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domingo, 9 de outubro de 2011

Cabeça dinossauro, Titãs




Que 1991 o caralho, o ano do rock nacional é 1986, porrrraaaa!!
(Aliás o mesmo dos sensacionais discos de metal Master of puppets e Reign in blood!).
Selvagem?, O futuro é vortex, Pânico em SP, O rock errou, Antes do fim, Dois, etc...

E este aqui, que é sensacional, forte, bruto e essencial!

Temas simples, críticas contundentes a coisas e instituições, porrada!
Às vezes resvala pro excessivamente simplificador e/ou simplório, mas em tempos politicamente corretos dá uma saudade dessa vitalidade adolescente 'foda-se'...

Vindos de um frustrado disco, 'Televisão', com produção do Lulu, onde não conseguiram dar o peso supostamente desejado, seguidos de problemas com a polícia (lembrando o gênio Keith "nunca tive problemas com drogas, só com a polícia"), onde Arnaldo e Bellotto foram presos por tráfico e uso, os Titãs acharam em Liminha, que antes tinha sido criticado pelo Branco Mello, um produtor parceiro, que soube transformar as boas ideias em boas execuções e num disco magistral, iniciando uma longa colaboração.

As ilustrações, tanto da capa contra da contracapa, são de Leonardo da Vinci, respectivamente, 'A expressão de um homem urrando' e 'Cabeça grotesca'.

A faixa-título, de P. Miklos/Branco M/A Antunes, que inicia o disco, traz elementos de um cerimonial de índios do Xingu. O show na época começava com esta! Poderoso som.


'AA UU' (S Britto/M Frommer) já vem na seqüência, com sua mistura original de funk e rock, numa crítica ou constatação da ansiedade, do sempre ter algo a fazer, uma preocupação constante e desgastante. Solinho de guitarra bacana, bateria quebrando tudo, sonzeira.

'Igreja' (N Reis) é mais uma crítica à instituição, o que dividiu a banda; Arnaldo, que acredita em Deus, saía do palco nas apresentações ao vivo.


'Polícia' (T Bellotto) é basicamente uma resposta raivosa ao episódio da prisão dos Titãs, uma pancada, que inclusive já foi coverizada pelo Sepultura.


'Estado violência' (C. Gavin) é um libelo anarquista pós-punk, com tecladinhos com pitch bends e tudo! Guitarras em estereo, muito legais!

Por falar em punk, 'A face do destruidor' (P Miklos/A Antunes) é um hardcore raivoso com efeitos bizarros, com certeza a música mais pesada dos caras, mesmo levando em consideração o 'Titanomaquia'. Em 38 segundos.

'Porrada' (A Antunes/S Britto) também é quase punk, principalmente pelo tema. Como canta feliz o amigo e colaborador Zeba 'a música que não tem em karaokê':
''Porrada nesses caras que não fazem nada"!!

'Tô cansado' (B Mello/A Antunes) pra mim é uma das dispensáveis do disco.

Ainda mais porque na seqüência vem 'Bichos escrotos', música antiga do repertório que só foi gravada pra este disco. Na época 'vão se fuder' (fuder ou foder??) era ofensivo e foi proibido pela censura. Mas mesmo assim as rádios tocavam a versão editada ou pagavam multa. A música é muito legal, guitarras suingadas e pesadas, um solo sensacional de baixo com wahwah!!

Os Titãs eram sete cabeças pensantes e opinantes, e isto se reflete tanto na dificuldade de decidir quanto na variedade de gostos e sons. Assim aqui temos um reggae, bem legal e um pouco ácido, 'Família'. Vocais de fundo bem legais, guitarrinhas pica-pau, baixo gordo, tecladinho no contra-tempo, taí a fórmula. Vc acha fácil? Vai fazer...

Mais crítica, agora ao capitalismo selvagem: 'Homem primata' (S Britto/M Frommer/ N Reis/C Pessoa), rock brasileiro pesado e divertido.

'Dívidas' (B Mello/ A Antunes) também é fraquinha e dispensável.

'O quê' (A Antunes) é uma surpresa no disco, letra experimental concretista, antecipando experimentos com funk, samples e música eletrônica que seriam mais presentes nos discos seguintes, 'Jesus não tem dente no país dos banguelas' e 'Õ blesq blom'.

Mas como diria o Charles Gavin no programa 'O som do vinil': "isso já é outra história''...

domingo, 19 de junho de 2011

Antes do fim, Dorsal Atlântica



Quase no fim do domingo metal, vamos aos antigos e desconhecidos crássicos do metal nacional.

A Dorsal Atlântica é uma banda carioca formada nos anos 80 pelo lendário Carlos 'Vândalo' Lopes.

O disco aqui resenhado foi pioneiro na mistura de gêneros que na época eram como água e óleo, o punk hardcore e o metal thrash. Mal gravado devido a restrições orçamentárias e provável inexperiência de estúdios em gravar metal na época, foi regravado e relançado em 2005 com o nome de 'Antes do fim, depois do fim'.

