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domingo, 19 de março de 2017

Vôo de Coração - Ritchie, 1983


Existem duas maneiras de você falar de 1983. Uma delas começa em Maggie Thatcher, Ronald Reagan e as cavalariças do Gal. João Baptista. A outra é voce tentando descobrir um lugar legal no seu quarto pra mocozar a playboy da Carla Camurati.

Eu prefiro a segunda. 1983 não foi grande coisa. Sétima série é osso duro, seu nariz fica maior que o rosto e aquele Nike que seu pai comprou no chinês perto da rodoviária não se parece muito com o que os colegas descolados trouxeram do Paraguai.

Do ponto de vista daquilo que interessa ao blogue, a música brasileira vinha passando por transformações estilísticas e gerenciais desde o final da década anterior. Medalhões meio perdidos, tentando se adequar ao mercado. Gente nova penando para mostrar serviço. Gravadoras descobrindo que música é business (ver o livro do Barcinski). Mas isso, a gente sabe hoje. Voltando a 1983, as preocupações, ocupações e ações eram muito mais mundanas.

Porque vale a pena ouvir? Vôo de Coração (puta nome ridículo) foi disco de estreia do inglês Ritchie (outra coisa ridícula é esse britanismo associado a Ritchie. Se tem uma coisa que Vôo de Coração prova é que Ritchie é brasileiro, porra!) e vendeu 1,2 milhões de cópias segundo dados oficiais (Barcinski!). O número não é citado à toa: foi o disco de estreia que mais vendeu até então. Foi o primeiro disco de synthpop brasileiro, colocando a música pop nacional no mesmo calendário da do resto do mundo. O disco é muito bem produzido, conta com um time de músicos de respeito, Liminha, Lulu Santos, uma canja de Steve Hackett (ex-Genesis) e um desconhecido Lauro Salazar, que comandou a tecladeira. Além disso, o álbum conta com algumas boas canções, A vida tem dessas coisas, Pelo Interfone, Vôo de coração e Casanova, pra citar o básico. Outro fator importante é que Ritchie tinha um penteado diferente, uma pose blasée e voz meio anasalada com leve sotaque gringo, um Bowie dos trópicos, o nosso inglês, e a música era cada vez mais parceira da televisão, então o tipo era bem apresentável e soube captar e capitalizar em cima.

Claro: isso aqui não é o absoluto Clube da Esquina nem mesmo uma pérola como o disco de 1975 do Di Melo que são bons pra caralho hoje, assim como foram na época em que saíram e como serão para todo o sempre. Isso aqui tem que ser contextualizado: 1983.

Mas: espere! O que todo mundo lembra quando se fala em Ritchie? A absolutamente impactante (por favor, ajuste seu relógio do tempo para fevereiro de 1983) Menina Veneno. Essa canção que, hoje eu percebo, era a mais pura ode à punheta! Menina veneno era Carla Camurati, Tássia Camargo, Maria Angélica, Maria Virgínia, Soraya, Daniela (a ruiva), Débora, Maria Cristina e taaaantas outras...

Meia noite no meu quarto, ela vai subir 
(ahan, vai subir bem alto!)

Ouço passos na escada, eu vejo a porta abrir 
(o prenúncio do gozo)

Em toda cama que eu durmo só dá você 
(ah vá, você diz isso pra todas)

E toda noite no meu quarto vem me entorpecer 
(toda noite aos 14 anos, o que poderia, toda noite, toda tarde, toda manhã, me entorpecer, entorpercer yeah yeah yeah yeah [note o ritmo do iê-iê...])

Seu corpo inteiro é um prazer do princípio ao sim 
(ahahahah)

Sozinho no meu quarto eu acordo sem você 
(é tão óbvio, não?)

Enfim. Viva o Ritchie. Ele tornou 1983 um ano melhor.


[M]

Lindo Sonho Delirante – Bento Araujo, 2016



Porteira que passa um boi, passa uma boiada. Neguinho abriu pra postar um livro, lá vem outro.

Lindo Sonho Delirante – 100 discos psicodélicos do Brasil saiu em 2016 pela Poeirapress, e o autor é Bento Araujo, jornalista que escreve, edita e distribui (e cuida com carinho d)o Poeira Zine, especializado em Rock, principalmente naquilo que meu sobrinho Vitor chama de ‘universo bolha’. Ah, Vitor e Bento são amigos de infância, e foi assim que eu conheci o poeira. Além disso, Bento é colecionador, o que pode ser até mais interessante para um trabalho deste tipo do que ser jornalista (e o cara é os dois, então...)


