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quinta-feira, 30 de junho de 2011

Cena Brasiliense: O Concreto Já rachou (Plebe Rude, 1985)




Brasília, capital da esperança. Brasília dos camelos, dos blocos e quadras, das zebrinhas e tesourinhas. Brasília, o eterno “autorama gigante”. Brasília das siglas. Brasília sem ruas, mas com esquinas. Brasília, fruto do traço do arquiteto. Brasília da seca e dos finais de tarde cinematográficos. Brasília dos centros comerciais, dos muitos porteiros e das pessoas normais.


A capital federal entrou para o mapa da música brasileira na década de oitenta, em meio à onda do rock brasileiro. Após o estouro das bandas do Rio de Janeiro e de São Paulo, foi a vez de Brasília apresentar-se ao mundo. Três bandas da cidade capitanearam o movimento: Legião Urbana (a mais cultuada), Capital Inicial (ainda em atividade) e Plebe Rube, a Suprema Trindade do rock candango. Todas as três formadas por uma garotada que sentia muito tédio na capital, mas era extremamente bem informado sobre música pop – em especial punk, pós-punk e new wave norteamericanos e britânicos.


A Plebe foi criada no início dos anos oitenta. Em sua formação original – eu chamaria de “clássica” – a banda tinha Phillippe Seabra (guitarra), Jander Bilaphra (guitarra), André X. (baixo) e Gutje (bateria). Foram esses quatro garotos que realizaram um dos discos seminais do rock nacional, O concreto já rachou.


Produzido por Herbert Vianna, O concreto... foi lançado em 1985, em pleno início da redemocratização do país. Trata-se, na verdade, de um mini-LP (sete canções em pouco mais de vinte minutos), algo pouco comum para o mercado brasileiro. A experiência deu certo, porém. Mais de duzentas mil cópias foram vendidas entre 1985 e 1986.


A primeira canção é “Até quando esperar”, hino de várias gerações. A música, um petardo, é um libelo contra as desigualdades econômicas e sociais e não perdeu a atualidade, mais de 25 anos depois de seu lançamento. “Até quando...” foi o carro-chefe do disco, tocou do Oiapoque a Jaú e colocou os meninos no miolo da cena musical brasileira, com direito aos Fantásticos e Faustões (que não existia àquela época) da vida. A seguir, “Proteção”, outra porrada de pouco mais de dois minutos. “Tropas de choque, PMs armados/mantém o povo no seu lugar”. Ecos de The Clash e Gang of four no cerrado.


A obra tem ainda as dispensáveis “Johnny vai à guerra” e “Seu jogo” e as fabulosas “Sexo e karatê” (acelerada em estilo ramoniano) e “Minha renda” (com a antológica frase “vou mudar meu nome para Herbert Vianna”). A última canção, porém, fecha o disco com chave de ouro.


“Brasília”, a música, sintetiza a vida na capital. “Brasília tem luz, Brasília tem carros/Asas e eixos do Brasil/Servidores públicos ali”. Duas guitarras toscas dialogam ao longo dos pouco mais de três minutos da canção. Para quem mora na cidade basta fechar os olhos e sentir-se em meio ao ambiente único do local.


Depois, veio a quase inevitável decadência. O álbum seguinte, Nunca fomos tão brasileiros, de 1987, pecou por certa grandiloqüência que não combinava com o punk dos rapazes. A Plebe ainda está em circulação, com nova formação (Clemente, ex-Inocentes, e Txotxa na bateria) mas com o velho pique.


Brasília, por sua vez, segue na velha rotina de muitos porteiros e pessoas normais.


Um rápido PS: a quem interessar possa, o livro O diário da turma 1976/1986 – a história do rock de Brasília, de Paulo Marchetti, conta em detalhes a história da Plebe & companhia.

