
terça-feira, 7 de junho de 2011
Falange canibal, Lenine

terça-feira, 7 de julho de 2009
Na Pressão - Lenine (1999)

Lenine é um garimpeiro. Eu fico de boca aberta com a graça com que ele transita pela língua portuguesa e pinça suas palavras. Palavras que só podiam mesmo estar ali pela sua beleza, precisão, efeito, sutileza e agudeza.
E aí, depois do garimpo, Lenine põe essas palavras para dançarem, num encontro perfeito entre frases, estrofes, vozes e instrumentos. O encontro é magnético, atraindo vários dos meus sentidos, um de cada vez.
“Na Pressão” não poderia ganhar melhor nome. O embrulho anuncia a potência da bomba: na capa do encarte um carro em chamas.
A bomba visual explode estilhaçando meus ouvidos com “Jack Sou Brasileiro”. Jack tem sotaque e balanço. “Jack Sou Brasileiro” está para o Brasil assim como “Rio 40 graus” está para o Rio. Aritmética musical, sambal, cocal, funk-rockal.
Lenine aparece plastificado – só mesmo um plástico colado no corpo poderia conter tudo o que significa ser brasileiro – sua dor e sua delícia. Batida incrível. Palavras musicais.
“Na Pressão” - a barriga da grávida é de arrepiar. A pele está no limite da tensão, tornando-a lisa, de um redondo quase plano.
“Dinamite é o feijão/ Dentro do molho dela.”.
A barriga e a música estão no limite da tensão. A barriga como metáfora para a surpresa, para o inesperado. Ali dentro corre o mundo – barriga branca, mandinga negra. Lenine branco, Naná Vasconcelos negro. Dois continentes.
E se a surpresa falhar, o caldo entorna, a garrafada de serpente se transforma em saliva da besta fera, guerrilha na fronteira perseguindo a feiticeira.
“Enquanto o tempo acelera/ E pede pressa/ Eu me recuso, faço hora/ Vou na valsa/ A vida é tão rara”.
“Paciência” é exigente. É lenta e sábia. É linda e forte. Música que me deixa em carne viva.
“Meu Amanhã” é a música que eu queria para mim! Música de amor com teor e nuance. Exagero, realidade, contradição, sonho, vontade e limite.
A viagem é inevitável. Caminho sem volta. O título é inspiradissímo – Meu Amanhã lança um olhar lá na frente, desejo de ficar junto para sempre. “Ela é minha sina/ O meu cinema/ A tela da minha cena/ A cerca do meu quintal”.
O som é todo sensual, eletrônico, uma anunciação com as melhores palavras. Não dá para não tripiar! E sempre me pego dançando.
Essa música tem um detalhe muito especial: a matemática mágica - dois vira o infinito, o amor com a lente na sua abertura máxima. Viagem sideral.
“A Rede” é uma outra favorita. Adoro o barulho do gancho da rede. O que falar desse som? Que é uma coisa? Que é um delírio? E eu caio na rede e não tem quem não caia…
A foto dos músculos másculos é outra baita rede. Sensacional.
Essa música faz parte do time daquelas que é gostoso de ouvir com a cabeça feita, canais abertos – assim todos os sons serão percebidos…
“Barulho do mar/ Pipoco de onda/ Ribombo de espuma e sal”.
“Medida da Paixão” é linda mas é muito triste… Como um amor pode escapar da gente assim e a gente não perceber? “É como se a gente pressentisse/ Tudo o que o amor não disse/ Diz agora essa aflição”.
Rua da Passagem” começa completamente Pernambuco, com direito a Siba na rabeca e banda de Pífanos de Caruaru. Gosto da mistura dos sons regionais, quase rurais com o tema que de tão urbano, cheira a concreto. Texto a quarto mãos, Arnaldo Antunes e Lenine. E aqui eu não sei o que é de quem. Mistura sem fases.
Começa som Lenine, passa Pedro Luis e a Parede e termina som Arnaldo.
Maravilhosa.
“Relampiando” dorme tranquilo na foto. O acordeom de Dominguinhos dá a leveza para a canção tão crua. A poesia do Lenine tem algo de João Cabral: a beleza do áspero, a flor do cactus. Me gusta.
A que vem agora é demais… “Eu sou meu Guia”. A levada é gostosa, e a letra é de uma esperança sem igual. Tem hora que eu acho que essa música é o Lenine lembrando dele quando criança - com os olhos no dilúvio, os dedos no violão e onde o resto de estrela da noite clareia a manhã.
