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quinta-feira, 31 de maio de 2012

A estréia: Titãs, 1984



Alguns poucos discos de estréia são definitivos, daqueles que já mostram a que vieram: mostram bandas/artistas cientes do que querem e seguros sobre como chegar lá e são o ponto alto da carreira destes mesmos artistas.

Não é o caso do primeiro dos Titãs. E, cá pra nós: ainda bem. Tinham acabado de abandonar o infeliz nome de Titãs do Iê-iê-iê, mas não totalmente o som. O baterista ainda era André Jung (hoje no Ira!) e o baixo era dividido entre Paulo Miklos e Nando Reis.

E o que temos aqui? Pelo menos metade do disco não chamaria a atenção de qualquer um que tenha vivido a época. Babi Índio, Pule, Mulher Robot, Demais, e Seu Interesse são canções que dificilmente a banda tocaria ao vivo poucos anos mais tarde, depois de realmente estourar. E dificilmente vão aparecer em alguma coletânea do gênero “O Melhor de”. Outras receberam um dose de desfribilador, com versões ao vivo: Marvin e Querem Meu Sangue (que também deve um pouco de sua popularidade à versão do Cidade Negra em 1990-e-poucos).

Outras são mania de fãs da banda, A Balada para John e Yoko por exemplo eu acho muito boa, uma feliz adaptação para o português feita por Sérgio Britto desta canção de “segunda” dos Beatles (não, não tô depreciando! Quanta gente por aí que em 40, 50 anos de carreira não consegue chegar nem perto de uma canção de “segunda” dos Beatles). Tá certo que a versão original ficou (inteligentemente) quase intocada, mas tem um arzinho new wave tupiniquim.

O que foi pro rádio e pro inconsciente coletivo foi Go Back, Toda Cor (essa, juro!, eu sempre esqueço e, depois que ouço, sempre me lembro de novo...) e a magnífica Sonífera Ilha, que nos enganou a todos até Cabeça Dinossauro, quando o produtor Liminha conseguiu sabe-se lá como (esta é a impressão que fica a partir desta estréia) desenterrar o potencial agressivo da banda.

O maior mérito deste álbum de estréia é que eles não desistiram. Fizeram um segundo disco desprezível, onde se salvava apenas a (ótima! Fantástica!) Televisão e não desistiram. O primeiro dos Titãs é um retrato fiel de onde eles estavam na época, um disco honesto. Ouve-se uma banda experimentando caminhos, Nando Reis e o reggae (que depois ele abandonaria quando abraçou a carreira solo... ou estará em período de latência?), parceiros de fora (o ex-membro da banda Ciro Pessoa e Barmack em Sonífera Ilha, Babi Índio e Toda Cor; Torquato Neto em Go Back), versões em português (Marvin, Querem Meu Sangue e a já citada Balada). Além do som, o visual e o astral da banda eram outros, sugiro conferir o excelente documentário de Branco Melo, A Vida até PArece uma Festa. A oportunidade de conferir os estreantes nos palcos de Bolinha, Chacrinha, Raul Gil, Fausto Silva (ainda um Perdido na Noite) e Sílvio Santos é impagável.

Enfim, uma obra indefinitiva e inacabada. Sorte de quem teve paciência pra esperar o que viria depois...

[M]

domingo, 9 de outubro de 2011

Cabeça dinossauro, Titãs




Que 1991 o caralho, o ano do rock nacional é 1986, porrrraaaa!!
(Aliás o mesmo dos sensacionais discos de metal Master of puppets e Reign in blood!).
Selvagem?, O futuro é vortex, Pânico em SP, O rock errou, Antes do fim, Dois, etc...

E este aqui, que é sensacional, forte, bruto e essencial!

Temas simples, críticas contundentes a coisas e instituições, porrada!
Às vezes resvala pro excessivamente simplificador e/ou simplório, mas em tempos politicamente corretos dá uma saudade dessa vitalidade adolescente 'foda-se'...

Vindos de um frustrado disco, 'Televisão', com produção do Lulu, onde não conseguiram dar o peso supostamente desejado, seguidos de problemas com a polícia (lembrando o gênio Keith "nunca tive problemas com drogas, só com a polícia"), onde Arnaldo e Bellotto foram presos por tráfico e uso, os Titãs acharam em Liminha, que antes tinha sido criticado pelo Branco Mello, um produtor parceiro, que soube transformar as boas ideias em boas execuções e num disco magistral, iniciando uma longa colaboração.

As ilustrações, tanto da capa contra da contracapa, são de Leonardo da Vinci, respectivamente, 'A expressão de um homem urrando' e 'Cabeça grotesca'.

A faixa-título, de P. Miklos/Branco M/A Antunes, que inicia o disco, traz elementos de um cerimonial de índios do Xingu. O show na época começava com esta! Poderoso som.


'AA UU' (S Britto/M Frommer) já vem na seqüência, com sua mistura original de funk e rock, numa crítica ou constatação da ansiedade, do sempre ter algo a fazer, uma preocupação constante e desgastante. Solinho de guitarra bacana, bateria quebrando tudo, sonzeira.

'Igreja' (N Reis) é mais uma crítica à instituição, o que dividiu a banda; Arnaldo, que acredita em Deus, saía do palco nas apresentações ao vivo.


'Polícia' (T Bellotto) é basicamente uma resposta raivosa ao episódio da prisão dos Titãs, uma pancada, que inclusive já foi coverizada pelo Sepultura.