[XAMPU]

sexta-feira, 24 de junho de 2011

New Wave à brasileira (Magazine, 1984)



Em qualquer compêndio ou boa enciclopédia de rock/pop, ao pesquisar o verbete “Magazine” você encontrará: “banda formada por Howard Devoto logo após sua saída dos Buzzcocks, em 1976. O primeiro trabalho do conjunto é o LP Real life”. Sobre o Magazine brazuca, nada. No máximo, alguma nota de rodapé.


O relativo esquecimento do “nosso” Magazine é uma injustiça que poderia (deveria) ser reparada. A banda, capitaneada pelo DJ/VJ/agitador cultural multiuso Kid Vinil, é importante representante da chamada “new wave” brasileira. Em comum com o xará britânico, nosso Magazine também é oriundo de uma conceituada banda punk, o Verminose. O quarteto (além de Vinil, Ted Gaz na guitarra, Lu Stopa no baixo e Trinkão na bateria) fez sua estréia oficial em 1983, na cena paulistana.


Magazine, o álbum de estréia do grupo (1984), é um primor. Tosco, rude, bruto, de uma simplicidade franciscana. A partir da capa (uma homenagem bem-humorada ao movimento new wave, no auge da moda no Brasil naquele momento), o recado é claro: rock simples, sem grandes concessões ou pretensões. Poucos acordes e muita alegria. Simples assim.


O disco abre com “Adivinhão”, um rockabilly à brasileira de pouco mais de três minutos de duração. “Você anda namorando a minha filha com segunda intenção/você anda namorando a minha filha pra poder botar a mão/o teu negócio é andar de lambreta, quando fala em casamento você faz careta”. Hilário.


O disco segue com “Pau na marginal” (rachas num fim-de-semana qualquer em Sampa), “Não” (popzinho inspirado em Paul Anka), “Meu bem Lollipop” (mais um som cinquentista), “Tô sabendo” (“eu sei que você sabe que eu não sei que você sabe que eu sei”, alucinante) e por aí vai.


O grande momento, claro, é o hit da banda. “Sou boy” foi das faixas mais tocadas na época e rendeu bons “fruto$” para o grupo – chegou a ser usada em comercial da GM. A canção, hino dos boys de todas as gerações, narra as aventuras/desventuras durante um dia na vida de um office-boy:


Acordo 7 Horas tomo o ônibus Lotado
Entro 8 e meia, eu chego sempre atrasado
sou boy, eu sou boy, sou boy
boy, sou boy

Atento 8 e Meia eu tenho que bater cartão
Mal piso na firma tem serviço de montão
eu sou boy, eu sou boy, eu sou boy
boy, eu sou boy

Ando pela rua pago conta pego fila
Vou tirar xerox e batalho algumas pila
sou boy, eu sou boy, eu sou boy
boy, eu sou boy

Na hora do almoço a minha fome é de Leão
Abro a marmita e o que vejo? Feijão!
Chega o fim do mês com toda aquela euforia
Todos ganham bem e eu aquela micharia
Sou boy, eu sou boy, eu sou boy
eu sou boy

E logo chega a tarde estou com pressa de ir embora
Meus pés estão doendo e meus calos estão pra fora
Sou boy, eu sou boy, eu sou boy
boy, eu sou boy

Bate 5 e meia a Sé tem filas infinitas
ônibus lotado e cai da mala minha marmita
Sou boy,eu sou boy, eu sou boy...
boy, eu sou boy

Na hora do almoço a minha fome é de Leão
Abro a marmita, e o que vejo? Feijão!
Chega o fim do mês com toda aquela euforia
Todos ganham bem e eu aquela micharia
Sou boy, eu sou boy, eu sou boy
eu sou boy”


O sucesso foi imediato e fugaz. O Magazine apareceu em todos os grandes programas de auditório, tocou no Fantástico, deu shows de Norte a Sul, fez abertura de novela global (“Comeu”, versão de uma canção menor de Caetano Veloso) e, depois, sumiu. A fórmula estava esgotada (ou ultrapassada, talvez). A marca do Magazine, porém, estava assegurada.


