sábado, 29 de dezembro de 2012
Arnaldo Baptista: 'Lóki?' & 'Loki' (dvd)
Estas são obras independentes e com uma distância de 34 anos (o disco de 1974 e o dvd de 2008), mas mesmo assim, uma ajuda muito na compreensão da outra. E mesmo nunca tendo resenhado dvds por aqui, acho que este em especial tem seu lugar por aqui.
O dvd dá uma perspectiva de contexto e do criador Arnaldo, não só como autor, mas como músico, compositor, arranjador, cantor, marido, pai, irmão, etc.
Em muitos momentos do dvd as lágrimas aparecem e me pego perguntando porque estou vendo uma história tão triste, principalmente nesta época, com altas tendências à depressão...Mas o filme é de sobrevivência, forte e ao final otimista, como deve ser esta história. A primeira vez que o vi fiquei muito impressionado, queria fazer logo a resenha do disco, mas pensei que talvez devesse dar um tempo e vê-lo de novo mais tarde, o que fiz agora.
Também há muitos depoimentos, que algumas vezes colocam o Arnaldo (e os Mutantes) num nível de reconhecimento altíssimo, a saber:
- o Maestro Rogério Duprat diz com todas as letras que os Mutantes foram o que de mais relevante havia no movimento Tropicália, que inclusive foi objeto de um recente (e a comprar) dvd de documentário; pra mim faz todo o sentido, os Mutantes foram os primeiros (e além disso originais, criativos e competentes) a traduzir o rock'n'roll pra uma versão brasileira com cara própria - a Jovem Guarda o fazia sem mudar quase nada do rock estrangeiro, principalmente do italiano; e por mais que eu goste e admire Gal, Gil e Caetano, o rock brasileiro pra mim é muito mais importante e relevante do que a mpb; o Devendra Banhart chega a dizer que os Mutantes são melhores do que os Beatles!
- vários artistas e críticos (Lobão, Liminha, Roberto Menescal - que produziu este disco juntamente com Mazola, João Ulhoa - que produziu 'Let it bed' do Arnaldo, Tarik de Souza, Nelson Motta, Gilberto Gil, Sean Lennon - que cita um paralelismo interessante entre o Arnaldo e Syd Barret, Tom Zé, Kurt Cobain etc) ressaltam a importância do Arnaldo e do disco 'Lóki';
- contextualizando a autor e sua história, você ouve com muito mais atenção a 'densidade emocional' no disco, onde percebemos o quão exposto e corajoso o Arnaldo se pôs e, mais do que tudo, o quanto de alma e coração ele colocou no álbum.
E há mais que coração e alma: intensa dor, depressão, desespero e isolamento, delírios e imagens pessoais, problemas graves com drogas (principalmente o LSD que, como lembrado por várias pessoas, não é brincadeira não), frustração e decepção amorosa, angústia e solidão, sexo e ovnis, paranóias e incertezas, lucidez e loucura entrelaçadas, um grito desesperado de um jovem genial de 25 anos que tinha perdido a mulher e a banda. Mas que ainda tinha o rock'n'roll.
"Rock eu gosto porque é meu sangue. É minha vida, desde que nasci" (Arnaldo em entrevista à Ana Maria Bahiana, publicada no Globo em 1978).
É um disco de rock sem guitarras. Arnaldo tem a seu lado velhos companheiros: Liminha no baixo, Dinho Leme na bateria, Rita Lee (vocais de apoio em 'Não estou nem aí') e Rogério Duprat. Em alguns momentos Arnaldo se indispôs com os músicos, por se negar a refazer algumas faixas (por isso o disco é em alguns momentos muito cru e contém alguns pequenos erros).
É um disco feito com urgência e sofreguidão, visceral, o que em algum artigo aí abaixo o ligou coerentemente a 'Plastic Ono Band'.
Há uma grande mistura de gêneros: glam rock, boogie-woogie, rock progressivo, bossa nova, samba, rock'n'roll, música clássica etc.
Os dois lados originais iniciam-se com canções perguntas: o lado A 'Será que vou virar bolor' e o B com 'Cê tá pensando que eu sou loki?'.
Qual o futuro? O esquecimento? A loucura?
Cada música traz um pouquinho de resposta, ou melhor, um monte de procuras...
A minimalista canção final, 'É fácil', parece ter um resposta: a genialidade da música!