'Estado violência' (C. Gavin) é um libelo anarquista pós-punk, com tecladinhos com pitch bends e tudo! Guitarras em estereo, muito legais!

Por falar em punk, 'A face do destruidor' (P Miklos/A Antunes) é um hardcore raivoso com efeitos bizarros, com certeza a música mais pesada dos caras, mesmo levando em consideração o 'Titanomaquia'. Em 38 segundos.

'Porrada' (A Antunes/S Britto) também é quase punk, principalmente pelo tema. Como canta feliz o amigo e colaborador Zeba 'a música que não tem em karaokê':
''Porrada nesses caras que não fazem nada"!!

'Tô cansado' (B Mello/A Antunes) pra mim é uma das dispensáveis do disco.

Ainda mais porque na seqüência vem 'Bichos escrotos', música antiga do repertório que só foi gravada pra este disco. Na época 'vão se fuder' (fuder ou foder??) era ofensivo e foi proibido pela censura. Mas mesmo assim as rádios tocavam a versão editada ou pagavam multa. A música é muito legal, guitarras suingadas e pesadas, um solo sensacional de baixo com wahwah!!

Os Titãs eram sete cabeças pensantes e opinantes, e isto se reflete tanto na dificuldade de decidir quanto na variedade de gostos e sons. Assim aqui temos um reggae, bem legal e um pouco ácido, 'Família'. Vocais de fundo bem legais, guitarrinhas pica-pau, baixo gordo, tecladinho no contra-tempo, taí a fórmula. Vc acha fácil? Vai fazer...

Mais crítica, agora ao capitalismo selvagem: 'Homem primata' (S Britto/M Frommer/ N Reis/C Pessoa), rock brasileiro pesado e divertido.

'Dívidas' (B Mello/ A Antunes) também é fraquinha e dispensável.

'O quê' (A Antunes) é uma surpresa no disco, letra experimental concretista, antecipando experimentos com funk, samples e música eletrônica que seriam mais presentes nos discos seguintes, 'Jesus não tem dente no país dos banguelas' e 'Õ blesq blom'.

Mas como diria o Charles Gavin no programa 'O som do vinil': "isso já é outra história''...

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Geração 80s - singles volumes 1 e 2






Apesar de estar sentindo falta das caveiras e do heavy metal por aqui, postarei essas coletâneas da Warner em 2 volumes, mais uma vez pra resgatar bandas quase desconhecidas (ou quase conhecidas) que sem isso nunca apareceriam por aqui. Tem de tudo, das pérolas ao lixo, do luxo à irrelevância.




Outro dia ouvi sem parar no carro e fiquei pensando que cabia aqui, mesmo com as condenações a coletâneas e blablablah, pra citar bandas de poucos (ou únicos) sucessos.




Então mais atenção a estas, as mais conhecidas eu vou só citar.




Volume 1



Começando pelo pop Lulu, com 'Tesouros da Juventude' e 'Areias escaldantes', sempre relevante apesar dos protestos de amigos por aqui.

Depois vem a banda Brylho, do Claudio Zoli e do mestre baixista Arthur Maia, com duas canções, a sempre tocada e eternamente reinterpretada 'Noite do prazer' e a desconhecida 'Cheque sem fundo'. A primeira é realmente muito legal, com timbres e improvisos legais, se beneficiando do fato de não usar overdrives/distorções numa época em que isto era muito mal gravado. Como cantavam uns amigos bêbados, "tocando de bikini sem parar"... A segunda é obscura mas tem um naipe de metais muito legal.

O sempre pop Kid Abelha comparece com as manjadas 'Pintura íntima' ("fazer amor de madrugada") e 'Por que não eu'. Paula Toller ainda não cantava tão bem quanto hoje, alguns maldosos até diriam que ela também não era tão gostosa quanto hoje...

'Sou boy' é uma das clássicas do Magazine, que também traz a música 'Kid Vinil', fraquinha e com derrapadas na afinição por conta do Kid Vinil, "o herói do Brasil'...

Aí vem o desconhecido (merecidamente, digo) Agentess, com 2 músicas nulas: 'Professor digital' e 'Cidade industrial'. Em frente...

Mais uma quase nulidade, o grupo/banda Azul 29, com 'Video game' e 'O teu nome em neon'. Já estou quase arrependido de postar essas merdas...essa última até que tem uma guitarrinha legal ali pelo meio, mas é só.

O genial Ultraje a Rigor comparece com 2 músicas ('Inútil' e 'Mim quer tocar') nas versões que saíram em singles, bem inferiores às do disco 'Nós vamos invadir sua praia' (que inclusive virou nome da biografia da banda, vc já leu?). Nada como uma boa produção e bons timbres pra melhorar uma banda.

O Ira! traz 2 boas músicas ('Pobre paulista' e 'Gritos na multidão'), acho que nas versões de singles também, o Nasi desafina direto, porra...vale pelo Scandurra!

E tem até Titãs: 'Sonífera ilha', ainda muito legal mesmo com aquele sonzinho de radinho de pilha AM, e 'Toda cor', menos conhecida mas também legal.

Volume 2

Eu acho Gang 90 & as Absurdetes supervalorizado, boas ideias mas sem conseguir uma concretização à altura. De qualquer modo, aqui eles trazem a boa composição e seu grande sucesso (e com som até que bom) 'Perdidos na selva'.

