Mostrando postagens com marcador Barão Vermelho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Barão Vermelho. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Na calada da noite, Barão Vermelho


Mais um discaço pra nossa exposição permanente.
Meio acústico, com muitos violões e espaços, mas mesmo assim energético, mostrando que acústico não quer dizer necessariamente frouxo, largadão ou sem força.
Diferente de tudo que o Barão já tinha feito. Único disco com o sensacional baixista Dadi (ex-Novos Baianos e A Cor da Som), mais conhecido por ser inspiração para 'O leãozinho', depois da saída conturbada de Dé, que muitas músicas ainda compôs aqui.
Cazuza, que viria a falecer semanas antes do lançamento do disco, acompanhou as gravações, o que muito agradou à banda.
Maurício Barros volta como convidado, Peninha e Fernando são efetivados. Guto se arriscando a compor letras. Ezequiel sempre na área. Serginho Serra (Ultraje) auxiliando nas composições.

'Política voz' exemplifica tudo isso, já começando com o pé na porta, numa co-autoria do Frejat com o poeta Jorge Salomão, que participa bastante do disco. Poesia forte, política, comportamental. E um riff que parece muito com 'Smells like teen spirit' (que só saiu um ano depois).
"Eu não sou a porca que não quer atarraxar
E nem a luva que não quisna sua mão entrar
Eu sou a voz que quer apertar o cerco e explodir
Toda essa espécie de veneno
Chamado caretice
E expulsar do ar
Do ar, do ar a nuvem negra
Que só quer perturbar
Soprar e ver tudo voar
Soprar e não ficar nada pra contar"

'O invisível' traz uma cara hard rock, uma levada apressada que acelera e respira, grandes guitarras. Barão na veia! Tem um solo de violão flamenco alucinado no meio, a cargo de Gaetano 'Kay' Galifi.
"Nem tudo são rosas
Às vezes é amargo demais
Ela nem bate a porta
Nem tudo que reluz é ouro
Às vezes é nada mesmo
Nem tudo que vem
Volta atrás
Apenas eu vejo a luz
Será que só eu?" (eu sempre quis cantar isso!)

Volta a malandragem, violões, guitaras e slides sinuosos, percussão tropical, na faixa título, co-autoria com o negro gato Luis Melodia. Excelente. E um solinho em chamas no slide lembra que o rock'n'roll continua fluindo.
"O rumo da bola de vidro
Pode do céu despencar
Queimar a fúria dos homens
Queimando, cinzas tudo virar
É tudo questão de justiça
Eu não nasci na Suiça
Tão pouco no Canadá"

'Beijos de arame enfarpado' (Dé/Sérgio Serra/Ezequiel Neves) é uma das minhas favoritas do Barão, não só do disco, uma pérola pouco conhecida. Dinâmica, começa sutil, riff primoroso de baixo, depois vão entrando guitarras, quebras e balanço, solo longo e lindo, um letra primorosa, no nível do melhor do Cazuza:
"Naqueles dias
Todo dia eu renascia
Na pele dos teus lábios
E trazia comigo uma oração
Pros tumultos da paz
Porque naqueles dias
Eu te amava demais
Eram dias de pura luz
Refletindo nos metais
E pelos nossos beijos
Caravelas e língua passeavam
Em delírios fluviais
Amor à luz de velas
Mensagem na garrafa perdida
Vinda na saliva de outros carnavais
Mas hoje em dia meu amor
Nossos beijos tem sabor enferrujado
E nos machucam a boca
Feito arame farpado"

'Sonhos pra voar' traz o melhor do acústico e do rock, levada forte de bateria com violões, um trabalho bacana do Dadi, mas a letra dá uma patinada, com bons momentos e outros nem tanto. A preferida de Cazuza, que pediu que a banda gravasse essa ao vivo.

'Seco' é curtinha, quase uma vinheta, sem efeito nenhum - som seco, violão e voz.

