segunda-feira, 5 de novembro de 2012
D2 - À procura da batida perfeita
Prossegue a saga dos álbuns solo, agora com um caso especialíssimo, como se diria no jargão administrativo corrente, um case de sucesso!
Marcelo D2, ex e atual vocalista da banda Planet Hemp (que voltou e está em excursão pelo Brasil), mesmo antes do seu fim (temporário, como se vê), já havia lançado um álbum mediano (que será postado aqui em algum momento), o Eu Tiro é Onda, mas foi com esse que ele realmente estourou a boca do balão, além do sucesso popular (já previsto e inclusive criticado na música título do álbum - 'domingo no faustão terça-feira na Hebe', que Deus a tenha), ele criou um estilo novo de música brasileira, o samba rap, que, como todos, às vezes acerta e às vezes não...
O nome do álbum é referência direta ao disco do Afrika Bambaataa chamado Looking for the perfect beat.
Esse disco tem umas músicas que eu gosto muito onde ele acerta na veia, mas tem umas que pra mim são bem fraquinhas e totalmente dispensáveis.
Produção do citado na resenha logo abaixo, do disco do Seu Jorge, o americano/brasileiro Mario Caldato, juntamente com o próprio Marcelo D2 e Davi Corcos.
O disco conta uma historinha, começa com uma Intro Pra posteridade, com uns samples (acho até que é a voz da Elis Regina, mas não há crédito no disco), e já emenda com À procura da batida perfeita, feita em cima do sample creditado da música Bonfa Nova do violonista Luiz Bonfá, D2 faz seu rap por cima de uma base muito legal com uns vocais femininos bonitos, e a música termina até com uns ruídos saudosistas de vinil.
Mais uma mini introdução e começa mais uma das excelentes do disco, Vai vendo, mais uma bela mistura de samba e hip hop, cheia de scratches e terminando com um sambinha de raiz não creditado... Diz o autor 'o pesadelo do pop', mas ele virou pop.
Começo de disco matador, na sequência vem a sensacional A maldição do samba, a perfeita mistura de hip hop e samba, levada dançante, um trompete bonito e inesperado, uns coros muito legais a cargo do Seu Jorge e do Duani, um refrão maneiríssimo, showtime!!
"O gringo subiu no morro e bebeu cachaça
fumou maconha e obteve a graça
depois do samba sua vida nunca mais foi a mesma"
Ainda termina com um trechinho da música Argumento (Paulinho da Viola): "tá legal, tá legal, eu aceito o argumento, mas não me altere o samba tanto assim", e eu sempre continuo cantando "olha que a rapaziada tá sentindo a falta de um cavaco, de um pandeiro e de um tamborim"...
Pilotando o bonde da excursão é uma que poderia ter causado problemas legais ao autor, devido à potencial interpretação de apologia ao crime, no caso, posse de drogas, ainda mais que o Planet Hemp já tinha um histórico nesse sentido. Mas não deu em nada, é só uma descrição de vários tipos de ervas etc etc. Bom, aqui vou reproduzir os comentários do Seu Marcelo: "A minha versão para Rapper's delight. A base já estava pronta e faltava a letra. O Mario sugeriu uma anthem com os fans do Planet Hemp e eu resolvi contar um pouco do que vi, senti e fumei nesses anos", ou pelo menos a parte que ele lembra...É uma música simples mas divertida, com uma linha de baixo sinuosa e criativa, scratches, metais em brasa e uns tecladinhos eventuais.
Aí começa a parte mais chatinha do disco, Loadeando, onde o D2 canta com o filho Stephan, sobre evolução e a interação entre pais e filhos, e também sobre videogames, viagens etc. Mas a música é chatinha... Vale pelo refrão.
A seguinte, Profissão M. C., já retorna com a criativa mistura de rap com samba, além da mistura de rima com 'um bagulhinho'...
C.B. Sangue bom: sonzinho legal, guitarra meio reggae, D2 rimando solto por cima junto com o WILL.I.AM do Black Eyed Peas, o tema é fazer o bem e procurar a paz, dificuldade e superação, esses dilemas cotidianos e nem por isso fáceis.
"Quem é que mistura o rap com o samba? Sou eu, sou eu", assim começa Batidas e levadas, emendando uma base bem solta e rimas naquela vibe hip hop com alguns elementos de samba, principalmente os bons vocais femininos de resposta.
