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domingo, 9 de outubro de 2011

V, Legião Urbana (ainda em 1991...)





Outro dia, no vício inerte da tv a cabo, vi (mais) um programa sobre os discos de 1991 - que, inclusive, coerentemente, colocava o 'Screamadelica' como número 1 à frente do 'Nevermind', prefigurando ou antecipando ou criando o futuro, ou seja, a música eletrônica como vanguarda da música/rock - que citava este disco aqui como um lançamento de rock progressivo em 1991. Fiquei pensando e quase concordando, resolvi postar esse que, atipicamente, foi o disco que mais escutei dos caras.

Há, realmente, um agradecimento no disco 'Aos anos 70' (no meu disco, que é a versão barateada sem encarte e outros 'luxos', isto não aparece). Há mesmo muitas referências/citações eruditas e um clima pra lá de sombrio.

Pelo próprio Renato: "Ih, tem umas coisas medievais, uns instrumentais. O primeiro lado é uma viagem. Vão dizer assim: 'Legião repete fórmula e lança disco progressivo (risos)..."

Só pra lembrar, já que estamos falando de Brasília, ontem, no programa Zoombido do Moska no Canal Brasil, foi entrevistado o Philippe Seabra do Plebe Rude (bom programa, recomeindo!). Quase postei hoje 'O concreto já rachou', pra mim um dos melhores dos anos 80, mas por um acordo de cavalheiros o Xampu o fará (em breve, espero), depois eu posto 'Nunca fomos tão brasileiros'.

Contexto do disco: crise econômica do governo Collor, dependência química de Renato Russo, aids de Renato (nunca assumida publicamente) e Cazuza (homenageado com a música do disco anterior 'Feedback song for a dying friend').

O argumento do disco progressivo começa forte já na primeira música, 'Love song (Cantiga de amor)', um poema do trovador português medieval do sec XIII Nuno Fernandes Torneol musicado pela banda, bela e delicadamente.

'Metal contra as nuvens' tem uma introdução também quase progressiva (afinal o que é rock progressivo? Encaminharei esse post ao amigo e especialista Leonardo Naohum, autor de um guia essencial e produtor de shows no RJ e aguardarei boas discussões...), sendo dividida em 4 partes e com mais de 11 minutos...se isto não é progressivo, porraaaaa...

Tem inclusive uma parte quase metal! Guitarras (mal) distorcidas, embolando um pouco.

"Sou metal, raio, relâmpago e trovão

Sou metal, eu sou o ouro em seu brasão

Sou metal, me sabe o sopro do dragão"

Depois volta o suave e acústico. Boa canção, mesmo enorme tem um senso de unidade, soa redondinha e completa.

'A Ordem dos Templários', que não é inspirada em nenhum livro do Dan Brown, é instrumental e bonita, mais um ponto a favor do argumento do disco de progressivo. Inclui a peça 'Douce Dame Joulie' de Guillaume da Machaut do sec XIV. Sons de vento ao final...

'A montanha mágica', provável referência ao livro de Thomas Mann, parece fazer referências a dependência química, mas seria erradamente simplificador reduzir a interpretação a só isto. No meio há uns efeitos de reverb e ecos muito legal, melhor percebidos com fones. A introdução foi adaptada da peça 'Canon' de Johann Pachelbel.

"Minha papoula da Índia

Minha flor da Tailândia

És o que tenho de suave

E me fazes tão mal

Existe um descontrole, que corrompe e cresce

Pode até ser, mais estou pronto prá mais uma

O que é que desvirtua e ensina?

O que fizemos de nossas próprias vidas

(...)

Mas, é claro que não vamos lhe fazer mal

Nem é por isso que estamos aqui

Cada criança com seu próprio canivete

Cada líder com seu próprio 38


Chega, vou mudar a minha vida

Deixa o copo encher até a borda

Que eu quero um dia de sol

E um copo d'água"

Aqui entramos na parte mais ouvida, por mim e pelas rádios do Brazilzão de meu Deus, começando com a linda 'O teatro dos vampiros', que faz lembrar da crise econômica da época, entre outros temas tratados...tá parecendo tese acadêmica essa porra?

