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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Fim de ano é época de Noel...



Para fechar o ano, resolvi fazer justiça com um dos grandes artistas da música brasileira que até o momento não foi citado, muito provavelmente porque na sua época não se produzia “discos” tal como conhecemos conceitualmente nos dias de hoje, tornando-se mais conhecido pelas suas composições tão gravadas que por algum disco específico. Trata-se de Noel Rosa.

Como nos anos 20 e 30 as gravações de canções eram esparsas, o disco citado aqui foi lançado primeiramente apenas em 1965 através do Selo MIS, do Museu da Imagem e do Som, que foi criado com o objetivo de resgatar registros de nomes notáveis da música brasileira. Mas foi inteiramente constituído por gravações realizadas entre os anos de 1930 e 1936. Mais recentemente, em 1997, esse mesmo disco foi remasterizado em processo digital, mas suas canções não perderam aquela sonoridade antiga, cuja audição faz lembrar os velhos vinis rodando com seus ruídos característicos. Foi essa versão quefelizmente caiu em minhas mãos, presenteado pela minha mãe, que possui um acervo de discos nacionais espetacular (e a ela que dedico essa resenha).

Seu garçon faça o favor..de me trazer depressa...um boa média que não seja requentada....Quem não conhece “Conversa de Botequim”, que abre o disco? Gravada em 1935 com o Conjunto Nacional, essa canção marcou não só a sua curta carreira, mas sim a história da música nacional a ponto de ser gravada diversas vezes por grandes nomes da MPB, como Chico Buarque, Maria Rita e João Nogueira (provavelmente a versão mais conhecida).

Depois de “João Ninguém” e “Arranjei um Fraseado” (arranjei um fraseado que já trago decorado para quando lhe encontrar...”), vem “Onde está a honestidade”, mais um clássico samba, regravado recentemente pela Paula Toller e pela Orquestra Imperial.

Adepto da boemia, Noel encontra nessa vida a maior inspiração para suas canções, como as seguintes “Provei, (Quem fala mal do amor...não sabe a vida gozar...quem maldiz a própria dor.. tem amo, mas não sabe amar) e “Você vai se quiser” (você vai ser quiser...você vai se quiser...pois a mulher não se deve obrigar a trabalhar...mas não vai dizer depois que você não tem vestido , que o jantar não dá pra dois), ambas gravadas  com Marilia Batista e Benedito Lacerda e seu conjunto.

Antes de completar 20 anos, no final de 1930, gravou “Com que Roupa”, que se tornou um seus maiores clássicos e fez grande muito sucesso no carnaval de 1931. Essa canção foi inspirada na ocasião em que sua mãe escondeu suas roupas na tentativa de impedir mais uma noitada.

Vivendo de trocados que conseguia com as suas composições, mas torrando tudo com bebidas e mulheres, Noel Rosa também transforma sua má relação com dinheiro em temas para músicas bem humoradas em “Quem dá mais?” e “Cordiais Saudações”. Até o lançamento desse disco, a versão de “Cordiais Saudações” aqui gravada estava inédita, já que o próprio Noel tinha classificado-a como “horrível” e rejeitado, para gravar outra com o Bando dos Tangarás. Terminou que essa versão ficou guardada por Almirante, um dos seus principais parceiros, e só foi revelada muito depois de sua morte.

Depois de desfilar seu bom humor com “Mulata Fuzarqueira” e “Coração” (na qual satiriza o tal sangue azul), o disco fecha com “Minha Viola”, canção em que faz uma ponte entre o samba e a legítima música caipira (estilo denominado como “embolada” no disco): Minha viola...tá chorando com razão....por causa duma marvada...que roubou meu coração.

A seleção das músicas nesse disco, por fim, ficou excelente. Mas é claro que com o repertório tão vasto, certamente muitas canções clássicas acabaram ficando de fora, como “Gago Apaixonado”, “Palpite Infeliz” ou ainda “Pra que mentir”. Mas de qualquer forma esse trabalho do MIS merece ser louvado. A se lamentar apenas o fato de que a falta de maiores cuidados com a saúde aliada à boemia acabou levando Noel Rosa muito cedo (com apenas 26 anos em 1937). Certamente ele teria deixado um legado muito maior. Mas o jeito é homenageá-lo da melhor forma: abrindo uma cervejinha e entrando no clima que esse disco consegue trazer.

Para escutar: http://grooveshark.com/#!/album/Noel+Rosa+E+Sua+Turma+Da+Vila/6399202

[Paul]

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Nelson Freire interpreta Villa-Lobos


Acho que com esse cd fico tranquilo se o mundo acabar essa semana.

Faltavam esses dois grandes da música brasileira (claro que provavelmente faltem mais, mas no momento é o que me ocorre) e com um cd mato dois coelhos com uma cajadada (ou na versão popularesca, com uma 'caixa-d´água'...). Mais ainda, serve de sugestão para o mais novo bebê mufumu: o Chicão! Se bem que há tensão em algumas músicas (é mito que música erudita ou 'clássica' seja calma e/ou relaxante, acredite em mim), principalmente em 'Bruxa - a boneca de pano'.

Aqui está o internacionalmente conhecido pianista brasileiro Nelson Freire. Existe um documentário muito elogiado dele que infelizmente eu não vi, apesar da minha locadora preferida em Curitiba, a Cartoon, ter (fica a dica aos amigos curitibanos).

Aqui está também o gigante compositor Heitor Villa-Lobos, com um conjunto de oito peças inspirado em canções folclóricas: 'A prole do bebê', para piano, que encantou Arthur Rubinstein, grande pianista polonês, que passou a executá-las mundo afora.
São as peças (aviso: os nomes são pré era do politicamente correto):
'Branquinha - a boneca de louça',
'Moreninha - a boneca de massa'
'Caboclinha - boneca de barro',
'Mulatinha - a boneca de borracha',
'Negrinha- a boneca de pão',
'Pobrezinha - a boneca de trapo',
'O polichinelo' e
'Bruxa - a boneca de pano'.