Esse eu tenho e ainda ouço em vinil. O original nunca foi lançado em cd.

Ao contrário da maioria de letras de metal, este disco, adotando uma postura mais punk, falava de problemas cotidianos e sentimentos.


'Caçador da noite' inicia com aquele som zumbido e rápido de guitarra, além da voz assustadora do Carlos, cantando sobre um serial killer. Solo criativo e em estéreo, extraía-se sangue de pedra no estúdio.


'HTLV-3' é mais uma rápida, falando sobre o vírus da aids, criticando a ignorância e o preconceito numa letra panfletária:

"As pessoas se incomodam com a “liberdade”que o mundo tem

Se aproveitam de uma doença

Discriminar mais as minorias

Quatro letras condenam à morte

Foram escolhidos

Teu sêmen vai gerar mortos

Teu sangue, veneno maldito

HTLV-3 destroí

Verdadeira caça às bruxas promovida pela imprensa

Achem os culpados para salvar as famílias dos burgueses"

O legal de muitas músicas desse disco é que de repente a música muda pra um ritmo mais lento, o que dava origem às rodas nos animadíssimos shows, inclusive um no Maracanazinho abrindo pro Exciter e Venom, onde não se entendia nada, um som horrendo...


'Álcool' é das melhores do disco, uma guitarra zumbindo e a velocidade da luz fazem vc entrar em espasmos...Por incrível que pareça é crítica mas com numa abordagem oblíqua com o ponto de vista do cara que se embebeda. Esta aqui tem um dos melhores breaks do disco, sensacional, dá pra ver a roda se formando e as botas passando perto da sua cabeça.


'Depressão suicida' tem aqueles gritos agudos à Rob Halford, quase cômicos, mas divertidos. Mais uma rápida e com um solo cheio de alavancadas.


'Vorkuta' é uma crítica a Stalin, no mínimo inusitado, principalmente pra adolescentes que nem sabiam do que se tratava.


'Joseph Mengele' você deve imaginar sobre quem se fala (antecipando 'Angel of death' do Slayer). Mais uma rápida (cansa um pouco os ouvidos, admito), mas com mais um break maneiríssimo. E esta música tem uma surpresa muito legal que deve ter estragado muitos toca-discos: ao final da música uma voz que parece alemão, mas que girando o disco ao contrário, mostrava ser na verdade um monte de palavrões...divertidíssimo.


'Guerrilha' é mais cadenciada, quase lenta em comparação às outras. Parece panfletária, mas na verdade há uma crítica sutil ao messianismo comum no meio:

"Rifle responde força com fogo

Você tem um ideal

Meio caminho entre vida e morte, entre herói e assassino

Precisa lutar

Guerrilha por liberdade

Guerrilha em busca da verdade

Todos cegos

Só você vê a luz

Ao vencedor resta a história

De que vale a vida de alguns para salvar milhões?

Luta sozinho, luta por todos"


'Inveja' também é mais arrastada, com um riff heavy maneiro, depois dá a acelerada com guitarras em estéreo e muitas quebradas da bateria.

"Por que o ser humano não consegue se ver livre?

Não aprende com os erros do passado

Lições de cobiça e rancor

Se a vida é tào efêmera

Por que tantos sentimentos fúteis?

No íntimo você não quer errar, mas nào consegue domar

Só o futuro vai julgar

O impulso imbecil

Inveja

Os olhos e a alma cegos continuam a se corroer"


'Morte aos falsos' era um discurso metal da época, dirigindo-se aos apreciadores de última hora, diluidores do movimento. Bullshit, nem sei como um cara inteligente caiu nessa balela. Mais tarde ele mesmo montou uma banda mais hard rock, a Mustang.


Enfim, baixe este sem dó, imperdoavelmente está fora de catálogo.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Uma nova volta ao passado: O rock errou, Lobão



“Dizem que o Rock andou errando
Não valia nada, alienado
E eu aqui na maior das inocências
O que fazer da minha santa inteligência?
Será que esse é o meu pecado, porque
Errou, errou, errou, errou
Eu sei que o rock errou”





Começa assim um dos álbuns mais relevantes da música brasileira dos anos 80. Lançado em 1986 em meio às mudanças político-econômicas pelas quais o Brasil passava, trata-se de um contundente retrato de sua época.



O Brasil vivia a (curta) lua-de-mel do Plano Cruzado – a euforia rapidamente deu lugar ao desespero da população. O então presidente José Sarney, que assumiu o posto “por acaso”, após o inesperado falecimento de Tancredo Neves, gozava de seus momentos de altos índices de popularidade (que jamais se repetiriam). O regime militar já era página virada de nossa História, mas um certo “Estado policialesco” ainda mostrava suas garras. E Lobão foi uma das vítimas desse estado de coisas.



