quarta-feira, 21 de novembro de 2012
Bebel Gilberto - Tanto tempo
Este cd é um dos que também comparece no livro original ( '1001 discos para ouvir antes de morrer', se você ainda não sabe...), fato plenamente justificável diante do apelo internacional da obra.
Na época original e muito bem sacado, misturando bossa nova, mpb e música eletrônica num clima lounge, hoje em dia parece diluído, mas sempre é bom lembrar que esta aparência se deve aos muitos imitadores, incluindo muitas coletâneas e clones. Aqui nesse disco se criou esse estilo, facilmente reconhecido hoje mundialmente, chame-se de bossa eletrônica, lounge acústico, new bossa ou whatever... Fácil dizer que ela se apropriou de estilos e 'só' misturou, como se a música popular não fosse exatamente isso. Além de tudo ela o fez com extremo bom gosto e capricho, o que resultou em um tremendo sucesso internacional de vendas (mais de 2,5 milhões de discos vendidos) e de exposição (participando de muitas trilhas de filmes - 'Closer', 'Next stop wonderland' entre outros - e séries de TV - 'Sex and the city', 'Six feet under', entre outros).
O disco é agradabilíssimo, e isto obviamente não é um defeito, as canções seguem fluindo num clima calmo e cool, sem maiores sobressaltos nem surpresas estilísticas.
Misturando composições próprias e clássicos, às vezes nem tão clássicos assim, da bossa nova, o disco tem a cara da sua criadora.
Então vamos às músicas:
Samba da benção é uma escolha arriscada, diante das muitas versões, inclusive a consagrada pelos próprios autores (Vinícius de Moraes/Baden Powell), mas a novidade vem pela programação e clima, já com todos os elementos que fizeram do disco um sucesso. E o que é clássico pela qualidade nunca deixa de ser novidade.
"É melhor ser alegre que ser triste
A alegria é a melhor coisa que existe
(...)
Mas pra fazer um samba com beleza
é preciso um bocado de tristeza"
August day song (Bebel/Nina Miranda/Chris Franck) não tem programação, sendo mais orgânica sem fugir do clima, mais uma bela. Os co-autores, cantora e músico são do grupo Smoke City, seguidores dessa new bossa.
Tanto tempo (Bebel Gilbert/Suba) começa lembrando muito a bossa nova clássica, com cordas e violão, bem lenta, contendo um sample de 'Amor de carnaval' (Gilberto Gil), poderia estar num disco do pai dela, João...
Sem contenção (Bebel/G Arling/R Cameron) traz o internacional Celso Fonseca no violão, além do percussionista João Parahyba, que aparecem em várias faixas além dessa. Belas vozes, mais agitadinha mesmo sem bateria, deve ter alguns remixes por aí, existe mesmo um 'Tanto tempo remixes'...
Mais feliz (Bebel/Dé/Cazuza) é das antigas, com os 'barões', mais uma linda, onde o próprio Dé toca violão e baixo, nem sei se já tinha sido gravada pelo Barão, alguém aí sabe?
''o nosso amor não vai parar de rolar
de fugir e seguir como um rio
(...)
o nosso amor não vai olhar para trás,
desencantar nem ser tema de livro
(..)
rimas fáceis, calafrios,
fura o dedo, faz um pacto comigo
num segundo, teu, no meu,
por um segundo mais feliz"
Alguém (Bebel/Suba/Béco Dranoff) é mais uma calminha e bonitinha. Com participação especiailíssima de mestre Marcos Suzano na percussão.
So nice (Summer samba) já é das mais tocadas, tanto na versão original quanto nessa aqui, mais 'muderna', mas ainda fiel à original. De autoria dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle com Norman Gimbel (talvez responsável pela tradução), é daquelas típicas da bossa nova, calma, plácida, remetendo àquele ambiente praiano. Ambiência é tudo por aqui...
Lonely (Bebel/Roberto Garza) foi a primeira que eu ouvi, através do saudoso emule, achei muito legal, calma sem ser chata, leve sem ser sem graça, teclados e vozes bem colocadas, tem até percussão de Carlinhos Brown! Produção by Thievery Corporation & Bebel Gilberto.
