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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Tribalistas



Há alguns meses, a revista Playboy, deu provas concretas da decadência que atinge todo o grupo Abril ao tentar, com críticos de própria editora, oriundos de publicações medíocres como a Veja ou Contigo, elaborar uma lista do que seriam os 10 piores discos nacionais, e citou, juntamente com artistas renomados, os Tribalistas. Certamente a intenção devia ser polemizar, mas certamente nem isso conseguiu diante da baixa qualidade dos textos e da falta de conhecimento dos seus “críticos”. Dentro de um cenário de axé music, sertanejo universitário e outros estilos que tocam por ai que não apareceram, citar como pior nomes como Milton Nascimento, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Rita Lee e o próprio Tribalistas soa como algo completamente ridículo.

Mas deixando as polêmicas de lado, ou até mesmo para reforçá-las, acho que esse disco merece sim aparecer em lista, mas certamente entre os melhores. Está certo que a superexposição de algumas canções na época do lançamento (incluídas em trilhas sonoras de novelas), acabou desgastando-as, mas nada que desmerecesse esse trabalho que, do meu modo de ver é, antes de tudo, resultado de uma sintonia natural entre três grandes artistas em um momento único da carreira de cada um.

Produzido pela própria Marisa Monte (que novamente caprichou no encarte, contemplando cifras) e contando ainda com participação Dadi Carvalho, Cézar Mendes e Margareth Menezes entre outros, o disco inicia com um sonoro Bom dia Comunidade na voz de Arnaldo Antunes em “Carnavália”, uma verdadeira canção abre-alas, na qual se sobressai o perfeito casamento vocal entre Marisa Monte e Arnaldo Antunes, levados por uma percussão de Carlinhos Brown que parece feita sob medida para o disco: Vamos pra avenida ...Desfilar a vida...Carnavalizar.

As duas canções seguintes (“Um a Um” e “Velha Infância”) são baladas que estouraram nas rádios na época do lançamento e de tanto tocarem, acabaram cansando um pouco. Mas isso não tira o mérito de serem boas canções de amor.

“Passe em casa” é uma das melhores em minha opinião: música leve, solta, com uma percussão bem original criada por Carlinhos Brown. É daquelas músicas que dá gosto em ouvir.

Em “O amor é Feio”, destaca-se o barítono Arnaldo Antunes em primeiro plano, com arranjo que dá a cara de música infantil, daquelas de boa qualidade que foram produzidas recentemente.

Depois das canções “É Você” e “Carnalismo”, que possuem a cara (além da voz) da Marisa Monte e poderiam facilmente ter saído de um de seus últimos discos (músicas que ultimamente não deixam muita saudade), “Mary Cristo” é praticamente uma doce canção de natal, ideal para ser ouvida nessa época do ano (dezembro).

...quem está falando é a fada madrinha. Iniciando com a fala de uma criança, neta de Chico Buarque, “Anjo da Guarda” é outra que parece música para criança, acompanhada por uma riqueza de sons e percussão bem criativa.  ‘La de longe” vai no mesmo ritmo, transmitindo aquela suavidade tão predominante na maior parte desse disco, assim como “Pecado é lhe deixar de molho”, a canção seguinte.

Eu sou de ninguém...eu sou de todo mundo... e todo mundo é meu também...: “Já sei namorar” é outra que teve como maior pecado a superexposição na época, com o consequente desgaste natural. Mas nada que uma quarentena não resolva. Depois de alguns anos, agora consigo voltar a escutar e, melhor ainda, curtir como ela deve ser. Sem pretensão e bastante original.

Pé em Deus...e Fé na Taba. O disco encerra com “Tribalistas”, praticamente uma canção manifesto que consegue transmitir em alto astral a ideia (e a naturalidade) de como o disco foi concebido. Um resultado de um encontro de três músicos que estavam em perfeita sintonia no exato momento: dois homens e uma mulher...Arnaldo, Carlinhos e Zé (apelido da Marisa, decorrente de Marisete).