O álbum vai terminando e se encaminha bem assim com Re: Batucada, retomando a grande canção do primeiro disco solo Batucada, com mais um coro lindo de vozes femininas e o excelente mix de samba com rap. Homenageia no fim 'os verdadeiros arquitetos da música brasileira: Chico Science, Cartola, Jovelina, Tom Jobim, Candeia, João Nogueira, Dona Nelma, Tim Maia, meu amigo"
"Sorria
Meu bloco vem bem descendo a cidade
Vai haver carnaval de verdade
O samba não se acabou
Sorria
O samba mata a tristeza da gente
Quero ver meu povo contente
Do jeito que o rei mandou"
De passagem, tem um maluquinho falando umas paradas estranhas "Tu não sabe quem eu sou, Compadi? Quem? Ah, tá maluco, eu sou sinistro, como que tu fala assim comigo? Tu nem me conhece, tu nem me conhece...". Engraçado.
Qual é? começa com mais um corinho feminino lindo, é uma excelente música, daquelas com letra contundente, refrão grudento e pressão sonora! Guitarra suingada e funkeada!!
"Essa onda que tu tira
Qual é?
Essa marra que tu tem
Qual é?
Tira onda com ninguém
Qual é?
Qual é, neguinho, qual é?"
(Dão)
PS: essa resenha ou post é dedicada ao meu amigo Alexandre Duayer (honorável roadie do Rappa e NX Zero, que começou sua brilhante carreira trabalhando com essa máfia aqui) e ao amigo revisor Baiano...
quarta-feira, 7 de março de 2012
áudio-retrato, Leoni

Link que me trouxe boas informações e boas sacadas: http://www.screamyell.com.br/musicadois/leoni_retrato.htm
Eu tenho uma teoria, em parte desacreditada pela minha alegada 'tolerância elástica musical' (Bernardes, Mateus; início do novo milênio): por cantar sobre assuntos românticos e relações - no fundo o mesmo motivo pelo qual foram tidos como 'mais bobos', além de serem pop - o Kid Abelha e o Leoni perdurarão. Assim será, por mais tempo que seus colegas de geração.
Mas este disco não é sobre passado somente, mostra tb que o cara não perdeu a expressividade e criatividade, mostrando belíssimas novas canções, além de uma releitura minimalista (ui) ou 'econômica' de sua relevante obra.
Aliás, 'áudio-retrato' é um excelente título, né?
Começa um classicão dos 80, 'Exagerado', do Leoni, Cazuza e Ezequiel Neves! Outro dia ouvindo o cd no carro lembrei que cantávamos essa música pro meu colega botafoguense no ônibus escolar, o Zé Geraldo!! Lembrei até de como sacaneei ele naquela goleada de 6 a zero do Mengão...coitado. Tergiverso, tergiverso. Ou, como diagnosticado precisamente e à distância pelo meu amiguinho imaginário residente em terras britânicas, o Luiz Marcelo Videro Vieira Souto, ou melhor, Vieira Santos, o Baiano, efeito da minha, da nossa, dda, ou ainda, ddah...
'Educação sentimental', sucesso dos anos 80 pela voz da Paula Toller no Kid Abelha, mas na verdade composição de Leoni, vem numa versão que privilegia a voz, com acompanhamento discreto de violão e órgão. Inclusive a voz dá umas derrapadas na afinação, o que mostra que o autotune não esteve por aqui...Bom, vc conhece a música, provavelmente. Uma situação tipicamente adolescente, afinal como saber se comportar nesse início de vida social e sexual? Como seduzir e parecer experiente? Enfim, como fingir? A gente vacila muito mas, aprendendo com o 'artigo no jornal', 'ninguém vai resistir se eu usar os meus poderes para o mal'.
'Fixação' (Leoni/Paula Toller/Beni) é umas das mais gratas surpresas do cd. Reduzida a voz, violão e um belíssimo violoncelo, mostra que, ao contrário do que parecia, é uma música muito triste, depressiva e obcecada. Enfim, mais uma adolescente. Talvez por isso, um pouco atemporal, afinal sempre haverá adolescentes passando por isso e nós (alguns, talvez) podemos sempre lembrar e nos identificar com a situação. Menos aqueles pais burros que esqueceram que já foram adolescentes, né?