"Eu me amo
como eu amo você
é fácil"
"Hoje eu percebi que venho me apegando às coisas materias que me dão prazer
(...)
não gosto do pessoal da NASA
Cadê meu disco voador?"
(Será que vou virar bolor)
'Uma pessoa só' foi herdada dos Mutantes, utópica sobre a plenitude da convivência humana, traz um belo arranjo de cordas e versos lindos:
"Estamos numa boa pescando pessoas no mar
Aqui
Numa pessoa só"
'Não estou nem aí' é a exata antítese da canção anterior, negando os projetos utópicos e enfrentando o mundo material, o instant karma da vida cotidiana.
"Ontem me disseram que um dia eu vou morrer
mas até lá eu não vou me esconder
porque eu não estou nem aí pra morte
não estou nem aí pra sorte
eu quero mais é decolar toda manhã"
'Vou me afundar na lingerie' traz mais uma possibilidade, com muito humor: o hedonismo, o ócio, como destruidores das opressões e barras pesadas. (Antecipando ''Diversão é solução sim")
"quem já dançou sempre tem medo dos homens"
Finalizando o lado A, 'Honky tonky', instrumental onde Arnaldo passeia por estilos ao piano.
Iniciando o lado B, 'Cê tá pensando que eu sou loki?', que meio que cita a bossa nova e o disco do Tom com Sinatra.
'Desculpe' pode ser interpretada como releitura de 'Desculpe, Baby' dos Mutantes, e traz mais uma possibilidade de resposta: o Amor. Mesmo sendo 'uma das baladas mais corta-pulso da história'...
"Desculpe
se eu fiz você chorar
Te esqueça
Olha, o sol chegou
Diga-me o meu nome
Diga-me que você me quer
Sinta o pulso de todos os tempos
Comigo
Até quando, eu não sei
Mas desculpe
mas eu vou me fechar
não sou perfeito
nem mesmo você é
me abrace, diga-me o o meu nome
(...)
sinta o barato de ser humano
Comigo
até quando Deus quiser"
'Navegar de novo' traz uma resposta concisa: seguir em frente. Traz uma das primeiras críticas à nascente sociedade de consumo e sua superficialidade, mas com esperança.
'Te amos podes crer' é uma canção de amor, em menos de 3 minutos Arnaldo faz um tratado das dores de amores.
"é muito triste pensar em você como quem não vive depois da morte"
Finaliza com 'É fácil'. Que traz Arnaldo ao violão, com um impressionante domínio do instrumento, que não era seu principal.
No cd se perde uma coisa meio louca: os dois lados tem exatamente 16 minutos e 50 segundos.
E na ficha técnica: "Este disco é pra ser ouvido em alto volume".
Arnaldo não gostou do nome, imposto pela gravadora, nem da capa, além do que havia imaginado.
Logo após o lançamento, Arnaldo sofreu uma das suas primeiras internações psiquiátricas.
Sobre os anos pós-Loki: "Passei 4 anos num ostracismo. Não tinha ninguém, mulher nenhuma. Ninguém me queria. Não tinha amor. Aí me internaram, porque parece que fiquei uma pessoa violenta. E eu não quero ser uma pessoa violenta. Diziam que eu era. Me internaram. Agora estou bem. Cortei as drogas. Tomo uns remédios. Estou bem. (...) Não sou violento. A bateria é. O piano não consegue, por causa da amplificação" (Arnaldo na entrevista citada).
O dvd traz muita história anterior (Mutantes principalmente, infelizmente sem depoimento da Rita) e posterior, culminando com o retorno dos Mutantes, e os shows em Londres (2006) e em Sampa (2007).
Ana Maria Bahiana, na entrevista citada: "Subitamente pede licença, vai correndo ao palco cuidar, pessoalmente, das ligações elétricas de seu teclado Hohner. Se é possível ter certeza de algo, de uma coisa sei: ele não está brincando de pirado. Todo seu corpo, todo seu rosto está empenhado numa batalha surda e intensa, digna, que não tem nada a ver com as possíveis fantasias de sua ex ou atual plateia. Agachado atrás dos amplificadores, metodicamente checando fios e plugs, sobrancelhas cerradas, ele não parece um herói: está lutando por sua vida. Com todas as forças".