Ainda tem 'Bachianas brasileiras nº 4', 'As três Marias' e 'Rudepoema'.

Essa informação e uma resenha mais específica, bela e especializada para conhecedores da música erudita encontrei aqui:
site Instrumental Brasil
(na verdade vi que é uma transcrição do encarte do cd, escrito por Luiz Paulo Horta, mas vale a visita ao site)

O que posso dizer é que um disco muito bonito, interessante mesmo aos sem maiores conhecimentos de música erudita, e que serve como boa introdução às obras desses dois brasileiros.

Nelson Freire lançou recentemente um disco com interpretação de mais Villa-Lobos e outros compositores (Camargo Guarnieri, Cláudio Santoro, Francisco Mignone, Lorenzo Fernandez, Barrozo Neto, Henrique Oswald e Alexandre Levy): 'Villa-Lobos & friends'.

Wikipedia sobre Nelson Freire
Wikipedia sobre Heitor Villa-Lobos

(Dão)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Candeia - sucessos + raridades

E pra encerrar a semana, um exemplar do 'puro' samba, se é que isso existe. Eu tendo a concordar com o Hermano Vianna no seu excelente 'A invenção do samba', reverberado explicitamente pelo Fred 04 num álbum que em breve será resenhado pelo amigo Mateus 'É tudo uma grande invenção'...
Em geral as coletâneas não são bem-vindas por aqui, mas esse tipo e-collection é bem legal porque traz sucessos e raridades. Tenho alguns em casa (Tom Jobim, Ultraje, Ed Motta, Kid Abelha, Barão, Titãs) e todos eles trazem coisas interessantes. Como esse é o único disco (pois é, eu ainda compro; quando eu morrer, provavelmente uns meses depois a indústria vai sentir um baque e mandar uma coroa de flores...) que eu tenho do Candeia, vai ser este mesmo.

Sambista, cantor e compositor, foi grande defensor das tradições afro-brasileiras, tendo até mesmo criado (diz a lenda) as Comissões de Frente das escolas de samba e também fundado a Escola de Samba Quilombo. Faz parte do panteão de grandes nomes da Portela.
História triste, levou um tiro na coluna que lhe tirou o movimento das pernas e o levou à aposentadoria, o que por sua vez, o permitiu se dedicar exclusivamente ao samba.

Obteve mais popularidade através de intérpretes, como Clara Nunes, que gravou 'O mar serenou' no LP de sucesso 'Claridade', ou Martinho da Vila, que gravou o pout-pourri 'Em memória de Candeia' (Dia de graçaFilosofia do sambaDe qualquer maneiraPeixeiro grã-fino e Não tem vencedor) no disco 'Tá delícia, tá gostoso'.

Eu, como quase ignorante do sambista, presto aqui a minha homenagem através desse álbum (que descobri que contém os álbuns 'Axé: gente amiga do samba' de 1978 e 'Luz da inspiração' de 1977, além de outras faixas), que contém as seguintes músicas:

Disco Sucessos:
1. Riquezas do Brasil (Brasil Poderoso)
2. Maria Madalena da Portela
3. Olha o samba Sinhá (samba de roda)
4. Vem menina moça
5. Nova escola
6. Já curei minha dor
7. Luz da inspiração
8. Me alucina
9. Falso poder
10. Era quase madrugada
11. Cabocla Jurema

Disco raridades:
1. Pelo nosso amor
2. Não vem (assim não dá)  [com Nelson Cavaquinho, Elton Medeiros e Guilherme de Brito]
3. Sou mais o samba  [com Dona Yvonne Lara]
4. Expressão do seu olhar
5. Pintura sem arte
6. Ouro desça do seu trono
    Mil réis
7. Vivo isolado do mundo
    Amor não é brinquedo
8. Zé Tambozeiro
9. Dia de graça
10. Gamação
      Peixeiro granfino
      Ouço uma voz  [sobre texto de Nelson Amorim]
      Vem amenizar
11. O invocado
      Beberrão

Tenho impressão (não tenho o cd em mãos agora) que 'Vivo isolado do mundo' foi regravado no álbum, já resenhado aqui pelo Paulinho, 'Tudo azul', com a Velha Guarda da Portela, sob direção da Marisa Monte, fã do sambista e portelense. (errata: talvez haja outra música do Candeia nesse 'Tudo azul', essa aqui foi regravada pelo Vinícius Cantuária no disco 'Tucumã', se não me engano)

Mais fontes de informação:
Wikipedia
Só Candeia
Musparade (site gringo de compra de músicas)

(Dão)

Hoje o post é dedicado ao histórico e já saudoso Barney.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Virgulóides - Virgulóides?



Como ainda é a semana do samba (se não é, instituí agora!), vamos para mais misturas com o gênero.

Anteontem, quando estava comentando sobre o Marcelo D2, lembrei dessa outra mistura aqui, que também é interessante, mas por ser engraçadinha, não foi levada a sério, se é que deveríamos...

Aqui não é samba com rap, é samba com rock, e rock pesado. Com alguns momentos de metal, pagode e axé...

O nome vem da mistura de Virgulino (Lampião) com o saudoso desenho do Herculóides (homem-mola, multi-homem e homem-fluido, você lembra se tem mais de 40).
Como toda piada, mesma as boas, é engraçadíssimo na primeira vez que você ouve, mas nas seguintes vai perdendo a graça, até chegar no ponto da irritação. E isso se aplica à mais bem sucedida piada musical do Brasil, os Mamonas Assassinas (que merecem um post sim). Aqui há um humor fluente, e eles criam historinhas legais.
A produção é do sempre competente e criativo Carlos Eduardo Miranda, que também produziu os Raimundos, que por sua vez também participaram do disco seguinte dos Virgulóides, 'Só pra quem tem dinheiro?' (por que sempre tem uma interrogação???)

