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terça-feira, 18 de outubro de 2011

Nem que seja pela última vez...



“Invisível DJ” , de 2007, foi o último disco do Ira! com a sua formação clássica. Trata-se de um disco que passou batido, sem ter músicas tocadas nas rádios (fora poucas exceções) e até mesmo sem merecer maior destaque por parte dos fãs da banda, cuja maior preocupação, logo em seguida, recaia sobre o futuro da banda, que enfrentou sua maior crise com a briga grave do Nasi com o irmão empresário e o restante da banda.

Mais além de ter sido o último disco, também marcou um período em que o próprio formato de venda já apresentava fortes sinais de crise, já que passou a ser mais fácil baixar na internet qualquer disco do que compra-lo em lojas especializadas.

Nesse cenário, eu como um fã, comprei o disco assim que foi lançado antes mesmo de ouvir qualquer música (e quando a banda ainda estava aparentemente unida), sem esperar muita coisa, mas me surpreendi com a qualidade do som.

O disco abre com a canção que batizou o trabalho, com a guitarra do canhoto Edgard Scandurra a toda velocidade descrevendo a dura rotina de uma funcionária que pega 4 ônibus por dia embalada pelo som do dj das rádios.

Em “Sem Saber pra Onde Ir”, na única composição do Nasi nesse disco, o vocalista já dava os sinais dos seus próximos passos:

Eu não vou continuar aqui sozinho
esperando você vir
tenho que continuar, a minha estrada prosseguir
sem saber aonde ir

O ritmo muda em “Eu vou Tentar”, uma levada mais sossegada de Rodrigo Koala em que os sinais do fim e da saudade continuam em evidência:

Hoje eu saio cedo
Sem saber se vou voltar
Caminho entre os carros
Deixo a rua me levar
Vou ser feliz
Longe daqui

(...)

Eu vou tentar fazer você feliz...nem que seja pela última vez.

Em seguida, “Mariana foi pro Mar” narra a vida de uma garota que ao enfrentar uma crise conjugal, deu a volta por cima ao melhor estilo. Trata-se de uma das canções mais divertidas desse disco e com som de fácil audição. Agrada a gregos e troianos.

O rock volta a toda em “Não basta o Perdão”, novamente com a temática da separação e da crise conjugal:

é o desafio, meu bem
eis a questão
é preciso o amor não basta o perdão

Depois de uma espécie de blues em “Culto de Amor”, o Ira! resgata uma canção da década de 1970 de Walter Franco, uma espécie de músico da vanguarda paulistana, com “Feito Gente”. Pra mim, esse é o ponto alto do disco, uma letra que parece escrita sob medida para a voz do Nasi:

Feito gente, feito fase.
Eu te amei, como pude.
Fui inteiro, fui metade.
Eu te amei, como pude
.

O disco segue com “Tudo de Mim” e “Universo dos seus Olhos”, para emendar com mais uma feliz parceria do Scandurra com Arnaldo Antunes em “A Saga”, ao melhor estilo do Ira! Sonzeira...

caindo, cai
descalço, vai
na beira da calçada

olhando, vê
assiste a quê
anda atrás de nada

catando lixo,
correndo o risco,
fazendo arruaça

chutando lata,
xingando placa,
fazendo ameaça
passa, passa

No final, a temática muda, abrindo espaço primeiramente para a crítica política em “O Candidato”, ainda que não muito inspirada (acho o ponto fraco desse disco) para fechar com a excelente “La Luna Llena”, cuja letra em espanhol casa bem com o tom revolucionário:

Déjenos un gran legado
De amor y resistencia
Tenemos siempre una nueva manera
De olvidar los sentimientos
Y el ódio y la ganancia
Se apoderan de nosotros
La guerra no escucha la canción
La guerra no tiene educación
No te da las buenas tardes
Buenas noches
Buenos dias
Fuego en su corazón
Y la luna está triste
Porque mira lo que hacemos
Aqui

