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domingo, 8 de janeiro de 2012

Tropicália ou Panis et Circences (1968)


Após mais de 200 resenhas de discos no presente Blog, reparei que até o momento, não constava simplesmente um dos discos mais geniais: Tropicalia ou Panis et Cincences, de Caetano, Gil e toda trupe tropicalista. Talvez a razão pela demora esteja justamente no fato de ser tão fundamental na discografia brasileira e mundial (poderia ser hors concours em qualquer lista do gênero), que é uma grande responsabilidade resenha-lo aqui.


Impulsionados pelo impacto de suas músicas no festival da Record de 1967, Caetano, Gil, Mutantes e companhia (ilimitada nesse caso) resolveram tocar o projeto em frente e lançar um disco que se tornou uma espécie de Manifesto do Tropicalismo. Sintomaticamente, sua gravação iniciou-se justamente em maio de 1968, ao mesmo tempo em que o mundo explodia em protestos e revoluções. No caso particular desse disco, pode-se dizer que serviu para revolucionar a música brasileira, superando debates entre bossa nova e jovem guarda, e trazendo ideais da Semana de Arte Moderna de 1922 para a música brasileira.


Contando com arranjos vanguardistas do maestro Rogério Duprat (falecido em 2006), sem receio de misturar sons e influências diversas, o resultado não poderia ser melhor. Possivelmente, o lançamento de Sargent Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, também influenciou na concepção desse disco.


O disco abre com o som de órgão de igreja para ser interrompido por um sininho que lembra vendedores ambulantes de rua em “Miserere Nobis”, de Gilberto Gil e Capinan, interpretado pelo Gil. Nessa canção já dá para ter uma ideia da profusão de sons que constituirá o restante do álbum.


Em seguida, Caetano interpreta “Coração Materno”, uma velha seresta de Vicente Celestino que, curiosamente, faleceu em agosto de 1968, quando estava de saída para assistir a um show de Caetano e Gil. A minha tese é de que a inclusão de uma seresta de 1951 no disco foi uma espécie de provocação à Bossa Nova, cuja uma das bandeiras tinhas sido se contrapor ao jeito de cantar velhas serestas.


Curiosamente, a canção “Tropicália’, de Caetano, ficou fora do disco, mas certamente a outra que deu nome ao disco acabou sendo uma das mais marcantes: “Panis et Circenses”, de Gil e Caetano, outra que se tornou clássica na interpretação dos Mutantes. O interessante é que música está repleta de “brincadeiras”, como o som de vitrola desligando no meio da música para retomar em seguida, assim como a sonorização de uma verdadeira sala de jantar, com direito à voz de Manoel Barenbein (produtor do disco) pedindo para passar a salada tendo, ao fundo, o som de Danúbio Azul. Essa canção também fez parte do primeiro disco exclusivo dos Mutantes, lançado no mesmo ano.


No avesso do espelho...Mas desaparecida...Ela aparece na fotografia...Do outro lado da vida. A canção seguinte, “Lindonéia”, de Caetano e Gil, recebe a interpretação da ex-bossanovista Nara Leão, simbolizada na capa do disco com uma retrato enquadrado em preto e branco.


É somente requentar... E usar... porque é made, made, made, made in Brazil. Tempo para a crítica inteligente e satírica de Tom Zé em “Parque Industrial”, contando com a participação de praticamente toda a trupe tropicalista na interpretação. Outra canção marcante.


Depois de “Geléia Geral” (Gilberto Gil e Torquato Neto), com a voz de Gil e sons de fanfarra reforçando o toque circense, vem “Baby” (de Caetano) na voz divina de Gal, acompanhada de leve por Caetano. Trata-se de outra canção marcante da música brasileira.


Nessa verdadeira salada geral do tropicalismo também tem espaço para o ritmo caribenho em “Tres Caravelas”, versão de João de Barro para “Las Tres Carabelas” originalmente gravada pelo The Shadows, que no presente disco foi interpretada por Caetano e Gil.


O disco segue ao som de clarins que remetem a bandas militares em “Enquanto seu lobo não vem”, mais uma canção com uma sutil e inteligente crítica ao momento político. Destaque ainda para o trecho da Internacional Comunista inserido logo após o verso: Vamos passear nos Estados Unidos do Brasil...Vamos passear escondidos.


A brilhante voz da Gal Costa ressurge em “Mamãe Coragem”, de Caetano e Torquato Neto, uma espécie de manifesto feminista tropicalista, seguindo com os batuques de “Bat Macumba” de Gil e Caetano que se tornou clássico na voz do primeiro, contando ainda com a participação dos Mutantes (essa canção também fez parte do repertório do primeiro disco dos Mutantes, lançado também em 1968).


Para finalizar (e confundir ainda mais os ouvinte), “Hino do Senhor do Bonfim”, com a participação de quase todos tropicalistas, ao som de banda.


Importante citar também a genial capa do disco, que contou com todos os tropicalistas posando como se fosse uma tradicional família brasileira, com diversos detalhes interessantes, como as guitarras empunhadas pelos irmãos Baptista como se fossem armas revolucionárias (na época se debatia a pertinência das guitarras na música brasileira); ou ainda o penico nas mãos de Rogério Duprat como se fosse uma xícara de chá, além da já citada foto da Nara Leão.