É onde você encontra tanto o fanzine quanto o livro. Diferente do livro resenhado anteriormente, este aqui é mais informativo do que analítico. Ainda assim, vale cada centavo. A edição é caprichada, o formato é quadrado (ou quase!) e não é à toa: a brochura é dividida entre o texto à esquerda da divisória central e a foto da capa a que se refere, à direita. E a capa é essencial pois a intenção é falar de psicodelia, e o autor adverte já no prefácio que a arte da capa entrou em consideração com peso enorme – talvez tanto quanto a música?

Da mesma forma que no post anterior, adverte-se o óbvio: devido à limitação de espaço, o autor seleciona dentro de um período que vai de 1968 a 1975, 100 (cem) discos. E mais uma vez, não vale a pena chorar pelo que ficou de fora: massa é curtir o que está ali.

Os tropicalistas, Gil, Caetano, Gal, Tom Zé, Duprat... Os Mutantes e Secos Molhados... Galera do samba e bossa nova como Jorge Bem, Marcos Valle e João Donato... Teoricamente impensáveis Erasmo Carlos e Ronnie Von (são quatro discos da fase psicodélica do príncipe!); bandas emblemáticas da época como Som Imaginário, Casa das Máquinas, Moto Perpétuo, o Têrço... uma geração nordestina pra lá de porreta com os primeiros discos dos Novos Bahianos (na época escrevia-se assim), Alceu, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho. Toda essa galera tá aqui.

Mas o melhor do livro mesmo fica reservado para aquilo em que o Bentão é especialista: o cara que você não conhece, nunca ouviu falar, não sabia nem que existia (não você que está lendo, claro, você conhece tudo... falo da massa, da patuleia, do povão...): Suely e os Kantikus, Luiz Carlos Vinhas, Loyce e os Gnomos (este vale a pena mencionar o título do compacto: O Despertar dos Mágicos), Célio Balona, Brazilian Octopus (a capa deste é sensacional, não só a foto, mas a história. Não, não vou contar. Como diria o Tim Maia: lê-ê-ia ô livro!), Equipe Mercado (o nome do compacto é uma viagem à parte...), Free-son, Tribo Massáhi, Guilherme Lamounier, Sidney Miller, Arnaud, Perfume Azul do Sol... E por aí vai. Cito uns nomes, talvez um pouco cansativo, mas é pra dar um gostinho.

As resenhas individuais sobre os discos são curtas (uma vez que a página de texto inclui, em duas colunas, uma versão em inglês). Sacrifica-se um pouco de informação, mas a leitura fica mais dinâmica. Ate porque, talvez, nem sempre sobre cada um deste discos conseguir-se-ia preencher uma página inteira de texto. Ainda assim, histórias curtas, curiosidades, personagens que hoje são nomes famosos, desfilam por estas páginas ainda como iniciantes, muitas das vezes como integrantes de conjuntos que pouca gente conhece. Eu por exemplo descobri que Hermeto Pascoal e Lanny Gordin estrearam em 1969 a bordo de uma banda (a mesma banda! Porra, como eu queria ter visto isso...) citada aqui. Outro personagem da cena psicodélica da época é ninguém menos que Jacques Morelenbaum. Isso eu só descobri aqui.

E pra finalizar, o mesmo golpe baixo: Incluí mais cem discos no blogue! Aha!
(Ainda que alguns deles já tenham sido resenhados aqui). 

Legal que o Bentão incluiu o Clube de Esquina, um dos meus favoritos de todos os tempos ainda que eu nunca tenha pensado nele em termos de psicodelia...

Última dica. Pra quem tem Spotify, Bentão preparou uma lista com o mesmo nome do livro, 164 músicas, mais de 9 horas de psicodelia nacional! No dilema do Dão, correr está definitivamente fora de cogitação!


[M]

Pavões Misteriosos, André Barcinski - 2014



Ok, vamos subverter um pouco a proposta original: a resenha é de um livro. Ok, ainda não está descambado pra putaria geral (basta o país, o blog é sério): é um livro sobre música brasileira. Então de repente tá valendo. Ao final você decide se sim ou não.

Eu não conhecia o autor, André Barcinski, mas isso é culpa minha, não dele, porque o cara é colunista da folha (faz muito mais que isso, claro) e escreve em blogues e portais por aí, de tal forma que, você que está lendo provavelmente o conhece melhor do que eu, cujo primeiro contato foi este livro precioso (mas o cara é premiado com um livro sobre o rock underground americano e um documentário sobre Zé do Caixão, foi mal, não consigo conhecer tudo... E chega de falar do autor, a estrela aqui é o livro.