E já emenda em 'Tão longe de tudo', violão e bateria muito bem casados, côro belíssimo, piano alegre, voicing de guitarra e voz, bonitaça! Ao vivo, o Dadi fazia um solo de baixo muito maneiro no lugar do solo cheio de notas de piano do Renato Neto em estúdio.

'A voz da chuva' é singela, um relax bem vindo, mais violões e guitarrinhas suingadas, mezzo country. Uma guitarra pica-pau wah-wah meio falante e um solo de guitarra matador. Percussão perfeita e mais um côro lindo.

'Tua canção' é uma bonita canção, que conta com o auxílio luxuoso da steel guitar de Rick Ferreira, que tocou muito com o Raul.
"Te faço uma canção
Tão Antiga e tão bonita
Não tem queixa e nem ferida
É proteção prá toda a vida
Porque você entende meus sonhos
Teu sexo tem o gosto que eu gosto
Tua boca, carne, tua saliva
Faz a minha carne mais viva
Então eu faço esse carinho
E assim fico menos sozinho
Meu coração não chora mais
Na ponta de qualquer espinho"

'Invejo os bichos' traz de volta o peso, rock'n'roll, solinhos acelerados! Uma letra meio ingênua, mas empolgante:
"Invejo os bichos, invejo os bichos
Que no mundo não procuram nexo
Vivem em paz sem ganância ou capricho
E só brigam por comida e sexo"

O disco termina com a emocionante 'O poeta está vivo' (Frejat/Dulce Quental), balada cheia de espaços, letra bonita, vozes dobradas e emocionadas. O hit do disco que, mesmo sem fazer referência direta ao Caju, assim ficou conhecido. O grande solo de Fernando Magalhães.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Terminando a saga 20 anos de rock brasil



20 anos de Rock Brasil cd 4


Rá! Você achou que eu não fosse terminar, né? Mas é sempre bom finalizar um projeto, mesmo que inútil como esse blog, música, cultura ou arte em geral...

Eu sempre olhava pra esse último cd meio com estranhamento, pois na verdade eu achava que a coletânea era sobre o rock dos anos 80, quando na verdade o título é claro e auto-explicativo: 20 anos de rock, e não rock de 20 anos atrás, bundão! E esse cd traz o rock dos anos 90.


Então vamos lá: começamos com os decanos Titãs, com a música do cd de renascimento 'Acústico' (que inclusive teve um filhote volume 2!) 'Os cegos do castelo', uma das poucas inéditas do disco, ainda cantada pelo agora solo Nando Reis. Música legalzinha, os Titãs têm muitas outras melhores.


Depois vem o Rappa, com certeza a melhor banda dos anos 90 e (mais ou menos) na ativa até hoje. 'Pescador de ilusões' não é a minha preferida, mas é hit pop reggae e cantada até hoje nos (cada vez mais raros) shows da banda.


'Por você' é uma música atípica de um disco atípico (Puro êxtase, com abordagem dance eletrônica) do Barão Vermelho, mas é uma belíssima balada entre as muitas já compostas pelo grupo.


Cidade Negra é uma banda antiga (com o nome de Lumiar), ainda dos anos 80, mas na época não fazia sucesso. 'Falar a verdade' ainda é cantada pelo Ras Bernardo, o antigo e desconhecido vocalista, depois substituído (ou saído) pelo Toni Garrido (vindo da banda Bel, não a baiana), quando a banda virou pop e merecidamente estourou a boca do balão.


O Skank traz um reggae tipo dancehall (vai no google, Zeba!), estilo no qual começaram, depois enveredando por um caminho mais rock anos 60 com pitadas de Clube da Esquina. 'Garota nacional' é um mega hit do disco 'Samba poconé'.


Tem gente que adora, tem gente que odeia. Eu gosto de Charlie Brown Jr, acho animado, bom pra festa e sessions de skate, principalmente os primeiros discos, ainda com a banda original azeitada e mais pesada, mais ligada no hardcore ou grindcore. 'Proibida pra mim (grazon)' podia ser uma balada, e assim foi gravada pelo Zeca Baleiro.


