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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Brasil Musical - Pau Brasil/Hermeto Paschoal


Aproveitando o ensejo da citação do Hermeto Paschoal na postagem do Paulo Moura pelo Mateus, vamos a ele, juntamente com o grupo instrumental Pau Brasil, 'juntados' nesse disco dessa excelente série.
Tanto o Hermeto quanto o Naná Vasconcelos vieram à minha cabeça nesses dias, como artistas que faltam por aqui. O problema desses dois para mim é que, mesmo sendo reconhecidamente gênios, não tem AQUELE disco pelo qual sejam reconhecidos.
Mas mesmo assim, vamos preenchendo as lacunas...

Essa série do Selo Tom Brasil se originou de shows promovidos no SESC Pompéia/SP, com grandes nomes da música instrumental, que pela lotação, provou que também tem aceitação popular.
Esse cd aqui reúne o grupo Pau Brasil, que comparece com duas longas suítes contendo várias músicas, e Hermeto Paschoal, que traz mais 4 músicas.

As músicas:

(Pau Brasil)
1. Cordilheira dos Andes, Tubofone, Sem Nome
2. Metrópole Tropical, Olho D'água, Bambuzal

(Hermeto Paschoal)
3. Harmonia sem cronologia
4. Viajando pelo Brasil
5. Mesclando
6. Rainha da Pedra Azul

Não são de audição fácil, principalmente pela longa duração, as músicas do Pau Brasil, mas valem a pena o esforço, não pela virtuosidade ou complexidade, mas pela beleza e naturalidade, fluência e criatividade dos músicos e improvisadores. Tem uma bela voz (Marlui Miranda) fazendo papel de instrumento também, bonito mesmo! Na época, além da Marlui, o grupo era formado por: Lelo Nazarino, Zé Eduardo Nazarino, Rodolfo Stroeter e Teco Cardoso.

Mais informações sobre o grupo aqui: http://www.grupopaubrasil.com/

Sobre o Hermeto é difícil falar...um enorme gênio, criativo ao extremo, improvisador excepcional (o que o torna um compositor muito produtivo), faltam adjetivos. Tive a felicidade de conhecê-lo pessoalmente em várias ocasiões em Curitiba e aeroportos, o cara além de tudo é acessível e sem arrogância nenhuma, hoje ele é casado com a Aline Moreno, com quem já fiz um curso de música para trilhas sonoras de cinema.
Multi-instrumentista, toca qualquer coisa (literalmente, não precisa ser instrumento musical, já vi um show dele onde ele começou a improvisar, às vezes regendo a plateia, sobre aqueles sinais sonoros que avisam que o espetáculo vai começar) que lhe caia às mãos, sempre de um modo natural, o que é outro elemento que lhe inspira muito, a Natureza e seus sons, inclusive animais...
As músicas são típicas das composições de jazz brasileiro: exposição do tema, em geral com Hermeto na flauta, e posteriores improvisos e desenvolvimentos etc. Sempre em ritmos brasileiros, como o xote, maracatu e elementos do chorinho, sempre também animadíssimos e às vezes bem acelerados.

Como ele termina o livro com 366 partituras, uma para cada aniversariante de cada dia do ano, chamado 'Calendário do Som', "Tudo de bom sempre''!!!

http://pt.wikipedia.org/wiki/Hermeto_Pascoal

(Dão)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Nelson Freire interpreta Villa-Lobos


Acho que com esse cd fico tranquilo se o mundo acabar essa semana.

Faltavam esses dois grandes da música brasileira (claro que provavelmente faltem mais, mas no momento é o que me ocorre) e com um cd mato dois coelhos com uma cajadada (ou na versão popularesca, com uma 'caixa-d´água'...). Mais ainda, serve de sugestão para o mais novo bebê mufumu: o Chicão! Se bem que há tensão em algumas músicas (é mito que música erudita ou 'clássica' seja calma e/ou relaxante, acredite em mim), principalmente em 'Bruxa - a boneca de pano'.

Aqui está o internacionalmente conhecido pianista brasileiro Nelson Freire. Existe um documentário muito elogiado dele que infelizmente eu não vi, apesar da minha locadora preferida em Curitiba, a Cartoon, ter (fica a dica aos amigos curitibanos).

Aqui está também o gigante compositor Heitor Villa-Lobos, com um conjunto de oito peças inspirado em canções folclóricas: 'A prole do bebê', para piano, que encantou Arthur Rubinstein, grande pianista polonês, que passou a executá-las mundo afora.
São as peças (aviso: os nomes são pré era do politicamente correto):
'Branquinha - a boneca de louça',
'Moreninha - a boneca de massa'
'Caboclinha - boneca de barro',
'Mulatinha - a boneca de borracha',
'Negrinha- a boneca de pão',
'Pobrezinha - a boneca de trapo',
'O polichinelo' e
'Bruxa - a boneca de pano'.

Ainda tem 'Bachianas brasileiras nº 4', 'As três Marias' e 'Rudepoema'.

Essa informação e uma resenha mais específica, bela e especializada para conhecedores da música erudita encontrei aqui:
site Instrumental Brasil
(na verdade vi que é uma transcrição do encarte do cd, escrito por Luiz Paulo Horta, mas vale a visita ao site)

O que posso dizer é que um disco muito bonito, interessante mesmo aos sem maiores conhecimentos de música erudita, e que serve como boa introdução às obras desses dois brasileiros.