Links (de onde eu tirei muita informação e onde roubei uma ou outra frase...):
Wikipedia do Arnaldo
Wikipedia do 'Lóki?'
Wikipedia do 'Loki' (dvd)
site música estranha e boa
site do Arnaldo
terça-feira, 24 de abril de 2012
Rita Lee - Build Up, 1970
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Saúde - Rita Lee (1981)
O que fazer depois de 2 discos de sucesso em dois anos seguidos? A resposta parece óbvia: um terceiro disco de sucesso no terceiro ano. É assim que funciona a indústria fonográfica, ainda que o humor e criatividade dos artistas contratados nem sempre consigam acompanhar. Mas, para esta indústria fonográfica, pouco importa, o que vale mesmo é o saldo de vendas. Vamos examinar agora o outro lado da moeda, o lado do artista. Os dois discos de sucesso de Rita Lee, em 1979 e 1980 (resenhados aqui) tinham razão de ser: eram grandes coleções de canções inspiradas com arranjos criativos e modernos (pra época) e uma produção impecável. A somlivre não poderia deixar passar batido e em 1981 deveria vir outro campeão de vendas.
Saúde, de 1981, consegue realizar bem o lado da gravadora, mas deixa um pouco a desejar do ponto de vista das canções, mas ainda assim, vale a audição. Aqui, Rita está um pouco mais cansada (ainda que o disco apresente umas 3 ou 4 canções muito boas) e a repetição das mesmas fórmulas nos arranjos e na produção dos discos anteriores, faça este disco soar como uma “continuação” dos álbuns anteriores.
Rita clama quero mais: saúde! E esse grito pode até ser interpretado dentro deste contexto que contrapõe artista e gravadora, ainda que a intenção da letra seja claramente outra:
Me cansei de escutar opiniões / de como ter um mundo melhor ... Mas ninguém sai de cima / nesse chove não molha / eu sei que agora eu vou é cuidar mais de mim!...
Por sinal, saúde, a música que abre e dá o título ao disco, é o pop-rock perfeito que Rita e Roberto conseguem repetir aqui, com certa cara de novidade. Naquele tempo a gente pousava delicadamente a agulha sobre a bolacha preta de vinil e o “shhhhhhhh” chiado baixinho (mas perceptível) do diamante percorrendo os sulcos eram como uma introdução sonora aos discos. Então vem a introdução de Saúde (a música), acho que não consigo lembrar de outra introdução de música tão bonita quanto esta: a batida levemente disco acompanhada de uma sutil guitarra e um lick repetitivo de piano elétrico soam como uma preparação para a música que vai começar. De repente uma frase de guitarra vem como que apresentar Rita que entra em seguida, cantando firme: me cansei! De lero-lero! Dá licença mas eu vou sair do sério...
E a música mistura a batida disco com um guitarra stoniana, seguindo a sugestão que os próprios já haviam dado em Miss You (1978). Saúde tem um andamento que fica entre o lento e o acelerado e é uma delícia de ouvir. Fiquei anos sem ouvi-la, e acho que hoje gosto mais dela do que da primeira vez que ouvi.
Outro momento memorável é Banho de Espuma, que alia à letra sutilmente sacana de Rita Lee, um arranjo cheio de metais (assinado por Lincoln Olivetti, que também tocou o piano em Saúde), mudanças de andamento e uma bateria eletrônica (não sei se é, ou é tocada de maneira a parecer assim...) que era marca registrada nos discos típicos dos anos 80 “hooked on classics”, “ hooked on swing”... Além destas destacam-se Mutante, que apesar do nome não é referência aos Mutantes, mas uma linda balada romântica, cheia de sons espaciais de sintetizadores e uma percussão meio puxada pro latino, e mesmo assim a mistura fica de muito bom gosto. Atlântida também é outro bom momento. Aqui também vemos Rita e Roberto experimentando uma sonoridade nova, que não aparecia nos disco anteriores. A bateria “eletrônica” citada antes aqui vem mais forte, mais marcada (primórdios do bate-estaca), já que o arranjo é, sonoramente, mais limpo, mais econômico. Destacam-se Rita Lee que canta sussurrando, o acompanhamento rítmico de piano de Lincoln e a guitarra inspiradíssima que vou creditar a Roberto (apesar de que o encarte do disco não deixa claro quem tocou). Tititi é o momento rock’n’roll do disco, e foi até trilha de novela numa versão regravada por Virginie e sua banda Metrô. Boa canção, mas não chega nem aos pés de Ôrra Meu (´80) ou Papai me Empresta o Carro (´79), dos discos anteriores. Tatibitati é prova cabal de que Rita e Roberto estavam se cansando de todo esse troço (Rita Lee tinha virado mega star com direito até a especial de fim de ano na Globo). Mother Nature é a versão em inglês para Mamãe Natureza (´74, ver a resenha de Atrás do Porto...) e nada acrescenta a versão original, enquanto que Favorita foi cedida pra Roberto de Carvalho cantar, experiência que não se repetiria mais, graças a deus. Duas canções com cara de “estamos enchendo lingüiça pra fechar o disco e lançar antes do natal”, como de fato aconteceu e eu, o ganhei no natal de 1981. [M]
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
E vai rolar a festa...