O Magazine retorna com mais 2 sucessos legais: 'Tic tic nervoso' e 'Comeu' (vcs sabem, da trilha da novela 'O gato comeu').

E dá-lhe mais Ultraje, agora com mais 2 nas versões do disco, bem melhor acabadas: 'Eu me amo' e 'Rebelde sem causa' (geniais, diga-se aqui!).

Surpresa: a banda Gueto, que acho que foi produzida pelo Nasi (que acho que até canta aqui, um rap com sotaque paulistano!), meio funk meio rap, diferente e original. 'Borboleta psicodélica' é bem legal, quase Red Hot Chilli Peppers dos primeiros discos, pra citar uma referência mais próxima. 'Você sabe bem' é um pouco mais pop, sem deixar de ser funky.

Leoni, ex-Kid Abelha, é um cara pouco badalado hoje, mas é um excelente compositor; além de suas contribuições pro Kid, fez boas canções pra banda meio solo dele, os Heróis da Resistência, e o faz até hoje, fora do circuito mais visível. Aqui vem com uma boa música em versão remix: 'Nosferatu' (MUITO legal, com um solinho esperto de trompete, riffs de metais bem sacados e uma guitarra com sonzaço).
"Morro de tédio e tristeza
quando você vai pro trabalho
e fico em casa deitado
solidão de Nosferatu"

'Kátia Flávia' é sensacional, um rap pioneiro nos ares praianos cariocas, criativo e com aquele dom do Fausto Fawcett de descrever uma história interessante numa canção, bem dentro do contexto da cidade babilônia, além da guitarrinha suingadíssima (arrisco apostar no Fernandinho Vidal). Tem mais um música dele, 'Santa Clara Poltergeist', mas não se compara a esta.

Aqui aparece uma banda bem parecida com o Gueto, a Clínica, que eu nem lembrava...a primeira música, 'Trauma' chegou a tocar nas rádios, se não me engano, legalzinha. Já 'Observatório' é dispensável, mas com um solo de sax improvável.

Eu não lembrava da banda Luni, legalzinha mas completamente esquecível, na mesma onda Gueto/Clínica, devia ser o hype da época (e como avisa o Public Enemy, "don't believe the hype"). Chatinha e datada, apesar das boas intenções nas duas canções, 'The best' e 'Rap do rei' (acho que agora lembrei, esta era da novela 'Que rei sou eu').

Ahá!!! Os Mulheres Negras! Boas composições, boas ideias, bons arranjos, parafraseando o amigo boleiro Chico: 'música é simples'...mentira, fazer o simples, bem feito e redondinho, com criatividade e apelo popular (por que quem quer tocar pra si mesmo?) é difícil pra caralho. Duas músicas aqui : 'Música serve pra isso' e 'Só telelê' (o que será isso???). Guitarrinha maneira, meu!

Pra terminar, uma banda da qual eu nunca ouvi falar, Rabo de Saia com a música 'Um amor destrambelhado'. Meio bizarro e curioso.

Vale pela lembrança, os anos 80 tiveram muita coisa boa mas muita coisa ruim também. Como em qualquer época, aliás.

terça-feira, 28 de junho de 2011

E se?... (tudoaomesmotempoagora - Titãs, 1991)




De certa forma, o passo dado no disco Titanomaquia era ensaiado aqui, Tudo ao Mesmo Tempo Agora. Os Titãs vinham de três discos de tirar o fôlego, que os deixaram enterrados a raízes profundas nos corações mentes dos homens e mulheres primatas, o pulso pulsando e a miséria musical para sempre extinta de uma geração que era chamada de coca-cola.


Tudo ao Mesmo Tempo Agora talvez seja o depoimento de uma banda que não queria mais ser “ícone” de uma geração, ei! Estamos abandonando de vez a cola, ficamos só na coca! Acho o último grande álbum deles, uma missa de réquiem, ainda que nos álbuns seguintes, aqui e ali, colham-se alguns frutos saborosos. É o disco onde o compositor olha para dentro de si mesmo e explode seus conflitos internos e externos de maneira irreprimível e irrevogável.


A capa do disco já mostra isso, uma capa desagradável de se olhar, recortes de Atlas do corpo humano, as cores de açougue e as palavras grafadas no alfabeto grego, como quem avisa: este disco é só nosso e não vai ser fácil ouvi-lo, mais ainda gostá-lo. Pra quem queria mais do mesmo, uma decepção. Pra quem se dispõe a acompanhá-los como quem confia nas viagens de um grande amigo: vale a pena.


A lista de músicas não aparece na capa nem contra-capa, onde só consta, em letras miúdas, mais um aviso: composto arranjado e produzido por Titãs. Isso que pode parecer um enigma, na verdade se revela a pista mais evidente aqui.


As músicas de rádio deste disco não eram fáceis. Clitóris faz Igreja soar como canção natalina, e Saia de Mim é a canção sem-vergonha de ser humano, do ser-humano. O último disco com Arnaldo e talvez aquele que sugeria a Nando Reis a porta da rua. Algumas das canções são bem fracas, como Isso Para Mim é Perfume, uma forçada de barra para parecer mais agressivo do que se é. Mas é um disco mais centrado no som da banda, que está muito afiada, o núcleo guitarra(s), baixo e bateria dá as cartas aqui, então, aquela que era conhecida pelas letras e diversos vocalistas se revezando, troca de foco, e o sinal são canções com letras curtas, de conteúdo mínimo, hai-cais a la Titãs, roc-kais, como Obrigado, Cabeça, Se Você está Aqui, e faixa que dá nome ao disco e o encerra de maneira acachapante.