Kid Vinil continuou na cena cultural brasileira, teve programa na MTV e volta e meia aparece em algum evento rock´n´roll. Em meados dos anos noventa, trombei com ele na entrada de um show dos Ramones em São Paulo (“Kid, você pode arranjar para a gente uns ingressos do show?”). Mas essa é outra história...


[XAMPU]

terça-feira, 14 de junho de 2011

Uma nova volta ao passado: O rock errou, Lobão



“Dizem que o Rock andou errando
Não valia nada, alienado
E eu aqui na maior das inocências
O que fazer da minha santa inteligência?
Será que esse é o meu pecado, porque
Errou, errou, errou, errou
Eu sei que o rock errou”





Começa assim um dos álbuns mais relevantes da música brasileira dos anos 80. Lançado em 1986 em meio às mudanças político-econômicas pelas quais o Brasil passava, trata-se de um contundente retrato de sua época.



O Brasil vivia a (curta) lua-de-mel do Plano Cruzado – a euforia rapidamente deu lugar ao desespero da população. O então presidente José Sarney, que assumiu o posto “por acaso”, após o inesperado falecimento de Tancredo Neves, gozava de seus momentos de altos índices de popularidade (que jamais se repetiriam). O regime militar já era página virada de nossa História, mas um certo “Estado policialesco” ainda mostrava suas garras. E Lobão foi uma das vítimas desse estado de coisas.



João Luiz Woerdenbag Filho, o Lobão, foi preso por porte de drogas no exato momento da conclusão de “O Rock errou”. Encarcerado e com pouco acesso à defesa, o artista viu-se na situação de bode (lobo?) expiatório de uma sociedade retrógrada. Parte da grande imprensa atacou os “atos” de Lobão e defendeu sua prisão. A liberdade só veio após intensa batalha na justiça (cabe lembrar que dois Titãs, Arnaldo Antunes e Tony Belloto, passaram por situação semelhante na mesma época).



Ao final do processo, “O Rock errou” sintetiza o momento pessoal de Lobão. Também, conforme dito acima, é um pequeno instantâneo do Brasil de 1986.



A faixa título, um petardo, abre o disco. Trata-se de uma ácida crítica ao país e aos seus políticos (Jânio Quadros, então prefeito de São Paulo, é apresentado como o “bruxo da vassoura”). Fala das dificuldades da transição do militar para o civil (“vivemos num país bem revistado/uma nova volta ao passado”). O vocal rascante e as camadas de guitarras tornaram a canção um pequeno hino, e hoje pode ser considerada um clássico.



Entre os demais “clássicos” do disco, podemos citar “Noite e dia” (com letra safada e sacana, “menina quer brincar de amar”) e a porrada “Moonlight paranóia”. Outras duas canções merecem atenção especial.



A primeira delas é “Canos silenciosos”. A exemplo de “O Rock errou”, trata-se de um petardo. A letra, um primor. O início é acachapante:



“Onda na madrugada, silêncio na batida
Tá todo mundo se aplicando pra festa,
Pra chegar na festa bem aplicadinho
Movimento na esquina, todo mundo entra, todo mundo sai;
sexo, drops, rock'n roll, adrenalina;
diversões eletrônicas num poderoso hi-fi”.



A letra segue falando em “homens, fardas, cassetetes, camburões/abusando da lei com suas poderosas credenciais”. Lobão tinha autoridade para tratar do assunto – ele sentirá o peso da justiça e da lei sobre ele. Os contundentes “canos silenciosos” tinham endereço certo.