Como os próprios autores definem, esse disco foi resultado natural de um encontro sem pretensões na Bahia (para depois ser gravado no Rio). As músicas foram nascendo com naturalidade, sem pressões, decorrente de uma sintonia que já se fazia presente nos discos solos de cada um deles. Trata-se de um momento em que a carreira de cada um deles convergiu e o disco foi o filho de parto normal. Depois cada um continuou o seu caminho. Talvez até mesmo o sucesso do disco na época tenha surpreendido-os também (mais de 1,5 milhão de cópias vendidas em época já com internet).

Como a própria canção que encerra o disco previu, “o tribalismo é um antimovimento... que vai se desintegrar no próximo momento”. Percebe-se que, de cara, o disco era mesmo para ser mesmo um filho único desse encontro de parceiros musicais.

Quanto às críticas, também souberam responder com alto estilo no próprio disco, afinal os tribalistas já não querem ter razão...não querem ter certeza, não querem ter juízo nem religião.

[Paul]

sexta-feira, 6 de abril de 2012

A Curva da Cintura - Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra & Toumani Diabaté (2011)


“o mundo muda você

os outros te mudam muito

você muda pra crescer

a música muda o mundo

a música ajuda a ser

bem melhor”


Kaira é o nome dessa música, mas também foi um movimento político em 1960, no Mali. Um movimento de resistência à colonização francesa. A única arma usada foi o canto das pessoas. Na época não havia carros no país, os resistentes caminhavam pelas aldeias e a cada aldeia o coro ia se tornando mais plural, maior e mais bonito.


“A Curva na Cintura” chegou em minha casa com a força musical do movimento Kaira e me colonizou completamente! De cara o cd abre com som da Kora. Um som árabe-africano, vivo, alegre, esperto, misturado a uma aura feminina. Feminina no que a Kora tem de estridente. O som da Kora é marcante, se impõe e isso para mim é uma das grandes características do “Curva na Cintura”. A mescla de Brasil-África nessa experiência é muito especial. O cd se "passa" em Mali, onde a tradição musical não é a da canção e as letras são cantadas de improviso, aparecem ao sabor da Kora. Lá a viagem está na música, no som da Kora, o que vem depois é puro improviso. O encontro Brasil-África via Arnaldo Antunes-Scandurra-Toumani deu química, justamente porque tem um encontro do som-7 séculos da Kora de Toumani com a letra-cerebral da tradição do Arnaldo. As diferentes tradições viraram seiva no cd!


“eu sigo só na minha onda

cê não vai me acompanhar

eu sigo o sol, não quero sombra

nem ninguém para me assombrar”


São vários os encontros nessa curva. Em “Cê não vai me acompanhar” a Kora é tocada pelo filho de Toumani, Sidiki, de 20 anos. Nesse som ele usa o wawa e faz da Kora um instrumento de música eletrônica. É impressionante ver a Kora se transformar na mão das diferentes gerações. O Arnaldo e o Edgar não poderiam ter feito uma letra melhor! “Cê não vai me acompanhar” tem a sede da busca, a cor da solidão e a força da falta de medo.

No mesmo tom, com o mesmo som, o trio Sidiki-Arnaldo-Edgar fazem miséria com “Cara”. Edgar Scandurra mata a pau na guitarra. O Scandurra pertence àquela tradição dos guitarristas que estão em perfeita hamonia com o seu instrumento… Discreto na sua presença, indiscreto na sua criatividade, preciso quando entra e quando sai de um som e fundamentalmente, um músico viajante. Ele tá ali, concentrado na viagem, de olhos fechados, completamente possuído.

E ainda na mesma onda com Sidiki, da Kora-Rock, a música “Senhor” que a princípio parece meio fora de lugar, forma, junto com “Cê não vai me acompanhar” e “Cara”, a voz da modernidade. Não é à toa que Arnaldo e Edgar encontram em Sidiki o melhor parceiro para essas composições. As três músicas são velozes, flertam com uma tradição atual e ocidentalizada da música. As três letras falam do incômodo e do prazer do ser humano moderno. O “Cara” é o encontro consigo próprio. Quer coisa mais moderna que se dar conta que tem alguém dentro de você? “Senhor” traz a ambuiguidade entre ser o senhor e o preço de ser o senhor.


