
terça-feira, 10 de maio de 2011
Terminando a saga 20 anos de rock brasil

domingo, 2 de maio de 2010
A Letra A - Nando Reis (2003)

“Você pediu
Pra qu’eu fizesse
Um poema
Por você
Como é que eu vou saber
O que você quer me dizer?
Eu quero que você me conte”
Nando Reis. A LETRA A. Uma capa tatuada: a cor, o nome, as letras negras batidas à máquina.
E a vida deu um montão de volta e esse cd veio parar aqui na 22 Mountain Avenue, doce presente.
A letra A é um disco feito sob a minha medida: puro rock viajante, um rápido-lento delicioso, que pede o aconchego do ouvido e movimentos lentos dos ombros e da cabeça num balanço combinado e suave. A letra A captura tua atenção para as letras, para cada palavra, para poesia longa e embaraçada de prosa.
Sabe? É um disco de amor. Mais um disco de amor. É assim que o Nando parece estar confortável, e aí que é o legal! E tudo ele transforma em estória, num mini-cotidiano: o gramado, a casa, a bolsa a tiracolo, a cor do esmalte, os pés nus nas sandálias, as miçangas, os lábios e os olhos.
Nando Reis nesse disco é pontual, olha para um mundo que só os seus olhos alcançam, está à procura das coisas simples ao redor. Ele trata daquele pequeno que é grande. Grande porque está em todos nós.
“Apenas os automóveis
Sem penas se movem, inventam
Certeza é o chão de um imóvel
Prefiro as pernas que me movimentam”
[ANDRÉA]
sábado, 25 de outubro de 2008
Full Moon (Infernal - Nando Reis - 2002)

Todo mundo tem seu mundo secreto. Confesso que o Nando Reis é um personagem que há muito passeia pelo meu… Adoro sua voz rústica e desafinada, seu cabelo vermelho, sua barba, seus brincos e anéis, seu jeito de tocar o violão e principalmente o jeito que ele escreve e canta o mundo pra gente.
Me liguei no Nando através da voz da Cássia Eller em “Luz dos Olhos”. Pensei: nossa, o que é isso?! E fiquei tempos viajando naquela música, naquele fusca, naquelas malas, naquele amor tão intenso. Pirei.
Taí, o Nando é uma figura barroca, intensa, angustiada, sempre cindido, sempre buscando o amor. Transita entre o sim e o não num movimento pendular e o mais legal, entre o seu sim e o seu não, muitas estórias acontecem. Sua poesia tem temperatura, exala calor e se tivesse uma cor, seria o vermelho. NR nos toca porque ele escancara nossas dúvidas, canta com naturalidade aquilo que a gente guarda a sete chaves nas nossas gavetas.
“INFERNAL” (2001) foi meu primeiro disco do Nando. O encarte é uma obra de arte! Aquela boca cantando, aquele pé no ritmo, aquele pullover são de matar! O amarelo das paredes, o baquinho de madeira naquele canto, o sol redondo e opostamente sua alma gêmea, a lua… Bicho, eu adoro! E do outro lado, atravessando a porta sempre aberta, você se depara com a full moon… Bom, depois desse encarte a melhor coisa é logo se entregar pro recheio do disquinho. Aliás, é isso que o Nando faz com a gente, ele te convoca a mergulhar no seu mundo amoroso cheio de atalhos, de armadilhas e de prazer. Eu não sei exatamente o que mais me atrai na música dele. Será a força da realidade, será a energia estonteante dos sons, será a velocidade do seu ritmo ou será sua poesia escandalosa com a qual me identifico profundamente? Não tenho a minima idéia, talvez seja tudo isso junto, como num ímã.
Nando começa como uma bomba em “Infernal” e num reggae rasgado ele grita “Eu juro, eu te amo desde que eu nasci”. Pode alguém jurar um amor desse tamanho? O mundo que até então cabia num criado-mudo e aí chega você, estilhaçando, ampliando tudo. Infernal. O Nando canta o amor como uma possibilidade de libertação. É um abre-te sésamo! Tudo vale entre o céu e o chão.
“ECT” chega com um batuque redondo, gostoso, com umas interferências de quintal ao fundo, com uma guitarra graciosa e brincalhona. A carta é de amor, um susto! Uma carta que te convence a aparecer no mundo. Aqui estão os Tribalistas às avessas! Num jogo de cadeiras sai o Arnaldo e entra o Nando. No final um silêncio para um breve respiro. O resultado é uma música com a velocidade da luz.