Enfim ,trata-se do último suspiro do Ira! Meses após o lançamento desse disco ocorreu uma série briga que, a princípio, separou para sempre Nasi dos demais, deixando órfãos todos os fãs de longa data dessa banda. Felizmente deixaram como herança uma vasta obra com som marcante que continuará sendo escutada. E Invisível DJ certamente serviu para fechar com chave de ouro essa fase. Quem sabe com as voltas que o mundo dá eles não resolvem voltar a nos brindar com trabalhos desse calibre...Nem que seja pela última vez.

Para escutar o disco: http://grooveshark.com/#/album/Invisivel+Dj/3480309

[Paul]

PS: confesso que só depois de escrever (mas antes de postar) vi que o Mateus postou outro disco do Ira! recentemente...legal, serve com um diálogo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Geração 80s - singles volumes 1 e 2






Apesar de estar sentindo falta das caveiras e do heavy metal por aqui, postarei essas coletâneas da Warner em 2 volumes, mais uma vez pra resgatar bandas quase desconhecidas (ou quase conhecidas) que sem isso nunca apareceriam por aqui. Tem de tudo, das pérolas ao lixo, do luxo à irrelevância.




Outro dia ouvi sem parar no carro e fiquei pensando que cabia aqui, mesmo com as condenações a coletâneas e blablablah, pra citar bandas de poucos (ou únicos) sucessos.




Então mais atenção a estas, as mais conhecidas eu vou só citar.




Volume 1



Começando pelo pop Lulu, com 'Tesouros da Juventude' e 'Areias escaldantes', sempre relevante apesar dos protestos de amigos por aqui.

Depois vem a banda Brylho, do Claudio Zoli e do mestre baixista Arthur Maia, com duas canções, a sempre tocada e eternamente reinterpretada 'Noite do prazer' e a desconhecida 'Cheque sem fundo'. A primeira é realmente muito legal, com timbres e improvisos legais, se beneficiando do fato de não usar overdrives/distorções numa época em que isto era muito mal gravado. Como cantavam uns amigos bêbados, "tocando de bikini sem parar"... A segunda é obscura mas tem um naipe de metais muito legal.

O sempre pop Kid Abelha comparece com as manjadas 'Pintura íntima' ("fazer amor de madrugada") e 'Por que não eu'. Paula Toller ainda não cantava tão bem quanto hoje, alguns maldosos até diriam que ela também não era tão gostosa quanto hoje...

'Sou boy' é uma das clássicas do Magazine, que também traz a música 'Kid Vinil', fraquinha e com derrapadas na afinição por conta do Kid Vinil, "o herói do Brasil'...

Aí vem o desconhecido (merecidamente, digo) Agentess, com 2 músicas nulas: 'Professor digital' e 'Cidade industrial'. Em frente...

Mais uma quase nulidade, o grupo/banda Azul 29, com 'Video game' e 'O teu nome em neon'. Já estou quase arrependido de postar essas merdas...essa última até que tem uma guitarrinha legal ali pelo meio, mas é só.

O genial Ultraje a Rigor comparece com 2 músicas ('Inútil' e 'Mim quer tocar') nas versões que saíram em singles, bem inferiores às do disco 'Nós vamos invadir sua praia' (que inclusive virou nome da biografia da banda, vc já leu?). Nada como uma boa produção e bons timbres pra melhorar uma banda.

O Ira! traz 2 boas músicas ('Pobre paulista' e 'Gritos na multidão'), acho que nas versões de singles também, o Nasi desafina direto, porra...vale pelo Scandurra!

E tem até Titãs: 'Sonífera ilha', ainda muito legal mesmo com aquele sonzinho de radinho de pilha AM, e 'Toda cor', menos conhecida mas também legal.