Nelson Freire lançou recentemente um disco com interpretação de mais Villa-Lobos e outros compositores (Camargo Guarnieri, Cláudio Santoro, Francisco Mignone, Lorenzo Fernandez, Barrozo Neto, Henrique Oswald e Alexandre Levy): 'Villa-Lobos & friends'.

Wikipedia sobre Nelson Freire
Wikipedia sobre Heitor Villa-Lobos

(Dão)

sábado, 15 de dezembro de 2012

Moacir Santos - Ouro Negro


Um dos maiores da música popular brasileira.
Um dos maiores desconhecidos da música popular brasileira.

Um dos Músicos dos Músicos.

"A benção Maestro Moacir Santos que não és um só, mas tantos, tantos como o meu Brasil de todos os santos, inclusive meu São Sebastião" ('Samba da Benção', Vinícius de Moraes)

Um exemplo do improvável: "transformar um negrinho do interior de Pernambuco, nascido menos de quatro décadas após a abolição da escravatura e órfão aos 3 anos de idade, em um dos músicos brasileiros mais reconhecidos, nacional e internacionalmente, em todos os tempos" (trecho retirado, como vários outros desta resenha, do encarte do cd e do Songbook).

"Tom Jobim dizia que, no Brasil, é proibido ao aborígene sair da taba. Moacir Santos foi um dos que saíram e o Brasil fez desabar sobre seu nome um manto de silêncio. Pois chega de silêncio. Nanã sabe das Coisas e diz que chegou a hora de o Brasil saber de Moacir, reaprender Moacir, merecer Moacir" (Ruy Castro)

Veio do interior para Recife, depois João Pessoa, Rio de Janeiro, Los Angeles, mundo. Você não conhece? Nunca ouviu falar? Envergonhe-se.

"Moacir foi Maestro, por concurso, da Rádio Nacional. Todos os músicos profissionais, naquela época, iam estudar música 'superior' com ele. Era um professor sensacional, meio metafísico, explicava a harmonia, os intervalos entre as notas, as dissonâncias, usando como exemplo as estrelas. Fui estudar com ele essas 'sabedorias', ficamos muito amigos e por causa dessa amizade ele começou a me mostrar as composições que fazia no piano e não mostrava a ninguém. Tocava para mim as músicas e dizia: - Olha essa 'coisa' que eu fiz, escuta essa outra 'coisa'." (Baden Powell)

A palavra 'Coisa' é muito usada pelo Maestro, arranjador, compositor e saxofonista Moacir José dos Santos. Nascido em Flores do Pajeú (na verdade ali foi registrado, o local de nascimento deu-se em local incerto do interior de Pernambuco, entre Serra Talhada, Bom Nome e Belmonte), em julho de 1926 (mesmo ano de Miles Davis e John Coltrane). Entregue a uma família branca 'remediada', teve instrução ginasial e musical, para sorte nossa. Aos 14 anos, dominando vários instrumentos de banda, além de banjo, violão e bandolim, fugiu: Serrânia, Arco Verde, Recife, Catro, Timabúba, João Pessoa, onde se torna sargento-músico da PM, depois integrando a legendária orquestra de Severino Araújo, de mudança para o Rio, onde chega casado com Cleonice.

"Sempre tive o anseio em produzir músicas com a catalogação erudita, como por exemplo Opus 3, Nº 1. Quando Baden Powell foi estudar comigo e me convidou para participar do disco com o baterista americano Jimmy Pratt, na antiga Phillips, o engenheiro de gravação perguntou o nome da música e eu respondi: 'Isso é uma coisa'...Aí me ocorreu a ideia de numerá-las." (Moacir Santos)

Ingressando na Rádio Nacional, RJ, como saxofonista, frequenta bailes também. Mas ao contrário de muitos de seus colegas, estudou sempre e muito, formando-se em Regência e tendo como mestres Cláudio Santoro, Guerra-Peixe, H. J. Koellreuter, de quem mais tarde seria assistente, e Ernst Kreneck, com quem aprende as manhas do dodecafonismo.

"A África não deixa em paz o negro, de qualquer país que seja, qualquer que seja o lugar de onde venha ou para onde vá." (Jacques-Stephen Alexis, poeta haitiano)

Começa algum reconhecimento depois de promovido a arranjador e regente na Rádio, ao lado de Radamés Gnatalli, Leo Perachi e Lirio Panicalli, sendo eleito pelos colegas da Rádio 'o músico do ano'.

Teve muitos alunos conhecidos e reconhecidos na música popular brasileira: Paulo Moura, Sérgio Mendes, João Donato, Raul de Souza, Doum Romão, Bola Sete, Roberto Menescal, Geraldo Vespar, Chiquito Braga, Nara Leão, Dori Caymmi etc, o que o incluiu como um dos patronos da bossa nova.

Paralelamente, o maestro trabalhou com muitas e importantes trilhas para o Cinema Novo brasileiro, entre eles os filmes 'Seara vermelha', 'Ganga Zumba', 'Os fuzis', 'O beijo' e o mais importante, 'Amor no Pacífico (Love in the Pacific)', que lhe trouxe a oportunidade de trabalhar com uma orquestra de 65 excelentes músicos e lhe abriu o mercado internacional, levando-o a se mudar para os EUA, em 1967. Lá, gravou discos solos, um deles indicado ao Grammy, deu aulas e compôs trilhas para cinema (tendo trabalhado até na equipe de Henry Mancini), construindo uma sólida reputação como compositor, arranjador e docente, membro que era da Associação de Professores de Música da Califórnia.