A banda é formada por Henrique Lima (voz, violão e guitarra), Beto Demoreaux (baixo e voz) e Paulinho Jiraya (bateria, percussão e cavaquinho), tendo como músicos de apoio Marcelo Fumaça (backing vocal, guitarra base e cavaquinho), Negreli (percussão e backing vocal) e Biroska (percussão).
É uma galera 'dafa' (como dizem meus amigos aqui do blog), se não de verdade pelo menos em aparência e atitude..São de Cidade Dutra, zona sul de sampa.

A primeira e mais conhecida música, 'Bagulho no bumba', foi MUITO tocada, então saturou mesmo, mas é legal, cavaquinho alternando com guitarra bem distorcida, vocais bem colocados.
"É, é, é, eu acho que o bagulho é de quem tá de pé"

Em seguida 'House da madame'.

As músicas são todas curtas e relativamente parecidas, alternando entre o samba e o rock, em alguns momentos até hardcore bem acelerado, como em 'Zoião de Sapo-boi'.
"ô meu filho, aonde é que você foi?
Só chega de madrugada,com os zoião de sapo-boi"

'Festa na Dona Teta' tem até uma slide guitar maneira e pesadona, além de um solo bem metal no meio. É um disco interessante e muito original, que funciona tanto num churrasco quanto numa audição solitária (totalmente!) sem preconceitos, com alguma tolerância... As letras, apesar de muito humor, também tem um pouco de sarcasmo, pouco percebido pela massa.

'Sebunda-feira' começa mais lenta, depois volta pra fórmula, meio samba, depois marcha de carnaval.

'Dum dum' (música tradicional sul-africana!) é meio (pra não dizer totalmente) sem sentido, mas vale pela diversão...e dá aquela manjada subida de tom no meio, pra animar!

'Salve o cabra-macho' já começa um pouco diferente, com uma guitarra suingada com wah-wah, que alterna com uma outra mais pesada, aquele canto arrastado e paulistano até a alma...legal, meio machista mas engraçada.
"salve, salve
o cabra-macho em extinção
pois do jeito que a coisa tá indo
só sobra viado e sapatão"

'Nego velho (o mano véio)' é daquelas adaptadas tipo 'esporrei na manivela'.

'Raimunda' nem precisa dizer sobre o que é...
"ô Raimunda
joga essa bunda pa gente"

Pra terminar uma marchinha com sopros meio malucos, 'Qué picá'.

Fontes de mais informação:
Saqueando a cidade
Wikipedia

(Dão)

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Altamiro Carrilho - Chorinhos didáticos para flauta



Bom, no geral, este blog está em falta com a música instrumental brasileira, e eu particularmente me sinto em falta com o agora finado Altamiro Carrilho e com o também finado Celso Blues Boy (que terá minha próxima resenha assim que conseguir achar ouvir 'Som na guitarra'). Fui até coagido gentilmente pelos meus amigos a abortar a saga dos álbuns solo por causa do Celso...
Altamiro Carrilho além de tudo é de Santo Antonio de Pádua, cidadezinha do norte fluminense próxima a Cambuci, cidade do meu pai biológico.
Sem esse virtuoso flautista, nos sobram hoje em dia no Brasil somente dois dos Grandes: Hermeto Pascoal e João Gilberto.
Esse disco específico é um dos dois que tenho dele, além de uma coletânea de choros onde ele interpreta Flamengo!
Além das músicas excelentes que, excepcionalmente, não serão comentadas uma a uma, o cd vem com as partituras e cifras dos choros!! Melhor ainda pra quem as lê fluentemente, o que não é o meu caso, mas com paciência chego lá. A crítica, não ao autor, é que, por força do tamanho diminuto dos encartes de cds, fica difícil ler, ainda mais depois dos 40 anos, obviamente o caso de todos nossos antigos colaboradores (com exceção da sempre genial Andreia, que deve ter uns vinte e poucos, com certeza). Mas nada que uma boa ampliação não resolva...
Você, mesmo que nunca tenha ouvido nenhum disco dele, possivelmente já o ouviu, talvez na introdução de uma música do Rei cujo nome não lembro agora (Detalhes, viva o google) e também no choro Meu caro amigo (Chico Buarque). No youtube tem uma participação num especial de 1976 do Roberto Carlos onde ele toca O calhambeque e Eu sou terrível.

Dá uma olhada aqui que tem muita coisa boa:
https://www.google.com.br/webhp?source=search_app#q=altamiro+carrilho+roberto+carlos&hl=pt-BR&prmd=imvnso&source=lnms&tbm=vid&sa=X&ei=jvOXUIjLF8ji0gGpzIGQAg&ved=0CAkQ_AUoAw&bav=on.2,or.r_gc.r_pw.r_cp.r_qf.&fp=5bd70720fe26254d&bpcl=37189454&biw=1440&bih=742

O disco traz 12 chorinhos (sem nome, só identificados por números) em duas versões, com e sem a flauta, para que você possa tocar ou improvisar a melodia. Além de legal, didático, com todas as músicas compostas pelo mestre flautista 'especialmente para um aprendizado correto e facilitado'.
Produzido por Jorge Gambier.

(Dão)


quarta-feira, 11 de abril de 2012

Santorini Blues, Herbert Vianna






Vamos continuar com discos solos de músicos com outras bandas então.


Com muitas informações tiradas do excelente livro 'Os Paralamas do Sucesso - Vamo batê lata', do Jamari França.


Este aqui é um disco bem artesanal, feito 'só' pelo Herbert! Mas isto em nada prejudica a sonoridade do álbum, límpida e cristalina, mas bem suave pela ausência de bateria e baixo.