Sim, o título é emprestado do sucesso de Ednardo, mas o subtítulo é que desvenda o mistério da emplumada - 1974-1983: a explosão da música pop no Brasil.

A proposta é levada a cabo com a maestria, nem aquela chatice enciclopédica, nem uma coisa pueril pra ler como quem conversa com um grupo de whats. O resultado é uma leitura fluente e gostosa, que vai mistura descobertas e tantas boas recordações (pelo menos para quem é mais ou menos da faixa etária do autor). Claro que tem sempre o chato (antes fosse assim, no singular...) que avalia a obra pelo que ela deixou de citar, se você não é assim, leitura altamente recomendada.

Após uma curta abertura e um rápido prólogo, cada capítulo é um ano, iniciando-se em 1974, entre os sacis e as fadas, na explosão da música pop brasileira. Ao longo dos capítulos você pode saborear o desfile de vários personagens clássicos e alguns tanto esquecidos que ajudaram a construir a música brasileira neste período de 10 anos. Nem sempre centrado no aspecto musical (mas também no fator comportamento e mercado, afinal, trata-se de música pop) e nem sempre falando apenas de Brasil, mas de olho no contexto mundial da música onde nós estamos natural e inexoravelmente inseridos. Barcinski conduz a história deliciosamente sem preconceitos, e ainda que a estrutura dos capítulos sugira uma certa descontinuidade, a leitura é incrivelmente fluida. Além dos gigantes da MPB, Gil, Caetano, Chico; dos roqueiros, Rita, Raul e Tim; dos malditos Macalé e Lanny Gordin; o autor é generoso (e honesto!) com a época ao incluir Guilherme Arantes, Fábio Jr, Sidney Magal, As Frenéticas, Gretchen, Roupa Nova e Balão Mágico até encerrar o livro em 1983 com Ritchie, Sullivan e Massadas. E não é isso mesmo?

O livro saiu em 2014 pela Editora Três Estrelas, tem 207 páginas de textos e uma magrinha fila de fotografias (que nem seria necessária, mas, enfim... tá ali, aproveite!), inclui referências bibliográficas (o que significa que deste livro pode-se ir para outros, e eu já estou de olho), índice remissivo e, tan-tan-ran-ran,

uma lista de cinquenta discos fundamentais do pop brasileiro!
(dos quais poucos, se algum, resenhado aqui)

Valeu André, com essa você me salvou, num post só já indiquei 50 discos, ninguém me segura, campeão!


[M]

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Mestre Ambrósio - Fuá na Casa de Cabral (1998)



Naquele Brasil antigo / Perdido no desengano / Seu Cabral chegou nadando
E não preocupou com nada / Deu ordem à rapaziada / Mandou varrer o terreiro
"Me chame o pai do chiqueiro / que hoje eu quero forró, / Toré, samba, catimbó / Que eu já virei brasileiro-ô-ô-ô..."


Mealembro vagamente das comemorações dos 500 anos de descobrimento do Brasil. A ideia era de festa, mas o pau comeu e houve protestos em muitos locais e ocasiões. Hum, vejamos nós aqui que esse negócio de povo festeiro, sem consciência sóciopolíticaeconômica que 14 anos depois surpreende os fãs do megafutebol patrocinado pela tal de FIFA já aflorava...

Eita disquinho bom esse segundo do Mestre Ambrósio (que segundo o Wikipedia é banda de manguebeat?)! Banda efêmera, átimo, como diria nosso tamborista zé tatu. Três discos e se acabou. O primeiro saiu independente. Mais forte no conteúdo que na produção, algo que neste segundo já é aprimorado.

Vimos o Mestre aqui num mês frio qualquer em Curitiba (surpresa?), no antigo forró do vasquinho. Palco pequeno, quase de colégio. A plateia se espalhava pela (ex-)quadra poliesportiva do (ex-)clube. Nos cantos, vendia-se cerveja, caldinho de feijão e mocotó. Calamengau era uma espécie de nome coringa, aplicava-se ao espaço e a banda anfitriã da casa. Se não me engano, criada e gerida pelo “Ceará” que vi tocar sanfona com a camisa do Santa Cruz, vai entender (bem, pode ser minha memória que me apunhala pelas costas).