Repito aqui o que já foi merecidamente reconhecido por grande parte da melhor crítica musical: Moacir Santos produziu, nas décadas de 60 e 70, a música popular mais sofisticada e ao mesmo tempo mais enraizada nas tradições afro-brasileiras.

À época do lançamento desse disco, uma coisa que se repetia muito era que a única crítica que o disco merecia era relativa ao título que, por ter sido patrocinado pela Petrobras, poderia remeter ao petróleo e não ao Maestro...

Esse é um disco irretocável, mesmo sendo duplo. As músicas foram recriadas em cima dos arranjos originais, que haviam se perdido quando o selo Forma foi vendida à PolyGram (na época Philips e hoje Universal...), de vários discos: Coisas (Forma, 1965, este que já foi o disco mais valorizado no mercado dos vinis), Maestro (Blue Note, 1972), Saudade (Blue Note, 1974) e Carnival of Spirits (Blue Note, 1975).

Juntamente ou posteriormente (não tenho certeza) foram lançados o Songbook (que eu tenho mas pratico e leio pouco) e um DVD (que encontrei agora no site Livraria da Folha).

Muitos excelentes músicos participam do disco, entre eles Mario Adnet (que também o produziu junto com Zé Nogueira), Ricardo Silveira, Cristóvão Bastos, Marcos Nimrichter, Jorge Helder, Nailos Proveta, Teco Cardoso, Hugo Pilger, Jessé Sadoc, Marcelo Martins etc.

Algumas das músicas receberam letras (por Nei Lopes) e cantores: Coisa nº 8, Navegação (com Milton Nascimento), Sou eu (com Djavan), Orfeu (com Ed Motta), Maracatu, Nação do amor (com Gilberto Gil), Oduduá (com João Bosco), De repente estou feliz (com Joyce e João Donato) e Bodas de prata dourada (com Sheila Smith e Muíza Adnet).
A título de curiosidade, 'Coisa nº 6' tornou-se 'Dia de festa' com letra do Geraldo Vandré, gravada pelo próprio; aqui neste disco está a versão instrumental.

Comentar cada faixa seria uma tarefa muito além da minha capacidade de traduzir esta Música em palavras, além de ficar chato por todos os detalhes musicais, então dessa vez vou transcrever os comentários do próprio Maestro diretamente do encarte.

CD 1:

'Coisa nº 5 - Nanã': "Fico muito feliz de vocês terem gravado a versão original porque foi assim que ouvi e assim que fiz. É uma grande procissão."

'Suk-cha': "Foi uma rosa que ofereci à minha primeira nora que era coreana..."

'Coisa nº 6': "Essa música é uma festa..."

'Coisa nº 8 - Navegação': "A inspiração vem de uma música de Luiz Gonzaga, 'Vem morena' e um tema de filme americano, estrelado por Kirk Douglas, que tinha semelhança com a de Gonzaga. Apenas três notinhas foram suficientes para que construísse o meu tema. Se essas notas me impressionam é o bastante..."

'Amphibious': "Estava viajando de João Pessoa para Recife, era maestro da Rádio Tabajara da Paraíba. Assis tocava trompete na orquestra e tínhamos muita afinidade. Ele me mostrou a primeira parte do tema, que já havíamos batizado de Amphibious e em seguida, fiz a segunda..."

'Mãe Iracema': "É a história de José de Alencar, das duas tribos que estavam em guerra. Iracema flechou um índio rival, no olho, e ele não reagiu quando viu que se tratava de uma mulher. Ela correu para prestar socorro e então isso resultou em um grande amor entre os dois. Quando nasceu o filho ela pronunciou o nome Moacy que, em tupi-guarani, significa 'Oh, filho da minha dor'. Essa música é dedicada a todas as Iracemas..."

'Coisa nº 1': "Foi apenas um truque rítmico, um drible de Moacir Santos..."

'Sou eu [Luanne]': "Esse nome, Luanne, surgiu exatamente onde ele é cantado na melodia. Isso é coisa dos anjos..."

'Bluishmen': "Bluishmen são os negros que, de tão retintos, chegam a ser azulados. Esses são de uma tribo africana que fica na costa, na mesma direção do Ceará. Deve ter sido o mesmo lugar, na época que os continentes eram uma coisa só. A paisagem é a mesma, praias, coqueiros, palmeiras..."

'Kathy': "Foi feita a pedidos para a namorada do Rick, tropetista que tocava na minha orquestra nos Estados Unidos. Apesar do nome ter cinco letras, o fato da música ser em 5/4 é pura coincidência. Coisa dos anjos..."

'Kamba': "Essa foi composta logo que chegamos ao Rio, em homenagem ao nascimento do nosso filho. Cleonice estava na maternidade Clara Basbaum, em Botafogo, e quando liguei para saber notícias, ele havia acabado de nascer. Comecei a cantar esa música no trem, a caminho do hospital. Nessa época, morávamos ao lado de um terreiro, ouvia frequentemente cantos de umbanda, mesmo que não quisesse..."

