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sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Fruto Proibido - Rita Lee & Tutti-Frutti (1975)

Não dá pra economizar: este é O disco de rock’n’roll brasileiro. Não porque não houveram outros discaços de rock brasileiro, aqui neste blogue encontram-se vários deles... Mas o Fruto Proibido da Rita Lee é um marco, é um gol de placa, chapéu na defesa toda, meia lua no goleiro, tudo isso de trás pra frente, por que o arremate final é do meio-campo, lembrando todos os gols que Pelé, charmosamente não fez em 70.


Primeiro que o entrosamento entre Rita e o Tutti-Frutti estava tinindo, depois do ótimo disco de 74 (ver posts anteriores). Segundo, e principalmente porque a seleção de canções deste disco é de rara felicidade e inspiração. Além de uma ou outra parceria com os tuttis e algumas composições só suas, Rita agregou, em três faixas, um novo parceiro, o dupla de Raul Seixas: Paulo Coelho. A banda perdeu a cilibrina Lucinha, mas o Carlini se ocupou muito bem das cordas. Um novo baterista que parece até o animal dos muppets de tanta pancada que soca pra todo lado, em tudo que é tambor foi agregado junto com um tecladista, de tal forma que Rita dedica-se mais a compor e cantar. E valeu a pena...


Ovelha Negra é o super-clássico dos clássicos da Rita Lee, uma adorável balada (supostamente) autobiográfica que mistura folk, rock e pop na medida certa. Carlini repete à exaustão um dos solos de guitarras mais marcantes da música brasileira, ideal para fechar com chave de diamante um disco como este.


O lado A também termina em grande estilo, na parceria mais famosa de Rita e Paulo, Esse tal de Roque Enrow, que retrata o choque de gerações embalado ruidosa e irresistivelmente pelo som do TF acompanhado de um sax a la Bobby Keys.


Outra que ficou célebre foi Agora Só Falta Você, parceria de Rita com Carlini. A música contrapõe o peso da bateria e guitarra de Carlini ao piano meio booggie que ajuda a dar mais leveza à voz de Rita Lee. Dá até pra sentir o quanto a banda se diverte tocando essa aqui...


Luz del Fuego foi trilha de um filme homônimo estrelado por Lucélia Santos (que deve até ter passado em Sala... Especial!). O lick de abertura é a deixa pra Rita Lee desenhar a história desta personagem e começar a flertar com sua face mais “feminista”. Pirataria de Rita e Marcucci é também um rockão-manifesto: quem falou que não pode ser? não, não, não eu não sei por quê... eu posso tudo! Em outra parceria com Paulo Coelho, Rita Lee dá O Toque, rockão poderoso e sem concessões que vai suavizando quando chega no refrão psicodélico: o som das nuvens, a conversa do vento, a voz dos astros, a história do tempo... Aqui a harmonização vocal é fundamental (aliás, ao longo do disco, os vocais de fundo mostram ser outro ponto certo desta produção), e o verso final é uma espécie de celebração-manifesto pela preservação da natureza: o universo segue o rumo que todos nós escolhemos.


Voltando ao lado A, Fruto Proibido é rock’n’roll clássico, numa das passagens mais suaves do disco, onde Carlini toca apenas violão e gaita, e o piano ensandecido são ideais para descrever a relação com as tentações e os frutos proibidos que Rita descreve e assume aqui. Dançar pra não Dançar é a música de abertura, numa sugestão que Caetano assumiu quando cantou deixa eu dançar, pro meu corpo ficar Odara... A música (portanto, o disco) inicia com os compassos executados só no piano, frenético, boggie-wooggie, mostrando que o som deste disco está um pouco diferente, quando o resto da banda entra, mostrando a cara do TF.


Cartão Postal é um blues irresistível, sobre encontros e despedidas, canção estradeira de levada lenta e acústica, piano e violão muito bem sintonizados, acompanhados por uma harmonização vocal impecável e Carlini num slide inspiradíssimo.

