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sábado, 29 de dezembro de 2012

Arnaldo Baptista: 'Lóki?' & 'Loki' (dvd)



Estas são obras independentes e com uma distância de 34 anos (o disco de 1974 e o dvd de 2008), mas mesmo assim, uma ajuda muito na compreensão da outra. E mesmo nunca tendo resenhado dvds por aqui, acho que este em especial tem seu lugar por aqui.

O dvd dá uma perspectiva de contexto e do criador Arnaldo, não só como autor, mas como músico, compositor, arranjador, cantor, marido, pai, irmão, etc.
Em muitos momentos do dvd as lágrimas aparecem e me pego perguntando porque estou vendo uma história tão triste, principalmente nesta época, com altas tendências à depressão...Mas o filme é de sobrevivência, forte e ao final otimista, como deve ser esta história. A primeira vez que o vi fiquei muito impressionado, queria fazer logo a resenha do disco, mas pensei que talvez devesse dar um tempo e vê-lo de novo mais tarde, o que fiz agora.
Também há muitos depoimentos, que algumas vezes colocam o Arnaldo (e os Mutantes) num nível de reconhecimento altíssimo, a saber:
- o Maestro Rogério Duprat diz com todas as letras que os Mutantes foram o que de mais relevante havia no movimento Tropicália, que inclusive foi objeto de um recente (e a comprar) dvd de documentário; pra mim faz todo o sentido, os Mutantes foram os primeiros (e além disso originais, criativos e competentes) a traduzir o rock'n'roll pra uma versão brasileira com cara própria - a Jovem Guarda o fazia sem mudar quase nada do rock estrangeiro, principalmente do italiano; e por mais que eu goste e admire Gal, Gil e Caetano, o rock brasileiro pra mim é muito mais importante e relevante do que a mpb; o Devendra Banhart chega a dizer que os Mutantes são melhores do que os Beatles!
- vários artistas e críticos (Lobão, Liminha, Roberto Menescal - que produziu este disco juntamente com Mazola, João Ulhoa - que produziu 'Let it bed' do Arnaldo, Tarik de Souza, Nelson Motta, Gilberto Gil, Sean Lennon - que cita um paralelismo interessante entre o Arnaldo e Syd Barret, Tom Zé, Kurt Cobain etc) ressaltam a importância do Arnaldo e do disco 'Lóki';
- contextualizando a autor e sua história, você ouve com muito mais atenção a 'densidade emocional' no disco, onde percebemos o quão exposto e corajoso o Arnaldo se pôs e, mais do que tudo, o quanto de alma e coração ele colocou no álbum.

E há mais que coração e alma: intensa dor, depressão, desespero e isolamento, delírios e imagens pessoais, problemas graves com drogas (principalmente o LSD que, como lembrado por várias pessoas, não é brincadeira não), frustração e decepção amorosa, angústia e solidão, sexo e ovnis, paranóias e incertezas, lucidez e loucura entrelaçadas, um grito desesperado de um jovem genial de 25 anos que tinha perdido a mulher e a banda. Mas que ainda tinha o rock'n'roll.

"Rock eu gosto porque é meu sangue. É minha vida, desde que nasci" (Arnaldo em entrevista à Ana Maria Bahiana, publicada no Globo em 1978).

É um disco de rock sem guitarras. Arnaldo tem a seu lado velhos companheiros: Liminha no baixo, Dinho Leme na bateria, Rita Lee (vocais de apoio em 'Não estou nem aí') e Rogério Duprat. Em alguns momentos Arnaldo se indispôs com os músicos, por se negar a refazer algumas faixas (por isso o disco é em alguns momentos muito cru e contém alguns pequenos erros).
É um disco feito com urgência e sofreguidão, visceral, o que em algum artigo aí abaixo o ligou coerentemente a 'Plastic Ono Band'.
Há uma grande mistura de gêneros: glam rock, boogie-woogie, rock progressivo, bossa nova, samba, rock'n'roll, música clássica etc.

Os dois lados originais iniciam-se com canções perguntas: o lado A 'Será que vou virar bolor' e o B com 'Cê tá pensando que eu sou loki?'.
Qual o futuro? O esquecimento? A loucura?
Cada música traz um pouquinho de resposta, ou melhor, um monte de procuras...

A minimalista canção final, 'É fácil', parece ter um resposta: a genialidade da música!
"Eu me amo
como eu amo você
é fácil"

"Hoje eu percebi que venho me apegando às coisas materias que me dão prazer
(...)
não gosto do pessoal da NASA
Cadê meu disco voador?"
(Será que vou virar bolor)

'Uma pessoa só' foi herdada dos Mutantes, utópica sobre a plenitude da convivência humana, traz um belo arranjo de cordas e versos lindos:
"Estamos numa boa pescando pessoas no mar
Aqui
Numa pessoa só"

'Não estou nem aí' é a exata antítese da canção anterior, negando os projetos utópicos e enfrentando o mundo material, o instant karma da vida cotidiana.
"Ontem me disseram que um dia eu vou morrer
mas até lá eu não vou me esconder
porque eu não estou nem aí pra morte
não estou nem aí pra sorte
eu quero mais é decolar toda manhã"

'Vou me afundar na lingerie' traz mais uma possibilidade, com muito humor: o hedonismo, o ócio, como destruidores das opressões e barras pesadas. (Antecipando ''Diversão é solução sim")
"quem já dançou sempre tem medo dos homens"

Finalizando o lado A, 'Honky tonky', instrumental onde Arnaldo passeia por estilos ao piano.

Iniciando o lado B, 'Cê tá pensando que eu sou loki?', que meio que cita a bossa nova e o disco do Tom com Sinatra.

'Desculpe' pode ser interpretada como releitura de 'Desculpe, Baby' dos Mutantes, e traz mais uma possibilidade de resposta: o Amor. Mesmo sendo 'uma das baladas mais corta-pulso da história'...
"Desculpe
se eu fiz você chorar
Te esqueça
Olha, o sol chegou
Diga-me o meu nome
Diga-me que você me quer
Sinta o pulso de todos os tempos
Comigo
Até quando, eu não sei
Mas desculpe
mas eu vou me fechar
não sou perfeito
nem mesmo você é
me abrace, diga-me o o meu nome
(...)
sinta o barato de ser humano
Comigo
até quando Deus quiser"

'Navegar de novo' traz uma resposta concisa: seguir em frente. Traz uma das primeiras críticas à nascente sociedade de consumo e sua superficialidade, mas com esperança.

'Te amos podes crer' é uma canção de amor, em menos de 3 minutos Arnaldo faz um tratado das dores de amores.
"é muito triste pensar em você como quem não vive depois da morte"

Finaliza com 'É fácil'. Que traz Arnaldo ao violão, com um impressionante domínio do instrumento, que não era seu principal.

No cd se perde uma coisa meio louca: os dois lados tem exatamente 16 minutos e 50 segundos.
E na ficha técnica: "Este disco é pra ser ouvido em alto volume".

Arnaldo não gostou do nome, imposto pela gravadora, nem da capa, além do que havia imaginado.
Logo após o lançamento, Arnaldo sofreu uma das suas primeiras internações psiquiátricas.

Sobre os anos pós-Loki: "Passei 4 anos num ostracismo. Não tinha ninguém, mulher nenhuma. Ninguém me queria. Não tinha amor. Aí me internaram, porque parece que fiquei uma pessoa violenta. E eu não quero ser uma pessoa violenta. Diziam que eu era. Me internaram. Agora estou bem. Cortei as drogas. Tomo uns remédios. Estou bem. (...) Não sou violento. A bateria é. O piano não consegue, por causa da amplificação" (Arnaldo na entrevista citada).

O dvd traz muita história anterior (Mutantes principalmente, infelizmente sem depoimento da Rita) e posterior, culminando com o retorno dos Mutantes, e os shows em Londres (2006) e em Sampa (2007).

Ana Maria Bahiana, na entrevista citada: "Subitamente pede licença, vai correndo ao palco cuidar, pessoalmente, das ligações elétricas de seu teclado Hohner. Se é possível ter certeza de algo, de uma coisa sei: ele não está brincando de pirado. Todo seu corpo, todo seu rosto está empenhado numa batalha surda e intensa, digna, que não tem nada a ver com as possíveis fantasias de sua ex ou atual plateia. Agachado atrás dos amplificadores, metodicamente checando fios e plugs, sobrancelhas cerradas, ele não parece um herói: está lutando por sua vida. Com todas as forças".

Links (de onde eu tirei muita informação e onde roubei uma ou outra frase...):
Wikipedia do Arnaldo
Wikipedia do 'Lóki?'
Wikipedia do 'Loki' (dvd)
site música estranha e boa
site do Arnaldo

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Celso Blues Boy - Som na guitarra


Essa semana vou postar alguns artistas que me deixam até culpado de não estarem por aqui, começando pelo saudoso e recentemente falecido Celsuba!
Por coincidência acabei de ler o post duplo sobre o 'Abre-te Sésamo' do Raul, onde o Mateus cita o Celso, que começou tocando com o Raulzito ('Liberdade' é co-autoria do Celso com Raul!) e Sá & Guarabira, eu acho.
Depois seguiu sua carreira solo, gravando Blues com a cara brazuca, sempre em português. Mesmo tendo escolhido seu nome artístico em homenagem ao B. B. King, com quem tocou e compôs.
Recordista em apresentações no Circo Voador, RJ (só competindo com a Orquestra Tabajara, cujo maestro também nos deixou esse ano), ir a um show dele no Circo era um tipo de iniciação nos anos adultos, sempre tinha um ou uma padrinho ou madrinha pra nos iniciar naquele ambiente divertido, liberal, exótico, engraçado e perigoso, principalmente se nossos pais soubessem como era liberal... Não lembro quantos shows vi dele, aliás, não tem dado pra confiar muito na minha memória ultimamente.
Nascido Celso Ricardo Furtado de Carvalho, conseguiu alguma projeção ao mandar um 'fita k7' (artefato analógico do século passado) para a Rádio Fluminense, que mesmo tendo um repertório mais voltado pro rock, tocava quase de tudo. Tempos diferentes, os Paralamas também tiveram 'Vital e sua moto' tocada assim, numa versão demo que até hoje não saiu em cd...
Mas tergiverso...

Esse é o primeiro álbum solo, e já é excelente, 'antológico' como disse bem o Jamari França, tendo músicas que permaneceram no repertório até o fim de sua vida, quando já morava em Joinville.
"Som na guitarra!!!!!" Começando pela clássica 'Aumenta que isso aí é rock'n'roll', o disco não tem como não agradar, Celso tem uma vibração rock mas raízes blues, e conseguiu fazer boas letras em português ao longo de sua carreira. Mas aqui é puro rock!
Para em seguida cair no puro blues 'Fumando na escuridão': aquele riff manjado roubado do Led/Muddy/John Lee Hooker, bom pra ouvir fumando, coisa que aliás levou ao câncer de garganta do nosso herói...
"não há ninguém nesse maldito vagão
eu continuo
fumando na escuridão"
'Tempos difíceis' é mais pop rock, com boas melodias e guitarras alternando entre o riff e a calma, com um belo solo.
"Porque chorar não vale mais a pena"
Aí vem um dos maiores clássicos underground do cara, 'Brilho da noite' (que já havia saído na coletânea 'Rock voador' da Warner), que eu não sei se é uma metáfora pra outro tipo de brilho (tenho impressão de ouvir uma fungada no meio da música)... Bluezão!! Piano bonito, melancolia e muito sentimento, tanto na voz quanto no solo chorado e cheio de reverb.
"Quando o dia amanhece
o brilho da noite se vai"
'Amor vazio' começava o lado B, acho. O disco inteiro desce redondo, agradável e animado apesar de blues, caprichado e natural.
"eu continuo aqui mesmo sozinho
sentindo calor
tremendo de frio"
'Rock fora da lei' é um blues rock quase americano em Memphis, Tenessee, legal, com um refrão do tipo que levanta a galera e solo cheio de drive.
'Filhos da bomba' é quase um hard rock, fruto da paranóia de medo da guerra nuclear (eu sonhava com a bomba nessa época, alguém mais?), tem até aquela sirene típica, música meio datada e diferente (tem até uma voz meio operística/metal), com solo mais virtuosístico com várias guitarras.
'Blues Motel' encerra o disco suavemente, com lirismo e beleza, apesar da guitarra bluesy gritando nos seus momentos de solo.
"marcas de batom
uísque na cama
e a emoção de uns
no coração do blues"

Descanse em paz, Celsuba.

