quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O Homem Bruxa, André Abujamra




Difícil para mim falar de qualquer disco do André Abujamra sem lembrar de shows memoráveis de Os Mulheres Negras na época Unicamp no final dos anos 80. Aquela dupla, auto intitulada a terceira menor big band do mundo, era o que tinha de mais representativo de uma música verdadeiramente inovadora, que estava ali para quebrar paradigmas e ressignificar o que se entendia por música nacional. Tão boa aquela fase que um dos discos deles já foi resenhado aqui anteriormente.


Mas André Abujamra não ficou só naquilo. Longe disso. Desde então desenvolveu uma série de trabalhos, incluindo teatro, gravações com a banda Karnak (que também tem excelentes discos), Fatmarley (dj maluco que ele não falava que era ele) e dezenas de trilhas sonoras (dezenas mesmo). Como eu sei disso? Ouvindo uma das criativas músicas dele chamada “Curriculum”, que integra outro disco solo, O Infinito de Pé, de 2004.


Tudo isso até chegar ao atual e excelente “O Homem Bruxa”, disco que foi feito para homenagear seu pai ainda em vida (veio a falecer assim que acabou de gravar). 


Yo soy el hombre bruja

Yo soy um transformador (...)

Que tristeza e que coisa mais linda

Um amor de sarjeta

É o Sebastião amando a Florinda


O disco abre com a canção que batizou esse trabalho: “O Homem Bruxa”. Crítico, sem perder a veia humorística e transformando coisas feias em coisas lindas de valor, o homem bruxa serve como um fio condutor de todo o disco. Fazendo referências à magia, o clipe remete ao bom e velho cinema mudo com cenas da lâmpada mágica do Aladim: https://youtu.be/SyjooHpoMlA
 
Em “Mendigo” ele dá voz ao Sebastião, citado na música anterior, para falar sobre a invisibilidade de moradores de rua, fugindo dos discursos mais fáceis, sem deixar a ironia de lado (https://youtu.be/YjT_s-JF3zE). 

Na terceira música, “Espelho do Tempo”, sobressai a influência mais oriental (eu, na minha ignorância, diria indiana). O destaque fica por conta da narração inconfundível do seu pai, Antonio Abujamra, retratado como mestre dos bruxos: o seu tataraneto terá o brilho do seu olhar.

Um homem sobe na montanha azul

E lá em cima vê a lua cheia

Quase que dá pra pegar

Mas não dá


“50”, cujo título remete à sua idade e, talvez, às razões desse ser seu trabalho mais reflexivo, inicia-se como se fosse mais uma bela trilha sonora de um filme ao som de um piano que nos convida a sonhar. Ao longo da canção, o ritmo vai crescendo com a entrada da bateria até atingir o ápice com sua guitarra distorcida. Exceção dos instrumentos de corda (violino, viola, cello, etc), Abujamra assume todos os demais não só nessa canção, como nas demais. No espetáculo que leva o nome do disco (e que tive a grata oportunidade de assistir em Curitiba no último domingo 30/10/16), ele aproveita do fato de ser um trabalho realmente solo e literalmente dialoga com seus instrumentos (ideia do seu filho caçula Pedro). 


Na canção seguinte (Mãe Cazu) sobressai os instrumentos de cordas (esses sim, tocados por músicos convidados) com um ritmo bem suave. A animação retorna em “Ovô”, que conta com uma flauta chinesa e som de balalaica entre outros instrumentos. O estilo dessa divertida música bilíngue remete, para meus ouvidos, àquele adotado no início de sua carreira com os Mulheres Negras. No youtube tem um clipe idealizado, dirigido e editado pelo próprio Abujamra, filmado em um simples Iphone, que tem como protagonistas, entre outros, o filho Pedro e seus avôs (imagino): https://www.youtube.com/watch?v=YDv1gsfID8M
 

Bom demais viver

Mesmo que a vida dê rasteiras

O ritmo volta a ser suave em “Rio Quente”, música com um levada que me lembra aquelas boas canções de ninar. Quando eu tiver filhos, colocarei essa música no berço para que os ouvidos já se acostumem com bons sons desde bebê. 