(Gilberto Gil & Rita Lee)
Começa já pra cima esse excelente disco ao vivo! ‘Refestança dança, dança, dança, dança quem pode dançar; refestança canta, canta, canta quem pode cantar; só não pode quem não quiser...’ (Refestança, a música). Guitarrinhas rock’n’roll, solinhos em stereo, os sons ao vivo são ótimos.
‘Proibido fumar’ do Rei, canta Rita com um riff ótimo de guitarra. Fumar o quê? Os dois foram presos, não sei se antes ou depois desse disco, por porte da erva em Florianópolis, que hoje um amigo meu chama de ‘a Jamaica brasileira’... Pois é, mas continua proibido.
‘Odara’ é uma boa surpresa, tudo a ver com o clima de festa. Começa climática, mas anima rápido.
‘Domingo no parque’ é antológica, qualquer versão. Essa aqui tem uns backing vocais de dar gosto!
‘Back in Bahia’, uma das preferidas da amiga Andréia, na voz de Rita é também excelente, animada e ‘pra cima’.
Segue ‘Giló’, uma homenagem de Rita a Gil, não é das minhas preferidas.
E aí Gil segue cantando uma ‘da comadre’, ‘Ovelha negra’, uma música que traduz perfeitamente a vida marginal, a opção da minoria, o fazer o que você sabe ser o melhor pra você, mesmo ouvindo que é e sendo ‘a ovelha negra’, tão ou mais política do que qualquer ‘caminhando e cantando’. A versão é voz(es) e o violão maravilhoso de Gil. Mais do que suficiente. E tem aquele solinho. [Mateus, você que tem esse disco, pode informar os músicos?]
Continuando o arrasta-pé, ‘Eu só quero um xodó’, do Gonzagão, com umas guitarras boas que fariam o Lua sorrir.
Sem parar, em ‘De leve (get back)’, Rita mantém a animação. De quem será essa versão? Do Lulu Santos? Nelson Motta? Ou da Rita?
Pra não dizer que não se falou em festa, ‘Arrombou a festa’, uma das muitas músicas tributo aos personagens da música popular brasileira.Pra terminar a festa (ou para recomeçar), ‘Refestança’ de novo...
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Mutantes e seus Cometas no País do Baurets (1972)

Quando eu ouvi Dune Buggy pela primeira eu pirei! Tanto que nem sei mais quando nem onde foi que isso aconteceu. Era mais um motivo pra lamentar ter nascido na época errada. A música tem o vocal vigoroso do Arnaldo, gritando e cantando alucinadamente e com a banda que acompanha na mesma toada. A batera está particularmente enlouquecida aqui e a execução de órgão e guitarra estão no mesmo nível. O bugue das dunas, que passa e nem dá pra ver pode ser jingle de comercial de aditivo mas tem cara mesmo é de submarino amarelo: na hora H eu derramei na gasolina um barato que eu nem sei se é STP ou MSLD, meu Dune Buggy liga!
Outra que é de pirar é o Cantor de Mambo. Como o próprio título (mais do que) sugere, a música traz o ritmo latino perfeitamente adaptado ao som mutante (e vice-versa), sem maiores efeitos percussivos, o mambo tá na própria composição, interpretação impecável na voz de Arnaldo e nas guitarras de Sérgio.