Em tom de depoimento, confessionário vem Eu Não Sei Fazer Música e Não é Por Não Falar, enquanto que em Filantrópico, Eu Vezes Eu e O Fácil é o Certo são os ‘velhos’ Titãs, dando o ‘toque’. Mas as minhas favoritas deste disco mesmo, que mostram a banda viajando em outras direções são e Agora. Essas duas são as melhores músicas de toda a discografia dos Titãs... Pra mim pelo menos. Música muitas vezes agente ouve e gosta mais pelo conforto de se encontrar em mares conhecidos, do que pelo espanto causado pelo novo. E os Titãs sempre foram a banda do espanto, e o espanto aqui vem nestas duas canções, com um som de banda magnífico que eles não tinham ainda alcançado em nenhum dos discos anteriores...


Já colocou todas as roupas na mala? Agora que agora é nunca

A sua casa já desmoronou no meio da sala? Agora posso recuar

você já tentou varrer a areia da praia? Agora a última resposta

Já dormiu sozinho num canto de rodoviária? Agora a língua em minha boca

Já dormiu com alguém por migalha? Agora é só meu corpo nu...


Outra pista é o fato de que, diferente do que acontece nos discos anteriores, a autoria das composições não é explicitada faixa a faixa, sinal de que, ou o processo de composição foi diferente, ou ela é menos importante aqui do que a execução, que se torna mais autoral até do que a própria fabricação... E a última pista talvez seja o Flat-Cemitério-Apartamento, música onde a chave é... E se ?


Pois é, neste disco os Titãs estão dizendo isso:

E se ?


[M]

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Titanomaquia, Titãs





Hahaaaaa, o metal continua...vcs não contavam com a minha astúcia!


Sem brincadeira, esse disco dos Titãs (que já foram do Iêiê) é bem pesado, inclusive produzido pelo Jack Endino (que seguiu trabalhando com eles em vários outros discos), conhecido pelas suas produções na cena grunge: Mudhoney (que abriu o show do Pearl Jam no Brasil), Soundgarden e, claro, Nirvana (o primeiro deles, Bleach), além do estranhíssimo disco solo do Bruce Dickinson, o Skunkworks (deve ter sido um work with a lot of skunk, hehe). Outro dia inclusive eu estava no aeroporto, comprando uma Billboard com os 20 anos do grunge na capa e de repente, do meu lado, o Paulo Miklos olhando a mesma revista (aliás, de repente não, que eu encontro ele tantas vezes em aeroportos que eu acho que ele mora nos aeroportos; bom, ele pode achar o mesmo de mim...). Quase que eu fiz a pergunta 'e quantos anos tem o Titanomaquia?'. Mas não perguntei, achei pentelho demais.


E na verdade, apesar da óbvia influência do grunge na sonoridade, principalmente das guitarras, o disco não se parece em nenhum momento com nada da cena citada. A banda na época estava envolvida com o selo Banguela, em parceria com Carlos Eduardo Miranda, que lançou Raimundos, mundo livre s.a., Graforréia Xilarmônica, Maskavo Roots e Kleiderman (banda pesada paralela de Branco Mello e Sergio Britto). Então acho que ele queriam fazer algo mais pesado e chamaram o cara, e não o contrário.


Esse aqui é o primeiro no qual o Arnaldo Antunes não participa como membro (ops). Mas ele é co-autor de 3 músicas muito legais.

A banda vinha de um disco massacrado pela crítica, mas que eu acho muito legal, o 'Tudo ao mesmo tempo agora'. Que infelizmente também foi fracasso comercial.


Nando Reis não compôs nenhuma pro disco (ou nenhuma se encaixou na proposta), o que, aliado ao fato que o baixo num disco pesado se limita a acompanhar as linhas das guitarras, pode ter gerado insatisfação/frustração. Na seqüência vários trabalhos paralelos pipocaram.


O disco vinha embalado num saco de lixo.




O álbum começa já com uma pancada, 'Será que é isso o que eu necessito?' (sic), mas ele canta certo: será que é disso que eu necessito. Bateria na cara quebrando tudo, guitarras pesadas, melodia meio dobrada com a guitarra. Sonzeira boa pra começar shows, lembro de um Hollywood Rock onde eles começaram assim.



Em seguida continua animado, rápido e pesado, 'Nem sempre se pode ser Deus', do excelente refrão "não é que eu vou fazer igual / eu vou fazer pior", muito cantado pela minha amiga Juliana ('que mala eres, Juliana'!).

'Disneylândia' é sensacional, uma das colaborações do Arnaldo, letra longa falando pontualmente sobre a loucura que é a globalização, pessoas e coisas circulando velozmente pelo mundo, mas no final 'crianças iraquianas, fugidas da guerra, não obtem o visto no consulado americano do Egito para entrarem na Disneylândia'...



'Hereditário' é mais uma do Arnaldo, a única cantada pelo Nando, bem legal.