Por falar em produção, ela é bem variada, incluindo Amon Tobin, Suba (principal produtor), Chris Franck & Nina Miranda (Smoke City), Mario Caldato Jr e até o João Donato, que co-produz a próxima, Bananeira (João Donato/Gilberto Gil).
Essa música minha filha adorava ouvir, então eu tive que ouvir obsessivamente 'de novo, de novo, de novo', quem tem filho entende...É uma versão da música do João Donato, que não é tão legal. Aliás, por falar nele, ninguém vai postar 'A Bad Donato'????
Aqui no disco da Bebel ele é responsável pelo arranjo e pelo Fender Rhodes, um piano elétrico. Além dele a equipe é luxuosa: Robertinho Silva (bateria e percussão), Jorge Helder (baixo), Vitor Santos (trombone), Ricardo Pontes (sax alto), Jessé Sadock (trompete) e Henrique Band (sax barítono).
Samba e amor (Chico Buarque de Holanda) é uma excelente surpresa, minimalista, só voz e violão pelo Celso Fonseca. Linda, mas acho que ela imitou meu arranjo de 1998...
Close your eyes é a última, uma das poucas de autoria do Suba, junto com Patricia Ermel/Dinho Ouro Preto/Bebel Gilberto/ Béco Dranoff, uma das que ouvi primeiro via emule (que saudade!). Arranjo mais cheio, muita percussão, sopros bonitos, é um disco de extremo bom gosto e delicadeza(ui).
E esta é a nota final triste desse disco: o produtor, compositor e músico sérvio radicado no Brasil Suba, na verdade Mitar Subotic, morreu durante a produção do disco, por causa de um incêndio no estúdio de seu apartamento, onde ao tentar recuperar parte do material gravado, inalou muita fumaça. Literalmente, deu a vida pela arte.
Além deste canto do cisne, produziu Edgar Scandurra (Benzina, que em breve aparecerá por aqui), Mestre Ambrósio, Marina Lima, Arnaldo Antunes, Dinho Ouro Preto e Edson Cordeiro.
Descanse em Paz.
Lembro aqui que este não é o primeiro disco da Bebel, ela, além de participação nos discos 'Pirlimpimpim' e 'Saltimbancos', em 1986 lançou um EP (extended play) auto-intitulado, que continha 'Preciso dizer que te amo', parceria com Cazuza, que infelizmente ela ainda não gravou nessa nova fase.
(Dão)
sexta-feira, 20 de abril de 2012
João voz e violão, João Gilberto
Da cor do pecado (Bororó) é tão familiar e íntima que realmente parece que ele está logo aqui cantando pra mim, viagem eu sei, mas um humano equilibrado é insano (sabedoria popular veiculada pelo Facebook, nosso oráculo do momento). Delícia. Tô meio baiano hoje, sou muito influenciável...
Segredo (Herivelto Martins/ Marino Pinto) tem até umas falhas (humanas) na respiração e articulação do canto, coragem é manter isso no disco em tempos de protools, autotunes e quetais. Canção triste e bela, com pitadas de ironia.
Pra terminar com o sempre presente gostinho de quero mais, Chega de saudade (Tom Jobim/ Vinícius de Moraes). Depois de iniciar o movimento da Bossa nova, foi regravada e diluída muitas e muitas vezes, mas aqui retorna pro seu legítimo dono, soando mais uma vez como deve ser, revolucionária, com acréscimos de acordes mais ricos com extensões novas (não vou entrar em detalhes harmônicos, pela chatice e porque meu ouvido não é absoluto). Harmonia perfeita e redonda, melodia surfista e João.
Porque melhor que o silêncio só João.
(Dão)
sábado, 6 de agosto de 2011
A invasão do sagaz Homem Fumaça, Planet Hemp
Mais um dos hemp ativistas cariocas malandros. Mas o assunto é sério, cada vez mais.