João Luiz Woerdenbag Filho, o Lobão, foi preso por porte de drogas no exato momento da conclusão de “O Rock errou”. Encarcerado e com pouco acesso à defesa, o artista viu-se na situação de bode (lobo?) expiatório de uma sociedade retrógrada. Parte da grande imprensa atacou os “atos” de Lobão e defendeu sua prisão. A liberdade só veio após intensa batalha na justiça (cabe lembrar que dois Titãs, Arnaldo Antunes e Tony Belloto, passaram por situação semelhante na mesma época).



Ao final do processo, “O Rock errou” sintetiza o momento pessoal de Lobão. Também, conforme dito acima, é um pequeno instantâneo do Brasil de 1986.



A faixa título, um petardo, abre o disco. Trata-se de uma ácida crítica ao país e aos seus políticos (Jânio Quadros, então prefeito de São Paulo, é apresentado como o “bruxo da vassoura”). Fala das dificuldades da transição do militar para o civil (“vivemos num país bem revistado/uma nova volta ao passado”). O vocal rascante e as camadas de guitarras tornaram a canção um pequeno hino, e hoje pode ser considerada um clássico.



Entre os demais “clássicos” do disco, podemos citar “Noite e dia” (com letra safada e sacana, “menina quer brincar de amar”) e a porrada “Moonlight paranóia”. Outras duas canções merecem atenção especial.



A primeira delas é “Canos silenciosos”. A exemplo de “O Rock errou”, trata-se de um petardo. A letra, um primor. O início é acachapante:



“Onda na madrugada, silêncio na batida
Tá todo mundo se aplicando pra festa,
Pra chegar na festa bem aplicadinho
Movimento na esquina, todo mundo entra, todo mundo sai;
sexo, drops, rock'n roll, adrenalina;
diversões eletrônicas num poderoso hi-fi”.



A letra segue falando em “homens, fardas, cassetetes, camburões/abusando da lei com suas poderosas credenciais”. Lobão tinha autoridade para tratar do assunto – ele sentirá o peso da justiça e da lei sobre ele. Os contundentes “canos silenciosos” tinham endereço certo.





A música mais emblemática, porém, é “Revanche”. A letra é, digamos, autoexplicativa:



“Eu sei que já faz muito tempo que a gente volta aos princípios
Tentando acertar o passo usando mil artifícios
Mas sempre alguém tenta um salto, e a gente é que paga por isso, oh!
Fugimos prás grandes cidades, bichos do mato em busca do mito
De uma nova sociedade, escravos de um novo rito
Mas se tudo deu errado, quem é que vai pagar por isso?
Quem é que vai pagar por isso? Quem é que vai pagar por isso?
Quem é que vai pagar por isso?



Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais revanche
Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais ...



A favela é a nova senzala, correntes da velha tribo
E a sala é a nova cela, prisioneiros nas grades do vídeo
E se o sol ainda nasce quadrado, e a gente ainda paga por isso
E a gente ainda paga por isso, e a gente ainda paga por isso
E a gente ainda paga por isso



Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais revanche
Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais ...



O café, um cigarro, um trago, tudo isso não é vício
São companheiros da solidão, mas isso só foi no início
Hoje em dia somos todos escravos, e quem é que vai pagar por isso
Quem é que vai pagar por isso? Quem é que vai pagar por isso?”
Quem é que vai pagar por isso?



“Revanche” sintetiza o difícil momento de Lobão atrás das grades. O bode-lobo expiatório acaba por pagar pelos erros de todos – mas não quer revanche por isso. A canção é amarga e tem melodia e harmonia soturnas. Uma pancada forte no estômago – a verdade é ou não é incômoda?



O disco com tem ao menos um momento de grande ironia, quando Lobão mostra que o rock “errou” mesmo. Trata-se da canção “A voz da razão”, que conta com a participação especial (especialíssima) de Elza Soares. Menos rock e mais samba, impossível. O velho e bom rock´n´roll, tal qual o conhecemos, não tem mais o que dizer, segundo Lobão. Estará ele certo?



O tempo passou, Lobão virou VJ da MTV (quem paga as contas dele, afinal?) e nunca mais produziu uma obra de tal envergadura. Nem precisava. “O rock errou” é definitivo.



André Xampu

domingo, 22 de maio de 2011

Vingança, Azul Limão


Voltamos à programação metal e, conseqüentemente, às capas toscas e bizarras...
Entre outras idiossincrasias, o heavy metal é criticado por uma temática de fantasia, castelos, dragões, satanismo etc.
Mas esse disco também traz letras mais contemporâneas e críticas, APESAR da capa acima.

Como cantava a torcida mais gay do Rio 'recordar é viver'.
Representante do metal carioca dos anos 80, esse disco foi gravado em condições 'precárias', mas mesmo assim traz um som razoável (para a época, claro), principalmente o instrumental típico, já que a voz tem uma sonoridade sofrível, principalmente nos momentos 'gritos a Rob Halford', justamente pela provável inexperiência do estúdio em gravar esse tipo de som, aliado ao fatos de que o vocalista (Rodrigo Esteves) não é o Rob Halford nem o Bruce Dickinson e ainda os vocais não terem sido 'dobrados', recurso freqüente que encorpa vozes, principalmente agudos sem punch.

