
Com tanta gente roubando ninguém vai me pegar
Não precisa nem explicar, né? Os gringos lançaram aquele livrão bacana, bom de deixar do lado do trono pra gente receber nossa dose diária de leitura musical. Essa é a versão nacional, feita por gente que entende, por uns que não entendem bulhufas, mas sem dúvida por gente que ama visceralmente a música. E aí, sabe como é, a gente fica inventando essas coisas só pra ter um motivo pra passar mais tempo curtindo um sonzinho bacana.


O Ultraje a Rigor ficou refém do disco Nós Vamos Invadir sua Praia, lançado em 1985, e que é até hoje, um dos melhores do roquenrou tupiniquim já lançado. Já resenhado aqui, a bolacha era incomparavelmente dinâmica e contínua, daqueles (poucos) discos que colocados na vitrola, vão sem parar, vira lado A, lado B e ninguém cansa.
Fino representante da veia musical tipicamente paulistana, seu humor inteligente (Roger que é quase que sinônimo de ultraje) revisita o espírito de Adoniran, dos Mutantes, Premê e Língua de Trapo. Mas é claro: com sotaque próprio e (muito bem) calçando a irresistível botina do rock’n’roll.
Nesses anos todos, a banda lançou apenas 4 discos autorais com inéditas, 2 de releituras, 1 ao vivo (fora este aqui), e uma penca de coletâneas sobre as quais não têm a menor responsabilidade. Sendo que nos três primeiros anos de vida (leia-se: na mídia) saíram as obras fundamentais, como (o ainda não resenhado) Sexo! de 1987 juntando-se ao já supracitado.
Tudo isso pra dizer que no já típico especial Acústico MTV o repertório nem poderia deixar de ser baseado neste início meteórico de carreira. São simplesmente 8 canções desse primeiro disco (ficam de fora apenas Marylou, Eu me Amo e Se Você Sabia) e 4 do segundo (a favorita do Zeba, Terceiro saindo só no DVD).
Para este acústico da MTV o Ultraje foi na direção oposta àquela escolhida por contemporâneos como Paralamas, Ira e Titãs. Ao invés de aproveitar o formato do projeto para reinventar o repertório aproveitando naipe de sopros e orquestrações mirabolantes, o ultraje decidiu simplesmente manter o formato original das canções (quase) sem concessões.
Nas poucas variações, foram extremamente felizes como, por exemplo, na havaiana introdução para Ciúme que ficou sensacional. A instrumentação ficou a cargo dos violões de Roger e Sérgio Serra (que usa e abusa da pedaleira, conferindo ares de guitarra ao instrumento), e do convidado Ricardinho (muitas vezes no violão de 12). Com esta formação, e com Roger e Ricardinho tocando as sequências de acordes típicas do Ultraje, Sérgio Serra fica encarregado dos solos e licks característicos, muitas vezes fermentando a massa sonora dos outros dois, conferindo a este acústico, som de rock mesmo, muito mais do que de “luau”...
Da formação original de 85, só sobrou Roger. Hoje, temos Mingau e Bacalhau na cozinha (baixo e batera, respect.) e convidados especialíssimo para o show: Manito no Sax, Osvaldinho (Premê) no piano... Fuçando descobri que Edgard Scandurra foi membro fundador da banda!
Bem, voltando ao disco: pra quem abandonou (como eu. Ou teríamos nós sido abandonados?) o Ultraje em 1987, o melhor é ouvir as “novas” canções. Filha da Puta (canção de 89 que teima em se manter atual), Ah se Eu Fosse Homem (de 93, continuando a história de Ciúmes), Nada a Declarar e (uou uou uou, uou uou!!) Giselda (ambas de 99, embutidas num disco ao vivo); e as realmente novas, Cada um Por Si, Me dá um Olá (que tem um lindo arranjo vocal a La Beach Boys), Agora é Tarde e Eu Não Sei (versão em português para I Can’t Explain do The Who, que teria sido encomendada pelo Edgard...). De todas essas, nenhuma canção é tão revitalizadora como Nada a Declarar e seu refrão libertário. Só ouvindo pra saber o que estou falando, é a música favorita das crianças aqui em casa.
De certa forma, depois de Invadir a nossa praia há 25 anos, Roger desprezou o mundo do estrelato total e preferiu ser uma espécie local hero. Hoje a banda faz o papel de “quarteto onze e meia” no (fraquíssimo) programa do Danilo Genitili. O que pode parecer um ultraje aos fãs, pelo menos do ponto de vista do Roger tem a vantagem de poder sair pra tocar toda noite, dirigindo seu próprio carro...
[M]
Os: Este ano, o Ultraje tocou na virada cultural em Curitiba e no SWU em Paulínia (viajando pelo chão, hehe), onde protagonizou um quebra-pau com Peter Gabriel...