Um pouco de alegria e testosterona, misturada com um benvindo realismo sobre como homens/garotos são de verdade: 'Garotos II - o outro lado'. Pelo nome podia ser até uma canção gay, né? Mas não é. Uma batida meio bossa nova em violão com cordas de aço, voz frágil de Leoni acompanhada pelo Dinho Ouro-Preto numa letra deliciosa.
'Garotos perto de uma mulher são só garotos'...
Iniciando a fase solo do nosso retratado, 'Nosferatu' traz um retrato entediado de Sampa. Arranjo mais suingado, mesmo acústico. Cheio de guitarras, inteligentemente espalhadas.
Ainda da fase solo, na verdade do grupo Heróis da Resistência, vem uma bela canção, 'Esse outro mundo', acompanhado no órgão do Barão Vermelho Humberto Barros. Bom compositor esse tal de Leoni.
'Só pro meu prazer' dispensa apresentações, uma das minhas preferidas, aqui reduzida ao mínimo, voz frágil e oscilante do Leoni e um belo pianão por Eduardo Souto Neto. A letra é um primor, expondo como nós criamos e nos transformamos expostos a paixões, mas no fundo o que queremos é o nosso bem, é o espelho refletido, é o bem que nos faz:
"Eu te imagino, eu te conserto,
Eu faço a cena que eu quiser
Eu tiro a roupa pra você
Minha maior ficção de amor
E eu te recriei
Só pro meu prazer"
E ainda tem o trechinho do Kid Abelha 'eu quero você, como eu quero' (tudo a ver...).
E por falar em Kid, a próxima música, 'Lágrimas e chuva' (George Israel/Leoni/Bruno Fortunato), é mais uma que surpreende pela diferença em relação ao arranjo original, mais pop e 'de banda'. Aqui, o violão lento é acompanhado pelas vozes de Leoni e Leo Jaime. Bonito. Um pouco de atenção à letra e percebemos que não é nada festiva...
"eu dou plantão dos meus problemas que eu quero esquecer
será que existe alguém ou algum motivo importante
que justifique a vida ou pelo menos esse instante?
eu vou contando as horas
e fico ouvindo passos
quem sabe o fim da história
de mil e uma noites de suspense no meu quarto?"
'Carro e grana(Beni/Leoni)/A fórmula do amor'(Leoni/Léo Jaime) formam um bom pot-pourri de músicas da fase solo e da parceria com o ícone do Brock anos 80. Alfinetadas, persistência, um pouco de rancor e mágoa por parte da fase 'adulta' e uma temática parecida com 'Educação sentimental' por parte da fase 'adolescente':
"ainda encontro a fórmula do amor
eu tenho a pose exata pra me fotografar
aprendi num vídeo pra um dia usar
um certo ar cruel, de quem sabe o que quer
tenho tudo ensaiado pra te conquistar"
Daqui pra frente, com exceção da próxima, as músicas são da produção recente (e relevante) do Leoni.
Começando bem com um sambinha, 'Falando de amor'! Um pouco surpreendente pra quem sempre esteve relacionado com a cena pop rock, mas o compositor acerta a mão, suingue, simplicidade, uma boa harmonia e uma excelente letra. Tem até um cavaquinho by Rodrigo Maranhão.
"Eu podia ser sua tara
a ferida que nunca sara
te humilhar, te dar na cara
mas eu tô falando de amor
eu tô falando de amor
e não da sua doença
eu tô falando de amor
e não do que você pensa"
'Doublé de corpo', gravada antes pela banda de Leoni Heróis da Resistência, é mais uma que tem guitarras, apesar do arranjo ser bem diferente do anterior. Bom resgate.
E aqui chega o ponto alto, uma música inédita, composta junto com o Herbert Vianna, que parece ser sobre a situação deste último pós acidente de ultraleve: 'Canção pra quando você voltar', linda e tocante.
Com co-autoria do Herbert Vianna e aparentemente feita sob forte influência do acidente de ultraleve dele, é uma das mais belas, com arranjo cheio de deliciosas sutilezas, delicadamente preenchida por cello e clarinete. De chorar! Sem vergonha.
