Mostrando postagens com marcador 1001Andréa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 1001Andréa. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 6 de abril de 2012

A Curva da Cintura - Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra & Toumani Diabaté (2011)


“o mundo muda você

os outros te mudam muito

você muda pra crescer

a música muda o mundo

a música ajuda a ser

bem melhor”


Kaira é o nome dessa música, mas também foi um movimento político em 1960, no Mali. Um movimento de resistência à colonização francesa. A única arma usada foi o canto das pessoas. Na época não havia carros no país, os resistentes caminhavam pelas aldeias e a cada aldeia o coro ia se tornando mais plural, maior e mais bonito.


“A Curva na Cintura” chegou em minha casa com a força musical do movimento Kaira e me colonizou completamente! De cara o cd abre com som da Kora. Um som árabe-africano, vivo, alegre, esperto, misturado a uma aura feminina. Feminina no que a Kora tem de estridente. O som da Kora é marcante, se impõe e isso para mim é uma das grandes características do “Curva na Cintura”. A mescla de Brasil-África nessa experiência é muito especial. O cd se "passa" em Mali, onde a tradição musical não é a da canção e as letras são cantadas de improviso, aparecem ao sabor da Kora. Lá a viagem está na música, no som da Kora, o que vem depois é puro improviso. O encontro Brasil-África via Arnaldo Antunes-Scandurra-Toumani deu química, justamente porque tem um encontro do som-7 séculos da Kora de Toumani com a letra-cerebral da tradição do Arnaldo. As diferentes tradições viraram seiva no cd!


“eu sigo só na minha onda

cê não vai me acompanhar

eu sigo o sol, não quero sombra

nem ninguém para me assombrar”


São vários os encontros nessa curva. Em “Cê não vai me acompanhar” a Kora é tocada pelo filho de Toumani, Sidiki, de 20 anos. Nesse som ele usa o wawa e faz da Kora um instrumento de música eletrônica. É impressionante ver a Kora se transformar na mão das diferentes gerações. O Arnaldo e o Edgar não poderiam ter feito uma letra melhor! “Cê não vai me acompanhar” tem a sede da busca, a cor da solidão e a força da falta de medo.

No mesmo tom, com o mesmo som, o trio Sidiki-Arnaldo-Edgar fazem miséria com “Cara”. Edgar Scandurra mata a pau na guitarra. O Scandurra pertence àquela tradição dos guitarristas que estão em perfeita hamonia com o seu instrumento… Discreto na sua presença, indiscreto na sua criatividade, preciso quando entra e quando sai de um som e fundamentalmente, um músico viajante. Ele tá ali, concentrado na viagem, de olhos fechados, completamente possuído.

E ainda na mesma onda com Sidiki, da Kora-Rock, a música “Senhor” que a princípio parece meio fora de lugar, forma, junto com “Cê não vai me acompanhar” e “Cara”, a voz da modernidade. Não é à toa que Arnaldo e Edgar encontram em Sidiki o melhor parceiro para essas composições. As três músicas são velozes, flertam com uma tradição atual e ocidentalizada da música. As três letras falam do incômodo e do prazer do ser humano moderno. O “Cara” é o encontro consigo próprio. Quer coisa mais moderna que se dar conta que tem alguém dentro de você? “Senhor” traz a ambuiguidade entre ser o senhor e o preço de ser o senhor.


“e tenho muito pouco tempo

e no meu tempo cabe sempre menos tempo

o tempo de um senhor é sempre muito pouco tempo

mas tenho meu tempo ocioso

para gastar do jeito que for mais gostoso

e posso ver televisão

deitado na cama , com o meu roupão

um roupão de senhor…


A “Curva na Cintura” faz caminho sinuoso, arredondado e gracioso. A cintura é o meio do caminho do corpo. Divide nossos dois hemisférios – o sul e o norte. Esse cd tem um pouco desse desenho: do lado norte temos as músicas mais velozes e cerebrais. Ao sul temos as canções que te conectam em outra vibe, uma vibração mais tranquila, de sensações e que celebra a presença do outro da tua vida. É do lado sul do cd que temos a kora tocada por Toumani… “Que me continua” e “Grão dos Chãos” são exemplos desse movimento e tudo o que eu tentar falar sobre elas será excessivo, porque estas duas músicas são a medida certa para muitas coisas.

É isso, a “Curva na Cintura” tem uma medida própria, tem o tamanho ideal de uma boca voraz que não se cansa de ansiar por mais…

[ANDRÉA]

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Bora Bora - Paralamas (1988)


Eu estava agorinha ouvindo uma palestra do marido da querida Beba, o Ricardo Piglia. Ele disse uma coisa super interessante sobre o momento da leitura e que rapidinho me instigou a escrever esse texto. O Ricardo acha que o ato de ler, a relação entre o leitor e o seu livro é algo muito íntimo.


Nunca havia passado pela minha cabeça a palavra intimidade para o ato de ler. É raro o encontro entre um ser inanimado com um ser animado gerar algo tão sublime e acho que a música quando encontra o ouvido humano gera o mesmo sentimento – a intimidade.


“Bora Bora” me traz um pouco essa sensação de intimidade. Não só pelas músicas contidas no redondo, mas pelas lembranças que carrega… De todos os Paralamas, Bora Bora é meu favorito. Adoro a capa branca e o Bora Bora colorido, ensolarado-vivo, estampado como um retalho de patchwork.


“Bora Bora” é vibrante, reggeado-rock, maré cheia de sopros, bateria vigorosa. O som transborda malícia e malícia atrai intimidade. E esse realmente é o fio do disco: em “Beco” a violência explode como se não fosse nada, em “Fingido” não sei se te amo para sempre ou pra nunca mais, em “Don’t Give Me That” e a pirada “The Can” com o jamaica Peter Metro e seu sotaque que só quem tem intimidade com o seu mundo consegue decifrar – don’t give me no coke no crack…


E o disco vai rolando e o rock vai pegando fogo. “Uns Dias”, mistura sensações, sabores, vertigens, uma onda diferente. É o ponto máximo, super acelerado, quase o êxtase. Na lindíssima “Quase Um Segundo” o disco faz uma curva, volta para dentro, vai acalmando… É simultaneamente delicada e forte. Piano com notas precisas, teus pêlos, teu gosto, teu rosto, tudo/ Que não me deixa em paz.


Intimidade?


“Bora Bora” é sonzeira. E daqueles que a gente para e pensa: peraí, isso aqui é bom demais! É ticket de viagem, entrega e transcendência. Tudo que deliciosamente a intimidade pode te oferecer…

[ANDRÉA]

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Tropicália 2 - Caetano e Gil (1993)


A Tropicália foi um movimento artístico ímpar na cultura brasileira - não só por ter expressado uma nova atitude perante à política, a moral e ao corpo, mas porque soube fazer tudo isso de um jeito diferente. Os tropicalistas inventaram uma nova estética: misturaram plástico à miçanga, guitarra ao berimbau, Coca-Cola à Brigitte Bardot. A cena musical brasileira em 1968 foi se tornando cada vez mais polivox: conversavam o velho e o novo, e o Brasil com o mundo.


Em 1993, a Tropicália completou 25 anos e os dois pop-tropicalistas Caetano e Gil comemoram fazendo o que fazem muito bem: música! Se uniram ao Liminha, tropicalista histórico da primeira hora na produção e, juntos, foram costurando um novo projeto que tinha a ver com o passado, mas que também tinha muito a ver com o que a Tropicália tinha feito de todos eles. Como se a criatura estivesse sendo engolida pela boca do criador.