'Estados alterados da mente' é das minhas preferidas, por motivos óbvios:

"Atitudes mecânicas

Movimentos involuntários

Estímulos elétricos, tempestades mentais

Choques térmicos, crises de melancolia

Choro compulsivo, riso histérico

Euforia, vertigens

Estados alterados da mente

Devaneios, delírios, desvarios

Estados alterados da mente"



E o que é 'Agonizando'? PQP, um riffão de guitarra meio oriental (provavelmente modo frígio), um hardcore sensacional, aceleradíssimo, gritado, uma letra animal, vozes alteradas, solo bizarro, perfeita!



'De olhos fechados' é delirante, histérica, pesada. No final tem uma voz meio acelerada discreta, estranhíssima.

"eu não quero saber o que se passa na sua cabeça quando você está dançando de olhos fechados"

'Fazer o quê' é a mais atípica, parecendo metal mesmo, começa com umas guitarras sozinhas, só depois entra a música, com aquelas letras meio primitivas titânicas. E manda um 'foda-se' enorme...

'A verdadeira Mary Poppins' também é sensacional, bem punk (que aliás, os Titãs já tinham feito em 'A face do destruidor' no Cabeça Dinossauro), clima decadência e loucura totais.

"Mesmo que ninguém escute

Mesmo que ninguém ouça

Mesmo que ninguém acredite

No que sai da minha boca

Eu sou o verdadeiro Bruce Lee

Eu sou o verdadeiro Bob Marley

Eu sou o verdadeiro Peter Sellers

Eu sou a verdadeira Mary Poppins

E eu sei que estou fedendo

Eu sei que estou apodrecendo

Eu sei que estou fedendo

Eu sei que estou apodrecendo"



'Felizes são os peixes' é mais uma punk acelerada com mais uma letra louca. Mas as músicas não são parecidas entre si e o disco não é nem cansativo nem repetitivo, mesmo que a sonoridade mais bem pesada possa desagradar a alguns.



'Tempo pra gastar' é mais no estilo titânico, as guitarras um pouquinho mais pesadas do que o usual, um solinho de wah-wah malandro, mas poderia estar em qualquer outro disco deles.


'Dissertação do Papa sobre o Crime seguida de Orgia' acho que é uma letra do Marquês de Sade musicada estranhamente pela banda, no estilo de 'Violência'. Meio chata. Como Sade.

'Taxidermia' traz a pancadaria de volta, começando com um baixo distorcido sozinho, depois Paulo Miklos entra cantando com sangue na boca:
"Se eu estivesse embrulhado em papel alumínio
Se eu tivesse o seu grupo sanguíneo
Se eu estivesse embrulhado em papel alumínio
Se eu tivesse o seu grupo sanguíneo
Se eu tivesse seus olhos eu seria famoso" (coro poderoso!)
"Não quero ser útil
quero ser utilizado
fossilizado"
Fim caótico e barulhento. Metal puro!

terça-feira, 10 de maio de 2011

Terminando a saga 20 anos de rock brasil



20 anos de Rock Brasil cd 4


Rá! Você achou que eu não fosse terminar, né? Mas é sempre bom finalizar um projeto, mesmo que inútil como esse blog, música, cultura ou arte em geral...

Eu sempre olhava pra esse último cd meio com estranhamento, pois na verdade eu achava que a coletânea era sobre o rock dos anos 80, quando na verdade o título é claro e auto-explicativo: 20 anos de rock, e não rock de 20 anos atrás, bundão! E esse cd traz o rock dos anos 90.


Então vamos lá: começamos com os decanos Titãs, com a música do cd de renascimento 'Acústico' (que inclusive teve um filhote volume 2!) 'Os cegos do castelo', uma das poucas inéditas do disco, ainda cantada pelo agora solo Nando Reis. Música legalzinha, os Titãs têm muitas outras melhores.


Depois vem o Rappa, com certeza a melhor banda dos anos 90 e (mais ou menos) na ativa até hoje. 'Pescador de ilusões' não é a minha preferida, mas é hit pop reggae e cantada até hoje nos (cada vez mais raros) shows da banda.


'Por você' é uma música atípica de um disco atípico (Puro êxtase, com abordagem dance eletrônica) do Barão Vermelho, mas é uma belíssima balada entre as muitas já compostas pelo grupo.


Cidade Negra é uma banda antiga (com o nome de Lumiar), ainda dos anos 80, mas na época não fazia sucesso. 'Falar a verdade' ainda é cantada pelo Ras Bernardo, o antigo e desconhecido vocalista, depois substituído (ou saído) pelo Toni Garrido (vindo da banda Bel, não a baiana), quando a banda virou pop e merecidamente estourou a boca do balão.


O Skank traz um reggae tipo dancehall (vai no google, Zeba!), estilo no qual começaram, depois enveredando por um caminho mais rock anos 60 com pitadas de Clube da Esquina. 'Garota nacional' é um mega hit do disco 'Samba poconé'.


Tem gente que adora, tem gente que odeia. Eu gosto de Charlie Brown Jr, acho animado, bom pra festa e sessions de skate, principalmente os primeiros discos, ainda com a banda original azeitada e mais pesada, mais ligada no hardcore ou grindcore. 'Proibida pra mim (grazon)' podia ser uma balada, e assim foi gravada pelo Zeca Baleiro.


Raimundos sempre foi uma banda engraçada e com talento pra escrever quase-baladas grudentas. Aqui eles atingem o auge, numa música eterna, 'Mulher de fases', com um finalzinho com cordas e tudo! É do único disco deles que eu não tenho, 'Só no forevis'.