Oh-oh, sim, o disco! Mestre Ambrósio é, ou era neste disco, principalmente Siba (rabeca, guitarra, voz, letra e música). Siba não é de muita concessão, se arrepiaria torcendo o nariz para o supra-citado verbete da wiki. Siba curte mesmo é o som do interior de Pernambuco, do nordeste, música matuta (como atesta a autobiográfica Pé-de-Calçada). Forró pé-de-serra calçado na sua rabeca, já veja aí a diferença. Mas, a parte estas questões sociológicas, antropológicas, musicológicas ou outras lógicas quaisquer (das quais eu só começo a entender depois da terceira ou quarta ampola), a música deles é boa pra cacete! Siba tem um vozeirão potente, toca(ava, pelo menos no Calamengau) uma Gibson SG cristalina e tinha essa coisa de “forrabeca” que eu nunca tinha ouvisto antes. A faixa que dá nome ao disco, por exemplo, é a sua cara.

Mestre Ambrósio aproveita a oportunidade de, dispondo de melhor estrutura refazer três temas do álbum de estreia. Pessoalmente, não penso que tenha sido essencial. Mas o Mestre não é só Siba. São três percussionistas, Éder “o” Rocha, Sérgio Cassiano (que também dança e canta, num timbre e estilo completamente diferente de Siba), Maurício Alves e eventualmente Helder Vasconcellos (que também empunha o fole de 8 baixos) e mais o baixista Mazinho Lima. A formação pode sugerir algum paralelo com a Nação Zumbi, mas a realidade passa looooonge. Apesar da inclinação regionalista do conjunto, o som é mais variado (mesmo sem incluir o óbvio rock) e a percussão acompanha.

Neste Fuá destacam-se ainda Sêmen (Como posso saber de onde venho/ Se a semente profunda eu não toquei?), Pescador (Já faz tempo que eu sai de casa / Pra viver no mar), Os Cabôco que homenageia o carnaval de Olinda, e Chamá Maria (Toda noite é assim  / Toda festa é assim  / ... / Um brabo bate, um mole apanha / E o pagamento é que é ruim / ... / O fole emperra, a voz arranha / Eita, pisada sem fim!).
Ainda sairia um ótimo Terceiro Samba, menos Siba e mais Hélder e Sérgio Cassiano, e depois disso Siba se mandou para a Fuloresta e eu perdi o contato. Enquanto isso, o tempo passou e nada ficou mais atual que a última estrofe do Fuá:


Mas na hora da verdade
Quando passou a cachaça
Seu Cabral sentou na praça
Caiu na reflexão
Disse: "Esta situação
sei que nunca mais resolvo!"
Então falou para o povo:
"Juro que me arrependi
o Brasil que eu descobri
queria cobrir de novo!"



[M]

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Paulo Moura - Mistura e Manda (1984)



Naquele tempo o Léo dizia que iria comprar uma coletânea do The Who, e aí eu teria dois discos pra poder ouvir em casa (ou outro era o Dirty Work). Pudera, nesses tempos a trilha sonora da casa variava entre o jazzzzz e lançamentos recentes da MPB, “o novo do Caetano” (e este ‘aquele tempo’ era um tempo onde isso valia a pena), isqueiro ou fósforos de Djavan (coisa de acender), alguma coisa de rock nacional (Big Bang dos Paralamas tocou até furar) e este: Mistura e Manda.

Hoje o Léo tem uma menina linda e curte mesmo é um bom funk carioca, de tal forma que este post é dedicado a Helena, pra ela saber que o pai dela um dia já teve muito bom gosto.

Gosto mais do Chorinho que da Bossa-Nova e do que do Samba. Acho mais original e mais astral que um, e mais delicado e surpreendente que o outro. Ainda que neste caso, elementos típicos da gafieira comparecem em tempero preciso no disco, conferindo à definição “choro negro” seu exemplo perfeito.

Nascido no estopim da Revolução Constitucionalista em julho de 1932 no interior de SP (São José do Rio Preto), muda-se para o Rio em 1945 junto com a família de músicos.

