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domingo, 25 de novembro de 2012

Cazuza - Burguesia, ou melhor, o último disco de nossas vidas


Se por um lado Sonífera Ilha, o primeiro disco dos Titãs, teve como mérito o fato de que sua pouca inspiração não tenha sido suficiente para que aquele ótimo grupo desistisse da carreira (como foi resenhado nesse blog), de forma invertida, algo semelhante aplica-se ao último trabalho do Cazuza: Burguesia, que se insere nessa lista não por sua excelência, mas por um contexto maior. 

Com a voz notadamente debilitada, decorrente de sua luta contra os efeitos devastadores da AIDS, Cazuza fez questão de acelerar o processo de criação, gravando em ritmo cada vez maior. Como resultado dessa pressa em produzir, o artista optou por lançar um LP duplo de inéditas (algo raro na época para músicos nacionais), que terminou por ser seu último trabalho em 1989.

Fazendo uso do formato de LP duplo, Cazuza optou por separar claramente os estilos. Enquanto no primeiro disco predomina o ritmo de rock nacional, semelhantes aos seus primeiros trabalhos ainda como Barão Vermelho, no segundo disco ele optou por um som que se aproximam mais da MPB ou da Bossa Nova.

Logicamente, no afã de produzir muito em pouco tempo e com a saúde abalada fortemente, há canções de qualidade discutível que não servem para retratar a sua carreira, como, por exemplo, o single utilizado para divulgar o disco, “Burguesia”, composta com versos pobres demais (A burguesia fede, a burguesia quer ficar rica, enquanto houver burguesia, não vai haver poesia....) para quem deixou como legado músicas tão brilhantes.

Após abrir o disco com “Burguesia”, vem “Nabucodonosor”, outra canção pouco representativa, mas que serviu para dar o tom biográfico bastante presente ao longo do disco, como em “Tudo é Amor”, canção que eu particularmente gosto mais nesse primeiro disco (Mesmo se for pra transformar...Num inferno um céu conformista...Mesmo se for pra guerrear...Escolha as armas mais bonitas).

As músicas subsequentes “Garota de Bauru”, “Eu Agradeço”, “Eu quero alguém” e “Baby Lonest” também não deixaram muitas saudades. Em “Como já dizia Djavan” recuperou sua velha parceria com Frejat em um som com a cara do Barão Vermelho: E as estrelas ainda vão nos mostrar...Que o amor não é inviável..Num mundo inacreditável...Dois homens apaixonados.

O primeiro LP finaliza com “Perto do Fogo”, um blues selecionado especialmente para fazer a ponte com o segundo LP, com todo seu inconformismo: “Quando tudo explodir... Mas não vai explodir nada...Vão ficar os homens se olhando....Dizendo: ‘O momento está chegando’...2000, é ano 2000...E não vai mudar nada”.

No segundo LP, as angústias vividas por Cazuza ficam mais evidentes, inclusive nas canções que não são de sua autoria, mas que parecem que foram feitas especialmente para esse último trabalho dele, como a ótima versão de “Quase um Segundo” (de Hebert Vianna), “Esse Cara” (Caetano Velloso), “Cartão Postal” (Rita Lee e Paulo Coelho) e “Preconceito” (Antonio Maria e Fernando Lobo), uma espécie de tango que valoriza o lado intérprete do Cazuza: “Se as nossas vidas juntas vão ter sempre um triste fim... Se existe um preconceito muito forte separando você de mim”.

O tom biográfico que já se fez presente no primeiro LP fica mais enfático nesse segundo LP, principalmente em canções como as belas “Cobaias de Deus” (Se você quer saber como eu me sinto...Vá a um laboratório ou um labirinto...Seja atropelado por esse trem da morte...), “Filho Único” (Estou na mais completa solidão...Do ser que é amado e não ama...Me ajude a conhecer a verdade...).

A respeitar meus irmãos...E a amar quem me ama),
e Manhatã (Agora eu vivo no dentista...Como um bom capitalista...Só tenho visto de turista...Mas sou tratado como artista...E até garçon me chama de sir...Oh! Baby, baby, só vendo pra crer).


O disco ainda conta com as sensíveis “Bruma” e “Azul e Amarelo” (em co-autoria com Lobão e Cartola) para finalizar com “Quando eu estiver cantando” (Porque o meu canto redime o meu lado mau...Porque o meu canto é pra quem me ama).