O cd abre com “Haiti” – rap em baixa velocidade, violoncelo de Moreno e percussão de Ramiro Mussoto se misturam à história lado B do Haiti. E na música, estórias vão se cruzando com questões raciais que não se apagam com o tempo, a outras estórias, e a sensação que nos resta é a de que não precisamos ir até ao Caribe, que o Haiti, é aqui. O Haiti não é aqui.


“Cinema Novo” é uma obra de arte. O cinema como fonte de inspiração para a Tropicália. A tela era um lugar, onde sem dúvida, se estabelecia “outras conversas sobre os jeitos do Brasil”. E num balanço delicioso, alegre, a música vai contando a estória do impacto do cinema na música. É a pororoca entre as duas artes: “as imagens do país desse cinema entraram nas palavras das canções”. Cinema Novo, o novo Cinema Transcendental.


“Nossa Gente” e “Cada macaco no seu galho”, bahianíssimas total. É o carnaval que corre nas veias e escorre desses dois baianos. A primeira do Olodum, dona da melhor frase do ano : avisa lá que eu vou chegar mais tarde! E segunda do Riachão, com a participação do Carlinhos Brown, engrossando a presença soteropolitana no cd.


O som negro roquenrrol de Jimi Hendrix era ouvido adoidado pela trupe tropicalista no apartamento paulistano, entre móveis de acrílico coloridos, onde morou Caetano entre 1967 e 68. Influência fundamental na Tropicália, Jimmi Hendrix não poderia faltar em “Tropicália 2”. “Wait until tomorrow”: leitura suingada, abrasileirada, com a presença mais uma vez da turma de Carlinhos Brown e de Nara Gil.


“Tradição” é uma das minhas músicas favoritas do Gil. É uma música que traz coisas da Bahia, um sentimento do lugar, mesmo pra quem nunca tenha vivido lá… Traz também o desabrochar de uma personalidade. É um menino que olha para uma menina, mas acaba observando que o rapaz que estava com ela era diferente de tudo que ele tinha visto até então. Uma coisa meio rock’n’roll, com calça americana. “Tradição” conta a estória de um projeto de ser um homem diferente, que acaba sendo mais importante do que ter aquela menina. O lindo na música é o interesse e a identificação pelo diferente.


“As coisas” a lindíssima de Arnaldo Antunes, além de mais suave na voz de Gil e Caetano, ganha também uma batida mais rock com as brincadeiras de Pedro Sá na guitarra e Liminha no baixo. Gosto especialmente da inclusão da aguda “As coisas”. Essa escolha é mais uma prova da intenção polivox tropicalista.


“Baião Atemporal”, gravada em Los Angeles, é quase uma oração para Tom Zé. De Irará para o mundo.


“Tropicália 2” é uma metamorfose feita em tom de festa. É o encontro com a necessidade de Caetano Veloso em esticar a palavra e seu sentido até a explosão, com a natureza aventureira e livre de Gilberto Gil …

[ANDRÉA]

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Efêmera - Tulipa Ruiz (2010)


Voz quente e marcante, afinada e afiada, sonoridade lúdica: Tulipa Ruiz, a novidade que veio dar à praia.

Sua música traz elementos inusitados, temas cotidianos tratados de maneira diferente, arranjos improváveis. “Efêmera” está cheio de referências – umas reais e outras imaginadas por mim.

Um cd pra lá de inventivo, super gracioso, dando aquela impressão de que tá todo mundo curtindo estar lá, fazendo aquele som.


Sem dúvida o cd traz na mochila muita Tropicália, mas junto tem muito da Vangarda Paulistana também – tá no sangue, já que seu pai, Luis Chagas, foi guitarrista do Isca de Polícia…

Mas também tem psicodelia, tem a alma da Rita Lee e muito de Tulipa, que compõe quase todas as canções.


“Efêmera” abre com som rasgado e regado a sopros e delicadeza. Dicção precisa, sotaque paulistano e amigas ao redor: Tulipa Ruiz está muito bem acompanhada com as vozes de Céu e Thalma de Freitas.

“Do Amor” é sem pressa, como uma estória bem contada deve ser. E de repente uma surpresa! A música fica imensa, cheia de vida. Uma explosão. Uma tradução única do amor. E depois a música se recolhe e você volta à terra…

“Pedrinho” é safada. Começa como quem não quer nada e vira um sonzão cheio de malícia. Roquenroll com uma bateria e guitarra que me lembra muito “The Truth Is In The Dirty” de Karen Elson com Jack White.

Muito boas mesmo, as duas!


Em “A Ordem das Árvores”, Tulipa Ruiz swinguinifica Gil! Deita e rola em tudo que a Tropicália nos deixou de melhor. Descontraída, do avesso, a ordem das árvores não altera o passarinho!

Música deliciosa.

“Sushi” é linda. Músicafalada, estridente, certeira. Uma espiral de palavras e de sons que te embala numa viagem oriente.
“ Então, vem, chega mais perto

Devolve já meu coração

Que tal sair desse aperto

E decretarmos solidão a dois”


Um caso à parte – “Brocal Dourado” – psicoldelia e dancing days total. Artesanato musical. Astral e ritmo adequado para cabeças alteradas. História de amor bordado à mão e mix de sambinha, pedal valvulado.

“Da Menina” é Rita Lee nas suas viagens femininas. É toda uma estória: música-ritual que só a quase- mulher é capaz de decifar e reconhecer-se nela. Trilha sonora para as Marinas…

“Só Sei Dançar Com Você” é circular e envolvente. O som te teletransporta e te conta da parceria perfeita: a loucura conduzida suavemente e transformada num balé singular e a dois. “Só sei dançar com você, isso é o que o amor faz”. Maravilhosa, um jogo de esconde-esconde.


“Efêmera” medita sobre as palavras e permanece para sempre: Anti-Efêmera.

[ANDRÉA]

terça-feira, 17 de maio de 2011

Mallu Magalhães (2009)


Mallu Magalhães sempre me chamou atenção. Daqui de longe ouvia falar de seu nome, de toda a estória do MySpace, das suas composições, da sua adolescência que se misturava com sua habilidade em consertar seus próprios instrumentos musicais.


Ao fim tive contato com sua voz infantil, meio amanteigada – que ao invés de entrar pelos nossos ouvidos, escorrega, devagarinho. E confesso que achei o máximo!


Quando pinta um único olho de azul nos seus shows, Mallu me faz lembrar Rita Lee – garotamutantes com seus coraçõezinhos no rosto na sua fase Tropicália. Mas Mallu me lembra também Bethânia, que aos 16 anos subiu no palco do Teatro Opinião.

Essas intervenções feitas por criaturas tão jovens são de uma ternura incrível, porque o limite entre a brincadeira e a coisa séria, entre o medo e coragem, são muito tênues.


Seu disco é muito delicado, gostoso mesmo de ouvir. Muitas das músicas parecem ter sido compostas com alto teor de amor no sangue. “My home is my man” é roquenrrol retrô, forte, guitarra presente em volume alto. Tudo rapidinho e aos poucos o som vai desbotando. “Shine Yellow” é outra de que gosto muito! Meio reggae, com sopros e percussões.


Esse segundo disco parece um tanto autobiográfico e “Make it easy” deixa claro isso. A música bastante blues começa com um assovio, como um calmante para a alma na hora de enfrentar a mãe. Aqui já estamos falando da “era” Marcelo Camelo...

Essa é a minha favorita! Música de uma paz incrível e a ideia de transformar em canção essa angústia feminina na hora de encarar o tamanho do amor, é maravilhosa.

E o vocal masculino é do namorado…

Make it easy!


“Bee on the grass” me lembra um tanto o som dos Beatles, slow, cheio de sopros, vozes abafadas e borbulhentas, como se drogas psicodélicas estivessem navegando pelas superfícies líquidas dos nossos canais.