“e tenho muito pouco tempo

e no meu tempo cabe sempre menos tempo

o tempo de um senhor é sempre muito pouco tempo

mas tenho meu tempo ocioso

para gastar do jeito que for mais gostoso

e posso ver televisão

deitado na cama , com o meu roupão

um roupão de senhor…


A “Curva na Cintura” faz caminho sinuoso, arredondado e gracioso. A cintura é o meio do caminho do corpo. Divide nossos dois hemisférios – o sul e o norte. Esse cd tem um pouco desse desenho: do lado norte temos as músicas mais velozes e cerebrais. Ao sul temos as canções que te conectam em outra vibe, uma vibração mais tranquila, de sensações e que celebra a presença do outro da tua vida. É do lado sul do cd que temos a kora tocada por Toumani… “Que me continua” e “Grão dos Chãos” são exemplos desse movimento e tudo o que eu tentar falar sobre elas será excessivo, porque estas duas músicas são a medida certa para muitas coisas.

É isso, a “Curva na Cintura” tem uma medida própria, tem o tamanho ideal de uma boca voraz que não se cansa de ansiar por mais…

[ANDRÉA]

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O paradeiro de Arnaldo Antunes em 2001

Comprei este disco no embalo dos anteriores do Arnaldo, principalmente Um Som (1998) do qual eu sempre gostei muito. Foi uma decepção. Na época, tentei escutar umas três ou quatro vezes e o disco não desceu, não rolou aquele conhaque Dreher... Engavetei. Anos mais tarde, ouvi uma de suas músicas (nem lembro qual) no rádio do carro. Achei muito boa! Cheguei em casa pensando: Eu tenho o disco com essa música em casa, tenho não? Coloquei o paradeiro pra rodar. E ele não parou...


Agradável surpresa, taí um disco que envelheceu bem... Fui ouvindo e degustando faixa por faixa. O problema (meu) com o disco talvez tenha sido porque o Arnaldo resolveu escapar da sonoridade que ele vinha polindo desde que saiu dos Titãs e que culminou em Um Som. De repente, quando o negócio tava bacana, ele resolveu, em vez de trazer mais do mesmo, (de leve) se reinventar e "andar à beira do precipício"...


Começa pela produção: Carlinhos Brown. Arnaldo desmontou a banda com a qual trabalhava (desmontou em termos porque Scandurra aparece ainda bastante, enquanto que Paulo Tatit e Zaba Moreau, aqui e ali) e juntou-se ao baiano para a empreitada. Na época ele já circulava bastante com ele e a Marisa Monte.


Provavelmente por conta da presença do Marrom, o disco traz uma sonoridade nova no catálogo do Arnaldo. Mais percussivo, mais sons, mais timbres... Sem descaracterizar o som típico da sua voz grave centralizada, enquanto os pequenos detalhes vão orbitando em volta.


Essa Mulher seria a música perfeita se a letra não fosse um lixo. Música é o reino do implícito, do não dito, do sugerido e ele opta por fechar este buraco com a letra. Talvez a sacada foi colocar num formato pop esta letra que beira o panfleto.


A faixa que dá nome ao disco, Paradeiro, é a (minha) melhor música do Arnaldo Antunes solo. Bem, nem tão só, a autoria é dividida com os tribalistas Carlinhos Brown e Marisa Monte. Ela que o acompanha de maneira brilhantemente apropriada nos vocais.


Haverá paradeiro para o nosso desejo dentro ou fora de um vício

Uns preferem dinheiro outros querem um passeio perto do precipício...

Uns vão de paraquedas outros juntam moedas antes do prejuízo


A vida é curta. Curta a vida enquanto ela se encomprida. Sou fã de carteirinha dessa letra. Não lembro na música brasileira de ninguém ter dado esse recado de maneira mais bela, e por incrível que pareça, mais (in)direta...


Se tudo pode acontecer, se pode acontecer qualquer coisa, um deserto florescer, uma vuvem cheia não chover... pode alguém aparecer e acontecer de ser você...


Linda balada, canção delicada... com uma guitarra reversa do mestre Edgard, um belo solo de sax de Roninho Scott, percussão na medida com Mr. Brown e a participação especialíssima de Guga Stroeter no vibrafone.