Enfim, esse disco merece ser lembrado não por sua qualidade técnica ou momento de extrema inspiração, já que o resultado final, tecnicamente falando, deixou a desejar. Mas certamente pode ser um disco-símbolo da luta contra a AIDS, que teve o mérito de traduzir toda sua angústia, tristeza, inconformismo e incertezas pessoais, e que certamente compunham o cenário vigente no Brasil no final da década de 1980.

Eu mesmo confesso que me desiludi logo que comprei esse disco naquela época, mas depois de um tempo percebi que o seu valor não devia ser procurado simplesmente nas canções, mas sim sob outra ótica: um trabalho de um artista que tinha pressa para produzir, para deixar um legado maior na sua luta contra o tempo. E se errou com a canção de trabalho (Burguesia), certamente acertou com outras, como a bela interpretação de “Cartão Postal”, afinal o adeus traz a esperança escondida
Pra que sofrer com despedida?


[Paul] 

quinta-feira, 14 de abril de 2011

20 anos de rock brasil cd 3



Continuo o cd quádruplo com o número 3, que tem o subtítulo de 'Mudança de comportamento', nome também de uma música aqui presente e, se não me engano, um disco do Ira!.

O cd começa muito bem, com 'Exagerado', co-autoria de Cazuza com Ezequiel Neves e Leoni, uma música muito boa e a cara do cantor. Do primeiro disco solo de Cazuza, que ainda (ou já) trazia músicas com o sempre parceiro Frejat, uma das quais inclusive fecha o presente cd.

E volta o Lulu, com um quase ska abrasileirado e uma guitarra MUITO legal. 'Sincero' é uma das muitas pérolas do nosso maior hitmaker, e você ainda leva um solinho safado e hard com wahwah, com um saxofone querendo aparecer, do Leo Gandelman.

'Os outros' é mais uma pérola do subestimado Leoni, aqui quando ainda era do Kid Abelha, que inclusive na época ainda era K.A. e os Abóboras Selvagens. Do álbum 'Educação sentimental', já comentado por aqui. Informação nova: o release do disco era assinado por Caetano Veloso, o que confirma minha teoria: quem sempre chuta uma hora acerta no gol.

'Mudança de comportamento' é uma das duas músicas do Ira! nesse cd. Como já falei aqui, adoro o Scandurra mas a voz do Nasi não me agrada (o Zeba me achou injusto com o Nasi, mas nem é essa a questão, eu respeito seu trabalho e principalmente sua atitude, mas a verdade é que não gosto da voz). E a música nem é das melhores deles.

'Bete Balanço' é crássica, como diriam uns amigos aqui do blog. Balançada, tema de filme nacional teen soft porn, solinhos bonitos, voz carioquíssima (esses bem puxados, erres bem arrastados), guitarra pesada dialogando com a voz. Enfim, desafia o argumento do Baiano de que as bandas cariocas são 'mais fraquinhas'. De onde ele tirou isso??? Aguardo a tréplica, com exemplos.

Camisa de Vênus era chamada de banda punk na época, mas quando ouvimos 'Eu não matei Joana D'Arc' fica muito difícil entender isso. A música é muito legal e divertida, com uma bateria claramente new wave e um som rockabilly (os quais na verdade são filhotes do punk).

'Pelado', apesar de ter sido música de abertura de novela, nunca ficou chata. Deve ser porque a música é muito inteligente e de um humor sensacional, mas mesmo assim é surpreendente. E o solinho de poucas notas do Roger é genial. 'Indecente é vc ter que ficar despido de cultura' e 'Sem roupa, sem saúde, sem casa, tudo é tão imoral, a barriga pelada é que é a vergonha nacional' ainda são versos eternos.

Engenheiros da Hawaii, banda controversa, alguns adoram, muitos odeiam. Mas 'Infinita highway' é clássica, todo mundo canta ou já cantou junto, com sua letra que alterna entre o criativo e lírico e o ridículo e absurdo. Um sonzaço de baixo, claramente inspirado no ídolo Geddy Lee.

'Flores em você' é uma música atípica do Ira! e do rock brasil. Uma orquestra e um violão fazem o instrumental para a voz do Nasi. E mais uma que foi abertura de novela (por que os rocks de hoje não são mais utilizados? rock virou música de tiozinho? mas tiozinhos não vêem novela??). Diz a lenda que Liminha, produtor do segundo disco 'Vivendo e não aprendendo', em franca hostilidade com a banda durante a gravação, disse ao fim da gravação da base: 'Vcs estão vendo como é uma música afinada?'. hahahaha

Inocentes vêm dar um toque punk no cd: 'Pânico em SP', cujo EP já foi comentado por aqui. A música foi lançada 20 anos antes do fato realmente ocorrer, mas a música já era legal mesmo se fosse só ficção e não profecia.