Outra muito boa, country total é “ You ain’t gonna loose me”.


O disco acaba com “O herói, o marginal”. Sua canção mais forte, linda, com um arranjo definitivo. E aí Mallu Magalhães quase deixa seu tom de menina e entra fortalecida, viajando na sua própria voz, cresce e termina. E outra vez, Tropicália!


“She was a day tripper

One way ticket, yeah

It took me so long to find out

And I find out”


[ANDRÉA]

ps: essa resenha é para um certo Eduardo, de uma certa Ruberlei. Quando ouvi esse som pela primeira vez estávamos juntos e o Eduardo ficou altamente incomodado quando descobriu que a cantora era brasileira, apesar de cantar quase todo o cd em inglês…

terça-feira, 1 de março de 2011

Veneno AntiMonotonia - Cássia Eller (1997)



"Olhar o mundo
Com a coragem do cego
Ler da tua boca as palavras
Com a atenção de um surdo
Falar com os olho e as mãos
Como fazem os mudos"
(Diário de Cazuza – 1978)


Veneno AntiMonotonia.
É claro que Cássia vestia muito bem os versos de Cazuza. Os dois tinham a mesma gana de morder a vida, a mesma intensidade. Falavam a mesma língua.

Em Veneno AntiMonotonia Cássia dá o seu tom para as músicas de Cazuza – a eleição das canções, o jeito único e explosivo de cantar deixando claro a força dele sobre ela. As releituras têm isso de fascinante, porque estamos falando de amor, de escolha e de identificação com o outro.
CÁSSIACAZUZACÁSSIA

O som do cd é cheio, encorpado, roque’enrou gritado do tipo que beira o desespero. Cássia tem isso: ela é capaz de habitar o volume dez angustiado com a mesma potência que habita tranquilamente as canções mais doces de Nando Reis.
Ela é mestra, sabe viajar no outro, incorpora a fantasia e dá uma cor própria na interpretação.

Veneno AntiMonotonia é raivoso. É que não é fácil mesmo se desvencilhar da monotonia-cola que conhecemos bastante bem. Nessa onda “Blues da Piedade”, com um dos seus versos de que mais gosto, chega dilacerando:
“Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como inseto em volta da lâmpada”

Em “Obrigado” Cássia continua envenenada com a pequenez e as dores do amor. E a música ganha ou perde velocidade, como se tivesse lendo o funcionamento do amor dentro da gente.

A opção nesse cd foi pela escuridão, pela madrugada,. É música de rua. Tudo muito à la Cazuza. Adoro a “Billy Negão” com seus sopros, meio blues, azul escuro. Estória de sangue para acabar com a monotonia.

“Todo Amor que Houver Nessa Vida” não podia faltar. É o fôlego, o encontro do náufrago com o resto de madeira em alto mar. Do mesmo jeito a charmosa “ Preciso Dizer que te Amo”, que vem se arrastando, já cansada. É o grito já sem voz.
Mas a vala tá ali com “Mal Nenhum”. Nem todo o amor é antidoto para a dor e para realidade. “Me deixem bicho acuado/ Por inimigo imaginário”…
A escolha de Cássia é por um Cazuza rasgado, nublado e nada mais natural que o cd tenha sido produzido por Wally Salomão, que como ninguém soube fazer e ver poesia a partir dos restos.
E os restos me interessam.
[ANDRÉA]

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Refazenda - Gilberto Gil (1975)


Hoje acordei com o canto de um passarinho estilhaçando meu sono! O inverno é marcante pela ausência do som da natureza. A neve cai silenciosamente – é linda, mas é silenciosa e branca. O som do passarinho inaugura algo novo: renascimento, refazenda,rouxinol.

Refazenda trilha o caminho da natureza: vasculha o nosso sertão e o nosso mar. É um conjunto musical que procura o simples, a beleza do natural, a necessidade de reconexão do corpo com algo mais, da saudade com o encontro.

O caminho musical-natural acontece amplo:
Em “Ela”: quando ela te faz um navegador, a musa única nas ilhas do amor. É aquela viagem de olhos fechados.
Em “Essa é pra Tocar no Rádio”: quando o desejo da melhor onda sonora se materializa através da música chegando como uma maré alta, invadindo os ouvidos do chofer de táxi, do querido ouvinte do interior e que finalmente chega para vencer o tédio, quando ele pintar.

O arco natural de Gil é móvel, transita entre o campo e a cidade e o Jeca Tatu se transforma em “Jeca Total”, aquele doente curado, representante da gente, defronte da televisão, assistindo Gabriela viver tantas cores dores da emancipação.
Com Gil não dá pra falar de “Refazenda” sem falar em movimento e novidade: "Re-cidade".
Faz parte do arco, os deslocamentos e as descobertas. Faz parte falar da saudade do que ficou, do que a gente já foi e do que a gente se tornou. E aí, o poeta em "Lamento Sertanejo" transforma dor em mel e traduz o intraduzível.

“Eu quase não falo
eu quase não sei de nada
sou como res desgarrada
nessa multidão boiada
caminhando a esmo"

Mas o recolhimento gera frutos, e às vezes; passarinhos! O Rouxinol com sua asa tratada começa a piar um rock diferente, dizendo que era um rock do oriente pra mim.
E voou deixando um cheiro de jasmim…
[ANDRÉA]

ps:O fio do sonho é apenas um cabelo.
Mas se ele pinta na cabeça
é bom deixá-lo crescer.
(& - Eudoro Augusto)

sábado, 9 de outubro de 2010

Lero Lero - Luísa Maita (2010)


misto de tédio e mistério

meio dia / meio termo

incerto ver nesse inverno

medo que a noite tem

que o dia acorde mais cedo

e seja eterno o amanhecer

(misto de tédio e mistério – leminski)


Luísa Maita era um mistério. Lero Lero chegou nas minhas mãos no agosto gelado de 40 anos. Misto de mistério sem tédio. Uma poesia que só fui desvendar no agosto quente da Mountain Avenue.


E o cd foi se revelando devagarinho, na paz, como toda música ouvida pela primeira vez merece ser tratada. Abrindo com a sossegada Lero Lero, com voz de algodão acompanhada de um violão de batida marcante, Luísa Maita à vontade canta as coisas invisíveis e indizíveis da amizade. Uma música cantada em códigos. Códigos do olhar, da rua, da intimidade.


E assim segue, o cd todo desliza como se estivesse numa corda bamba. Os passos são lentos, mas a leveza e a graça são essenciais na travessia. É assim que eu escuto Lero Lero – a aspereza tratada com fragilidade.


O repertório é cheio de fatos cotidianos – amor, motoboys, uma pessoa andando de bici, o mar. É a simplicidade transformada em poesia do dia-a-dia: e tem um samba ali, uma música eletrônica aqui, uma cuíca lá e uma viola do outro lado. Luísa Maita em Lero Lero coloca notas musicais na rotina de São Paulo. As cores aparecem, mesmo na aparente ausência de cor. O caos gris flutua e se transforma numa viagem.


O som parece artesanal, saído de um ateliê. Lero Lero é cheio de conversas paralelas, de velocidade, de alegria, de rastros jamaicanos. “Onde é que aquilo ia dar/ E o medo vinha devagar/ Mas o desejo de sonhar tomava conta lugar”.


Lero Lero é um pedido de água, de trégua. É a poesia extraída de uma constelação nova. Supernova.

[ANDRÉA]

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Sentinela - Milton Nascimento (1980)


"Sentinela" parece que veio ao mundo para celebrar a amizade. Sentinela, palavra feminina, é também o ato de preservar e de guardar - e tenho me dado conta cada vez mais que a música aperta o nó da amizade, preservando e guardando o vínculo aos que gosto. Uma onda amorosa que vai enlaçando suavemente um a um – sempre na melhor vibração.