“Na Pressão” faz um movimento circular: abre grande, corre o mundo, fala de tudo um pouco e fecha no pequeno, na pessoa, na unidade. E é justamente na unidade que a pressão acontece.
Tiro meu chapéu.
Come together, right now
Over me.
[ANDRÉA]
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
LENINE IN CITÉ (parte I) - 2004

Gostaria muito de escrever sobre as músicas como os posts de Infernal, Condom Black, Ao Vivo em Estúdio, Por Onde Andará Stephen Fry?...., de “dentro pra fora” e não ao contrário, mas acho que não consigo! O disco começa com uma sonoridade diferente daquela que era (então) típica em Lenine, com Do It, que é calçada num poderoso riff que Lenine leva no violão e, de cara, o power trio mostra o cartão de visitas. A letra desta música é um caso à parte:
Ta cansada? Senta
Se acredita, tenta
Se tá frio esquenta
Se tá fora entra
Se pediu agüenta...
Pode, à primeira vista, ser creditada a uma discussão de casal onde ele contra-ataca as reclamações dela, mas, ao longo da música (que não tem refrão, sendo somente uma sucessão de versos do tipo destes na primeira estrofe) esta impressão transcende a queixa em direção a todos os que costumam se queixar e apenas se queixar como se estas fossem suficientes para a resolução de seus problemas, numa atitude típica da classe média. E a advertência é clara: se foi falta, apite! Lenine começa incitado.
Segue o disco com Vivo, uma balada Leniniana com uma letra lindíssima e melancólica, (se) apresentando (com)o ser humano precário, provisório, perecível... Uma suposta redenção vem no final: E apesar... o que mais vale a pena é estar vivo. Lenine volta com toda a força, inspiração, energia e transpiração em Ninguém Faz Idéia, a melhor música do disco na opinião deste que escreve. Aliás, minha música favorita de todo o repertório deste bolchevique dos trópicos.... Como Do It, esta música é parceria de Lenine com Ivan Santos, que caprichou aqui. Mais uma canção sem refrão (o que a torna menos pop e mais difícil) onde o desfile de malucos e donas de casa, putas, babalorixás, de encanados, divertidos, a vanguarda e quem fica pra trás dá um colorido especial à canção que se baseia num ritmo contagiante levado pelo trio que, aqui sim, descobre um caminho mais alternativo para o formato se afastando da melodia e harmonização típica do blues-rock. E o recado completa a descrição do “vivo” dada na canção anterior: “ninguém faz idéia de quem vem lá”. Mas esse post já se prolonga e estou apenas na terceira música, vamos em frente!
A alternância entre baladas e pegadas tem seqüência com Todos os Caminhos, que sugere deixar uma brecha para surpresas e improvisos que complementam com graça nossos projetos de vida... A primeira das releituras deste disco, nunca foi tão atual: Rosebud (ou o Verbo e a Verba), música tirada de Falange Canibal (de 2002) antecipava então o crack das bolsas de 2008:
O verbo gastou saliva de tanto falar para o nada,
a verba era fria e calada.
O verbo não soube explicar depois,
porque foi que a verba sumiu.
E o (mini-)refrão coloca precisamente: Dolores?! Dólares... Onde as interrogações e exclamações vão por minha conta e podem ser lidos perfeitamente de outras formas. O samba “Virou Areia” poderia ser apenas uma canção ecológica, mas vai além disso perguntando:
Cadê a voz que encantava a multidão?
Cadê o passado, o presente a paixão?
Cadê a muralha do imperador?
Virou...
... areia
(E curiosamente esta canção vem na seqüência de Rosebud, o que coincidentemente lembra que a verba também virou areia, e que o verbo deve ir pelo mesmo caminho). Areia que simboliza a ausência de vida e que escapa suavemente pelos dedos....
[continua no próximo post... MATEUS]
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Contato, contato (O dia em que faremos contato - Lenine - 1997)

Lenine é o nome dele, e ‘O dia em que faremos contato’ o nome do disco. Não é o primeiro, mas ‘Olho de peixe’, com Marcos Suzano (que também participa desse disco aqui comentado), é dificílimo de encontrar, pra quem ainda compra cds como eu. ‘Baque solto’ é um disco coletivo que pouquíssimo tem a ver com este aqui.