E já que o paulistoca andava se abaianando, Na Massa é fruto de uma feliz parceria com Davi Moraes (a música já aparecia em seu Papo Macaco). Lembra o pré-axé da Cor-do-som temperada com as guitarras maneiríssimas do Scanda, fazendo contraponto à levada rítmica do próprio Davi...


Debaixo d’água é a música com som disso mesmo. Brincadeira divertida com os nosso paraísos utópicos, debaixo d’água tudo é maravilhoso, mas... tinha que respirar! Seu contraponto é o rap-candomblé Cidade. De novo mostra o Arnaldo quase experimental, falando da cidade, dura realidade.


Cidade sem mar, mas com montanhas de neve de isopor, despedaçado sob o néon amanhecido, ruído de motor...


Mas não tinha que respirar, né? Pelo menos não tem que ter esta preocupação (ainda): respirar é involuntário em meio a este caos... E ainda na trilha da invenção, temos O Mosquito. Um trip-hop semi-acústico. Gosto do som. Desentendo completamente a letra


Parceria de Arnaldo com Paulo Tatit e Sandra Peres, Do Vento já havia sido gravada pela Palavra Cantada num disco parceiro com as histórias de Ruth Rocha. A intenção é (era?) o público infantil, mas essa música é uma obra-prima... Linda melodia, uma letra que é um autêntico poema e o arranjo que canta uma música que já tem tudo, sem acrescentar demais e sem roubar a ênfase no essencial. Comentário embelezante, este é outro ponto alto do disco. Essa música é aquela que eu queria ter feito. E poderia morrer feliz.


Ainda canta Luzes de Paulo Leminski que ficou muito legal numa levada multi-violões... Essa noite vai ter sol é o comentário poético sem juízo de valor sobre a intervenção do homem na natureza na forma de noite. Aliás, depois do vento e da água, reparo que neste disco, Arnaldo trata dos assuntos da natureza de uma maneira não-dogmática, daí a parceria com Carlinhos ter sido extremamente feliz: a banda que ficou no disco anterior tinha uma sonoridade mais urbana, mais rock.


Atenção: essa vida contém cenas explícitas de tédio no intervalo da emoção... Arnaldo adverte já na abertura do disco, em poema musicado de Alice Ruiz. E este disco, quase que um retrato da vida, não poderia ser diferente. Nem tudo é legal (aliás, uma tônica do trabalho do Arnaldo, que gosta de misturar e, enfim, o resultado nem sempre agrada à todos, não é?), temos aqui uns intervalos de tédio...


Escurissíssimo é a música do disco a ser pulada. Hora de pegar uma na geladeira, tempo de ir ao banheiro e deschavear o que tiver chaveado demais... Santa também pode ser pulada, que não fará falta. O disco fecha com Lembrança Vó, que é uma vinheta totalmente Carlinhos Brown. Ficou interessante. No máximo.


Também me decepciona um pouco a versão bossa-nova do super Exagerado mais querido de todos (Cazuza), voz quase que só falada e violão, num formato que Arnaldo Antunes ainda viria a explorar em trabalhos posteriores, e que, cá pra nós, não é seu forte. Uma pena, porque a música é sensacional e merecia mais. De qualquer forma, mostra o cantor trilhando outros caminhos, arriscando à beira do abismo. Fazer o que? O disco é dele, pô!


Com tudo isso, Paradeiro é mais que um disco, é quase um emblema do Arnaldo Antunes. Honesto, livre e vivo.


[M]

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Ninguém, Arnaldo Antunes


Esse é o primeiro cd do Arnaldo que eu posto, acho que foi o primeiro que eu comprei dele, ainda bem que com o Scandurra, o que me traz o melhor do Ira! sem a voz do Nasi...
Falando agora sem provocações com o amigo Zeba (defensor do Nasi, o qual inclusive não estou atacando, eu só não gosto da voz dele...), gosto muito do som resultante da guitarra criativa do Edgard misturado com as pirações criativas e deliciosas do Arnaldo. Em outros discos como 'Um som', 'O silêncio' ou principalmente o 'Nomes', a piração às vezes extrapola o meu limite com a cabecice, mas aqui pra mim está tudo precisa e concisamente equilibrado.
O disco é agraciado com participações especiais do Paulo Tatit (do grupo Palavra Cantada e do projeto Pequeno Cidadão, acho que já postado por aqui) no violão de nylon, baixo, guitarra, vocais e composições, da Zaba Moreau, esposa (acho que é, confere?) nos teclados e vozes, e do mago Liminha que, além de produzir o álbum, também programa ritmo, toca guitarra e baixo na última faixa, 'Ninguém no carnaval'.