Volume 2

Eu acho Gang 90 & as Absurdetes supervalorizado, boas ideias mas sem conseguir uma concretização à altura. De qualquer modo, aqui eles trazem a boa composição e seu grande sucesso (e com som até que bom) 'Perdidos na selva'.

O Magazine retorna com mais 2 sucessos legais: 'Tic tic nervoso' e 'Comeu' (vcs sabem, da trilha da novela 'O gato comeu').

E dá-lhe mais Ultraje, agora com mais 2 nas versões do disco, bem melhor acabadas: 'Eu me amo' e 'Rebelde sem causa' (geniais, diga-se aqui!).

Surpresa: a banda Gueto, que acho que foi produzida pelo Nasi (que acho que até canta aqui, um rap com sotaque paulistano!), meio funk meio rap, diferente e original. 'Borboleta psicodélica' é bem legal, quase Red Hot Chilli Peppers dos primeiros discos, pra citar uma referência mais próxima. 'Você sabe bem' é um pouco mais pop, sem deixar de ser funky.

Leoni, ex-Kid Abelha, é um cara pouco badalado hoje, mas é um excelente compositor; além de suas contribuições pro Kid, fez boas canções pra banda meio solo dele, os Heróis da Resistência, e o faz até hoje, fora do circuito mais visível. Aqui vem com uma boa música em versão remix: 'Nosferatu' (MUITO legal, com um solinho esperto de trompete, riffs de metais bem sacados e uma guitarra com sonzaço).
"Morro de tédio e tristeza
quando você vai pro trabalho
e fico em casa deitado
solidão de Nosferatu"

'Kátia Flávia' é sensacional, um rap pioneiro nos ares praianos cariocas, criativo e com aquele dom do Fausto Fawcett de descrever uma história interessante numa canção, bem dentro do contexto da cidade babilônia, além da guitarrinha suingadíssima (arrisco apostar no Fernandinho Vidal). Tem mais um música dele, 'Santa Clara Poltergeist', mas não se compara a esta.

Aqui aparece uma banda bem parecida com o Gueto, a Clínica, que eu nem lembrava...a primeira música, 'Trauma' chegou a tocar nas rádios, se não me engano, legalzinha. Já 'Observatório' é dispensável, mas com um solo de sax improvável.

Eu não lembrava da banda Luni, legalzinha mas completamente esquecível, na mesma onda Gueto/Clínica, devia ser o hype da época (e como avisa o Public Enemy, "don't believe the hype"). Chatinha e datada, apesar das boas intenções nas duas canções, 'The best' e 'Rap do rei' (acho que agora lembrei, esta era da novela 'Que rei sou eu').

Ahá!!! Os Mulheres Negras! Boas composições, boas ideias, bons arranjos, parafraseando o amigo boleiro Chico: 'música é simples'...mentira, fazer o simples, bem feito e redondinho, com criatividade e apelo popular (por que quem quer tocar pra si mesmo?) é difícil pra caralho. Duas músicas aqui : 'Música serve pra isso' e 'Só telelê' (o que será isso???). Guitarrinha maneira, meu!

Pra terminar, uma banda da qual eu nunca ouvi falar, Rabo de Saia com a música 'Um amor destrambelhado'. Meio bizarro e curioso.

Vale pela lembrança, os anos 80 tiveram muita coisa boa mas muita coisa ruim também. Como em qualquer época, aliás.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Vinte anos depois... Mais um de 91!

É na rua Paulo que me sinto bem
Pois meus amigos estão la também
Já faz algum tempo que não sei como é que estão
Advogados, bêbados, dentistas eu faço canção

Da esquerda para direita não consigo encontrar
Um lugar para residir um lugar para descansar
Sou menino da rua Paulo de um bairro em Budapeste
Sou menino de São Paulo lá da Vila Mariana


Os Meninos da Rua Paulo é um clássico húngaro de Ferenc Molnár datado de 1906, relatando a luta de gangues de Budapeste pelo controle de um terreno baldio. Do outro lado do oceano, quase um século depois, este outro Os Meninos da Rua Paulo é o sexto álbum do Ira! Fã da banda não sou, nem nunca fui, nem mesmo nos áureos tempos. E a escolha deste disco mostra isso.