Quase todas as músicas tem sonoridade 'acústica' (termo que exige cautela depois da séria vitoriosa da MTV, que abrange até o disco mais pesado dos Paralamas, justamente o Acústico), mas com guitarras eventuais e ebows inteligentes (não sabe o que é vai no google).

Foi gravado em um dia e meio!, no estúdio O'Henry, LA.


Engraçado é o nome ser de um música que não está no disco, só no disco dos Paralamas 'Hey na na'.


O disco começa com uma das 3 músicas já gravadas pelos Paralamas: Dos Margaritas, uns violões bonitos, utilizando bem o estéreo, letra muito legal.


Em seguida uma gravada pela co-autora Fernanda Abreu, Speed Racer. Pandeirinho discretíssimo, uma harmonia legal, letra meio recitada, solinhos em contraponto. A versão da Fernanda tem o Fernando Vidal solando com muito drive, então nem vou comparar...


Round em round, cantada em inglês, é sobre maturidade, tema raro no rock em geral. Uns vocais espalhados no pan harmonizam belamente o refrão. Meio Beatles, esta tem guitarra.

Pólvora é mais uma dos PS, mas aqui ficou bem diferente, com bandolim e violões (até tem um que trasteja bastante, deve ser um ovation...que o Herbert gosta, apesar de meu amigo Duayer desaprovar). Mais uma letra excelente.

Tweety é instrumental, coisa que os PS não fazem há tempos. Tema bucólico, como disse o Jamari, violões rurais. Lembra muito a música, por enquanto instrumental, 'Desbalada', do amigo e colaborador Mateus.


Annie (Eric Clapton/Lambert/Lane, eu não conheço a original), segue no mesmo clima bucólico, com violões e guitarra slide. Uns backing vocals lindos...


O Rock argentino, pouquíssimo escutado no Brasil, chega com Por siete vidas (Caceria) do Fito Paez, violão tipicamente latino, citação de Pinball Wizard, falsetes incomuns do Herbert.


A palavra certa (Herbert/ George Israel/ Paula Toller, alguém já gravou essa?) tem uma letra linda. Arranjo bonito, piano, violões (sempre), uma guitarra ebow sensacional.
"Atravesso a noite com um verso
Que não se resolve
Na outra mão as flores
Como se flores bastassem
Eu espero
E espero
Não funcionam luzes, telefones
Nada se resolve
Trens parados, carros enguiçados
Aviões no pátio esperam
E esperam
A chave que abre o céu
D´aonde caem as palavras
A palavra certa
Que faça o mundo andar"


Mais uma dos Paralamas em seguida, Uns dias, uma música muita amarga com versos sensacionais. A versão aqui acústica deve utilizar uns violões com afinaçoes próprias, além de piano lindo na introdução. Depois esse arranjo foi adaptado pro 'Acústico', ficando bem pesadão.
"Eu nem te falei
Que te procurei
Pra me confessar
Eu chorava de amor
E não porque eu sofria
Mas você chegou já era dia
E não estava sozinha
Eu tive fora uns dias
Eu te odiei uns dias
Eu quis te matar "

Pra terminar, Luca homenageia o primogênito e o momento da descoberta da paternidade com versos belos. Uma guitarra gigante com drive leve inicia num clima meio espanho épico, depois retornando pro arranjo acústico com violões, bandolim e a guitarra no fundo com aquele reverb esperto.

"Abre os olhos pra ver o mundo
Tudo é novo para os teus olhos novos
Dá pra cada coisa um nome
Um nome novo e um sentido teu próprio
Eu te abro as cortinas da manhã
Eu te levo pros braços da tua mãe, cedo
Por um instante eu esqueço do que sou
Por um instante eu não lembro de ter medo
Fala as tuas palavras de vogais
E sorri quando já está dormindo
Filho, pai, mãe, orvalho da manhã
Tudo é novo para os meus olhos velhos
Eu te abro as cortinas da manhã
Eu te levo pros braços da tua mãe, cedo"


(Dão)

domingo, 19 de junho de 2011

Lapadas do povo, Raimundos



Permanecemos nos sub gêneros metálicos, o forrocore, invenção dos Raimundos.

Este disco puxa um pouco mais pro metal, com guitarras poderosas e extremamente bem gravadas. Inclusive foi gravado em Los Angeles (Sound City, onde Nirvana, Rage Against the Machine e Red Hot Chili Peppers tb gravaram), com letras mais sérias, o que pode ter sido o motivo de ter vendido bem menos do que seus antecessores.


E o disco começa bem com as guitrras se sobrepondo em 'Andar na pedra'. Um efeito flanger no final maneiríssimo.


Na seqüência a rapidíssima (1:03) 'Véio, manco e gordo', hardcore paulada na moleira!


'O toco' é mais no estilo antigo da banda, guitarras pesadas mas sem muita velocidade, vocais bem sacados no refrão mais pop.

"Fiz um toco grande e frouxo

Pra ficar com o olho roxo

Queimar meu dedo no fim

Ela veio trazendo o peso

E eu com medo de ser preso

Pintar meu dedo no fim "


'Poquito más' é um rockão com letra estranha e guitarras pesadas com riffs pegajosos, legal. Tem até uns metais fazendo fundo num clima quase mexicano tipo Fishbone!


'Wipe out' é daquelas pesadas e suingadas, a galera devia estar ouvindo Pantera. Wipe out significa a temida e conhecida vaca numa onda grande, quando vc se dá mal mas a galera da areia se diverte...Mais boas e pesadas guitarras, com solo de wah-wah magrinho.


'CC de com força' é mais uma aceleradíssima e curta. E é escatologicamente sobre cecê mesmo.


Mais uma acelerada, 'Crúmis odámis', pancadaria sem parar.