Nossa jornada musical começa com a faixa-título, próxima da poesia concreta musicada, mas mais próxima do trabalho com os Titãs ou Tribalistas, com elementos simples que fazem uma coisa mais complexa e multifacetada (papo USP, hein!_). Além da guitarra hard do Edgard Scandurra, que também é co-autor dessa e de outras músicas mais.

'Consciência', pela sonoridade e pela letra com pitadas de escatologia, poderia estar em algum disco dos Titãs. A separação tem a vantagem de manter o trabalho da banda de origem e mais os trabalhos solos dos membros desgarrados, principalmente no caso do Arnaldo, que continuou compondo para a antiga banda, ao contrário do Nando Reis, que só compõe agora pro Skank e pro Jota Quest... Aqui somos premiados por um solo marcante do nosso herói guitarrista Scandurra e uma declamação, felizmente curta, de poesia pelo Jorge Mautner.

'O nome disso' é divertidíssima, infantil e acelerada, com uma dinâmica que não deixa a letra simples ficar banal, além do diálogo vocal do Arnaldo com o Edgard.

'Nem tudo' é uma parceria do Toni Belloto com o Arnaldo (que além da voz, faz também 'sapato no assoalho'!!). Mais um solinho bacana!
"Nem tudo que se tem se usa
Nem tudo que se usa se tem"

Aí vem 'Alegria', uma das minhas preferidas, redondinha, com uma guitarra muito legal que inicia e prossegue fazendo uns barulinhos legais na faixa meio circense, o que inclusive faz um contraponto melancólico com a própria alegria da faixa.

'Budismo moderno' é feita sobre um poema do Augusto dos Anjos, parceria que arrisca ficar chata, o que felizmente não acontece, mesmo com a 'programação de serrote' (!) do Arnaldo... Tem uma sacação legal de 'silêncios surpresa' sincronizados com a letra.

'Fora de si', com a letra gramaticalmente incorreta porém mais expressiva do que todos os guardiões ortodoxos da língua, é um bom hard rock com mais um solinho criativo.

'Minha meu' é o limite da cabecice, e ainda bem que é uma só. Mais um rock acelerado.

'O seu olhar' é uma quase balada romântica, com a voz grave e estranha da Zaba acompanhando o Arnaldo. Também um violão exótico com alguma modulação bizarra a cargo do Paulo Tatit.

'Lugar comum' (João Donato/Gilberto Gil) é uma das ótimas escolhas para versões deste disco, ficando bem diferente da original e suas muitas 'covers' bossanovísticas. E mais uma vez, Edgard comparece dando o tom, com suas guitarras com ecos marítimos, além do solo mezzo oriental.
"Beira do mar
lugar comum
começo do caminhar
pra beira de outro lugar

à beira do mar
todo mar é um
começo do caminhar
pra dentro do fundo azul"

A outra versão é a surpreendente 'Judiaria' (Lupicínio Rodrigues), que aqui ganha uma cara bem rock'n'roll! Sensacional! Essa aqui meu atual chefe na banda 'Roni Rude e os Deselegantes' - ou Dezelegantes (em breve com disco na praça!) quer tocar ao vivo. Espero fazer uma guitarra à altura do nosso herói...

A parceria com Paulo Miklos, 'Tempo', também tangencia a erudição poética concreta, mas é bem legal, percussiva e com belas linhas de guitarra, além de uma voz sintetizada fantasmagórica ao fundo.

'Inspirado', parceria com Edvaldo Santana, não é das minha preferidas, mas acrescenta estranheza ao disco.