Mais fontes de informação:
Jamari França sobre a morte de Celso
ahtabom
Wikipedia

(Dão)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Virgulóides - Virgulóides?



Como ainda é a semana do samba (se não é, instituí agora!), vamos para mais misturas com o gênero.

Anteontem, quando estava comentando sobre o Marcelo D2, lembrei dessa outra mistura aqui, que também é interessante, mas por ser engraçadinha, não foi levada a sério, se é que deveríamos...

Aqui não é samba com rap, é samba com rock, e rock pesado. Com alguns momentos de metal, pagode e axé...

O nome vem da mistura de Virgulino (Lampião) com o saudoso desenho do Herculóides (homem-mola, multi-homem e homem-fluido, você lembra se tem mais de 40).
Como toda piada, mesma as boas, é engraçadíssimo na primeira vez que você ouve, mas nas seguintes vai perdendo a graça, até chegar no ponto da irritação. E isso se aplica à mais bem sucedida piada musical do Brasil, os Mamonas Assassinas (que merecem um post sim). Aqui há um humor fluente, e eles criam historinhas legais.
A produção é do sempre competente e criativo Carlos Eduardo Miranda, que também produziu os Raimundos, que por sua vez também participaram do disco seguinte dos Virgulóides, 'Só pra quem tem dinheiro?' (por que sempre tem uma interrogação???)

A banda é formada por Henrique Lima (voz, violão e guitarra), Beto Demoreaux (baixo e voz) e Paulinho Jiraya (bateria, percussão e cavaquinho), tendo como músicos de apoio Marcelo Fumaça (backing vocal, guitarra base e cavaquinho), Negreli (percussão e backing vocal) e Biroska (percussão).
É uma galera 'dafa' (como dizem meus amigos aqui do blog), se não de verdade pelo menos em aparência e atitude..São de Cidade Dutra, zona sul de sampa.

A primeira e mais conhecida música, 'Bagulho no bumba', foi MUITO tocada, então saturou mesmo, mas é legal, cavaquinho alternando com guitarra bem distorcida, vocais bem colocados.
"É, é, é, eu acho que o bagulho é de quem tá de pé"

Em seguida 'House da madame'.

As músicas são todas curtas e relativamente parecidas, alternando entre o samba e o rock, em alguns momentos até hardcore bem acelerado, como em 'Zoião de Sapo-boi'.
"ô meu filho, aonde é que você foi?
Só chega de madrugada,com os zoião de sapo-boi"

'Festa na Dona Teta' tem até uma slide guitar maneira e pesadona, além de um solo bem metal no meio. É um disco interessante e muito original, que funciona tanto num churrasco quanto numa audição solitária (totalmente!) sem preconceitos, com alguma tolerância... As letras, apesar de muito humor, também tem um pouco de sarcasmo, pouco percebido pela massa.

'Sebunda-feira' começa mais lenta, depois volta pra fórmula, meio samba, depois marcha de carnaval.

'Dum dum' (música tradicional sul-africana!) é meio (pra não dizer totalmente) sem sentido, mas vale pela diversão...e dá aquela manjada subida de tom no meio, pra animar!

'Salve o cabra-macho' já começa um pouco diferente, com uma guitarra suingada com wah-wah, que alterna com uma outra mais pesada, aquele canto arrastado e paulistano até a alma...legal, meio machista mas engraçada.
"salve, salve
o cabra-macho em extinção
pois do jeito que a coisa tá indo
só sobra viado e sapatão"

'Nego velho (o mano véio)' é daquelas adaptadas tipo 'esporrei na manivela'.

'Raimunda' nem precisa dizer sobre o que é...
"ô Raimunda
joga essa bunda pa gente"

Pra terminar uma marchinha com sopros meio malucos, 'Qué picá'.

Fontes de mais informação:
Saqueando a cidade
Wikipedia

(Dão)

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Paulo Miklos, Vou ser feliz e já volto


Prosseguindo a série discos solos, entramos no vasto território de integrantes e ex-integrantes dos Titãs, que inclui este aqui do Sr Paulo Roberto de Souza Miklos, a banda Kleiderman (nunca ouvi este, só um vídeo que passava na MTV) e os bem sucedidos solos Arnaldo Antunes e Nando Reis.

É um disco muito bonito, mais pro calmo do que pro rock raivoso. Com violões em todas as músicas.

Começa muito bem, com 'Vai acontecer de novo', guitarras bonitas cheias de espaço, com licks de ritmo espertos do guitarrista Émerson Villani (que acho que já acompanhou os Titãs), que deixariam o Keith orgulhoso, e isso é uma armadilha pro Mateus, que também gostaria muito da música... Ainda tem a voz luxuosa da Paula Lima na resposta.
"A noite é pra se divertir
Vou ser feliz e já volto

Eu não tenho medo que me achem um tolo
Se quem é feliz parece agir como um louco"

'Mamãe disse...papai disse' continua na calma, com uma parte mais rock no meio.
"Gente que nunca faz o que sempre sonha em fazer
É o pior que pode acontecer: acordar
sem ter lembrança
Nada do que foi o sonho

Papai disse meu filho...
Você parece cansado
Mas tem um brilho nos olhos, meu caro

Mamãe disse querido...
Você está mais magro
Mas tem um brilho nos olhos, o danado"

'Todo o tempo' é mais uma belíssima canção, lentinha, com guitarras viajantes e belas. Aqui temos mais um auxílio luxuoso: uma lap steel guitar a cargo do mestre Luiz Carlini.

Aí o disco dá uma animadinha, 'O que você me diz' é mais rapidinha, com mais uma guitarrinha comentando a música e um sax tenor discreto por Ed Côrtes.

'Hoje' mantém a animação, guitarras com mais peso, um drive leve, mas que faz a diferença no peso. Tem até um vídeo! Com aquele visual loiro da capa do cd e do personagem do excelente filme 'O invasor'.

'Por querer' é um pop gostoso, com sax tenor novamente, mais presente, legalzinha, poderia estar em um disco da banda original.

Volta a calma viajante, com 'Lâmina de vidro'. Guitarras bonitas e com timbres bonitos, com o bônus de um solo de baixo pelo Lee Marcucci, outro que eu acho que também acompanhou o Titãs numa época, além do histórico com o Tutti Frutti, antiga banda de apoio da titia Rita Lee.

'Orgia' é uma música sensacional, letra e música, pra mim o ponto alto do disco. Além de tudo tem a voz da Marina Lima, pra deleite do amigo Zeba, se é que ele vai ter paciência de ouvir...
O tema é recorrente, o querer, que inclui entre outras grandes músicas, 'O quereres', 'O que será que será' e 'Come as you are' (acho até que essa conexão merce um post no blog irmão, 1001 Canções).

"Não tenho nome
Eu tenho sede
Alimenta sua fantasia

Eu tenho fome
Eu tenho em mente
Uma grande orgia

Tudo o que eu mais quero
Você não tem
O que você tem
É só do que eu preciso

Tudo o que sempre quis
Eu não sou
Do que você precisa
É só o que eu sou

Não tenho rosto
Nada do que você possa
Se lembrar depois

Só o gosto
Por essas cenas
Que fazem você vibrar"

'Sem amor' é uma co-autoria do Paulo com o Arnaldo Antunes, mais uma belezurinha.

'Sinos entre os anjos' lembra muito o dedilhado da inédita música 'Desbalada', do meu amigo Mateus, será que ele já tinha ouvido? Música linda mesmo, pop romântico caprichado.

'O milagre do ladrão' (Leo Canhoto/Zilo) é uma daquelas músicas que conta uma looooonga história, no estilo 'Faroeste caboclo'. Aqui Paulo optou por um som bem country/blues, só com violão e dobro (by Luiz Carlini), maneiro! O original era sertanejo, que o Paulo descobriu no disco Clássicos sertanejos, de Chitãozinho e Xororó! Informação esta que eu descobri nesse bom artigo aqui:
http://cliquemusic.uol.com.br/materias/ver/paulo-miklos-nem-sempre-se-pode-ser-feliz

O disco foi produzido pelo Dudu Marote, mais conhecido pelas suas produções mais eletrônicas (Skank e Pato Fu).
A banda também conta com o baterista James Muller.

(Dão)

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Amor pra recomeçar, Frejat


Mais um da série de discos solos de membros de bandas, no caso aqui uma exceção, pois a carreira solo do vocalista e guitarrista se tornou importante, fazendo com que divida seu tempo entre a banda original e a carreira solo, tendo inclusive se apresentado no último Rock in Rio 2011 (surpreendentemente no Rio!) como artista solo. A abordagem é levemente diferente do Barão, mais baladas e sons um pouco mais frequentemente acústicos, mas ainda naquela área pop rock.Os colegas de banda colaboram ativamente, sendo co-autores em várias faixas, principalmente o tecladista e co-produtor Maurício Barros, que atua junto com o saudoso e finado Tom Capone em quase todas as faixas.
Esse primeiro é pra mim o mais interessante, mas os três que eu tenho tem sempre alguma coisa bem legal.

Começa com uns sons meio eletrônicos, o que dá a falsa impressão de ser uma vibe 'Puro êxtase', o que não é real, apesar do uso desse tipo de sons.
Mas a canção 'Som e fúria' (cujo título vem de Shakespeare) é isso, uma canção, boa e forte, com guitarras legais, vozeirão e um refrão pra levantar a galera.
"E não adianta levar o mundo nas costas
a vida é cheia de som e fúria"

'Quando o amor era medo' é linda, letra confessional e bela, leve com slide bonito, bandolim e mais acústica.
"quando o amor era medo eu achava melhor acordar sozinho
quando o amor era medo a vida era andar por entre espinhos"

'Amor pra recomeçar' chegou a tocar nas rádios que ainda tocam pop rock, tem uma letra muito interessante (que tem partes que tenho impressão de que foram extraídas de um poema do Vinícius de Moraes, mas não deram crédito...), (mais) uma baladona pra platéia cantar junto.
"quando vc fica triste que seja por um dia e não um ano inteiro
e q vc descubra q rir é bom mas q rir de tudo é desespero
desejo que vc tenha a quem amar
e quando estiver bem cansado ainda exista amor pra recomeçar"
Belas guitarras e um teminha ganchudo.

'Segredos' teve um video fofinho, de animação meio desenho, mais uma balada bela sobre nossas amadas...
Tem até um solinho de slide bonito além da orquestra dulcíssima com arranjo de Jaques Moerelenbaum.
"e eu vou tratá-la bem
pra que ela não tenha medo
qdo começar a conhecer os meus segredos"

'Eu não sei dizer te amo' é mais uma balada, quase desanima...mas é bonita.

