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terça-feira, 1 de maio de 2012

Criolo - Nó na Orelha



Depois de resenhar um disco de 1965, resgatando a importância histórica do Sergio Mendes, resolvi dar um salto de quase 50 anos e escrever sobre um trabalho muito mais recente, mas que certamente também será bem lembrado daqui a meio século.

Para começo de conversa, Criolo (que até pouco tempo era Criolo Doido) disponibiliza em seu site oficial o disco para baixar gratuitamente (www.criolo.net). Ponto positivo, que demonstra que além de estar conectado, sabe – talvez melhor do que muita gente por ai – que nos tempos atuais mais do que tentar inutilmente criar mecanismos para dificultar o download de suas músicas, o mais importante é utilizar de forma positiva as mídias atuais para divulgar o trabalho. E funciona, além de demonstrar, mais uma vez, uma postura simpática perante o público. Só que obviamente o fato de ter respostas inteligentes e postura simpática perante o público não seria suficiente para ser incluído nesse blog se tivesse algum disco realmente digno de nota.

Com a carreira mais fortemente fixada no rap desde 1989, nesse seu último disco (o segundo de estúdio) ele optou por misturar gêneros, estilos e instrumentos de forma muito inteligente e, certamente, isso contribuiu para que tivesse maior reconhecimento.

O disco inicia-se com “Bogotá”, uma inteligente letra com um estilo de dificílima definição, levada ao som de trompete e saxes. Gosto disso. “Subirusdoistiozin", a seguinte, tem uma pegada mais próxima às suas raízes e já tinha sido lançada anteriormente como single, sendo uma das mais conhecidas, pelo menos para mim.

Pausa para uma balada triste em “Não existe amor em SP”, um retrato belo da sua própria cidade, paradoxalmente dona de uma efervescência cultural e triste impessoalidade, retratada tão bem na letra dessa canção.

A mudança de ritmos e estilos continua em “Mariô”, com uma pegada que lembra sons de umbanda com uma crítica social. Me perdoem os que conhecem aspectos de umbanda se falei besteira aqui, mas foi apenas uma referência sem nenhum rigor científico implícito nessa definição.

“Freguês da meia-noite” é quase um tango com todo o drama inerente ao estilo, que tem a cidade de São Paulo como palco. Como se não bastasse ser uma bela canção, tem um clipe excelente, muito bem feito (com qualidade HD) que vale a pena ver e ouvir no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=cAT8lM0gVQk.

Nova reviravolta com “Grajauex”, som em que suas raízes do rap retornam com toda força. Até mesmo eu que não sou muito desse estilo, gostei dessa. Já o histórico de letras engajadas que combatem as desigualdades está bem presente nas duas seguintes: “Samba Sambei” e “Sucrilhos”.

E se fosse pra ter medo dessa estrada... Eu não estaria há tanto tempo nessa caminhada...
Artista independente leva no peito a responsa, tiozão... E não vem dizer que não

A penúltima música começa com um som de violino e viola para entrar com uma letra forte e autobiográfica. A mistura de estilos ao longo do disco se faz presente em uma só canção em “Lion Man”, um rap que conta com uma sonoridade ímpar, sem perder a seu engajamento. Sensacional.

O nó da tua orelha ainda dói em mim... E Cebolinha mandou avisar... Quando a "fleguesa" chegar...Muitos pãezinhos há de degustar...O disco finaliza com um samba muito bem humorado e inteligente em “Linha de Frente”, trazendo a turma da Monica (aquela mesmo, do Maurício do Souza) para a rotina da periferia de São Paulo. Sensacional.


Enfim, confesso que demorei para conhecer o trabalho do Criolo, já que o rap não é muito a minha praia (apesar de respeitar o estilo). Só resolvi parar e dar atenção ao seu som quando vi, em rede social, trecho de uma entrevista dele em que dá uma resposta excelente a uma brincadeira infeliz de fundo homofóbico do apresentador de um programa(que prefiro nem citar porque o objetivo aqui não é criar polêmica). Então, deixei o preconceito com o rap de lado, escutei suas músicas e gostei tanto que virei fã. Como diria o Criolo, “Não precisa morrer pra ver Deus... Não precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você”.

Paul

sexta-feira, 6 de abril de 2012

A Curva da Cintura - Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra & Toumani Diabaté (2011)


“o mundo muda você

os outros te mudam muito

você muda pra crescer

a música muda o mundo

a música ajuda a ser

bem melhor”


Kaira é o nome dessa música, mas também foi um movimento político em 1960, no Mali. Um movimento de resistência à colonização francesa. A única arma usada foi o canto das pessoas. Na época não havia carros no país, os resistentes caminhavam pelas aldeias e a cada aldeia o coro ia se tornando mais plural, maior e mais bonito.