Interrompi meus estudos na segunda série do "Ginásio Luiza de Castro", na Tijuca, para dedicar-me à música, com autorização de meus pais. Queria evitar a profissão de alfaiate que me fora imposta pelo José, meu irmão mais velho.” (http://www.paulomoura.com)

Clarinetista, saxofonista e maestro arranjador, Paulo Moura é sinônimo de música brasileira. Neste disco, lançado pela KUARUP (Produção Executiva e Direção Geral de Mario de Aratanha) o próprio artista assume a direção artística e a responsabilidade sobre os arranjos, tornando-o muito pessoal. O repertório é de muito bom gosto e inclui sete músicas, entre (não tão) clássicos e composições próprias:

Chorinho pra Você (Severino Araújo) / Chorinho pra Ele (Hermeto Pascoal) / Mistura e Manda (Nelson Alves) / Nunca (Lupicinio Rodrigues) / Tempos Felizes (Paulo Moura) / Caminhando (Nelson Cavaquinho e Nourival Bahia) / Ternurinha (K-Ximbinho)

Os músicos que tocaram no disco mostram um time seletíssimo (Rafael Rabello era então um menino de 22 anos...) e extremamente afinado com o projeto. Reparem que a presença de Zé da Velha no trombone e uma percussão “heavy metal” dão ar de gafieira em muitas das faixas:

Paulo Moura (clarineta); Zé da Velha (trombone); Rafael Rabello (violão de 7); Joel Nascimento (bandolim); Maurício Carrilho, César Faria e João Pedro Borges (violão); Jonas Pereira, Carlinhos do Cavaco, Mané do Cavaco (cavaquinhos); Jorginho (pandeiro); Neoci de Bonsucesso (tamtam); Joviniano (repique de mão e ganzá) e Gargalhada (caixa de fósforos).

Paulo Moura nos deixou recentemente em 2010, mas este disco acaba-lhe conferindo eternidade, graças a deus.

Que o maestro descanse em merecida paz, enquanto o redondinho vai girando incansável...

[M]

terça-feira, 5 de junho de 2012

shhhhiu! : João Gilberto Live in Montreaux, 1987



Quando tinha mais ou menos a idade que meus filhos têm hoje, a garota mais gostosa da escola, do bairro todo, era a Claudinha Miss Brejão. Veja que este é o tipo da circunstância que deixa marcas indeléveis nas referências estéticas do cidadão. 

É claro que o tempo passa. Muitas vezes conseguimos aprender coisas novas e até “melhorar” em certos aspectos, mas como diz o nosso embaixador de Niterói, a pessoa pode sair de San Gonzalo, mas San Gonzalo nunca sai da pessoa...

Dito isso, diagnóstico: bossa-nova não é minha praia, nem minha montanha. Patos, lobos, barquinhos, peixinhos e beijinhos e o céu azul e o mar azul não me ganham. Harmonias complicadas, jazz e outras firulas não me ganham. Não que seja o mais rústico dos rústicos, mas frescura tem limite e as minhas não são diferentes.

Então o baiano João Gilberto pra mim não costuma passar de um evento semestral. E o melhor é que te pega distraidamente, na surpresa, e quando você percebe já tá ouvindo e tamborilando com o sonzinho daquela vozinha come-quieto e batida dindon... Vai ver ele é o elo perdido entre a Bahia e as Geraes (vai ver que é isso!) e inda foi se estender no calçadão das Ipanemas e Copacabanas, ô vidão tranquilo! E num disco como este, ao vivo, só voz e violão, temos o João Gilberto (que eu imagino) típico, sem aquela overdose de cordas que povoam, por exemplo, o clássico Amoroso, o baiano sem pressa, se estendendo nas areias (à sombra, of course), mineiramente comendo quietinho...

Onde pudesse te molhar uma garoa de monotonia pela maneira como o disco (duplo à época, são 68 minutos em CD!) soa, din-don-din-din-don-don shhhhhhh, escuto um arco-íris brilhando ao sol do repertório cuidadoso e de muito bom gosto: a economia na forma faz sobressair o conteúdo. Além dos clássicos que costumam povoar apresentações ao vivo de qualquer cantor célebre (aqui temos Garota de Ipanema, Aquarela do Brasil, Sandália de Prata, A Felicidade), João traz surpresas neste disco gravado ao vivo no festival de Montreaux em 1985 com o Menino do Rio d’outro baiano Caetano; as minhas preferidas Sem Compromisso (que abre o disco) e Pra que Discutir com Madame; Retrato em Branco e Preto, Adeus América (todas no disco 1, pra quem pensa no vinil, disco que acho mais surpreendente e mais bonito que o 2)...

Claro que João Gilberto confere sempre uma unidade harmônica em seus trabalhos (pelo menos no pouco que eu conheço) pelo simples motivo de que ele é esta unidade. Não importa o compositor, se Tom Jobim, Vinícius, Chico, Ary Barroso, Caymmi, Caetano, tudo é joãogilbertisado como se autoral. João mostra que a música é de quem canta.