A música mais emblemática, porém, é “Revanche”. A letra é, digamos, autoexplicativa:



“Eu sei que já faz muito tempo que a gente volta aos princípios
Tentando acertar o passo usando mil artifícios
Mas sempre alguém tenta um salto, e a gente é que paga por isso, oh!
Fugimos prás grandes cidades, bichos do mato em busca do mito
De uma nova sociedade, escravos de um novo rito
Mas se tudo deu errado, quem é que vai pagar por isso?
Quem é que vai pagar por isso? Quem é que vai pagar por isso?
Quem é que vai pagar por isso?



Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais revanche
Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais ...



A favela é a nova senzala, correntes da velha tribo
E a sala é a nova cela, prisioneiros nas grades do vídeo
E se o sol ainda nasce quadrado, e a gente ainda paga por isso
E a gente ainda paga por isso, e a gente ainda paga por isso
E a gente ainda paga por isso



Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais revanche
Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais ...



O café, um cigarro, um trago, tudo isso não é vício
São companheiros da solidão, mas isso só foi no início
Hoje em dia somos todos escravos, e quem é que vai pagar por isso
Quem é que vai pagar por isso? Quem é que vai pagar por isso?”
Quem é que vai pagar por isso?



“Revanche” sintetiza o difícil momento de Lobão atrás das grades. O bode-lobo expiatório acaba por pagar pelos erros de todos – mas não quer revanche por isso. A canção é amarga e tem melodia e harmonia soturnas. Uma pancada forte no estômago – a verdade é ou não é incômoda?



O disco com tem ao menos um momento de grande ironia, quando Lobão mostra que o rock “errou” mesmo. Trata-se da canção “A voz da razão”, que conta com a participação especial (especialíssima) de Elza Soares. Menos rock e mais samba, impossível. O velho e bom rock´n´roll, tal qual o conhecemos, não tem mais o que dizer, segundo Lobão. Estará ele certo?



O tempo passou, Lobão virou VJ da MTV (quem paga as contas dele, afinal?) e nunca mais produziu uma obra de tal envergadura. Nem precisava. “O rock errou” é definitivo.



André Xampu

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Selvagem? - Paralamas do Sucesso (1986)



Para os Paralamas do Sucesso, e para toda a geração "rock Brasil" dos anos oitenta, "Selvagem?" representou a transição da adolescência para a idade adulta. Trata-se do primeiro disco de uma banda nacional com temática mais sofisticada, produção caprichada e a incorporação de elementos até então pouco utilizados nos trabalhos aqui realizados. No final, os Paralamas acertaram a mão e, por intermédio desse trabalho, acabaram por influenciar toda a obra imediatamente posterior de sua geração.

Produzido por Liminha, "Selvagem?" foi gravado e lançado no primeiro semestre de 1986. Os Paralamas vinham do sucesso de crítica e público obtidos com o deliciosamente adolescente "O Passo do Lui" (já resenhado aqui), mas queriam dar um salto qualitativo na carreira. Nas palavras do baterista João Barone, nada de muito especial - "os Paralamas do Sucesso só queriam fazer algo diferente e não repetir a fórmula do disco anterior".

"Selvagem?" abre com "Alagados", um dos maiores hits do disco e do grupo. Com uma deliciosa levada de guitarra, a canção faz um relato da dura realidade da vida nas favelas brasileiras, refletindo em parte a crise econômica enfrentada pelo Brasil durante a "década perdida" - os anos oitenta. Gilberto Gil participa da música - ele contribui ainda com "A novidade", parceria do baiano com os três paralamas.

Depois de "Alagados" aparecem, em sequência, o rock de protesto "Teerã", a já citada "A novidade", a divertida "Melô do Marinheiro" e "Marujo Dub", que mostra toda a influência que o trio recebia, nesse período, de gente como Yellowman, Sparrow, Toure Kundá e Fela Kuti. Conexão Jamaica-África-Brasil.