'Mantenha o respeito' é o hino definitivo do maconheiro bem educado, aquele que pede se pode acender no carro ou se deve ir fumar lá fora pra não incomodar. 'Usuário', já comentado por aqui, é um crássico desde sempre! É uma pena o grupo estar inativo, mas a carreira do D2, do BNegão e do Black Alien mantêm a tocha (entre outras coisas) acesa.


'Minha alma (a paz que eu não quero)' é uma bela composição do Rappa, daquele que é o seu melhor álbum, o 'Lado B lado A', o último com o compositor e baterista Marcelo Yuka. Deu origem a um belíssimo video.


'Anna Júlia' é um dos raros pop perfeitos criados no Brasil, o que levou o grupo Los Hermanos de um mundinho alternativo carioca para uma super-mega-ultra exposição nacional, o que levou a um previsível desgaste e antipatia por parte dos ouvintes. Mas a pérola resiste, mesmo que ninguém consiga ouvir mais...como os amigos daqui dizem, está de quarentena por alguns anos. E depois a banda se redimiu e fez um dos melhores discos ever, já comentado aqui pelo amigo e baixista Paulinho.


'Fácil' também é um pop muito tocado em festas, baladas e exposições agropecuárias Brasil afora e adentro. O Jota Quest é isso, sem vergonha e com muita vontade de ser isso, e são bons músicos e eficazes. Tem quem goste, eu até ouço se estiver tocando, mas pagar por isso...


Quase acabando o cd, vem o ex-Titãs Nando Reis, com uma música que a princípio foi gravada pela Cassia Eller e depois gravada pelo autor no disco solo 'Infernal', e em seguida regravada pela Cássia no seu estourado 'Acústico'. Essa música já foi interpretada por amigos aqui do blog sob uma ótica pornô-cosmológica, mas como eu não estava presente, vou me abster. Se alguém quiser anexar um adendo, fique à vontade.


Pra terminar o sempre pop Kid Abelha, agora sem 'os abóboras selvagens', trazendo aqui uma versão de uma música do síndico Tim Maia, 'Não vou ficar', animada e pra cima, com um sonzaço, presente no disco 'Tudo é permitido'. Mas podiam ter colocado aqui uma música própria, né?


Então é isso, terminou. Até que lancem '30 anos de rock brasil' incluindo os anos 00...

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Oblesqonversation... Õ Blesq Blom - Titãs (1989)


Minha primeira lembrança do Õ blesq blom, foi de um show dos titãs em Recife, no centro de convenções a meio caminho de Olinda... A banda estava instigadíssima e eu estava... bem, deixa pra lá... O legal é que quem abriu este show foram Mauro e Quitéria, pessoalmente! Então quando a banda atropelou com tudo em Miséria, miséria em qualquer canto, a platéia foi à loucura!...

Esse show foi muito bom, eu estava acompanhado de grandes amigos, nos divertimos muito e de quebra ainda encontrei umas primas na entrada, que eu nem sabia que curtiam os titãs... Tudo isso transformou õ blesq blom no meu disco favorito dos titãs. Foi minha primeira bolacha deles (comprei no dia seguinte!). Faz muito tempo que eu não ouço o disco, então prefiro começar esse papo mais de memória do que com uma impressão mais "amadurecida" sobre o disco, o que seria, talvez, injusto (com minhas lembranças, principalmente).


Que massa... cabeça feita, amigos queridos, Titãs de cabo a rabo, Mauro e Quitéria e ainda em Recife? Um privilégio... Eu já não tive tanta sorte... o meu Õ blesq blom foi só ouvido (e é ainda), mas ouvido de corpo e alma. Esse disco é muito bom! Com todos os Titãs e cheio de música de prima.

Os Titãs também pintaram cedo na minha vida, meu primeiro show deles foi o Sonífera Ilha e me lembro de ter ficado assustada pela quantidade de gente no palco. Eles eram um montão! E chegaram para fazer estória, pelo menos na minha vida...

O que é Õ blesq blom? Nesse documentário que saiu dos Titãs (que você deveria ver, porque é bem emocionante) mostra o grupo nas areias de Boa Viagem e conta a estória que foi justamente nessas areias que o grupo travou seu o primeiro contato com a voz de Quitéria e de Mauro. Parece que quando os Titãs ouviram os dois cantando aquele monte de língua misturada, que o Paulo Miklos e acho que o Marcelo Fromer, sairam correndo atrás deles, enloquecidos.

Esse disco é cheio de memória. Acho que música boa tem esse viés, o da memória...

E o encarte? Gosto do jeito que as letras estão dispostas, como num xadrez, como num jogo da velha. O título é daquele jeito, com letrinhas recortadas de revista, sabe? E sobre um fundo que parece um azulejo do Brennan. Uma misturança genial: tradição lá de cima com o rock lá de baixo! E as fotos são super inusitadas (e bem engraçadas)! Cada um meio que vira um personagem de si próprio. E o cabelo do Nando naquela época crescia para cima! O Nando sempre brincou com a sua cabeleira!

ps: Acabo de descobrir que a capa é do Arnaldo Antunes... Agora as letrinhas começam a fazer sentido...!