E apesar da Claudinha, de quem escuta.

[M]

quinta-feira, 31 de maio de 2012

A estréia: Titãs, 1984



Alguns poucos discos de estréia são definitivos, daqueles que já mostram a que vieram: mostram bandas/artistas cientes do que querem e seguros sobre como chegar lá e são o ponto alto da carreira destes mesmos artistas.

Não é o caso do primeiro dos Titãs. E, cá pra nós: ainda bem. Tinham acabado de abandonar o infeliz nome de Titãs do Iê-iê-iê, mas não totalmente o som. O baterista ainda era André Jung (hoje no Ira!) e o baixo era dividido entre Paulo Miklos e Nando Reis.

E o que temos aqui? Pelo menos metade do disco não chamaria a atenção de qualquer um que tenha vivido a época. Babi Índio, Pule, Mulher Robot, Demais, e Seu Interesse são canções que dificilmente a banda tocaria ao vivo poucos anos mais tarde, depois de realmente estourar. E dificilmente vão aparecer em alguma coletânea do gênero “O Melhor de”. Outras receberam um dose de desfribilador, com versões ao vivo: Marvin e Querem Meu Sangue (que também deve um pouco de sua popularidade à versão do Cidade Negra em 1990-e-poucos).

Outras são mania de fãs da banda, A Balada para John e Yoko por exemplo eu acho muito boa, uma feliz adaptação para o português feita por Sérgio Britto desta canção de “segunda” dos Beatles (não, não tô depreciando! Quanta gente por aí que em 40, 50 anos de carreira não consegue chegar nem perto de uma canção de “segunda” dos Beatles). Tá certo que a versão original ficou (inteligentemente) quase intocada, mas tem um arzinho new wave tupiniquim.

O que foi pro rádio e pro inconsciente coletivo foi Go Back, Toda Cor (essa, juro!, eu sempre esqueço e, depois que ouço, sempre me lembro de novo...) e a magnífica Sonífera Ilha, que nos enganou a todos até Cabeça Dinossauro, quando o produtor Liminha conseguiu sabe-se lá como (esta é a impressão que fica a partir desta estréia) desenterrar o potencial agressivo da banda.

O maior mérito deste álbum de estréia é que eles não desistiram. Fizeram um segundo disco desprezível, onde se salvava apenas a (ótima! Fantástica!) Televisão e não desistiram. O primeiro dos Titãs é um retrato fiel de onde eles estavam na época, um disco honesto. Ouve-se uma banda experimentando caminhos, Nando Reis e o reggae (que depois ele abandonaria quando abraçou a carreira solo... ou estará em período de latência?), parceiros de fora (o ex-membro da banda Ciro Pessoa e Barmack em Sonífera Ilha, Babi Índio e Toda Cor; Torquato Neto em Go Back), versões em português (Marvin, Querem Meu Sangue e a já citada Balada). Além do som, o visual e o astral da banda eram outros, sugiro conferir o excelente documentário de Branco Melo, A Vida até PArece uma Festa. A oportunidade de conferir os estreantes nos palcos de Bolinha, Chacrinha, Raul Gil, Fausto Silva (ainda um Perdido na Noite) e Sílvio Santos é impagável.

Enfim, uma obra indefinitiva e inacabada. Sorte de quem teve paciência pra esperar o que viria depois...

[M]

terça-feira, 24 de abril de 2012

Rita Lee - Build Up, 1970


 

Dia desses estava viajando numa muita improvável de conversar com Mick Jagger (já que ele gosta tanto do Brasil e de seus prazeres, thanx Zé pelo fantástico clipe em Paraty, She’s the Boss...) e é óbvio que para manter a atenção de um popstar dessa envergadura eu teria que fazer uma pergunta inteligente, e bem, eu pensei em algo como “lá por volta de 65, quando vocês fizeram Satisfaction vocês tinham ideia exata de para onde estavam indo, isto é, imaginavam que pouco depois estariam gravando coisas como JJFlash, Gimme Shelter, Honky Tonk, ou estavam simplesmente na estrada, curtindo a paisagem e sem muita preocupação sobre aonde ela ia dar?”