Ainda bem que vem 'Homem não chora', belíssima, cheia de detalhes sonoros, início com guitarrona com phaser (aquele efeito viajante de turbina de avião), alternando com partes de voz e piano e uma letra excelente. Termina com um dos solos mais bonitos do Frejat, muito legal ouvir a vávula fritando no final da música!!
"meu rosto vermelho e molhado
é só dos olhos pra fora
todo mundo sabe
que homem não chora"

A seguinte é bem diferente, um quase samba meio Luiz Melodia, 'Mão-de-obra ilegal', com participação e co-produção do Max de Castro, além do Dé (ex-Barão), Maurício Barros e Peninha.
"eu vi uma mina maneira
andando com um soldado
parecia estrangeira e
eu agora ando armado

o meuirmão morreu
meu primo se perdeu
a minha mãe pariu
e o meu pai sumiu

meu nome é Pimpolho
só conheço o caos
é olho por olho
aqui vencem os maus"

Parceria com Lenine e Arnaldo Antunes! Só pra irritar os amigos que subestimam o Lenine...
'Ela' é balada, claro, mas bem na ambientação 'Lenine', um violão dedilhado com cordas belas, dinâmica com um crescendo no refrão...ouça antes de falar, Baiano...

Um interlúdio carioca ixperto, 'Mais que perfeito', produzida pelo Max, mais suingadinha, com metais a la Tim Maia, guitarrinhas funky, pena que um pouco lentinha demais pro meu gosto.

'Você se parece com todo mundo' (Frejat-Cazuza), que tenho a impressão que já tinha sido gravada pelo Cazuza, é mais uma num clima acústico quase country, com slides e violões, letra amarga.

'No escuro e vendo' (Frejat/ Marisa Monte/ Arnaldo Antunes) é uma lentinha com o mais belo arranjo de cordas do disco por Jaques Moerelenbaum, linda canção, mas completamente diferente do repertório Barão.

'Voltar pra te buscar' é mais uma balada, esta mais rock, com banda (e que banda: Liminha no baixo, o Barão Fernando Magalhães na guitarra, João Barone na bateria e Maurício Barros), além das onipresentes cordas. Acho que o Frejat numa entrevista falou que era difícil resistir às cordas, eu entendo porque eu também sou assim, tenho muitos bancos de samples de cordas e sempre enfio... A música tem uma voz distorcida/processada e um bom solo de guitarra, coisa rara nesse disco.

Pra terminar pra cima, 'Sol de domingo' (Frejat/ Humberto Effe), um rock suingado com a cara do produtor da faixa, o Max de Castro, metais em brasa e mais um solinho de guitarra...

(Dão)

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Secos e Molhados II, 1974


Antes de tudo, uma luz sobre a cansada controvérsia sobre o Kiss ter copiado nossos heróis brasileiros...
http://whiplash.net/materias/curiosidades/068863-kiss.html

Eu ia postar o primeiro deles, aí fui pesquisar e o caríssimo e distante amigo Xampu já o fizera...

Mas vamos a segundo e também essencial, o último com a formação clássica: João Ricardo, Ney Matogrosso e Gerson Conrad, além dos músicos de apoio Willy Verdaguer, John Flavin, Triana Romero, Rosadas, Emilio Carrero, Norival e Jorge Omar.

Diferentemente do primeiro, com um pé no rock progressivo e no rock'n'roll underground, este aqui é mais acústico e menos ousado.

Tercer Mundo, apesar de ser em espanhol, é de autoria própria (João Ricardo e Julio Cortazar), bem levada latina, típica e bela, pré rótulo world music.

Único sucesso do disco, Flores astrais traz um slide muito legal, esperto e bem legal. Eu conheci a música naquele conhecido ao vivo do RPM...

Não: não digas nada tem uma curiosidade: é co-autoria entre João Ricardo e Fernando Pessoa, provavelmente uma poesia musicada pelo João. Música plácida, violão, voz e flauta.

Medo mulato inicia meio vaudeville com um pianinho, depois acompanhado de ruídos, voz do Ney, flautas, teclados e uma bateria meio percussiva e pontual. Bonita, bem diferente, retomando o tema meio sobrenatural Saramandaia (novela mutcho louca dos anos 70) do Vira.

Oh! Mulher infiel é um tema ousado pros anos 70 (um tempo onde não havia divórcio, acreditem), mas o arranjo é bem tranquilo criando um contraste inusitado.

Vôo já traz um som mais rock com um phaser ou flanger em estéreo bem diferente do som careta do disco...uma gaita complementa a viagem. Muitas vozes harmonizadas.

Angústia é das minhas preferidas, violão marcando o tempo, um clima meio drum'n'bass (cabe até um remix daquele comecinho), vocais dinâmicos, piano suingado, muito muito à frente do seu tempo! Só peca aquele som de guitarra dos anos setenta, fuzz magrinho e espetado, ninguém sabia gravar guitarra distorcida até o Ultraje aparecer...O pan das guitarras é até legal, mas o som é ruim.

O Hierofante (sacerdote supremo dos mistérios antigos do Egito e da Grécia, 1001br tb é cultura!) é uma das mais rock'n'roll daqui, guitarras na cara, é mais uma de co-autoria poéticas (João Ricardo e Oswald de Andrade), vocais divertidos e múltiplos em estéreo (aconselho ouvir com fone, viagem pura).

Caixinha de música do João é uma instrumental surpresa calminha com vocalizes do Ney, meio new age, fantasmagórica, curta e bela.

O doce e o amargo tem um som meio português, depois vira uma bela canção triste e melancólica, voltando à placidez acústica.

Preto velho podia ter uns tambores, mas é mais uma calminha com a letra nonsense e vocais harmonizados.

Delírio começa meio rock'n'roll com pianinho, entra uma guitarra suja, dá uma delirada meio diminuta no piano quadrado, solinho fuzz com um som quase bom...legal!

Toada & rock & mambo & tango & etc tem um nome sensacional...guitarra suingada, vocais sussurrados muito legais, Ney é foda etc, mudança no meio prum lance meio disco (?!!!).

Discaço quase esquecido e felizmente recuperado na coleção Dois Momentos com a compilação e masterização by Charles Gavin.

(Dão)

domingo, 9 de outubro de 2011

Cabeça dinossauro, Titãs




Que 1991 o caralho, o ano do rock nacional é 1986, porrrraaaa!!
(Aliás o mesmo dos sensacionais discos de metal Master of puppets e Reign in blood!).
Selvagem?, O futuro é vortex, Pânico em SP, O rock errou, Antes do fim, Dois, etc...

E este aqui, que é sensacional, forte, bruto e essencial!

Temas simples, críticas contundentes a coisas e instituições, porrada!
Às vezes resvala pro excessivamente simplificador e/ou simplório, mas em tempos politicamente corretos dá uma saudade dessa vitalidade adolescente 'foda-se'...

Vindos de um frustrado disco, 'Televisão', com produção do Lulu, onde não conseguiram dar o peso supostamente desejado, seguidos de problemas com a polícia (lembrando o gênio Keith "nunca tive problemas com drogas, só com a polícia"), onde Arnaldo e Bellotto foram presos por tráfico e uso, os Titãs acharam em Liminha, que antes tinha sido criticado pelo Branco Mello, um produtor parceiro, que soube transformar as boas ideias em boas execuções e num disco magistral, iniciando uma longa colaboração.

As ilustrações, tanto da capa contra da contracapa, são de Leonardo da Vinci, respectivamente, 'A expressão de um homem urrando' e 'Cabeça grotesca'.

A faixa-título, de P. Miklos/Branco M/A Antunes, que inicia o disco, traz elementos de um cerimonial de índios do Xingu. O show na época começava com esta! Poderoso som.


'AA UU' (S Britto/M Frommer) já vem na seqüência, com sua mistura original de funk e rock, numa crítica ou constatação da ansiedade, do sempre ter algo a fazer, uma preocupação constante e desgastante. Solinho de guitarra bacana, bateria quebrando tudo, sonzeira.

'Igreja' (N Reis) é mais uma crítica à instituição, o que dividiu a banda; Arnaldo, que acredita em Deus, saía do palco nas apresentações ao vivo.


'Polícia' (T Bellotto) é basicamente uma resposta raivosa ao episódio da prisão dos Titãs, uma pancada, que inclusive já foi coverizada pelo Sepultura.


'Estado violência' (C. Gavin) é um libelo anarquista pós-punk, com tecladinhos com pitch bends e tudo! Guitarras em estereo, muito legais!

Por falar em punk, 'A face do destruidor' (P Miklos/A Antunes) é um hardcore raivoso com efeitos bizarros, com certeza a música mais pesada dos caras, mesmo levando em consideração o 'Titanomaquia'. Em 38 segundos.

'Porrada' (A Antunes/S Britto) também é quase punk, principalmente pelo tema. Como canta feliz o amigo e colaborador Zeba 'a música que não tem em karaokê':
''Porrada nesses caras que não fazem nada"!!

'Tô cansado' (B Mello/A Antunes) pra mim é uma das dispensáveis do disco.

Ainda mais porque na seqüência vem 'Bichos escrotos', música antiga do repertório que só foi gravada pra este disco. Na época 'vão se fuder' (fuder ou foder??) era ofensivo e foi proibido pela censura. Mas mesmo assim as rádios tocavam a versão editada ou pagavam multa. A música é muito legal, guitarras suingadas e pesadas, um solo sensacional de baixo com wahwah!!

Os Titãs eram sete cabeças pensantes e opinantes, e isto se reflete tanto na dificuldade de decidir quanto na variedade de gostos e sons. Assim aqui temos um reggae, bem legal e um pouco ácido, 'Família'. Vocais de fundo bem legais, guitarrinhas pica-pau, baixo gordo, tecladinho no contra-tempo, taí a fórmula. Vc acha fácil? Vai fazer...

Mais crítica, agora ao capitalismo selvagem: 'Homem primata' (S Britto/M Frommer/ N Reis/C Pessoa), rock brasileiro pesado e divertido.

'Dívidas' (B Mello/ A Antunes) também é fraquinha e dispensável.

'O quê' (A Antunes) é uma surpresa no disco, letra experimental concretista, antecipando experimentos com funk, samples e música eletrônica que seriam mais presentes nos discos seguintes, 'Jesus não tem dente no país dos banguelas' e 'Õ blesq blom'.

Mas como diria o Charles Gavin no programa 'O som do vinil': "isso já é outra história''...

sábado, 6 de agosto de 2011

A invasão do sagaz Homem Fumaça, Planet Hemp

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Mais um dos hemp ativistas cariocas malandros. Mas o assunto é sério, cada vez mais.
Esse disco, como todos da Hemp Family (que além de Planet Hemp, inclui o Rappa, Pedro Luís, Funk Fuckers e todos os filhotes dos ex-membros do Planet: D2, BNegão e Black Alien), merece estar aqui sim, mas hoje pra mim é pretexto pra comentar um recente engasgo.
O STF (Supremo Tribunal Federal) não tem que liberar a Passeata pela legalização da maconha (ou qualquer outra passeata ou manifestação de expressão), eles simplesmente RECONHECEM QUE NÓS TEMOS ESSE DIREITO.
Essa não foi a primeira vez que autoridades municipais e estaduais se comportaram assim pessimamente, tentando limitar a manifestação da passeata pela legalização da maconha, seja lá como se chame a cada ano.
E sempre depois tem que se recorrer ao STF para que o direito seja reconhecido. Talvez a melhor solução fosse uma manifestação prévia de que O DIREITO DE LIVRE EXPRESSÃO PODE SER REGULAMENTADO MAS NÃO PODE SER SUPRIMIDO, sendo assim fica sujeito à conveniência das autoridades municipais e/ou policiais para a melhor oportunidade e conveniência da segurança e trânsito.
Não há apologia em discutir a mudança de qualquer lei.
Se você se incomoda, está no seu direito, pode inclusive manifestar esse incômodo também, fique à vontade.
Mas, apesar dos Bolsonaros (é, se liga porque já são três!), o que NÃO EXISTE NUMA DEMOCRACIA É O DIREITO DE NÃO SE INCOMODAR.
E, na minha opinião não humilde, dizer que eu gosto de fazer qualquer atividade, inclusive se drogar (e isso é, claro, uma hipótese retórica, estúpido) ou dar a bunda (outra hipótese, claro, aqui só pra incomodar mesmo) não é fazer apologia, porque o que é bom pra mim (ou o que eu acho que é) pode não ser bom pra você. Mas isto ainda está sujeito a interpretações jurídicas, e não estamos nos EUA, apesar da recente e benvinda emenda do Cristóvão Buarque de incluir a busca da felicidade como princípio constitucional.
Porque, 'como já dizia o Samuca da Patrulha da Cidade', citado aqui no disco pelo Seu Jorge na última música: "Quem não reage rasteja".