“A Minha Gratidão é Uma Pessoa” canta a dor e a delícia do perdão. Começa lenta e ganha força, como se o Nando quisesse nos convencer que sim, que vale a pena tentar. A palavra mágica é a imperfeição, ele celebra a nossa condição de amar , desamar e reamar. A música fecha com a guitarra insistente, seguida de uns sons ondulares, insinuando paz.
O céu arde com “O Segundo Sol”. A invenção fica linda na voz do inventor. A guitarra ganha voz e o Nando calmamente recita a força do inesperado. Essa lindeza para mim é uma incógnita. Uma incógnita que me tira do sério, me incomoda pela sua beleza, pelas suas palavras inusitadas e amarradas numa trama impossível. "O Segundo Sol" é um knockout.
Acho o máximo a despretensão de “A Fila”! O balanço dessa música é inconfundível! A feira como um espaço de encontro delicioso: tem pastel, tem bolachinha, tem morango, tem gente trançando, tem gente gritando, tem gente experimentando. A feira tem cheiro, tem personalidade. O Nando imprime nas coisas cotidianas a poesia. Na feira “eu procuro o mais barato pra sobrar dinheiro para comprar muitas flores para você”. NR é um poeta incansável, ele não desiste do amor. Essa é a sua língua.
A mais linda de todas, “Os Cegos do Castelo”. Nessa música o Nando pede água.
“Eu cuidarei do seu jantar/ do céu de do mar/ e de você e de mim”. A potência amorosa dessa música é transcendente e de novo o Nando chega de mansinho, nos contando de como é o mundo no nosso porão e do desejo de escapar pela porta aberta, para o sol lá fora. É a esperança do reencontro, da chance, de quem tá desejando de corpo e alma, de novo, mais uma vez. O Nando é isso – essa sequência de amor e desamor, essa tensão humana dos erros e acertos. É uma música de carne e osso. Nua e crua.
O final é avassalador, NR sai de cena e deixa só a música, nos permitindo o olhar fixo para cegos que habitam a nossa escuridão.
Esse cd é sem fim! Um bumerangue, vai-volta-vai-de-novo e volta-com-mais-força. “Resposta” – “Bem mais que o tempo/ que nós perdemos/ ficou pra trás, também o que nos juntou”. É o lugar vazio do amor , do passado, daquele que continuou andando apesar dos versos seus, tão meus. Acho essa música um carinho para os ouvidos, uma cosquinha boa de ouvir. É serena. É um Nando menos desesperado, literalmente numa onda peace & love.
“Onde Você Mora” abre com uma guitarra quebrada, com uma melodia super sensual. Aqui a música e a poesia foram criadas num encaixe perfeito. Uma música feliz, “com a sorte de um amor tranquilo”, um amor inesquecível, num desses delírios que a gente não quer nunca mais esquecer. Privilégio um amor desse! Amor que não se mede/ amor que não se pede/ não se repete”… Ah, que covardia!
Em “Fiz o que Pude” e “Me Diga” o Nando volta visceral, tomado pelo desespero de ver seu amor escorrendo pelas suas mãos. É um NR dando uma chance para ele mesmo, em “Fiz o que Pude” de uma forma frenética e em “Me diga” de uma forma maior, onde todos seus amores entram em cena – o pai, os filhos e a mulher amada. “Me Diga” é linda, porque aqui Nando mais uma vez reconhece seus limites, ele canta os limites do próprio amor. É um alívio o sentimento dessa frase “E eu/ dependo do que eu não entendo/eu pretendo apenas/que você saiba que isso é o meu amor”.
Ele saca como é super não ser super-herói. Maravilhoso.
Então tá, acho impossível não ouvir o Nando e não se enxergar em sua poesia, não fantasiar um small world com suas palavras. Não tem saída: é como num espelho: ou você se enxerga na sua obsessão ou na sua paixão.
Esse pequeno texto é dedicado ao PQ, linda fantasia que virou realidade, ao Obama, fantasia de mudança por que torço com todas as minhas forças para que também se torne realidade e ao Mateus, que há muito tempo me disse assim: escuta o Nando, acho que você vai gostar. Ele tinha razão!