Ganhei "Sentinela" ainda em vinil, quando terá sido isso? Sei lá, em 1984, 85? Já não me recordo mais... Mas me lembro de ter encontrado o LP na porta da frente da minha casa, encostadinho me esperando - e vinha com um bilhete escrito numa folha de caderno. Foi meu primeiro presente-musical vindo de um amigo.


Na época Caetano e Milton transitavam pelos meus ouvidos. Eram como duas ondas de rádios diferentes e elas conviviam muito bem dentro de mim. A música tem isso de nos transformar em mil – o tempo passa e cada vez mais novos canais vão se adicionando e se aninhando aos que já estão lá e todos se encaixam muito bem dentro da gente.


"Sentinela" é um disco que inspira sentimentos delicados. Com sua voz zen, Milton Nascimento vai virando as páginas do seu livro de estória musical e enreda a força da natureza com a força do homem, tentando entender esses dois mundos que se encontram inevitavelmente. Canta a solidão, a guerra, mas canta também o encontro, a comunhão. "Sentinela" aposta na irmandade, nos homens diários e nas suas minúsculas e imprenscidíveis lutas.


"Sentinela" zela pelo ser humano. É o otimismo sozinho na plataforma, esperando a fumaça e ouvindo o apito do trem.


"Sentinela" tem uma coisa única e por isso, especial: a cena musical leva minha imaginação para um lugar singelo, de poucas coisas, mas de muito sentir. É a magia da escassez.


Todas as músicas são como um sino de um mosteiro: te tocam fundo, duram dentro de você. E me lembro da surpresa que tive com a fala distante e inesperada de Leila Diniz dizendo:


"Brigam Espanha e Holanda

pelos direitos do mar

o mar é das gaivotas

que nele sabem voar

Brigam Espanha e Holanda

pelos direitos do mar

Brigam Espanha e Holanda

porque não sabem que o mar

é de quem o sabe amar"


Sentinela: Ah! Sol e chuva na sua estrada. Mas não importa não faz mal. Você ainda pensa e é melhor do que nada. Tudo que você consegue ser ou nada.

[ANDRÉA]

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Pérolas ao poucos - Zé Miguel Wisnik (2003)


“Pérolas aos poucos” rouba a gente pelo feixe de Hiss: aquele delicado sistema elétrico do coração que nosso corpo utiliza de tomada, entre outras coisas, para nos plugar às coisas bonitas da vida. A conexão aqui é pelo coração e não pelo cérebro. É amor e não razão.


“Pérolas aos poucos” entra pela tua esquina, em frases cristalinas – efeito circular que te envolve na roda. São enlaces sonoros, a voz, o piano, as rimas, as não rimas, a dor, o tempo e a cura. E tudo termina numa concha de cor escura, onde o sol se despede.


Tudo é macio, suave, música que pede calma, que te toma pela mão. A cadência das frases, as palavras cantofaladas, as vírgulas, o canto é alegre, de alma viva. Se a gente pudesse ver o som, “Pérolas aos poucos” teria os olhos brilhantes e curiosos.


É também um cd em que cabe o mundo – que se estica entre o campo e a cidade. Há a magia da escuridão em “Anoitecer”, a hora de se a ver com a verdade, que parece estar lá fora, mas não, ela está lá dentro, dentro da gente. Dessa hora tenho medo.


Adoro a “Tempo sem Tempo”! Gosto porque celebra o encontro. O verdadeiro – com todos os ingredientes. Comemora o desejo, o pedido e o risco. O risco das feridas e das despedidas. Mas ora! Só há despedidas depois dos encontros…

Arco-íris que espalha cristais sexuais! Delícia total.


“Sem Receita” – Música de amor temperável e comestível, como mesmo deve ser o melhor amor. E a lembrança é aquela hora em que a gente lambe os lábios com saudades de tudo o que rolou. Porque amor não tem receita, é inédito a cada vez!


O “Pérolas aos poucos” é todo gracioso! Com uma malandragem aqui e outra ali, o disco é cheio de pequenos prazeres escondidos no tom da voz de Zé Miguel, nas parcerias, nas percussões e nas palmas. “Presente” é aquela que só é realmente sentida depois que teus pés entram no compasso e levam teu corpo inteiro ao movimento. Gozo sem fundo.


“Perólas aos poucos” é a certeza de que no amor não há nem nunca haverá culpado. Sem palavras.

[ANDRÉA]

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Transfiguração - Cordel do Fogo Encantado (2006)


Transfiguração: ato ou efeito de transfigurar-se; transformação; metamorfose.

Transfiguração: mudança na maneira de proceder, de pensar, de sentir.

Transfiguração: Cordel do Fogo Encantado.


Transfiguração é um cenário musical único e exigente. A cadência da fala, a poesia, o sotaque, o timbre da voz, os instrumentos de alguma forma conspiram contra você. Seu ouvido e sua atenção se conectam fielmente ao som, que te agrada, que te perturba, mas que sobretudo, te magnetiza.

É um som-cênico. O Cordel do Fogo Encantado canta o facilmente imaginável, uma música-concreta, poesia-(en)cantada. Herança clara de um passado no palco.

Mas acho que além desse vínculo forte com o teatro, o Cordel tem também uma ligação, que é quase umbilical, com a literatura. A forma de cantar de Lirinha – palavra por palavra, como se ele estivesse sentindo o gosto das vogais, das consoantes - é mistura viva entre música e poesia, camaleônico labirinto. Na verdade é um rio: numa margem a poesia, na outra a música e no meio, no leito, corre a mistura inventiva do Cordel do Fogo Encantado. Fogo que nem água apaga.


O cd começa com o barulho de uma porta de prisão: som pesado, eco, palavras sombrias e sem fôlego. “Aqui” conversa com a literatura e com o cárcere: elementos quase irmãos de uma viagem solitária – mas a música transforma a literatura numa experiência quase corporal:


“vou riscar no meu braço

um pedaço de mar

que você me deixou

e criar outra recordação do primeiro lugar

que acordei pra te ver”


“O Sinal ficou Verde” é escandalosa. É uma invasão, uma coisa meio cangaço, uma conquista. Mas se olhar de perto, grudar teu ouvido, você vai perceber que é da melhor guerra que estão falando. É sobre o domínio do corpo amado.


E vai indo… Transfiguração canta estórias - estória de um homem que sobe numa árvore e que anda mil léguas sobre as folhas e beija sua mulher perto das nuvens…

“Preta” é uma das coisas mais cuidadosas e delicadas que eu já ouvi. A leveza da seda mesclada com o aconchego do xale e a chuva vem pequena, com o seu sonho de água, para lavar o que passou…

“Louco de Deus” . Deus como uma sensação que te faz bem – Transfiguração: mudança na maneira de proceder, de pensar, de sentir – Louco de algo que te faz bem sentir, uma coisa meio colorida, que dá barato.


“O sol rodando vermelho

O sol pregado no azul

O sol redondo no céu

O sol suspenso no ar”


Em “Trans-fi-gu-ra-ção” a gente escuta as palavras deixando os lábios do cantor. A palavra saindo ainda molhada, deixando calmamente a boca para explodir lá fora e ganhar um outro corpo. A paixão é estrada que dói. Metamorfose.

“Lamento das Águas Sagradas” trazendo a brincadeira da cabra-cega: as crianças, a percussão e as palmas. Misteriosa, confusa, linda e sedutora. A mais mangue-beat de todas!

“Morte e Vida Stanley” é um pedaço de cada um de nós: nossos recados sem voz, recôncavo do sol, garras do mundo sem guia.