Isto dito, vamos ao disco, né...

1. 12 com dezoito: música boa pra começar, rápida, agressiva (inclusive com distorção nas vozes e num teclado eletrônico ao fundo), metralhadora verbal solta! '12 com dezoito é o caralho, o bicho vai pegar!'

2. Ex-quadrilha da fumaça: 'adivinha, doutor, quem tá de volta na praça? Planet Hemp, esquadrilha da fumaça'! 'sujou sujou, disfarça'. Bom riff de guitarra, base suingada pro rap, aqui pelos 3 MCs: Marcelo D2, BNegão e Black Alien, solo de guitarra com fuzz sujo.
'Intoxicados pela ignorância reinante
Os homens fumaça mais uma vez se apresentam pra missão'

3. Test drive de freio de camburão: provocativa à polícia corrupta, lida com a conhecida 'dura', lembrando que a banda podre não responde por toda a instituição.

4. Procedência C.D. : hardcore pesado e acelerado, mas não captei qual é a mensagem...acho que é sobre a mítica e poderosa organização Comando Delta.

5. Stab: aqui dá pra prever o que D2 faria na sua carreira solo, um bom mix de funk e rap, ainda sem o samba, letra inteligante e criativa, refrão maneiro!
'Sempre representando o hip hop,
não tem Faustão nem Gugu,
eu sou primeiro no ibope
Revolução eu vou fazer de maneira diferente,
tiro o ódio do coração e tento usar mais a mente
Botam barreiras no caminho mas sou persistente,
posso cair mas me levanto e sigo em frente
Seguro a bronca, dou um 2 e mantenho a calma'

'Vários irmãos se recolhem e vão em frente, vários também escravizam sua mente
Eu sei bem, quebro a corrente onde passo implanto a minha semente
Gafanhotos nunca tomam de quem tem
Predadores, senhores que mentem, esperem sentados a rendição
Nossa vitória não será por acidente'
(mas afinal o que é stab??)

6. Four track: uma boa surpresa, um rap/hip hop com violão slide! muito legal, prova da criatividade em misturas by Mr D2!

7. Gorilla grip: instrumental tradicional nos discos do Planet, bem surf music pesada.

8. Contexto: já traz o mix samba e hip hop, letra fluida e citações espertas de Zeca Pagodinho e dos irmãos Valle...
'Quem é que joga fumaça pro alto?
Planet Hemp
Chega na cena e toma de assalto
Planet Hemp
Conexão entre o morro e o asfalto
Planet Hemp
(...)
A coisa certa rapa é que tem que ser feita
Cabeça feita, pago o que eu consumo
Se eu quiser beber eu bebo, se eu quiser fumar eu fumo
(...)
Fazendo aquela média clássica
Entre a Lei de Murphy
E a teoria do caos
(...)
Ai Gustavo ai Gustavo a parada é o seguinte
Tem gente que ta dizendo que o Planet Hemp faz apologia as drogas
É mentira tchu tchu é mentira' (citação da música 'Mentira')

9. DZ Cuts: apresentação do DJ Cuts com samples malandríssimos.

10. Raprockandrollpsicodeliahardcoreragga: começa com um sample do João Nogueira da música 'Baile no Elite': "Nelson Motta deu a nota que hoje o som é rock'n'roll" e aí entra uma música pesada e suingada apresentando a carta de referêncvias do grupo. Bata a cabeça, rapá!
'Raprockandrollpsicodeliahardcoregga, mc no microfone em atitude e HC
Representa o Hip Hop, pesadelo do pop, não ta ligado na missão, foda-se'

11. Quem tem seda? : pergunta clássica dos adeptos da ganja, aquele momento de definição e ansiedade. Participação especial de Sen Dog e Micky, que eu não sei de que grupo são. O que interessa é a música, que é muito legal, começando lentinha e ganhando balanço. Apologia?

12. É isso que eu tenho no sangue... : mais uma suingada, samba funk, com citações a vários músicos que influenciaram o Planet.
'Hip hop é o ar que eu respiro
a sabedoria de quem não precisa resolver mais no tiro'

13. Quarta de cinzas: vinheta instrumental suave, com flauta e tecladinhos vintage.

14. HC3: mais um hardcore pesado e acelerado, acho que cantado pelo guitarrista Rafael Crespo.

Ao final, como uma introdução pra próxima música, um cara explicando o que é o jongo.

15. O sagaz Homem Fumaça: um reggae com introdução e vocais auxiliares de Seu Jorge, termina bem e calmo um disco raivoso e contundente. Depois da música tem uma surpresinha, um recado deixado numa secretária eletrônica, hilário...

Produção do grupo e Mario Caldato (Beastie Boys, Marisa Monte, Tone Loc, Seu Jorge & Almaz, Bebel Gilberto, Chico Science & Nação Zumbi).

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Alfagamabetizado, Carlinhos Brown


Mais um da Bahia, meu rei...
Apesar dos protestos dos amigos sem tolerância musical, principalmente daqueles que nunca ouviram este excelente disco que, mesmo não sendo tão sofisticado quanto a próxima postagem do mestre X, tem seu borogodó.
O álbum também consta do livro '1001 discos para ouvir antes de morrer', na mesma página da Bethânia resenhada aí embaixo. Na resenha, diz-se do artista, 'o Prince brasileiro' (!), um ser capaz de representar a essência e a voz do seu povo (!!). Um exagero, talvez, mas tem seu fundo de razão. O livro ainda ressalta o fato do artista fundir a tradição musical tradicional com música moderna, com um 'resultado colossal' (!!!). Também toca no fato disso ser feito com 'maturidade e até sofisticação', com 'integração tão coesa que a linha de fusão se torna quase imperceptível', e aqui eu assinaria embaixo com tranqüilidade!
Buscando imagens da capa, descobri que o disco tem uma outra capa, mais vermelha, diferente da que eu tenho. Independente disso, é mais um disco com produção gráfica caprichada, fotos criativas e bonitas. Mas é meio difícil acompanhar as letras e saber dos músicos envolvidos...
O Carlinhos Brown, que também foi líder da Timabalada, apareceu para o grande público tocando percussão com o Caetano (ele é autor de 'Meia lua inteira'), num show do disco Estrangeiro que começava com luz no Carlinhos e ele, espertamente, direcionava a luz através do pandeiro pro Caê. Daí pro mundo e para os Tribalistas...mas isso já é outro disco, que, por precaução, pra evitar apedrejamento, vou sugerir que a minha filha de 13 anos faça...ou quem sabe a herdeira do Mateus, que eu nem sei se gosta também. Sei que ela gosta de Ramones, o que já é um baita desgosto...pro pai, claro, pra nós é divertido.

Mas vamos ao disco e suas (muitas) faixas:

1. Angel's Robot List: quase uma vinheta, com uma voz citando a alfabeto grego (isso é redundância?) e uns ruídos por trás;

2. Pandeiro-deiro: aqui começa com percussão africana seguida de belas vozes baianas e umas guitarras muito legais, além de um arranjo de sopros muito legal; a voz só aparece bem depois. Participação ilustre de Marcos Suzano no pandeiro solo. A letra, apesar de muito sonora, é total nonsense.

3. Covered Saints: uma das minhas preferidas, calminha, bonita, bilíngüe, solinho bacana de guitarra, merece a ouvida mesmo dos mais radicais. Além de belos vocais, aqui a letra acerta (ou pelo menos faz algum sentido). O porém fica por um violino que sola no limite da (des)afinação, o que, tendo em vista o capricho e o nível dos atuais programas de auto-afinação, deve ser proposital. Mas me irrita profundamente.
'Triste quer saber
se ainda mora em mim
não sei dizer
chega de você
te sinto mais livre no querer
o amor que diga
que fim dar
se de forma ímpar
in a beautiful way
you're devoring me'
Tocava muito na excelente e saudosa (pra mim) Rádio Globo carioca (ainda existe?).

4. Cumplicidade de armário: começa com aquele surdo virado típico do axé, mas não segue assim, acrescentando mais uma guitarra muderna e uma levada pop-reggae. Brown neste disco se cercou de músicos gringos, tendo um som bem internacional e pop, mas com a cara dele. Lembra um pouco a sonoridade do 'Lilás' do Djavan, só que mais animado.

5. Argila: mais uma muito bonita, com bons violões/guitarras, voz cantando sutilmente e harmonia surpreendente pra quem acha que o cara é monotemático.

6. Tour: bem pop, pra tocar na rádio, suingada e leve, com aquela percussão baianíssima e aquele refrão pra cantar no carnaval.
'all right
I'm allright
sinto felicidade
não invente de fazer maaala (sic)'

7. Bog la bag: esta aqui lembra o Prince mesmo! Se ele fosse à Bahia...vc já foi? Então vá. Percussão frenética, junto com a cantoria em carlinhosbrownês. Letra com ajuda do Celso Fonseca. E mais uma vez uma guitarrona, quase metal, a cargo do Roseval Evangelista (!).

8. O bode: mais uma com muita percussão que, apesar de repetitivo, é bem mixado sem embolar com as vozes e outros instrumentos. Mais uma que deve ter feito seu sucesso no carnaval.
'Levanta sacode
que lá vem o bode
corre Chico' (será um aviso ao ex-sogro?)

9. Comunidade-Lobos: um boa surpresa, uma composição quase instrumental e quase erudita com violoncelo e um monte de instrumentos tocados pelo Brown, calmaria com batucada.

10. Frases Ventias: calminha e bonita, a voz aparece limpa, com violões e violoncelo, seguidos de mais vozes e percussões (surdo baixo, enxada, vaso, cúpula de surdo, lé, djembê solo, o que será isso tudo??!).

11. Quixabeira (com música incidental 'Samba Santamarense' e 'Amor de longe'): música de domínio público, aqui com as luxuosas vozes da 'máfia do dendê', os Doces Bárbaros: Caetano, Gal, Bethânia e Gil, muito legal.
'Tu não faz como um passarinho
que fez um ninho e avoou
mas eu fiquei sozinho
sem teu carinho
sem teu amor'

12. Seo Zé: esta aqui tem uma curiosidade, traz o título de um outro disco ('Cor de rosa e carvão'), sendo a música de autoria de Bronw, Marisa Monte (em breve por aqui) e Nando Reis. É uma rumba/bolero destoando um pouco do disco, mas traz variedade. Tem também uns vocais discretos da Marisa.

13. Mares de ti: um pouco mais lenta, etérea e bonita, pop, podia até ter tocado nas rádios, o cara tem o faro pra facilidade, que parece mas não é fácil. Mais um solo de guitarra hard, curtinho!

14. Zanza: tem a diferença de ter a voz filtrada (isto é, com alterações de equalização, com o corte de algumas, sacou?) do Carlinhos, cadenciada e tranquila.

15. A namorada: o hit do disco! Pra levantar a galera, alterna umas guitarras pesadas com wah-wah, sopros (isto é, saxofones, trompete, trombones, sacou?) bem arranjados e claros, guitarra suingada, baixo sensacional do Arthur Maia, refrão grudento, iêiêiês, levada disco, rufos de bateria em fusas (1/16 de compasso, sacou?) e por aí vai...
'A namorada tem namorada'!!!
Apareceu até no filme 'Speed 2 - Cruise control'!

16. Vanju Concessa: pra terminar e acalmar a festa, clima capoeira com berimbau, percussão baiana e Suzanesca, guitarrinha pica-pau e aquela letra nonsense típica.