Ok, fim de papo, perdi a chance de conversar com um ídolo (tem uma história do meu sobrinho que encontrou Jimmy Page no Rio, bem, é um tanto desastrada e longa e fica pra próxima), ele pede licença e vai atender o telefone. E o que tem isso a ver com a Rita Lee? Bem, ela já deve ter tido o mesmo dilema, não? E o pior: deve ter alguma vez, de fato, conversado com ele. E eu sonhei com a Rita Lee esses dias também. Ela faria um show aqui em Curitiba, perto de São José dos Pinhais, acho que no banhado onde resolveram fazer o Lupaluna. E no meu sonho eu conversava com ela. E ela me perguntava o que eu queria ouvir no show, e eu fui um desastre porque eu pedi Cowboy Fora da Lei. Bem, pelo menos ela me deu um beijo na boca. E o melhor é que a Rita que me beijou foi a loira desta capa aí, de 1970, e não aquela ruiva que armou barraco na Alagoas.

Ah sim: o disco. Tô enrolando porque o disco é fraco. Apesar do capricho nos arranjos, a coleção de canções deixa muito a desejar. Se não fosse da Rita Lee, seria um disco destinado ao total esquecimento, seu valor é meramente histórico (talvez esteja exagerando, depois veremos, mas, pô, é Rita Lee, hoje a gente sabe que ela pode mais...). Na teoria é o primeiro disco da nossa rainha. Na prática é um disco de férias dos Mutantes. Ao que parece estavam testando o potencial comercial do nome, da marca Rita Lee. Ainda insistiriam anos mais tarde com Hoje é o Primeiro Dia do Resto de Sua Vida, até que finalmente saiu um dia aquele que é, de fato, o primeiro disco solo da Rita, livre dos Mutantes e com a semente do Tutti-Frutti (que é o primeiro lançado, porque o primeiro gravado foi o Cilibrinas do Éden, disco que nunca saiu, bem, isso é outra história e eu pra variar me desvio, me desvio...). 

É tão de férias que Sérgio Dias Batista não se interessou pelo projeto e sai de férias pra valer. Na falta de Serginho quem chamaram para assumir a guitarra? Lanny Gordin! Puta que o pariu, que luxo... E o fato é que talvez a presença deste constrangeu um pouco os outros a ponto de levarem o projeto mais a sério do que talvez o fosse com o irmão/cunhado. E o que Lanny traz pro disco é de primeiríssima linha. Seus fraseados salvam, por exemplo, a fraquíssima Tempo Nublado. Os destaques do disco são 2, ou talvez 2 1/2 músicas... José é uma versão de Nara Leão para une chanson française (Joseph de Georges Moustaki), que ficou interessante. Um tango chamado Prisioneira do Amor talvez em outro contexto ficasse mais agradável, e a faixa de abertura adverte: Sucesso Aqui Vou Eu (demorou quase 10 anos, mas foi), assim como a derradeira, um gospel-rock com ares de jam session: Eu Vou Me Salvar!

Mas onde o disco é bom, ele é muito bom, ele é sensacional: 

Hulla-Hulla é uma canção havaiana que poderia ser a continuação da história daquele astronauta libertado de volta ao planeta azul. O trabalho instrumental aqui é fundamental, nem consigo me fixar na letra (pode trocar essa letra pel’O Pato e nem assim se estraga a música), principalmente o trabalho de Lanny numa havaianíssima slide guitar, que não deforma, não tem cheiro e nem solta as tiras, nunca ouvi um lap steel na música brasileira tocada com tanta maestria... 

Aha! Mas espere: não é tudo. Em seguida entra uma versão avassaladora e definitiva de And I Love Her (Him) de John e Paul (aqueles lá), e olhe que pra melhorar uma música dos Beatles não é pra qualquer um! A versão começa com um movimento rápido de teclado tocado duas vezes, intervalado pela marcação ritmada do chimbal. Quando Rita entra cantando o acompanhamento é o piano (e banda ao fundo). Lanny só vai entrar pra quebrar tudo depois do refrão. Seguindo uma preparação apoteótica a la Mutantes, ele entra arrastando e abafando as cordas com wah-wah, como naqueles seriados policiais dos anos 70, um som típico de negão, coisa pouco frequente no repertório dos Mutantes. São só 15 segundos e eu posso ver Steve Austin “correndo” acompanhado por esta guitarra.

Certamente Rita Lee não sabia para onde estava indo quando fez este disco. E sem dúvida este foi um de seus maiores méritos, e o que permitiu voos tão ecléticos e experimentais que nos deixaram um legado digno de admiração e até uma pontinha de inveja.

Rita Lee, um beijo
[M]

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Clube da Esquina: O álbum branco das Geraes (Milton Nascimento e Lô Borges, 1972)


Álbum branco, preto e azul, amarelo, vermelho e verde...