Posso perder minha mãe, minha mulher, desde que o eu tenha o rock’n’roll é um hino anárquico, foda-se o AI-5 a anistia o general e o escambau. O meu cigarro apagou, o meu dinheiro acabou, mas eu tenho o rock’n’roll... Beijo Exagerado é uma elegia ao encontro casual, cru, rápido e certeiro. A Hora e a Vez do Cabelo Nascer e faixa que dá nome ao disco são passeios (quase) instrumentais que mostram a banda antenada com o prog-rock e o heavy metal inglês. Em Mutantes e seus... os versos só aparecem no final da música, numa gozação com a atitude do homem diante do bruxo do luxo baixado o capucho...
Essas cinco músicas mostram os Mutantes numa direção distinta dos sons mais orquestrais tropicalistas, dos tempos de colaboração com o maestro Rogério Duprat (algo que já vinha se desenhando sutilmente nos dois discos anteriores), mas ainda tinha espaço para o som que estava nas raízes dos mutantes. Rita Lee canta só em duas faixas, Vida de Cachorro, um divertido hino à liberdade que parece inspirada na história da Dama e o Vagabundo, com um arranjo acústico que lembra Blackbird; e retorna no lado B, quando eles refazem Rua Augusta, sucesso jovem-guarda de Hervé Cordovil, numa versão que não deixa dúvidas sobre como é que a Augusta foi realmente “subida”.
Balada do Louco é a faixa mais célebre e conhecida do disco, certamente dispensa maiores apresentações e comentários, é uma das poucas parcerias entre Arnaldo e Rita sem a presença de Sérgio e marca a presença de um moderno (em 1972) sintetizador que foi usado no refrão: eu juro que é melhor não ser o normal, seu eu posso pensar que deus sou eu...
E nós somos imensamente gratos por toda essa anormalidade... [MATEUS]
Fruto Proibido - Rita Lee & Tutti-Frutti (1975)

Não dá pra economizar: este é O disco de rock’n’roll brasileiro. Não porque não houveram outros discaços de rock brasileiro, aqui neste blogue encontram-se vários deles... Mas o Fruto Proibido da Rita Lee é um marco, é um gol de placa, chapéu na defesa toda, meia lua no goleiro, tudo isso de trás pra frente, por que o arremate final é do meio-campo, lembrando todos os gols que Pelé, charmosamente não fez em 70.
Primeiro que o entrosamento entre Rita e o Tutti-Frutti estava tinindo, depois do ótimo disco de 74 (ver posts anteriores). Segundo, e principalmente porque a seleção de canções deste disco é de rara felicidade e inspiração. Além de uma ou outra parceria com os tuttis e algumas composições só suas, Rita agregou, em três faixas, um novo parceiro, o dupla de Raul Seixas: Paulo Coelho. A banda perdeu a cilibrina Lucinha, mas o Carlini se ocupou muito bem das cordas. Um novo baterista que parece até o animal dos muppets de tanta pancada que soca pra todo lado, em tudo que é tambor foi agregado junto com um tecladista, de tal forma que Rita dedica-se mais a compor e cantar. E valeu a pena...
Ovelha Negra é o super-clássico dos clássicos da Rita Lee, uma adorável balada (supostamente) autobiográfica que mistura folk, rock e pop na medida certa. Carlini repete à exaustão um dos solos de guitarras mais marcantes da música brasileira, ideal para fechar com chave de diamante um disco como este.
O lado A também termina em grande estilo, na parceria mais famosa de Rita e Paulo, Esse tal de Roque Enrow, que retrata o choque de gerações embalado ruidosa e irresistivelmente pelo som do TF acompanhado de um sax a la Bobby Keys.
Outra que ficou célebre foi Agora Só Falta Você, parceria de Rita com Carlini. A música contrapõe o peso da bateria e guitarra de Carlini ao piano meio booggie que ajuda a dar mais leveza à voz de Rita Lee. Dá até pra sentir o quanto a banda se diverte tocando essa aqui...
Luz del Fuego foi trilha de um filme homônimo estrelado por Lucélia Santos (que deve até ter passado em Sala... Especial!). O lick de abertura é a deixa pra Rita Lee desenhar a história desta personagem e começar a flertar com sua face mais “feminista”. Pirataria de Rita e Marcucci é também um rockão-manifesto: quem falou que não pode ser? não, não, não eu não sei por quê... eu posso tudo! Em outra parceria com Paulo Coelho, Rita Lee dá O Toque, rockão poderoso e sem concessões que vai suavizando quando chega no refrão psicodélico: o som das nuvens, a conversa do vento, a voz dos astros, a história do tempo... Aqui a harmonização vocal é fundamental (aliás, ao longo do disco, os vocais de fundo mostram ser outro ponto certo desta produção), e o verso final é uma espécie de celebração-manifesto pela preservação da natureza: o universo segue o rumo que todos nós escolhemos.