'Coisa nº 9': "Isso é um lamento.''

'Orfeu [Quiet Carnival]': "Estava dando uma aula numa escola dos Estados Unidos, chamada Nova Music, quando terminei fui para casa e ouvi no rádio uma música que estava no hit parade das 10 mais, uma coisa muito repetitiva. Dessas eu faço uma dúzia na hora! Comecei a compor uma música cheia de repetições, mudando as notas no final de cada frase. Isso fez tanto sucesso entre os músicos, que diziam que ganharia o Grammy..."

'Amalgamation': "Estava começando um curso de música para cinema na USLA, no início dos anos 70 e comecei ese tema naquela época. Adoro quebrar formas tradicionais usando solos ad libtum antes de apresentar o tema. Essa música foi concluída há uns dois anos."

CD 2:

'Coisa nº 7 [Evocative]': "Uma brincadeira pianística..."

'Coisa nº 2': "Antes de ir para São Paulo dirigir a orquestra da TV Record, participei de um curso de música internacional, em Teresópolis. Lá aconteceu um fato simples mas que me impressionou. N passagem entre uma aula e outra, uma moça deixou cair uns desenhos no chão e eu a ajudei a pegar. Ela estudava artes plásticas; começou então a me mostrar seus trabalhos e um deles era a pintura de uma rosa. Ela disse: 'Isso é Villa-Lobos' - apontando para a rosa. Mais tarde, em São Paulo, tive uma sensação parecida ao tocar um exercício simples, em Si Bemol, do Método de Czerny. Lembrei da história do quadro 'Villa-Lobos'. A inspiração veio dessa sensação..."

'Lamento astral': "Nós morávamos ainda em Nova Iorque, no final dos anos sessenta. Uma noite Cleonice passou mal, eu a coloquei no chuveiro e saí desesperado pela rua, atrás de uma farmácia. Foi assim que surgiu essa melodia na minha cabeça"

'Maracatu, Nação do Amor': "Antes de gravar o meu primeiro disco nos Estados Unidos, mostrei ao dono da gravadora Blue Note a trilha que havia feito para 'Amor no Pacífico'. Ele gostou, mas pediu que eu gravasse mais músicas ritmadas, nada tão doce como aquela trilha. Voltando para casa, olhei para o céu azul, me lembrei do Brasil e comecei a cantar essa coisa africana..."

'Coisa nº 4': "Foi como imaginei os negros fugindo das senzalas. A melodia, com as notas longas, significa a esperança..."

'Coisa nº 10': "Essa também é um truque musical..."

'Jequié': "Isso é uma inspiração no modo lídio. Coloquei esse nome por causa de uma viagem que fiz à minha terra natal e passei pela cidade de Jequié"
(nota minha: modos são 7, originados da cada nota escala maior, muito utilizados na Idade Média, antes e paralelamente ao sistema de tonalidades, 'primitivo' mas sempre redescoberto e reinventado; o modo Lídio é aquele que você ouve no tema dos Simpsons, por exemplo)

'Oduduá': "Pr uma incrível 'coincidência' os letristas da primeira versão não sabiam da minha história quando escreveram a letra. Só fui descobrir meu nome completo e minha idade exata na década de oitenta, nos registros da Igraja das Flores. Acho que os anjos contaram a eles..."
trecho da letra:
"Diz, Oduduá, quem sou eu?
Pra onde vou? De onde vim?
Quem me fez voar tantos céus
Navegar, tanto assim?"

'Coisa nº 3': "Fui assistir a um filme francês e ouvi, pela primeira vez, o som das ambulâncias de lá. Voltei para casa compondo..."

'Anon': "Anon quer dizer sem nome, vem de anônimo. É inspirada em uma marchinha de carnaval que ouvi quando era criança, em Recife. Não sosseguei enquanto não fiz alguma coisa com ela. A capoeira apareceu no caminho..."

'Quermesse': "Compus esse tema na época da Rádio Nacional. Paulo Tapajóes era meu amigo e prometeu interceder a meu favor para ingressar no quadro dos maestros. Disse a ele que aceitaria desde que não interferisse nos meus estudos com Koellreuter. Escrevi a melodia para trompa e foi o meu tema para o programa 'Quando os maestros se encontram'. Mais tarde, nos Estados Unidos, transformei na festa que acontecia no pátio da Igreja de Flores"

'De repente, estou feliz': "Esta foi para Cléo, completamente"

'Maracatucutê': "Um tema típico de Moacir Santos que, de vez em quando, aparece na minha cabeça..."

'Bodas de prata dourada': "Esta foi composta em homenagem aos nossos quarenta anos de casados. Achei que talvez não chegasse às Bodas de Ouro"
[Moacir e Cleonice estavam casados há 54 anos em 2001, ano de lançamento deste CD]

Moacir faleceu em 2006.

Faça um favor a si mesmo, ouça!

