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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Paulo Moura - Mistura e Manda (1984)



Naquele tempo o Léo dizia que iria comprar uma coletânea do The Who, e aí eu teria dois discos pra poder ouvir em casa (ou outro era o Dirty Work). Pudera, nesses tempos a trilha sonora da casa variava entre o jazzzzz e lançamentos recentes da MPB, “o novo do Caetano” (e este ‘aquele tempo’ era um tempo onde isso valia a pena), isqueiro ou fósforos de Djavan (coisa de acender), alguma coisa de rock nacional (Big Bang dos Paralamas tocou até furar) e este: Mistura e Manda.

Hoje o Léo tem uma menina linda e curte mesmo é um bom funk carioca, de tal forma que este post é dedicado a Helena, pra ela saber que o pai dela um dia já teve muito bom gosto.

Gosto mais do Chorinho que da Bossa-Nova e do que do Samba. Acho mais original e mais astral que um, e mais delicado e surpreendente que o outro. Ainda que neste caso, elementos típicos da gafieira comparecem em tempero preciso no disco, conferindo à definição “choro negro” seu exemplo perfeito.

Nascido no estopim da Revolução Constitucionalista em julho de 1932 no interior de SP (São José do Rio Preto), muda-se para o Rio em 1945 junto com a família de músicos.

Interrompi meus estudos na segunda série do "Ginásio Luiza de Castro", na Tijuca, para dedicar-me à música, com autorização de meus pais. Queria evitar a profissão de alfaiate que me fora imposta pelo José, meu irmão mais velho.” (http://www.paulomoura.com)

Clarinetista, saxofonista e maestro arranjador, Paulo Moura é sinônimo de música brasileira. Neste disco, lançado pela KUARUP (Produção Executiva e Direção Geral de Mario de Aratanha) o próprio artista assume a direção artística e a responsabilidade sobre os arranjos, tornando-o muito pessoal. O repertório é de muito bom gosto e inclui sete músicas, entre (não tão) clássicos e composições próprias:

Chorinho pra Você (Severino Araújo) / Chorinho pra Ele (Hermeto Pascoal) / Mistura e Manda (Nelson Alves) / Nunca (Lupicinio Rodrigues) / Tempos Felizes (Paulo Moura) / Caminhando (Nelson Cavaquinho e Nourival Bahia) / Ternurinha (K-Ximbinho)

Os músicos que tocaram no disco mostram um time seletíssimo (Rafael Rabello era então um menino de 22 anos...) e extremamente afinado com o projeto. Reparem que a presença de Zé da Velha no trombone e uma percussão “heavy metal” dão ar de gafieira em muitas das faixas:

Paulo Moura (clarineta); Zé da Velha (trombone); Rafael Rabello (violão de 7); Joel Nascimento (bandolim); Maurício Carrilho, César Faria e João Pedro Borges (violão); Jonas Pereira, Carlinhos do Cavaco, Mané do Cavaco (cavaquinhos); Jorginho (pandeiro); Neoci de Bonsucesso (tamtam); Joviniano (repique de mão e ganzá) e Gargalhada (caixa de fósforos).

Paulo Moura nos deixou recentemente em 2010, mas este disco acaba-lhe conferindo eternidade, graças a deus.

Que o maestro descanse em merecida paz, enquanto o redondinho vai girando incansável...

[M]

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Celso Blues Boy - Som na guitarra


Essa semana vou postar alguns artistas que me deixam até culpado de não estarem por aqui, começando pelo saudoso e recentemente falecido Celsuba!
Por coincidência acabei de ler o post duplo sobre o 'Abre-te Sésamo' do Raul, onde o Mateus cita o Celso, que começou tocando com o Raulzito ('Liberdade' é co-autoria do Celso com Raul!) e Sá & Guarabira, eu acho.
Depois seguiu sua carreira solo, gravando Blues com a cara brazuca, sempre em português. Mesmo tendo escolhido seu nome artístico em homenagem ao B. B. King, com quem tocou e compôs.
Recordista em apresentações no Circo Voador, RJ (só competindo com a Orquestra Tabajara, cujo maestro também nos deixou esse ano), ir a um show dele no Circo era um tipo de iniciação nos anos adultos, sempre tinha um ou uma padrinho ou madrinha pra nos iniciar naquele ambiente divertido, liberal, exótico, engraçado e perigoso, principalmente se nossos pais soubessem como era liberal... Não lembro quantos shows vi dele, aliás, não tem dado pra confiar muito na minha memória ultimamente.
Nascido Celso Ricardo Furtado de Carvalho, conseguiu alguma projeção ao mandar um 'fita k7' (artefato analógico do século passado) para a Rádio Fluminense, que mesmo tendo um repertório mais voltado pro rock, tocava quase de tudo. Tempos diferentes, os Paralamas também tiveram 'Vital e sua moto' tocada assim, numa versão demo que até hoje não saiu em cd...
Mas tergiverso...