Produzido por Wally Badarou (Level 42, Fela Kuti, Salif Keifa etc) e Arto Lindsay.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Na calada da noite, Barão Vermelho


Mais um discaço pra nossa exposição permanente.
Meio acústico, com muitos violões e espaços, mas mesmo assim energético, mostrando que acústico não quer dizer necessariamente frouxo, largadão ou sem força.
Diferente de tudo que o Barão já tinha feito. Único disco com o sensacional baixista Dadi (ex-Novos Baianos e A Cor da Som), mais conhecido por ser inspiração para 'O leãozinho', depois da saída conturbada de Dé, que muitas músicas ainda compôs aqui.
Cazuza, que viria a falecer semanas antes do lançamento do disco, acompanhou as gravações, o que muito agradou à banda.
Maurício Barros volta como convidado, Peninha e Fernando são efetivados. Guto se arriscando a compor letras. Ezequiel sempre na área. Serginho Serra (Ultraje) auxiliando nas composições.

'Política voz' exemplifica tudo isso, já começando com o pé na porta, numa co-autoria do Frejat com o poeta Jorge Salomão, que participa bastante do disco. Poesia forte, política, comportamental. E um riff que parece muito com 'Smells like teen spirit' (que só saiu um ano depois).
"Eu não sou a porca que não quer atarraxar
E nem a luva que não quisna sua mão entrar
Eu sou a voz que quer apertar o cerco e explodir
Toda essa espécie de veneno
Chamado caretice
E expulsar do ar
Do ar, do ar a nuvem negra
Que só quer perturbar
Soprar e ver tudo voar
Soprar e não ficar nada pra contar"

'O invisível' traz uma cara hard rock, uma levada apressada que acelera e respira, grandes guitarras. Barão na veia! Tem um solo de violão flamenco alucinado no meio, a cargo de Gaetano 'Kay' Galifi.
"Nem tudo são rosas
Às vezes é amargo demais
Ela nem bate a porta
Nem tudo que reluz é ouro
Às vezes é nada mesmo
Nem tudo que vem
Volta atrás
Apenas eu vejo a luz
Será que só eu?" (eu sempre quis cantar isso!)

Volta a malandragem, violões, guitaras e slides sinuosos, percussão tropical, na faixa título, co-autoria com o negro gato Luis Melodia. Excelente. E um solinho em chamas no slide lembra que o rock'n'roll continua fluindo.
"O rumo da bola de vidro
Pode do céu despencar
Queimar a fúria dos homens
Queimando, cinzas tudo virar
É tudo questão de justiça
Eu não nasci na Suiça
Tão pouco no Canadá"

'Beijos de arame enfarpado' (Dé/Sérgio Serra/Ezequiel Neves) é uma das minhas favoritas do Barão, não só do disco, uma pérola pouco conhecida. Dinâmica, começa sutil, riff primoroso de baixo, depois vão entrando guitarras, quebras e balanço, solo longo e lindo, um letra primorosa, no nível do melhor do Cazuza:
"Naqueles dias
Todo dia eu renascia
Na pele dos teus lábios
E trazia comigo uma oração
Pros tumultos da paz
Porque naqueles dias
Eu te amava demais
Eram dias de pura luz
Refletindo nos metais
E pelos nossos beijos
Caravelas e língua passeavam
Em delírios fluviais
Amor à luz de velas
Mensagem na garrafa perdida
Vinda na saliva de outros carnavais
Mas hoje em dia meu amor
Nossos beijos tem sabor enferrujado
E nos machucam a boca
Feito arame farpado"

'Sonhos pra voar' traz o melhor do acústico e do rock, levada forte de bateria com violões, um trabalho bacana do Dadi, mas a letra dá uma patinada, com bons momentos e outros nem tanto. A preferida de Cazuza, que pediu que a banda gravasse essa ao vivo.

'Seco' é curtinha, quase uma vinheta, sem efeito nenhum - som seco, violão e voz.

E já emenda em 'Tão longe de tudo', violão e bateria muito bem casados, côro belíssimo, piano alegre, voicing de guitarra e voz, bonitaça! Ao vivo, o Dadi fazia um solo de baixo muito maneiro no lugar do solo cheio de notas de piano do Renato Neto em estúdio.

'A voz da chuva' é singela, um relax bem vindo, mais violões e guitarrinhas suingadas, mezzo country. Uma guitarra pica-pau wah-wah meio falante e um solo de guitarra matador. Percussão perfeita e mais um côro lindo.

'Tua canção' é uma bonita canção, que conta com o auxílio luxuoso da steel guitar de Rick Ferreira, que tocou muito com o Raul.
"Te faço uma canção
Tão Antiga e tão bonita
Não tem queixa e nem ferida
É proteção prá toda a vida
Porque você entende meus sonhos
Teu sexo tem o gosto que eu gosto
Tua boca, carne, tua saliva
Faz a minha carne mais viva
Então eu faço esse carinho
E assim fico menos sozinho
Meu coração não chora mais
Na ponta de qualquer espinho"

'Invejo os bichos' traz de volta o peso, rock'n'roll, solinhos acelerados! Uma letra meio ingênua, mas empolgante:
"Invejo os bichos, invejo os bichos
Que no mundo não procuram nexo
Vivem em paz sem ganância ou capricho
E só brigam por comida e sexo"

O disco termina com a emocionante 'O poeta está vivo' (Frejat/Dulce Quental), balada cheia de espaços, letra bonita, vozes dobradas e emocionadas. O hit do disco que, mesmo sem fazer referência direta ao Caju, assim ficou conhecido. O grande solo de Fernando Magalhães.

Titanomaquia, Titãs





Hahaaaaa, o metal continua...vcs não contavam com a minha astúcia!


Sem brincadeira, esse disco dos Titãs (que já foram do Iêiê) é bem pesado, inclusive produzido pelo Jack Endino (que seguiu trabalhando com eles em vários outros discos), conhecido pelas suas produções na cena grunge: Mudhoney (que abriu o show do Pearl Jam no Brasil), Soundgarden e, claro, Nirvana (o primeiro deles, Bleach), além do estranhíssimo disco solo do Bruce Dickinson, o Skunkworks (deve ter sido um work with a lot of skunk, hehe). Outro dia inclusive eu estava no aeroporto, comprando uma Billboard com os 20 anos do grunge na capa e de repente, do meu lado, o Paulo Miklos olhando a mesma revista (aliás, de repente não, que eu encontro ele tantas vezes em aeroportos que eu acho que ele mora nos aeroportos; bom, ele pode achar o mesmo de mim...). Quase que eu fiz a pergunta 'e quantos anos tem o Titanomaquia?'. Mas não perguntei, achei pentelho demais.


E na verdade, apesar da óbvia influência do grunge na sonoridade, principalmente das guitarras, o disco não se parece em nenhum momento com nada da cena citada. A banda na época estava envolvida com o selo Banguela, em parceria com Carlos Eduardo Miranda, que lançou Raimundos, mundo livre s.a., Graforréia Xilarmônica, Maskavo Roots e Kleiderman (banda pesada paralela de Branco Mello e Sergio Britto). Então acho que ele queriam fazer algo mais pesado e chamaram o cara, e não o contrário.


Esse aqui é o primeiro no qual o Arnaldo Antunes não participa como membro (ops). Mas ele é co-autor de 3 músicas muito legais.

A banda vinha de um disco massacrado pela crítica, mas que eu acho muito legal, o 'Tudo ao mesmo tempo agora'. Que infelizmente também foi fracasso comercial.


Nando Reis não compôs nenhuma pro disco (ou nenhuma se encaixou na proposta), o que, aliado ao fato que o baixo num disco pesado se limita a acompanhar as linhas das guitarras, pode ter gerado insatisfação/frustração. Na seqüência vários trabalhos paralelos pipocaram.


O disco vinha embalado num saco de lixo.




O álbum começa já com uma pancada, 'Será que é isso o que eu necessito?' (sic), mas ele canta certo: será que é disso que eu necessito. Bateria na cara quebrando tudo, guitarras pesadas, melodia meio dobrada com a guitarra. Sonzeira boa pra começar shows, lembro de um Hollywood Rock onde eles começaram assim.



Em seguida continua animado, rápido e pesado, 'Nem sempre se pode ser Deus', do excelente refrão "não é que eu vou fazer igual / eu vou fazer pior", muito cantado pela minha amiga Juliana ('que mala eres, Juliana'!).

'Disneylândia' é sensacional, uma das colaborações do Arnaldo, letra longa falando pontualmente sobre a loucura que é a globalização, pessoas e coisas circulando velozmente pelo mundo, mas no final 'crianças iraquianas, fugidas da guerra, não obtem o visto no consulado americano do Egito para entrarem na Disneylândia'...



'Hereditário' é mais uma do Arnaldo, a única cantada pelo Nando, bem legal.

'Estados alterados da mente' é das minhas preferidas, por motivos óbvios:

"Atitudes mecânicas

Movimentos involuntários

Estímulos elétricos, tempestades mentais

Choques térmicos, crises de melancolia

Choro compulsivo, riso histérico

Euforia, vertigens

Estados alterados da mente

Devaneios, delírios, desvarios

Estados alterados da mente"



E o que é 'Agonizando'? PQP, um riffão de guitarra meio oriental (provavelmente modo frígio), um hardcore sensacional, aceleradíssimo, gritado, uma letra animal, vozes alteradas, solo bizarro, perfeita!



'De olhos fechados' é delirante, histérica, pesada. No final tem uma voz meio acelerada discreta, estranhíssima.

"eu não quero saber o que se passa na sua cabeça quando você está dançando de olhos fechados"

'Fazer o quê' é a mais atípica, parecendo metal mesmo, começa com umas guitarras sozinhas, só depois entra a música, com aquelas letras meio primitivas titânicas. E manda um 'foda-se' enorme...

'A verdadeira Mary Poppins' também é sensacional, bem punk (que aliás, os Titãs já tinham feito em 'A face do destruidor' no Cabeça Dinossauro), clima decadência e loucura totais.

"Mesmo que ninguém escute

Mesmo que ninguém ouça

Mesmo que ninguém acredite

No que sai da minha boca

Eu sou o verdadeiro Bruce Lee

Eu sou o verdadeiro Bob Marley

Eu sou o verdadeiro Peter Sellers

Eu sou a verdadeira Mary Poppins

E eu sei que estou fedendo

Eu sei que estou apodrecendo

Eu sei que estou fedendo

Eu sei que estou apodrecendo"



'Felizes são os peixes' é mais uma punk acelerada com mais uma letra louca. Mas as músicas não são parecidas entre si e o disco não é nem cansativo nem repetitivo, mesmo que a sonoridade mais bem pesada possa desagradar a alguns.



'Tempo pra gastar' é mais no estilo titânico, as guitarras um pouquinho mais pesadas do que o usual, um solinho de wah-wah malandro, mas poderia estar em qualquer outro disco deles.


'Dissertação do Papa sobre o Crime seguida de Orgia' acho que é uma letra do Marquês de Sade musicada estranhamente pela banda, no estilo de 'Violência'. Meio chata. Como Sade.

'Taxidermia' traz a pancadaria de volta, começando com um baixo distorcido sozinho, depois Paulo Miklos entra cantando com sangue na boca:
"Se eu estivesse embrulhado em papel alumínio
Se eu tivesse o seu grupo sanguíneo
Se eu estivesse embrulhado em papel alumínio
Se eu tivesse o seu grupo sanguíneo
Se eu tivesse seus olhos eu seria famoso" (coro poderoso!)
"Não quero ser útil
quero ser utilizado
fossilizado"
Fim caótico e barulhento. Metal puro!

domingo, 19 de junho de 2011

Chaos A.D., Sepultura



Finalizando o domingo metal e prosseguindo com a saga Sepultura, vem este excepcional disco.