Esse disco, como todos da Hemp Family (que além de Planet Hemp, inclui o Rappa, Pedro Luís, Funk Fuckers e todos os filhotes dos ex-membros do Planet: D2, BNegão e Black Alien), merece estar aqui sim, mas hoje pra mim é pretexto pra comentar um recente engasgo.
O STF (Supremo Tribunal Federal) não tem que liberar a Passeata pela legalização da maconha (ou qualquer outra passeata ou manifestação de expressão), eles simplesmente RECONHECEM QUE NÓS TEMOS ESSE DIREITO.
Essa não foi a primeira vez que autoridades municipais e estaduais se comportaram assim pessimamente, tentando limitar a manifestação da passeata pela legalização da maconha, seja lá como se chame a cada ano.
E sempre depois tem que se recorrer ao STF para que o direito seja reconhecido. Talvez a melhor solução fosse uma manifestação prévia de que O DIREITO DE LIVRE EXPRESSÃO PODE SER REGULAMENTADO MAS NÃO PODE SER SUPRIMIDO, sendo assim fica sujeito à conveniência das autoridades municipais e/ou policiais para a melhor oportunidade e conveniência da segurança e trânsito.
Não há apologia em discutir a mudança de qualquer lei.
Se você se incomoda, está no seu direito, pode inclusive manifestar esse incômodo também, fique à vontade.
Mas, apesar dos Bolsonaros (é, se liga porque já são três!), o que NÃO EXISTE NUMA DEMOCRACIA É O DIREITO DE NÃO SE INCOMODAR.
E, na minha opinião não humilde, dizer que eu gosto de fazer qualquer atividade, inclusive se drogar (e isso é, claro, uma hipótese retórica, estúpido) ou dar a bunda (outra hipótese, claro, aqui só pra incomodar mesmo) não é fazer apologia, porque o que é bom pra mim (ou o que eu acho que é) pode não ser bom pra você. Mas isto ainda está sujeito a interpretações jurídicas, e não estamos nos EUA, apesar da recente e benvinda emenda do Cristóvão Buarque de incluir a busca da felicidade como princípio constitucional.
Porque, 'como já dizia o Samuca da Patrulha da Cidade', citado aqui no disco pelo Seu Jorge na última música: "Quem não reage rasteja".
Isto dito, vamos ao disco, né...
1. 12 com dezoito: música boa pra começar, rápida, agressiva (inclusive com distorção nas vozes e num teclado eletrônico ao fundo), metralhadora verbal solta! '12 com dezoito é o caralho, o bicho vai pegar!'2. Ex-quadrilha da fumaça: 'adivinha, doutor, quem tá de volta na praça? Planet Hemp, esquadrilha da fumaça'! 'sujou sujou, disfarça'. Bom riff de guitarra, base suingada pro rap, aqui pelos 3 MCs: Marcelo D2, BNegão e Black Alien, solo de guitarra com fuzz sujo.
'Intoxicados pela ignorância reinante
Os homens fumaça mais uma vez se apresentam pra missão'
3. Test drive de freio de camburão: provocativa à polícia corrupta, lida com a conhecida 'dura', lembrando que a banda podre não responde por toda a instituição.
4. Procedência C.D. : hardcore pesado e acelerado, mas não captei qual é a mensagem...acho que é sobre a mítica e poderosa organização Comando Delta.
5. Stab: aqui dá pra prever o que D2 faria na sua carreira solo, um bom mix de funk e rap, ainda sem o samba, letra inteligante e criativa, refrão maneiro!
'Sempre representando o hip hop,
não tem Faustão nem Gugu,
eu sou primeiro no ibope
Revolução eu vou fazer de maneira diferente,
tiro o ódio do coração e tento usar mais a mente
Botam barreiras no caminho mas sou persistente,
posso cair mas me levanto e sigo em frente
Seguro a bronca, dou um 2 e mantenho a calma'
'Vários irmãos se recolhem e vão em frente, vários também escravizam sua mente
Eu sei bem, quebro a corrente onde passo implanto a minha semente
Gafanhotos nunca tomam de quem tem
Predadores, senhores que mentem, esperem sentados a rendição
Nossa vitória não será por acidente'
(mas afinal o que é stab??)