'No fundo' traz uma voz mega-grave do Arnaldo, timbre mais utilizado em discos posteriores, mesmo porque com a idade a voz 'baixa' alguns tons no registro de notas, o que leva muitas bandas a abaixarem a afinação dos instrumentos com o passar do tempo. Aqui os violões dão um tom quase caipira na música, além de umas guitarras de fundo muito legais.

'Quero' é mais uma com letra de poesia concreta, aqui com voz distorcida, guitarras harmonizadas a la Iron Maiden (por essa você não esperava, hein, Mateus?!) e batida marcial, o que mais uma vez a faz escapar da chatice cabeçuda. Boa pra ouvir com fones.

'Ninguém no carnaval' é a parceria com o Liminha, uma boa escolha pra fechar o disco, com muitas vozes sobrepostas, um quase caos de guitarras do Edgard com o Liminha, além da programação esperta dos ritmos, que se não fosse assim creditada eu nunca adivinharia que era a máquina tocando.
"Ninguém no carnaval
ninguém é de ninguém
no meio do mundo
todo mundo é todo mundo".
Acho inclusive que essa letra depois foi reciclada pelos Tribalistas...

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Pequeno Cidadão (2009)


Pode-se até definir o Pequeno Cidadão como um disco para crianças. É, de fato, a maneira mais fácil de olhar as coisas, o caminho do óbvio, uma vez que alguns artistas consagrados juntam-se com seus filhos das mais variadas idades e gravam um cd com músicas que os misturam, seja nas composições, seja nas execuções.


Mas aqui proponho um novo orelhar sobre o projeto, não é um “disco para crianças”, ou, a máxima concessão que faço, é um disco para crianças de todas as idades. Arnaldo Antunes, que dispensa apresentações, mas, vá lá, andou pelos Titãs e tem sólida carreira solo e o saudável hábito de se reinventar de tempos em tempos; Edgard Scandurra, guitarrista do Ira!, aliás, mais que isso, idealizador, compositor e motor da banda e que andou arriscando a eletrônica como Benzina; Taciana Barros, que era da Gang 90 e as Absurdetes (eu e minha gata rolando na relva! Rolava de tudo! Confesso que não lembrava dela, tive que pesquisar...); e Antônio Pinto, músico compositor de trilhas sonoras (Central do Brasil, Cidade de Deus...) juntaram-se da maneira mais natural possível: os filhos estudam na mesma escola. (É claro que, Edgard toca na banda do Arnaldo e Taciana é sua ex-mulher, mas os pais que viram amigos dos pais de seus filhos é evento típico).


A referência básica é a Palavra Cantada (já postada aqui), turma com a qual tanto Edgard quanto (e principalmente) Arnaldo já colaboraram, mas vai além, ou melhor, vai a outra direção. Lá, as músicas eram cuidadosamente compostas e arranjadas para as crianças, as letras, o ritmo, a melodia, os timbres... Aqui, o universo infantil das crianças é misturado ao dos pais e em muitas músicas, não fosse a voz das crianças ou as letras em tom de brincadeira, teríamos um disco de rock’n’roll tupiniquim. Da melhor qualidade, diga-se de passagem, é comparável à da melhor safra do Ira! e dos Titãs...


A faixa-título que abre o cd é irresistível, e já virou até propaganda de automóvel. Lá em casa ninguém resiste ao seu balanço. O Sol e a Lua, a minha favorita, tem um refrão contagioso, pegajoso no melhor sentido da palavra, linda música de Antônio Pinto que, como se não bastasse, conta com a elegante guitarra de Edgard tornando-a ainda mais interessante.


E o disco é recheado de momentos inspiradíssimos... o rock’n’roll das antigas Sapo-Boi que é cantado por um dos filhotes, e cá pra nós, e menino se supera e manda ver, totalmente à vontade e muito bem-humorado. Larga a Lagartixa é o momento metal geralmente inconcebível em discos de crianças, mas cá pra nós, pedagogos que não nos ouçam, nem só de xilofones, móbiles e gelatina colorida é povoado o universo infantil. Mas o disco não se limite ao rock, algumas passagens meio eletrônicas como o Uirapuru e a Bonequinha do Papai dão uma quebrada no tom. Mas tem também um sambalada estilo Marcos Valle, composta e cantada por Daniel Scandurra (filho do Edgard com a Taciana, já criança grande, com 21 anos) chamado Futezinho na Escola é a preferida do meu Joãozinho, de sete. Leitinho é a música mais estilo palavra cantada, um xotezinho gostoso do Arnaldo, enquanto que o Um Carrinho por Trás é um pagode malandro, no estilo criança levada que se justifica: não foi na demais!... foi um carrinho por trás (eu falei pro juiz...).