"(Eu sei que tem) eu sei que tem gosto pra tudo

A moda vai, a moda vem, o tempo passa e eu não mudo

E até pensando bem filho da puta de um sortudo

Durmo mal, comendo bem, fazendo grana pelo mundo"


'Bonita' é daquelas quase baladas que os Raimundos faziam muito bem, apelo pop com roupa punk, que deu origem a muito do emo de hoje em dia. Mas a culpa não é deles, né? Quem cria não pode se responsabilizar pela diluição.


'Ui ui ui' é mais rapidinha (0:47) e escatológica do disco.


A surpresa vem com a versão da música 'Oliver's army' do Elvis Costello! Bem legal, até com mais vigor que o original, o que também não é difícil.


'Nariz de doze' é uma letra meio enigmática sobre uma nave de marcianos que cai perto do maluco que escreveu a letra, se é que eu entendi isso direito. Bom riff e bom solo.


'Pequena Raimunda' é também uma versão, desta vez de 'Ramona' dos Ramones, que mesmo fiel ao original, ficou legalzinha. Só não sei como autorizaram essa letra lamentável...vale pela diversão.

"Olhe só Rodrigo, Rodolfo,Fred e Canisso

Feia de cara mas é boa de bunda

Olhe só é a Pequena Raimunda.

Se ela tá indo até que dá pra enganar,

Se ela tá vindo não é bom nem olhar,

Ela de 4 fica maravilhosa,

Na 3x4 é horrorosa"


'Baile funky' é a minha preferida, bem pesadona, guitarronas, riff thrash em fusas tipo Metallica/Slayer, letra (um pouco) melhor. Boa pra malhar!

"A porta tá sempre aberta pro povo

Casca do cerrado chegaram os mortos de fome

Sujeira de outra parte que vem pra sujar seu nome

Eu te falei que o ladrão que rouba mesmo

É bem vestido e eu vi de monte

Essa zoada no telhado é o vento que a vida leva

É o pensamento antiquado, te apaga queimando a erva

Enraizado fica o dono do pé que finca na terra

E faz a ponte Povo de Zé ofensa

É na igreja que o povo esvazia as bolsa

Tem quatro santos, três queimando o kunk

Decidindo o destino dos outros como se fosse Deus

Atrás da mesa o açougueiro comanda

E a intolerância me manda de novo pro banco dos réus

Armando com propaganda"


'Bass hell (Bônus crap)' é a experimental, programações eletrônicas com baixo em loop, scracth by DJ Romes, guitarra funk e aí no meio entra o peso dos infernos, depois volta pro balancinho soft.


Bom disco, mas mal sucedido comercialmente.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O cair da tarde, Ney Matogrosso




Como tenho pegado pesado por aqui (e assim continuarei, amigos não metálicos), hoje vou dar uma breve aliviada, afinal, ninguém é de ferro, com exceção do Tony Stark, Lemmy & Ozzy & Keith...


Gosto muito de 'Olhos de farol', também do Ney, que postarei aqui se ninguém o fizer primeiro, mas esse disco aqui é belíssimo, desde a escolha do repertório (imbatível na música brasileira!), a interpretação sempre excelente, os arranjos, o grupo de músicos 'acompanhantes' e finalmente, o projeto gráfico de extremo bom gosto. Por isso, inclusive, incluí mais uma imagem além da capa. Também porque o Ney, além de importantíssimo pra música brasileira, é um homem lindo em muitos sentidos.


Essa semana peguei o disco para ouvir no carro e entendi porque demorei pra postá-lo aqui, pois desde que o tenho, sempre o achei sensacional.

Mas a verdade é que é um disco melancólico, bem triste (o que, em se tratando do melhor repertório possível, talvez informe algo sobre a música e a alma, dentre as muitas possíveis, brasileiras). E aqui em Curitiba, principalmente nos meses frios (que são quase todos) e cinzentos (que são a maioria), ouvir música triste, mesmo que linda, não é aconselhável se você não planeja cortar os pulsos. Mas para aquela específica tarde pós tatuagem na barriga (não aconselho, dói MUITO), o bálsamo veio a calhar.

Vamos à obra então, que começa em alto nível com a faixa que dá nome ao disco, uma das 6 músicas do Maestro Heitor Villa-Lobos gravadas, aqui em parceria com Dora Vasconcellos. Piano lindo a cargo do também arranjador Leandro Braga, guitarra do craque Ricardo Silveira e colaboração do grupo 'experimental' Uakti, que comparece com tambor d´água e pios (!!!). Vocês, amigos colaboradores, deviam ver se aquele amigo bizarro tocador de vagem não foi recrutado pelo Uakti...


'Modinha' (Tom Jobim/Vinícius de Moraes) dá seqüência ao disco, com sua melancolia e beleza infinitas. Mais um arranjo delicadamente lindo.


'Veleiros', mais uma do Villa-Lobos, traz um pouco mais de cadência, um balanço de mar ao piano, uns sopros angelicais dividindo espaço com a voz do nosso intérprete garimpador. "Quanta tristeza/ ondas do mar/ nesse vai e vem/ sem me levar/ pois sempre eu fiz muita atenção/ em não pisar teu coração".


'Tema de amor de Gabriela' (que eu achava que era do Caymmi, mas é do Tom) continua trazendo doses de tristeza e requinte ao caldeirão. "A tua boca é meu doce, é meu sal/ mas quem sou nesta vida tão louca?/ mais um palhaço no teu carnaval/ Casa de sombra, vida de monge/ quanta cachaça na minha dor/ volta pra casa, fica comigo/ vem, que eu te espero tremendo de amor". Segura as pontas, ouvinte amigo, toma o lítio e não se mate!