Links:
Wikipedia
Tese de pós na UESC

(Dão)

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Viola extrema - Moda de rock


Hoje, pra variar, um pingo de bizarrice e uma colherada de metal!
Esse projeto é muito legal, formado por dois violeiros, que já participavam do grupo Matuto Moderno, "uma banda que já toca o som caipira com uma pegada rocker: viola caipira com pedais de distorção, slide, teremim, o que puder ser utilizado para dar uma roupagem moderna e pessoal no som". Muita coisa estou copiando mesmo daqui:
http://www.modaderock.com.br

Antes uma discussão sempre produtiva, mais pela pergunta frequente do que pela impossibilidade de resposta definitiva: o que faz um disco ser brasileiro e, por consequência, poder ser postado aqui?
Em primeiro lugar, já aviso: vou postar aqui o que eu quiser. Isso aqui é para diversão, minha e de todos os colaboradores, principalmente. Se alguém gosta, ótimo; senão, foda-se.
Mas voltando à pergunta, já incluí aqui o do Tom com o Sinatra, e justifiquei pelo fator 'o que', tocavam música brasileira, bossa nova ou standards da música americana com arranjos próximos da bossa, o que os aproxima do fator 'como'.
Que também está presente aqui, afinal tocam viola. Mas também há o fator 'quem', os caras (Ricardo Vignini & Zé Helder) são brasileiros, o que justifica por exemplo todos os discos do Sepultura.

Esse fator 'como' será retomado em breve num dos discos mais bizarros que tenho em casa, e que, provavelmente, mesmo assim com muitas dúvidas, só agradará ao Mestre X, porque gosta de punk e ironia. Aguardem.

Outra coisa é que esse foi o primeiro disco virtual que comprei via itunes! Quase dez doletas...devia ter pesquisado e comprado o cd mesmo.

Então vamos ao disco, dessa vez sem comentar faixa por faixa pra não entediar o Baiano: trata-se de várias canções de rock, hard rock e heavy metal que fazem parte do histórico de quase todo metaleiro dos anos 80, interpretadas com muita fidelidade, mas pela sonoridade, ficam às vezes irreconhecíveis pra quem não é obcecado e conhece todas os riffs e frases:

1. Kashmir (Led Zeppelin): perfeita, o Jimmy Page até tem uma viola e uma craviola, ficou linda mesmo (acho que vou comentar faixa por faixa...);

2. Master of Puppets (Metallica): essa versão acho até que o Mateus vai gostar mais do que da original, detalhista ao extremo, foi a que me motivou a postar o cd hoje, ouvindo e viajando na beira da piscina ontem de manhã (é, não trabalho todo dia, graças a Deus...), ao mesmo tempo a levada é bem violeira mas as linhas de guitarra são iguais!!

3. Norwegian wood (Beatles): mais uma que tem tudo a ver, começa com uma introdução meio livre e depois segue a original, sonoridade meio oriental, que também tem a ver com as violas;

4. In the flesh (Pink Floyd): essa acho a mais estranha, a eletricidade faz falta, mas de qualquer jeito ficou bonita;

5. Kaiowas (Sepultura): uma das poucas com mais improvisação em cima da base original, é a única com alguma percussão, por conta do 'palmeado e sapateado de catira' do Edson Pontes;

6. May this be love (Jimi Hendrix): essa ficou lírica, tem um arco  (aquela paradinha que usam pra tocar instrumentos de corda eruditos, viola, violino etc) no comecinho, cheia de virtuosismo;

7. Aces high (Iron Maiden): mais uma extremamente fiel às linhas originais de guitarra, mas o mais legal são as levadas aceleradas de viola;

8. Mr Crowley (Ozzy Osbourne): lindona também, explicita as raízes clássicas do Randy Rhoads, guitarrista do Ozzy na época dos primeiros discos, mas a levada é bem típica de viola, mesmo os solos estarem extremamente fiéis ao original;

9. Smells like teen spirit (Nirvana): uma das menos fiéis, demora-se pra reconhecer, mas quando começa a melodia não tem como não cantar junto; o solo é mais improvisado também, provavelmente pra fugir do original, que repete a melodia;

10. Hangar 18 (Megadeth): ficou com cara nova, bem legal e fiel às dobras de guitarra e levadas rápidas alternando com partes lentas;

11. Aqualung (Jethro Tull): termina bem o álbum, também fiel às guitarras, com as violas fazendo até aquela virada de bateria do começo, maneiríssima.

O legal, entre outras coisas, é que o disco é em estéreo total, você ouve uma viola de cada lado!!! Zé Helder no canal esquerdo e Ricardo Vignini no direito, dobras no centro em Kashmir, com participação especial de Renato Caetano no centro em Aqualung.

Produzido pelo Ricardo e mixado no Abbey Road!

(Dão)

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Altamiro Carrilho - Chorinhos didáticos para flauta



