sábado, 8 de novembro de 2008

Raça Humana - Gilberto Gil (1984)



O Gil é garantia de viagem e "RAÇA HUMANA" (1984) é mais que um passaporte, é a viagem em si. Gosto muito de muitas coisas do Gil porque ele tem a curiosa força da osmose: entra sem pedir licença, se instala em cada pedaço do nosso corpo. O Gil é corporal, atiça tudo que é involuntário. E o segredo é se entregar para essa viagem, deixar o corpo se entregar aos sons, as poesias, as vozes. E esse cd fala de mim, fala de você – como uma sonda bem fininha, Gil vai em cada esquina da gente e canta lindamente o que ele pensa ser a raça humana.

A sonzeira começa com “Extra II”! É um rock abusado, desses que a gente enche a boca pra cantar! É um rock que é meio reggae, enfim, todas as moléculas dessa música resultam numa química perfeita, sob as melhores CNTP. E o Gil pra lá de inspirado inverte a importância das pessoas. O ninguém se transforma em alguém especial e único. “Essa aparência de um mero vagabundo/ é mera coincidência/ deve –se ao fato de eu ter vindo ao seu mundo com a incumbência/ de andar a terra, saber porque o amor/ saber porque a guerra/ olhar a cara da pessoa comum/ e da pessoa rara.
Essa música atravessa como um raio!

“Feliz por um Triz” chega aos gritos! Outro rock de matar que conta com a participação de Wally Salomão no vocal, Pedro Gil na batera e Liminha na maravilhosa guitarra. Essa música canta a nossa condição precária de pertencer à raça humana… Canta também nossa criatividade em viver a vida, canta a nossa safadeza interior, o nosso lado mais vivo. O lado que vibra mesmo estando por um triz. Acho que isso que é a esperança! É estar por um triz e de repente fica tudo bom…
Essa música não é uma delícia? “Chama-se o aladim da lâmpada neon”…

Outra a mil por hora! Eita Gil acelerado! Tudo corre nessa música! Em “Pessoa Nefasta” Gil exorciza o mal, a cobiça, o inferno, o baixo astral, a alma bissexta. E com a ajuda de todos os guias, do senhor do bonfim, da guitarra, da percussão e duma batida aguda recheada de lindos vocais que viram instrumentos musicais, Gil garante que tu pessoa nefasta pode se ver livre das dentadas do mundo.
Essa música é um arraso… Aqui o espírito é obeso e vaga como um pedaço de tábua no mar. O Gil conseguiu com muita graça, rapidez e poesia, adicionar todos os ingredientes da crença e do vocabulário dos terreiros à nossa vida moderna.

“Tempo Rei” chega slowzinha, do jeito que tem sido, transcorrendo, transformando, tempo, espaço, navegando todos os sentidos. Taí, a beleza do tempo…
Essa música é um hino: uma delicada escolha de palavras simples, de frases feitas que numa outra ordem, ganham cor e nos enfeitiçam.
Essa música, com essa voz mansa do Gil, com esse vocal doce do Ritchie, dá vontade de ir pro quintal, acender um cigarrilho, deitar na grama e olhar para as estrelas…

Vamos fugir? Assim, devagarinho, discretinho, de mansinho… The Waillers emprestam sua energia ao que há de melhor no Gil! Como não poderia deixar de ser…
Essa música inaugura o lado malicioso, sensual e delicioso do “Raça Humana”. Um reggae que transpira desejo, um reggae “onde haja só meu corpo nu junto ao seu corpo nu”. “Vamos Fugir” eu quero ouvir mil vezes! E de novo, tudo muito simples, tudo lúdico, num amor-brincadeira. Tudo muito simples para falar do mais difícil: a entrega.

E em tempos de Obama, como não achar o máximo “A Mão da Limpeza”? Gil nessa música canta todos os rastros de um dos mais primitivos sentimentos humanos - o racismo. Com humor, ironia e uma musicalidade contagiante, a letra vai pontuando a vergonha, a mentira. O que eu acho incrível nessa letra é que ela não é ressentida. A sujeira ganha um sentido universal. Esse é o engajamento do Gil: o recado vem colorido, não é um recado preto no branco.

“Índigo Blue” inunda nossos ouvidos com a música de amor mais corporal que eu já ouvi. Um delírio, um arraso, uma coisa de enloquecer, exagero mais delicado e sensual impossível. “Índigo Blue” começa e você já tá de quatro!
O Gil faz nossa imaginação caminhar nas pontas dos pés pelo corpo feminino e depois pelo masculino como se esses corpos, de peles macias, fossem lindas paisagens… E ele vai cantando todas as nossas sensações durante a trilha. Covardia.
E tudo começa devagar, como se os corpos fossem terras estrangeiras, tudo sob o indigo blue. Mas aí os dedos ficam alegres e afoitos com a descoberta. Deleite puro! E os “músculos másculos dizem respeito/ a quem por direito carrega essa terra nos ombros/ com todo respeito”, vira “seu guardião, seu amigo/ seu amante fiel”. Ah…
Adoro o título!" Índigo Blue" é A estória de amor. Aquela em que a única voz que se pode ouvir vem do corpo. Em “Índigo Blue” são os corpos que viram amantes, mesmo que as mentes não queiram…

Depois de muito suar em “Índigo Blue”, “Vem Morena” chega alegre, com um baixo sacana e te convida de novo pra uma transa. É que para Gil (Luiz Gonzaga e Zé Dantas também), a Raça Humana é um espaço, um lugar, um ser onde acontece tudo – todos os sentimentos passam e param nessa estação. "Vem Morena” é uma música sem idade, ela veste qualquer um. Ela cutuca! E tem algo que me lembra Alceu Valença, acho que é pelo “approach” nordestino do fungado quente bem no pé do pescoço.

E Gil finalmente pulsa com sua “Raça Humana”. Todas as nossas contradições são traduzidas em beleza, em ferida acesa, em fogo e em saudade. Gil empresta palavras quase religiosas e constrói uma anti-prece. Da raça humana tudo se pode esperar – isso é o lindo e também o assustador. Mas para Gil somos a “Grande Síntese” – como num mosaico, onde diferentes cores se encontram num desenho único e possível.

É de esperança que estamos falando…
[ANDRÉA]


6 comentários:

  1. Caraca, Déa, não sabia que você escrevia tão bonito. Que nem o disco, vc consegue misturar perfeitamente o sensorial com o racional. Show de bola! Parabéns!

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  2. Inacreditável!... podemos fechar o blogue com essa resenha. Pra que mais? [M]

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