Lembro de vê-los tocar no arcaico Caverna II, 'templo do metal carioca' (depois honradamente substituído pelo Garage), que ficava ao lado do shopping Rio Sul próximo ao Canecão, no Rio de Janeiro, junto com outras bandas daquela época, tais como Calibre 38, Metalmorphose e Dorsal Atlântica (que em breve terá um disco postado aqui). Naquele solão de 40ºC e a galera toda de preto e coturnos...é, o metal não foi feito pro Rio, como desmonstram a ausência freqüente de shows que não mais passam por lá. Também tocavam no Circo Voador às vezes, dividindo inclusive o palco com Robertinho do Recife na sua fase metal e o lendário guitarrista, hoje habitante de Joinville, Celso Blues Boy (que também merece um disco por aqui). Tempos mais tolerantes.

Também lembro de demo-tapes que tocavam na rádio Fluminense FM, nos programas Guitarras e Rock Alive, quando eu e meu irmão Adolpho ficávamos com as fitas K7 a postos para gravar algo inédito e/ou interessante, não necessariamente ao mesmo tempo... O Azul emplacava às vezes 'Johnny voltou' e 'Não vou mais falar', depois regravada para este álbum aqui resenhado.

Antes, chegaram a gravar um compacto para o selo B.B. Records do Billy Bond, no estúdio da Polygram, mas não foi lançado por ser 'muito pesado' para as rádios rock da época, rendendo só uma versão bem gravada de 'Satã clama metal', tocada na programação da Maldita.

Trata-se de um disco curto (acreditem, já existiram discos com menos de 70 minutos, nos tempos do vinil!) e com letras ingênuas. Mas é original, com estilo e garra. E é METAL, porra!

Começa com uma 'Introdução' rápida e emenda em 'As portas da imaginação', que 'não são mais que ilusão'. Música que começa rápida e dá aquela quebrada no meio. Volta a acelerar e tem um belo solo com ótimo som (milagroso!) quase no fim.
'Satã clama metal' é legal, rápida e na adrenalina, mas é quase caricato com a letra típica.
'Sangue frio' é minha preferida, um blues heavy com aquela levada pesada e as convenções típicas. Além disso, a voz é menos gritada, e aí vemos que é bonita. E a letra também é bem melhor:
"Dias e noites passam
E eu sempre a procurar
Alguém que possa ver
Ou entender o que eu vou tocar
Às vezes me sinto só
Ao lado da hipocrisia
Virei um homem de metal
Perdia a noção de gostar
Somos o corte profundo
Luz do sol"
(Tá tudo bem, não é Caetano, mas nem é pra ser, né?)
Tem um solo bem bonito também, sem malabarismo e emocionante, com vocais coletivos fechando bem com os 'ô ô ôs'.
'Fora da lei' é mais um boa música, com intro metal e acelerada depois, e um baixão na cara. Mas a voz parece outra língua, totalmente incompreensível...exceto no refrão. Aqui um solo rápido e legal, mas mixado baixo. Urros e bateção de cabeça!
'Não vou mais falar' é uma das que tocava em rádios, boa música bem canata e tocada, com apelo quase pop e uma letra interessante:
"Não vou mais falar em amor
Pois o ódio se apossou
Não vou mais falar em estrelas
Pois o universo todo se apagou
Só este sonho permanece
Só essa vida me enlouquece
Estou perdido, perdido no espaço
Quero acabar com o meu cansaço
Tudo que eu tenho é rock’n’roll
Pois só ele me dominou
Não vou mais falar em paixão
Estou derrotado, caído no chão"
Ainda se cantava em português o metal nacional. Em inglês, tirando o Sepultura, eu nem ouço.
'O grito' é mais uma no clima blues metal, com um bom riff e mais uma vez a bela voz cantada. No meio tem uma guitarra limpa bonita que caiu muito bem na mixagem. E um solo magistral, dobrado com perfeição, depois espalhado e dialogando pelos canais direito e esquerdo (apesar dos elogios da Andréa, esses aspectos técnicos às vezes são entediantes pra quem não é músico, eu sei).
"Se num mar de estrelas
Nós vamos deitar
Com o mais lindo sonho
Nós vamos sonhar
Ver a liberdade fatigando a mente
Entrando num mundo que tudo é diferente"(sic)

'Você não faz nada' é a menos legal pra mim, mais uma rápida mas com uma letra ainda atual:
"Pra tanta violência basta indiferença de quem pode mudar, de quem pode gritar
E você não faz nada
E você não faz nada "

O disco termina bem, com a acelerada faixa título, onde se ouve melhor a voz e seus gritos em falsete, além do instrumental nítido e o solo de bateria no fim.