Esse é o primeiro álbum solo, e já é excelente, 'antológico' como disse bem o Jamari França, tendo músicas que permaneceram no repertório até o fim de sua vida, quando já morava em Joinville.
"Som na guitarra!!!!!" Começando pela clássica 'Aumenta que isso aí é rock'n'roll', o disco não tem como não agradar, Celso tem uma vibração rock mas raízes blues, e conseguiu fazer boas letras em português ao longo de sua carreira. Mas aqui é puro rock!
Para em seguida cair no puro blues 'Fumando na escuridão': aquele riff manjado roubado do Led/Muddy/John Lee Hooker, bom pra ouvir fumando, coisa que aliás levou ao câncer de garganta do nosso herói...
"não há ninguém nesse maldito vagão
eu continuo
fumando na escuridão"
'Tempos difíceis' é mais pop rock, com boas melodias e guitarras alternando entre o riff e a calma, com um belo solo.
"Porque chorar não vale mais a pena"
Aí vem um dos maiores clássicos underground do cara, 'Brilho da noite' (que já havia saído na coletânea 'Rock voador' da Warner), que eu não sei se é uma metáfora pra outro tipo de brilho (tenho impressão de ouvir uma fungada no meio da música)... Bluezão!! Piano bonito, melancolia e muito sentimento, tanto na voz quanto no solo chorado e cheio de reverb.
"Quando o dia amanhece
o brilho da noite se vai"
'Amor vazio' começava o lado B, acho. O disco inteiro desce redondo, agradável e animado apesar de blues, caprichado e natural.
"eu continuo aqui mesmo sozinho
sentindo calor
tremendo de frio"
'Rock fora da lei' é um blues rock quase americano em Memphis, Tenessee, legal, com um refrão do tipo que levanta a galera e solo cheio de drive.
'Filhos da bomba' é quase um hard rock, fruto da paranóia de medo da guerra nuclear (eu sonhava com a bomba nessa época, alguém mais?), tem até aquela sirene típica, música meio datada e diferente (tem até uma voz meio operística/metal), com solo mais virtuosístico com várias guitarras.
'Blues Motel' encerra o disco suavemente, com lirismo e beleza, apesar da guitarra bluesy gritando nos seus momentos de solo.
"marcas de batom
uísque na cama
e a emoção de uns
no coração do blues"

Descanse em paz, Celsuba.

Mais fontes de informação:
Jamari França sobre a morte de Celso
ahtabom
Wikipedia

(Dão)

quinta-feira, 31 de maio de 2012

A estréia: Titãs, 1984



Alguns poucos discos de estréia são definitivos, daqueles que já mostram a que vieram: mostram bandas/artistas cientes do que querem e seguros sobre como chegar lá e são o ponto alto da carreira destes mesmos artistas.

Não é o caso do primeiro dos Titãs. E, cá pra nós: ainda bem. Tinham acabado de abandonar o infeliz nome de Titãs do Iê-iê-iê, mas não totalmente o som. O baterista ainda era André Jung (hoje no Ira!) e o baixo era dividido entre Paulo Miklos e Nando Reis.

E o que temos aqui? Pelo menos metade do disco não chamaria a atenção de qualquer um que tenha vivido a época. Babi Índio, Pule, Mulher Robot, Demais, e Seu Interesse são canções que dificilmente a banda tocaria ao vivo poucos anos mais tarde, depois de realmente estourar. E dificilmente vão aparecer em alguma coletânea do gênero “O Melhor de”. Outras receberam um dose de desfribilador, com versões ao vivo: Marvin e Querem Meu Sangue (que também deve um pouco de sua popularidade à versão do Cidade Negra em 1990-e-poucos).

Outras são mania de fãs da banda, A Balada para John e Yoko por exemplo eu acho muito boa, uma feliz adaptação para o português feita por Sérgio Britto desta canção de “segunda” dos Beatles (não, não tô depreciando! Quanta gente por aí que em 40, 50 anos de carreira não consegue chegar nem perto de uma canção de “segunda” dos Beatles). Tá certo que a versão original ficou (inteligentemente) quase intocada, mas tem um arzinho new wave tupiniquim.

O que foi pro rádio e pro inconsciente coletivo foi Go Back, Toda Cor (essa, juro!, eu sempre esqueço e, depois que ouço, sempre me lembro de novo...) e a magnífica Sonífera Ilha, que nos enganou a todos até Cabeça Dinossauro, quando o produtor Liminha conseguiu sabe-se lá como (esta é a impressão que fica a partir desta estréia) desenterrar o potencial agressivo da banda.

