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terça-feira, 24 de abril de 2012

Rita Lee - Build Up, 1970


 

Dia desses estava viajando numa muita improvável de conversar com Mick Jagger (já que ele gosta tanto do Brasil e de seus prazeres, thanx Zé pelo fantástico clipe em Paraty, She’s the Boss...) e é óbvio que para manter a atenção de um popstar dessa envergadura eu teria que fazer uma pergunta inteligente, e bem, eu pensei em algo como “lá por volta de 65, quando vocês fizeram Satisfaction vocês tinham ideia exata de para onde estavam indo, isto é, imaginavam que pouco depois estariam gravando coisas como JJFlash, Gimme Shelter, Honky Tonk, ou estavam simplesmente na estrada, curtindo a paisagem e sem muita preocupação sobre aonde ela ia dar?”

Ok, fim de papo, perdi a chance de conversar com um ídolo (tem uma história do meu sobrinho que encontrou Jimmy Page no Rio, bem, é um tanto desastrada e longa e fica pra próxima), ele pede licença e vai atender o telefone. E o que tem isso a ver com a Rita Lee? Bem, ela já deve ter tido o mesmo dilema, não? E o pior: deve ter alguma vez, de fato, conversado com ele. E eu sonhei com a Rita Lee esses dias também. Ela faria um show aqui em Curitiba, perto de São José dos Pinhais, acho que no banhado onde resolveram fazer o Lupaluna. E no meu sonho eu conversava com ela. E ela me perguntava o que eu queria ouvir no show, e eu fui um desastre porque eu pedi Cowboy Fora da Lei. Bem, pelo menos ela me deu um beijo na boca. E o melhor é que a Rita que me beijou foi a loira desta capa aí, de 1970, e não aquela ruiva que armou barraco na Alagoas.

Ah sim: o disco. Tô enrolando porque o disco é fraco. Apesar do capricho nos arranjos, a coleção de canções deixa muito a desejar. Se não fosse da Rita Lee, seria um disco destinado ao total esquecimento, seu valor é meramente histórico (talvez esteja exagerando, depois veremos, mas, pô, é Rita Lee, hoje a gente sabe que ela pode mais...). Na teoria é o primeiro disco da nossa rainha. Na prática é um disco de férias dos Mutantes. Ao que parece estavam testando o potencial comercial do nome, da marca Rita Lee. Ainda insistiriam anos mais tarde com Hoje é o Primeiro Dia do Resto de Sua Vida, até que finalmente saiu um dia aquele que é, de fato, o primeiro disco solo da Rita, livre dos Mutantes e com a semente do Tutti-Frutti (que é o primeiro lançado, porque o primeiro gravado foi o Cilibrinas do Éden, disco que nunca saiu, bem, isso é outra história e eu pra variar me desvio, me desvio...). 

É tão de férias que Sérgio Dias Batista não se interessou pelo projeto e sai de férias pra valer. Na falta de Serginho quem chamaram para assumir a guitarra? Lanny Gordin! Puta que o pariu, que luxo... E o fato é que talvez a presença deste constrangeu um pouco os outros a ponto de levarem o projeto mais a sério do que talvez o fosse com o irmão/cunhado. E o que Lanny traz pro disco é de primeiríssima linha. Seus fraseados salvam, por exemplo, a fraquíssima Tempo Nublado. Os destaques do disco são 2, ou talvez 2 1/2 músicas... José é uma versão de Nara Leão para une chanson française (Joseph de Georges Moustaki), que ficou interessante. Um tango chamado Prisioneira do Amor talvez em outro contexto ficasse mais agradável, e a faixa de abertura adverte: Sucesso Aqui Vou Eu (demorou quase 10 anos, mas foi), assim como a derradeira, um gospel-rock com ares de jam session: Eu Vou Me Salvar!

Mas onde o disco é bom, ele é muito bom, ele é sensacional: 

Hulla-Hulla é uma canção havaiana que poderia ser a continuação da história daquele astronauta libertado de volta ao planeta azul. O trabalho instrumental aqui é fundamental, nem consigo me fixar na letra (pode trocar essa letra pel’O Pato e nem assim se estraga a música), principalmente o trabalho de Lanny numa havaianíssima slide guitar, que não deforma, não tem cheiro e nem solta as tiras, nunca ouvi um lap steel na música brasileira tocada com tanta maestria... 