Bom, no geral, este blog está em falta com a música instrumental brasileira, e eu particularmente me sinto em falta com o agora finado Altamiro Carrilho e com o também finado Celso Blues Boy (que terá minha próxima resenha assim que conseguir achar ouvir 'Som na guitarra'). Fui até coagido gentilmente pelos meus amigos a abortar a saga dos álbuns solo por causa do Celso...
Altamiro Carrilho além de tudo é de Santo Antonio de Pádua, cidadezinha do norte fluminense próxima a Cambuci, cidade do meu pai biológico.
Sem esse virtuoso flautista, nos sobram hoje em dia no Brasil somente dois dos Grandes: Hermeto Pascoal e João Gilberto.
Esse disco específico é um dos dois que tenho dele, além de uma coletânea de choros onde ele interpreta Flamengo!
Além das músicas excelentes que, excepcionalmente, não serão comentadas uma a uma, o cd vem com as partituras e cifras dos choros!! Melhor ainda pra quem as lê fluentemente, o que não é o meu caso, mas com paciência chego lá. A crítica, não ao autor, é que, por força do tamanho diminuto dos encartes de cds, fica difícil ler, ainda mais depois dos 40 anos, obviamente o caso de todos nossos antigos colaboradores (com exceção da sempre genial Andreia, que deve ter uns vinte e poucos, com certeza). Mas nada que uma boa ampliação não resolva...
Você, mesmo que nunca tenha ouvido nenhum disco dele, possivelmente já o ouviu, talvez na introdução de uma música do Rei cujo nome não lembro agora (Detalhes, viva o google) e também no choro Meu caro amigo (Chico Buarque). No youtube tem uma participação num especial de 1976 do Roberto Carlos onde ele toca O calhambeque e Eu sou terrível.

Dá uma olhada aqui que tem muita coisa boa:
https://www.google.com.br/webhp?source=search_app#q=altamiro+carrilho+roberto+carlos&hl=pt-BR&prmd=imvnso&source=lnms&tbm=vid&sa=X&ei=jvOXUIjLF8ji0gGpzIGQAg&ved=0CAkQ_AUoAw&bav=on.2,or.r_gc.r_pw.r_cp.r_qf.&fp=5bd70720fe26254d&bpcl=37189454&biw=1440&bih=742

O disco traz 12 chorinhos (sem nome, só identificados por números) em duas versões, com e sem a flauta, para que você possa tocar ou improvisar a melodia. Além de legal, didático, com todas as músicas compostas pelo mestre flautista 'especialmente para um aprendizado correto e facilitado'.
Produzido por Jorge Gambier.

(Dão)


segunda-feira, 16 de abril de 2012

Atenciosamente, Duofel

Tem pouca música instrumental por aqui, é um fato.

Decorrente do fato de que realmente há poucos discos de música instrumental interessantes. Há muito exibicionismo, muita encheção de lingüiça e pouca originalidade, além de pouca criatividade e raras composições legais.

Mas, e sempre tem um mas, temos excelentes discos.

E este aqui é um deles.


O Duofel é uma dupla de violonistas (Fernando Melo e Luiz Bueno), daí o nome: dupla formada por Fernando e Luiz.

A princípio em conjunto de baile, depois em bares e casas noturnas, a dupla tocava muito (em freqüência e habilidade), posteriormente passando a suporte da banda de Tetê Espíndola. Inclusive são responsáveis pelo arranjo de 'Escrito nas estrelas' (se isto é um mérito eu realmente não sei...).


Posteriormente passaram a um terreno mais especificamente instrumental, com fortes influências de Egberto Gismonti e do gênio Hermeto Pascoal.


Depois de uns 5 álbuns chegaram a este aqui, onde várias composições próprias homenageiam suas influências e poucas são releituras bem livres e diferentes das originais.


O disco tem 2 versões e as outras são inspiradas em artistas importantes para a dupla.


Procissão (Gilberto Gil) inicia bem, meio etérea com uns instrumentos com arco (acho que são os Zig Zum, seja lá o que for isso), com a melodia fiel, clima de festa meio marcial (como uma procissão, oras...), improvisos no meio, bem legal. Começo bem pra cima!


Os violonistas alternam violões de aço, de nylon e de 12 cordas conforme a música.

Além deles há outros excelentes músicos, como Nenê (bateria), Sylvio Mazzuca Jr (baixo), Michel Freidenson (teclado e piano), Caíto Marcondes (percussão) e Teco Cardoso (flauta e sax soprano).


A música seguinte, Subindo o Tapajós, homenageia Sebastião Tapajós, violonista da 'clássica escola européia e a própria escola brasileira de violão personificada'! Tema bonito, sutil, dinâmica, vc quase consegue ver os caras se olhando e os instrumentos dialogando, música viva, muito longe da chatice instrumental.


Tetê Espíndola, cantora já citada, meio madrinha do duo, é a homenageada da música da vez, Floresta dos Elfos, já que ela havia sugerido o nome Duo Elfos. Gongos, sons de chuva, percussão discreta, tema límpido, bonito de ouvir.

Azul cor de manteiga homenageia o sensacional Hermeto Pascoal, que já trabalhou com os caras no disco 'Kids of Brazil'. Mais um belo tema. Mais caótica, meio pulante, com um pan bem legal, boa pra ouvir com fones ou caixas bem afastados.

Fax para Uakti é pro Uakti, óbvio...Se vc não conhece, deveria (e nós deveríamos botar um disco deles aqui, claro, quem sabe o 'I Ching'). Bem viajante, com uns sons psicodélicos de arco de rabeca, muito legal. Se o Syd Barret estivesse vivo...


Norwegian wood (this bird has flown) é dos Beatles (não conhece? Volte já pra Marte, porra!). Uma releitura ao mesmo tempo fiel e criativa, com improvisos viajantes mas sempre na estrutura consagrada.

O amigo da chuva tem um quê de música indiana, proncipalmente na percussão quase frenética, o que tem a ver com o homenageado Badal Roy, tablista indiano ligado ao free jazz norte americano.