Mas basta que o lick de abertura da Rua Paulo comece a circular pela minha corrente sanguínea... bing! Já era... Scandurra é foda. Scandurra é o cara, ele e a guitarra são uma coisa só. O Ira! é a banda do Edgard, eu vejo as coisas desse jeito, ainda que ele não tenha de maneira nenhuma esta postura, e, o mais importante, ainda que as canções da banda raramente orbitem em torno da sua guitarra, e sim o contrário: ele geralmente tem o contraponto inteligente, de muito bom gosto e, como não poderia deixar de ser, inspiradíssimo.


O disco veio à tona no emblemático ano de 1991 (ó aí, Dão! Mais um...). Ano dos Nevermind, Ten, Black Album, Blood Sugar Sex Magik (to cite a few...). Da maneira como eu vejo o rock nacional entretanto, isso não passa de mera coincidência. O ponto aqui é uma banda pioneira do movimento de renovação do pop nacional que assolou o país junto com a Nova República e o Rock in Rio (o I!) que busca novos caminhos. O que mais me interessa aqui é o que faz uma banda de garotos que cresceram, amadureceram e ainda amam o rock’n’roll, o bom e velho rock’n’roll... A faixa de abertura dá bem este tom, os garotos da Rua Paulo estão à procura do velho bando, que terá virado dele?



Eu entendo isso mais na psiquê do que na geografia. A grande encruzilhada do rock’n’roll: envelhecer. Os rebolados de Elvis, os cabelos longos de John, Paul e sua turma, você deixaria sua filha se casar com um Rolling Stone? Pra quem assistiu trechos dos mascarados Slipknot ontem, isso soa como música de câmara!


Eu já sou um homem, mas mereço umas palmadas
Ó amor te peço, só não batas na minha cara


Voltando ao Ira!, este o álbum de uma banda que lançou seu primeiro disco em 83, naquela onda toda positiva. Oito anos depois, não dá mais pra assustar ninguém, não é? Bem, e nem parece ser a intenção. O legal é que esse disco me parece muito honesto e extremamente bem equilibrado entre novas idéias, novos ares e o som original da banda, que aqui aparece bem em O Ladrão Era Eu, Um Dia Como Hoje, e da qual Amor Impossível é o melhor exemplar, uma bela canção para um imaginário amor impossível que sempre é possível no universo das canções.


Pense na mistura de We Will Rock You com Lucy in the Sky with Diamonds... Parece meio fora de sincronia, não? Mas aquie eles revisam a iiteressante versão (que eu desconheço...) de Raulzito para a clássica dos Beatles, que aqui vira Você Ainda Pode Sonhar, mensagem otimista com gostinho de nostalgia. Na abertura é usado o clássico ritmo de bateria-e-muro-de-palmas que costuma não deixar poeira sentada no hiperclássico da Rainha. Mistura improvável que funciona de maneira magistral: a versão ficou psicoheavyca.


O blues Prisão das Ruas e baladas como Cavalos Selvagens ou O Tolo dos Tolos (essas duas últimas na voz do Edgard) são mais sintomas da transição do garoto que está virando homem. Enquanto que a levada de Imagens de Você sugere o uso de ritmos eletrônicos (simulados de maneira inteligente por André Jung? Ou foram usados mesmo? Bem, não sei dizer...), coisa que poderia destoar e seria meio proibido nos discos primitivos da banda. E: o resultado ficou muito legal! Não Matarás é curiosa porque tem uma levada meio disco com guitarras country, wah-wah... outra mistura improvável que funciona bem. E o mandamento é claro:


Não matarás, não matarás, não matarás a ti mesmo...