"Quando o sol de cada dia entrar
Chamando por você
Querendo te acordar
Vai ter sempre alguém pra receber
Dizer pra esperar
Você já vai chegar
Alguém pra olhar a casa
E alguém que regue o seu jardim
Até você voltar
E como é normal acontecer
Se num entardecer
A dor te visitar
Vai ter sempre alguém pra socorrer
Fazer o seu jantar
Dormir no seu sofá
Enquanto a noite passa por mim
Eu rego o seu jardim
Você já vai voltar
Om mani padme hung Om mani padme hung Om mani padme hung"
(essa última linha é um mantra que estimula a compaixão e a cura, protege dos sofrimentos terrenos, purifica o karma ruim, os maus hábitos e as impurezas dos seres, recitada aqui pelo Lama Sonam)
Prosseguindo nas canções mais atuais, 'Temporada das flores' é mais um canção bonita com arranjo de banda, mais redondinho, mas ainda suave.
'Melhor pra mim' é a última do cd, também com arranjo de banda, sendo que esta foi extraída do cd 'Você sabe o que eu quero dizer'. Fecha bonito um álbum muito bonito.
(D)
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Revolusongs, Sepultura

terça-feira, 30 de agosto de 2011
Maria Rita... (2003)
Ok. Poderia começar a falar da Maria Rita por aquilo que ela não é: Elis Regina. O que deveria ser óbvio, muitas vezes tem que ser lembrado pela marolinha de desaprovação gerada com o lançamento deste seu primeiro disco, afinal as comparações (e apelidos, Maria Grita, Maria Irrita...) foram inevitáveis. Ok de novo. Suponha que fosse apenas mais uma cantora nova. Qual é o ponto de partida, quais são as influências para uma carreira que se inicia? Ora, sempre há um ponto de partida... Mas ela é filha da Elis, cantora gigante, mito da música brasileira... E também é filha, lembremos, de grande parceiro, maestro e arranjador da Elis, César Camargo Mariano. E porque ela deveria desprezar esta herança? Porque ele deveria se deixar influenciar pela Joanna ou pela Marina Lima ou outra miríade de mediocridades? Afinal a implicante adolescência e negação dos pais é uma fase que já passou de concorde e foi pra beeeeeem longe... (graças a deus!)
O fato é que a Maria Rita é uma delícia. Um tesão de mulher. Sua voz é extremamente erotizante e eretizante. Horas em que é pura malícia, que vai te levar pela mão e ensinar novos segredos, rebolados, ritmos, compassos, descompassos, taquicardias e respirações... Horas em que é menina, corpo nu a ser explorado, conquistado, apreciado e degustado à exaustão...
Isso que eu nem falei de música ainda! Ou falei? Afinal, música é o quê? Senão amor, sexo, e uns 10% de algumas outra coisas... Maria Rita não canta. Maria Rita te canta. É uma sereia, e eu não quero ser Ulisses, eu quero é cair no mar e não sair nunca mais, quero ser dela e ela minha, que eu me afogue e vire um personagem da saga de Jack Sparrow, pouco importa...
Tom Capone produziu esta jóia e, de maneira muito inteligente privilegiou o arranjo instrumental mínimo: bateria (Cuca Teixeira), baixo acústico (Sylvinho Mazzuca) e piano (o campineiro de Barão, Tiago Costa). Gratos somos, esta escolha realça a voz e o erotismo de Maria Rita. (Sou louco por ela, não vou conseguir terminar esta maldita resenha). Na escolha do repertório, a velha guarda vem com Milton Nascimento e Rita Lee (o que, mais uma vez vai lembrar demais a Elis, mas aqui uma nítida vantagem: nada de Ivan Lins!) misturada a novos talentos (outra coisa que a mãe adorava fazer), Marcelo Camelo e Lenine; e compositores menos conhecidos do grande público (Nonato Buzar, Paulinho Tapajós, Jean e Paulo Garfunkel, Renato Motha, Cláudio Lins...).
Se o disco abre com A Festa de Milton, O teu corpo moreno / Vai abrindo caminhos / Acelera meu peito / Nem acredito no sonho que vejo / E seguimos dançando / Um balanço malandro / E tudo rodando / Parece que o mundo foi feito prá nós / Nesse som que nos toca... logo vem Maria Rita Lee dizendo Agora Só Falta Você! (eu, Maria Rita? Diga logo, só falta eu?).
Esta aliás é uma aula de como reinventar uma música. Uma das minhas favoritas no imenso e fantástico repertório da rainha do rock, aqui foi genialmente desfeita e recosturada no formato flower trio (repare no pulso do baixo, a bateria sendo escovada e os precisos comentários do piano genial de Tiago), onde o fio que conduz à versão original é exatamente a melodia cantada levemente desacelerada, maliciosa, como quem quer e não vai entregar, Maria transforma em jogo de sedução o que era canção de desabafo da outra Rita...