O bom e velho som de sintetizador que marcou bastante trabalhos anteriores, reaparece na criativa “3 Homens, 3 Celulares”, de autoria do velho parceiro Maurício Pereira. Trata-se da única canção que não é de autoria própria em “O Homem Bruxa


Retomando com força o tema desse trabalho, “O Segredo da Levitação” tem um tom grandioso para inserir com ironia a atual era da informação. Tendo Abujamra tocando todos os instrumentos, o destaque fica por conta da narração de Edinho Moreno, locução bastante familiar por diversas publicidades que acostumamos a ouvir diariamente. Essa canção serve para encerrar o show de mesmo nome, com uma performática levitação do próprio Abujamra. Para quem duvidar, recomendo assistir. 


O olhar do olho de quem vê a vida vindo vendo o vento

Minha cabeça também venta e eu vivo de inventar

Venta forte balança tudo e começo a ver a ventania

Depois de flutuar por diversos estilos e influências, o disco encerra brilhantemente com aquela que, na minha opinião, é a melhor: “Magia do Vento”. Para mim, parece com uma receita de quem, como ele, vive de inventar, colocando tudo que se pode imaginar. O disco não poderia se encerrar de melhor forma. O clipe vale a pena ser conferido justamente pela sua simplicidade que lembra aqueles vídeos amadores: https://www.youtube.com/watch?v=awWCypqiP08 . Eu achei muito bom justamente por isso.


Enfim, filho de uma das maiores lendas do teatro nacional, André não poderia ter crescido em ambiente mais propício para desenvolver todo o seu potencial criativo e nos presentear com uma riquíssima e, antes de tudo, ímpar carreira musical. Que continue assim por mais 50.

Paul
PS. aproveito para deixar a dica: quem puder, assista ao espetáculo O Homem Bruxa. Simplesmente sensacional.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

"Nave Manha", Trupe Chá de Boldo


Foi escutando música no Spotify que descobri essa trupe. Acho que foi quando escutava Bárbara Eugênia ou algum músico contemporâneo que reparei com certa curiosidade, entre os artistas relacionados, um nome no mínimo curioso: "Trupe Chá de Boldo”. Resolvi matar minha curiosidade e me surpreendi com um som bem original, animado,  com letras criativas e um gingado gostoso de ouvir, tudo isso com sob influência da boa e velha vanguarda paulistana, mas com uma roupagem mais atual.
Passei a escutar com frequência cada vez maior até que tive a oportunidade de vê-los ao vivo há pouco tempo no aconchegante Teatro Paiol de Curitiba (uma espécie de La Bombonera local, como eles mesmos citaram). Foi um show memorável de uma trupe de 11 músicos (no disco em questão são 12). Poderia ser um time de futebol, mas é uma banda! E que banda!

No final do show, pude conhecer rapidamente alguns de seus integrantes e comprar seus dois CDs (devidamente autografados por um deles): o mais recente (Presente) e o primeiro (Nave Manha), de 2012, selecionado para ingressar o rol dos 1001 discos brasileiros para escutar antes de morrer.
Encarte do CD, com ilustração de Laura Teixeira
Produzido por Gustavo Ruiz (irmão da Tulipa Ruiz) e contando com uma bela ilustração de Laura Teixeira, Nave Manha inicia “No Escuro”, música de autoria de Gustavo Galo (responsável pela voz dessa música). Trata-se de uma espécie de bossa com som que remete a Tom Zé, tendo a cidade de São Paulo como cenário. Começou muito bem!
Saindo da Estação da Luz (citada em “No Escuro”) para o rush no Minhocão, a segunda é outra preciosidade bem-humorada e repleta de duplo sentido: “A Rolinha e o Minhocão”. A música começa com uma linha de baixo interessante. No YouTube, tem um clipe dessa música muito original, gravado dentro do carro percorrendo as ruas de Sampa (chegando até o Minhocão, obviamente). Vale a pena checar: https://www.youtube.com/watch?v=k8ClQ9LOP1I

Depois de “Se For Parar” (com a participação, entre outras, de Alzira E), vem “Apesar”, uma baladinha gostosa de ouvir que termina com “então me leve para longe daqui”. No caso do disco, para “Belém Berlin”, a canção seguinte que conta com a participação de André Abujamra e Gustavo Ruiz: me leve meu bem pra Belém pra Berlin. 