Pra que? Sofrer com despedida...

Se só vai, quem chegou...


...Pra que?... sofrer...

[MATEUS]


quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Atrás do Porto tem uma Cidade – Rita Lee & Tutti-Frutti(1974)

Ainda que, oficialmente, este não seja o primeiro disco “solo” da Rita Lee, é o primeiro sem os Mutantes. Se dúvidas pairavam sobre o futuro da cantora/compositora sem os irmãos Dias Baptista, começaram a ser totalmente desfeitas aqui. Os Mutantes faziam parte do passado e Rita reuniu uma nova banda, o Tutti-Frutti. A Sérgio Luiz Carlini na guitarra, Lee Marcucci no baixo e batera Mamão, Rita, que se ocupou dos teclados neste disco (algo impensável nos seus tempos de Mutantes...), juntou a cilibrina do Éden, a guitarrista Lúcia Turnbull.

A sonoridade da banda é bastante diferente dos Mutantes, mostrando sim que a loira trilhava um novo rumo e bastante independente, inclusive assinando como única compositora várias das faixas. A tecladeira marca o disco, e a instrumentação usada (moderníssima na época) incluía moog, melotron e piano. As duas guitarras convivem muito bem e dão uma sonoridade um pouco mais stoniana do que se ouvia, por exemplo, nos Mutantes. E o baterista Mamão tem um estilo um pouco mais agressivo que Dinho, o que deixa o som do TF um pouco mais pesado.

Adicione-se a tudo isso, o fato de que, em 1974, o rock progressivo e outras substâncias faziam a cabeça roqueira nas terras tupiniquins... Basta uma olhadela rápida na capa que parece uma caricatura de Roger Dean (que fazia as capas do Yes).

Ah! Sim! As músicas... Rita ainda não tinha uma impecável coleção de composições como o que viria aparecer no disco seguinte, o perfeito Fruto Proibido, mas algumas pérolas estão aqui. Mamãe Natureza é talvez a maior e mais preciosa delas. O trabalho de banda é impecável, mas independente disso a música é excelente... Rockn’roll pegajoso e simples com mudanças de andamento e um solinho de guitarra irresistível, melhor impossível. Como se não bastasse, o refrão estou no colo da mamãe natureza, ela toma conta da minha cabeça... é o estado de espírito de Rita e banda. Ando Jururu vai na mesma direção e é ainda mais explícita: quero encontrar pelo caminho um cogumelo de zebu, e descansar os meus olhos no pasto, descarregar esse mundo das costas... A música inicia com um riff de baixo num andamento rápido e frenético e desacelera depois de achar o tal cogumelo, enquanto descansamos os ouvidos no pasto...

Yo no creo em brujas, pero que las ay, las ay
... é outro ponto alto, com várias mudanças de andamento e um refrão irresistível, composição dividida entre Rita, Carlini e Marcucci, assim como Tratos à Bola. Menino Bonito é outra canção que ficou célebre, uma suave balada levada no piano, baixo e bateria acompanhados por orquestra que mostra o lado mais romântico de Rita Lee, que viria a ser muito peculiar nas suas composições, um romantismo mais malicioso e debochado, aqui parece um território recém-descoberto e que será melhor explorado adiante.

No restante do disco o destaque maior é a performance da banda do que as canções em si. Por exemplo, em Eclipse do Cometa, Carlini executa um slide havaiano impecável e em Círculo Vicioso a banda entra de cabeça no progressivo (de curta duração, graças a deus tiveram bom senso...) num andamento que passa do rock pesado ao jazz com muita naturalidade. Completam o disco De Pés no Chão, Pé de Meia, e ...Tem uma Cidade, faixa instrumental com uma sonoridade levemente sombria a la Sabbath Bloddy Sabbath.

Lamentavelmente os Mutantes pararam. Mas ainda bem que Rita Lee continuou. [MATEUS]