Anterior ao clássico dos clássicos 'Roots', não fica nem um pouco atrás no quesito repertório, tendo até mais músicas excelentes do que o outro. Só que como não inclui a percussão tribal como elemento essencial, fica pra trás no quesito originalidade.

Letras excelentes, num inglês quase razoável, mostram que metal não era só alienação.

Também deu origem a videos muito bons, a gravadora estava abrindo a mão, porque estava entrando dinheiro também, claro. E as gravadoras ainda eram relevantes.

Além de tudo o disco tem um trabalho de arte caprichado, o que inclui a capa e várias ilustrações internas.


Começa com um som de coração acelerado, no útero ainda, do filho do Max cavalera, Zyon, seguido pela bateria meio Olodum mixada à parede de guitarras. Muitos riffs bons e uma letra que fala sobre questonamento das autoridades, o que resultou num video muito legal. Uma das melhores! 'Refuse/Resist' é o nome do petardo.


'Territory' também começa com uma bateria mega ultra múltipla do 'polvo' Igor Cavalera, seguida de mais riffs brutais, além de mais uma letra sobre guerra por territórios. O vídeo, gravado em Israel, foi premiado na MTV americana. Mais uma sensacional.


'Slave new world' começa lentona com um riff de arrepiar, depois dá aquela acelerada. Com passagens mais cadenciadas no meio, é de um arranjo maneiríssimo, incluindo um break matador. Mais um vídeo bom. Letra crítica ao autoritarismo, fazendo referência a 'Admirável mundo novo' do Aldous Huxley.


'Amen' é mais lenta mesmo, com voz falada, espaço entre as guitarras, um arranjo mais amplo, coisa rara no metal. Crítica à religião, claro.


'Kaiowas' é uma instrumental com violões, melodias de viola e percussões tribais, em homenagem a uma tribo amazônica que preferiu o suicídio coletivo a perder suas terras e crenças. Bela e forte.


'Propaganda' começa com umas guitarras caóticas, seguidas por uma bateria com bumbo duplo, muitas variações, som trampado no dialeto metal.

"Don't believe what you see

don't believe what you read

no!!"


'Biotech is Godzila' é uma letra primorosa do Jello Biafra (Dead Kennedys), que inclusive fala algumas coisas lá pelo meio da música. Mesmo sem a letra já seria um musicão. Rapidíssima, hardcore pesado, com um refrão empolgante pra ser gritado pela massa.

"Biotech is A.I.D.S.?"


'Nomad', mais um que começa com guitarras flutuantes, arrastada e quebrada. Refrão com uma bateria genial. Massa de guitarras ao final.


'We who are not as others' é uma música estranha, o instrumental é um pouco diferente com guitarras harmonizadas, mas a letra só repete isso, com vocais variados e risadas ao final. O que evita que o disco fique cansativo, coisa comum em discos pesados, mas que aqui passa longe, mesmo sendo um álbum longo.


'Manifest' é sobre o massacre em Carandiru, narrada com a voz de um suposto jornalista através de uma voz de rádio, com a voz gritada de Max entrando só no meio da música. Tem uma passagem com baixo e bateria muito legal. E o final, pesadão e espaçado é sensacional!


Aí vem uma versão pra uma música do New Model Army, 'The hunt', que ficou bem com a cara da banda, com uma levada punk e vozes dobradas.


'Clenched fist' é mais uma cadenciada, com uma guitarra dialogando com os gritos de Max, no final dá aquela acelerada e retorna pra levada quebrada típica e original ao mesmo tempo.


Na versão brasileira do disco vinha a versão pra 'Polícia' dos Titãs. Fiel à original, mas mais rápida e pesada, claro, além de um coro sampleado de algum jogo ou manifestação: 'filha da puta' meio embaralhado pra não ficar muito óbvio...


No relançamento em 1997 também foram acrescentadas 4 músicas: 'Chaos B.C.' (uma mixagem de baterias/batucadas com várias partes de Refuse/resist, que dá pra ser usada na noite dançante heavy), 'Kaiowas (tribal jam)', 'Territory (live)' e 'Amen/Inner self (live)'.


DISCAÇO!!!

Antes do fim, Dorsal Atlântica



Quase no fim do domingo metal, vamos aos antigos e desconhecidos crássicos do metal nacional.

A Dorsal Atlântica é uma banda carioca formada nos anos 80 pelo lendário Carlos 'Vândalo' Lopes.

O disco aqui resenhado foi pioneiro na mistura de gêneros que na época eram como água e óleo, o punk hardcore e o metal thrash. Mal gravado devido a restrições orçamentárias e provável inexperiência de estúdios em gravar metal na época, foi regravado e relançado em 2005 com o nome de 'Antes do fim, depois do fim'.

Esse eu tenho e ainda ouço em vinil. O original nunca foi lançado em cd.

Ao contrário da maioria de letras de metal, este disco, adotando uma postura mais punk, falava de problemas cotidianos e sentimentos.


'Caçador da noite' inicia com aquele som zumbido e rápido de guitarra, além da voz assustadora do Carlos, cantando sobre um serial killer. Solo criativo e em estéreo, extraía-se sangue de pedra no estúdio.


'HTLV-3' é mais uma rápida, falando sobre o vírus da aids, criticando a ignorância e o preconceito numa letra panfletária:

"As pessoas se incomodam com a “liberdade”que o mundo tem

Se aproveitam de uma doença

Discriminar mais as minorias

Quatro letras condenam à morte

Foram escolhidos

Teu sêmen vai gerar mortos

Teu sangue, veneno maldito

HTLV-3 destroí

Verdadeira caça às bruxas promovida pela imprensa

Achem os culpados para salvar as famílias dos burgueses"

O legal de muitas músicas desse disco é que de repente a música muda pra um ritmo mais lento, o que dava origem às rodas nos animadíssimos shows, inclusive um no Maracanazinho abrindo pro Exciter e Venom, onde não se entendia nada, um som horrendo...


'Álcool' é das melhores do disco, uma guitarra zumbindo e a velocidade da luz fazem vc entrar em espasmos...Por incrível que pareça é crítica mas com numa abordagem oblíqua com o ponto de vista do cara que se embebeda. Esta aqui tem um dos melhores breaks do disco, sensacional, dá pra ver a roda se formando e as botas passando perto da sua cabeça.


'Depressão suicida' tem aqueles gritos agudos à Rob Halford, quase cômicos, mas divertidos. Mais uma rápida e com um solo cheio de alavancadas.


'Vorkuta' é uma crítica a Stalin, no mínimo inusitado, principalmente pra adolescentes que nem sabiam do que se tratava.


'Joseph Mengele' você deve imaginar sobre quem se fala (antecipando 'Angel of death' do Slayer). Mais uma rápida (cansa um pouco os ouvidos, admito), mas com mais um break maneiríssimo. E esta música tem uma surpresa muito legal que deve ter estragado muitos toca-discos: ao final da música uma voz que parece alemão, mas que girando o disco ao contrário, mostrava ser na verdade um monte de palavrões...divertidíssimo.


'Guerrilha' é mais cadenciada, quase lenta em comparação às outras. Parece panfletária, mas na verdade há uma crítica sutil ao messianismo comum no meio:

"Rifle responde força com fogo

Você tem um ideal

Meio caminho entre vida e morte, entre herói e assassino

Precisa lutar

Guerrilha por liberdade

Guerrilha em busca da verdade

Todos cegos

Só você vê a luz

Ao vencedor resta a história

De que vale a vida de alguns para salvar milhões?

Luta sozinho, luta por todos"


'Inveja' também é mais arrastada, com um riff heavy maneiro, depois dá a acelerada com guitarras em estéreo e muitas quebradas da bateria.

"Por que o ser humano não consegue se ver livre?

Não aprende com os erros do passado

Lições de cobiça e rancor

Se a vida é tào efêmera

Por que tantos sentimentos fúteis?

No íntimo você não quer errar, mas nào consegue domar

Só o futuro vai julgar

O impulso imbecil

Inveja

Os olhos e a alma cegos continuam a se corroer"


'Morte aos falsos' era um discurso metal da época, dirigindo-se aos apreciadores de última hora, diluidores do movimento. Bullshit, nem sei como um cara inteligente caiu nessa balela. Mais tarde ele mesmo montou uma banda mais hard rock, a Mustang.


Enfim, baixe este sem dó, imperdoavelmente está fora de catálogo.

Guerra civil canibal, Ratos de Porão





Continuamos no peso, agora um punk um pouco mais tradicional, hardcore, com pitadas de metal, dos nossos já conhecidos RxDxPx.


'Obesidade mórbida constitucional' começa com aquele baixo e bateria típicos do punk, meio parecido até com 'California ubber alles' dos Dead Kennedys (inclusive nos EUA o disco foi lançado pelo Alternative Tentacles do Jello Biafra), fala sobre a condição gorda do João, que quase morreu e emagreceu depois. Como não dá pra entender quase nada do que o João Gordo canta (?), segue um pouco da letra:


"Atentado contra a vida,suícidio,punição


Sofrimento na UTI,tortura,medo,falta de ar


Pro inferno não quero ir e no céu eu não quero chegar


Eu vi a morte!Morte!


Mas nunca me arrependi,vida louca sem igual


De primeira quase morri, show de horror no hospital"


'Toma trouxa' é rapidona, fala sobre um balão em drogas que o João pelo jeito tomou de uma gostosinha...


'Guerra civil canibal' é a panfletária típica anti-guerra:


"Por quê?


Inocentes sempra vão


Pagar,sofrimento e o que vai restar?


Nova guerra por religião,carne humana mata a fome ou não?


Guerra civil canibal


Em nome de Deus


Sempre igual,sempre igual,


Realidade podre ficção.


Refugiados agora vão chorar,


Pelo sangue da populaçào


Quem dá mais,quem dá mais?


Morre o fraco,carne boa ou não?


O mais forte vai se alimentar,


No banquete da religião"


'Estaca zero esquerda' é mais do mesmo, com um refrão mais balançado, legal, com solinho de guitarra e tudo. Dá uma enganada no meio, entra uma guitarra mais leve, mas é só pra pegar vc. Bem metal crossover (vai anotando, Zeba!).


'Fire to burn' é um cover da banda/dupla Half Japonese ou 1/2 Japonese, de proto-punk (como diria o Xampu; por falar nele, vc conhece eles, Xampu?) ou de rock alternativo. Dizem até que o Kurt estava usando uma blusa deles quando se matou. Legal, acelerada e até dá pra entender o que o João canta aqui. Incrível, é mais fácil entender ele cantando em inglês...se bem que acho que outra pessoa cantando.


Mais um cover, 'Biotech is Godzilla' (Sepultura/Jello Biafra), sensacional!


'A cola' é uma piada, parece que alguém chega com a cola, usam a cola e ficam escutando um som ao fundo (que eu não consegui identificar) e rindo... :)


'Kill the Varukers' fecha o EP, disco curto, com alguém que não é o João cantando, que depois entra urrando no refrão. Metal!!!

Lapadas do povo, Raimundos



Permanecemos nos sub gêneros metálicos, o forrocore, invenção dos Raimundos.

Este disco puxa um pouco mais pro metal, com guitarras poderosas e extremamente bem gravadas. Inclusive foi gravado em Los Angeles (Sound City, onde Nirvana, Rage Against the Machine e Red Hot Chili Peppers tb gravaram), com letras mais sérias, o que pode ter sido o motivo de ter vendido bem menos do que seus antecessores.


E o disco começa bem com as guitrras se sobrepondo em 'Andar na pedra'. Um efeito flanger no final maneiríssimo.


Na seqüência a rapidíssima (1:03) 'Véio, manco e gordo', hardcore paulada na moleira!


'O toco' é mais no estilo antigo da banda, guitarras pesadas mas sem muita velocidade, vocais bem sacados no refrão mais pop.