Voltando ao lado A, Fruto Proibido é rock’n’roll clássico, numa das passagens mais suaves do disco, onde Carlini toca apenas violão e gaita, e o piano ensandecido são ideais para descrever a relação com as tentações e os frutos proibidos que Rita descreve e assume aqui. Dançar pra não Dançar é a música de abertura, numa sugestão que Caetano assumiu quando cantou deixa eu dançar, pro meu corpo ficar Odara... A música (portanto, o disco) inicia com os compassos executados só no piano, frenético, boggie-wooggie, mostrando que o som deste disco está um pouco diferente, quando o resto da banda entra, mostrando a cara do TF.
Cartão Postal é um blues irresistível, sobre encontros e despedidas, canção estradeira de levada lenta e acústica, piano e violão muito bem sintonizados, acompanhados por uma harmonização vocal impecável e Carlini num slide inspiradíssimo.
Pra que? Sofrer com despedida...
Se só vai, quem chegou...
...Pra que?... sofrer...
[MATEUS]
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Atrás do Porto tem uma Cidade – Rita Lee & Tutti-Frutti(1974)
Ainda que, oficialmente, este não seja o primeiro disco “solo” da Rita Lee, é o primeiro sem os Mutantes. Se dúvidas pairavam sobre o futuro da cantora/compositora sem os irmãos Dias Baptista, começaram a ser totalmente desfeitas aqui. Os Mutantes faziam parte do passado e Rita reuniu uma nova banda, o Tutti-Frutti. A Sérgio Luiz Carlini na guitarra, Lee Marcucci no baixo e batera Mamão, Rita, que se ocupou dos teclados neste disco (algo impensável nos seus tempos de Mutantes...), juntou a cilibrina do Éden, a guitarrista Lúcia Turnbull.A sonoridade da banda é bastante diferente dos Mutantes, mostrando sim que a loira trilhava um novo rumo e bastante independente, inclusive assinando como única compositora várias das faixas. A tecladeira marca o disco, e a instrumentação usada (moderníssima na época) incluía moog, melotron e piano. As duas guitarras convivem muito bem e dão uma sonoridade um pouco mais stoniana do que se ouvia, por exemplo, nos Mutantes. E o baterista Mamão tem um estilo um pouco mais agressivo que Dinho, o que deixa o som do TF um pouco mais pesado.
Adicione-se a tudo isso, o fato de que, em 1974, o rock progressivo e outras substâncias faziam a cabeça roqueira nas terras tupiniquins... Basta uma olhadela rápida na capa que parece uma caricatura de Roger Dean (que fazia as capas do Yes).
Ah! Sim! As músicas... Rita ainda não tinha uma impecável coleção de composições como o que viria aparecer no disco seguinte, o perfeito Fruto Proibido, mas algumas pérolas estão aqui. Mamãe Natureza é talvez a maior e mais preciosa delas. O trabalho de banda é impecável, mas independente disso a música é excelente... Rockn’roll pegajoso e simples com mudanças de andamento e um solinho de guitarra irresistível, melhor impossível. Como se não bastasse, o refrão estou no colo da mamãe natureza, ela toma conta da minha cabeça... é o estado de espírito de Rita e banda. Ando Jururu vai na mesma direção e é ainda mais explícita: quero encontrar pelo caminho um cogumelo de zebu, e descansar os meus olhos no pasto, descarregar esse mundo das costas... A música inicia com um riff de baixo num andamento rápido e frenético e desacelera depois de achar o tal cogumelo, enquanto descansamos os ouvidos no pasto...
Yo no creo em brujas, pero que las ay, las ay... é outro ponto alto, com várias mudanças de andamento e um refrão irresistível, composição dividida entre Rita, Carlini e Marcucci, assim como Tratos à Bola. Menino Bonito é outra canção que ficou célebre, uma suave balada levada no piano, baixo e bateria acompanhados por orquestra que mostra o lado mais romântico de Rita Lee, que viria a ser muito peculiar nas suas composições, um romantismo mais malicioso e debochado, aqui parece um território recém-descoberto e que será melhor explorado adiante.
