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terça-feira, 17 de maio de 2011

Mallu Magalhães (2009)


Mallu Magalhães sempre me chamou atenção. Daqui de longe ouvia falar de seu nome, de toda a estória do MySpace, das suas composições, da sua adolescência que se misturava com sua habilidade em consertar seus próprios instrumentos musicais.


Ao fim tive contato com sua voz infantil, meio amanteigada – que ao invés de entrar pelos nossos ouvidos, escorrega, devagarinho. E confesso que achei o máximo!


Quando pinta um único olho de azul nos seus shows, Mallu me faz lembrar Rita Lee – garotamutantes com seus coraçõezinhos no rosto na sua fase Tropicália. Mas Mallu me lembra também Bethânia, que aos 16 anos subiu no palco do Teatro Opinião.

Essas intervenções feitas por criaturas tão jovens são de uma ternura incrível, porque o limite entre a brincadeira e a coisa séria, entre o medo e coragem, são muito tênues.


Seu disco é muito delicado, gostoso mesmo de ouvir. Muitas das músicas parecem ter sido compostas com alto teor de amor no sangue. “My home is my man” é roquenrrol retrô, forte, guitarra presente em volume alto. Tudo rapidinho e aos poucos o som vai desbotando. “Shine Yellow” é outra de que gosto muito! Meio reggae, com sopros e percussões.


Esse segundo disco parece um tanto autobiográfico e “Make it easy” deixa claro isso. A música bastante blues começa com um assovio, como um calmante para a alma na hora de enfrentar a mãe. Aqui já estamos falando da “era” Marcelo Camelo...

Essa é a minha favorita! Música de uma paz incrível e a ideia de transformar em canção essa angústia feminina na hora de encarar o tamanho do amor, é maravilhosa.

E o vocal masculino é do namorado…

Make it easy!


“Bee on the grass” me lembra um tanto o som dos Beatles, slow, cheio de sopros, vozes abafadas e borbulhentas, como se drogas psicodélicas estivessem navegando pelas superfícies líquidas dos nossos canais.

Outra muito boa, country total é “ You ain’t gonna loose me”.


O disco acaba com “O herói, o marginal”. Sua canção mais forte, linda, com um arranjo definitivo. E aí Mallu Magalhães quase deixa seu tom de menina e entra fortalecida, viajando na sua própria voz, cresce e termina. E outra vez, Tropicália!


“She was a day tripper

One way ticket, yeah

It took me so long to find out

And I find out”


[ANDRÉA]

ps: essa resenha é para um certo Eduardo, de uma certa Ruberlei. Quando ouvi esse som pela primeira vez estávamos juntos e o Eduardo ficou altamente incomodado quando descobriu que a cantora era brasileira, apesar de cantar quase todo o cd em inglês…