A importância desse disco é tão grande que serviu de inspiração para importantes nomes da música internacional como David Byrne e Beck entre outros. 25 anos depois, Gil e Caetano fizeram uma versão 2 do Tropicália, já resenhado aqui também . De fato, Tropicália ou Panis et Cincencis abalou as estruturas da música brasileira ao romper com conceitos e preconceitos. Se a ideia era abalar as estruturas da música brasileira, os tropicalistas podem se vangloriar do pleno sucesso obtido na empreitada. Cabe à gente reverenciar eternamente esse manifesto em forma de disco.

[Paul]

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Todos os olhos para Tom Zé


Nos antigos discos de vinil, uma das vantagens era que as capas assumiam um papel muito mais importante do que nos práticos CDs, a ponto de algumas terem se tornado verdadeiras obras de arte. O problema era quando a capa acabava adquirindo uma importância maior do que a obra musical em si, como ocorreu em Todos os Seus Olhos, disco do Tom Zé de 1973. Nesse caso a polêmica levantada pela capa que seria uma foto de uma bolinha de gude em um ânus em pleno regime militar acabou relegando às canções um papel secundário, mesmo quando tinham todos os elementos para serem protagonistas. Desse modo, o presente post tem como objetivo recolocar as coisas no seu devido lugar.

Confesso que só vim a conhecer efetivamente esse disco há cerca de 10 anos, quando Charles Gavin, baterista do Titãs e também grande estudioso da música brasileira, passou a relançar clássicos de vinil em formato CD, inclusive juntando duas obras de cada músico (esse disco foi relançado juntamente com o também memorável Se o Caso é Chorar, em 2000).

Contando com um texto de apresentação do poeta concretista Augusto de Campos (dando pistas da trilha a ser seguida por Tom Zé), o disco abre (e termina) com “Complexo de Épico”, uma nítida resposta provocativa à canção “Épico”, do ex-companheiro do movimento tropicalista Caetano Veloso, que naquela época seguia rumo completamente distinto.

Todo compositor brasileiro é um complexado...

Porque então essa mania danada,

Essa preocupação de falar tão sério,

De parecer tão sério...

O recado estava muito explícito nessa canção em que Tom Zé exagera na tintura “cabeça” (digamos que não é daquelas de fácil audição).

Em seguida, uma releitura de “A Noite do Meu Bem”, de Dolores Duran (única canção que não é de sua autoria no disco), introduzindo alterações no ritmo da clássica canção. Dois anos depois, em Estudando o Samba, ele repetiu a mesma experiência na canção “Felicidade” de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. O resultado surpreende em ambos os casos.

Depois de “Cademar” (parceira com Augusto de Campos), em “Todos os Olhos” Tom Zé aproveita para negar o papel de “herói” que muitos esperavam dele: (...) Mas eu sou inocente, eu sou inocente, eu sou inocente. O disco segue com um criativo diálogo musical com Odair Cabeça de Poeta em “Dodó e Zezé” e um animado forrozinho “Quando eu era sem ninguém”, para adotar um Tom completamente melancólico em “Brigitte Bardot”, que nos dias de hoje poderia facilmente ser adaptada a tantas outras musas de outrora.

A Brigitte Bardot está ficando velha

Envelheceu antes dos nossos sonhos(...)

E os nossos sonhos querem pedir divórcio(...)

A seguir, as ruas de São Paulo adquirem vida própria na “Augusta, Angélica e Consolação”, uma linda homenagem desse baiano à cidade que ele havia adotado. Além de original, a letra finaliza com uma bela passagem:

Eu fui morar na Estação da Luz

Porque estava tudo escuro

Dentro do meu coração.

No seu disco anterior (Se o Caso é Chorar) já havia utilizado do mesmo subterfúgio na excelente “A Briga do Edifício Itália com o Hilton Hotel”, quando as personagens eram prédios invejosos da capital paulista, que continua com vida própria na canção seguinte, “Botaram Tanta Fumaça”, uma espécie de xote que fala das doenças que a cidade estava enfrentando com tanto lixo e fumaça. Lembre-se que estamos falando do início dos anos 1970, quando qualquer preocupação ambiental mal existia e a tônica vigente era de que as indústrias traziam “progresso”.

A fase concretista de Tom Zé volta com força total em “O riso e a faca” . Antes de finalizar novamente com “Complexo de Épico”, o cantor brinca com sons, tempos e contratempos na música “Um oh! E um ah!”.

Enfim, nessa obra Tom Zé desfilou criatividade e originalidade, alterando os estilos, com canções que conseguiam ser ao mesmo tempo poéticas e provocativas.

Quanto à capa, recentemente o fotógrafo Reinaldo de Moraes, autor da foto, revelou que a idéia de Décio Pignatari era, de fato, retratar um ânus, mas que depois de muitas tentativas infrutíferas com uma namorada de ocasião anônima, acabaram mesmo tirando foto da bolinha de gude na boca dela. Nessa, até o Tom Zé foi enganado, e se divertiu com isso, como revelou posteriormente.

[Paul]