Raimundos sempre foi uma banda engraçada e com talento pra escrever quase-baladas grudentas. Aqui eles atingem o auge, numa música eterna, 'Mulher de fases', com um finalzinho com cordas e tudo! É do único disco deles que eu não tenho, 'Só no forevis'.


'Mantenha o respeito' é o hino definitivo do maconheiro bem educado, aquele que pede se pode acender no carro ou se deve ir fumar lá fora pra não incomodar. 'Usuário', já comentado por aqui, é um crássico desde sempre! É uma pena o grupo estar inativo, mas a carreira do D2, do BNegão e do Black Alien mantêm a tocha (entre outras coisas) acesa.


'Minha alma (a paz que eu não quero)' é uma bela composição do Rappa, daquele que é o seu melhor álbum, o 'Lado B lado A', o último com o compositor e baterista Marcelo Yuka. Deu origem a um belíssimo video.


'Anna Júlia' é um dos raros pop perfeitos criados no Brasil, o que levou o grupo Los Hermanos de um mundinho alternativo carioca para uma super-mega-ultra exposição nacional, o que levou a um previsível desgaste e antipatia por parte dos ouvintes. Mas a pérola resiste, mesmo que ninguém consiga ouvir mais...como os amigos daqui dizem, está de quarentena por alguns anos. E depois a banda se redimiu e fez um dos melhores discos ever, já comentado aqui pelo amigo e baixista Paulinho.


'Fácil' também é um pop muito tocado em festas, baladas e exposições agropecuárias Brasil afora e adentro. O Jota Quest é isso, sem vergonha e com muita vontade de ser isso, e são bons músicos e eficazes. Tem quem goste, eu até ouço se estiver tocando, mas pagar por isso...


Quase acabando o cd, vem o ex-Titãs Nando Reis, com uma música que a princípio foi gravada pela Cassia Eller e depois gravada pelo autor no disco solo 'Infernal', e em seguida regravada pela Cássia no seu estourado 'Acústico'. Essa música já foi interpretada por amigos aqui do blog sob uma ótica pornô-cosmológica, mas como eu não estava presente, vou me abster. Se alguém quiser anexar um adendo, fique à vontade.


Pra terminar o sempre pop Kid Abelha, agora sem 'os abóboras selvagens', trazendo aqui uma versão de uma música do síndico Tim Maia, 'Não vou ficar', animada e pra cima, com um sonzaço, presente no disco 'Tudo é permitido'. Mas podiam ter colocado aqui uma música própria, né?


Então é isso, terminou. Até que lancem '30 anos de rock brasil' incluindo os anos 00...

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Rock'n'roll vai rolar e vai direto...


Quem começou a escutar o Barão Vermelho a partir daqui pode até se perguntar: "Quer dizer que eles tiveram outro vocalista antes do Frejat?".

Sim, há uma diferença clara entre o Barão da era Cazuza e o novo Barão. Perdas e Ganhos. Pessoalmente prefiro me ligar nos ganhos. É claro que Cazuza levou a poesia... ela foi embora e as letras desta nova fase algumas vezes beiram o ridículo. Mas Frejat tem voz mais bonita, mais empostada e soube encaixá-la magistralmente no novo som da banda. Sem o beija-flor e o tecladista Maurício Barros, o Barão adquire novo formato com a entrada de um novo guitarrista, Fernando Magalhães, e do percussionista Peninha. O resultado é uma banda mais vermelha, mais sanguinária do que jamais havia sido antes!

Outro ponto alto aqui é que o som ao vivo ficou muito bem captado e resolvido. É um disco muito bom de escutar, no talo então!... Vez em quando o pessoal tá enrolando pra levantar da cama lá em casa e junto com Tie Your Mother Down esta trilha é excelente na função de "levanta veiaco"!