Transfiguração é um universo desconhecido para mim: um mundo longe, agreste, árido, de sol cor de laranja, mas que estoura em flor e me conquista pelo seu lirismo em carne viva.

[ANDRÉA]

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Carlos, ERASMO... (1971)


Tem coisa na vida que a gente não entende, mas pelo menos a gente pode tomar como um sinal: domingo de manhã acordei com um email super legal do Baiano pra gente dividir uma resenha do Carlos, Erasmo.
Tudo isso culpa do Mateus.
Bem, o domingo passou e naquela noite eu fui ao concerto da Céu e no meio do show ela começa a cantar uma música do Tremendão - daquele jeito bonito dela de cantar. A música era linda, forte e eu não a conhecia: “É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo”.
E aí pensei: se essa música estiver no Carlos, Erasmo, tá decidido! Resenho total.
E aqui estamos, Baiano e eu nessa viagem. Porque ao ouvir Carlos, Erasmo a primeira reação é essa: que viagem! Sem dúvida ele estava embarcando total numa viagem única, experimentando aqui e ali. Um Erasmo on the road com muita química percorrendo suas veias…
Naquela época a Jovem Guarda fazia parte do passado, o que o havia relegado ao ostracismo, que veio acompanhado por um processo por porte de drogas. Mas no ano anterior “Sentado à Beira do Caminho” havia estourado na voz de seu parceiro, que estava assumindo de vez o papel de grande cantor romântico brasileiro. Por outro lado a Tropicália havia bagunçado a MPB, misturando rock com samba, hino religioso com hino de time de futebol, guitarra com bossa nova. E Erasmo, que nunca deixou de ser roqueiro, no sentido filosófico, ficou meio perdidão, ali, sem saber direito o que fazer. Tava difícil entender alguma coisa.
Mas precisava? Talvez não. Erasmo deu dois e fez um disco de alma tropicalista, onde coubesse tudo o que sentia e quisesse, sem obrigações, sem precisar assumir falsos papéis ou imagens que não eram a dele. Não queria provar nada a ninguém, apenas fazer um disco honesto, franco, despido (“Eu não nasci pra viver mentindo. Sorrir em troca e morrer fingindo”). E já começa pela capa, uma foto de chapéu, camiseta velha sem mangas, bem hippie, rompendo totalmente com o passado Jovem Guarda. A luz é avermelhada de pôr de sol escaldante, ele sério, inconformado?, preocupado?, perdido?, ou tudo isso? E o nome - Carlos, Erasmo (essa vírgula é um charme!) – daquela maneira acadêmica de citar uma obra, só reforça o lado autoral.
O disco é bem diversificado, com letras e temas incomuns. Tem um pouco de tudo: tem rock, tem soul, funk (Mundo Deserto), contestação (É Preciso dar um Jeito Meu Amigo), tema de novela (Ciça, Cecília - Tema de Cecília), Jorge Ben (Agora Ninguém Chora Mais), Caetano Veloso (De Noite na Cama), Marcos e Paulo Cesar Valle (26 Anos de Vida Normal), Taiguara (na riponga Dois Animais na Selva da Rua Suja), Roberto e Erasmo (Gente Aberta), feminismo (Não Te Quero Santa), apologia à maconha (Maria Joana) ao lado de uma religiosa e curiosamente ambas em parceria com Roberto (Sodoma e Gomorra). Parece que ele estava perdidão e jogou todas as suas contradições no disco.
Como era um momento pessoal, Erasmo se cercou de amigos, não só nas composições, que foram fundamentais pro resultado do disco. Lanny Gordin, guitarrista onipresente entre os Tropicalistas; os Mutantes Sergio Dias, Liminha e Dinho, se multiplicam nas guitarras em riffs pesados, batida pop até solos totalmente blues, da maneira mais triste que se pode ser. Nos arranjos de Rogério Duprat e Chiquinho de Moraes, dão riqueza e diversidade. E nessa onda muitas vezes a percussão fala mais alto que a guitarra e as letras falam mais alto que a música. Muito bom!
Começa com “De Noite Na Cama”, que seduz pela bagunça, pelo tom festivo e pela graça que Erasmo imprime à música – colocou berimbau, surdo, chamou a Narinha e até a Dedé! Malandraço, ele transforma a música num soul-samba-rock delicioso! Cheia de malícia, na melhor linha da pilantragem e que chega a ser mais suingada que a do próprio Simonal, o que, convenhamos, não é uma tarefa das mais fáceis. Sem falar que a letra é um baita convite…
“É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo” tem a melhor vibe Roberto-Erasmo. Um deslumbre - a música, a letra, a voz, a viagem, a amizade, e também o inconformismo, a contestação:
“Mas estou envergonhado

Com as coisas que eu vi.

Mas não vou ficar calado

No conforto acomodado,

Como tantos por ai.

Descansar não adianta.

Quando a gente se levanta,

Tanta coisa aconteceu.

É preciso dar um jeito meu amigo”.
Clama ele, convocando todo mundo. A liga rock-blues é escandalosa e me desculpe, aqui você não tem outra alternativa a não ser se tornar um escravo voluntário dessa trip.
Muito boa também é “Dois Animais na Selva da Rua” – rockão! – Tem aí uma vontade de reinventar, começar do zero, numa espécie de instinto misturado com sonho, completamente na onda on the road, hippie mesmo. E a música é gostosa , contagiante e te carrega longe…
“Eu vou fazer de você

A ponte erguida pro outro lado da vida.

Eu vou fazer de você

Clareira aberta na selva suja da rua.

Eu não nasci pra viver mentindo,

Sorrir em troca e morrer fugindo.

Por isso somos iguais,

Nós somos dois animais que se aninham, que se amigam...”
E tome mais contestação. Amigar, casar sem a benção da igreja ou autorização do Estado, pecadores ilegais. E daí?, perguntava ele, se na essência somos puro instinto.
E o disco vai rolando, e Carlos, Erasmo vai crescendo, tomando conta dos quatro cantos da casa. E agora tô na curtição do “Mundo Deserto”. Arraso gritado, visceral.
O disco tem potência, tem vigor, tem tesão.
Presente de 2010!

[Marcelo, LUIZ e Melloni, ANDRÉA]

domingo, 2 de maio de 2010

A Letra A - Nando Reis (2003)


“Você pediu

Pra qu’eu fizesse

Um poema

Por você

Como é que eu vou saber

O que você quer me dizer?

Eu quero que você me conte”


Nando Reis. A LETRA A. Uma capa tatuada: a cor, o nome, as letras negras batidas à máquina.

E a vida deu um montão de volta e esse cd veio parar aqui na 22 Mountain Avenue, doce presente.


A letra A é um disco feito sob a minha medida: puro rock viajante, um rápido-lento delicioso, que pede o aconchego do ouvido e movimentos lentos dos ombros e da cabeça num balanço combinado e suave. A letra A captura tua atenção para as letras, para cada palavra, para poesia longa e embaraçada de prosa.


Sabe? É um disco de amor. Mais um disco de amor. É assim que o Nando parece estar confortável, e aí que é o legal! E tudo ele transforma em estória, num mini-cotidiano: o gramado, a casa, a bolsa a tiracolo, a cor do esmalte, os pés nus nas sandálias, as miçangas, os lábios e os olhos.


Nando Reis nesse disco é pontual, olha para um mundo que só os seus olhos alcançam, está à procura das coisas simples ao redor. Ele trata daquele pequeno que é grande. Grande porque está em todos nós.