O disco começa com ruídos não musicais, um fax conectando, uns meninos (Caju e Castanha) contando sobre sua vida de artista de rua – que depois são sampleados no meio da música. De repente, por trás de um barulho sintetizado rítmico, surge a voz poderosa de Lenine, cantando e ‘rapeando’. ‘A ponte’ não podia ser melhor pra iniciar o disco, impressionante, moderna e com pressão.
Já li ele dizendo em algum lugar que se aproximou da música não pela MPB, e sim pelo rock (Led Zeppelin foi o nome que li). Talvez por isso eu goste tanto do seu trabalho. A pegada é rock, a sonoridade é caprichada, mas tem balanço, vozes agradáveis e letras belas.
Como é a pop ‘Hoje eu quero sair só’, com uma harmonia que se repete a música toda (mas não é repetitiva), um solinho de guitarra wah-wah esperto (cortesia do sempre preciso Fernando Vidal), um pandeiro meio escondido, uma guitarra eventual suingada e aquele violão excelente que marca muitas de suas músicas, além de várias vozes sobrepostas.
Depois, a minha favorita, o baião heavy ‘Candeeiro encantado’. Mesmo sem guitarras pesadas (que eu teria colocado), tem a pegada e a estrutura inspirada em blues, mas com a rítmica e letra de repente. Mistura bem timbres eletrônicos, violão legal e vozes sampleadas de ‘Deus e o Diabo na terra do sol’, de Glauber Rocha. Demais.
Liminha, mesmo sem produzir, toca baixo em quase todas as faixas. Participação especialíssima. Na faixa seguinte (‘Etnia caduca’) desenvolve uma linha muito legal.
‘Distante demais’ apresenta a face lírica, de belíssimas canções e letras lindas. Co-autoria de Dudu Falcão.
Na seqüência vem a faixa-título, com a idéia original que a paz surgiu aqui na terra, mais especificamente no morro, pois ‘vive perto do espaço sideral’. ‘Essa coisa de riso e de festa só tem aqui’. Mais uma com uma mistura de pandeiro, sons eletrônicos, um violãozaço e outros ruídos. Funciona muito bem, principalmente porque as canções são excelentes composições, que funcionariam mesmo só com voz e violão. Mas Lenine capricha no aspecto mais essencial da música, o Som.
Em ‘A balada do cachorro louco’, mais uma vez Lenine brinca com suas vozes, canta e contra-canta, dobra e se multiplica, com uma bateria reta sobre uma música tipicamente nordestina, com pifes do Carlos Malta. Mais uma que se ouve com muitos mais detalhes no fone de ouvido, que ainda vai me ensurdecer...
Segue ‘Aboio avoado’, só na voz, ‘um aboio para trazer de volta ao curral as paixões que se desgarraram’.
‘Dois olhos negros’, música sobre uma mulher, pop, redondinha, dançante e divertida, uma letra meio Carlinhos Brown, um violão tipicamente bem tocado. Essa foi até pra alguma novela. Termina com um solo curto e hendrixiano do Fernandinho Vidal.
‘O marco marciano’ destoa não pela qualidade, mas por ser totalmente acústica, com voz(es) e viola de 10 cordas. E a letra nada tem de regional, misturando ficção científica, paisagens amplas, tom épico e outras cositas más.
Vozes percussivas, uma guitarra com timbre estranhíssimo, uma bateria de fundo. Falando assim não deveria combinar. Mas depois começa a música, com aquele violão, vozes, uma baixo subterrâneo do produtor Chico Neves e vários saxofones. ‘Que baque é esse?’, ele se pergunta. Eu me pergunto também, mas que porra é uma guitarra Chelpa??
Segue um pout pourri com 4 músicas, amarradas pelo violão e pandeiro: ‘Pernambuco falando para o mundo’, ‘Voltei Recife’, ‘Frevo ciranda’, ‘Sol e chuva’ e ‘Rios pontes e overdrives’ do genial e saudoso Chico Science e Fred Zero Quatro (do mundo livre s.a.).
‘Bundalelê’ é o lado carnavalesco e carioca do disco, inclusive gravada com o bloco Suvaco de Cristo.E vamos nos despedindo com ‘Mote do navio’, com um coral de várias vozes e agradecimentos em profusão. Nem precisava, Lenine, nós é que agradecemos!