Mostrando postagens com marcador Tom Jobim. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tom Jobim. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O cair da tarde, Ney Matogrosso




Como tenho pegado pesado por aqui (e assim continuarei, amigos não metálicos), hoje vou dar uma breve aliviada, afinal, ninguém é de ferro, com exceção do Tony Stark, Lemmy & Ozzy & Keith...


Gosto muito de 'Olhos de farol', também do Ney, que postarei aqui se ninguém o fizer primeiro, mas esse disco aqui é belíssimo, desde a escolha do repertório (imbatível na música brasileira!), a interpretação sempre excelente, os arranjos, o grupo de músicos 'acompanhantes' e finalmente, o projeto gráfico de extremo bom gosto. Por isso, inclusive, incluí mais uma imagem além da capa. Também porque o Ney, além de importantíssimo pra música brasileira, é um homem lindo em muitos sentidos.


Essa semana peguei o disco para ouvir no carro e entendi porque demorei pra postá-lo aqui, pois desde que o tenho, sempre o achei sensacional.

Mas a verdade é que é um disco melancólico, bem triste (o que, em se tratando do melhor repertório possível, talvez informe algo sobre a música e a alma, dentre as muitas possíveis, brasileiras). E aqui em Curitiba, principalmente nos meses frios (que são quase todos) e cinzentos (que são a maioria), ouvir música triste, mesmo que linda, não é aconselhável se você não planeja cortar os pulsos. Mas para aquela específica tarde pós tatuagem na barriga (não aconselho, dói MUITO), o bálsamo veio a calhar.

Vamos à obra então, que começa em alto nível com a faixa que dá nome ao disco, uma das 6 músicas do Maestro Heitor Villa-Lobos gravadas, aqui em parceria com Dora Vasconcellos. Piano lindo a cargo do também arranjador Leandro Braga, guitarra do craque Ricardo Silveira e colaboração do grupo 'experimental' Uakti, que comparece com tambor d´água e pios (!!!). Vocês, amigos colaboradores, deviam ver se aquele amigo bizarro tocador de vagem não foi recrutado pelo Uakti...


'Modinha' (Tom Jobim/Vinícius de Moraes) dá seqüência ao disco, com sua melancolia e beleza infinitas. Mais um arranjo delicadamente lindo.


'Veleiros', mais uma do Villa-Lobos, traz um pouco mais de cadência, um balanço de mar ao piano, uns sopros angelicais dividindo espaço com a voz do nosso intérprete garimpador. "Quanta tristeza/ ondas do mar/ nesse vai e vem/ sem me levar/ pois sempre eu fiz muita atenção/ em não pisar teu coração".


'Tema de amor de Gabriela' (que eu achava que era do Caymmi, mas é do Tom) continua trazendo doses de tristeza e requinte ao caldeirão. "A tua boca é meu doce, é meu sal/ mas quem sou nesta vida tão louca?/ mais um palhaço no teu carnaval/ Casa de sombra, vida de monge/ quanta cachaça na minha dor/ volta pra casa, fica comigo/ vem, que eu te espero tremendo de amor". Segura as pontas, ouvinte amigo, toma o lítio e não se mate!


Outra música chamada 'Modinha (serestas)', esta do Villa-Lobos com Manuel Bandeira, continua maltratando nossos corações e acariciando nossos ouvidos. "Na solidão da minha vida/ morrerei, querida/ do teu desamor/ muito embora me desprezes/ te amarei constante/ sem que a ti distante/ chegue a longe e triste voz do trovador".


'Sem você' (Tom Jobim/Vinícius de Moraes) me faz pensar sobre o mito lingüístico de que a palavra saudade só existe em português. Porque é esse o sentimento predominante em grande parte do cancioneiro popular (e erudito/clássico, como esse disco demonstra), talvez a saudade lusitana tenha se somado ao banzo africano e à desilusão indígena.