"Sempre precisei de um pouco de atenção

Acho que não sei quem sou

Só sei do que não gosto

(...)

Os assassinos estão livres, nós não estamos

Vamos sair - mas não temos mais dinheiro

Os meus amigos todos estão procurando emprego

Voltamos a viver como há dez anos atrás

E a cada hora que passa

Envelhecemos dez semanas

Vamos lá, tudo bem - eu só quero me divertir

Esquecer, dessa noite ter um lugar legal pra ir

Já entregamos o alvo e a artilharia

Comparamos nossas vidas

E esperamos que um dia

Nossas vidas possam se encontrar (...)"

Lindo, né?

'Sereníssima' começa com um ruído de público e a Legião sempre contou com fãs devotados, pro bem ou pro mal. Aqui tem até um solo de guitarra do dado Villa-Lobos!

A frase sobre o sorriso é do já citado Thomas Mann, do livro 'Tonio Kroeger'.

"Sou um animal sentimental

Me apego facilmente a quem desperta meu desejo

Tente me obrigar a fazer o que eu não quero

E cê vai logo ver o que acontece

(...)

Tenho um sorriso bobo, parecido com soluço

Enquanto o caos segue em frente

Com toda calma do mundo"

'Vento no litoral' é um música muito romântica e muito bonita, onde a canção me leva pra esse contexto de referência, o que é muito legal. Às vezes Renato parece óbvio (e às vezes ele é), mas muitas vezes isto funciona perfeitamente na canção, e é expressivo e se conecta com quem ouve. Extremamente pessoal, claro.

Já foi regravada pela saudosa Cássia Eller.

Olha que letra linda e óbvia:

"(...)

Agora está tão longe

Vê, a linha do horizonte me distrai:

Dos nossos planos é que tenho mais saudade,

Quando olhávamos juntos na mesma direção.

Aonde está você agora

Além de aqui dentro de mim?

Agimos certo sem querer

Foi só o tempo que errou

Vai ser difícil sem você

Porque você está comigo o tempo todo

Quando vejo o mar

Existe algo que diz:

- A vida continua e se entregar é uma bobagem.

Já que você não está aqui,

O que posso fazer é cuidar de mim.

Quero ser feliz ao menos.

Lembra que o plano era ficarmos bem?

- Ei, olha só o que achei: cavalos-marinhos.

Sei que faço isso para esquecer

Eu deixo a onda me acertar

E o vento vai levando tudo embora"

Há variadas interpretações sobre os citados cavalos marinhos: fidelidade da espécie, o fato de só se encontrarem no fundo do mar (o que sugeriria suicídio pelo amor perdido!!), símbolo homossexual pelo fato do macho engravidar...enfim, viagens.



'O mundo anda tão complicado' (e quando não foi?) é sobre coisas cotidianas, quase banais e íntimas, mais uma boa canção.

"Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver

O mundo anda tão complicado

Que hoje eu quero fazer tudo por você

Quero ouvir uma canção de amor

Que fale da minha situação

De quem deixou a segurança de seu mundo

Por amor"

'L'age d'or' é pesada, trazendo guitarras e slides distorcidos, mas com um vocal suave e melódico, diferente. É também o nome de um filme surrealista de 1930 de autoria dos loucos Luis Buñuel e Salvador Dali.

"Contra minha própria vontade

Sou teimoso, sincero

Insisto em ter

Vontade própria...

(...)

Já tentei muitas coisas

De heroína a Jesus

Tudo que já fiz

Foi por vaidade

Jesus foi traído

Com um beijo

Davi teve um grande amigo

Não sei mais

Se é só questão de sorte..."

'Come share my life' termina o disco com sutileza e melancolia, só com piano e cordas. Apesar de creditada (no meu disco pelo menos) como da banda, tenho impressão que é uma canção tradicional do folclore dos EUA.

Produção da banda e de Mayrton Bahia.