Para quem tem o vinil, o lado B começa com a pesada "Selvagem", uma canção de letra forte e contundente:

"A polícia apresenta suas armas
Escudos transparentes, cacetetes
Capacetes reluzentes
E a determinação de manter
Em seu lugar

O governo apresenta suas armas
Discurso reticente, novidade inconsistente
E a liberdade cai por terra
Aos pés de um filme de Godard

A cidade apresenta suas armas
Meninos nos sinais, mendigos pelos cantos
E o espanto está nos olhos de quem vê
O grande monstro a se criar

Os negros apresentam suas armas
As costas marcadas, as mãos calejadas
E a esperteza que só tem quem tá
Cansado de apanhar"

O disco não era só de protesto e denúncia, porém. Talvez interessados em manter certos vínculos com seus discos anteriores, os Paralamas gravaram duas canções mais leves - "A dama e o vagabundo", que fala das dificuldades da vida a dois, e "Você", clássico setentista de Tim Maia. Como não podia deixar de ser, as duas músicas atingiram os primeiros lugares das paradas. O disco tem ainda a alegrinha "There´s a party", com a voz desafinada de Herbert Vianna em seu estado mais puro. Um deleite para os fãs do grupo.

O resto é história. Depois de "Selvagem?", os Paralamas foram alçados a outro patamar dentro do que se chama de Música Popular Brasileira. Se isso é bom ou ruim, não vem ao caso. O importante é escutar "Selvagem? com atenção, para se captar todos os detalhes desse trabalho tão instigante e tão importante para a cena rock no Brasil.

André Xampu

domingo, 23 de novembro de 2008

Estrangeiro - Caetano Veloso (1989)


Caetano Veloso é tido como dos maiores gênios da MPB. Isso se dá, em larga medida, pelo que produziu entre Transa (1972) e Estrangeiro (1989). Durante esses quase vinte anos, o compositor baiano apresentou ao público uma música de altíssima qualidade. Curiosamente, as duas "pontas" desse ciclo trazem o melhor do melhor. Se "Transa" é maravilhoso em sua simplicidade e tristeza no exílio londrino, "Estrangeiro" é sofisticado, colorido e aponta para o futuro da música brasileira, mesclando tecnologia e influências diversas. É desse último disco que falo agora.

Produzido por Peter Sherer e Arto Lindsay (esse último trabalharia, anos depois, com Marisa Monte e também com David Byrne), "Estrangeiro" começa chamando a atenção pela capa - a reprodução de uma pintura de Hélio Eichbauer para o cenário da peça de Oswald de Andrade "O rei da vela" em montagem do Teatro Oficina, no ano de 1967. Ecos do tropicalismo, referência constante na obra de Caetano.

A faixa de abertura é "O Estrangeiro", o grande momento do disco. Com a participação dos produtores Sherer e Lindsay e também com Naná Vasconcelos na percussão e voz, a música é fenomenal. Um piano acompanhado de bateria eletrônica e algumas distorções de fundo seguem Caetano, que recita os primeiros versos.

"O pintor Paul Gauguin amou a luz na Baía de Guanabara/
O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela/
A Baía de Guanabara/
O antropólogo Claude Levy-strauss detestou a Baía de Guanabara:/
Pareceu-lhe uma boca banguela/
E eu menos a conhecera mais a amara?/
Sou cego de tanto vê-la, te tanto tê-la estrela/
O que é uma coisa bela?

O amor é cego/
Ray Charles é cego/
Stevie Wonder é cego/
E o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem..."

E por aí segue, em sua letra quilométrica e recheada de citações. Mais de seis minutos de uma bela produção, que conta ainda com um interessante solo de guitarra. Sem dúvida, um dos maiores momentos da MPB em todos os tempos, apesar da discordância de alguns.

Na sequência, aparecem "Rai das cores", "Branquinha" e "Os outros românticos", três momentos fortes e extremamente bem conduzidos. Fica claro o peso da mão de Lindsay, que influenciava muito o compositor baiano à época das gravações. O disco traz ainda uma parceria em inglês do trio Caetano-Sherer-Lindsay, "Jasper", e as medianas (quando comparadas com as demais) "Este amor", "Outro retrato" e "Etc.". Assim como em outros trabalhos, Caetano dedica muitas dessas canções a antigos e eternos amores e amigos (a ex-Dedé Veloso, Paulinha Lavigne e Jorge Mautner).