Até aqui as bandas são conhecidas e quase todas ainda sobreviventes. As próximas duas ficaram conhecidas somente pelas músicas aqui presentes: 'Carta aos missionários' dos Uns e Outros e 'Camila, Camila' do Nenhum de Nós. As duas músicas são realmente muito interessantes e radiofônicas, pena que não conheço mais nada de nenhuma delas. O Nenhum de Nós acho que ainda sobrevive no Rio Grande do Sul com acústicos e quetais. A música deles ainda foi regavada pelo Biquini Cavadão e por um dueto entre Cazuza e Sandra de Sá (!!!).
É engraçado pra mim as duas bandas virem em seqüência. Uma vez eu estava num teatro no Rio vendo um show daqueles comemorativos de rádios, e na minha frente estava o pessoal do Casseta & Planeta, exalando maresia, ainda cult, fazendo piadas a rodo. Daqui a pouco, depois de uma dessas tocar, o Bussunda mandou 'enquanto nenhum de nós ganha porra nenhuma, uns e outros ficam ricos'...kkkkkkkkk.

Esse cd realmente é um dos melhores, não tem música ruim.

RPM foi uma banda pop de uma maneira que hoje ninguém imagina que seja possível, principalmente pelo fato que, talvez devido ao fato de vir do underground paulistano e também o sr Paulo Ricardo ter sido jornalista, a crítica era bem positiva e compreensiva com a atitude magalomaníca. Mesmo que hoje a letra e o som soem datados, 'Revoluções por minuto' é uma música pop-rock muito legal. Acho que ninguém vai postar o primeiro disco deles por aqui...mas merecia.

'Ideologia' (de Cazuza/Frejat) fecha o cd, na versão ao vivo, poderosa e raivosa, antecipando em um ano a queda do muro. Versos sensacionais.

Só falta o cd 4.

domingo, 28 de novembro de 2010

Só se for a dois



Continuando nosso tenso blog, posto hoje o segundo álbum solo do Cazuza.
Vindo de um extremamente romântico e MPB, aqui Cazuza mostra também a face romântica e lírica, mas deixa entrever uma agressividade que começava a crescer.
Assim começa o disco, com a faixa título, dedicada a vários grupos de um modo poético e contundente, alternando gritos e partes mais calmas. Tem partes lindas:
‘As possibilidades de felicidade
São egoístas, meu amor
Viver a liberdade, amar de verdade
Só se for a dois’.

Em seguida ‘Ritual’, começa só com sua voz, logo acompanhada por um violão e depois entra a banda, excelente por sinal. Essa é a primeira parceria com o antigo amigo Roberto Frejat.
‘Pra que sonhar
A vida é tão desconhecida e mágica’

‘O nosso amor a gente inventa’ é uma das clássicas do disco, faz parte de qualquer boa coletânea de boa música brasileira. Dinâmica, começa leve, ganha um corpo com uma guitarra mais drive e tem até um belo solinho (com tapping!) daqueles assobiáveis e melodiosos.
‘Culpa de estimação’ é das desconhecidas, com gaitinha. Divertida e leve, com um clarinete sinuoso. Mais uma parceria com Frejat. Boa metáfora, a namorada é a culpa...
Aí vem uma das mais belas dele, ‘Solidão que nada’, parceria com o Kid Abelha George Israel e Nilo Romero.
‘Que meu novo nome é
Um estranho que me quer
Viver é bom
Nas curvas da estrada
Solidão, que nada
Viver é bom
Partida e chegada
Solidão, que nada’
Mais uma com um belo solo, cortesia de Rogério Meanda, que também é co-autor de ‘Nosso amor...’, ‘Só se for a dois’, ‘Completamente blue’ e ‘Vai à luta’.

‘Completamente blue’ é um pop rock goxxxtoso, como diria o carioca Agenor, inclusive em sua letra ‘Sou feliz em Ipanema, Encho a cara no Leblon
Tento ver na tua cara linda
O lado bom’.

‘Vai à luta’ é alto astral, começa com uns metais bonitos. Boas frases: ‘Passa toda deslumbrada sem um tostão pra me emprestar’ e lembra um importante fato da fama ‘os fãs de hoje são os linchadores de amanhã’.