A seguir vem a agradável “Box 11”, outra repleta de referências paulistanas que, segundo informações do encarte, aborda  um homem solitário que se depara um outro apaixonado fazendo uma serenata para recuperar o seu amor. Após essa, o disco atinge o clímax:

Não quero gota
Não quero gota
Quero você gostoso todo
Na garrafa
Não quero gota
Eu quero o gosto
De te tomar inteiro
Pra ver se chapa

“Na Garrafa”, é a melhor do disco e apresenta todas as características de um ótimo hit: letra sensacional, batida animada, vocais entusiasmados. Um clássico. A versão que tem no disco já é excelente e dá vontade de sair dançando, mas ao vivo consegue melhorar ainda mais, com uma performance empolgante, principalmente com a vocalista Julia Valiengo e do Cabelo na guitarra. Auge do disco e do show. Vale a pena ver também o clipe muito bem produzido dessa música: https://www.youtube.com/watch?v=sBG0k8k7hLUAlém disso, essa canção fez parte do disco “Rolê, News Sounds of Brazil”, lançado em 2014.

As duas seguintes parecem estarem propositalmente nessa ordem: primeiro “Mar Morro”, (outra das minhas preferidas) que relata a descida para o litoral para, em seguida, com uma levada caribenha, vem a canção “Verão”.

“Splix”, a próxima, é uma composição conjunta do Galo com a Ciça (outra vocalista) e Peri Pane, que juntamente com Tatá Aeroplano, participam da sua gravação. Novamente diversão garantida!

(...) Pra você que transforma
Rímel em rima
Fuga em fogo
Pra você que transforma
Linha em lenha
Careta em carinho (...)


Para fechar o disco em alto estilo, “Até Chegar no Mar”. Música mais suave com uma letra lindíssima.

Com disco bem produzido, esse time demonstra que é uma verdadeira seleção, com som equilibrado desde as linhas de baixo do Felipe Botelho bem articuladas com a bateria e a percussão de Gongom e Rafinha, acompanhado de bons metais de Mumu e Remi, guitarras afinadas de Bastos e Cabelo, tendo como a cereja do bolo os vocais do Galo, Ciça, Julia e Leila, além de músicos como Rayraí e outros convidados. Talvez eu tenha até errado a referência a algum deles, mas a intenção era citar todos.
O show que tive a oportunidade de presenciar foi espetacular. Espero que não demorem mais 10 anos para retornar (foi o primeiro deles aqui). Além do ótimo som, destaca-se ainda a postura politizada e bem esclarecida, algo fundamental nesse momento em que a democracia tem sido violentada nesse país. Vida longa para essa trupe!

 Paul

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Beth Carvalho, Nos Botequins da Vida



Ontem, 17 de abril de 2016, foi um dia triste na história do Brasil e da sua frágil democracia. Como se não bastasse o golpe impulsionado por figuras mais deploráveis da política nacional, a votação transmitida ao vivo escancarou o estarrecedor nível dos deputados federais. Foi um espetáculo dantesco.
E nessas horas, tentando me apegar a algo que possa dar algum significado ou esperança, lembrei de tantos artistas que se mobilizaram nos últimos dias em prol da democracia. Gente do nível de um Chico Buarque, Chico César e Beth Carvalho, que chegou a lançar um samba contra o golpe.

Ao ouvir o samba da Beth Carvalho nesse momento da história do país, minha memória afetiva me levou diretamente para 1977, ano em que, criança, morei no Rio de Janeiro e, acompanhando minha mãe em algumas festas de amigos dela, passei a conhecer a fina nata da MPB e do samba, a começar pelo disco “Nos Botequins da Vida” que, inclusive, fazia parte da discografia de casa.  