6. Four track: uma boa surpresa, um rap/hip hop com violão slide! muito legal, prova da criatividade em misturas by Mr D2!
7. Gorilla grip: instrumental tradicional nos discos do Planet, bem surf music pesada.
8. Contexto: já traz o mix samba e hip hop, letra fluida e citações espertas de Zeca Pagodinho e dos irmãos Valle...
'Quem é que joga fumaça pro alto?
Planet Hemp
Chega na cena e toma de assalto
Planet Hemp
Conexão entre o morro e o asfalto
Planet Hemp
(...)
A coisa certa rapa é que tem que ser feita
Cabeça feita, pago o que eu consumo
Se eu quiser beber eu bebo, se eu quiser fumar eu fumo
(...)
Fazendo aquela média clássica
Entre a Lei de Murphy
E a teoria do caos
(...)
Ai Gustavo ai Gustavo a parada é o seguinte
Tem gente que ta dizendo que o Planet Hemp faz apologia as drogas
É mentira tchu tchu é mentira' (citação da música 'Mentira')
9. DZ Cuts: apresentação do DJ Cuts com samples malandríssimos.
10. Raprockandrollpsicodeliahardcoreragga: começa com um sample do João Nogueira da música 'Baile no Elite': "Nelson Motta deu a nota que hoje o som é rock'n'roll" e aí entra uma música pesada e suingada apresentando a carta de referêncvias do grupo. Bata a cabeça, rapá!
'Raprockandrollpsicodeliahardcoregga, mc no microfone em atitude e HC
Representa o Hip Hop, pesadelo do pop, não ta ligado na missão, foda-se'
11. Quem tem seda? : pergunta clássica dos adeptos da ganja, aquele momento de definição e ansiedade. Participação especial de Sen Dog e Micky, que eu não sei de que grupo são. O que interessa é a música, que é muito legal, começando lentinha e ganhando balanço. Apologia?
12. É isso que eu tenho no sangue... : mais uma suingada, samba funk, com citações a vários músicos que influenciaram o Planet.
'Hip hop é o ar que eu respiro
a sabedoria de quem não precisa resolver mais no tiro'
13. Quarta de cinzas: vinheta instrumental suave, com flauta e tecladinhos vintage.
14. HC3: mais um hardcore pesado e acelerado, acho que cantado pelo guitarrista Rafael Crespo.
Ao final, como uma introdução pra próxima música, um cara explicando o que é o jongo.
15. O sagaz Homem Fumaça: um reggae com introdução e vocais auxiliares de Seu Jorge, termina bem e calmo um disco raivoso e contundente. Depois da música tem uma surpresinha, um recado deixado numa secretária eletrônica, hilário...
Produção do grupo e Mario Caldato (Beastie Boys, Marisa Monte, Tone Loc, Seu Jorge & Almaz, Bebel Gilberto, Chico Science & Nação Zumbi).
domingo, 19 de junho de 2011
Guerra civil canibal, Ratos de Porão

Continuamos no peso, agora um punk um pouco mais tradicional, hardcore, com pitadas de metal, dos nossos já conhecidos RxDxPx.
'Obesidade mórbida constitucional' começa com aquele baixo e bateria típicos do punk, meio parecido até com 'California ubber alles' dos Dead Kennedys (inclusive nos EUA o disco foi lançado pelo Alternative Tentacles do Jello Biafra), fala sobre a condição gorda do João, que quase morreu e emagreceu depois. Como não dá pra entender quase nada do que o João Gordo canta (?), segue um pouco da letra:
"Atentado contra a vida,suícidio,punição
Sofrimento na UTI,tortura,medo,falta de ar
Pro inferno não quero ir e no céu eu não quero chegar
Eu vi a morte!Morte!
Mas nunca me arrependi,vida louca sem igual
De primeira quase morri, show de horror no hospital"
'Toma trouxa' é rapidona, fala sobre um balão em drogas que o João pelo jeito tomou de uma gostosinha...