"Meu amor/ meu amor/ nunca te ausentes de mim/ pra que eu viva em paz/ para que eu não sofra mais/ tanta mágoa assim/ no mundo sem você"


'Melodia sentimental', mais uma do Villa-Lobos/Dora Vasconcellos, é mais uma belezura, falando da lua, da noite, da sombra, da espera. Um pouco menos triste. Arranjo minimalista, quase inteiro só voz e piano, com uma discreta percussão.


'Canção em modo menor' (da dupla Tom/Vinícius) já me faz questionar sobre a influência dos tais modos menores (a saber: eólio, dórico, frígio e lócrio) em músicas mais tristes. Mas me falta conhecimento ou ouvido absoluto para emitir uma opinião técnica sobre as composições desse disco. Aqui só piano e voz. Triste, triste, triste. Bela, bela, bela. "Porque cada manhã me traz o mesmo sol sem resplendor/ e o dia é só um dia a mais/ e a noite é sempre a mesma dor/ porque o céu perdeu a cor/ e agora em cinza se desfaz"


'Prelúdio Nº 3 (Prelúdio da solidão)", de Villa-Lobos e Hermínio Bello de Carvalho dispensa explicação, mais do mesmo excelente vinho amargo. Meio etérea, quase flutuante.


Daqui pra frente o disco dá uma animada, primeiro adentrando no terreno do folclore, depois finalizando com o creme de la creme.


'Caicó (cantigas)' ainda é um pouco triste, mas o apelo popular e a familiaridade quase nos fazem sorrir.

O pout pourri 'Cirandas' traz músicas que todos cantamos ou ouvimos nas nossas infâncias: 'Se essa rua fosse minha', 'Terezinha de Jesus', 'Condessa', 'O cravo brigou com a rosa (instrumental)', 'A maré encheu' e 'Passa, passa, gavião (instrumental)'. O arranjo privilegia o som do Uakti, com percussões melódicas com sons exóticos, além dos belos sopros fazendo elementos de passagem.


E aí, se sobrevivemos a tanta beleza triste, somos premiados com três das melhores músicas já escritas nesse belo planeta azul, bem mais felizes (talvez as tonalidades sejam maiores por aqui, impressão minha), principalmente em relação ao repertório anterior: 'Trenzinho do caipira' (Heitor Villa-Lobos com poema de Ferreira Gullar!) , 'Águas de março' e 'Pato preto' (essa com um instrumento meio oriental e um solinho de viola!) , você sabe de quem, ou deveria saber!


Enfim, ouça, curta, se emocione, mas escolha um dia feliz, ensolarado e em boa companhia, sacou? Ou tome rivotril, prozac ou outro psicoativo eufórico.


E pra terminar uma sacada do grande frasista Tom Jobim, nosso maestro soberano, transcrita aqui no disco: "O Villa-Lobos é asim meu pai, é meu tudo. Estou com vontade de botar uma música do Villa-Lobos no meu disco. É mais do que uma homenagem, é pro disco ficar mais bonito. Pra eu sentir que tinha alguém que gostava mais de música do que eu".

sábado, 12 de junho de 2010

A Voz e o melhor Piano


Pô, isso aqui é um site de comentários, mas esse aqui é o disco mais 'sem comentário' da história.

Tom Jobim, Frank Sinatra, Claus Ogerman nos arranjos e condução, um repertório impecável - incluindo algumas das melhores de Tom (difícil isso também: o que seria o pior do Tom???) mais 3 standards do chamado American Great Songbook, e o que mais? Não precisa de mais nada.

Seria perfeito se alguém tivesse dito ao Tom que NINGUÉM deveria cantar depois de Sinatra, sob risco do contraste avassalador.

Tom na verdade tocou violão ('imagem mais latina') e ficou dias esperando num hotel Frank voltar de Barbados devido a uma crise conjugal com Mia Farrow (momento Caras). Mas depois...como diz o lugar comum, o resto é história.

