desperate cry' by Scott Burns, já que a mixagem posterior é de Andy Wallace.

E assim foi...depois do disco, sucesso mundial, excursão mundial. Antes de ir pro mundo, o Sepultura deu um show gratuito em Sampa na Praça Charles Müller, em frente ao Pacaembu. Esperados 10.00 fãs (e providenciada força policial para isto...), compareceram 40.000. O que aconteceu? Tumultos, brigas, muitos feridos e um morto. Culpa da banda, claro, que faz música pesada...Fala sério!

Sobram a fama e o prestígio. Sepultura, a grande banda brasileira. Que continua na ativa.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Vinte anos depois... Mais um de 91!

É na rua Paulo que me sinto bem
Pois meus amigos estão la também
Já faz algum tempo que não sei como é que estão
Advogados, bêbados, dentistas eu faço canção

Da esquerda para direita não consigo encontrar
Um lugar para residir um lugar para descansar
Sou menino da rua Paulo de um bairro em Budapeste
Sou menino de São Paulo lá da Vila Mariana


Os Meninos da Rua Paulo é um clássico húngaro de Ferenc Molnár datado de 1906, relatando a luta de gangues de Budapeste pelo controle de um terreno baldio. Do outro lado do oceano, quase um século depois, este outro Os Meninos da Rua Paulo é o sexto álbum do Ira! Fã da banda não sou, nem nunca fui, nem mesmo nos áureos tempos. E a escolha deste disco mostra isso.


Mas basta que o lick de abertura da Rua Paulo comece a circular pela minha corrente sanguínea... bing! Já era... Scandurra é foda. Scandurra é o cara, ele e a guitarra são uma coisa só. O Ira! é a banda do Edgard, eu vejo as coisas desse jeito, ainda que ele não tenha de maneira nenhuma esta postura, e, o mais importante, ainda que as canções da banda raramente orbitem em torno da sua guitarra, e sim o contrário: ele geralmente tem o contraponto inteligente, de muito bom gosto e, como não poderia deixar de ser, inspiradíssimo.


O disco veio à tona no emblemático ano de 1991 (ó aí, Dão! Mais um...). Ano dos Nevermind, Ten, Black Album, Blood Sugar Sex Magik (to cite a few...). Da maneira como eu vejo o rock nacional entretanto, isso não passa de mera coincidência. O ponto aqui é uma banda pioneira do movimento de renovação do pop nacional que assolou o país junto com a Nova República e o Rock in Rio (o I!) que busca novos caminhos. O que mais me interessa aqui é o que faz uma banda de garotos que cresceram, amadureceram e ainda amam o rock’n’roll, o bom e velho rock’n’roll... A faixa de abertura dá bem este tom, os garotos da Rua Paulo estão à procura do velho bando, que terá virado dele?



Eu entendo isso mais na psiquê do que na geografia. A grande encruzilhada do rock’n’roll: envelhecer. Os rebolados de Elvis, os cabelos longos de John, Paul e sua turma, você deixaria sua filha se casar com um Rolling Stone? Pra quem assistiu trechos dos mascarados Slipknot ontem, isso soa como música de câmara!


Eu já sou um homem, mas mereço umas palmadas
Ó amor te peço, só não batas na minha cara


Voltando ao Ira!, este o álbum de uma banda que lançou seu primeiro disco em 83, naquela onda toda positiva. Oito anos depois, não dá mais pra assustar ninguém, não é? Bem, e nem parece ser a intenção. O legal é que esse disco me parece muito honesto e extremamente bem equilibrado entre novas idéias, novos ares e o som original da banda, que aqui aparece bem em O Ladrão Era Eu, Um Dia Como Hoje, e da qual Amor Impossível é o melhor exemplar, uma bela canção para um imaginário amor impossível que sempre é possível no universo das canções.


Pense na mistura de We Will Rock You com Lucy in the Sky with Diamonds... Parece meio fora de sincronia, não? Mas aquie eles revisam a iiteressante versão (que eu desconheço...) de Raulzito para a clássica dos Beatles, que aqui vira Você Ainda Pode Sonhar, mensagem otimista com gostinho de nostalgia. Na abertura é usado o clássico ritmo de bateria-e-muro-de-palmas que costuma não deixar poeira sentada no hiperclássico da Rainha. Mistura improvável que funciona de maneira magistral: a versão ficou psicoheavyca.