A banda, além do vocal citado, tinha os seguintes músicos: Ricardo Martins (bateria), Vinícius Mathias (baixo) e Marcos Dantas (guitarra). Depois Rodrigo foi cantar ópera na Espanha(!!), o baixista também deixa a banda e rola um show de despedida em 1989, sendo que por duas vezes, em visitas do Rodrigo ao Brasil, a banda tocou no Garage. Marcos e André Chamon (baterista do Stress que chegou a tocar com o Azul numa reencarnação mista) formaram o X-Rated, banda de metal que chegou a ter alguma projeção local.

sábado, 14 de maio de 2011

Lulu, Lulu Santos



Trago hoje aqui o maior hitmaker pop do Brasil, sua ausência no blog era injustificável.


Escolha pessoal e emocional, lembro como se fosse hoje o primeiro show que vi dele, no ginásio do colégio Salesianos em Santa Rosa (hoje Jardim Icaraí) em Niterói, RJ. Aliás, todos nós temos momentos em que lembramos pro resto da vida onde estávamos (onde vc estava no dia da queda das torres ou do anúncio da morte do Tancredo, por exemplo). É engraçado que os mais marcantes pra mim sejam ligados à música: lembro do dia do assassinato do Lennon (e eu tinha 9 ou 10 anos!) e lembro perfeitamente onde e com quem eu estava, pra onde eu estava olhando e mesmo como o céu estava no momento em que ouvi 'Smells like teen spirit'...

É uma frase batida, mas verdadeira: minha vida mudou ali. PQP, som perfeito, guitarra maravilhosa, luzes, adolescentes lindas (Niterói é pródiga), fumaças, arrepios! Quero ser músico! Quero ser o Lulu! Bom, isso mudou, mas ainda sou muito grato por essa epifania, que inclusive me levou a muitas outras, shows são pra mim o mais próximo de uma religião. E acabei comprando uma Sitar Guitar igual à dele.


Luís Maurício Pragana dos Santos lançou muitos discos e incontáveis sucessos ao longo de sua prolífica carreira, mas esse aqui contem hits dos quais eu gosto muito e alguns são cantados/reinterpretados até hoje, ir a um show dele é cantar quase tudo mais antigo com quase toda a platéia.


Ao disco: o início com 'Casa (o eterno retorno)' já mostra muito do que são as músicas do Lulu: guitarras limpas e lindas com um arpejo criativo, letras narrativas e aqueles refrões ganchudos que normalmente já são cantados em seguida por quem ouve. Linha de baixo pulsante, guitarrinha slide discreta, solo mágico e emocionante com Ebow (afinal mágica é aquilo que feito/executado de um modo pelo qual vc nem sabe como, e eu nem imaginava o que era um Ebow; aliás se vc tb não sabe procura no google, ou melhor, no youtube, pra ver como funciona). Excelente canção com excelente embalagem.


O disco segue bem com uma música atípica para a época: 'Condição' traz uma guitarra mais pesada e é um quase-rap, sendo cantado uma vez por Lulu e na vez seguinte pelo genial baixista niteroense Arthur Maia, que acho que tocava no disco inteiro (não tenho esse disco fisicamente nem achei a ficha técnica na internet). Ainda tem aquela voz com vocoder que seria tão banalizada na música dance dos anos 00. E aquele feedback de guitarra que deve ter ensurdecido alguém no estúdio.


'Minha vida' é uma das músicas da qual eu mais me lembro no show citado, momento auto-biográfico do Lulu, mais um arpejo lindaço e um baixo fretless contribuem pro sonzão da canção. Piegas, mas compensa.


'Pé atrás' não é das conhecidas do Lulu, o que não quer dizer que seja ruim, é uma música bem balançada e balançante com apelo pop, antecipando uma linha um pouco mais brazuca e samba-rock que seria adotada no disco 'Popsambalanço e outras levadas'.


'Um pro outro' também é das clássicas e românticas do nosso ídolo pop, trazendo a característica slide guitar discreta e marcante. Refrão pra galera cantar fechando os zolhinhos..."Nós somos feitos um pro outro, pode crer, por isso é que eu estou aqui".


A música seguinte, 'Twist', é também muito legal, com uma letra estranha e uns harmônicos subliminares. Tem um solinho dialogando com o sax.


'Duplo sentido' é uma das desconhecidas, rápida e quase dispensável.


'Telegrama' diminui o ritmo, parecendo até com algo dos Paralamas mais antigos. Cantada com uma voz mais calma, é uma bela música. Aqui, Luís Maurício, guitarrista subestimado que mostrava todo a veia rock no trio Jacaré, nos brinda com um dos poucos solos com mais notas e bem mais drive.


'Demon' começa com um riff rock e desemboca num reggae cheio de ecos e dubs, e uma letra nonsense em inglês, finalizando com mais um solo dialogando com o saxofone. Interessante e bizarra, um pouco longa demais.


'Ro-que-se-da-ne' fecha o disco com um rock'n'roll rápido e mais uma letra estranha: "o cara fuma bebe e cheira e quer pegar no meu pau"...estranhíssima, aliás. Solo rock'n'roll pegando fogo. "as minas fuma bebe e cheira até passar mal, cheira a noite inteira, fala sem parar". Acho que estive nessa festa...


(Dão)

domingo, 9 de maio de 2010

Punk da periferia


Pois é, tem choro, tem rock, tem mpb, tem de tudo por aqui.