A última canção é a mais alegre e colorida da obra. "Meia-lua inteira", do até então desconhecido Carlinhos Brown ("Carlinhos por parte de mãe, Brown do mundo", diz o genro de Chico Buarque), foi o grande hit do disco e chegou a fazer parte da trilha sonora de uma novela global. Com o próprio Brown na percussão e uma levada de guitarra deliciosa, fecha "Estrangeiro" em elevadíssimo astral.

'Meia Lua Inteira/
Sopapo na cara do fraco/
Estrangeiro gozador/
Cocar de coqueiro baixo/
Quando engano se enganou.../
São dim, dão, dão São Bento/
Grande homem de movimento/
Martelo do tribunal/
Sumiu na mata adentro/
Foi pego sem documento/
No terreiro regional.../

Uera rá rá rá/
Uera rá rá rá/
Terça-Feira Capoeira rá rá rá/
Tô no pé de onde der rá rá rá rá/
Verdadeiro rá rá rá/
Derradeiro rá rá rá/
Não me impede de cantar rá rá rá rá/
Tô no pé de onde der rá rá rá rá.../

Bimba birimba a mim que diga/
Taco de arame, cabaça, barriga/
São dim, dão, dão São Bento/
Grande homem de movimento/
Nunca foi um marginal/
Sumiu na praça a tempo/
Caminhando contra o vento/
Sobre a prata capital..."

Encerra-se assim a fase "genial" de Caetano Veloso. Depois disso, ele fez grandes turnês (sozinho e com Gilberto Gil), gravou em espanhol e em inglês, participou de trilhas sonoras de filmes nacionais e até flertou com o rock ("Cê", seu último disco, já resenhado por aqui). Nada, porém, que chegasse aos pés de sua produção setentista e oitentista. Em alguns momentos, chega a ser constrangedor.

"Estrangeiro", de todo modo, redime o baiano dessas críticas. Um disco para ser escutado e escutado e escutado, sempre. Brilhante.

(André Xampu)

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Secos e Molhados - Secos e Molhados (1973)




Uma das mais importantes bandas brasileiras dos anos setenta, os Secos e Molhados influenciam a cena local até hoje. A formação clássica do conjunto - que incluía Ney Matogrosso, João Ricardo e Gerson Conrad - explorou ao máximo alguns efeitos cênicos até então inéditos no Brasil, como maquiagens e figurino ousado. Nota-se, assim, uma grande sintonia dos Secos e Molhados com o cenário artístico internacional, que vivia a efervescência do glam-glitter rock (David Bowie, Alice Cooper, Kiss).


O primeiro disco, aqui resenhado, é o que se pode chamar de "clássico absoluto".

Lançado em 1973, após quinze dias de gravação, o álbum de estréia dos Secos e Molhados incorpora a músicalidade da MPB da época e à ela adiciona toques de rock, folk music, baião, fado, entre outros - uma autêntica salada sonora, que acaba dando certo (e como!). O compositor principal das canções do disco foi João Ricardo e há uma versão musicada de "Rosa de Hiroshima", de Vinícius de Moraes.

Três músicas, porém, se destacam das demais. A primeira é "Sangue Latino", que abre o disco. Balada de peso, é conduzida por violões sobrepostos e por uma linha de baixo pulsante. Logo a seguir aparece "O Vira", o maior sucesso comercial do grupo. Canção mais tocada no país em 1973, é uma espécie de sátira da música portuguesa.

A oitava faixa é a melhor de todas, em minha opinião. Com apenas 57 segundos de duração (sim, menos de um minuto), "El Rey" é das mais belas canções de protesto já compostas. Simples, apenas violão, um toque de flauta e voz. Precisa mais?