Delicioso disco feito em família termina com uma faixa bônus composta (e cantada) por Ziraldo para seus filhos quando eram pequenos: um deles é justamente Antônio Pinto! E o disco feito em família é melhor ainda curtido em família. Tipo de som que todo mundo em casa curte, pai, mãe, irmão, irmã...


[M]

domingo, 14 de setembro de 2008

Arnaldo Antunes Ao Vivo no Estúdio - 2007



Quando vi esse blog fiquei super a fim de dar o meu palpite também… fiquei na fissura de escrever sobre o Nando Reis, mas ainda tá difícil – é muita paixão para pouca crítica.
Resolvi então falar de um outro ex-titã e contar do Arnaldo Antunes AO VIVO NO ESTÚDIO (2007).

O Arnaldo é aquela coisa difícil, aquela coisa geométrica da poesia concreta traduzida para os ouvidos, e eu sei, tem hora que bicho, é muita linha reta! Mas esse cd tá lindo, super delicado e o Arnaldo tem esse jeito infantil de cantar os sentimentos humanos, que às vezes é quase uma canção de ninar. Fiquei pensando, pô, ele era tão punk nos titãs e agora com esse tom infantil, com essa voz macia. Mas tanto o punk como o infantil nos desconcertam, quebram as nossas pernas porque nos desarmam. Acho que é por isso que o Arnaldo me surpreende.

Logo nas primeiras canções do cd - “Qualquer”, “Saiba” e “Fim do dia” - a gente percebe esse poder infantil, essa mistura de sentimentos infantis com a realidade adulta. E o cd vai rodando e o Nando chega pra cantar junto a maravilhosa “Não vou me adaptar”. Nesse cd a música ganha uma versão alegre, cheia de reggae, tranquila de ouvir. Mistura feliz de dois ex-titãs! E o Nando com aquela voz desajeitada dele, sem pressa, vai cantando as difilculdades de virar gente grande…

Como não poderia faltar, o trio tribalista tá lá e canta “Um a um”. Apesar de não trazer nenhuma surpresa na versão, essa música é muito bonita e é muito legal essa estória de dividir o espaço com o amigos. E é isso, essa música fala disso, de aprender a dividir, e que quando é bom de se jogar, dá 1x1. E no encarte tem umas fotos lindas e a Marisa Monte tá no maior visual Frida Khalo! Aliás encarte pra mim faz parte do cd…

E tem também uma versão muito massa de “Qualquer Coisa” do Caetano. A introdução é linda, com um piano e uma guitarra forte, marcando quase que cada palavra. Com uns efeitos meio que eletrônicos durante. Ah é linda! É uma versão reta, sem muito tempo pra respirar, com as palavras claras e quase faladas.

Aí é a vez da “O que”, mais uma da fase titânica. Versão enxuta, só voz, guitarra e uns efeitos eletrônicos que parecem ondas. Essa só ouvindo mesmo! tá bem boa!

Mas acho que as surpresas maiores estão nas últimas duas faixas – “Luzes”, um poema do Leminski , que é uma coisa… ele transformou o poema num tango, com uma sanfona e uns violões de matar. É quando ele diz que “essa noite vai ter sol”. A música vai encorpando, enchendo nossos ouvidos, a sanfona vai ficando poderosa e tomando conta da cena.
Arnaldinho matou a pau nessa!

A impressão que tive, quando ouvi esse cd, foi que o Arnaldo tá a fim de paz, mas você só saca isso depois de ouvir o Edgar Scandurra fazendo aquela guitarra se descabelar em “Judiaria”.
Sem palavras.

[ANDRÉA]