Aha! Mas espere: não é tudo. Em seguida entra uma versão avassaladora e definitiva de And I Love Her (Him) de John e Paul (aqueles lá), e olhe que pra melhorar uma música dos Beatles não é pra qualquer um! A versão começa com um movimento rápido de teclado tocado duas vezes, intervalado pela marcação ritmada do chimbal. Quando Rita entra cantando o acompanhamento é o piano (e banda ao fundo). Lanny só vai entrar pra quebrar tudo depois do refrão. Seguindo uma preparação apoteótica a la Mutantes, ele entra arrastando e abafando as cordas com wah-wah, como naqueles seriados policiais dos anos 70, um som típico de negão, coisa pouco frequente no repertório dos Mutantes. São só 15 segundos e eu posso ver Steve Austin “correndo” acompanhado por esta guitarra.

Certamente Rita Lee não sabia para onde estava indo quando fez este disco. E sem dúvida este foi um de seus maiores méritos, e o que permitiu voos tão ecléticos e experimentais que nos deixaram um legado digno de admiração e até uma pontinha de inveja.

Rita Lee, um beijo
[M]

sábado, 25 de julho de 2009

Rosinha de Valença apresenta Ipanema Beat (1970)




A música brasileira é repleta de contribuição feminina ao longo do tempo. Desde Dolores Duran, passando por Elis Regina, Gal Costa, Rita Lee até chegar a nomes mais recentes como Marisa Monte e Cássia Eller, sempre tivemos grandes mulheres que se destacaram e influenciaram gerações. Entretanto, a imensa maioria é composta por intérpretes. Ainda que algumas delas fossem autoras de suas canções ou ainda tocavam algum instrumento para acompanhar, foi a voz o principal legado de cada uma delas.

Nesse universo de estrelas cintilantes, uma delas se diferencia das demais justamente por ser instrumentista e não cantora. Trata-se de Maria Rosa Canellas, ou simplesmente, Rosinha de Valença, como ficou conhecida essa pioneira da música brasileira em referência à sua cidade natal fluminense. Justamente por não ser uma cantora, eu mesmo demorei a conhecê-la e, mais importante ainda, reconhecê-la como grande estrela na música nacional. Lembro até hoje quando, meu bom e velho amigo Zé Edu, em Campinas, em algum ano do início desse século, me mostrou, entre suas últimas aquisições, o CD “Rosinha de Valença apresenta Ipanema Beat”. Na hora em que ouvi os primeiros acordes, fiquei impressionado e pensando como pude demorar tanto tempo para conhecer aquela instrumentista. Trata-se de um disco ímpar e desde então entrou para o rol dos meus prediletos, daqueles que escolheria para salvar em caso de incêndio.

Após Rosinha de Valença passar grande parte da década de 1960 acompanhando nomes principais da música brasileira e mundial como Stan Getz e ter se apresentado em diversos países do mundo como URSS, Israel, Moçambique e Angola, ela optou por gravar esse disco instrumental em Johnnesburg, na África do Sul ao lado dos músicos Duncan MacKay (órgão), Hilton Leite (bateria) e Bernardo Bernstein (contrabaixo) numa época em que a África do Sul ainda vivia sob o isolamento da sua política da Apartheid. E o resultado foi uma verdadeira obra-prima experimental, fortemente recomendada a todos que admiram um som diferente e marcante, com ritmos e acordes que, embora datados, têm muito valor. Não vou me ater muito a detalhes das 10 canções do disco, mas destaco a versão de “Je T’aime moi non plus” (clássico erótico de Gainsbourg de 1968, famoso pela interpretação de Jane Birkin & Serge Gainsbourg), “A White Shade of Pale” (Keith Reid), que tanto marcou o final da década de 1960 na interpretação de Procol Harum, além de duas composições dela mesmo (“Rosinha’s Mood” e “Bossa na Praia”).

O texto de apresentação da contra-capa, que leva a assinatura da própria autora, consegue transmitir fidedignamente a atmosfera da época. Pena que depois de passar 12 anos em coma, em 2004 perdemos essa excelente instrumentista. Mas felizmente deixou grandes obras, sejam pessoais como essa, seja ao lado de outros grandes nomes da música (por exemplo, participando do disco Álibe, de Maria Bethânia). Valeu Rosinha! [Paul]

Set list
“Rosinha de Valença apresenta Ipanema Beat”
1 – Sitting
2 – Isole Natale
3 – Je t’aime moi non plus
4 - Mercy, Mercy
5 – Rosinha’s Mood
6 – A White Shade of Pale
7 – Sunshine Superman
8 – Bossa na Praia
9 - T Bone Steak
10 – Forever Yet Forever