Musicalmente este õ blesq blom me parece um pouco diferente dos outros anteriores. Acho que aquela fúria do cabeça dinossauro e de jesus não tem dentes no país dos banguelas fica mais sutil aqui. O próprio título do disco já é um sinal. A mais furiosa talvez seja Medo, que é uma das minhas favoritas. Na voz de Arnaldo, os titãs te conclamam a perder o(s) medo(s) na marra, na porrada. Além do vocal mais gritado, o ritmo é alucinado, bateria bem marcada, guitarras mais pesadas e repetitivas.

Além do Medo, minhas favoritas são a faixa-titulo Miséria, onde eles exploram o ping-pong sonoro que já tinham usado em Diversão (do disco anterior), mas agora de uma maneira mais rítmica, dançante. E a letra é um achado, com o jogo riquezas são diferentes / riquezas são diferenças. Gosto também de Flores, que foi a música de rádio deste disco. Ainda que a letra não seja das mais titânicas, o trabalho de banda é excelente, uma música muito bem construída pelos dois guitarristas. O Pulso é outra sensacional. A construção em forma crescente é demais. Tem um divertidíssimo rock de raiz em 32 dentes e o funk Deus e o Diabo, conferindo diversidade sem tirar a coesão do trabalho. Nesta última, Paulo Miklos canta o dilema de todos nós, com deus e o diabo habitando a mesma morada... Os pontos fracos do disco (fracos porque comparados às outras!) são o camelo e o dromedário e, por incrível que pareça, as duas do Nando Reis (Raciosímio e Faculdade), justo ele que é hoje o melhor dos músicos pós-titãs...
Mas a minha favorita mesmo é Palavras, que eu comecei a gostar mesmo depois do disco de quarentena, acústico mtv, com outra roupagem, totalmente diferente:

Palavras não são más / Palavras não são quentes

Palavras são iguais, sendo diferentes

Palavras não são boas

Os números pros dias / E os nomes pras pessoas


Õ blesq blom é um disco meio híbrido, com timbres menos punks, mas ainda muito profundo, com muito sangue correndo nas veias - como se fosse criado em pleno êxtase, onde a dor te retorce, mas é uma dor incolor, e você consegue continuar criando - daí talvez um som que soe menos agressivo, mas as letras são carregadas na angústia, dando um tom poético e ácido. Acidez e poesia, tá aí. Os Titãs por muito tempo foram um dos melhores tradutores do nosso inconsciente, sabiam como ninguém nomear nossas dores e desejos.

O discp abre com a reinvenção de uma língua na voz da dupla Mauro e Quitéria, língua onde ninguém entende nada, mas todo mundo entende tudo. Todo mundo tem sua própria língua. E vem Miséria, a língua entendida sem equívoco e fantasiada com cores modernas, para fácil digestão.

Filhos Amigos Amantes Parentes Fracos Doentes Aflitos Carentes

A morte não causa mais espanto / O sol não causa mais espanto

Camelo e o Dromedário dá a leveza na angústia. Adoro uns sonzinhos que pulam no meio da música, como se fossem um ponto de interrogação sonoro. Gosto do balanço, uma coisa meio reggae, meio relaxante, que dá um gosto especial pros nossos ouvidos. Afinal, porque um camelo e um dromedário poderiam nos trazer tantas dúvidas? Magnífico!

Palavras eu preciso preciso com urgência / Palavras que se usem em caso de emergência. As palavras escapam da boca de uma maneira frenética, parece que com uma necessidade mesmo de colocá-las para fora. Palavras que se diz / Se diz e não se pensa". Eu quero todas elas!

O Pulso é outra entre as minhas favoritas totais. Aquela lista de doenças do corpo e outras da alma conectadas com aquela palavra falada pulso, que tem hora que soa uma respiração e outras com a pulsação é um escândalo! É um escândalo de vida com morte. E o corpo ainda é pouco.

E eu sigo com Medo, que é outra obra-prima. O Pulso e Medo caminham juntas, na mesma frequência, na mesma tentativa de se livrar de algo. Enquanto Medo é alucinada, rápida, desesperada, Pulso é a própria pulsão, é a vida em si. O Medo é mental, o Pulso é físico e Deus e Diabo é a nossa fantasia.

E os Titãs simplesmente nos descrevem, nos musicam. Õ blesq blom vai embora na mesma voz que veio - na de Mauro e Quitéria - e o que fica é a sensação de um desenho do ser humano, um desenho que foi musicado - tá lá sua mente, seu corpo, sua imaginação, suas palavras.

Carteira de identidade / Perda de identidade / Identidade dupla / Identidade xerox / Não tenho mais identidade!


[ANDRÉA] & [M]

sábado, 22 de novembro de 2008

Jesus não tem dentes no País dos Banguelas Titãs (1987)


“JESUS NÃO TEM DENTES NO PAÍS DOS BANGUELAS ” é o nó do amor, da violência e do desejo. Esse cd é aquela hora que a gente volta à superfície depois de um mergulho profundo. É aquela primeira respirada, aquele momento em que a gente saca que tá vivo. E os Titãs com a sua poesia escura nos transportam para uma caixa preta e úmida, cheia de fumaça e com o eco que atordoa. Algo bastante perturbador.
É isso: a letra perturba, o som é de fliperama e quando a gente se dá conta, já fomos consumidos pela onda.

Jesus não tem dentes no país dos banguelas - Jesus é qualquer um, e mais: ele é mais um no emaranhado do nó. O título já sugere que quando se fala de jogos de sedução e violência, não há espaço para diferença e que agora vale tudo.