'Guerra civil canibal' é a panfletária típica anti-guerra:
"Por quê?
Inocentes sempra vão
Pagar,sofrimento e o que vai restar?
Nova guerra por religião,carne humana mata a fome ou não?
Guerra civil canibal
Em nome de Deus
Sempre igual,sempre igual,
Realidade podre ficção.
Refugiados agora vão chorar,
Pelo sangue da populaçào
Quem dá mais,quem dá mais?
Morre o fraco,carne boa ou não?
O mais forte vai se alimentar,
No banquete da religião"
'Estaca zero esquerda' é mais do mesmo, com um refrão mais balançado, legal, com solinho de guitarra e tudo. Dá uma enganada no meio, entra uma guitarra mais leve, mas é só pra pegar vc. Bem metal crossover (vai anotando, Zeba!).
'Fire to burn' é um cover da banda/dupla Half Japonese ou 1/2 Japonese, de proto-punk (como diria o Xampu; por falar nele, vc conhece eles, Xampu?) ou de rock alternativo. Dizem até que o Kurt estava usando uma blusa deles quando se matou. Legal, acelerada e até dá pra entender o que o João canta aqui. Incrível, é mais fácil entender ele cantando em inglês...se bem que acho que outra pessoa cantando.
Mais um cover, 'Biotech is Godzilla' (Sepultura/Jello Biafra), sensacional!
'A cola' é uma piada, parece que alguém chega com a cola, usam a cola e ficam escutando um som ao fundo (que eu não consegui identificar) e rindo... :)
'Kill the Varukers' fecha o EP, disco curto, com alguém que não é o João cantando, que depois entra urrando no refrão. Metal!!!
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Audio architecture, DJ Marky

Kosheen - Hide U (Decoder & Substance Remix) (4:40)
Future Cut - The Specialist (4:41)
Ram Trilogy - Reflections (Look Inside) (5:46)
Q Project - Champion Sound (Total Science Remix) (5:06)
Solid State - Just A Vision (Marcus Intalex & ST Files Remix) (5:25)
EZ Rollers - RS 2000 (4:47)
60 Minute Man - Brand Nu Day (5:13)
Dillinja - 30 Hz (3:58)
Moving Fusion - Atlantis (3:36)
Bad Company & Fierce - Thin Air (4:19)
DJ Reality - Detroit Blues (5:02)
Drumagick - Aí Maluco! (DJ Marky Remix) (5:03)
Phantom Audio - Remote Control (4:32)
Bad Company & Trace - Nitrous (5:19)
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
O som do sim

Contundente.
Esse disco 'solo' do Herbert Vianna é anterior ao acidente que o deixou paraplégico.
Mas já tem um vigor contra a violência, que depois se mostraria mais presente nos discos dos Paralamas.
Ele convida vocalistas amigos pra dar um colorido muito legal e variado ao disco. Algumas sonoridades são bem diferentes das que estamos acostumados a ouvir com os Paralamas.
'O muro', com meu conterrâneo niteroense Black Alien (um dos artistas/poetas subestimados e menos citados por aí), começa muito bem, fugindo do som rap característico, mas com forte letra, sobre a violência cotidiana e banal, aparentemente mais visível no Rio de Janeiro.
'Será que quem puxa o gatilho
vê que são pais, irmãos e filhos
que já não sabem mais dizer
de que lado o mal está'.
'História de uma bala' continua nesse tema, com a voz sempre malandra da Fernandinha Abreu e um excelente e surpreendente solo de scratch, cortesia do mestre DJ Nuts.
'Vamos viver' traz Sandra de Sá e um clima mais positivo e cotidiano, orquestra discreta, produção de Liminha, um dos vários produtores presentes no disco, escolha inteligente que traz mais variedade à produção.
'Vamos consertar o mundo
vamos começar lavando os pratos
nos ajudar uns aos outros
me deixe amarrar os seus sapatos'
'Partir, andar' é linda. Um som mais leve, próximo do som típico da convidada Zélia Duncan. Quase uma bossa nova. Emocionante.