O repertório ainda está cheio de canções da era Cazuza (é claro!), mas as versões aqui são definitivas. Ponto Fraco, Carne de Pescoço e Pro Dia Nascer Feliz tem suas versões definitivas aqui, muito melhores que as originais. Bete Balanço, Não Amo Ninguém, Porque a Gente é Assim também não deixam a peteca cair e são, no mínimo, tão boas quanto (as de estúdio). O Dão que gosta de gravações e estas coisas há de admitir que o sonzinho dos dois primeiros discos do Barão é muito magrinho... Não sei se era falta de capacidade técnica do estúdio ou da produção ou se foi intencional, o fato é que a sonoridade do Barão ficou no meio do caminho entre o rock e a new wave.
Ao Vivo não tem pra ninguém... New Wave? que é isso? marca de tênis? Roquenrrou tupiniquim da melhor qualidade este disco ainda trouxe duas músicas da era pós-Cazuza, a sensacional Pense e Dance (minha favorita da banda) e Quem Você Pensa que é? (composição inspiradíssima do Frejat), além da inédita Rock do Cachorro Morto e a homenagem à inspiração primeva (I Can't Get No) Satisfaction (o wikipadia informa ainda que uma edição relançada em 1998 incluía ainda 3 músicas. Não vou comentar porque não conheço a edição referida).
O título do disco originalmente é Barão Vivo. Talvez para lembrar que uns se foram, mas o Barão continuava (então) vivo, reinventado e mandando ver. Peça fundamental da discografia de rock brasileiro.
[M]

quinta-feira, 14 de abril de 2011

20 anos de rock brasil cd 3



Continuo o cd quádruplo com o número 3, que tem o subtítulo de 'Mudança de comportamento', nome também de uma música aqui presente e, se não me engano, um disco do Ira!.

O cd começa muito bem, com 'Exagerado', co-autoria de Cazuza com Ezequiel Neves e Leoni, uma música muito boa e a cara do cantor. Do primeiro disco solo de Cazuza, que ainda (ou já) trazia músicas com o sempre parceiro Frejat, uma das quais inclusive fecha o presente cd.

E volta o Lulu, com um quase ska abrasileirado e uma guitarra MUITO legal. 'Sincero' é uma das muitas pérolas do nosso maior hitmaker, e você ainda leva um solinho safado e hard com wahwah, com um saxofone querendo aparecer, do Leo Gandelman.

'Os outros' é mais uma pérola do subestimado Leoni, aqui quando ainda era do Kid Abelha, que inclusive na época ainda era K.A. e os Abóboras Selvagens. Do álbum 'Educação sentimental', já comentado por aqui. Informação nova: o release do disco era assinado por Caetano Veloso, o que confirma minha teoria: quem sempre chuta uma hora acerta no gol.

'Mudança de comportamento' é uma das duas músicas do Ira! nesse cd. Como já falei aqui, adoro o Scandurra mas a voz do Nasi não me agrada (o Zeba me achou injusto com o Nasi, mas nem é essa a questão, eu respeito seu trabalho e principalmente sua atitude, mas a verdade é que não gosto da voz). E a música nem é das melhores deles.

'Bete Balanço' é crássica, como diriam uns amigos aqui do blog. Balançada, tema de filme nacional teen soft porn, solinhos bonitos, voz carioquíssima (esses bem puxados, erres bem arrastados), guitarra pesada dialogando com a voz. Enfim, desafia o argumento do Baiano de que as bandas cariocas são 'mais fraquinhas'. De onde ele tirou isso??? Aguardo a tréplica, com exemplos.

Camisa de Vênus era chamada de banda punk na época, mas quando ouvimos 'Eu não matei Joana D'Arc' fica muito difícil entender isso. A música é muito legal e divertida, com uma bateria claramente new wave e um som rockabilly (os quais na verdade são filhotes do punk).

'Pelado', apesar de ter sido música de abertura de novela, nunca ficou chata. Deve ser porque a música é muito inteligente e de um humor sensacional, mas mesmo assim é surpreendente. E o solinho de poucas notas do Roger é genial. 'Indecente é vc ter que ficar despido de cultura' e 'Sem roupa, sem saúde, sem casa, tudo é tão imoral, a barriga pelada é que é a vergonha nacional' ainda são versos eternos.