terça-feira, 29 de março de 2011

O estranho, o bizarro, o extra-ordinário


Gangrena Gasosa,

666 EP


Como se tratam afinal de 1001 cds que postaremos aqui (assim todos esperamos), posso me dar ao luxo (palavra inadequada ao presente registro) de postar esse EP da banda carioca Gangrena Gasosa, adepta do humor escrachado dentro do estilo criado pelos próprios, o Saravá Metal, que mistura o acelerado, pesado e gutural death/black metal com uma temática ligada à Umbanda. Esporro e deboche, detonação geral da cena metal, mistura de pontos de macumba, atabaques e berimbau. ‘Se Deus é 10 Satanás é 666’ inicia com uns barulhos de vocais invertidos (mensagens subliminares?) e ruídos de guitarras metal, seguindo com atabaques e riffs from hell. A letra conta uma descrição do inferno e um som infernal, mas bem legal pra quem gosta de um metal/hardcore mais sujo e rápido. Pérolas líricas: “Lá no inferno Você é bem vindo Só tem festa, ninguém te aluga No céu tá cheio de crente Enchendo saco e oferecendo ajuda Tem sempre uma velha gorda Tocando pandeiro do teu lado Uma porrada de anjinho De saia que nem viado” ‘Chuta que é macumba’ começa mais suingada e aborda o medo que membros de outras religiões, mesmo não acreditando, tem de despachos. E faz uma crítica bem agressiva aos crentes. Mais pérolas: “PODE SER CATÓLICO, CRENTE OU JUDEU MUÇULMANO, HARE KRISHNA, BUDISTA E ATÉ ATEU QUEM TEM CÚ TEM MEDO, AS PREGUINHAS FICAM TENSAS QUANDO PASSA POR DESPACHO SEMPRE PEDE UMA LICENÇA” Aí chega a parte pra desagradar os metaleiros modernos: ‘Quem gosta de Iron Maiden também gosta do KLB’, onde eles zoam com as figuras modernas do new metal: Korn, Limp Bizkit, Linkin Park, Slipknot, Coal Chamber, Soulfly, Marilyn Manson, Evanescence “e esse monte de bichice”, comparando-os com os classic metal, principalmente os mais pesados, tipo Slayer, Venom e Sepultura. “Hoje em dia os metaleiros são uma puta pleiboyzada”. Sensacional! ‘Eu não entendi Matrix’ é engraçadíssima, com uma descrição bem tosca da estória e um som muito pesado. “Uma gostosa que andava na parede E despiroca pelo telhado Ela sumiu no telefone Isso me-me-me-me-me deixou bolado Um pleibói vai preso na parada Na federal a dura é uma pica Os cana arranca a boca do cara (e faz o quê?) Ainda lhe botam um bisôro na barriga Ele toma uma pírula Vira espelho e sai careca Com um monte de fio nas costas Numa bacia de uma bacia de meleca Ele luta caratê E vai na tia do biscoito Onde tem um di menorque empena um garfo só cum olho EU NÃO ENTENDI(3X) MATRIX!” ‘Minha sinceridade é humanitária’ também esculacha músicos ‘mudernos’, que posam de ecologistas, intelectuais e quetais, mas não tem talento nem culhões. Assim eles tocam a real, como se diz no Rio, e ainda se justificam. “Isso agrédi a natureza e não podemos incentivar Alguém escuta leva a sério e pode até querer lançar Quantas árvores o planeta ainda vai ter que perder? Quantas vão virar papel pra fazer capa de cd?” ‘Emboiolada’ claro, sacaneia a onda metrosexual, com um pezinho na homofobia, mas com humor, porque a última coisa que eles desejam também é serem politicamente corretos. Pérola derradeira: “TOME VERGONHA NA CARA NÃO DESPETALE O BOTÃO DESGOSTO ASSIM PRA FAMÍLIA SÓ QUANDO O CABRA É LADRÃO SE TU NÃO SABE SE É MACHO PROVAVELMENTE NÉ NÃO É BICHA QUASE FORMADA SÓ FALTA DAR O CAGÃO VAI EMBOIOLAR (4X) METROSSEXUAL / PANSSEXUAL HEMOSSEXUAL / RUSSOSSEXUAL” Eles ainda têm outros discos (com títulos bizarros e engraçados tipo ‘welcome to terreiro’ – este lançado pela Rock it do Dado Villa-Lobos do Legião Umabnda como eles sacaneiam - e ‘smells like tenda espírita’ - título genial!), além de versões tipo ‘Matou a galinha e foi ao cinema’, assim que eu ouvir/baixar e se valer a pena, eu posto aqui. Enquanto isso, desenvolva sua tolerância acústica abrangente e divirta-se!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Roquenrrou!!!!


Tenha em mente que trata-se de um disco do Erasmo Carlos. Isso ninguém pode tirar dele. É o Tremendão, dá um close nele. Como na história do copo com água pela metade, falta muita coisa aqui, mas é possível olhar para a parte cheia do copo. Dito isso, o nome não mente: é um disco de rock and roll honesto e coeso, tanto quanto possível para quem está no ramo musical já há tanto tempo, e transitou pelos mais diversos ritmos. Diria que com a chegada furacônica da Tropicália que catalisou o som dos baianos, dos Mutantes, e o rock tupiniquim que viria a se firmar na década de 70, Raul, Rita, Secos e Molhados e bandas mais ou menos obscuras, o pessoal pioneiro da jovem guarda foi colocado pra escanteio e acabou encontrando um nicho acolhedor na chamada “música brega”. Se foi bom ou ruim não vem ao caso. Aconteceu e pronto.