Hoje chegou o punk - se bem que já tinha Ratos do Porão. Da periferia, ou melhor das periferias, origem do movimento de massa, depois de devidamente 'criado' a partir de uma boutique inglesa...

O Gil cometeu poucos erros; que eu me lembre, essa música (Punk da periferia) é o pior: apesar da letra realista (mas excessivamente pedagógica), a música em si não tem nada a ver com qualquer tipo de sonoridade ligada ao multifacetado movimento punk.

Mas vamos parar de criticar e começar a celebrar um discão.

Inocentes!!! Até hoje na ativa, pioneiros e íntegros (palavra muito querida, ops, aos punks).

Como já dizia o Clemente (atualmente tocando tb com a Plebe Rude), guitarra/vocal/líder da banda: “Nós estamos aqui para revolucionar a música popular brasileira, pintar de negro a asa branca, atrasar o trem das onze, pisar sobre as flores de Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma mulher qualquer". Enfim, punk serve pra incomodar, entre outras coisas. Que o diga meu caro amigo Mateus...

Em 1982, saiu o primeiro registro do punk paulistano (tirando os Replicantes, gaúchos, o punk relevante é paulistano): 'Grito Suburbano', com Inocentes, Cólera e Olho Seco, tosco, primitivo, punk, depois relançado na Alemanha como 'Volks grito'.

Os Inocentes estiveram 2 documentários na época(1982): 'Garotos do subúrbio' de Fernando Meirelles e 'Pânico em SP' de Mário Dalcêndio Jr. Esse título foi utilizado depois (1986) pela banda no disco aqui resenhado.

Antes disso, lançou um disco, 'Miséria e fome', que teve dez de suas treze músicas censuradas e acabou saindo como compacto...

Depois de participar do média metragem 'Punks' de Sarah Yakni e Alberto Gieco, de tocar no antológico festival 'O começo do fim do mundo' (que virou disco coletânea e faz parte do documentário bem posterior do ex-vj Gastão Moreira), de invadir o Circo Voador-RJ com 7 bandas paulistas e mais Paralamas do Sucesso (!!!) e Coquetel Molotov, acabar e voltar com uma proposta de som mais pós-punk (junto com outras bandas do cenário rock Patife Band, Ira!, Mercenárias, Voluntários da Pátria etc), abrirem o primeiro show da Legião no Rio (sempre o Circo Voador, que inclusive passou muito tempo fechado pelo incidente de xingamento do Conde pelo Gordo do RxDxPx, depois da péssima ideia de algum estúpido assessor de comemorar a eleição num show punk), de tocar muito, finalmente em 1986, Branco Mello dos Titãs leva uma demo para a Warner. Ah, a eterna necessidade de padrinhos na música brasileira...

Produzido (muito bem inclusive, gerando como sempre reações dos mais tradicionais punks paulistanos) pelo próprio Branco e Pena Schmidt, sai em 86 'Pânico em SP', na forma de mini-LP, com 6 excelentes músicas. Aliás por que esse formato foi extinto? A Plebe tb lançou 'O concreto já rachou' em EP. Mas o preço era de Lp, claro...

Enfim as músicas:

1. Rotina: começa bem, num crássico q tocam até hoje, riff de guitarra muito legal, 'até quando ele vai aguentar?', tem até um solinho de guitarra no final, heresia punk;

2. Ele disse não: sonoridade bem rock paulista anos 80, fora a 'pronuiincia' de Clemente, sonzaço, tb com solinho;

3. Não acordem a cidade: mais frenética, meio ska, descritiva da noite e de suas criaturas que 'tem vida curta, não importa o que façam, sonhando com Deus e tudo mais', mais uma com solo de guitarra!

4. Salvem El Salvador: não sei se eles ouviram Sandinista do Clash, mas é bem provável, né? Panfletária a música, começa meio climática, depois fica mais rápida, mais um libelo anti-guerra, anti-eua e pró-américa latina. Vcs já ouviram isso antes. Genial é um riff no meio da música simulando uma metralhadora!

5. Expresso oriente: com um riff oriental (dãããã), convida ao passeio pelo oriente. Sem um hummer nem colete eu não vou! A Palestina estava em guerra.

6. Pânico em SP: crássico absoluto, começa com aquele drum'n'bass tipicamente punk fazendo a cama pra guitarra entrar mordendo, o tema antecipa o caos que pode acontecer a qualquer momento (e acabou por acontecer recentemente). 'Pânico em SP', até hoje cantamos a plenos pulmões, 'ô ô ô ô'!!!

Discaço, causou na mídia, como se diria hoje. A banda excursionou bem pelo Brasil, mas as vendas não foram as esperadas pela gravadora. Se alguém quiser, mando pro 4shared!

sábado, 28 de novembro de 2009

Dois, Legião Urbana, 1986


Tem discos que além da sua qualidade, tem um valor subjetivo maior ainda por remeter à memória afetiva de cada um de nós. E certamente, no meu caso, o Dois do Legião Urbana cumpre esse papel. Lembro que eu já era fã (não perdia um show deles em Campinas entre 1984 e 1987 - foram uns cinco) e comprei o disco, mesmo sem conhecer as músicas. E me surpreendi positivamente pela qualidade. A explosão e as letras mais diretas do primeiro disco deram vez a metáforas mais ricas e a um olhar mais introspectivo.