Outra música chamada 'Modinha (serestas)', esta do Villa-Lobos com Manuel Bandeira, continua maltratando nossos corações e acariciando nossos ouvidos. "Na solidão da minha vida/ morrerei, querida/ do teu desamor/ muito embora me desprezes/ te amarei constante/ sem que a ti distante/ chegue a longe e triste voz do trovador".


'Sem você' (Tom Jobim/Vinícius de Moraes) me faz pensar sobre o mito lingüístico de que a palavra saudade só existe em português. Porque é esse o sentimento predominante em grande parte do cancioneiro popular (e erudito/clássico, como esse disco demonstra), talvez a saudade lusitana tenha se somado ao banzo africano e à desilusão indígena.

"Meu amor/ meu amor/ nunca te ausentes de mim/ pra que eu viva em paz/ para que eu não sofra mais/ tanta mágoa assim/ no mundo sem você"


'Melodia sentimental', mais uma do Villa-Lobos/Dora Vasconcellos, é mais uma belezura, falando da lua, da noite, da sombra, da espera. Um pouco menos triste. Arranjo minimalista, quase inteiro só voz e piano, com uma discreta percussão.


'Canção em modo menor' (da dupla Tom/Vinícius) já me faz questionar sobre a influência dos tais modos menores (a saber: eólio, dórico, frígio e lócrio) em músicas mais tristes. Mas me falta conhecimento ou ouvido absoluto para emitir uma opinião técnica sobre as composições desse disco. Aqui só piano e voz. Triste, triste, triste. Bela, bela, bela. "Porque cada manhã me traz o mesmo sol sem resplendor/ e o dia é só um dia a mais/ e a noite é sempre a mesma dor/ porque o céu perdeu a cor/ e agora em cinza se desfaz"


'Prelúdio Nº 3 (Prelúdio da solidão)", de Villa-Lobos e Hermínio Bello de Carvalho dispensa explicação, mais do mesmo excelente vinho amargo. Meio etérea, quase flutuante.


Daqui pra frente o disco dá uma animada, primeiro adentrando no terreno do folclore, depois finalizando com o creme de la creme.


'Caicó (cantigas)' ainda é um pouco triste, mas o apelo popular e a familiaridade quase nos fazem sorrir.

O pout pourri 'Cirandas' traz músicas que todos cantamos ou ouvimos nas nossas infâncias: 'Se essa rua fosse minha', 'Terezinha de Jesus', 'Condessa', 'O cravo brigou com a rosa (instrumental)', 'A maré encheu' e 'Passa, passa, gavião (instrumental)'. O arranjo privilegia o som do Uakti, com percussões melódicas com sons exóticos, além dos belos sopros fazendo elementos de passagem.


E aí, se sobrevivemos a tanta beleza triste, somos premiados com três das melhores músicas já escritas nesse belo planeta azul, bem mais felizes (talvez as tonalidades sejam maiores por aqui, impressão minha), principalmente em relação ao repertório anterior: 'Trenzinho do caipira' (Heitor Villa-Lobos com poema de Ferreira Gullar!) , 'Águas de março' e 'Pato preto' (essa com um instrumento meio oriental e um solinho de viola!) , você sabe de quem, ou deveria saber!


Enfim, ouça, curta, se emocione, mas escolha um dia feliz, ensolarado e em boa companhia, sacou? Ou tome rivotril, prozac ou outro psicoativo eufórico.


E pra terminar uma sacada do grande frasista Tom Jobim, nosso maestro soberano, transcrita aqui no disco: "O Villa-Lobos é asim meu pai, é meu tudo. Estou com vontade de botar uma música do Villa-Lobos no meu disco. É mais do que uma homenagem, é pro disco ficar mais bonito. Pra eu sentir que tinha alguém que gostava mais de música do que eu".

terça-feira, 24 de maio de 2011

Abreugrafia (1997)

Liberadas as coletâneas, eis mais uma. Bem, na verdade esta não é exatamente uma coletânea, porque a cantora resolveu regravar novas versões de seus maiores sucessos e adicionou ainda, aqui e ali, canções (na sua voz) inéditas. Se os discos da Fernandinha eram um problema, pois muito irregulares, misturando poucas ótimas canções com alguns momentos simplesmente desprezíveis (bem, Veneno da Lata é acima da média. Da média dela), a solução veio melhor que a encomenda.

Abre com a faixa que dá nome ao disco, Raio X, uma introdução ao projeto musical, como abstract de um artigo científico. Gosto muito também de Aquarela Brasileira que vem em seguida, música que aparece disfarçada de colarzinho na capa do álbum. Em seguida Fernanda apresenta Jacksoul Lenine Brasileiro, convidado que rapidinho se tornaria maior que a anfitriã, grande canção do pernambucano, muito bem acompanhado da carioquíssima sangue bom.

E de olho em Pernambuco, a garota suingue traz Chico Science para o Rio 40 graus, onde ele se sente muitíssimo à vontade, e termina a melhor canção da Fernandinha entoando um único "sô carioca, pô!". Jorge da Capadócia é outra das minhas interpretações favoritas, mas a versão deste disco é muito inferior àquela lançada originalmente junto com Rio 40 Graus, em SLA 2 - Be Sample, disco de... 92? por aí...

Speed Racer não é uma grande canção. Passaria totalmente desapercebida se não fosse o arranjo primoroso e a guitarra limpa e precisa de Fernando Vidal. É o tipo do jantar em que o acompanhamento é melhor que o prato principal. Ponto alto também para Um Amor Um Lugar (do paralama colaborador e amigo Herbert), Veneno da Lata e Kátia Flávia a Godiva do Irajá, hit sem par do amigão e parceiro Fausto Fawcett que recebe aqui uma versão avassaladora.

Fechando o disco,
É Hoje o di-i-aaaa da alegri-i-a-aaaa e a tristeza, nem pode pensar em chegar!