Trilha de abertura de novela das oito (Encontros e Despedidas, Nascimento e Fernando Brant, de um disco bem mediano do mineiro na virada dos 80-90), Ritmos latinos (Dos Gardenias que ficou célebre no Buena Vista Social Club), Blues (Que é uma pena / Mas você não vale a pena / Não vale uma fisgada dessa dor...), Samba (Cara Valente, de Marcelo Camelo) e a mistura única rock-baião-frevo-funk acelerado na Lenínica Lavadeira do Rio, mostram que Maria Rita é pau prá toda obra e que Deus dá asas à sua cobra (como canta em Pagu, feminista e feminina parceria Lee-Duncan)...
Marcelo Camelo aliás, parecia estar fazendo a cabeça da intérprete por essa época já que foi contemplado com nada mesos que três composições neste seu disco de estreia. E neste Cara Valente a ala xiita do fã-clube da Elis se arrepia, pois os trejeitos, os timbres, a malícia, tudo faz parecer que Chico Xavier é quem estava no estúdio...
Além desta, Santa Chuva e Veja Bem Meu Bem completam o trio Los Hermanos no disco. E cá pra nós, as duas versões (não conheço Santa Chuva em outra voz...) são muito superiores às originais. Em especial esta última, uma linda canção sobre a solidão:
Veja bem, meu bem / Sinto te informar / Que arranjei alguém / Prá me confortar / Este alguém está / Quando você sai / Eu só posso crer / Pois sem ter você / Nestes braços tais...
Veja bem, amor / Onde está você? / Somos no papel / Mas não no viver / Viajar sem mim / Me deixar assim / Tive que arranjar / Alguém prá passar / Os dias ruins...
Enquanto isso / Navegando eu vou sem paz / Sem ter um porto / Quase morto, sem um cais /
E eu nunca vou / Te esquecer, amor / Mas a solidão / Deixa o coração / Neste leva-e-trás...
Veja bem além / Destes fatos vis / Saiba: traições / São bem mais sutis / Se eu te troquei / Não foi por maldade /
Amor, veja bem: Arranjei alguém chamado saudade!..
Ah, Maria Ritah...
[M]
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Lisbela e o prisioneiro - trilha sonora

domingo, 19 de junho de 2011
Música para beber & brigar, Matanza
Para o Zeba, que é curioso acerca das subdivisões metal, chega a surpresa do domingo metal: o countrycore!! ;)Uma mistura louca de uns mutcho loucos cariocas (Jimmy London, autor da lapidar "Estou cagando para os meus fãs, sou músico, não sou modelo de vida", e seus comparsas Donida nas guitarras, China no baixo e Fausto na bateria) que gostam de punk quanto de Johnny Cash e até de música irlandesa.
Pesado e divertido, ao mesmo tempo violento e mal-humorado, não é uma banda para ouvidos fracos e frescos.
Este aqui é o segundo álbum da banda, que depois disso, até hoje 2011, gravou mais 2 de inéditas e um tributo matador ao citado Johnny Cash (To hell with Johnny Cash).
Este é um dos discos que me anima muito a postar aqui, pois é uma banda muito legal e pouquíssimo conhecida.
'Pé na porta, soco na cara' já dá o tom! "e toda paciência um dia chega ao fim...essa noite vai dormir feliz"...Refrãozão, deve ser boa de começar shows.
'O último bar' já apresenta elementos country, pesadão, além do clima velho oeste.
"O último bar quando fecha de manhã
Só me lembra que não tenho aonde ir.
Bourbon tenho demais,
Mas que diferença faz se você não está aqui pra dividir?
Toda noite tem sempre alguém pra me dizer,
Que mulher que vai querer te ver assim.
Pleno festival, mulherada, carnaval e eu aqui
Com uma garrafa já no fim"
'Todo ódio da vingança de Jack Buffalo Head' começa meio instrumental, de repente dá uma acelerada e atropela.
"Meio dia pego o trem
que dessa cidade eu ja cansei
Todas puta ja comi
o que tinha de roubar eu ja roubei
Quem vai me dizer se eu to errado
se eu to vivo muito bem e não tem pra ninguem
Quem tentou me segurar pro inferno mandei
Procurado vivo ou morto
no retrato até que eu fiquei bem"
'Maldito hippie sujo' é mais pesadona e cadenciada com um riff bacana de guitarra pesada. E polêmica, ou engraçada se vc ouve como piada.
