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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Tribalistas



Há alguns meses, a revista Playboy, deu provas concretas da decadência que atinge todo o grupo Abril ao tentar, com críticos de própria editora, oriundos de publicações medíocres como a Veja ou Contigo, elaborar uma lista do que seriam os 10 piores discos nacionais, e citou, juntamente com artistas renomados, os Tribalistas. Certamente a intenção devia ser polemizar, mas certamente nem isso conseguiu diante da baixa qualidade dos textos e da falta de conhecimento dos seus “críticos”. Dentro de um cenário de axé music, sertanejo universitário e outros estilos que tocam por ai que não apareceram, citar como pior nomes como Milton Nascimento, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Rita Lee e o próprio Tribalistas soa como algo completamente ridículo.

Mas deixando as polêmicas de lado, ou até mesmo para reforçá-las, acho que esse disco merece sim aparecer em lista, mas certamente entre os melhores. Está certo que a superexposição de algumas canções na época do lançamento (incluídas em trilhas sonoras de novelas), acabou desgastando-as, mas nada que desmerecesse esse trabalho que, do meu modo de ver é, antes de tudo, resultado de uma sintonia natural entre três grandes artistas em um momento único da carreira de cada um.

Produzido pela própria Marisa Monte (que novamente caprichou no encarte, contemplando cifras) e contando ainda com participação Dadi Carvalho, Cézar Mendes e Margareth Menezes entre outros, o disco inicia com um sonoro Bom dia Comunidade na voz de Arnaldo Antunes em “Carnavália”, uma verdadeira canção abre-alas, na qual se sobressai o perfeito casamento vocal entre Marisa Monte e Arnaldo Antunes, levados por uma percussão de Carlinhos Brown que parece feita sob medida para o disco: Vamos pra avenida ...Desfilar a vida...Carnavalizar.

As duas canções seguintes (“Um a Um” e “Velha Infância”) são baladas que estouraram nas rádios na época do lançamento e de tanto tocarem, acabaram cansando um pouco. Mas isso não tira o mérito de serem boas canções de amor.

“Passe em casa” é uma das melhores em minha opinião: música leve, solta, com uma percussão bem original criada por Carlinhos Brown. É daquelas músicas que dá gosto em ouvir.

Em “O amor é Feio”, destaca-se o barítono Arnaldo Antunes em primeiro plano, com arranjo que dá a cara de música infantil, daquelas de boa qualidade que foram produzidas recentemente.

Depois das canções “É Você” e “Carnalismo”, que possuem a cara (além da voz) da Marisa Monte e poderiam facilmente ter saído de um de seus últimos discos (músicas que ultimamente não deixam muita saudade), “Mary Cristo” é praticamente uma doce canção de natal, ideal para ser ouvida nessa época do ano (dezembro).

...quem está falando é a fada madrinha. Iniciando com a fala de uma criança, neta de Chico Buarque, “Anjo da Guarda” é outra que parece música para criança, acompanhada por uma riqueza de sons e percussão bem criativa.  ‘La de longe” vai no mesmo ritmo, transmitindo aquela suavidade tão predominante na maior parte desse disco, assim como “Pecado é lhe deixar de molho”, a canção seguinte.

Eu sou de ninguém...eu sou de todo mundo... e todo mundo é meu também...: “Já sei namorar” é outra que teve como maior pecado a superexposição na época, com o consequente desgaste natural. Mas nada que uma quarentena não resolva. Depois de alguns anos, agora consigo voltar a escutar e, melhor ainda, curtir como ela deve ser. Sem pretensão e bastante original.

Pé em Deus...e Fé na Taba. O disco encerra com “Tribalistas”, praticamente uma canção manifesto que consegue transmitir em alto astral a ideia (e a naturalidade) de como o disco foi concebido. Um resultado de um encontro de três músicos que estavam em perfeita sintonia no exato momento: dois homens e uma mulher...Arnaldo, Carlinhos e Zé (apelido da Marisa, decorrente de Marisete).