Pra quem conhece a fase psicodélica do Ronnie Von e também do Tremendão (e o baiano tem que postar este disco, que é maravilhoso!) é um alívio tê-lo de volta. Em grande estilo, ele trouxe Liminha para produzir o disco que trouxe Dadi (o time que fez o Hein? da Ana Cañas que gostaríamos de ver em breve por aqui, postado pela musa do blogue), com quem divide guitarras e baixo (entre alguns convidados eventuais) e o baterista das antigas Cesinha. Os timbres são todos setentistas, a escolha dos instrumentos, amplificação e ambientação foi cuidadosa e o resultado é ótimo. Erasmo divide as composições com diversos parceiros, entre eles o próprio Liminha, Nelson Motta, Chico Amaral (do Skank e não “o prefeito ideal”) e Nando Reis (uma música boa e outra decepcionante).

O fato é que você não vai encontrar aqui canções que possam aparecer no especial de final de ano do outro Carlos, o Roberto. Dentro da medida do possível, até mesmo as baladas são um pouco mais agressivas do que o que se espera do Grande Tremendo, e predomina no disco, de fato, Rock. A música brasileira costuma ser muito apoiada nas letras, mas, se você relevar este fato e gostar do bom (e velho, bem velho) rock and roll... [M]

ps: o disco foi dica do Dão, o rei da tolerância elástica...

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Pequeno Cidadão (2009)


Pode-se até definir o Pequeno Cidadão como um disco para crianças. É, de fato, a maneira mais fácil de olhar as coisas, o caminho do óbvio, uma vez que alguns artistas consagrados juntam-se com seus filhos das mais variadas idades e gravam um cd com músicas que os misturam, seja nas composições, seja nas execuções.


Mas aqui proponho um novo orelhar sobre o projeto, não é um “disco para crianças”, ou, a máxima concessão que faço, é um disco para crianças de todas as idades. Arnaldo Antunes, que dispensa apresentações, mas, vá lá, andou pelos Titãs e tem sólida carreira solo e o saudável hábito de se reinventar de tempos em tempos; Edgard Scandurra, guitarrista do Ira!, aliás, mais que isso, idealizador, compositor e motor da banda e que andou arriscando a eletrônica como Benzina; Taciana Barros, que era da Gang 90 e as Absurdetes (eu e minha gata rolando na relva! Rolava de tudo! Confesso que não lembrava dela, tive que pesquisar...); e Antônio Pinto, músico compositor de trilhas sonoras (Central do Brasil, Cidade de Deus...) juntaram-se da maneira mais natural possível: os filhos estudam na mesma escola. (É claro que, Edgard toca na banda do Arnaldo e Taciana é sua ex-mulher, mas os pais que viram amigos dos pais de seus filhos é evento típico).


A referência básica é a Palavra Cantada (já postada aqui), turma com a qual tanto Edgard quanto (e principalmente) Arnaldo já colaboraram, mas vai além, ou melhor, vai a outra direção. Lá, as músicas eram cuidadosamente compostas e arranjadas para as crianças, as letras, o ritmo, a melodia, os timbres... Aqui, o universo infantil das crianças é misturado ao dos pais e em muitas músicas, não fosse a voz das crianças ou as letras em tom de brincadeira, teríamos um disco de rock’n’roll tupiniquim. Da melhor qualidade, diga-se de passagem, é comparável à da melhor safra do Ira! e dos Titãs...


A faixa-título que abre o cd é irresistível, e já virou até propaganda de automóvel. Lá em casa ninguém resiste ao seu balanço. O Sol e a Lua, a minha favorita, tem um refrão contagioso, pegajoso no melhor sentido da palavra, linda música de Antônio Pinto que, como se não bastasse, conta com a elegante guitarra de Edgard tornando-a ainda mais interessante.