'Mr Scarecrow' traz a voz rasgada da Cassia Eller. Rock'n'roll!
'Hoje canções' é a mais atípica do álbum. Composta com Paulo Sérgio Valle, é uma típica bossa de beira praiana que, para coroar e ressaltar isso, traz a voz de Nana Caymmi. Ainda tem Marcos Valle no arranjo, regência, piano e vocais. Herbert só no violão e voz, provavelmente num banquinho.
'A mais', composta com Pedro Luís, traz a voz de Fernanda Takai, que é muito discreta, quase backing vocal quando canta junto com Herbert. Mistura uma base meio programada e uns slides maneiríssimos.
'Inbetween days', cover do Cure, conta com os charmosos vocais de Érica Martins. Ficou diferente, quase bossa, tipo aqueles discos rock in bossa...quem sabe não foi colaboração oculta do Emerson Nogueira...
'Eu não sei nada' é a minha preferida. Voz rouca e gaita de Luciana Pestano (quem é essa mulher? me ajude por favor), gravada e exposta até na respiração ofegante. Tecladinho Hammond e piano de Henrique Portugal (do Skank, o grupo). Letra genial. Riff criativo de Mr Vianna.
'Um truque', com Moreno Veloso acompanhado de integrantes do 'Mulheres que dizem sim' e percussão de Dado Villa-Lobos, é legalzinha, balançante e divertida.
'E o som do sim
é tudo que se ouvirá de mim'
'Une chaison triste' é dedicada a Renato Manfredini Júnior. Bem francesa e marítima, mais ainda com a voz etérea e processada de Daúde. Lembra trilhas de filmes, com uns belos sopros. Encerra o disco de modo bem leve e alto astral.
Diga Sim!
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Maquinarama, Skank (2000)
Um álbum mais recente, que esse blog tá cheirando a mofo...Um disco de virada, no qual um grupo conhecido por uma sonoridade de festa, reggae e dancehall, música pra pular enfim, modifica os timbres, as composições e intenções, sem romper totalmente com o flerte com as massas, que afinal são o que mantém o leite de casa, né? Saem os metais, nada de trompete ou sax por aqui.
No começo, tudo parece mais do mesmo, claro que com a qualidade de sempre. ‘Água e fogo’ (co-autoria de Edgard Scandurra e o habitual Chico Amaral) é ótima pra animar uma pré-balada, um esquenta como se diz. E ‘Três lados’ é uma boa balada com aquele violão simpático. Mas não se engane, não é o que parece. ‘Ela desapareceu’ é uma excelente balada animada, mas começam a aparecer uns barulhinhos esquisitos e interessantes, e a letra é bem acima da média, além da citação de 'Like a rolling stone'. “Não há ninguém nos jardins/ Não há mais clareza, nem meios pra esses fins/ Escuridão na veia com mil disfarces úteis/ Tudo se resolveu na areia/ Onde fazem casa os avestruzes/ Ou quem/ Não pode admitir que tem motivos pra viver com alguém”.
Na seqüência vem clichê, como o próprio Samuel Rosa diz. ‘Balada do amor inabalável’, com co-autoria de Fausto Fawcett, começa com uma guitarrinha inesquecível, seguida por aquela canção redondinha com um vocoder (aquela som de voz robotizada) no refrão e vibrafone de Marcelo Lobato, tecladista e baterista do Rappa. Pop e original, até tocou na rádio!
Pra não abandonar o reggae, vem ‘Canção noturna’, com um clima meio western e praia, combina apesar de inesperado. Muitas vozes sobrepostas, bom de ouvir no fone.
‘Muçulmano’, boa canção pop, com refrão ganchudo e ‘tchururu’, com frases de slide discretos e de bom gosto. Só não entendo o porquê do nome.