No restante do disco o destaque maior é a performance da banda do que as canções em si. Por exemplo, em Eclipse do Cometa, Carlini executa um slide havaiano impecável e em Círculo Vicioso a banda entra de cabeça no progressivo (de curta duração, graças a deus tiveram bom senso...) num andamento que passa do rock pesado ao jazz com muita naturalidade. Completam o disco De Pés no Chão, Pé de Meia, e ...Tem uma Cidade, faixa instrumental com uma sonoridade levemente sombria a la Sabbath Bloddy Sabbath.
Lamentavelmente os Mutantes pararam. Mas ainda bem que Rita Lee continuou. [MATEUS]
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Roqueiro brasileiro sempre teve cara de bandido? (Rita Lee - 1980)
Esse disco de 1980 intitulado "apenas" Rita Lee, segue na mesma linha do disco homônimo de 1979. É muito difícil dizer qual é o melhor dos dois (eu pendo um pouco mais pra este por razões estritamente pessoais). Rita e Roberto estão no auge da forma com muito rock'n'roll, balada, pop e música de festa. Eles inauguram o pop brasileiro da década de 80, sem perder as raízes roqueiras da rainha.Lança Perfume está no inconsciente de qualquer um que tivesse mais de 10 anos em 1980;
Bem-me-quer é rock'n'roll no melhor estilo, e a letra é sensacional. Destaque para a guitarra fuzz de Roberto;
Baila Comigo foi "a" balada de 1980 (se não me engano emplacou em alguma novela também);
Shangri-lá é outra balada. Bem lenta, a instrumentação aqui é bem econômica, uma levada de ovation acompanhada por teclado (e voz, of course). No final entram, suaves, percussão e baixo.
Caso Sério é um bolerão que tem a ginga emprestada a dupla por Roberto e a sensualidade que se tornou a marca de Rita Lee;
Nem Luxo Nem Lixo, como Chega Mais (de 79), começa com um super riff de metais. Marina Lima regravou uma versão legal na virada do milênio, mas esta aqui ainda é campeã, com direito a acordeom e tudo mais;
João Ninguém é um reggae(?) no melhor estilo A Cor-do-Som. A letra conta a história de João Ninguém, "sem talento pra ser feliz, milionário por vocação", lembrando seus tempos de cronista com os mutantes. E o disco termina botando pra quebrar com Ôrra Meu!, puta roquenrou stoniano pra lembrar a galera que ali estava a guerrilheira-forasteira Rita Lee.
[MATEUS]
Arrombando a festa! (Rita Lee - 1979)
Rita Lee já havia sido mutante, cilibrina do éden e já tinha liderado o Tutti-Frutti, tudo isso antes de encontrar seu novo parceiro, Roberto de Carvalho. Esta parceria rendeu três filhos e uma guinada mais pop na carreira dA roqueira (Na contracapa deste Rita Lee de '79, o primeiro filho, Beto Lee, aparece na barrigona de Rita). E sabe que valeu a pena? A instrumentação ortodoxa do Fruto Proibido dá lugar a arranjos com mais ginga, teclados, sopros, sintetizadores, percussão... Olha só a lista de músicas deste discão:Chega Mais - Começa com um riff irresistível de metais e foi tema de novela, numa época que as novelas eram assistíveis e as trilhas excelentes. A letra é um caso à parte, demonstração da face mais sexy da rainha.
Papai me Empresta o Carro - Rockão clássico contando a "triste" história do moleque que quer o carro do pai pra... meia hora no seu carro com meu bem!!!
Doce Vampiro - Baladona fundamental. A linha de baixo é hipnótica.
Corre-Corre - Em 1979 já antecipava a loucura da vida moderna.
Mania de Você - Outra balada clássica. A intro no teclado é lindona...
Elvira Pagã - Esta é a música é talvez a mais fraquinha do disco. Ainda assim é um rockão maneiro mostrando o lado "feminista" da Rita Lee.
Maria Mole - Adoro essa música. Desafio a qualquer um aqui tocar esta música pra criançada e ver o resultado.
Arrombou a Festa II - "crítica" bem-humorada da MPB em 1979.
E o melhor: a festa continuaria em 1980 (ver o próximo post).
[MATEUS]