'Bota com buraco de bala' é um quase romântica, meio rock'n'roll acelerado, com um slide muito legal.
"Eu sei que ela me ama, e eu vivo só por isso, mas não é exatamente um paraiso.
Com ela eu não discuto é sempre sim senhora, e quando fica puta pega as coisas e vai embora.
E não há nada que eu diga, não há nada que eu peça, com essa vagabunda eu não consigo ter um pingo de conversa.
E só o que sobrou foi um buraco de bala"
'Taberneira, traga o gim' dá uma desacelerada, mas mantem o nível alcoólico...aquele efeito conhecidíssimo "que fica a cada drink mais bonita".
'Interceptor v-6' fala sobre carro, tema comum no rock'n'rol, no caso um Diplomata, "nem o demônio eu vi bebendo tanta gasolina". Punk acelerado. Tem um fim falso surpresa.
'Busted' é uma versão de uma música do Cash, bem de leve, aquele ritmo de valsa country. Porra, eu não queria gostar de algo como Johnny Cash, mas eu adoro. Mais ainda no vozeirão original.
E aí vem de volta a porradaria na sensacional 'Bom é quando faz mal'!
"20 caixas de cerveja
um barril de puro whisky
Quilos de carne vermelha
Fique longe não se arrisque
Não importa onde esteja
E sempre onde tem mais barulho, maior cheiro de bagulho
Disso eu me orgulho
Vai saber o que é normal?
E só que eu posso lhe dizer:bom e quando faz mal!
Conseqüência qualquer coisa traz
Quando é bom nunca e demais
E se faz bem ou mal tanto faz, tanto faz, tanto faz..."
'Pandemonium' começa com um trovão e depois vem a guitarra com um riff punk aceleradíssimo, contando uma história de bebida, assassinato e ressaca...No meio dá aquela quebrada cadenciada meio heavy pro solo simples e eficiente.
'Quando bebe desse jeito', countrycore acelerado com slide country sinuoso e banjo discreto, é auto-explicativa, né? Mas de qualquer jeito segue um pouco mais da letra:
"Segunda-feira, dia do bebum profissional
Mal a noite cai, já vai cair no mal
Nunca vai faltar um bom motivo pra quem quer se divertir
Não precisa de momento nem de ocasião
Todo dia é dia, é só chamar que vai
Tudo que não presta, certamente, deixa a vida mais feliz"
'Matarei', mais do mesmo estilo divertido, um pouco mais metal pé-na-porta, boa pra roda de pogo ao vivo!
Pra terminar a grossa balada country acelerada 'Bebe, arrota e peida'. Minha filha adorava essa música quando era menorzinha, mas em geral não faz muito sucesso com o público feminino, claro, ainda mais com essa letra:
"Chega já pedindo a saideira
Mais é saideira uma atrás da outra
e assim lá pela décima terceira
Já tá trocando o nome da garota
Não vá não, fique por aqui
Você não tem nenhuma condição de dirigir
Não consegue se manter de pé
Bebe, arrota e peida bem na frente da mulher"
IIIIHAAAAAAAA!!!!
Quem sabe uma hora o Tarantino não descobre os caras.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
Acqua, Frank Solari

Tem pouca música instrumental por aqui, acho que o Mateus postou um de chorinho e só.
Podia ser Uakti, Helena Meireles, o gênio albino Hermeto, Yamandu com Paulo Moura (presente do amigo Paul) ou muitos outros, o que não falta no Brasil é instrumentista bom. Já disco instrumental...pra mim que gosto de pop e canções (metal também, mas isso é outra história), um disco inteiro sem voz pode ser exaustivo.
No final fiquei entre os gaúchos contemporâneos de surf music Pata de Elefante (vou postar ainda!) e esse também gaúcho, guitarrista excelente e extremamente técnico e aparentemente egresso do metal (daqueles que o Mateus abomina), mas que, felizmente, também é compositor muito bom, arranjador competente e tem bom senso de fazer discos bem variados.
Este não é o primeiro. Tem os anteriores 'Círculo mágico' e o primeiro, também muito legais.
Foi elogiado por mestres como Bob Dylan e Stanley Jordan (que inclusive tem um trabalho com o também instrumentista Armandinho, mais um que depois aparecerá por aqui).