É pra Jards homenageia o Jards Macalé, numa levada meio malandra, cheia de ginga e quebradas, ou melhor, breques.


Boissucanga é o nome de uma praia do litoral norte de São Paulo (muitos cariocas não sabem que há praias lindas por lá, azar o deles; azar não, ignorância), um trio de rock progressivo e o nome da música mais dinâmica por aqui, harmônicos saltitantes em afinações alternativas, um ping pong de violões desenfreados, bateria quebrando tudo e também tocando baixinho jazzy, quebradas e talz...O homenageado é o parceiro do trio de mesmo nome citado, Armando Sinkovitz.

Rock rural e instrumental! Surpresa é sair daquela simplicidade típica e do bucolismo, a música Atenção: lombada é bem animada, mesmo tendo 'só' dois violões de aço pilotados cheios de velocidade e sutileza. Zé Geraldo, o homenageado da vez, foi ajudado pela dupla como músicos e arranjadores no disco 'Caminhos de Minas', onde também tocaram guitarra e baixo.

Jazz à Vienne, nome de um dos maiores festivais de jazz da Europa, homenageia Michel Jules, violinista e compositor francês, que divulgou a dupla. Aqui a música é mais tranqüila, plácida, com um lindo sax soprano, cadências de acordes sofisticados.

Pra terminar um samba maluco, Garoando no Bixiga, com banda mais pesada, levada na frente que te faz mexer, tema insistente e incisivo. Aqui se homenageia a cidade de Sampa, 'muitas vezes quente e romântica, outras tantas caótica e agressiva, mas sempre se renovando', através de seu ilustre filho, a 'figura caricata de Adoniran Barbosa'.

(Dão)

sábado, 9 de julho de 2011

Dente de ouro, Blues Etílicos




E pra um dia frio, blues.


Blues brazuca, com letras típicas - algumas em português, versões, muitas instrumentais e um suíngue apimentado.


Maior banda brasileira de blues, com 26 anos de estrada, merece estrear a seção blueseira do nosso blog.




Play the blues!




Que inclusive começa rock'n'roll: 'It's my soul' tem essa vibe, aquele shuffle típico com aquela gaita bem tocada pelo sensacional Flávio Guimarães, além do slide do Otávio Rocha! Soul blues.




'O sol também se levanta' é um exemplo de blues bem transportado pro Brasil, uma letra sobre ressaca (podia ter tocado no dia seguinte do Itupervastock), instrumental acústico.


"O sol me acorda e ainda é cedo!


Eu fico logo de mal humor


A minha cabeça ta rodando, de onde é que vem esse tambor


É de manha e eu tô numa ressaca, eu me arrasto até o banheiro


me sentindo enjoado enfio a cara no chuveiro


É nessas horas, eu digo pra mim mesmo nunca mais vou beber


Mas vem caindo a tardinha...


Preparo outra caipirinha"




'Cachorrada' é instrumental, com uns metais (gaita, trompete by Greg Wilson e sax barítono by Henrique Band) muito legais, além do solo matador!




Aí vem a maneiríssima faixa-título, uma música de capoeira com berimbau e atabaque do Mestre Garrincha, arranjada pro formato blues com slide dobro e tudo! Muito muito legal! Solo de gaita sensacional.


"Ela tem dente de ouro


Aih meu deus foi eu quem mandei 'botar'


Vou rogar é, uma praga prá esse dente se quebrar


Ela de mim não se lembra, aih meu deus nem dela vou me lembrar


Casa de palha é palhoça, se eu fosse fogo queimava


Toda mulher ciumenta, se eu fosse a morte eu matava"




Mais uma instrumental 'Dromedário', cheia de wah-wahs, solo de baixo e gaita altíssima.




'Misty mountain' é mais contemplativa, começando com um violão e voz bonitos, solinho de gaita e entra a banda, dinâmica é tudo...vale a audição, eu sempre gosto de ouvir essa lá de cima das montanhas.




Mais uma instrumental, 'Texas frogs', animada e alto astral, tá até esquentando esse frio gélido curitibano.




'It ain't easy' é um suinguezinho maneiro, não tipicamente blues, mas se mistura bem no geral.




'William's influence' é uma instrumental com um som de gaita diferente, é a cromática. Só não sei quem é o William...




Toca Raul!! 'Canceriano sem lar (Clínica Tobias blues)' ficou muito legal, num blues acústico com aquelas paradinhas típicas e um slide dobro malandro.




Na seqüência mais uma instrumental, 'Albert's mix', agora com um pouco mais de drive! A música termina de repente, estranhíssimo, deve ser o Albert King cortando a mix...




'Águas barrentas', provavelmente em homenagem ao Muddy Waters, sacode a casa.




'Mambo chutney' é bem latina, com uma guitarra balançante, congas e trompete, legal.




'Liberdade' é uma boa surpresa, de Fernando Pessoa (acho que é o poeta português) e Márcia de Carvalho, bluesão quase acústico com uma voz com distorção ao fundo.




Que já emenda numa instrumental mais lenta e bem curtinha, 'Elefante'. Acho que tem instrumentais demais, por mais que sejam legais, né?




'Cerveja' lembra por que eles são etílicos! Co-autoria dos caras com o Fausto Fawcett, que inclusive canta aqui com aquela voz carioca típica.