O blues Prisão das Ruas e baladas como Cavalos Selvagens ou O Tolo dos Tolos (essas duas últimas na voz do Edgard) são mais sintomas da transição do garoto que está virando homem. Enquanto que a levada de Imagens de Você sugere o uso de ritmos eletrônicos (simulados de maneira inteligente por André Jung? Ou foram usados mesmo? Bem, não sei dizer...), coisa que poderia destoar e seria meio proibido nos discos primitivos da banda. E: o resultado ficou muito legal! Não Matarás é curiosa porque tem uma levada meio disco com guitarras country, wah-wah... outra mistura improvável que funciona bem. E o mandamento é claro:


Não matarás, não matarás, não matarás a ti mesmo...

Nosso mundo é tão pequeno... não matarás teus desejos...


Mas nada é tão bom neste disco como A Etiópia e Meus Problemas (thanx, Paul!). Aliás, ouso dizer, nada é tão bom na discografia inteira da banda!!! Menos pela letra (muito menos, diga-se, mas, cá pra nós, quem se importa com as letras do Ira!? Nunca foi seu ponto forte). Edgard toca a guitarra dos sonhos de qualquer guitarrista: limpa, estalada e estrelada. Um golpe de ousadia na discografia de uma banda que costuma(va) ser bastante “conservadora” em relação à sonoridade original de seu rock’n’roll. Acompanhada de um violão el justiciero, percussão da península ibérica árabe, e um coro simulado, ahn, ahn, ahn... que me lembra a música do sertão nordestino. Um primor, a obra-prima do Ira!...


O disco termina na marcha instrumental Meninos da Rua Paulo, assobiada como a ponte do rio Kwai, lembrando que os meninos vão à batalha (ou a batalha vem aos meninos?), mas (quase) sempre há o retorno pra casa. E, musicalmente, este retorno é glorioso.


[M]


ps: refiz o post de ontem, que me deixava meio insatisfeito, mas mudei pouca coisa. Hoje no rádio tava ouvindo Guitar Man:


Who draws the crowd and plays so loud,
Baby it's the guitar man
Who's gonna steal the show, you know
Baby it's the guitar man,

He can make you laugh, he can make you cry
He will bring you down, then he'll get you high...


pra mim não há dúvidas: eles estão falando do Scandura...


terça-feira, 28 de junho de 2011

E se?... (tudoaomesmotempoagora - Titãs, 1991)




De certa forma, o passo dado no disco Titanomaquia era ensaiado aqui, Tudo ao Mesmo Tempo Agora. Os Titãs vinham de três discos de tirar o fôlego, que os deixaram enterrados a raízes profundas nos corações mentes dos homens e mulheres primatas, o pulso pulsando e a miséria musical para sempre extinta de uma geração que era chamada de coca-cola.


Tudo ao Mesmo Tempo Agora talvez seja o depoimento de uma banda que não queria mais ser “ícone” de uma geração, ei! Estamos abandonando de vez a cola, ficamos só na coca! Acho o último grande álbum deles, uma missa de réquiem, ainda que nos álbuns seguintes, aqui e ali, colham-se alguns frutos saborosos. É o disco onde o compositor olha para dentro de si mesmo e explode seus conflitos internos e externos de maneira irreprimível e irrevogável.


A capa do disco já mostra isso, uma capa desagradável de se olhar, recortes de Atlas do corpo humano, as cores de açougue e as palavras grafadas no alfabeto grego, como quem avisa: este disco é só nosso e não vai ser fácil ouvi-lo, mais ainda gostá-lo. Pra quem queria mais do mesmo, uma decepção. Pra quem se dispõe a acompanhá-los como quem confia nas viagens de um grande amigo: vale a pena.


A lista de músicas não aparece na capa nem contra-capa, onde só consta, em letras miúdas, mais um aviso: composto arranjado e produzido por Titãs. Isso que pode parecer um enigma, na verdade se revela a pista mais evidente aqui.


As músicas de rádio deste disco não eram fáceis. Clitóris faz Igreja soar como canção natalina, e Saia de Mim é a canção sem-vergonha de ser humano, do ser-humano. O último disco com Arnaldo e talvez aquele que sugeria a Nando Reis a porta da rua. Algumas das canções são bem fracas, como Isso Para Mim é Perfume, uma forçada de barra para parecer mais agressivo do que se é. Mas é um disco mais centrado no som da banda, que está muito afiada, o núcleo guitarra(s), baixo e bateria dá as cartas aqui, então, aquela que era conhecida pelas letras e diversos vocalistas se revezando, troca de foco, e o sinal são canções com letras curtas, de conteúdo mínimo, hai-cais a la Titãs, roc-kais, como Obrigado, Cabeça, Se Você está Aqui, e faixa que dá nome ao disco e o encerra de maneira acachapante.