Gravado em 3 dias! Dizem que o cantor declarou só ter cantado tão baixo quando teve faringite...

'O disco do ano' (qualquer ano, acrescento) pela crítica americana, só perdeu em vendas no ano para o 'Sgt Peppers'.

Se é um disco brasileiro? É um disco de bossa nova, com o Maestro Soberano Tom Jobim. And The Voice. Contém todos os 'conceitos' do gênero, ouvindo você consegue imaginar perfeitamente um dia de sol em Copacabana, um chopp à beira mar ou uma água de côco com aquela maresia (do mar mesmo), moças e mulheres se bronzeando, o barulho das ondas. Ou eu viajei demais?

Mas não é cantado em português, exceto nos momentos infelizes em que Tom canta. E foi gravado nos EUA.

Além de tudo é um disco sobre amor, mesmo quando a ótica é a da insensatez, com culpa, perdão, orgulho e tudo o mais envolvido. As versões em inglês são excelentes, em alguns casos mudando sutilmente o sentido original, como em 'Insensatez' que, em sua english version, ao invés de culpar o coração do poeta pelo término do romance, lamenta sua frieza.

Olha aqui:
1- The girl from Ipanema (Garota de Ipanema)
Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes / Norman Gimbel
2- Dindi
Antonio Carlos Jobim / Aloysio de Oliveira / Ray Gilbert
3- Change Partners
Irving Berlin
4- Quiet nights of quiet stars (Corcovado)
Antonio Carlos Jobim / Gene Lees
5- Meditation (Meditação)
Antonio Carlos Jobim / Newton Mendonça / Norman Gimbel
6- If you never come to me
Antonio Carlos Jobim / Aloysio de Oliveira / Ray Gilbert
7- How insensitive
Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes / Norman Gimbel
8- I concentrate on you
Cole Porter
9- Baubles, bangles and beads
Wright / Forrest
10- Once I loved (O amor em paz)
Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes / Ray Gilbert


Ou melhor, não olha não.

Ouça.

Compre, baixe, pegue emprestado, copie, roube.

Mas ouça.
(Dão)

sábado, 27 de setembro de 2008

Porque hoje é sábado... (Tom, Vinícius, Toquinho e Miucha ao vivo no Canecão - 1977)