Nosso mundo é tão pequeno... não matarás teus desejos...


Mas nada é tão bom neste disco como A Etiópia e Meus Problemas (thanx, Paul!). Aliás, ouso dizer, nada é tão bom na discografia inteira da banda!!! Menos pela letra (muito menos, diga-se, mas, cá pra nós, quem se importa com as letras do Ira!? Nunca foi seu ponto forte). Edgard toca a guitarra dos sonhos de qualquer guitarrista: limpa, estalada e estrelada. Um golpe de ousadia na discografia de uma banda que costuma(va) ser bastante “conservadora” em relação à sonoridade original de seu rock’n’roll. Acompanhada de um violão el justiciero, percussão da península ibérica árabe, e um coro simulado, ahn, ahn, ahn... que me lembra a música do sertão nordestino. Um primor, a obra-prima do Ira!...


O disco termina na marcha instrumental Meninos da Rua Paulo, assobiada como a ponte do rio Kwai, lembrando que os meninos vão à batalha (ou a batalha vem aos meninos?), mas (quase) sempre há o retorno pra casa. E, musicalmente, este retorno é glorioso.


[M]


ps: refiz o post de ontem, que me deixava meio insatisfeito, mas mudei pouca coisa. Hoje no rádio tava ouvindo Guitar Man:


Who draws the crowd and plays so loud,
Baby it's the guitar man
Who's gonna steal the show, you know
Baby it's the guitar man,

He can make you laugh, he can make you cry
He will bring you down, then he'll get you high...


pra mim não há dúvidas: eles estão falando do Scandura...


quinta-feira, 14 de abril de 2011

20 anos de rock brasil cd 3



Continuo o cd quádruplo com o número 3, que tem o subtítulo de 'Mudança de comportamento', nome também de uma música aqui presente e, se não me engano, um disco do Ira!.

O cd começa muito bem, com 'Exagerado', co-autoria de Cazuza com Ezequiel Neves e Leoni, uma música muito boa e a cara do cantor. Do primeiro disco solo de Cazuza, que ainda (ou já) trazia músicas com o sempre parceiro Frejat, uma das quais inclusive fecha o presente cd.

E volta o Lulu, com um quase ska abrasileirado e uma guitarra MUITO legal. 'Sincero' é uma das muitas pérolas do nosso maior hitmaker, e você ainda leva um solinho safado e hard com wahwah, com um saxofone querendo aparecer, do Leo Gandelman.

'Os outros' é mais uma pérola do subestimado Leoni, aqui quando ainda era do Kid Abelha, que inclusive na época ainda era K.A. e os Abóboras Selvagens. Do álbum 'Educação sentimental', já comentado por aqui. Informação nova: o release do disco era assinado por Caetano Veloso, o que confirma minha teoria: quem sempre chuta uma hora acerta no gol.

'Mudança de comportamento' é uma das duas músicas do Ira! nesse cd. Como já falei aqui, adoro o Scandurra mas a voz do Nasi não me agrada (o Zeba me achou injusto com o Nasi, mas nem é essa a questão, eu respeito seu trabalho e principalmente sua atitude, mas a verdade é que não gosto da voz). E a música nem é das melhores deles.

'Bete Balanço' é crássica, como diriam uns amigos aqui do blog. Balançada, tema de filme nacional teen soft porn, solinhos bonitos, voz carioquíssima (esses bem puxados, erres bem arrastados), guitarra pesada dialogando com a voz. Enfim, desafia o argumento do Baiano de que as bandas cariocas são 'mais fraquinhas'. De onde ele tirou isso??? Aguardo a tréplica, com exemplos.

Camisa de Vênus era chamada de banda punk na época, mas quando ouvimos 'Eu não matei Joana D'Arc' fica muito difícil entender isso. A música é muito legal e divertida, com uma bateria claramente new wave e um som rockabilly (os quais na verdade são filhotes do punk).