Aí começa a virada: ‘Maquinarama’ é um drum’n’bass pesado, com bateria humana, percussão do nosso conhecido Ramiro Musotto (que aparece em várias músicas) e guitarras distorcidas. Significativo que seja a música título do álbum. O refrão dá uma acalmada pra ouvirmos melhor a letra: ‘Eu sei que essa vida contém cenas de perplexidade/ Esse filme, pensando bem é impróprio pra qualquer idade’. Excelente!
‘Rebelião’ começa com uma bateria discreta à qual se seguem as superguitarras do Samuel e de Andréa Kisser (Sepultura!), além da percussão do Musotto e baixo adicional do finado e saudoso Tom Capone, que divide a produção com Chico Neves, uma excelente idéia que não deixa o disco com cara de ninguém. Lá pelo meio aparece uma cítara muito legal. ‘E pronto pra queimar’, repete-se muitas vezes. Sempre é bom não esquecer que o nome da banda realmente se refere ao irmão geneticamente potencializado da Cannabis.
‘A última guerra’ acalma um pouco a onda, com belos pianos elétricos. Lô Borges, ídolo e parceiro, dá um upgrade por aqui, mostrando a referência eterna do Clube da Esquina. Ele, Lô, também gravou música do Skank. O disco seguinte deixa essa influência mais explícita, além de outras que serão comentadas na sua hora.
‘Fica’ é aquela típica canção Skank, animada, festeira, com uma bateria dancehall eletrônica no começo, boa de cantar na pista. “Pode parecer mentira/ pode parecer que não/ Eu te tenho bem na mira/ mas você me tem na mão”.
‘Ali’ é mais uma baladona com violão, que não deixa dúvidas da boa parceria com Nando Reis. Anda sempre bem acompanhado o Skank! Muitas vozes, alto astral, uma guitarra estranha parecida com cítara.E pra terminar um reggae doidão com uma percussão quase samba e que, no meio, dá uma virada pra música ‘quase eletrônica’, fechando com chave de ouro. ‘Preto Damião’!
sábado, 22 de novembro de 2008
Por Pouco - Mundo Livre S/A (2000)

Como dizia Otto, Fred Zero Quatro é a mistura de Jorge Ben com The Clash. Difícil pensar numa combinação como essa, mas isso só se você ainda não ouviu Por Pouco. A variedade de ritmos (rock, reggae, rockabilly) e o discurso politizado do Clash estão presentes. O samba, bossa, samba rock, suíngue, lirismo, safadeza de Jorge Ben, também. A eles coloque-se uma pitada de Tom Zé e, pensando bem, não poderia haver melhor definição para este disco.
E uma palavra que une as três facetas é ironia. Tapa na cara, mas sem luva de pelica, nos melhores momentos, o disco serve de espelho da mediocridade da vida urbana brasileira do início do novo milênio, inútil, manipulada, que vem e vai no trânsito, no Jornal Nacional, no consumismo, no sonho da casa própria e na gostosa que sonhamos inutilmente um dia comer. Essa desilusão ganha um desenho extremamente sarcástico em Por Pouco, herdeira direta de Inútil, do Ultraje a Rigor, anti-hino da derrota das Diretas Já nos 80. Ela é um retrato do Brasil, o país das intenções nunca realizadas, da bola na trave, o país do futuro só que o ano 2000 chegou e a gente estava na mesma.
“Estamos quase sempre otimistas
Tudo vai dar quase certo
Pois o ano esta quase acabando
Depois de termos quase certeza
Que dento em breve teremos um quase alegre carnaval
Por pouco não trouxemos o penta
Quase acertamos na loto
Quase compramos a casa
Quase ganhamos o carro
A moça da banheira ficou quase nua
A gostosa da praia quase dá, não dá.
Desilusão que já está presente desde a primeira música. Com jeito de manifesto, o Mistério do Samba é imperativo em sua desconstrução de tudo o que o samba não é:
“O samba não é carioca
O samba não é baiano
O samba nao é do terreiro
O samba não é africano”
E por aí vai, como se dissesse, o samba é livre, “não tem mistério”, terminando na conclusão perfeita: “E como reza toda tradição, é tudo uma grande invenção”.