Engenheiros da Hawaii, banda controversa, alguns adoram, muitos odeiam. Mas 'Infinita highway' é clássica, todo mundo canta ou já cantou junto, com sua letra que alterna entre o criativo e lírico e o ridículo e absurdo. Um sonzaço de baixo, claramente inspirado no ídolo Geddy Lee.

'Flores em você' é uma música atípica do Ira! e do rock brasil. Uma orquestra e um violão fazem o instrumental para a voz do Nasi. E mais uma que foi abertura de novela (por que os rocks de hoje não são mais utilizados? rock virou música de tiozinho? mas tiozinhos não vêem novela??). Diz a lenda que Liminha, produtor do segundo disco 'Vivendo e não aprendendo', em franca hostilidade com a banda durante a gravação, disse ao fim da gravação da base: 'Vcs estão vendo como é uma música afinada?'. hahahaha

Inocentes vêm dar um toque punk no cd: 'Pânico em SP', cujo EP já foi comentado por aqui. A música foi lançada 20 anos antes do fato realmente ocorrer, mas a música já era legal mesmo se fosse só ficção e não profecia.

Até aqui as bandas são conhecidas e quase todas ainda sobreviventes. As próximas duas ficaram conhecidas somente pelas músicas aqui presentes: 'Carta aos missionários' dos Uns e Outros e 'Camila, Camila' do Nenhum de Nós. As duas músicas são realmente muito interessantes e radiofônicas, pena que não conheço mais nada de nenhuma delas. O Nenhum de Nós acho que ainda sobrevive no Rio Grande do Sul com acústicos e quetais. A música deles ainda foi regavada pelo Biquini Cavadão e por um dueto entre Cazuza e Sandra de Sá (!!!).
É engraçado pra mim as duas bandas virem em seqüência. Uma vez eu estava num teatro no Rio vendo um show daqueles comemorativos de rádios, e na minha frente estava o pessoal do Casseta & Planeta, exalando maresia, ainda cult, fazendo piadas a rodo. Daqui a pouco, depois de uma dessas tocar, o Bussunda mandou 'enquanto nenhum de nós ganha porra nenhuma, uns e outros ficam ricos'...kkkkkkkkk.

Esse cd realmente é um dos melhores, não tem música ruim.

RPM foi uma banda pop de uma maneira que hoje ninguém imagina que seja possível, principalmente pelo fato que, talvez devido ao fato de vir do underground paulistano e também o sr Paulo Ricardo ter sido jornalista, a crítica era bem positiva e compreensiva com a atitude magalomaníca. Mesmo que hoje a letra e o som soem datados, 'Revoluções por minuto' é uma música pop-rock muito legal. Acho que ninguém vai postar o primeiro disco deles por aqui...mas merecia.

'Ideologia' (de Cazuza/Frejat) fecha o cd, na versão ao vivo, poderosa e raivosa, antecipando em um ano a queda do muro. Versos sensacionais.

Só falta o cd 4.