Esse é um dos poucos discos nacionais que teve a honra de ser incluído da publicação que serviu de inspiração para esse blog, e só isso seria já motivo suficiente para sua inclusão. Mas com pouco espaço, as suas inúmeras qualidades não foram suficientemente analisadas naquela lista.
Trata-se da gravação em 1977 do show no Canecão (casa de espetáculo famosa no Rio de Janeiro), que reuniu quatro gigantes da bossa nova em um momento de total sintonia, difícil de ocorrer em ocasiões semelhantes.
Começa em ritmo eletrizante com “Estamos Aí”, emendando com a entrada de Vinícius de Moraes recitando a sensacional “Dia da Criação”, porque hoje é sábado.... Confesso que naturalmente sou avesso a poesias em show de música e, mas dessa vez, o poeta acertou totalmente o tom. Em seguida, partem para uma “Tarde em Itapuã”, composição da parceria Toquinho/Vinícius que dispensa apresentação, emendando com “Gente Humilde” (Toquinho).
Em seguida, duas canções em uma: “Carta ao Tom” e “Carta do Tom”, uma espécie de brincadeira entre esses amigos que retratavam em carta ao distante Tom, como a cidade havia mudado:
“Lembra que tempo feliz, ai que saudade, Ipanema era só felicidadeEra como se o amor doesse em pazNossa famosa garota nem sabiaA que ponto a cidade turvaria este Rio de amor que se perdeu”
O disco segue com um cantinho e um violão do Tom Jobim interpretando o clássico “Corcovado”, canção que serviu de inspiração para batizarem, justamente diga-se de passagem, o aeroporto internacional do Rio de Janeiro de Maestro Antonio Carlos Jobim, emendando com “Wave”, cujo disco original foi o primeiro citado no presente blog..
Em seguida, Miúcha entra no palco para dar o toque feminino ao show, com a versão que se tornou definitiva de “Pela Luz dos Olhos Teus”, em interpretação dupla com Tom.
No momento certo, o ritmo diminui com “Saia do Caminho” e “Samba pra Vinícius”, mais uma homenagem de Miúcha e Toquinho ao poeta.
Mesmo com toda a fama, com toda a Brahma, com toda a cama, com toda a lama, o quarteto segue com “Vai Levando”, de Chico Buarque e Caetano (outro dois monstros sagrados que acabaram, dessa forma, também contribuindo para esse disco).
Na seqüência, “Água de Beber” é outra que dispensa comentários, seguida da mais famosa canção composta em mesa de bar por amigos inspirados pela beleza de uma garota que passa. “Garota de Ipanema” foi eleita a 14ª canção essencial da música brasileira pela revista Bravo recentemente e deveria ser matéria obrigatória no ensino fundamental. Nessa interpretação, há inserções de lembranças do Vinícius da garota vestida de normalista que olhava e sorria pra eles... por causa do amor...
Depois de “Sei lá”, mais um momento de pura inspiração da parceria Toquinho/Vinícius com frases lapidares como a hora do sim é um descuido do não. Genial.
Se você quer ser minha namorada..., o show segue em um momento romântico com mais uma bela interpretação da Miúcha com “Minha Namorada”.
Como se não bastasse, o disco finaliza com “Chega de Saudade” (eleita 4ª canção essencial da música brasileira pela Bravo), pois há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que eu darei na sua boca, complementando com “Se todos fossem igual a você” e um bis de “Estamos Aí”.
Pessoalmente, esse disco me traz recordações da infância, pois lembro que minha irmã, mais velha, escutava-o sem parar e eu, sem a capacidade de absorver totalmente a magia que representava naquela idade, ironizava o “dia da criação” com todos os sentidos do sábado. Felizmente, depois de um tempo passei a valorizar esse disco que hoje ocupa lugar especial na prateleira. Tudo isso porque hoje é sábado.
[PAUL]

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Iniciando bem: Wave - Tom Jobim - 1966


Clichês não são bem vindos em nenhuma resenha por aqui, mas às vezes são inevitáveis.
Tom Jobim é phoda (do latim 'phoddum').
E esse disco, com arranjos do Claus Ogerman, é muito foda.
Praticamente sem vocais, com conduções suaves e discretas e criativas de cordas emoldurando as harmonias e melodias perfeitas do Antônio Brasileiro, esse disco não é conhecido como deveria, apesar do repertório impecável.
A própria faixa título não é a versão mais conhecida e tocada nas rádios easy listening. Até porque provavelmente os seus ouvintes queiram ouvir vozes. Mas inicia com dois pés direitos o discaço.
Destaco 'Batidinha', por conter a consagrada síncope da bossa-nova, copiada a rodo depois em estilos soníferos muzak e trilhas de elevador. Pena não tocarem esse discos nos elevadores da vida...
'Triste', mais uma sensacional canção do Mestre, nem precisa de letra pra 'dizer' o que tem que dizer.
'Lamento' é a mais uma conhecida, aqui é cantada pela voz fraca do Tom, que também toca violão impecável (privilegiado pela mixagem, bem 'na cara') em todo o disco, além do conhecido piano e 'harpsicord', seja lá o que for isso.
Outros músicos de destaque no disco são Ron Carter no baixo (cara onipresente na bossa nova, apesar de americano) e o batera Dom Um Romão (grafado como Domum no disco!).
Completam o repertório: The red blouse, Look to the sky, Mojave, Dialogo (linda), Antigua e Captain Bacardi.
Gravado em 1967, lançado pela A&M Records.
Mal sabia ele o quanto seria diluída sua música mundo afora.