Em tom de depoimento, confessionário vem Eu Não Sei Fazer Música e Não é Por Não Falar, enquanto que em Filantrópico, Eu Vezes Eu e O Fácil é o Certo são os ‘velhos’ Titãs, dando o ‘toque’. Mas as minhas favoritas deste disco mesmo, que mostram a banda viajando em outras direções são e Agora. Essas duas são as melhores músicas de toda a discografia dos Titãs... Pra mim pelo menos. Música muitas vezes agente ouve e gosta mais pelo conforto de se encontrar em mares conhecidos, do que pelo espanto causado pelo novo. E os Titãs sempre foram a banda do espanto, e o espanto aqui vem nestas duas canções, com um som de banda magnífico que eles não tinham ainda alcançado em nenhum dos discos anteriores...


Já colocou todas as roupas na mala? Agora que agora é nunca

A sua casa já desmoronou no meio da sala? Agora posso recuar

você já tentou varrer a areia da praia? Agora a última resposta

Já dormiu sozinho num canto de rodoviária? Agora a língua em minha boca

Já dormiu com alguém por migalha? Agora é só meu corpo nu...


Outra pista é o fato de que, diferente do que acontece nos discos anteriores, a autoria das composições não é explicitada faixa a faixa, sinal de que, ou o processo de composição foi diferente, ou ela é menos importante aqui do que a execução, que se torna mais autoral até do que a própria fabricação... E a última pista talvez seja o Flat-Cemitério-Apartamento, música onde a chave é... E se ?


Pois é, neste disco os Titãs estão dizendo isso:

E se ?


[M]

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Os Grãos – Paralamas do Sucesso (1991)


Este é o primeiro disco de rock dos Paralamas, ainda que muito do som característico da banda ainda tenha lugar garantido. Depois de Cinema Mudo, O Passo do Lui (ver nos postos anteriores), Selvagem, Bora-Bora e Big Bang; onde predominavam ska, reggae e ritmos latinos, Os Grãos trazem os Paralamas mais roqueiros, (quase) sintonizados com o som grunge que dominava o hemisfério norte. Tribunal de Bar ainda traz resquícios dos trabalhos anteriores, apesar de alguns efeitos eletrônicos. O mesmo vale para a excelente Sábado, um skazão ainda carregado de sopros, mas que contém samples de Good Times Bad Times do Led Zeppelin e uma guitarra mais ardida que o de costume.

Tendo a Lua é uma das melhores baladas do Paralamas, a melancolia do Herbert (eu hoje joguei tanta coisa fora...) é muito bem acompanhada pela banda e ele parece ter encontrado o ponto certo de inserir comentários de guitarra que vão além da simples execução do ritmo. A faixa título, Os Grãos, é um pouco mais experimental, na linha da faixa que abre o disco e que viria a ser mais explorado no disco seguinte, O Rio Severino. Carro Velho que vem depois, é uma faixa que caberia muito bem em Big Bang e é a última música deste disco mais ao estilo dos anteriores.

Vai Valer
é uma música linda, uma balada acústica orquestrada de forma imponente que confere um crescente a música que faz lembrar o folk dos anos 60 (ou o Refavela do Gil), uma balada hippie, melancolicamente otimista.
Trac-Trac é a versão em português da música de Fito Paez (que aparece nos vocais) e foi a música de rádio do disco. Pop-rock irresistível num estilo que os Paralamas não gravavam desde Vital e sua Moto.

A minha favorita é a próxima. O Rouxinol e a Rosa abre com um riff inspirado por Keith Richards: sujo e malandro. A guitarra com a distorção no ponto certo executa uma frase simples e sincopada, mas a música que entra em seguida é uma surpresa, um r&b gostoso pra quem se deixou se enganar pelo riff de abertura. O solo também é inspirado nos stones dos 70, com jeitão de Mick Taylor (pelo jeito Stikcy Fingers andava fazendo a cabeça do Herbert nesta época).

A Outra Rota
é daquelas canções de amor tristes e arrependidas de Herbert Viana, tentando descobrir caminhos a seguir. Dainos segue com uma melancolia levemente psicodélica. As duas canções lembram que o disco é um tanto irregular, com ótimas canções e outras nem tanto. Ah, Maria! recupera o fôlego das boas canções do disco e mostra o lado mais pop e inspirado da banda. Não Adianta traz um pouco das baladas mais antigas do Paralamas (como Caleidoscópio) mas com uma produção mais bem resolvida. E o disco termina com a quase-bossa Trinta Anos, lembrando que o tempo passa, eu já não uso óculos e até mesmo o rock pode ser bom quando maduro. [MATEUS]