‘Quarta-feira’ é um bluesão com sax e letra viajante, psicodélica e religiosa. Estranhíssima.
‘Porque eles sabem que amar é abanar o rabo, e as mulatas sonham com sheiks alemães’...

‘Heavy love’, apesar do nome e de ser parceria com Frejat, é um funk balançado, com uma baixão slap de dar gosto. ‘Acenda as luzes todas, perca a razão’.

‘Lombo mal da Ucrânia’ é mais heavy, mais rápida, mas nada demais, tirando o nome, claro.

E pra terminar, mais um blues, dessa vez delicado, só com voz e violão. Parceria com Oswald de Andrade (?). ‘Balada do Esplanada’, que deve ser um hotal, acredito.

Algumas vezes fazem a disputa de quem seria o melhor, Cazuza ou Renato Russo. Cazuza é mais contemporâneo, mais cotidiano e local. Renato é mais lírico, artesão e universal. Mas não caia na armadilha, fique com os dois.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Exagerado!!!!

Esse post é dedicado ao Ezequiel Neves, que ‘conseguiu’ morrer no mesmo dia - 20 anos depois – do Cazuza, 7 de julho de 2010 e de 1990, respectivamente.
Ezequiel, junto com Nico Resende (também tecladista no disco), produziu esse primeiro disco solo de Cazuza, chamado de Cazuza, mas conhecido como Exagerado.
Exagerado seria um excelente nome de disco, mais ainda sendo de quem é.
A essa altura, não preciso explicar quem é, o que fez antes, de quem ele é filho etc. Aqui vamos escutar e comentar esse disco de estréia, muito muito bom.
O gosto de Caju extrapolava o blues/rock’n’roll do Barão Vermelho e, conseqüentemente, o levou à carreira solo, onde poderia flertar com a MPB, o samba, Dolores Duran, Lupicío Rodrigues, Cartola, bossa-nova etc.
Agenor de Miranda Araújo Neto lançou 5 discos em 4 anos, alguns dos quais serão resenhados aqui. Conta muito a urgência de saber-se soropositivo, numa época em que a ‘sobrevida’ era bem menor.
O disco tem uma sonoridade mais limpa, menos rock do que os do Barão, mas ainda não tão MPB quanto os posteriores.
Começa bem, ‘Exagerado’ é um clássico, parceria brilhante com Ezequiel e Leoni. Também tem um solo belíssimo, curto e expressivo, do pra mim desconhecido Rogério Meanda. Nada que o Google não resolva: atualmente é guitarrista da Blitz, parceiro de composição da minha ex-colega de Direito na UFF Vanessa Rangel. Ah, também presente no disco ‘Xuxinha e Guto contra os monstros do espaço’...
E também é co-autor da radiofônica (tocou bem, eu lembro, meninos, eu ouvi) ‘Medieval II’. Muitas guitarrinhas bonitas. ‘Será que sou medieval?/ Eu que me acho um cara tão atual/ na moda da nova idade média/ na mídia da novidade média’.
‘Cúmplice’ é a canção seguinte, pop, legal.
‘Mal nenhum’ é das melhores, parceria com Lobão. ‘Eu não posso causar mal nenhum, a não ser a mim mesmo’, o óbvio eventualmente parece genial, principalmente em certas matérias sensíveis, tendentes à histeria, como aqui no caso, As Drogas.
‘Balada de um vagabundo’, parceria de Frejat e Waly Salomão, legal também, pop também. Destaques: ‘maracujá de gaveta num prédio vazio num terreno baldio’, ‘um vício só pra mim não basta/ é uma inflação de amor incontrolável’.
Segue a belíssima e açucarada ‘Codinome Beija Flor’, parceria com Ezequiel e Reinaldo Arias. Conhecidíssima, mas ainda boa de ouvir. ‘Prendia o choro e aguava o bom do amor’.
‘Desastre mental’ tem uns timbres de guitarra mais pesados no começo, alternando com uma calma nos versos. Legal.
Seguem 3 parcerias com Frejat: ‘Boa vida’, pop nada demais; ‘Só as mães são felizes’, bluesaço censurado (‘você nunca sonhou ser currada por animais/ nem transou com cadáveres/ nem quis comer a sua mãe’) e muito legal – mesmo que eu prefira a versão do Barão; e ‘Rock da descerebração’, que também foi gravada pelo Barão num ao vivo excelente.
Viva Cazuza e Ezequiel!