Vendeu 700 mil cópias, menos da metade do que o anterior, 'As quatro estações', mesmo assim não é pouco.

sábado, 28 de novembro de 2009

Dois, Legião Urbana, 1986


Tem discos que além da sua qualidade, tem um valor subjetivo maior ainda por remeter à memória afetiva de cada um de nós. E certamente, no meu caso, o Dois do Legião Urbana cumpre esse papel. Lembro que eu já era fã (não perdia um show deles em Campinas entre 1984 e 1987 - foram uns cinco) e comprei o disco, mesmo sem conhecer as músicas. E me surpreendi positivamente pela qualidade. A explosão e as letras mais diretas do primeiro disco deram vez a metáforas mais ricas e a um olhar mais introspectivo.

A capa (arte de Fernanda Pacheco) era simples, cor de bronze, escrito apenas Legião Urbana com Dois em relevo, enquanto na contra-capa tinha o nome dos quatro integrantes e da produção de Mayrton Bahia. Sem nome de músicas, sem desenhos, fotos, etc. Enfim, simples...e de bom gosto. No encarte interno fotos, informações técnicas, a relação das músicas com suas longas letras e um aviso: “escute no volume máximo!”. Somente nesse volume, é possível identificar que “Daniel na Cova dos Leões” (música que abre o lado A) começa o som de um dial do rádio girando e passando pelo final de “Será” (sucesso do disco anterior) e pelo hino da Internacional Socialista.

Diferentemente da imensa maioria dos discos do recém-nascido rock nacional, Dois não apresenta refrões fáceis e repetidos (garantia de sucesso para as bandas), suas 12 músicas tinham títulos cuja identificação com a letra não era automática, foi lançado sem que houvesse uma música de trabalho específica, as letras eram de difícil memorização e, para completar, suas músicas tinham longa duração para os padrões das rádios na época (músicas com cerca de 5 minutos de duração). O projeto original era ainda para ser um álbum duplo, mas isso a gravadora vetou. E foi contrariando a fórmula do sucesso que esse disco surpreendeu a indústria fonográfica e emplacou, vendendo mais de 1,2 milhões de cópias. Sinal de que o público tinha bom gosto também.

Mantendo-se fiel à linguagem jovem da década de 1980, mas mostrando uma maior maturidade nas suas canções, Renato Russo e seus parceiros conseguem unir letras ricas e bem articuladas de um lado, com ótimos arranjos e sonoridade marcante de outro.

Depois da citada “Daniel na Cova dos Leões”, vem “Quase sem querer”, que acabou se tornando uma das mais tocadas. A terceira, “Acrilic On Canvas”, é uma verdadeira obra de arte: trabalhei você em luz e sombra. Depois continua com a história de “Eduardo e Monica” (grande sucesso na época), seguida pela instrumental “Central do Brasil” para fechar o lado A com “Tempo Perdido”: nem foi tempo perdido..somos tão jovens.

O lado B do vinil tem um som mais pesado, abrindo com “Metrópole”, com riff de guitarra marcante na introdução, para emendar com “Plantas debaixo do Aquário” (não deixe a guerra começar). Depois vem “Música Urbana 2” (Renato Russo ao melhor estilo Lou Reed) e “Andrea Doria” (referência a um navio italiano, que naufragou quando seguia para Nova York em 1956 após se chocar com uma outra embarcação, com um saldo de 51 mortos – a maioria sobreviveu - e o desaparecimento de algumas obras de arte italianas). O disco fecha com as politizadas “Fábrica” (quero tra-ba-lhar em paz... não é muito o que lhe peço) e “Índios” (nos deram espelhos..e vimos um mundo doente..tentei chorar..e não consegui).

Pessoalmente, esse disco (e particularmente seu vinil) remete a lembranças de uma época em que tão importante quanto viver intensamente, era fazermos nossa própria trilha sonora. E para isso, esse disco foi fundamental.
Não há mentiras nem verdades aqui, só há música urbana.
[Paul]

Para escutar:
http://www.4shared.com/get/100231916/8ee3a716/Legiao_Urbana_-__Dois.html