quinta-feira, 17 de março de 2011

20 anos de rock brasil cd 2


Continuamos a apreciação de mais um cd dessa coleção de 4.
O cd2 inicia bem, com a zen-surfista 'Como uma onda' do hitmaker supremo Lulu Santos, em parceria com o onipresente Nelson Motta. Belíssima e cheia de boas sacadas e timbres caprichados.
'Pro dia nascer feliz' foi mais uma música de sucesso do Barão Vermelho, a princípio gravada pelo catador de pérolas Ney Matogrosso. Rock'n'roll visceral e carioca, ponto alto de shows até hoje.
'Uniforme' é uma música fraca do Kid Abelha, que poderia estar melhor representado nesse cd, mas não fui eu que fiz a seleção...
O Ultraje a Rigor aparece com um clássico da new wave brasileira, só que com bateria de verdade. Mais uma letra genial do Roger, música pra dançar nas danceterias (como se dizia nos idos dos anos 80), solinho preguiçoso e interessante. 'Rebelde sem causa': "como é que eu vou crescer sem ter com quem me rebelar?".
'Música urbana', se não me engano - e eu me engano bastante, é uma música do Aborto Elétrico, banda primitiva do trovador Renato Russo, mas aqui vem embalada pela superprodução com metais synth quase cafonas, pianos suingados e aqueles conhecidos 'ô ô ôs' do Dinho. Gosto muito! 'E essa aqui eu dedico ao amigo distante Xampu, ilustre e feliz morador da nossa capital, onde as ruas têm o cheiro de gasolina'. E onde não têm?
Aí chega o Ira!, com uma clássica deles, 'Núcleo base'. Adoro o Scandurra, mas sinceramente nunca gostei da voz do Nasi, então sou suspeito em dizer que pulo essa música.
'Tédio' é uma música interessante e, como muitas da época (como 'Lágrimas e chuva' ou 'Fixação', por exemplo), é uma letra depressiva/obsessiva que devido ao som de festa(?) passa batida. O grande sucesso(??) do Biquini Cavadão!
'Até quando esperar' é das minhas preferidas. Desde o início inusitado com violoncelo passando pelas belas guitarras e aquele riff surpreendente de baixo. Mas acho a letra panfletária e quase chata. E continuo esperando a resenha de 'O concreto já rachou', promessa do Xampu...
'Beat acelerado II' nos lembra da figura deliciosa à frente da brazilian one hit band Metrô, da qual eu infelizmente não lembro o nome.
O grupo feminino e feminista libertário Sempre Livre (ótimo nome; o absorvente é anterior ao grupo? será que elas receberam royalties pela ideia??) aparece com a divertidíssima 'Eu sou free', seu grande sucesso(?), regravada por mais alguém de quem eu não lembro o nome. Se não me engano a Dulce Quental saiu daqui. O interessante é que a música é de co-autoria da global Patrícia Travassos (acho que é isso).
'Só pro meu prazer' é uma das Muitas excelentes músicas do grande compositor Leoni (a já citada 'Uniforme' é dele e do Léo Jaime - olha ele aqui de novo, Mateus), com seu grupo pós-kid Abelha Heróis da Resistência. Poesia musicada ('é tudo real nas minhas mentiras' etc), piano bonito com violão bonito, bateria real emulando bateria eletrônica, guitarra de fundo com ebow, caprichada.
O Zero foi uma das muitas bandas injustiçadas que ficaram pelo caminho, com um bom disco e algumas boas composições esquecidas. Era uma das poucas com um bom vocalista que realmente sabia cantar (além de tocar saxofone!). Além de um guitarrista com sonzaço. 'Agora eu sei' foi bem executada nas rádios pops e rocks, alavancada pela participação especial do pop star Paulo Ricardo. Bela música.
'Tempos modernos' é mais um dos hits do Lulu Santos. Clássico absoluto, foi regravado pela Marisa Monte no disco 'Barulinho bom'.
E pra finalizar o cd duplo vem a banda multi platinada dos grandes tempos de venda de discos, RPM, com uma música do seu segundo disco ('ao vivo'!!), 'Alvorada voraz', com a letra datada e pseudo rebelde. Teria sido melhor se eles tivessem caído de avião, não é verdade? Mas o apelo pop e o sonzaço são inegáveis.
Depois completo com os cds 3 e 4.
(Dão)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

20 anos de rock brasil cd 1



Como foi aberto o precedente de coletâneas, venho aqui comentar o primeiro dos 4 cds dessa boa coletânea.
É legal principalmente porque nos permite ver bandas médias ou mesmo medíocres que emplacaram um ou poucos hits nesse louco mercado nacional de rock.