Nesse clima de desilusão, o disco encontra um espaço para o amor, em momentos carinhosos e safados. Que nem Mexe Mexe, composta por Jorge Ben, ele mesmo, que é Jorgebeniana até o último fio de cabelo, sem o menor pudor. Começa com uma levadinha no violão, boa de dançar, devagar, difícil não mexer pelo menos a perna embaixo da mesa. Na sequência vem o Melô das Musas, com um elogio explícito a Wânia, a mulher "com um dábliu maiúsculo, um dábliu formidável, bem maior que minha testa", gostosíssima, saindo do mar e “eu não vou sair daqui sem ver ela sair da água”.
Daí o ritmo acelera forte pra Treme-treme, versão de Shackin’ all over, que vira “se tremendo toda”, rock com clima Clashiano, nervoso. “O seu olhar me comanda e manda eu me mexer. E a tremedeira é rebatida pra você”. É nervosa também na ansiedade dele pela conquista e daí a tremedeira passa pra ela, vira um orgasmo.
E depois da transa, do sexo forte, vem aquela relaxada na cama. Meu Esquema, uma bossa suingada, sopros suaves, a declaração de amor mais masculina que conheço: “ela é meu treino de futebol, ela é meu domingão de sol, concerto de rock and roll, torcida gritando gol, playcenter, pista alucinada, inferninho, esporte radical, poderosa viciante, mas não faz mal, o que meu médico receitou, Rivaldo maravilha mandando um gol, minha chapação”. Lendo assim, parece ridículamente machista, mas Fred Zero Quatro dá a ela uma convicção que muda completamente a maneira como a gente entende cada palavra.
Mas esse é um lado do disco. O outro é o do discurso politizado que apesar de às vezes beirar o panfleto, tem também sacadas excelentes. É metralhadora giratória, e sobra pra todo lado: a violência urbana (“Algo me alvejou, ai, olha o sangueiro irm ão, segura que eu vou cair”, no samba Tomzeniano Super Homem Plus); a sociedade de consumo e o mercado (“O mercado vive em guerra... Não há lugar pra escrúpulos... Cedo ou tarde você vai se entregar ao mundo livre, não adianta, não há como escapar”, de Concorra a um Carro); os Estados Unidos em Lourinha Americana; as mega corporações, a Nike, o Congresso, os governos, os partidos e políticos em Batedores.
Dentro desta perspectiva, Por Pouco é o Cabeça Dinossauro dos anos 90. Retratos do país, cada um em seu tempo mostra quem éramos. O Cabeça, mais explícito em sua crítica às instituições, era raivosamente adolescente, portanto mais inocente, como a democracia, que engatinhava. Por Pouco faz o mesmo, mas com um cinismo de quem está ficando adulto, perdendo as ilusões. Pois é claro que nós crescemos, superamos a ressaca do impeachment, ganhamos a guerra contra a inflação, saímos da faculdade e agora precisamos conseguir um emprego, comprar uma casa e constituir família (lembram do início de Trainspotting?). Se sobrar tempo, quem sabe você não continua indo em busca de seus sonhos? Só que a essa altura você já começou a perceber que aquele futuro brilhante que sua mãe e sua avó tinham certeza que te esperava talvez esteja um pouco mais distante do que você pensava ("Droga, foi por pouco!").
Não é fácil olhar pro nosso lado ruim. O Mundo Livre S/A teve a coragem de fazer isso, olhou o país, mastigou, regurgitou e vomitou Por Pouco em nossa cara. A gente pode até não gostar, mas vai ser difícil não se reconhecer nele. E ainda mais interessante é que apesar de toda a desilusão, o disco termina otimista, com as versões para Minha Galera, de Manu Chao, e de Garota de Ipanema, que exaltam coisas simples, como os amigos, a namorada, a praia. E nisso ele não consegue fugir de ser, ele mesmo, um espelho da contradição brasileira, sempre lidando com problemas que não consegue resolver, sonhando com coisas que não consegue ter, mas sempre otimista, exalando sensualidade e sempre disposto a curtir a vida.
Luiz Marcelo