O disco se inicia com 'Catu', uma boa mistura de rock com maracatu, mas nem de perto próxima de uma sonoridade nordestina. Um violão agitado que conduz a música, um baixão suingado, bateria quebrada, uma música boa pra começar o dia. A guitarra só aparece depois, discreta, exceto nos solos. Também tem um solinho de baixo, do irmão Roger Solari.
A seguir, uma belíssima, 'Acqua', um clima psicodélico na intro, depois uma bateria que parece eletrônica, uma linda melodia com wah-wah, solos com poucas notas e muita expressão. Também tem o seu momento virtuose.
'Lucky girl' traz violões bonitos, um jazz/blues com participação especilíssima de Pepeu Gomes, fazendo o segundo solo, eu acho. Carlos Martal também toca guitarra, aqui da espécie 'guitarra krika', que eu não faço ideia do que seja.
'Tindum', mais uma boa mistura, aqui de funk com maracatu, mais suingue, um baixão quebrando tudo com slap, uma guitarra malandra com pouco drive. Quebradeira!
'Na pressão' é aceleradíssima, um jazz rock alucinante com o também virtuose André Gomes no baixo. Mais quebradeira.
'Estrela, estrela' diminui o ritmo e a densidade instrumental. Belo violão, sons de campo, meio chorinho, acordeom por conta do Renato Borghetti, , solinho bonito, percussão de fundo, guitarra servindo à canção. Sinta-se nos pampas gaúchos, bem acompanhado. Só falta a erva (e eu estou falando do chimarrão).
Uma versão bem fiel (conseqüentemente bonita) de 'Going to California', do Led (ou de quem eles tenham roubado a ideia), mantém a calma momentânea, bonita. Aqui Roberto Frejat faz o(s) violão(ões). O solo bacana de slide eu não sei de quem é. Mais guitarras bonitas.
Pepeu volta pra animar a festa, 'Move it up' só com guitarras e aquela bateria rock, com as convenções manjadas de música instrumental, nem por isso menos divertidas. Das mais longas do disco, com muitos solos...
'Luna' é mais uma bonita e mais tranqüila, onde os irmão tocam tudo, inclusive teclados e programações. Aquele clima Gilmour com mais balanço no drum'n'bass.
'Cálculo renal' (?) é um bom jazz fusion, com todo o pacote, bons teclados, dinâmica interessantíssima, convenções, sopros e metais, me lembrou que preciso postar também por aqui a Banda Black Rio.
'Sintonia', mais uma acelerada e fluida, com timbres bonitos e passando longe dos prováveis ídolos Satriani/Vai/Malmsteen (tá vendo, Mateus, acho até que você vai gostar desse aqui), teclados mais modernos (Michel Dorfman) solando.
Um jazz choro, 'Abertura', mostra que o disco é brasileiro, com orgulho, amor e criatividade. Também longa, mas quando falo isso é menos de 5 minutos, quase todas têm menos de 3:30, o que espanta a chatice.
Pra terminar bem, 'Bosque das águas', mais instrospectiva, aqui lembrando às vezes o melhor Jeff Beck, mas com timbres um pouco diferentes. Música pra dar uma viajada, lugares distantes, um descanso depois de toda a pauleira.
Algumas informações tirei (e alguma ideias aproveitei por aqui!) de uma resenha no whiplash.net sobre esse disco.
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Pérolas ao poucos - Zé Miguel Wisnik (2003)

“Pérolas aos poucos” rouba a gente pelo feixe de Hiss: aquele delicado sistema elétrico do coração que nosso corpo utiliza de tomada, entre outras coisas, para nos plugar às coisas bonitas da vida. A conexão aqui é pelo coração e não pelo cérebro. É amor e não razão.
“Pérolas aos poucos” entra pela tua esquina, em frases cristalinas – efeito circular que te envolve na roda. São enlaces sonoros, a voz, o piano, as rimas, as não rimas, a dor, o tempo e a cura. E tudo termina numa concha de cor escura, onde o sol se despede.
Tudo é macio, suave, música que pede calma, que te toma pela mão. A cadência das frases, as palavras cantofaladas, as vírgulas, o canto é alegre, de alma viva. Se a gente pudesse ver o som, “Pérolas aos poucos” teria os olhos brilhantes e curiosos.
É também um cd em que cabe o mundo – que se estica entre o campo e a cidade. Há a magia da escuridão em “Anoitecer”, a hora de se a ver com a verdade, que parece estar lá fora, mas não, ela está lá dentro, dentro da gente. Dessa hora tenho medo.