“A Curva na Cintura” chegou em minha casa com a força musical do movimento Kaira e me colonizou completamente! De cara o cd abre com som da Kora. Um som árabe-africano, vivo, alegre, esperto, misturado a uma aura feminina. Feminina no que a Kora tem de estridente. O som da Kora é marcante, se impõe e isso para mim é uma das grandes características do “Curva na Cintura”. A mescla de Brasil-África nessa experiência é muito especial. O cd se "passa" em Mali, onde a tradição musical não é a da canção e as letras são cantadas de improviso, aparecem ao sabor da Kora. Lá a viagem está na música, no som da Kora, o que vem depois é puro improviso. O encontro Brasil-África via Arnaldo Antunes-Scandurra-Toumani deu química, justamente porque tem um encontro do som-7 séculos da Kora de Toumani com a letra-cerebral da tradição do Arnaldo. As diferentes tradições viraram seiva no cd!


“eu sigo só na minha onda

cê não vai me acompanhar

eu sigo o sol, não quero sombra

nem ninguém para me assombrar”


São vários os encontros nessa curva. Em “Cê não vai me acompanhar” a Kora é tocada pelo filho de Toumani, Sidiki, de 20 anos. Nesse som ele usa o wawa e faz da Kora um instrumento de música eletrônica. É impressionante ver a Kora se transformar na mão das diferentes gerações. O Arnaldo e o Edgar não poderiam ter feito uma letra melhor! “Cê não vai me acompanhar” tem a sede da busca, a cor da solidão e a força da falta de medo.

No mesmo tom, com o mesmo som, o trio Sidiki-Arnaldo-Edgar fazem miséria com “Cara”. Edgar Scandurra mata a pau na guitarra. O Scandurra pertence àquela tradição dos guitarristas que estão em perfeita hamonia com o seu instrumento… Discreto na sua presença, indiscreto na sua criatividade, preciso quando entra e quando sai de um som e fundamentalmente, um músico viajante. Ele tá ali, concentrado na viagem, de olhos fechados, completamente possuído.

E ainda na mesma onda com Sidiki, da Kora-Rock, a música “Senhor” que a princípio parece meio fora de lugar, forma, junto com “Cê não vai me acompanhar” e “Cara”, a voz da modernidade. Não é à toa que Arnaldo e Edgar encontram em Sidiki o melhor parceiro para essas composições. As três músicas são velozes, flertam com uma tradição atual e ocidentalizada da música. As três letras falam do incômodo e do prazer do ser humano moderno. O “Cara” é o encontro consigo próprio. Quer coisa mais moderna que se dar conta que tem alguém dentro de você? “Senhor” traz a ambuiguidade entre ser o senhor e o preço de ser o senhor.


“e tenho muito pouco tempo

e no meu tempo cabe sempre menos tempo

o tempo de um senhor é sempre muito pouco tempo

mas tenho meu tempo ocioso

para gastar do jeito que for mais gostoso

e posso ver televisão

deitado na cama , com o meu roupão

um roupão de senhor…


A “Curva na Cintura” faz caminho sinuoso, arredondado e gracioso. A cintura é o meio do caminho do corpo. Divide nossos dois hemisférios – o sul e o norte. Esse cd tem um pouco desse desenho: do lado norte temos as músicas mais velozes e cerebrais. Ao sul temos as canções que te conectam em outra vibe, uma vibração mais tranquila, de sensações e que celebra a presença do outro da tua vida. É do lado sul do cd que temos a kora tocada por Toumani… “Que me continua” e “Grão dos Chãos” são exemplos desse movimento e tudo o que eu tentar falar sobre elas será excessivo, porque estas duas músicas são a medida certa para muitas coisas.

É isso, a “Curva na Cintura” tem uma medida própria, tem o tamanho ideal de uma boca voraz que não se cansa de ansiar por mais…

[ANDRÉA]

domingo, 14 de agosto de 2011

Carro Bomba, Carcaça


Mais uma resenha 'convidada' do excelente blog http://collectorsroom.blogspot.com , do Ricardo Seelig agora. Muito grato!