Começa com um dos muitos hits daquele que é o nosso maior rock hit maker, Lulu Santos, que, incrivelmente não tem nenhum disco individual ainda postado por aqui. 'De repente, Califórnia' é uma música estranha, mas que com o tempo nos acostumamos. Já vi ele próprio falar sobre isso, pois é meio bolero com slide, e ele comenta que anos depois o Ry Cooder fez o mesmo no 'Buena Vista Social Club'. Também é surf music, mesmo que não corresponda à sonoridade esperada por esse tipo de música e por essa tribo.

Na seqüência vem o delicioso Kid Abelha, com 'Educação sentimental', que eu não sei se é inspirado no livro, filme ou seja lá o que for. Pop bom e sem culpa, ainda com a voz mais ou menos da Paula Toller, que depois melhorou enormemente.

'Todo amor que houver nessa vida' foi uma música do Barão que estourou por conta do Caetano, que a cantou num show e a partir daí se abriram os olhos para a excelente banda carioca. O som é fraco, sem pressão, confuso, só se salvando a voz rasgada do Cazuza. Mas é rock autêntico!

Uma piada, mesmo uma boa piada, só tem graça nas primeira vezes em que é contada, às vezes só na primeira vez. Esse é o caso da engraçada 'Serão extra' da banda Dr Silvana e Cia, do infame refrão 'eu fui dar, mamãe'.

Mais uma banda de um hit só, o Magazine, do histórico Kid Vinil, comparece aqui com a também engraçada mas um pouco irônica 'Sou boy'.

E mais uma banda engraçadinha, o Inimigos do Rei, traz 'Uma barata chamada Kafka', uma música que mistura humor e Kafka, com um som bem legal, inclusive uma guitarra com distorção! Outro sucesso bizarro deles foi 'Adelaide, minha anã paraguaia'. Dessa banda saiu o Paulinho Moska.

Aí chega o Ultraje a Rigor, distante anos-luz com seu humor inteligentíssimo e ainda atual, primeiro com 'Nós vamos invadir sua praia' e no fim do cd com o eterno quase-hino nacional 'Inútil'. Sonzaços!

'Perdidos na selva' é aquele caso que é difícil criticar. Parafraseando uma conhecida citação sobre o cinema nacional, Julio Barroso era um gênio mas o som é uma merda. A banda é Gang 90 & Absurdettes.

Tokyo era a banda do Supla, com um único sucesso 'Garota de Berlim', que conta com a participação especial da Nina Hagen. Legal, superficial, nonsense e com um som ótimo. Destrooooy.

'Menina veneno' foi o grande sucesso dessa geração, ultrapassando a barreira das rádios AM e alcançando uma massa maior do que adolescentes bem criados e roqueiros. Um som pop acessível e redondinho. Pra quem gosta, eu não sou muito fã. Ah, quem canta é o Ritchie, se você tem menos de 35 anos.

Léo Jaime tem um disco que merece ser postado por aqui, mas hoje ele será (bem) citado com a boa canção 'A fórmula do amor', na qual divide os vocais com a já citada Paula Toller.

Blitz! Um nome de impacto, quase tanto sucesso quanto o Ritchie, sendo absoluta na faixa infanto-juvenil, principalmente carioca. Eu lembro da primeira vez que ouvi 'Você não soube me amar' e que fiquei chocado no trecho 'eu preferia que você estivesse NUUUUAAA'. Outros tempos. Humor carioca e praiano, com boa música de fundo pras divertidas performances da trupe.

Antes da derradeira faixa 'Inútil', vem a Camisa de vênus, que teve problemas com a censura por conta de seu nome. A princípio identificada com o punk por jornalistas ignorantes, a banda traz um humor mais cáustico e uma sonoridade mais rockabilly, como na excelente 'Simca Chambord', na qual a história do golpe de 64 é vista pelos olhos de uma criança/adolescente.