Adoro a “Tempo sem Tempo”! Gosto porque celebra o encontro. O verdadeiro – com todos os ingredientes. Comemora o desejo, o pedido e o risco. O risco das feridas e das despedidas. Mas ora! Só há despedidas depois dos encontros…
Arco-íris que espalha cristais sexuais! Delícia total.
“Sem Receita” – Música de amor temperável e comestível, como mesmo deve ser o melhor amor. E a lembrança é aquela hora em que a gente lambe os lábios com saudades de tudo o que rolou. Porque amor não tem receita, é inédito a cada vez!
O “Pérolas aos poucos” é todo gracioso! Com uma malandragem aqui e outra ali, o disco é cheio de pequenos prazeres escondidos no tom da voz de Zé Miguel, nas parcerias, nas percussões e nas palmas. “Presente” é aquela que só é realmente sentida depois que teus pés entram no compasso e levam teu corpo inteiro ao movimento. Gozo sem fundo.
“Perólas aos poucos” é a certeza de que no amor não há nem nunca haverá culpado. Sem palavras.
[ANDRÉA]
domingo, 2 de maio de 2010
A Letra A - Nando Reis (2003)

“Você pediu
Pra qu’eu fizesse
Um poema
Por você
Como é que eu vou saber
O que você quer me dizer?
Eu quero que você me conte”
Nando Reis. A LETRA A. Uma capa tatuada: a cor, o nome, as letras negras batidas à máquina.
E a vida deu um montão de volta e esse cd veio parar aqui na 22 Mountain Avenue, doce presente.
A letra A é um disco feito sob a minha medida: puro rock viajante, um rápido-lento delicioso, que pede o aconchego do ouvido e movimentos lentos dos ombros e da cabeça num balanço combinado e suave. A letra A captura tua atenção para as letras, para cada palavra, para poesia longa e embaraçada de prosa.
Sabe? É um disco de amor. Mais um disco de amor. É assim que o Nando parece estar confortável, e aí que é o legal! E tudo ele transforma em estória, num mini-cotidiano: o gramado, a casa, a bolsa a tiracolo, a cor do esmalte, os pés nus nas sandálias, as miçangas, os lábios e os olhos.
Nando Reis nesse disco é pontual, olha para um mundo que só os seus olhos alcançam, está à procura das coisas simples ao redor. Ele trata daquele pequeno que é grande. Grande porque está em todos nós.
“Apenas os automóveis
Sem penas se movem, inventam
Certeza é o chão de um imóvel
Prefiro as pernas que me movimentam”
[ANDRÉA]
domingo, 6 de dezembro de 2009
Sudaka - Ramiro Musotto (2003)

Ramiro Musotto : argentino com sotaque brasileiro-bahia. Um desses fantásticos músicos percussionistas que inventam sons que a princípio geram uma sensação de... qué es esto? Mas que já na segunda escutada, no entanto, o estranhamento relaxa e se transforma num... no sé lo que es, pero me encanta!
Uma música que não dá trabalho de tão boa! É uma mescla muito bem temperada de tradição com viagem eletrônica e de novo estou aqui fascinada por essas gentes que viajam pelos tempos e pelas pessoas.
“Sudaka” é um cd curto, de músicas curtas e velozes, de pouca fala. É um conjunto de sons ricos que deixa para você a responsabilidade da viagem – “Sudaka” te arranca do conforto com sua atmosfera fliperama-indígena, de alguma forma te tira da tua paz, mas deixa pra você a escolha da dança e da graça dos movimentos.
Num emaranhado de vozes, berimbau, cajas, baixo, sax e delicada programação eletrônica, Ramiro Musotto conversa com o Cinema Novo em “Antônio das Mortes”, voa até a África com "Caminho" e "Ginga". É um cd que transita o tempo todo: tá na Bahia com o Glauber Rocha, mas corre até as Índias e acrescenta algo nessa Bahia-Argentina. Tá no Ilê Aiyê de Angola com conexão direta com o Brasil. “Botellero” é a minha favorita! Voz extraída das memórias das ruas – cheia de suas palavras locais numa sequência completamente poética e musicada de uma maneira ainda sem memória, de tão moderna.
O trabalho do Ramiro nesse cd é isso: um cd cheio de pequenas-grandes conversas. Um megafone, um amplificador da cultura miúda para o mundo.
Buena onda total!
[ANDRÉA]