[ANDRÉA]
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Delicado? Infernal?... (Sim e não - Nando Reis - 2006)

Seu nome responde a qualquer tentativa de classificar o disco de Nando Reis e os Infernais lançado em 2006: Afinal, este é um disco de rock? Sim e não. É um disco de baladas de amor? Sim e não.
É o primeiro disco do compositor sem a sombra de Cássia Eller, que foi sua voz em "Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo" (ver entre as postagens anteriores) e no póstumo "Dez de Dezembro", disco onde a cantora gravou as canções mais célebres do compositor. Cássia se foi, mas Nando segue em frente.
Também é o primeiro disco que marca a fase "clean" de Nando Reis, afastado do álcool e de outras drogas. De alguma forma, essa nova fase transparece no álbum, ao mesmo tempo em que também estão presentes referências à sua vida "anterior", tornando este o seu mais autobiográfico trabalho.
Estranhamente o disco abre com sua música mais fraca, Sim, uma melancólica declaração de amor que será totalmente esquecida quando chegar ao final da audição. Em seguida, vem o hit deste disco: Sou Dela. A levada da música é irrestível, "grudenta" sem ser pegajosa, o pop-rock perfeito. O refrão traz uma sutil referência sobre seu momento: "Estava tão longe, num outro lugar, trancado e distante, na esfera lunar...". Mas agora, o Nando é dela e a música transborda a alegria desta descoberta e celebra este amor renovado.
N é uma balada de saudade. Uma saudade de quem fica menos de uma semana sem ver a mulher amada. Parece um exagero, mas quem já viveu uma história de amor quinzenal, de rodoviária, sabe bem como é essa saudade e a intensidade do encontro. A introdução traz um Carlos Pontual tocando um lick simples e intenso na strato, lembrando o lado mais sentimental de Clapton. Monóico é o primeiro rock'n'roll stoniano deste disco. Baita música com uma poesia um pouco diferente daquela que é a clássica do Nando Reis. No jogo de palavras há uma troca de papéis e é a mulher que o penetra. Nos Meus Olhos é outra balada, mais uma vez, um pouco diferente também da poesia típica do NR. Aqui ele mistura frases curtas e suas clássicas frases longas.
Santa Maria é um rock'n'roll stoniano de estrada, que conta a história de um amor inesquecível, marcado pelo calçar e descalçar das botas de uma mulher amada. Espatódea é simplesmente, a mais linda canção de amor de pai pra filha já escrita em português. A música dedicada à caçula Zoé diz: "não sei se o mundo é bão, mas ele está melhor desde que você chegou e explicou o mundo pra mim". O arranjo é delicado como a flor, e a gente vai percebendo o sim e não, o yin e yang se alternando ao longo do disco.
Pra Luzir o Dia é uma canção folk de poesia curta que se concentra em temas do dia-a-dia, celebrando as coisa simples desta vida: “bolo pra comer, bola pra bater”, “som para ouvir, sono pra dormir”. Uma bela e suave orquestração acompanha o arranjo. Como se o Mar é uma canção de amor que lembra os aranjos típicos da soul music brasileira dos anos 70, a la Tim Maia. Pena que a letra não seja tão boa quanto a música. Nando volta com mais uma canção de amor, pra um amor que se despede em Pra Ela Voltar, e reclama: "desde que ela foi embora nada mais funcionou".
Caneco 70 é o mais stoniano dos rocks deste disco. Desde as guitarras, até um "uh uh!" que lembra Sympathy for the Devil. Porque será que eu gosto tanto deste disco? Outra canção de estrada, conta uma história de amor real, com suas delícias e cagadas. “Teríamos futuro de eu não fosse um selvagem”. No final, uma micro autobiografia: canta seu amor pela sua São Paulo natal, pelo seu São Paulo Futebol Clube, time do coração, os pais, os filhos... Meio que justificando seu comportamento, se apresentando, sei lá...
“Não sei quantas vezes te deixei bem triste, Não sei se comigo foi feliz ou não. Não sou exatamente o cara mais fácil que existe. Mas posso te dizer que para sempre te trarei dentro do meu coração”. Não, não, não. E sim.
O disco termina com Ti Amo, um raga a la George Harrison, onde a melodia da música toda é cantada por um "ti amo", com se entoasse um mantra. Um sim. Sim de amor não só pela sua amada (aquela de Sou Dela), mas pela sua "nova" vida e os prazeres que estão por vir (como cantado em Pra Luzir o Dia). [MATEUS]