'Pelado', apesar de ter sido música de abertura de novela, nunca ficou chata. Deve ser porque a música é muito inteligente e de um humor sensacional, mas mesmo assim é surpreendente. E o solinho de poucas notas do Roger é genial. 'Indecente é vc ter que ficar despido de cultura' e 'Sem roupa, sem saúde, sem casa, tudo é tão imoral, a barriga pelada é que é a vergonha nacional' ainda são versos eternos.

Engenheiros da Hawaii, banda controversa, alguns adoram, muitos odeiam. Mas 'Infinita highway' é clássica, todo mundo canta ou já cantou junto, com sua letra que alterna entre o criativo e lírico e o ridículo e absurdo. Um sonzaço de baixo, claramente inspirado no ídolo Geddy Lee.

'Flores em você' é uma música atípica do Ira! e do rock brasil. Uma orquestra e um violão fazem o instrumental para a voz do Nasi. E mais uma que foi abertura de novela (por que os rocks de hoje não são mais utilizados? rock virou música de tiozinho? mas tiozinhos não vêem novela??). Diz a lenda que Liminha, produtor do segundo disco 'Vivendo e não aprendendo', em franca hostilidade com a banda durante a gravação, disse ao fim da gravação da base: 'Vcs estão vendo como é uma música afinada?'. hahahaha

Inocentes vêm dar um toque punk no cd: 'Pânico em SP', cujo EP já foi comentado por aqui. A música foi lançada 20 anos antes do fato realmente ocorrer, mas a música já era legal mesmo se fosse só ficção e não profecia.

Até aqui as bandas são conhecidas e quase todas ainda sobreviventes. As próximas duas ficaram conhecidas somente pelas músicas aqui presentes: 'Carta aos missionários' dos Uns e Outros e 'Camila, Camila' do Nenhum de Nós. As duas músicas são realmente muito interessantes e radiofônicas, pena que não conheço mais nada de nenhuma delas. O Nenhum de Nós acho que ainda sobrevive no Rio Grande do Sul com acústicos e quetais. A música deles ainda foi regavada pelo Biquini Cavadão e por um dueto entre Cazuza e Sandra de Sá (!!!).
É engraçado pra mim as duas bandas virem em seqüência. Uma vez eu estava num teatro no Rio vendo um show daqueles comemorativos de rádios, e na minha frente estava o pessoal do Casseta & Planeta, exalando maresia, ainda cult, fazendo piadas a rodo. Daqui a pouco, depois de uma dessas tocar, o Bussunda mandou 'enquanto nenhum de nós ganha porra nenhuma, uns e outros ficam ricos'...kkkkkkkkk.

Esse cd realmente é um dos melhores, não tem música ruim.

RPM foi uma banda pop de uma maneira que hoje ninguém imagina que seja possível, principalmente pelo fato que, talvez devido ao fato de vir do underground paulistano e também o sr Paulo Ricardo ter sido jornalista, a crítica era bem positiva e compreensiva com a atitude magalomaníca. Mesmo que hoje a letra e o som soem datados, 'Revoluções por minuto' é uma música pop-rock muito legal. Acho que ninguém vai postar o primeiro disco deles por aqui...mas merecia.

'Ideologia' (de Cazuza/Frejat) fecha o cd, na versão ao vivo, poderosa e raivosa, antecipando em um ano a queda do muro. Versos sensacionais.