"Fiz um toco grande e frouxo

Pra ficar com o olho roxo

Queimar meu dedo no fim

Ela veio trazendo o peso

E eu com medo de ser preso

Pintar meu dedo no fim "


'Poquito más' é um rockão com letra estranha e guitarras pesadas com riffs pegajosos, legal. Tem até uns metais fazendo fundo num clima quase mexicano tipo Fishbone!


'Wipe out' é daquelas pesadas e suingadas, a galera devia estar ouvindo Pantera. Wipe out significa a temida e conhecida vaca numa onda grande, quando vc se dá mal mas a galera da areia se diverte...Mais boas e pesadas guitarras, com solo de wah-wah magrinho.


'CC de com força' é mais uma aceleradíssima e curta. E é escatologicamente sobre cecê mesmo.


Mais uma acelerada, 'Crúmis odámis', pancadaria sem parar.

"(Eu sei que tem) eu sei que tem gosto pra tudo

A moda vai, a moda vem, o tempo passa e eu não mudo

E até pensando bem filho da puta de um sortudo

Durmo mal, comendo bem, fazendo grana pelo mundo"


'Bonita' é daquelas quase baladas que os Raimundos faziam muito bem, apelo pop com roupa punk, que deu origem a muito do emo de hoje em dia. Mas a culpa não é deles, né? Quem cria não pode se responsabilizar pela diluição.


'Ui ui ui' é mais rapidinha (0:47) e escatológica do disco.


A surpresa vem com a versão da música 'Oliver's army' do Elvis Costello! Bem legal, até com mais vigor que o original, o que também não é difícil.


'Nariz de doze' é uma letra meio enigmática sobre uma nave de marcianos que cai perto do maluco que escreveu a letra, se é que eu entendi isso direito. Bom riff e bom solo.


'Pequena Raimunda' é também uma versão, desta vez de 'Ramona' dos Ramones, que mesmo fiel ao original, ficou legalzinha. Só não sei como autorizaram essa letra lamentável...vale pela diversão.

"Olhe só Rodrigo, Rodolfo,Fred e Canisso

Feia de cara mas é boa de bunda

Olhe só é a Pequena Raimunda.

Se ela tá indo até que dá pra enganar,

Se ela tá vindo não é bom nem olhar,

Ela de 4 fica maravilhosa,

Na 3x4 é horrorosa"


'Baile funky' é a minha preferida, bem pesadona, guitarronas, riff thrash em fusas tipo Metallica/Slayer, letra (um pouco) melhor. Boa pra malhar!

"A porta tá sempre aberta pro povo

Casca do cerrado chegaram os mortos de fome

Sujeira de outra parte que vem pra sujar seu nome

Eu te falei que o ladrão que rouba mesmo

É bem vestido e eu vi de monte

Essa zoada no telhado é o vento que a vida leva

É o pensamento antiquado, te apaga queimando a erva

Enraizado fica o dono do pé que finca na terra

E faz a ponte Povo de Zé ofensa

É na igreja que o povo esvazia as bolsa

Tem quatro santos, três queimando o kunk

Decidindo o destino dos outros como se fosse Deus

Atrás da mesa o açougueiro comanda

E a intolerância me manda de novo pro banco dos réus

Armando com propaganda"


'Bass hell (Bônus crap)' é a experimental, programações eletrônicas com baixo em loop, scracth by DJ Romes, guitarra funk e aí no meio entra o peso dos infernos, depois volta pro balancinho soft.


Bom disco, mas mal sucedido comercialmente.

Música para beber & brigar, Matanza

Para o Zeba, que é curioso acerca das subdivisões metal, chega a surpresa do domingo metal: o countrycore!! ;)
Uma mistura louca de uns mutcho loucos cariocas (Jimmy London, autor da lapidar "Estou cagando para os meus fãs, sou músico, não sou modelo de vida", e seus comparsas Donida nas guitarras, China no baixo e Fausto na bateria) que gostam de punk quanto de Johnny Cash e até de música irlandesa.
Pesado e divertido, ao mesmo tempo violento e mal-humorado, não é uma banda para ouvidos fracos e frescos.
Este aqui é o segundo álbum da banda, que depois disso, até hoje 2011, gravou mais 2 de inéditas e um tributo matador ao citado Johnny Cash (To hell with Johnny Cash).
Este é um dos discos que me anima muito a postar aqui, pois é uma banda muito legal e pouquíssimo conhecida.

'Pé na porta, soco na cara' já dá o tom! "e toda paciência um dia chega ao fim...essa noite vai dormir feliz"...Refrãozão, deve ser boa de começar shows.

'O último bar' já apresenta elementos country, pesadão, além do clima velho oeste.
"O último bar quando fecha de manhã
Só me lembra que não tenho aonde ir.
Bourbon tenho demais,
Mas que diferença faz se você não está aqui pra dividir?
Toda noite tem sempre alguém pra me dizer,
Que mulher que vai querer te ver assim.
Pleno festival, mulherada, carnaval e eu aqui
Com uma garrafa já no fim"

'Todo ódio da vingança de Jack Buffalo Head' começa meio instrumental, de repente dá uma acelerada e atropela.
"Meio dia pego o trem
que dessa cidade eu ja cansei
Todas puta ja comi
o que tinha de roubar eu ja roubei
Quem vai me dizer se eu to errado
se eu to vivo muito bem e não tem pra ninguem
Quem tentou me segurar pro inferno mandei
Procurado vivo ou morto
no retrato até que eu fiquei bem"

'Maldito hippie sujo' é mais pesadona e cadenciada com um riff bacana de guitarra pesada. E polêmica, ou engraçada se vc ouve como piada.

'Bota com buraco de bala' é um quase romântica, meio rock'n'roll acelerado, com um slide muito legal.
"Eu sei que ela me ama, e eu vivo só por isso, mas não é exatamente um paraiso.
Com ela eu não discuto é sempre sim senhora, e quando fica puta pega as coisas e vai embora.
E não há nada que eu diga, não há nada que eu peça, com essa vagabunda eu não consigo ter um pingo de conversa.
E só o que sobrou foi um buraco de bala"

'Taberneira, traga o gim' dá uma desacelerada, mas mantem o nível alcoólico...aquele efeito conhecidíssimo "que fica a cada drink mais bonita".

'Interceptor v-6' fala sobre carro, tema comum no rock'n'rol, no caso um Diplomata, "nem o demônio eu vi bebendo tanta gasolina". Punk acelerado. Tem um fim falso surpresa.

'Busted' é uma versão de uma música do Cash, bem de leve, aquele ritmo de valsa country. Porra, eu não queria gostar de algo como Johnny Cash, mas eu adoro. Mais ainda no vozeirão original.

E aí vem de volta a porradaria na sensacional 'Bom é quando faz mal'!
"20 caixas de cerveja
um barril de puro whisky
Quilos de carne vermelha
Fique longe não se arrisque
Não importa onde esteja
E sempre onde tem mais barulho, maior cheiro de bagulho
Disso eu me orgulho
Vai saber o que é normal?
E só que eu posso lhe dizer:bom e quando faz mal!
Conseqüência qualquer coisa traz
Quando é bom nunca e demais
E se faz bem ou mal tanto faz, tanto faz, tanto faz..."

'Pandemonium' começa com um trovão e depois vem a guitarra com um riff punk aceleradíssimo, contando uma história de bebida, assassinato e ressaca...No meio dá aquela quebrada cadenciada meio heavy pro solo simples e eficiente.

'Quando bebe desse jeito', countrycore acelerado com slide country sinuoso e banjo discreto, é auto-explicativa, né? Mas de qualquer jeito segue um pouco mais da letra:
"Segunda-feira, dia do bebum profissional
Mal a noite cai, já vai cair no mal
Nunca vai faltar um bom motivo pra quem quer se divertir
Não precisa de momento nem de ocasião
Todo dia é dia, é só chamar que vai
Tudo que não presta, certamente, deixa a vida mais feliz"

'Matarei', mais do mesmo estilo divertido, um pouco mais metal pé-na-porta, boa pra roda de pogo ao vivo!

Pra terminar a grossa balada country acelerada 'Bebe, arrota e peida'. Minha filha adorava essa música quando era menorzinha, mas em geral não faz muito sucesso com o público feminino, claro, ainda mais com essa letra:
"Chega já pedindo a saideira
Mais é saideira uma atrás da outra
e assim lá pela décima terceira
Já tá trocando o nome da garota
Não vá não, fique por aqui
Você não tem nenhuma condição de dirigir
Não consegue se manter de pé
Bebe, arrota e peida bem na frente da mulher"
IIIIHAAAAAAAA!!!!

Quem sabe uma hora o Tarantino não descobre os caras.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Noite, Lobão




Depois que o talvez último grande artista dos anos 80 apareceu por aqui (com a discordância do Mateus, antecipo), vamos mandar mais um dele. (Curiosidade: o post de 'O rock errou' teve que ser postado a partir de Guaíra...tempos globalizados e conectados, pero com alguns problemas de configuração brasiliense).


Outro dia estava a ouvir Depeche Mode e pensei em postar algo no estilo por aqui. Aí, pensei, pensei, pensei e vi que não tem nada nem próximo, pelo menos que eu conheça.


Então lembrei que o Lobão quando lançou este disco falava que parecia que só ele tinha ouvido Portishead e Nine Inch Nails no Brasil... (Mais um parêntese: Trent Reznor, do NIN, é pra mim o único gênio pós-Nirvana; e o mais incrível é que ele foi reconhecido pela supostamente estúpida indústria do entretenimento norte americano: ganhou um Oscar pela trilha de 'The social Network', numa premiação que ignorou 'Inception', a coisa mais legal depois de Star Wars e Senhor dos anéis...é, eu sou nerd sim).

Enfim, este é um disco de música eletrônica, 'hedonista e de direita' como acho que o autor declarou na época. Claro que com a cara do Velho Lobo, como diria meu amigo Xampu. Letras criativas e corrosivas, músicas dançantes (algumas) e convidativas à contemplação lounge (outras). Lembra em alguns momentos o 'Puro êxtase' do Barão Vermelho.

Até comprei a autobiografia dele - a preço de aeroporto...pressa.

Ao disco: 'A noite' começa elétrica com guitarra e depois entra a sonoridade mais eletrônica propriamente dita. No refrão fica meio disco, com uma guitarra em estéreo legal. Tem uma voz filtrada e uns barulinhos típicos da fritação dance.

"eu tô na paz, eu tô relax/ mas preciso de mais emoção"


'O grito' é das preferidas da casa, inspirada livremente no quadro do Munch, uma excelente letra. Até tem aqueles 'ô ô ô' típicos do Lobo e uma guitarrinha solo esperta com wah-wah (Sérgio Serra).

"a certeza da certeza faz o louco gritar"


'Sozinha minha' é muito legal também, com aqueles barulhos psicodélicos de trance, arrastada, chapada lounge. Boa pra se ouvir no escuro. Belas guitarras.


'A véspera' já começa mais eletrônica, boa pra mixar com aquele bumbo 'em um', voz meio distorcida, mais uma boa letra do nosso herói lupino.

"aí eu me pergunto: hoje é véspera de quê?

talvez hoje seja, simplesmente, véspera de nada"


'Hora deserta' traz um início que lembra a versão de 'Cena de cinema' que o Barão fez no disco citado...irônico, ainda mais com o Dé (ex-Barão) tocando baixo. Boas guitarras, mais uma boa letra. Gritos heavy ao final.

"halo de vida que exala das pequenas mortes

sexo, ascese

acaso, sorte"


'Meu abismo, meu abrigo' é daquelas boas baladas do Lobão, só que com roupagem eletrônica, vozes dobradas e filtradas em alguns momentos, guitarra criativa.