“Apenas os automóveis

Sem penas se movem, inventam

Certeza é o chão de um imóvel

Prefiro as pernas que me movimentam”


[ANDRÉA]

ps: para NB, mesmo desconfiando de que rock não era sua praia!

sábado, 20 de março de 2010

Ouvidos Uni-vos - Luiz Tatit (2005)


Há dias venho pensando em escrever uma resenha-homenagem-musical para o Glauco e para Ozetês. Queria que a música combinasse com o olhar do Glauco, com seu par de olhos serenos e redondos.
E hoje, ouvindo “Ouvidos Uni-vos”, o Luiz Tatit com aquele jeito dele de cantar claro, com sua poesia única, com sua voz que raspa o metálico e com seus sons delicados, me veio o Glauco.
E os fios entre o músico-poeta e o cartunista-músico se conectaram! Nas suas simplicidades, nas suas formas onde não cabem o resíduo, onde o mínimo é o máximo - o mínimo forte e indivisível.
Glauco economiza nos traços a nanquim, zanza pelos seus mil personagens e se reatualiza mantendo seu coração nos anos 60/70 e a cabeça no século XXI. Luiz Tatit zanza entre cantigas e baião e com seu sotaque paulistano, carrega tons vindos de uma escola musical mambembe, privilegiando a voz como instrumento.
“Ouvidos Uni-vos” é muito bonito! É um disco alegre, que rola numa espécie de galope. Um CD cheio de pequenas estórias: trata de coisinhas, como as asinhas de um pernilongo, trata de coisas grandiosas, como as dores da alma - dores que viajam da libido ao pomo-de-adão.
Luiz Tatit inventa um disco humano. Canta a gente de maneira espiral, com vida e morte.
E Glauco se foi nessa espiral.
[ANDRÉA]

domingo, 6 de dezembro de 2009

Sudaka - Ramiro Musotto (2003)


Ramiro Musotto : argentino com sotaque brasileiro-bahia. Um desses fantásticos músicos percussionistas que inventam sons que a princípio geram uma sensação de... qué es esto? Mas que já na segunda escutada, no entanto, o estranhamento relaxa e se transforma num... no sé lo que es, pero me encanta!


Uma música que não dá trabalho de tão boa! É uma mescla muito bem temperada de tradição com viagem eletrônica e de novo estou aqui fascinada por essas gentes que viajam pelos tempos e pelas pessoas.


“Sudaka” é um cd curto, de músicas curtas e velozes, de pouca fala. É um conjunto de sons ricos que deixa para você a responsabilidade da viagem – “Sudaka” te arranca do conforto com sua atmosfera fliperama-indígena, de alguma forma te tira da tua paz, mas deixa pra você a escolha da dança e da graça dos movimentos.


Num emaranhado de vozes, berimbau, cajas, baixo, sax e delicada programação eletrônica, Ramiro Musotto conversa com o Cinema Novo em “Antônio das Mortes”, voa até a África com "Caminho" e "Ginga". É um cd que transita o tempo todo: tá na Bahia com o Glauber Rocha, mas corre até as Índias e acrescenta algo nessa Bahia-Argentina. Tá no Ilê Aiyê de Angola com conexão direta com o Brasil. “Botellero” é a minha favorita! Voz extraída das memórias das ruas – cheia de suas palavras locais numa sequência completamente poética e musicada de uma maneira ainda sem memória, de tão moderna.


O trabalho do Ramiro nesse cd é isso: um cd cheio de pequenas-grandes conversas. Um megafone, um amplificador da cultura miúda para o mundo.


Buena onda total!

[ANDRÉA]

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Noites do Norte ao vivo - Caetano Veloso (2001)


Pára de ondular, agora, cobra coral:

a fim de que eu copie as cores com que te adornas,

a fim de que eu faça um colar para dar à minha amada,

a fim de que tua beleza

teu langor

tua elegância

reinem sobre as cobras

não corais.


Caetano Veloso é fruta que perfuma com cor absoluta.


“Noites do Norte ao vivo” é mistura do velho com o novo - faz do velho o novo e o novo ainda mais novo. E celebra algo muito especial: música é um universo aberto onde se pode mexer, mudar, pôr e tirar - absorve transformação. A música pode ser um mar antes navegado, mas em que, a cada viagem, você pode descobrir uma parada nova. Isso é de uma liberdade incrível.


Na voz de Caetano muita gente aparece em “Noites do Norte”. Todos gente de primeira: Gil, Jorge Ben, Lulu Santos, Tom Jobim, Waly Salomão, Luiz Melodia, Carlinhos Brown. Aparecem também aquelas pedras preciosas perdidas: Alain Tavares e Gilson Babilônia.


É um disco sem rumo, vai parando em vários portos, enfrenta águas mais ou menos turbulentas, mas é um disco fundamentalmente brasileiro e tropicalista. “Noites do Norte” permite misturas, permite interferências: fala da gente, das nossas heranças, do nosso jeito de amar, do nosso jeito de ser e de fazer rock e da nossa língua.


Parte da África na procura de explicação com a linda “Zumbi”, “Noites do Norte” ou a rápida “Sugar cane fields forever”. Mas na procura a nau se perde nas águas profundas do amor com a obra-prima de quase todos os tempos “Nosso estranho amor”, com a doce e deliciosa, dessas de cair de paixão, “Mimar você”, com “Dom de Iludir” funkeada – Caetano aí é perfeito na mistura de águas – com “Caminhos Cruzados” e finalmente com “Magrelinha”, que naquele amontoado de palavras, torna a poesia puro ecstasy.


Num rock profundo com muita percussão, música que eu queria pra mim, Caetano volta do fundo com “Tigresa”, maravilhosa. “Tropicália” que contém a agressividade sonora do rock surge para provar que o velho continua novo e ainda repleto de sentido. E do fundo surge também a nova “Rock’n’Raul”. Essa eu adoro e dispensa qualquer comentário.

Na marola, “Menino do Rio” chega com mais balanço, “Gatas extraordinárias” malandraça total e “Menino Deus” que fecha “Noites do Norte” já na praia, com sensação de missão cumprida.


"Você provocou

Tempestades solares no meu coração

Com as mucosas venenosas de sua alma de mulher

Você faz o que quer

Você me exasperou

Você não sabe viver onde eu sou

Então adeus

Ou seja outra:

Alguém que aguente o sol"

[ANDRÉA]

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Acabou Chorare - Novos Baianos (1972)