A capa (arte de Fernanda Pacheco) era simples, cor de bronze, escrito apenas Legião Urbana com Dois em relevo, enquanto na contra-capa tinha o nome dos quatro integrantes e da produção de Mayrton Bahia. Sem nome de músicas, sem desenhos, fotos, etc. Enfim, simples...e de bom gosto. No encarte interno fotos, informações técnicas, a relação das músicas com suas longas letras e um aviso: “escute no volume máximo!”. Somente nesse volume, é possível identificar que “Daniel na Cova dos Leões” (música que abre o lado A) começa o som de um dial do rádio girando e passando pelo final de “Será” (sucesso do disco anterior) e pelo hino da Internacional Socialista.

Diferentemente da imensa maioria dos discos do recém-nascido rock nacional, Dois não apresenta refrões fáceis e repetidos (garantia de sucesso para as bandas), suas 12 músicas tinham títulos cuja identificação com a letra não era automática, foi lançado sem que houvesse uma música de trabalho específica, as letras eram de difícil memorização e, para completar, suas músicas tinham longa duração para os padrões das rádios na época (músicas com cerca de 5 minutos de duração). O projeto original era ainda para ser um álbum duplo, mas isso a gravadora vetou. E foi contrariando a fórmula do sucesso que esse disco surpreendeu a indústria fonográfica e emplacou, vendendo mais de 1,2 milhões de cópias. Sinal de que o público tinha bom gosto também.

Mantendo-se fiel à linguagem jovem da década de 1980, mas mostrando uma maior maturidade nas suas canções, Renato Russo e seus parceiros conseguem unir letras ricas e bem articuladas de um lado, com ótimos arranjos e sonoridade marcante de outro.

Depois da citada “Daniel na Cova dos Leões”, vem “Quase sem querer”, que acabou se tornando uma das mais tocadas. A terceira, “Acrilic On Canvas”, é uma verdadeira obra de arte: trabalhei você em luz e sombra. Depois continua com a história de “Eduardo e Monica” (grande sucesso na época), seguida pela instrumental “Central do Brasil” para fechar o lado A com “Tempo Perdido”: nem foi tempo perdido..somos tão jovens.

O lado B do vinil tem um som mais pesado, abrindo com “Metrópole”, com riff de guitarra marcante na introdução, para emendar com “Plantas debaixo do Aquário” (não deixe a guerra começar). Depois vem “Música Urbana 2” (Renato Russo ao melhor estilo Lou Reed) e “Andrea Doria” (referência a um navio italiano, que naufragou quando seguia para Nova York em 1956 após se chocar com uma outra embarcação, com um saldo de 51 mortos – a maioria sobreviveu - e o desaparecimento de algumas obras de arte italianas). O disco fecha com as politizadas “Fábrica” (quero tra-ba-lhar em paz... não é muito o que lhe peço) e “Índios” (nos deram espelhos..e vimos um mundo doente..tentei chorar..e não consegui).

Pessoalmente, esse disco (e particularmente seu vinil) remete a lembranças de uma época em que tão importante quanto viver intensamente, era fazermos nossa própria trilha sonora. E para isso, esse disco foi fundamental.
Não há mentiras nem verdades aqui, só há música urbana.
[Paul]

Para escutar:
http://www.4shared.com/get/100231916/8ee3a716/Legiao_Urbana_-__Dois.html

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Selvagem? - Paralamas do Sucesso (1986)



Para os Paralamas do Sucesso, e para toda a geração "rock Brasil" dos anos oitenta, "Selvagem?" representou a transição da adolescência para a idade adulta. Trata-se do primeiro disco de uma banda nacional com temática mais sofisticada, produção caprichada e a incorporação de elementos até então pouco utilizados nos trabalhos aqui realizados. No final, os Paralamas acertaram a mão e, por intermédio desse trabalho, acabaram por influenciar toda a obra imediatamente posterior de sua geração.

Produzido por Liminha, "Selvagem?" foi gravado e lançado no primeiro semestre de 1986. Os Paralamas vinham do sucesso de crítica e público obtidos com o deliciosamente adolescente "O Passo do Lui" (já resenhado aqui), mas queriam dar um salto qualitativo na carreira. Nas palavras do baterista João Barone, nada de muito especial - "os Paralamas do Sucesso só queriam fazer algo diferente e não repetir a fórmula do disco anterior".

"Selvagem?" abre com "Alagados", um dos maiores hits do disco e do grupo. Com uma deliciosa levada de guitarra, a canção faz um relato da dura realidade da vida nas favelas brasileiras, refletindo em parte a crise econômica enfrentada pelo Brasil durante a "década perdida" - os anos oitenta. Gilberto Gil participa da música - ele contribui ainda com "A novidade", parceria do baiano com os três paralamas.