Álbum branco às avessas, concebido pra cá das montanhas, longe do mar, inventa o cais, inventa o mar, inventa em nós: o sonhador. Milton canta o Cais, que não é cais do velho chico mas o impossível cais das minas sem mar.


E se o Cais apresenta Minas, a faixa de abertura apresenta o Clube: tudo o que você consegue ser... ou nada! Tudo o que você podia ser tem uma levada meio folk e meio sertão. Centrada no violão tocado por Lô Borges, e que Toninho Horta comenta discretamente na guitarra (e eis aqui seu grande mérito):

há sol e chuva na sua estrada/mas não importa, não faz mal/ você ainda pensa e é melhor do que nada...


Mas essa história de álbum branco pode ser melhor explicada... Pode? Não sei, talvez seja só viagem minha, sei lá, porque o álbum é duplo. Arrisco ir mais além, invento também um cais: como o dos Beatles, é um álbum de congraçamento entre músicos e canções, aqui com a vantagem de que parece haver uma unidade se formando e não se desintegrando. Eu sempre tenho essa viagem de que o som de Minas é meio ecumênico (bem, nessa geração pelo menos). O resultado é supremo, o disco é repleto de canções memoráveis... O Trem Azul de Lô Borges (e Ronaldo Bastos, a palavra de Minas) em que até Elis embarcou, Saídas e Bandeiras, Cravo e Canela, samba-folk aos tambores de minas, San Vicente, Paisagem na Janela, Um Gosto de Sol, Nada Será Como Antes...


Se você quiser eu danço com você no pó da estrada / pó poeira, ventania... /se você deixar o sol bater em seus cabelos verdes / sol, sereno, ouro e prata/.../ eu danço com você o que você dançar.../ Se você deixar o coração bater sem medo!

Trechos da linda fábula de amor chamada Nuvem Cigana, de Lô Borges que pontua a melodia na guitarra, acompanhando o vocal cristalino de Milton, perfeito para as palavras de (mais uma vez) Ronaldo Bastos.


A instrumentação do disco é sublime... Os arranjos concebidos com muito bom gosto e, isso fica transparente na audição: muita curtição dos músicos... E o time é de fazer inveja. Além de Milton e Lô Borges, Beto Guedes toca baixo e eventuais guitarras, ao vice-versa de Toninho Horta (além de Tavinho Moura, outro que se ocupa das cordas); pianos, órgãos e demais teclados estão predominante a cargo de Wagner Tiso, isso pra ficar só no óbvio...


Ouça o resultado rock’n’roll das alterosas que foi conseguido no Girassol da Cor de Seu Cabelo, uma das minhas favoritas desde sempre, onde o piano dita o ritmo (qualquer semelhança com o Queen é mera coincidência? A banda de Freddy só lançaria seu primeiro disco no ano seguinte...).


Ou o Clube da Esquina no. 2 que é ainda uma melodia sem texto. Mas cá pra nós, é divina... A música ganharia letra tempos depois, já nem lembro em que disco. Ou será que foi uma opção gravá-la despalavrada? Acho difícil porque a letra é tão bonita...

O samba Me Deixa em Paz traz o convite luxuoso a Alaíde Costa que assume os vocais, enquanto que Trem de Doido, com a guitarra fuzz de Beto Guedes me lembra o som psicodélico, summer of love, ainda que a canção seja um tanto sombria.


Alguém que vi de passagem/ numa cidade estrangeira /lembrou os sonhos que eu tinha e esqueci sobre a mesa/ como uma pera se esquece/dormindo numa fruteira/ como adormece o rio/sonhando na carne da pera/ o sol na sombra se esquece dormindo numa cadeira.

Mas nada se compara a Um Gosto de Sol. Um das música mais lindas do século XX, não deixo por menos. A orquestração final, arranjado por Eumir Deodato e regida por Paulo Moura, é de arrepiar, uma espécie de bachiana brasileira com gosto de goiabada cascão e queijo de colônia.


Eu já estou com o pé nessa estrada/qualquer dia a gente se vê

ensaia o tom de despedida em Nada Será Como Antes, penúltima faixa deste disco maravilhoso e único, despedida que se completa com Milton cantando Ao Que Vai Nascer:

Na franja dos dias esqueço o que é velho, o que é manco/ e é como te encontrar/corro a te encontrar...


Fisicamente, nunca existiu a sede do clube. E nem precisava. A sede do clube está registrada em disco. A sede do clube sou eu. A sede do clube é quem deixar o coração bater sem medo.


[M]