Início de ano, voltando da praia, a ideia é falar sobre a Música Praieira Brasileira, conforme reportagem da Trip.
E o que vem à cabeça? Bahia!!! Ah, a Bahia, com mais de 1000 km de praias...
Quando pensei neste disco, foi pela relação óbvia, porém não explícita como em Caymmi, dos Novos Baianos com a praia. Nem me toquei que eles também levavam a referência explícita à Bahia. Além do fato do disco ser referência clássica (número 1 da lista da Rolling Stone dos 100 melhores álbuns nacionais!!), mesmo isso não sendo o mais importante, a verdade é que o disco é delicioso. E não só pra ouvir na praia.
Então como já temos uma página realmente boa na Wikipedia sobre o disco, com muitos detalhes, história, ficha técnica e referências (http://pt.wikipedia.org/wiki/Acabou_Chorare), vamos às impressões emocionais e pessoais...
'Brasil pandeiro' é a única que não é de autoria do grupo, sendo uma sugestão de João Gilberto de uma música composta por Assis Valente para Carmem Miranda. Resume o som do grupo: várias vozes, violão mais bandolim, Brasil mais rock, samba mais moderno...
Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor (...)
O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada
Brasil, esquentai vosso pandeiros
Iluminai os terreiros
Que nós queremos sambar
'Preta pretinha' foi um dos maiores sucessos, extremamente simples e cativante, sempre cantada por qualquer plateia de qualquer idade. Solinho malandro de bandolim, violões bonitos, repetições vocais circulares ancestrais, a música dá impressão que nunca vai acabar.
Até que enfim chega a guitarra!!! 'Tinindo trincando' ainda não tem aquele sonzaço, mas tem muita pressão e mais ainda, dinâmica, vai-se de guitarra solando com muito drive a uma base leve que deixa a voz aparecer, o que podia se concluir que foi consequência de ser um casal, Pepeu e Baby. Tem no final um breque/break hard rock Led Zeppelin Whole lotta love!!
'Swing de Campo Grande' é bem sambão, com uma carga mística implícita, um rezador que aconselhou que, quando receberem mau-olhado, virarem 'toco e moita'.
'Acabou chorare', a faixa título é meio canção de ninar (vem de jeito de falar da Bebel Gilberto que, morando no México, misturava e criava línguas), muito influenciada pelo mestre e padrinho, quase bossa nova, mas sem ser. Representa também uma virada pra um som mais alto astral, em oposição ao excesso de lamento e tristeza da MPB da época.
'Mistério do planeta' é a minha preferida, sinuosa e perfeita, violão e letra casadinhos, dinâmica despertando atenção, começa voz e violão, depois entra banda cheia de elementos sonoros culminando com um solaço de guitarra, levada bonita que te leva junto.
Vou mostrando como sou
e vou sendo como posso
Jogando meu corpo no mundo
andando por todos os cantos
e pela lei natural dos encontros
eu deixo e recebo um tanto
e passo aos olhos nus
Vou vestido de luneta
Passado, presente
Participo sendo o mistério do planeta”
'A menina dança' foi regravada pela Marisa Monte numa versão quase tão boa, tem um vídeo dela até cantando junto com a Baby e quebrando tudo! Mais uma que começa pequena e cresce em riqueza musical... Sabiam tudo os hippies que passavam por terroristas...
“Besta é tu' vem de um exercício musical para iniciantes, mas também é uma representação do tal desbunde da época, e o pandeirinho cantando alto!
“Por que não viver nesse mundo se não há outro mundo?”
'Um bilhete para Didi' é uma instrumental empolgante, o tema passa do cavaquinho pra guitarra!! Ficou mais conhecida quando a incluíram na trilha do 'Surf adventures'... Tudo a ver com praia, como queríamos demonstrar.
Termina com uma reprise editada e menor de 'Preta pretinha' que a gravadora fez para as rádios, sendo que a versão maior é que foi mais tocada... Desde 1972 a indústria já demonstrava sua assustadora 'sabedoria'.
(Dão)


Desde que os 40 anos de Woodstock começaram a fazer sentido para mim, quase que instantaneamente “Acabou Chorare” ocupou minha imaginação como a versão brasileira para essa onda hippie de liberdade e de vivenciar as idéias que Woodstock haviam imprimido nas pessoas. Essa idéia de que eram frutos da mesma árvore, aos poucos foi crescendo e se espichando dentro de mim e aí advinha né? Os Novos Baianos se tornaram presença quase que diária em casa…

O grupo foi a tradução tropical do movimento hippie, da música e porque não do jeito de se relacionar com o outro?
“Acabou Chorare” nasceu junto com/e entre crianças numa experiência única e ao mesmo tempo comunitária em Jacarepaguá. No mesmo espaço onde se criavam os filhos, as músicas também eram criadas e imagino que nesse terreno fértil, muitos bons sentimentos, dúvidas e diferenças pintaram; e não consigo deixar de admirar profundamente a coragem e a disponibilidade interna de Paulinho Boca de Cantor, Pepeu Gomes, Moraes Moreira, Dadi, Galvão, Jorginho, Baixinho, Bolacha e Baby nessa viagem tão singular.
“Acabou Chorare” é música para a vida e para o corpo todo. Ali não faltou delicadeza, ingenuidade, criatividade, talento e muita diversão. Foram únicos porque foram muitos, conectados pelo fio do mesmo sonho.
Tintas fortes de rock’n’roll, samba e percussão, letras peace & love, astral incrivelmente lúdico – a sensação é a de abrir uma janela que engole a tarde com um abraço e de presente, chega a lua na tua mão.
[ANDRÉA]
PS: Para o PQ

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O Grande Circo Místico - Chico Buarque e Edu Lobo (1993)


Todo mundo cresceu sob um som. Inevitável experiência familiar… Eu cresci ouvindo Chico Buarque. Aliás, continuo sob alguns signos dos Buarques, quando ao invés do som do Chico, às vezes vem a voz do velho Sérgio... Durante anos Chico Buarque foi a trilha sonora da família e eu gostava muito de tudo isso. Era o mundo que eu tinha.


“O Grande Circo Místico” pintou em casa e eu já estava nos meus 12 para13 anos. De cara achei um disco diferente… Aquela capa azul celeste com aquele cavalo de visual mambembe com pernas humanas carregando um circo era demais! E rapidinho já queria ser a bailarina da música! E sempre quando penso num cd do Chico penso nesse. Adoro a idéia de poder existir um circo que é místico! Adoro e acho tão singular a estória desse cd: ele foi todo inspirado num poema de Jorge de Lima e criado para o Ballet do Teatro Guaíra... É o único cd ilustrado que eu conheço: são músicas que podem ser transformadas numa estória em quadrinhos! É um cd repleto de personagens. Um obra de arte de Chico e Edu Lobo.


As vozes da introdução nos transportam para um templo, o som funciona como ópio – preparando o corpo, dando condições para a mente receber todo o mistério e alegria que um circo místico pode oferecer. E o som explode numa banda, com um bumbo e um prato estridente marcando fielmente cada vígula, com os metais graciosos, com um xilofone esperto e rápido. E o show não para!


A estória começa na voz pacífica de Milton, que lindamente canta Beatriz. Essa música é um formigueiro de emoções. O único companheiro para a voz de Milton é um piano. Não podia ter um companheiro melhor. Beatriz é a atriz. Beatriz atriz. “Sim, me leva para sempre, Beatriz/ Me ensina a não andar com os pés no chão/Para sempre é sempre por um triz/ Ai, diz quantos desastres tem na minha mão/Diz se é perigoso a gente ser feliz”. Essa música é a gente querendo descobrir quem está escondido atrás da maquiagem, o que há atrás da atriz. O que mora atrás do faz-de-conta nos incomoda... É assombrosa de tão linda.


O palhaço chega com voz feminina! Magnifíco! Jane Duboc é dona da “Valsa do Clowns”, na comédia mais triste do circo. Nem no Circo Místico o palhaço consegue esconder o farrapo humano que dança nas cores e no nariz vermelho de sua fantasia. “A nova atração/ Tem um jovem coração/ Que apertado por estreito laço/ Amanhece partido/ Dentro dele sai mais um palhaço/ Que é um palhaço com o olhar caído”.


A vida fora lona é contada em coro em “Ópera do Casamento”. As rimas são as melhores, os metais os mais sintonizados e para um ouvinte desapercebido, a estória dura passa batido. Essa música mostra o lado conservador da vida “on the road”. As manchas no lençol, o guri que nasce apressado… Espaço para o imprevisto na vida circense parece que é só em cena…


E agora chegou a minha predileta! Num jazz que ganha um assanhamento perfeito na voz de Gal… Essa música me desmonta com sua malícia, com seu gozo…“Ele me comia/ Com aqueles olhos/ De comer fotografia/ E eu disse cheese/ E de close em close/ Fui perdendo a pose/ E até sorri, feliz”. Se estivesse no circo, essa seria minha música! Queria ser essa personagem… Que massa: ao 13 queria ser a bailarina, hoje, na boca dos 40 quero ser a estória de Lily Braun, a grande deslocadora que tinha no ventre um santo tatuado. Demais! Som delicioso. Nunca mais drink no dancing…


E após um canto gregoriano, “Meu Namorado” surge em meio de uma nuvem de incenso, como num presságio. É assim que funcionam os namorados… As palavras são cantadas uma a uma delicadamente, como devem ser os namorados. A melodia é tranquila, tudo sem pressa, com precisão e langor. Ah! Como são bons os namorados! “Vejo meu bem com seus olhos/ E é com os meus olhos que o meu bem me vê”. Entrosamento total. Astral.