Justo, para um disco tão festivo e inspirado, que representa o melhor de uma cantora que, se não tem aqueeeela voz, tem bom-gosto e sensibilidade suficiente para conceber esta obra-prima, uma das melhores dos anos 90.

Garota sangue quente, suingue, sangue bom!

[M]

terça-feira, 1 de março de 2011

Veneno AntiMonotonia - Cássia Eller (1997)



"Olhar o mundo
Com a coragem do cego
Ler da tua boca as palavras
Com a atenção de um surdo
Falar com os olho e as mãos
Como fazem os mudos"
(Diário de Cazuza – 1978)


Veneno AntiMonotonia.
É claro que Cássia vestia muito bem os versos de Cazuza. Os dois tinham a mesma gana de morder a vida, a mesma intensidade. Falavam a mesma língua.

Em Veneno AntiMonotonia Cássia dá o seu tom para as músicas de Cazuza – a eleição das canções, o jeito único e explosivo de cantar deixando claro a força dele sobre ela. As releituras têm isso de fascinante, porque estamos falando de amor, de escolha e de identificação com o outro.
CÁSSIACAZUZACÁSSIA

O som do cd é cheio, encorpado, roque’enrou gritado do tipo que beira o desespero. Cássia tem isso: ela é capaz de habitar o volume dez angustiado com a mesma potência que habita tranquilamente as canções mais doces de Nando Reis.
Ela é mestra, sabe viajar no outro, incorpora a fantasia e dá uma cor própria na interpretação.

Veneno AntiMonotonia é raivoso. É que não é fácil mesmo se desvencilhar da monotonia-cola que conhecemos bastante bem. Nessa onda “Blues da Piedade”, com um dos seus versos de que mais gosto, chega dilacerando:
“Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como inseto em volta da lâmpada”

Em “Obrigado” Cássia continua envenenada com a pequenez e as dores do amor. E a música ganha ou perde velocidade, como se tivesse lendo o funcionamento do amor dentro da gente.

A opção nesse cd foi pela escuridão, pela madrugada,. É música de rua. Tudo muito à la Cazuza. Adoro a “Billy Negão” com seus sopros, meio blues, azul escuro. Estória de sangue para acabar com a monotonia.

“Todo Amor que Houver Nessa Vida” não podia faltar. É o fôlego, o encontro do náufrago com o resto de madeira em alto mar. Do mesmo jeito a charmosa “ Preciso Dizer que te Amo”, que vem se arrastando, já cansada. É o grito já sem voz.
Mas a vala tá ali com “Mal Nenhum”. Nem todo o amor é antidoto para a dor e para realidade. “Me deixem bicho acuado/ Por inimigo imaginário”…
A escolha de Cássia é por um Cazuza rasgado, nublado e nada mais natural que o cd tenha sido produzido por Wally Salomão, que como ninguém soube fazer e ver poesia a partir dos restos.
E os restos me interessam.
[ANDRÉA]

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Contato, contato (O dia em que faremos contato - Lenine - 1997)


Começamos aqui a falar sobre a obra de um artista não ligado a nenhum movimento, assim como, ele mesmo gosta de citar, Djavan, Tim Maia, Jards Macalé etc. Ele prefere a palavra movimentação.
Lenine é o nome dele, e ‘O dia em que faremos contato’ o nome do disco. Não é o primeiro, mas ‘Olho de peixe’, com Marcos Suzano (que também participa desse disco aqui comentado), é dificílimo de encontrar, pra quem ainda compra cds como eu. ‘Baque solto’ é um disco coletivo que pouquíssimo tem a ver com este aqui.
O disco começa com ruídos não musicais, um fax conectando, uns meninos (Caju e Castanha) contando sobre sua vida de artista de rua – que depois são sampleados no meio da música. De repente, por trás de um barulho sintetizado rítmico, surge a voz poderosa de Lenine, cantando e ‘rapeando’. ‘A ponte’ não podia ser melhor pra iniciar o disco, impressionante, moderna e com pressão.
Já li ele dizendo em algum lugar que se aproximou da música não pela MPB, e sim pelo rock (Led Zeppelin foi o nome que li). Talvez por isso eu goste tanto do seu trabalho. A pegada é rock, a sonoridade é caprichada, mas tem balanço, vozes agradáveis e letras belas.
Como é a pop ‘Hoje eu quero sair só’, com uma harmonia que se repete a música toda (mas não é repetitiva), um solinho de guitarra wah-wah esperto (cortesia do sempre preciso Fernando Vidal), um pandeiro meio escondido, uma guitarra eventual suingada e aquele violão excelente que marca muitas de suas músicas, além de várias vozes sobrepostas.
Depois, a minha favorita, o baião heavy ‘Candeeiro encantado’. Mesmo sem guitarras pesadas (que eu teria colocado), tem a pegada e a estrutura inspirada em blues, mas com a rítmica e letra de repente. Mistura bem timbres eletrônicos, violão legal e vozes sampleadas de ‘Deus e o Diabo na terra do sol’, de Glauber Rocha. Demais.
Liminha, mesmo sem produzir, toca baixo em quase todas as faixas. Participação especialíssima. Na faixa seguinte (‘Etnia caduca’) desenvolve uma linha muito legal.
‘Distante demais’ apresenta a face lírica, de belíssimas canções e letras lindas. Co-autoria de Dudu Falcão.
Na seqüência vem a faixa-título, com a idéia original que a paz surgiu aqui na terra, mais especificamente no morro, pois ‘vive perto do espaço sideral’. ‘Essa coisa de riso e de festa só tem aqui’. Mais uma com uma mistura de pandeiro, sons eletrônicos, um violãozaço e outros ruídos. Funciona muito bem, principalmente porque as canções são excelentes composições, que funcionariam mesmo só com voz e violão. Mas Lenine capricha no aspecto mais essencial da música, o Som.
Em ‘A balada do cachorro louco’, mais uma vez Lenine brinca com suas vozes, canta e contra-canta, dobra e se multiplica, com uma bateria reta sobre uma música tipicamente nordestina, com pifes do Carlos Malta. Mais uma que se ouve com muitos mais detalhes no fone de ouvido, que ainda vai me ensurdecer...
Segue ‘Aboio avoado’, só na voz, ‘um aboio para trazer de volta ao curral as paixões que se desgarraram’.
‘Dois olhos negros’, música sobre uma mulher, pop, redondinha, dançante e divertida, uma letra meio Carlinhos Brown, um violão tipicamente bem tocado. Essa foi até pra alguma novela. Termina com um solo curto e hendrixiano do Fernandinho Vidal.
‘O marco marciano’ destoa não pela qualidade, mas por ser totalmente acústica, com voz(es) e viola de 10 cordas. E a letra nada tem de regional, misturando ficção científica, paisagens amplas, tom épico e outras cositas más.
Vozes percussivas, uma guitarra com timbre estranhíssimo, uma bateria de fundo. Falando assim não deveria combinar. Mas depois começa a música, com aquele violão, vozes, uma baixo subterrâneo do produtor Chico Neves e vários saxofones. ‘Que baque é esse?’, ele se pergunta. Eu me pergunto também, mas que porra é uma guitarra Chelpa??
Segue um pout pourri com 4 músicas, amarradas pelo violão e pandeiro: ‘Pernambuco falando para o mundo’, ‘Voltei Recife’, ‘Frevo ciranda’, ‘Sol e chuva’ e ‘Rios pontes e overdrives’ do genial e saudoso Chico Science e Fred Zero Quatro (do mundo livre s.a.).
‘Bundalelê’ é o lado carnavalesco e carioca do disco, inclusive gravada com o bloco Suvaco de Cristo.E vamos nos despedindo com ‘Mote do navio’, com um coral de várias vozes e agradecimentos em profusão. Nem precisava, Lenine, nós é que agradecemos!