Como os próprios autores definem, esse disco foi resultado natural de um encontro sem pretensões na Bahia (para depois ser gravado no Rio). As músicas foram nascendo com naturalidade, sem pressões, decorrente de uma sintonia que já se fazia presente nos discos solos de cada um deles. Trata-se de um momento em que a carreira de cada um deles convergiu e o disco foi o filho de parto normal. Depois cada um continuou o seu caminho. Talvez até mesmo o sucesso do disco na época tenha surpreendido-os também (mais de 1,5 milhão de cópias vendidas em época já com internet).

Como a própria canção que encerra o disco previu, “o tribalismo é um antimovimento... que vai se desintegrar no próximo momento”. Percebe-se que, de cara, o disco era mesmo para ser mesmo um filho único desse encontro de parceiros musicais.

Quanto às críticas, também souberam responder com alto estilo no próprio disco, afinal os tribalistas já não querem ter razão...não querem ter certeza, não querem ter juízo nem religião.

[Paul]

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Alfagamabetizado, Carlinhos Brown


Mais um da Bahia, meu rei...
Apesar dos protestos dos amigos sem tolerância musical, principalmente daqueles que nunca ouviram este excelente disco que, mesmo não sendo tão sofisticado quanto a próxima postagem do mestre X, tem seu borogodó.
O álbum também consta do livro '1001 discos para ouvir antes de morrer', na mesma página da Bethânia resenhada aí embaixo. Na resenha, diz-se do artista, 'o Prince brasileiro' (!), um ser capaz de representar a essência e a voz do seu povo (!!). Um exagero, talvez, mas tem seu fundo de razão. O livro ainda ressalta o fato do artista fundir a tradição musical tradicional com música moderna, com um 'resultado colossal' (!!!). Também toca no fato disso ser feito com 'maturidade e até sofisticação', com 'integração tão coesa que a linha de fusão se torna quase imperceptível', e aqui eu assinaria embaixo com tranqüilidade!
Buscando imagens da capa, descobri que o disco tem uma outra capa, mais vermelha, diferente da que eu tenho. Independente disso, é mais um disco com produção gráfica caprichada, fotos criativas e bonitas. Mas é meio difícil acompanhar as letras e saber dos músicos envolvidos...
O Carlinhos Brown, que também foi líder da Timabalada, apareceu para o grande público tocando percussão com o Caetano (ele é autor de 'Meia lua inteira'), num show do disco Estrangeiro que começava com luz no Carlinhos e ele, espertamente, direcionava a luz através do pandeiro pro Caê. Daí pro mundo e para os Tribalistas...mas isso já é outro disco, que, por precaução, pra evitar apedrejamento, vou sugerir que a minha filha de 13 anos faça...ou quem sabe a herdeira do Mateus, que eu nem sei se gosta também. Sei que ela gosta de Ramones, o que já é um baita desgosto...pro pai, claro, pra nós é divertido.

Mas vamos ao disco e suas (muitas) faixas:

1. Angel's Robot List: quase uma vinheta, com uma voz citando a alfabeto grego (isso é redundância?) e uns ruídos por trás;

2. Pandeiro-deiro: aqui começa com percussão africana seguida de belas vozes baianas e umas guitarras muito legais, além de um arranjo de sopros muito legal; a voz só aparece bem depois. Participação ilustre de Marcos Suzano no pandeiro solo. A letra, apesar de muito sonora, é total nonsense.

3. Covered Saints: uma das minhas preferidas, calminha, bonita, bilíngüe, solinho bacana de guitarra, merece a ouvida mesmo dos mais radicais. Além de belos vocais, aqui a letra acerta (ou pelo menos faz algum sentido). O porém fica por um violino que sola no limite da (des)afinação, o que, tendo em vista o capricho e o nível dos atuais programas de auto-afinação, deve ser proposital. Mas me irrita profundamente.
'Triste quer saber
se ainda mora em mim
não sei dizer
chega de você
te sinto mais livre no querer
o amor que diga
que fim dar
se de forma ímpar
in a beautiful way
you're devoring me'
Tocava muito na excelente e saudosa (pra mim) Rádio Globo carioca (ainda existe?).