(continua por mais 3 cds, sabe-se lá quando eu postarei; alguém pode dar seguimento)

(Dão)

domingo, 29 de março de 2009

Barão vermelho, o primeiro (1982)


E pensar que a dupla Cazuza & Frejat (‘o mais próximo de Jaggers & Richards que o rock brasileiro jamais chegou. Feitos um para o outro’ conforme Arthur Dapieve) só começou a nascer devido a um fracasso do grupo, um show furado na feira da Providência, no qual a produção não providenciou amplificação...
De posse de uma fita demo, Ezequiel Neves (um Barão de fato) convenceu Guto Graça Mello de que tinham boa coisa em mãos. Difícil foi convencer o diretor da Som Livre, João Araújo, pai de Cazuza. Mas assim foi.
A gravação do primeiro álbum foi tumultuada, muita gente no estúdio, Cazuza muito doido tendo problemas no andamento. Mas salvou-se, e foi lançado em 27/09/1982, um dia depois de ‘As aventuras da Blitz’.
Mal gravado, mas com muitas qualidades. Aproximava-se do amadorismo no melhor sentido, músicos inexperientes e muita vontade.
Afinal, um disco que tem ‘Todo amor que houver nessa vida’ necessariamente é um clássico.

‘Ser ter pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia
E ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia’

Depois Caetano tocou essa música no show de seu disco ‘Uns’, elogiando Cazuza e criticando as rádios que não tocavam o Barão. Havia aí um pedido de desculpas ao enciumado Cazuza que jogou uma mesa pro alto ao ver Caê se desmanchando pelo seu namorado...mas isso está parecendo Caras.
Mais tarde, com mais uma benção da MPB – Ney Matogrosso (ex namorado de Cazuza, olha a Caras aí de novo) gravou ‘Pro dia nascer feliz’, finalmente o Barão seria tocado nas rádios.

O Barão era formado por 4 colegas dos cursos de música da Escola Pro Arte: Guto Goffi, Maurício Barros, Frejat e Dé. Chamaram Leo Jaime pra cantar que, achando o grupo ‘esporrento’ demais, indicou Cazuza.
Os caras, como bem definiu Ricardo Alexandre, ‘conseguiam, instintivamente, encontrar um elo perdido entre o blues americano e as canções de dor-de-cotovelo de Dolores Duran, entre os gritos hippie de Janis Joplin e o resmungo tosco do punk; fazia a ponte entre os riffs herdados dos Rolling Stones e a esperteza das esquinas cariocas. E as letras uniam a marginalidade cosmopolita de Lou reed à boemia de Lupicínio Rodrigues’.
Finalmente A Banda de Rock brasileira. Ou conforme o citado Ezequiel Neves ‘rock sem frescura, sem nada de bem-comportado, garagem mesmo’.

Mas vamos às músicas:
‘Posando de star’ inicia bem, com uma bateria e o vocal característico do Cazuza, depois vira um rock básico e animado.
Aí o álbum cresce, ‘Down em mim’ é uma belíssima balada, pena que pouco executada. Letra típica (‘da privada eu vou dar com a minha cara de panaca pintada no espelho e me lembrar sorrindo que o banheiro é a igreja de todos os bêbados’) e bonito solo blues de guitarra limpa do Roberto Frejat!
‘Conto de fadas’ mantém o pique, e ao contrário da inspiração citada de fossa, mostra que a solução dessa geração era diferente. Se não deu certo, segue a vida.
‘Billy Negão’ estava na demo original, legal, animada, bem-humorada.
‘Certo dia na cidade’ começa instrumental, depois fica meio igual, mas dá uma mudada e vem mais um solo inspirado.
‘Rock’n’geral’ segue no pique, com solinho de teclado e tudo, uma declaração de princípios.
‘Ponto fraco’ é uma das melhores do disco, arrastada e malandra, uma letra que diz tudo (‘todo mundo tem um ponto fraco, você é o meu, por que não?’). Depois eles regravaram no ‘Ao vivo’, mais pesadona.
‘Por aí’ é mais uma declaração de princípios doidona, ouça e descubra de novo...
‘Todo amor que houver nessa vida’ dispensa comentários, poesia e rock’n’roll ao extremo.
E aí fecha com chave de ouro: ‘Bilhetinho azul’, tchu tchu tchuru.
(Dão)