Aí chega a acidez total, crítica mordaz do espírito ixperto e do oba-oba vazio carioca, decadência pós 'vergonhosa campanha Rio 2004' e pré 'ganhamos a olimpíada 2016': 'Samba da caixa-preta', acelerada, precisa.

"salve samba, nos temos samba

esse é o arremedo de suingue, balanço, funk, telecoteco

esse é o aconchego indulgente das águas de março fechando o verão

esse é o narciso se achando esperto por não dar bandeira de afogado

se afoga narciso, pelo menos isso

(...)

Rio, me abraça com todos os seus restos

que eu sou tua cria, subproduto do subproduto

Rio, me abraça com a tua decadência que eu te chamo de

Maravilhosa precariedade na permanência"


'Me beija' diminui a tensão, guitarras suingadas, quase balada mais rock, com um rap no meio a cargo de Plínio Profeta.


'24 horas' foi a primeira composta pro disco, legalzinha, meio baladinha.


'Na poeira do mundo' tem um ar meio oriental, em parte por conta dos instrumentos de 12 cordas e o tema desértico, destoa um pouquinho do disco, mas tem sons ainda eletrônicos com percussão, com uma bateria mais orgânica no meio. Um teclado eventual lembra os clássicos discos do velho Lobo.


'Do amor' termina o disco, uma música mais etérea, com guitarras grandes. Tem uma citação bossa-nova com pianinho meio Tom Jobim. "Continente fissurado pelo conteúdo".


Produção de Humberto Barros (que também pilota os teclados), Lobão e Jungui (que também compõe as programações, texturas essenciais ao som do disco).

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Big bang, Paralamas do Sucesso



Aproveitando que comprei (e estou devorando) o 'Vamo batê lata', biografia do Paralamas pelo Jamari França - do excelente blog Jam Sessions do ogloboonline, da qual tirei muitas informações aqui expostas, vamos a mais um dos caras.

Durante a gravação, a banda inventou e divulgou que o disco se chamaria 'Rumo ao planeta ovo' e a imprensa caiu e divulgou.

Agora um septeto, com tecladista e naipe de metais, é um disco que aproveita essas possibilidades sonoras.



Inicia com o sacolejante xaxado 'Perplexo', levada pelo baterista João Barone quebrando tudo, além dos sopros mostrando a cara com vigor, incluindo um solo de trompete a cargo de Demétrio Bezerra no finzinho. Fala da perplexidade da população diante dos planos furados do governo (Cruzado 1 e 2), apesar da nova Constituição ("fim da censura, do dinheiro/ muda nome, corta zero/ entra na fila de outra fila pra pagar"). E a incredulidade e a disposição de luta, claro: "Não penso mais no futuro/ é tudo imprevisível/ posso morrer de vergonha/ mas eu ainda estou vivo/ eu vou lutar/ eu sou Maguila, não sou Tyson". No fim, Maguila foi à lona e elegemos Collor...



'Dos restos', co-autoria com Liminha, já traz uma guitarrona poderosa num riff maneiríssimo e ainda a resistência e a perplexidade: "Pra essa nova moral oportunista/ eu me viro e digo não", "Será que eu existo?/ será que não?/ surgem novas criaturas/ novos pontos de interrogação". Tem um solinho rápido no meio, harmonizado e criativo.

Coladinha (muito legal quando as músicas ficam mixadas assim!) já entra 'Pólvora', reggae rápido quase ska bombando com todo mundo sincronizadíssimo, além de uma das melhores letras de Mr Vianna, que aqui cita o título do disco ("as teorias que explicam o universo"). Dá aquela subida de tom no meio e acaba sensacional!



Diminuindo o ritmo vem a new bossa (obrigado, Jamari!) 'Nebulosa do amor', linda e intimista, depois coerentemente regravada no 'Acústico'. Cuíca de Armando Marçal dialogando com o naipe de metais.



'Vulcão dub' é uma instrumental arrasa quarteirão, com metais solando e alternando as luzes entre si. HUUUU!



'Se você me quer' começa diferente e quase acústica, pandeiro e violões, quase um samba, com pitadas de música sertaneja, vai crescendo a massa sonora no meio.

"Se você me quer eu te quero

se não eu não me desespero

afinal eu respiro por meus próprios meios

afinal eu vivo enquanto espero"



'Rabicho do cachorro rabugento' é no estilo 'Melô do marinheiro', reggae repente com bateria usando timbres eletrônicos, engraçadinho, cantado por Bi Ribeiro (canal esquerdo) e João Barone (canal direito). A música volta ao fim, com o nome 'Cachorro na feira'.



'Esqueça o que te disseram' é mais uma influenciada pela ju ju music africana, que já tinha gerado 'Alagados', com a qual inclusive é parecida. Vocais quase de lambada...

"É preciso sangue frio pra ver

que o sangue é quente

e que vai ser diferente"



'Lanterna dos afogados' é uma das mais belas canções do Herbert, belos arpejos, imagens ambíguas, podendo ser um local físico ou emocional. Foi uma das primeiras que eu notei (deve haver outras) que era afinada meio tom abaixo, o que facilita o trabalho sincronizado com os metais, em geral nos tons transpostos de Eb ou Bb. Alterna um belo solo de flugelhorn com um matador de guitarra por Mestre Vianna. Talvez uma das últimas geradas das infelicidades amorosas com Paula Toller (momento Caras...).



'Bang bang', reggae típico com bons riffs de metais, tenso, quando um bala perdida que matasse um jovem ainda era notícia. Hoje deixou de ser, pela freqüência e banalidade.

'Mas naquele dia até Deus se escondeu

não quis ouvir pedidos de socorro

a voz da razão sumiu

quando a polícia civil subiu o morro"



'Lá em algum lugar' é mais uma romântica, lentinha meio motel, bela e discreta guitarra, com o saxofone safado de George Israel (Kid Abelha).

"Eu sei que em algum lugar ficou uma luz acesa

no escuro desse amor que se apagou

a luz que um dia brilhou só existe num canto do coração"



'Jubiabá', versão do folclórico baiano Jerônimo para 'Give me the things', completa o excelente repertório do discaço. Animada e acelerada, quase um axé music.



Do release poético de lançamento, pelo então titã Arnaldo Antunes, trechos:

"O pé que dança decodifica melhor o recado.

As misturas rítmicas (África Londres Caribe Bahia Mangueira Kingston) se dão com uma naturalidade orgânica. Os contrastes já não são a meta, mas a matéria prima.

Entre a bossa a roça.

Entre a fossa e a troça.

Banalidade para pensar: 'Pode ser exatamente o que eu digo/e também pode não".

Profundidade para dançar: 'O que é tudo isso diante da pólvora?/(Dessa paixão que se renova)'.

Novos pontos de interrogação."



Na seqüência vêm mais discos dos Paralamas, além de pitacos complementares e secundários nos já postados da banda.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Uma nova volta ao passado: O rock errou, Lobão



“Dizem que o Rock andou errando
Não valia nada, alienado
E eu aqui na maior das inocências
O que fazer da minha santa inteligência?
Será que esse é o meu pecado, porque
Errou, errou, errou, errou
Eu sei que o rock errou”





Começa assim um dos álbuns mais relevantes da música brasileira dos anos 80. Lançado em 1986 em meio às mudanças político-econômicas pelas quais o Brasil passava, trata-se de um contundente retrato de sua época.



O Brasil vivia a (curta) lua-de-mel do Plano Cruzado – a euforia rapidamente deu lugar ao desespero da população. O então presidente José Sarney, que assumiu o posto “por acaso”, após o inesperado falecimento de Tancredo Neves, gozava de seus momentos de altos índices de popularidade (que jamais se repetiriam). O regime militar já era página virada de nossa História, mas um certo “Estado policialesco” ainda mostrava suas garras. E Lobão foi uma das vítimas desse estado de coisas.



João Luiz Woerdenbag Filho, o Lobão, foi preso por porte de drogas no exato momento da conclusão de “O Rock errou”. Encarcerado e com pouco acesso à defesa, o artista viu-se na situação de bode (lobo?) expiatório de uma sociedade retrógrada. Parte da grande imprensa atacou os “atos” de Lobão e defendeu sua prisão. A liberdade só veio após intensa batalha na justiça (cabe lembrar que dois Titãs, Arnaldo Antunes e Tony Belloto, passaram por situação semelhante na mesma época).



Ao final do processo, “O Rock errou” sintetiza o momento pessoal de Lobão. Também, conforme dito acima, é um pequeno instantâneo do Brasil de 1986.



A faixa título, um petardo, abre o disco. Trata-se de uma ácida crítica ao país e aos seus políticos (Jânio Quadros, então prefeito de São Paulo, é apresentado como o “bruxo da vassoura”). Fala das dificuldades da transição do militar para o civil (“vivemos num país bem revistado/uma nova volta ao passado”). O vocal rascante e as camadas de guitarras tornaram a canção um pequeno hino, e hoje pode ser considerada um clássico.



Entre os demais “clássicos” do disco, podemos citar “Noite e dia” (com letra safada e sacana, “menina quer brincar de amar”) e a porrada “Moonlight paranóia”. Outras duas canções merecem atenção especial.



A primeira delas é “Canos silenciosos”. A exemplo de “O Rock errou”, trata-se de um petardo. A letra, um primor. O início é acachapante:



“Onda na madrugada, silêncio na batida
Tá todo mundo se aplicando pra festa,
Pra chegar na festa bem aplicadinho
Movimento na esquina, todo mundo entra, todo mundo sai;
sexo, drops, rock'n roll, adrenalina;
diversões eletrônicas num poderoso hi-fi”.



A letra segue falando em “homens, fardas, cassetetes, camburões/abusando da lei com suas poderosas credenciais”. Lobão tinha autoridade para tratar do assunto – ele sentirá o peso da justiça e da lei sobre ele. Os contundentes “canos silenciosos” tinham endereço certo.





A música mais emblemática, porém, é “Revanche”. A letra é, digamos, autoexplicativa:



“Eu sei que já faz muito tempo que a gente volta aos princípios
Tentando acertar o passo usando mil artifícios
Mas sempre alguém tenta um salto, e a gente é que paga por isso, oh!
Fugimos prás grandes cidades, bichos do mato em busca do mito
De uma nova sociedade, escravos de um novo rito
Mas se tudo deu errado, quem é que vai pagar por isso?
Quem é que vai pagar por isso? Quem é que vai pagar por isso?
Quem é que vai pagar por isso?



Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais revanche
Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais ...



A favela é a nova senzala, correntes da velha tribo
E a sala é a nova cela, prisioneiros nas grades do vídeo
E se o sol ainda nasce quadrado, e a gente ainda paga por isso
E a gente ainda paga por isso, e a gente ainda paga por isso
E a gente ainda paga por isso



Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais revanche
Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais ...



O café, um cigarro, um trago, tudo isso não é vício
São companheiros da solidão, mas isso só foi no início
Hoje em dia somos todos escravos, e quem é que vai pagar por isso
Quem é que vai pagar por isso? Quem é que vai pagar por isso?”
Quem é que vai pagar por isso?



“Revanche” sintetiza o difícil momento de Lobão atrás das grades. O bode-lobo expiatório acaba por pagar pelos erros de todos – mas não quer revanche por isso. A canção é amarga e tem melodia e harmonia soturnas. Uma pancada forte no estômago – a verdade é ou não é incômoda?



O disco com tem ao menos um momento de grande ironia, quando Lobão mostra que o rock “errou” mesmo. Trata-se da canção “A voz da razão”, que conta com a participação especial (especialíssima) de Elza Soares. Menos rock e mais samba, impossível. O velho e bom rock´n´roll, tal qual o conhecemos, não tem mais o que dizer, segundo Lobão. Estará ele certo?



O tempo passou, Lobão virou VJ da MTV (quem paga as contas dele, afinal?) e nunca mais produziu uma obra de tal envergadura. Nem precisava. “O rock errou” é definitivo.



André Xampu