4. Cumplicidade de armário: começa com aquele surdo virado típico do axé, mas não segue assim, acrescentando mais uma guitarra muderna e uma levada pop-reggae. Brown neste disco se cercou de músicos gringos, tendo um som bem internacional e pop, mas com a cara dele. Lembra um pouco a sonoridade do 'Lilás' do Djavan, só que mais animado.

5. Argila: mais uma muito bonita, com bons violões/guitarras, voz cantando sutilmente e harmonia surpreendente pra quem acha que o cara é monotemático.

6. Tour: bem pop, pra tocar na rádio, suingada e leve, com aquela percussão baianíssima e aquele refrão pra cantar no carnaval.
'all right
I'm allright
sinto felicidade
não invente de fazer maaala (sic)'

7. Bog la bag: esta aqui lembra o Prince mesmo! Se ele fosse à Bahia...vc já foi? Então vá. Percussão frenética, junto com a cantoria em carlinhosbrownês. Letra com ajuda do Celso Fonseca. E mais uma vez uma guitarrona, quase metal, a cargo do Roseval Evangelista (!).

8. O bode: mais uma com muita percussão que, apesar de repetitivo, é bem mixado sem embolar com as vozes e outros instrumentos. Mais uma que deve ter feito seu sucesso no carnaval.
'Levanta sacode
que lá vem o bode
corre Chico' (será um aviso ao ex-sogro?)

9. Comunidade-Lobos: um boa surpresa, uma composição quase instrumental e quase erudita com violoncelo e um monte de instrumentos tocados pelo Brown, calmaria com batucada.

10. Frases Ventias: calminha e bonita, a voz aparece limpa, com violões e violoncelo, seguidos de mais vozes e percussões (surdo baixo, enxada, vaso, cúpula de surdo, lé, djembê solo, o que será isso tudo??!).

11. Quixabeira (com música incidental 'Samba Santamarense' e 'Amor de longe'): música de domínio público, aqui com as luxuosas vozes da 'máfia do dendê', os Doces Bárbaros: Caetano, Gal, Bethânia e Gil, muito legal.
'Tu não faz como um passarinho
que fez um ninho e avoou
mas eu fiquei sozinho
sem teu carinho
sem teu amor'

12. Seo Zé: esta aqui tem uma curiosidade, traz o título de um outro disco ('Cor de rosa e carvão'), sendo a música de autoria de Bronw, Marisa Monte (em breve por aqui) e Nando Reis. É uma rumba/bolero destoando um pouco do disco, mas traz variedade. Tem também uns vocais discretos da Marisa.

13. Mares de ti: um pouco mais lenta, etérea e bonita, pop, podia até ter tocado nas rádios, o cara tem o faro pra facilidade, que parece mas não é fácil. Mais um solo de guitarra hard, curtinho!

14. Zanza: tem a diferença de ter a voz filtrada (isto é, com alterações de equalização, com o corte de algumas, sacou?) do Carlinhos, cadenciada e tranquila.

15. A namorada: o hit do disco! Pra levantar a galera, alterna umas guitarras pesadas com wah-wah, sopros (isto é, saxofones, trompete, trombones, sacou?) bem arranjados e claros, guitarra suingada, baixo sensacional do Arthur Maia, refrão grudento, iêiêiês, levada disco, rufos de bateria em fusas (1/16 de compasso, sacou?) e por aí vai...
'A namorada tem namorada'!!!
Apareceu até no filme 'Speed 2 - Cruise control'!

16. Vanju Concessa: pra terminar e acalmar a festa, clima capoeira com berimbau, percussão baiana e Suzanesca, guitarrinha pica-pau e aquela letra nonsense típica.

Produzido por Wally Badarou (Level 42, Fela Kuti, Salif Keifa etc) e Arto Lindsay.