Por Ricardo Seelig
Nota: 9,5
Ricardo Batalha, o mais importante jornalista de hard rock e heavy metal do país, classificou o Carro Bomba como “a melhor banda de heavy metal cantado em língua portuguesa”. Esse comentário, naturalmente, faz com que qualquer pessoa que vá ouvir o novo álbum do quarteto paulista encare o disco com grande expectativa. E quer saber? Ela é plenamente alcançada!
Em seu quarto disco, o Carro Bomba alcançou um nível de qualidade que o coloca, com justiça, no topo do heavy metal brasileiro. Composições inspiradas e muito bem construídas, todas amparadas por riffs pesadíssimos, garantem a satisfação do mais exigente fã. O timbre extremamente pesado e grave dos instrumentos salta aos ouvidos, e é um dos principais diferenciais de Carcaça. Para alguém que cresceu ouvindo Black Sabbath – principalmente da fase Dio – como eu, o ato de não se empolgar com o que sai dos alto-falantes é impossível.
Entrosadíssima e extremamente fiel aos seus princípios, a banda gravou em Carcaça o seu melhor disco. Não há nada negativo no álbum – tudo bem, a voz de Rogério Fernandes pode dividir opiniões, mas casa perfeitamente com a proposta do grupo -, uma avalanche sucessiva de canções empolgantes que pegam o ouvinte de jeito e o fazem bater cabeça compulsivamente.
Faixas mais cadenciadas como “Combustível” e “Mondo Plástico” tornam evidente a influência de Tony Iommi e companhia, enquanto composições como “Bala Perdida” e “Queimando a Largada” são heavy metal puro da melhor estirpe. A veia blues dos caras surge forte em “Blueshit”, uma das melhores faixas do álbum e um convite explícito ao 'banging'. Vale uma menção especial às letras, inteligentes e sempre explorando temas urbanos e comuns nas grandes cidades, saindo totalmente do lugar comum.
Ao final da audição de Carcaça chega-se a uma conclusão pura e simples: se esse disco tivesse sido gravado por uma banda gringa a repercussão em nosso mercado seria muito maior do que está sendo. E mais: Carcaça tem qualidade de sobre para cair no gosto de qualquer fã de metal em qualquer parte do mundo, e receber críticas positivas em qualquer publicação do planeta.
Vou concordar com Ricardo Batalha, o Eddie Trunk brasileiro, e assinar embaixo, mas com um adendo: o Carro Bomba não é apenas a melhor banda de heavy metal cantado em português do Brasil. O quarteto formado por Rogério Fernandes (vocal), Marcello Schevano (guitarra), Fabrizio Micheloni (baixo) e Heitor Shewchenko (bateria) é responsável, hoje, pelo melhor metal produzido em nosso país, sem sombra de dúvida.
Nasceu um novo clássico, e seu nome é Carcaça!

Faixas:
Bala Perdida
Queimando a Largada
Carcaça
Combustível
O Medo Cala a Cidade
Mondo Plástico
Blueshit
Corpo Fechado
O Foda-se III
Tortura (Pau Mandado)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

E depois do Soulfly...Blunt Force Trauma, Cavalera Conspiracy



Na verdade o Soulfly não acabou, esse aqui é só um projeto dos irmão Cavalera, a saber Max (guitarras e vozes) e Igor (baterias e percussões, possivelmente programações, tendo em vista seu projeto Mixhell, de música eletrônica, ao lado de sua esposa DJ).

Essa resenha foi copiada, com a devida autorização do seu autor - Ben Ami Scopinho, do excelente blog http://collectorsroom.blogspot.com. O Ben acho que também é colaborador do whiplash.net.

Roubarei outros, hein, Ben! Tem muitas resenhas boas de discos de metal/rock nacionais, além de muitas excelentes matérias sobre colecionadores (dããã, foi daí que veio o nome da coluna original no citado Whiplash) e rock em geral!

(Dão)


Taí então o que você queria:


Por motivos óbvios, foi natural que parte do público ligasse o antigo Sepultura ou o próprio Soulfly à Inflikted, o debut que os irmãos Cavalera liberaram em 2008. Pois bem, agora está chegando ao mercado nacional Blunt Force Trauma, um sucessor que mostra o Cavalera Conspiracy procurando se estender além da violência do thrash metal, hardcore e punk proporcionada por seu antecessor.


É claro que Blunt Force Trauma mantém muitos dos conhecidos elementos nas estruturas de suas composições, em especial o thrash e hardcore, e tudo com aquele simplicidade que há tempos se comprovou atraente. Se não há muito espaço para Igor explorar sua fissura tribal, ou os riffs sejam apenas apenas eficientemente genéricos, é nos solos de guitarra onde reside um dos pontos positivos de Blunt Force Trauma, com Marc Rizzo mostrando definição e explorando as melodias com muito bom gosto.


E essa melodias também estão espalhadas pelo corpo de várias faixas, e empregadas de tal forma que até conseguem amenizar em parte a faceta realmente e tão típica de Max. Investindo com força no groove, o resultado é um repertório com um dinamismo que não se encontrava no disco anterior e, sem ser particularmente inovador ou original, o Cavalera Conspiracy mostrou que vai fazer as coisas como desejar, independente das críticas que surjam por aí.


Assim, desde a muita velocidade de “Thrasher”, com algumas passagens tipicamente death metal; a mais moderna “I Speak Hate”; “Lynch Mob”, que tem como convidado Roger Miret (Agnostic Front) dividindo as vozes com Max, o que a distingue do resto do repertório; ou a excelente “Genghis Khan”, são exemplos de muita diversidade e atrairão os mais variados gostos entre o público.


Curiosamente, Max alardeou por aí que este novo álbum faz com que Inflikted soe como música pop – um exagero típico. A realidade é que, mesmo sendo muito agressivo, a adoção dessas tais melodias aí poderão ser um motivo para a discórdia entre as diferentes gerações de fãs.


Mas, enquanto alguns ficam discutindo prós e contras, outros passarão o tempo curtindo Blunt Force Trauma, que se revelou um discaço!


Faixas:

1 Warlord

2 Torture

3 Lynch Mob

4 Killing Inside

5 Thrasher

6 I Speak Hate

7 Target

8 Genghis Khan

9 Burn Waco

10 Rasputin

11 Blunt Force Trauma


(Ben Ami Scopinho)