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Papel de Bala Colorido (Por onde andará Stephen Fry? - Zeca Baleiro - 1997)




Há tempos queria escrever algo sobre a música do Zeca Baleiro… O difícil era escolher por onde começar… Resolvi então começar pelo começo, pelo filho mais velho “POR ONDE ANDARÁ STEPHEN FRY? ” (1997). Na verdade acho que tem um outro motivo – eu adoro especialmente algumas músicas desse cd.
E o Zeca tem uma voz deliciosa de ouvir, uma imagem única e criativa de ver e uma poesia pra lá de boa de sonhar…
Ele é um alquimista musical! No seu caldeirão estão os melhores ritmos nordestinos com pitadas de outras influências não só musicais como poéticas.

“O melhor futuro este hoje escuro/o maior desejo da boca é o beijo/ eu não quero ter o tejo me escorrendo das mãos". “Bandeira” chega arrasando com o desencontro de palavras que mais encontradas não poderiam ser! E o violão que de tão manso, te conquista. “Bandeira” te faz parar, te capta por vários canais, entra por todos os poros.
Em seguida vem “Mamãe Oxum”com uma alegria e ingenuidade contagiante! Zeca Baleiro canta junto com Chico César, numa combinação perfeita, sem dizer na percussão de Ramiro Mussoto.

E aí a gente chega numa das minhas favoritas: “Salão de Beleza”. Acho um barato um salão de beleza virar tema de música! Só mesmo a cabeça colorida e aguda do Zeca para escolher o salão de beleza como metáfora para a a nossa busca tão incansável e cotidiana pela beleza (no seu sentido mais amplo). Perfeito!
Ele vai cantando e vem chegando os coros, os bongôs, e o nosso corpo estranhamente começa a entrar em sintonia com aquela linda melodia . "Salão de Beleza” tem uma onda contagiante, faz a cabeça pensar e o corpo dançar! É tão bom…

“Vapor Barato”. Para essa eu fecho os olhos e brindo a existência de Wally Salomão! Tudo é lindo: a letra, a melodia, todas as vozes que já cantaram, todas as viagens viajadas pelas nossas cabeças. Se só existisse o título, já seria uma obra de arte: Vapor barato.
No words.

Outra coisa que me encanta no Zeca Baleiro é a sua curiosidade pelo ser humano (acho que é porque eu também sou bem interessada nesse bicho raro!). Digo isso porque Stephen Fry foi um ator londrino desconhecido que sumiu depois de sua estréia, por ter se achado um fracasso no palco.
Zeca Baleiro leu essa pequena nota no jornal e escreveu “Stephen Fry”. Essa música é tão humana, tão simples e completamente profunda. O que também me toca na poesia e na música do Zeca Baleiro é essa antena que capta essas pequenas estórias e através delas nos permitimos nos emocionar. E o Zeca é um mago para encontrar a beleza nas coisas simples.
E arranjos são delicadamente feitos sob medida para alguém que resolveu trilhar outros paradeiros.

Outra favorita… Tenho várias favoritas! Ainda bem! "Skap”- adoro música onde a presença do violão é marcante.
Depois de um soneto de Shakespeare recitado por Wanderléa, Zeca Baleiro entra discreto, suave, como quem não quer atrapalhar. Essa música é um balé de tão leve, é um caleidoscópio das letras, que em cada fim de frase você tem um desenho diferente - uma surpresa. Os verbos ganham novas vozes e o piano arremata tudo isso com uma magia que arrebata.

“Dodói”! Favorita total também… Com um balanço que não deixa ninguém no sossêgo, Zeca canta um xeque-mate! “Se você não me quer mas eu quero”. Bicho, você não tem saída, porque senão eu piro e aí vou pro Juqueri ou pra Bangú!
Essa é a voz louca de amor, aquela que de tão louca, já tá mansa.
E quem não tem essa voz dentro de si?
[ANDRÉA]