Depois de "Alagados" aparecem, em sequência, o rock de protesto "Teerã", a já citada "A novidade", a divertida "Melô do Marinheiro" e "Marujo Dub", que mostra toda a influência que o trio recebia, nesse período, de gente como Yellowman, Sparrow, Toure Kundá e Fela Kuti. Conexão Jamaica-África-Brasil.

Para quem tem o vinil, o lado B começa com a pesada "Selvagem", uma canção de letra forte e contundente:

"A polícia apresenta suas armas
Escudos transparentes, cacetetes
Capacetes reluzentes
E a determinação de manter
Em seu lugar

O governo apresenta suas armas
Discurso reticente, novidade inconsistente
E a liberdade cai por terra
Aos pés de um filme de Godard

A cidade apresenta suas armas
Meninos nos sinais, mendigos pelos cantos
E o espanto está nos olhos de quem vê
O grande monstro a se criar

Os negros apresentam suas armas
As costas marcadas, as mãos calejadas
E a esperteza que só tem quem tá
Cansado de apanhar"

O disco não era só de protesto e denúncia, porém. Talvez interessados em manter certos vínculos com seus discos anteriores, os Paralamas gravaram duas canções mais leves - "A dama e o vagabundo", que fala das dificuldades da vida a dois, e "Você", clássico setentista de Tim Maia. Como não podia deixar de ser, as duas músicas atingiram os primeiros lugares das paradas. O disco tem ainda a alegrinha "There´s a party", com a voz desafinada de Herbert Vianna em seu estado mais puro. Um deleite para os fãs do grupo.

O resto é história. Depois de "Selvagem?", os Paralamas foram alçados a outro patamar dentro do que se chama de Música Popular Brasileira. Se isso é bom ou ruim, não vem ao caso. O importante é escutar "Selvagem? com atenção, para se captar todos os detalhes desse trabalho tão instigante e tão importante para a cena rock no Brasil.

André Xampu

terça-feira, 18 de novembro de 2008

O Futuro é Vórtex - Os Replicantes (1986)


Entramos na segunda metade da década de oitenta e o rock nacional (BRock, segundo alguns) já é um fenômeno de massas. Gravadoras e bandas ganham muito dinheiro. Blitz, Barão Vermelho, Kid Abelha, Ultraje a Rigor, RPM, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, todos têm grande espaço na mídia e dominam corações e mentes. Mas o que fazer se você e sua banda estão fora do eixo Rio-São Paulo, onde "tudo acontece"?

Simples. Mude-se para o eixo. Foi exatamente isso que fizeram quatro jovens gaúchos na virada de 1985 para 1986. Com um contrato recém-assinado com a RCA, Os Replicantes (Wander Wildner, Cláudio Heinz, Heron Heinz e Carlos Gerbase) instalam-se em São Paulo e gravam o seminal "O Futuro é Vórtex". Um disco fundamental, cru, uma aula de punk rock brasileiro.

Rápida explicação - o nome da banda é uma referência aos andróides do filme "Blade Runner" (1982), de Ridley Scott, no qual os replicantes do filme eram uma cópia fiel dos seres humanos, porém mais fortes e ágeis. O filme, por sua vez, baseou-se na obra "Do androids dream of eletric sheep?" (1968), de Phillip K. Dick.

"O Futuro é Vórtex" contém quatorze faixas. É nítida a influência de Sex Pistols, dos Ramones e da cena hardcore californiana. Rock cru, sem frescuras. Dentre as faixas, uma se destaca - um clássico na mais perfeita acepção da palavra. Uma música definitiva. O punk rock total - a canção que eu queria ter composto e gravado. Duvida? Então ouça. Sem preconceitos ou esnobismos, por favor.

Com cerca de três minutos e meio de duração, "Surfista Calhorda" tornou-se uma espécie de "hino punk nacional". Ela representa para o rock nacional o mesmo que "Anarchy in the UK", dos Pistols, para o rock mundial. No caso brazuca, foi a gênese de uma revolução que jamais aconteceu.

"Rack na caranga muito louca pra dar banda,
Cheque na carteira recheada de paranga,
Prancha importada assombrando a meninada,
Corpo de atleta e rosto de Baby Johnson.

É, mas quando entra na água.
É, na primeira braçada.
É, ele não vale uma naba.
Ele não surfa nada, ele não surfa nada!

Tem duas Surf Shops que só abrem meio dia,
Vive da herança milionária de uma tia,
Vai pra Nova Iorque estudar... advocacia!
Ah, Surfista Calhorda,
Vai surfar noutra borda"

Adolescente, muito adolescente, dizem os críticos (e até mesmo os não tão críticos assim). De fato, não há como discordar dessa constatação. Mas o rock´n´roll não passa disso, não? Energia adolescente feita para adolescentes de todas as idades. Dos 8 aos 80.

É isso. Long live rock´n´roll.

André Xampu, fã d´Os Replicantes