É porque sempre é a perfeita do circo. Lembro que foi essa explicação que obtive do meu pai ao ficar encasquetada com a canção. Perfeição quase plástica, movimentos certeiros e gestos inequívocos que fazem riscos imaginários no ar. Acho um abuso ser bailarina! Um abuso de lindeza e ousadia. “Ciranda da Bailarina” mexe mesmo com o imaginário infantil feminino – música interpretada por crianças – sacada incrível. Ou será vice-versa?!


"I really want to see you/ I really want to be with you/ I really want to see you..." Estamos no Circo Místico e “Sobre Todas as Coisas” é o mantra. Mantra entoado por Gil, o mais cândido de todos. É o encontro da luz com a sombra: misto de religião com misticismo, do macho com a fêmea, do leite com o mel. Sobre essa música eu não quero falar. Te convido a ouví-la… E vá livre - sobre todas as coisas.


“Tatuador” vem para apaziguar ainda mais a nossa alma depois do mantra. Vem leve, com cores suaves e picadas encantadas. Num grande alívio de formas belas e sons calmantes.


Pé ante pé, sorrateira, “A Bela e a Fera” rasga o picadeiro com o nosso querido poeta-soul Tim Maia. Sua voz ardente crava entre sopros e poesias. “Tórax de Superman/ Tórax de Superman/ Coração de Poeta”. “A Bela e a Fera” é uma música de amor crua, feita com palavras triviais. Música onde letras de macarrão fazem poemas concretos e onde os canaviais esperam docemente pelo encontro dos corpos. Ah! O que falar disso tudo? “Abre teu coração/ Ou eu arrombo a janela”.


“Negro refletor/ Flores de organdi/ E o grito do homem voador/ Ao cair em si”. Uma voz melancólica e distante canta o “Circo Místico”. E a voz segue tranquila, descrevendo a magia desse planeta onde chove flor. "Duas meninas num imenso dragão". Pura fantasia. Misteriosa música de ninar.

Rapidinho e super alegre é o jeito que Chico Buarque e Edu Lobo juntam a lona e apagam as luzes do circo. “Mais um dia/ Mais uma cidade para se apaixonar”. Deixar a cidade escondido, como um amante, antes do dia clarear. E é esse o espírito de “O Grande Circo Místico”, que num rompante de felicidade vai arrancando sorrisos e deixando o bem querer.

E o que é um circo senão um sopro de surpresa em tempos de delicadeza?

[ANDRÉA]

terça-feira, 7 de julho de 2009

Na Pressão - Lenine (1999)


Lenine é um garimpeiro. Eu fico de boca aberta com a graça com que ele transita pela língua portuguesa e pinça suas palavras. Palavras que só podiam mesmo estar ali pela sua beleza, precisão, efeito, sutileza e agudeza.

E aí, depois do garimpo, Lenine põe essas palavras para dançarem, num encontro perfeito entre frases, estrofes, vozes e instrumentos. O encontro é magnético, atraindo vários dos meus sentidos, um de cada vez.


“Na Pressão” não poderia ganhar melhor nome. O embrulho anuncia a potência da bomba: na capa do encarte um carro em chamas.


A bomba visual explode estilhaçando meus ouvidos com “Jack Sou Brasileiro”. Jack tem sotaque e balanço. “Jack Sou Brasileiro” está para o Brasil assim como “Rio 40 graus” está para o Rio. Aritmética musical, sambal, cocal, funk-rockal.

Lenine aparece plastificado – só mesmo um plástico colado no corpo poderia conter tudo o que significa ser brasileiro – sua dor e sua delícia. Batida incrível. Palavras musicais.


“Na Pressão” - a barriga da grávida é de arrepiar. A pele está no limite da tensão, tornando-a lisa, de um redondo quase plano.

“Dinamite é o feijão/ Dentro do molho dela.”.

A barriga e a música estão no limite da tensão. A barriga como metáfora para a surpresa, para o inesperado. Ali dentro corre o mundo – barriga branca, mandinga negra. Lenine branco, Naná Vasconcelos negro. Dois continentes.

E se a surpresa falhar, o caldo entorna, a garrafada de serpente se transforma em saliva da besta fera, guerrilha na fronteira perseguindo a feiticeira.


“Enquanto o tempo acelera/ E pede pressa/ Eu me recuso, faço hora/ Vou na valsa/ A vida é tão rara”.

“Paciência” é exigente. É lenta e sábia. É linda e forte. Música que me deixa em carne viva.


“Meu Amanhã” é a música que eu queria para mim! Música de amor com teor e nuance. Exagero, realidade, contradição, sonho, vontade e limite.

A viagem é inevitável. Caminho sem volta. O título é inspiradissímo – Meu Amanhã lança um olhar lá na frente, desejo de ficar junto para sempre. “Ela é minha sina/ O meu cinema/ A tela da minha cena/ A cerca do meu quintal”.

O som é todo sensual, eletrônico, uma anunciação com as melhores palavras. Não dá para não tripiar! E sempre me pego dançando.

Essa música tem um detalhe muito especial: a matemática mágica - dois vira o infinito, o amor com a lente na sua abertura máxima. Viagem sideral.


“A Rede” é uma outra favorita. Adoro o barulho do gancho da rede. O que falar desse som? Que é uma coisa? Que é um delírio? E eu caio na rede e não tem quem não caia…

A foto dos músculos másculos é outra baita rede. Sensacional.

Essa música faz parte do time daquelas que é gostoso de ouvir com a cabeça feita, canais abertos – assim todos os sons serão percebidos…
“Barulho do mar/ Pipoco de onda/ Ribombo de espuma e sal”.


“Medida da Paixão” é linda mas é muito triste… Como um amor pode escapar da gente assim e a gente não perceber? “É como se a gente pressentisse/ Tudo o que o amor não disse/ Diz agora essa aflição”.


Rua da Passagem” começa completamente Pernambuco, com direito a Siba na rabeca e banda de Pífanos de Caruaru. Gosto da mistura dos sons regionais, quase rurais com o tema que de tão urbano, cheira a concreto. Texto a quarto mãos, Arnaldo Antunes e Lenine. E aqui eu não sei o que é de quem. Mistura sem fases.

Começa som Lenine, passa Pedro Luis e a Parede e termina som Arnaldo.

Maravilhosa.


“Relampiando” dorme tranquilo na foto. O acordeom de Dominguinhos dá a leveza para a canção tão crua. A poesia do Lenine tem algo de João Cabral: a beleza do áspero, a flor do cactus. Me gusta.


A que vem agora é demais… “Eu sou meu Guia”. A levada é gostosa, e a letra é de uma esperança sem igual. Tem hora que eu acho que essa música é o Lenine lembrando dele quando criança - com os olhos no dilúvio, os dedos no violão e onde o resto de estrela da noite clareia a manhã.


“Na Pressão” faz um movimento circular: abre grande, corre o mundo, fala de tudo um pouco e fecha no pequeno, na pessoa, na unidade. E é justamente na unidade que a pressão acontece.

Tiro meu chapéu.

Come together, right now

Over me.

[ANDRÉA]