 “Meu Deus mas para que tanto dinheiro
Dinheiro só pra gastar
Que saudade tenho do tempo de outrora
Que vida que eu levo agora
Já me sinto esgotado
E cansado de penar, meu Deus
Sem haver solução
De que me serve um saco cheio de dinheiro
Pra comprar um quilo de feijão”

O disco, lançado em março de 1977, abre com um clássico “Saco de Feijão” de autoria de Francisco Santana, com uma bem-humorada crítica às dificuldades econômicas da época do regime militar (e pensar que tem gente que sente saudades...).
Em seguida, outro samba clássico na voz da Beth Carvalho: “Olho por Olho”, de Zé Maranhão e Daniel: Dente por dente, olho por olho. Se tentar me enganar, bota a barba de molho. Irônico ela celebrar que a partir de hoje os direitos são iguais justamente quando se colocam em pauta dentro do Congresso Nacional diversas pautas retrógradas, inclusive relacionadas aos direitos das mulheres.

Depois, o primeiro samba-enredo da Portela: “Dinheiro Não Há (lá vem ela chorando), de Benedito Lacerda-  Ernani Alvarenga, de 1932. Consta que no desfile oficial da Praça XI, a então "Vai Como Pode" desfilaria com um samba de Paulo. Contudo, quando o líder portelense ouviu o samba de Alvarenga, imediatamente preferiu retirar seu samba, reconhecendo a superioridade da composição do amigo. Quase na hora do desfile, Paulo, empolgado, disse: "Alvarenga, o seu samba é melhor, nós vamos com ele. Vou retirar o meu" (1). Foi o primeiro samba apresentado em desfile a fazer sucesso nas rádios.

Os clássicos seguem com “Deus não castiga ninguém” (Paulinho Soares). Seria interessante que os nobres deputados de um país laico soubessem disso, afinal a gente mesmo é quem se castiga, meu bem.

Não Quero me vingar porque...vingança é sinal de covardia..: O disco segue em ritmo de roda de samba, com “Vingança”, de Carlos Cachaça. Talvez se Cunha gostasse de samba, poderiam ter poupado o Brasil do show de horrores proporcionado por vingança.

Tempo para respirar um pouco com “As moças”, de Paulinho Soares e Paulo César Pinheiro. Nessa, a roda de samba abre espaço para uma espécie de bossa.

A roda de samba volta com “Se você me ouvisse” do Nelson Cavaquinho e “Carro de Boi”, clássico de Manacea, que conta com a participação da Velha Guarda da Portela.

Depois de “Cuidado com a minha viola”, de Gracia do Salgueiro, vem “Desengano”, de Aniceto:

Um desengano dói
A minha alma tanto sente
Uma dor pungente,
Que invadiu meu coração
Depois de ser tão benevolente
Deste-me o desprezo ao invéz de gratidão
Recompensar-te a regalia que gozaste em minha companhia
Sempre procurei te agradar porém em vão
Me abandonaste sem qualquer satisfação
Hoje vivo assim a lamentar a minha sorte
Algo que só esquecerei com a morte.

Embora a letra remeta claramente a um desengano amoroso, ouvindo-a logo após o fatídico golpe de 2016, impossível não lembrar do Temer.

O ritmo diminui um pouco nas duas últimas lindas canções, deixando um certo ar de melancolia. Primeiro com “Sempre Só” (Edmundo Souto – Joaquim Vaz de Carvalho) para depois fechar com o clássico “O Mundo é um Moinho” do Cartola. Embora haja certos rumores de que ele teria composto essa música quando a filha estava saindo de casa, não encontrei nenhuma fonte confiável a respeito disso. De qualquer forma, quando a Beth Carvalho interpreta brilhantemente “Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos... Vai reduzir as ilusões à pó”, ficamos com certa esperança de que isso seja um recado ao Cunha e seus asseclas. Pode ser que demore, mas chegará um dia que quando notarem, estarão à beira de um abismo que cavaram a seus pés. Espero que não ainda tenha algo no país para ser salvo quando conseguirmos nos livrar desses bandidos. E que a luta da Beth Carvalho não seja em vão.

Para escutar no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=j2bgQW_vFu8

Paul
Nota
(1)    Informações obtidas em 18/042016 no site: http://www.portelaweb.com.br/arquivos.php?codigo=30&cod_cat=3