E o disco é recheado de momentos inspiradíssimos... o rock’n’roll das antigas Sapo-Boi que é cantado por um dos filhotes, e cá pra nós, e menino se supera e manda ver, totalmente à vontade e muito bem-humorado. Larga a Lagartixa é o momento metal geralmente inconcebível em discos de crianças, mas cá pra nós, pedagogos que não nos ouçam, nem só de xilofones, móbiles e gelatina colorida é povoado o universo infantil. Mas o disco não se limite ao rock, algumas passagens meio eletrônicas como o Uirapuru e a Bonequinha do Papai dão uma quebrada no tom. Mas tem também um sambalada estilo Marcos Valle, composta e cantada por Daniel Scandurra (filho do Edgard com a Taciana, já criança grande, com 21 anos) chamado Futezinho na Escola é a preferida do meu Joãozinho, de sete. Leitinho é a música mais estilo palavra cantada, um xotezinho gostoso do Arnaldo, enquanto que o Um Carrinho por Trás é um pagode malandro, no estilo criança levada que se justifica: não foi na demais!... foi um carrinho por trás (eu falei pro juiz...).


Delicioso disco feito em família termina com uma faixa bônus composta (e cantada) por Ziraldo para seus filhos quando eram pequenos: um deles é justamente Antônio Pinto! E o disco feito em família é melhor ainda curtido em família. Tipo de som que todo mundo em casa curte, pai, mãe, irmão, irmã...


[M]

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Vagarosamente... Céu (2009)

Diferente daquele disco azul, o paradisíaco Céu de 2004, ela agora vem em tons de vermelho, Vagarosa. As cores da capa parecem contradizer este título e a audição do disco comprova (bem) mais o segundo que as primeiras.


Diferente do que costumo fazer para este blogue, este texto se baseia em apenas duas audições do disco, e preferi assim, pra não ser tentado a esmiuçá-lo demais, deixando ainda um gostinho pra quem está lendo e perdendo seu tempo que ainda não foi correndo comprar ou baixar oVagarosa. Na primeira, ajudando na cozinha do sábado, com a atenção dividida entre três crianças, um playstation, pia, fogão e outras coisas do dia-a-dia, eu não entendi, nem gostei do disco.


Só na segunda entendi: a Céu quer a sua intimidade. Intimidade e comprometimento do ouvinte. Vagarosa não é disco de acompanhamento de outras atividades, e ontem à noite ele foi a minha atividade. E é assim que ela é melhor sorvida, vagarosa, Céu toma conta de você, na intimidade, essa é a grande novidade neste seu trabalho de 2009.


Alguma coisa do trabalho anterior ainda está aqui, a mistura da tradição, do cavaquinho, do samba, com os loops, scratches e muita coisa ligada na tomada. Mas ainda assim, o disco vai mais longe e mais fundo onde o anterior tinha apenas roçado. As letras são curtas, rápidas e diretas, com preguiça de se alongar no(s) assuntos(s), ela dá o recado com poucas palavras. De propósito o disco abre com som de agulha percorrendo os sulcos do vinil, que funciona quase como uma vinheta, separando as músicas. O que poderia sugerir uma referência ao antigo, muito antigo, logo é demolido da segunda faixa em diante: Fiz minha casa no teu cangote, ela judia de quem ousa procura-la ao redor do pescoço.


Beto Villares é, de novo, parceiro de algumas composições, instrumentos e divide a produção com a própria, e mais dois cúmplices. E essa produção a oito mãos funciona bem demais! A instrumentação também está bem interessante, reúne uma pá de teclados vintage: mellotron, fender rhodes, moog... E ainda assim, o disco aponta para o futuro e não para o passado. Ás vezes parece que estamos diante de uma mistura da vanguarda paulistana (que foi vanguarda na década de 80) com massive attack e um sambinha de sombra de quintal... E muitas vezes, a impressão é que estamos diante dela, Céu, todinha ela, do jeito que quer e gosta.


O disco é todo maravilhoso, e tem participações pra lá de especiais, Luiz Melodia, Gigante Brasil (que tocou com Itamar Assumpção) e Los Sebozos Postizos (codinome de uma mistura entre pedaços da Nação Zumbi e do Mundo Livre S/A), que ajudam na levada (surpreendente) de Rosa Menina Rosa, de Jorge Ben, única composição revisitada aqui. Como num bom vinho tinto (essa deve ser a cor da capa!), Céu vem vagarosa e fica muito à vontade. A gente se espreguiça. E agradece.


[M]