“Todo Mundo quer Amor de Verdade” começa com um som travado, desencontrado, quase desesperado. O amor é tratado como uma necessidade vital e diária, como um produto que devia ser grátis nas prateleiras. Os Titãs arrancam o amor da caixa cor-de-rosa e põe na caixa preta, aonde ninguém se vê e todo mundo se lambuza: o medroso, o faminto.
Ele quer, Ela quer.

E o som quase redondo-quase-quadrado da guitarra traz a “Comida”. Estamos na caixa preta, hipnotizados pelos sons, insaciáveis. A gente tem fome de algo mais, de tudo ao mesmo tempo agora. A gente tem fome da gente, do outro e do desejo… E se a gente não encara o desejo, ele se transforma numa força avassaladora e nos faz inimigos de nós mesmos. E num jogo sonoro os Titãs gemem e emendam, sem quase a gente perceber as duas músicas –“Comida” e “Inimigo”.
A gente já não sabe mais quem é o inimigo – só escutamos o eco e num vai e vem do desejo a gente cai na armadilha: às vezes você tem razão, às vezes não.

E o som vai ganhando poder. A violência chega grande, veloz, ferina, falando alto, dona do pedaço. "Corações e Mentes” estoura com a energia da dissociação.
"Alguma coisa aconteceu/ Inevitável acidente/ Rancor e ódio separaram/ Corações e mentes".
O amor grátis já não é mais tão grátis assim. É um amor com personalidade, dúvidas e ressentimentos. É o amor-cela, onde não se vê nem mar nem céu.
E o som, a histérica bateria do Charles Gavin vai nos envolvendo numa atmosfera de ansiedade, que é impossível não cair de boca na sonzeira, não se transformar num personagem e pulsar com a música.
“Não existe paz/ Não existe perdão/ Eu não suporto mais violência e paixão/ Não aguento mais viver dentro dessa prisão/ Meu amor, minha guerra, eu erro e você erra.”
Sou vidrada nessa música! Acho mesmo que a paixão é violenta, e tem que ser. É algo que tem que te rasgar, tem que botar no inferno, te fazer perder os sentidos. Êxtase
O teu beijo é tão doce/ O teu suor é tão salgado/ O teu beijo é tão molhado/ É tão salgado/ O teu suor.

Em “Diversão” é a diversão pelo avesso. Somos nós topando com o nosso vazio, com o nosso colorido desbotado. O som eletrônico me lembra um ambiente de porão com luz fosca onde a gente se tromba e não se fala. O outro não importa. É o anti-desejo. “Nada disso às vezes diminui/ A dor e a solidão”. É uma música imperativa, da entrega total ao nada: “Diversão é solução sim/ Diversão é solução pra mim”.

“Infelizmente” é um sermão que é quase uma praga. Ela vem pautada, cristalina, cruel. "Infelizmente” é a nossa consciência! É aquela voz que só chega à noite, que passa pelo vão da porta e cochicha no teu ouvido. É a tua verdade. As palavras são ditas devagar pra que você não corra o risco de não entendê-las. O som é pesado, denso.
Um arraso que vai embora sem dar tchau.

Nando é o dono de "Jesus não tem dentes nos país dos Banguelas”. Irado e embalado por um som cheio, ele só é capaz de cantar essa única frase. E a frase volta mais forte, num coro e a música volta mais forte e transborda. E chega o fim. “Jesus não tem dentes no País dos Banguelas” é pra você! Se vire com ela.

“Mentiras” é barulhenta. É que mentira é mesmo barulhenta… Sem mais nenhum comentário.
”Desordem” é um Jornal Nacional cantado. É o olho conservador posto em xeque. É a crítica à banalização da violência. A violência tá aí, mas e aí? “ Quem quer manter a ordem?/ Quem quer criar desordem?”

Não é à toa que depois de “Desordem”, os Titãs piram com “Lugar Nenhum”! Essa música é a gente, é a nossa desordem procurando um norte, querendo uma saída. De onde você é? A gente é um misto de tudo e isso é a grande sacada. “Eu não tô nem aí/ Eu não tô nem aqui”. E a guitarra vai te embalando, vai te fazendo se perder no labirinto dos lugares…
Essa música grita contra você ser aquilo que você naturalmente é. Você tem que se violentar e se transformar em um novo você. Tão implorando a transformação. É muito massa, porque o pedido de transformação nessa música passa pelo rompimento e negação da única certeza que a gente tem - o lugar do nosso nascimento.

Nossa! Esse cd corta como vidro! É tudo muito intenso, rápido. "Jesus não tem dentes do País dos Banguelas” te faz colocar pra fora todos os teus demônios. É quase um exorcismo! E eu gosto tanto…

“Armas pra Lutar” é a música que enterra a bandeira branca de paz no quintal. Chega. Água. É a desilusão, é a falta de tesão e ao mesmo tempo, as guitarras se falam e com elas vem uma gota de esperança para prosseguir.

Adoro a lista de “Nome aos Bois”. Acho genial como uma lista de nomes - de nomes fortes e inesquecíveis – pode ganhar força e vitalidade e tornar-se uma música. Curto também os urros do Nando. Urros de nojo.

E a energia punk termina em paz com “Violência”. E “os irmãos Morávios mandavam matar com cócegas…”
Demais.

[ANDRÉA]