Só falta o cd 4.

quinta-feira, 17 de março de 2011

20 anos de rock brasil cd 2


Continuamos a apreciação de mais um cd dessa coleção de 4.
O cd2 inicia bem, com a zen-surfista 'Como uma onda' do hitmaker supremo Lulu Santos, em parceria com o onipresente Nelson Motta. Belíssima e cheia de boas sacadas e timbres caprichados.
'Pro dia nascer feliz' foi mais uma música de sucesso do Barão Vermelho, a princípio gravada pelo catador de pérolas Ney Matogrosso. Rock'n'roll visceral e carioca, ponto alto de shows até hoje.
'Uniforme' é uma música fraca do Kid Abelha, que poderia estar melhor representado nesse cd, mas não fui eu que fiz a seleção...
O Ultraje a Rigor aparece com um clássico da new wave brasileira, só que com bateria de verdade. Mais uma letra genial do Roger, música pra dançar nas danceterias (como se dizia nos idos dos anos 80), solinho preguiçoso e interessante. 'Rebelde sem causa': "como é que eu vou crescer sem ter com quem me rebelar?".
'Música urbana', se não me engano - e eu me engano bastante, é uma música do Aborto Elétrico, banda primitiva do trovador Renato Russo, mas aqui vem embalada pela superprodução com metais synth quase cafonas, pianos suingados e aqueles conhecidos 'ô ô ôs' do Dinho. Gosto muito! 'E essa aqui eu dedico ao amigo distante Xampu, ilustre e feliz morador da nossa capital, onde as ruas têm o cheiro de gasolina'. E onde não têm?
Aí chega o Ira!, com uma clássica deles, 'Núcleo base'. Adoro o Scandurra, mas sinceramente nunca gostei da voz do Nasi, então sou suspeito em dizer que pulo essa música.
'Tédio' é uma música interessante e, como muitas da época (como 'Lágrimas e chuva' ou 'Fixação', por exemplo), é uma letra depressiva/obsessiva que devido ao som de festa(?) passa batida. O grande sucesso(??) do Biquini Cavadão!
'Até quando esperar' é das minhas preferidas. Desde o início inusitado com violoncelo passando pelas belas guitarras e aquele riff surpreendente de baixo. Mas acho a letra panfletária e quase chata. E continuo esperando a resenha de 'O concreto já rachou', promessa do Xampu...
'Beat acelerado II' nos lembra da figura deliciosa à frente da brazilian one hit band Metrô, da qual eu infelizmente não lembro o nome.
O grupo feminino e feminista libertário Sempre Livre (ótimo nome; o absorvente é anterior ao grupo? será que elas receberam royalties pela ideia??) aparece com a divertidíssima 'Eu sou free', seu grande sucesso(?), regravada por mais alguém de quem eu não lembro o nome. Se não me engano a Dulce Quental saiu daqui. O interessante é que a música é de co-autoria da global Patrícia Travassos (acho que é isso).
'Só pro meu prazer' é uma das Muitas excelentes músicas do grande compositor Leoni (a já citada 'Uniforme' é dele e do Léo Jaime - olha ele aqui de novo, Mateus), com seu grupo pós-kid Abelha Heróis da Resistência. Poesia musicada ('é tudo real nas minhas mentiras' etc), piano bonito com violão bonito, bateria real emulando bateria eletrônica, guitarra de fundo com ebow, caprichada.
O Zero foi uma das muitas bandas injustiçadas que ficaram pelo caminho, com um bom disco e algumas boas composições esquecidas. Era uma das poucas com um bom vocalista que realmente sabia cantar (além de tocar saxofone!). Além de um guitarrista com sonzaço. 'Agora eu sei' foi bem executada nas rádios pops e rocks, alavancada pela participação especial do pop star Paulo Ricardo. Bela música.
'Tempos modernos' é mais um dos hits do Lulu Santos. Clássico absoluto, foi regravado pela Marisa Monte no disco 'Barulinho bom'.
E pra finalizar o cd duplo vem a banda multi platinada dos grandes tempos de venda de discos, RPM, com uma música do seu segundo disco ('ao vivo'!!), 'Alvorada voraz', com a letra datada e pseudo rebelde. Teria sido melhor se eles tivessem caído de avião, não é verdade? Mas o apelo pop e o sonzaço são inegáveis.
Depois completo com os cds 3 e 4.
(Dão)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Isso é Amor - Ira! (1999)









Houve uma época em que as bandas pop nacionais da década de 80 resolveram, quase todas, lançar discos de homenagens às suas influências. Assim foi com Barão Vermelho, Titãs, Kid Abelha... Se foi um movimento coordenado ou se foi apenas sinal de cansaço na virada nunca saberemos. De qualquer forma, alguns desses momentos foram deliciosos.