"Eu vi El Rey andar de quatro
de quatro caras diferentes.
E quatrocentas celas cheias de gente.
Eu vi El Rey andar de quatro,
de quatro patas reluzentes.
E quatrocentas mortes...

Eu vi El Rey andar de quatro,
de quatro poses atraentes.
E quatrocentas velas
feitas duendes"

A música era um claro recado para os militares. No auge da ditadura, em pleno governo Médici, era preciso muita coragem para se criticar abertamente o regime. Os Secos e Molhados tiveram essa coragem.

Por último, a capa do disco é antológica. A foto de uma mesa, com as cabeças dos quatro integrantes do conjunto "servidas" em meio a garrafas de vinho, pães, cebolas e grãos - produtos de venda de secos e molhados.

Uma obra de arte. Um trabalho fundamental.

(André Xampu)

terça-feira, 18 de novembro de 2008

O Futuro é Vórtex - Os Replicantes (1986)


Entramos na segunda metade da década de oitenta e o rock nacional (BRock, segundo alguns) já é um fenômeno de massas. Gravadoras e bandas ganham muito dinheiro. Blitz, Barão Vermelho, Kid Abelha, Ultraje a Rigor, RPM, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, todos têm grande espaço na mídia e dominam corações e mentes. Mas o que fazer se você e sua banda estão fora do eixo Rio-São Paulo, onde "tudo acontece"?

Simples. Mude-se para o eixo. Foi exatamente isso que fizeram quatro jovens gaúchos na virada de 1985 para 1986. Com um contrato recém-assinado com a RCA, Os Replicantes (Wander Wildner, Cláudio Heinz, Heron Heinz e Carlos Gerbase) instalam-se em São Paulo e gravam o seminal "O Futuro é Vórtex". Um disco fundamental, cru, uma aula de punk rock brasileiro.

Rápida explicação - o nome da banda é uma referência aos andróides do filme "Blade Runner" (1982), de Ridley Scott, no qual os replicantes do filme eram uma cópia fiel dos seres humanos, porém mais fortes e ágeis. O filme, por sua vez, baseou-se na obra "Do androids dream of eletric sheep?" (1968), de Phillip K. Dick.

"O Futuro é Vórtex" contém quatorze faixas. É nítida a influência de Sex Pistols, dos Ramones e da cena hardcore californiana. Rock cru, sem frescuras. Dentre as faixas, uma se destaca - um clássico na mais perfeita acepção da palavra. Uma música definitiva. O punk rock total - a canção que eu queria ter composto e gravado. Duvida? Então ouça. Sem preconceitos ou esnobismos, por favor.

Com cerca de três minutos e meio de duração, "Surfista Calhorda" tornou-se uma espécie de "hino punk nacional". Ela representa para o rock nacional o mesmo que "Anarchy in the UK", dos Pistols, para o rock mundial. No caso brazuca, foi a gênese de uma revolução que jamais aconteceu.

"Rack na caranga muito louca pra dar banda,
Cheque na carteira recheada de paranga,
Prancha importada assombrando a meninada,
Corpo de atleta e rosto de Baby Johnson.

É, mas quando entra na água.
É, na primeira braçada.
É, ele não vale uma naba.
Ele não surfa nada, ele não surfa nada!

Tem duas Surf Shops que só abrem meio dia,
Vive da herança milionária de uma tia,
Vai pra Nova Iorque estudar... advocacia!
Ah, Surfista Calhorda,
Vai surfar noutra borda"

Adolescente, muito adolescente, dizem os críticos (e até mesmo os não tão críticos assim). De fato, não há como discordar dessa constatação. Mas o rock´n´roll não passa disso, não? Energia adolescente feita para adolescentes de todas as idades. Dos 8 aos 80.

É isso. Long live rock´n´roll.

André Xampu, fã d´Os Replicantes