"Vou virar vou virar esse copo


Cheio de espuma cheio de ouro


Vem cerveja vem beijar meu sangue


Alquimia de espuma libertaria


O mundo é veia aberta a minha volta


Hoje eu to bebendo cerveja


Toda bebida é binóculo da alma


É raio x da perdição dos sentimentos


Cerveja me libera, me leva ao paraíso


Ah loura liquida me leva pro seu liquid sky


O mundo é veia aberta a minha volta


Hoje eu to bebendo cerveja


É paraíso dos desejos, encruzilhada violenta de tesão


Que me importa como o tempo passa


Cerveja me libera


Pra tempestade da carne


Pra tempestade da rua pra tempestade do sexo


Pra tempestade de tudo


O mundo é veia aberta a minha volta


Hoje eu to bebendo cerveja"




E depois de 16 músicas, 'Little Martha' (D. Allman) termina bonito o disco, acústica e leve.




Long live the blues.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Acqua, Frank Solari



Tem pouca música instrumental por aqui, acho que o Mateus postou um de chorinho e só.
Podia ser Uakti, Helena Meireles, o gênio albino Hermeto, Yamandu com Paulo Moura (presente do amigo Paul) ou muitos outros, o que não falta no Brasil é instrumentista bom. Já disco instrumental...pra mim que gosto de pop e canções (metal também, mas isso é outra história), um disco inteiro sem voz pode ser exaustivo.
No final fiquei entre os gaúchos contemporâneos de surf music Pata de Elefante (vou postar ainda!) e esse também gaúcho, guitarrista excelente e extremamente técnico e aparentemente egresso do metal (daqueles que o Mateus abomina), mas que, felizmente, também é compositor muito bom, arranjador competente e tem bom senso de fazer discos bem variados.
Este não é o primeiro. Tem os anteriores 'Círculo mágico' e o primeiro, também muito legais.
Foi elogiado por mestres como Bob Dylan e Stanley Jordan (que inclusive tem um trabalho com o também instrumentista Armandinho, mais um que depois aparecerá por aqui).

O disco se inicia com 'Catu', uma boa mistura de rock com maracatu, mas nem de perto próxima de uma sonoridade nordestina. Um violão agitado que conduz a música, um baixão suingado, bateria quebrada, uma música boa pra começar o dia. A guitarra só aparece depois, discreta, exceto nos solos. Também tem um solinho de baixo, do irmão Roger Solari.

A seguir, uma belíssima, 'Acqua', um clima psicodélico na intro, depois uma bateria que parece eletrônica, uma linda melodia com wah-wah, solos com poucas notas e muita expressão. Também tem o seu momento virtuose.

'Lucky girl' traz violões bonitos, um jazz/blues com participação especilíssima de Pepeu Gomes, fazendo o segundo solo, eu acho. Carlos Martal também toca guitarra, aqui da espécie 'guitarra krika', que eu não faço ideia do que seja.

'Tindum', mais uma boa mistura, aqui de funk com maracatu, mais suingue, um baixão quebrando tudo com slap, uma guitarra malandra com pouco drive. Quebradeira!

'Na pressão' é aceleradíssima, um jazz rock alucinante com o também virtuose André Gomes no baixo. Mais quebradeira.

'Estrela, estrela' diminui o ritmo e a densidade instrumental. Belo violão, sons de campo, meio chorinho, acordeom por conta do Renato Borghetti, , solinho bonito, percussão de fundo, guitarra servindo à canção. Sinta-se nos pampas gaúchos, bem acompanhado. Só falta a erva (e eu estou falando do chimarrão).

Uma versão bem fiel (conseqüentemente bonita) de 'Going to California', do Led (ou de quem eles tenham roubado a ideia), mantém a calma momentânea, bonita. Aqui Roberto Frejat faz o(s) violão(ões). O solo bacana de slide eu não sei de quem é. Mais guitarras bonitas.

Pepeu volta pra animar a festa, 'Move it up' só com guitarras e aquela bateria rock, com as convenções manjadas de música instrumental, nem por isso menos divertidas. Das mais longas do disco, com muitos solos...

'Luna' é mais uma bonita e mais tranqüila, onde os irmão tocam tudo, inclusive teclados e programações. Aquele clima Gilmour com mais balanço no drum'n'bass.

'Cálculo renal' (?) é um bom jazz fusion, com todo o pacote, bons teclados, dinâmica interessantíssima, convenções, sopros e metais, me lembrou que preciso postar também por aqui a Banda Black Rio.

'Sintonia', mais uma acelerada e fluida, com timbres bonitos e passando longe dos prováveis ídolos Satriani/Vai/Malmsteen (tá vendo, Mateus, acho até que você vai gostar desse aqui), teclados mais modernos (Michel Dorfman) solando.

Um jazz choro, 'Abertura', mostra que o disco é brasileiro, com orgulho, amor e criatividade. Também longa, mas quando falo isso é menos de 5 minutos, quase todas têm menos de 3:30, o que espanta a chatice.

Pra terminar bem, 'Bosque das águas', mais instrospectiva, aqui lembrando às vezes o melhor Jeff Beck, mas com timbres um pouco diferentes. Música pra dar uma viajada, lugares distantes, um descanso depois de toda a pauleira.

Algumas informações tirei (e alguma ideias aproveitei por aqui!) de uma resenha no whiplash.net sobre esse disco.