O disco do Ira! De ’99 vai nessa linha mas com uma pequena diferença: a seleção privilegia os temas de amor, talvez assumindo que, nessa praia, era melhor a banda dar voz a outros compositores do que se fiar na poesia excessivamente crua de Edgar Scandurra. O som típico do Ira! Inicia o disco com Bebendo Vinho de Wander Wildner (ex-Replicantes, ver um dos posts anteriores) e Teorema, da Legião Urbana.




Mas os melhores momentos do disco ficam exatamente por conta dos momentos menos típicos. E o primeiro destes momentos vem com Telefone, música da década de 80 na voz de Gang 90 e as Absurdetes. Aqui a versão é executada com um wah-wah suave do Scandurra e a voz aveludadamente deliciosa da Fernanda Takai (ó! Meu amô-or, isso é amor...) que divide o refrão com Nasi e que acabou sugerindo o nome do disco. O Ira! Volta irado em Chorando no Campo, do Lobão, passando em seguida para uma balada acústica do Dalto (é, aquele sujeito mesmo, o ‘muito estranho’...), Flash-Back cuja melodia do refrão é muito bonita.




Samuel Rosa é o convidado certo para acompanhar a banda em Um Girassol da Cor de Seu Cabelo, clássico do super disco Clube de Esquina (essa resenha é minha, ok?). Essa música de Lô e Marcio Borges é mais um dos pontos altos do disco. A versão ficou mais balada, na levada da bateria mais pop e com um guitarra limpa do Scandurra que é sen-sa-ci-o-nal... A mudança de andamento que marca a música no final aqui é mais suave que no original também é executada aqui, mas a ênfase é o som de banda do Ira (ainda que com a sutil presença de teclado).




Mudança de Comportamento e Abraços e Brigas são as duas músicas de autoria do Scandurra que fazem parte da seleção. O que me Importa não é das minhas favoritas, mas ficou muito melhor que a versão com Erasmo e Marisa Monte que andou tocando adoidado nas rádios uns tempos atrás, graças, mais uma vez ao wah-wah majestoso do Edgar. Essa música tem um solo de guitarra ao contrário a la Beatles-Hendrix, que ficou sensacional, outra cortesia do guitarrista.




Jorge Maravilha divide com as duas outras já citadas as atenções neste disco. O rockão suingado quase jorgebenniano ficou mais sensual e mais atemporal que o original. Enquanto que com o Chico cantando o recado ao general fica mais evidente, aqui, quando Nasi chega em




Ela gota do tango, do dengo, do mengo, domingo e de cócegas!...


Ela pega e me pisca, belisca, petisca, me arrisca e me enrosca


Fica muito mais claro que no original o quanto que sua filha gosta de mim, apesar de você não gostar...




Não poderia faltar uma do rei, que virou quase um cult no final da década e o Ira! Escolhe Sentado a Beira do Caminho que é executado de maneira tradicional. A Vida tem Dessas Coisas de Ritchie é a próxima e Bingo! ficou mais ácida, mais roquenrou... menos brega-pop anos 80, mais uma vez eles acertaram a mão nesta versão. E o disco poderia terminar, seria perfeito. Mas ainda sobram Alegria de Viver versão em português que o próprio Edgar canta, e Minha Gente Amiga de Ronnie Von, que ganhou uma versão ‘Santana’ na guitarra, ainda que entremeada sutilmente por ritmos eletrônicos. É uma canção despedida para um grande disco, de uma grande banda. [MATEUS]