O maior mérito deste álbum de estréia é que eles não desistiram. Fizeram um segundo disco desprezível, onde se salvava apenas a (ótima! Fantástica!) Televisão e não desistiram. O primeiro dos Titãs é um retrato fiel de onde eles estavam na época, um disco honesto. Ouve-se uma banda experimentando caminhos, Nando Reis e o reggae (que depois ele abandonaria quando abraçou a carreira solo... ou estará em período de latência?), parceiros de fora (o ex-membro da banda Ciro Pessoa e Barmack em Sonífera Ilha, Babi Índio e Toda Cor; Torquato Neto em Go Back), versões em português (Marvin, Querem Meu Sangue e a já citada Balada). Além do som, o visual e o astral da banda eram outros, sugiro conferir o excelente documentário de Branco Melo, A Vida até PArece uma Festa. A oportunidade de conferir os estreantes nos palcos de Bolinha, Chacrinha, Raul Gil, Fausto Silva (ainda um Perdido na Noite) e Sílvio Santos é impagável.

Enfim, uma obra indefinitiva e inacabada. Sorte de quem teve paciência pra esperar o que viria depois...

[M]

sexta-feira, 24 de junho de 2011

New Wave à brasileira (Magazine, 1984)



Em qualquer compêndio ou boa enciclopédia de rock/pop, ao pesquisar o verbete “Magazine” você encontrará: “banda formada por Howard Devoto logo após sua saída dos Buzzcocks, em 1976. O primeiro trabalho do conjunto é o LP Real life”. Sobre o Magazine brazuca, nada. No máximo, alguma nota de rodapé.


O relativo esquecimento do “nosso” Magazine é uma injustiça que poderia (deveria) ser reparada. A banda, capitaneada pelo DJ/VJ/agitador cultural multiuso Kid Vinil, é importante representante da chamada “new wave” brasileira. Em comum com o xará britânico, nosso Magazine também é oriundo de uma conceituada banda punk, o Verminose. O quarteto (além de Vinil, Ted Gaz na guitarra, Lu Stopa no baixo e Trinkão na bateria) fez sua estréia oficial em 1983, na cena paulistana.


Magazine, o álbum de estréia do grupo (1984), é um primor. Tosco, rude, bruto, de uma simplicidade franciscana. A partir da capa (uma homenagem bem-humorada ao movimento new wave, no auge da moda no Brasil naquele momento), o recado é claro: rock simples, sem grandes concessões ou pretensões. Poucos acordes e muita alegria. Simples assim.


O disco abre com “Adivinhão”, um rockabilly à brasileira de pouco mais de três minutos de duração. “Você anda namorando a minha filha com segunda intenção/você anda namorando a minha filha pra poder botar a mão/o teu negócio é andar de lambreta, quando fala em casamento você faz careta”. Hilário.


O disco segue com “Pau na marginal” (rachas num fim-de-semana qualquer em Sampa), “Não” (popzinho inspirado em Paul Anka), “Meu bem Lollipop” (mais um som cinquentista), “Tô sabendo” (“eu sei que você sabe que eu não sei que você sabe que eu sei”, alucinante) e por aí vai.


O grande momento, claro, é o hit da banda. “Sou boy” foi das faixas mais tocadas na época e rendeu bons “fruto$” para o grupo – chegou a ser usada em comercial da GM. A canção, hino dos boys de todas as gerações, narra as aventuras/desventuras durante um dia na vida de um office-boy:


Acordo 7 Horas tomo o ônibus Lotado
Entro 8 e meia, eu chego sempre atrasado
sou boy, eu sou boy, sou boy
boy, sou boy

Atento 8 e Meia eu tenho que bater cartão
Mal piso na firma tem serviço de montão
eu sou boy, eu sou boy, eu sou boy
boy, eu sou boy

Ando pela rua pago conta pego fila
Vou tirar xerox e batalho algumas pila
sou boy, eu sou boy, eu sou boy
boy, eu sou boy

Na hora do almoço a minha fome é de Leão
Abro a marmita e o que vejo? Feijão!
Chega o fim do mês com toda aquela euforia
Todos ganham bem e eu aquela micharia
Sou boy, eu sou boy, eu sou boy
eu sou boy

E logo chega a tarde estou com pressa de ir embora
Meus pés estão doendo e meus calos estão pra fora
Sou boy, eu sou boy, eu sou boy
boy, eu sou boy

Bate 5 e meia a Sé tem filas infinitas
ônibus lotado e cai da mala minha marmita
Sou boy,eu sou boy, eu sou boy...
boy, eu sou boy

Na hora do almoço a minha fome é de Leão
Abro a marmita, e o que vejo? Feijão!
Chega o fim do mês com toda aquela euforia
Todos ganham bem e eu aquela micharia
Sou boy, eu sou boy, eu sou boy
eu sou boy”


O sucesso foi imediato e fugaz. O Magazine apareceu em todos os grandes programas de auditório, tocou no Fantástico, deu shows de Norte a Sul, fez abertura de novela global (“Comeu”, versão de uma canção menor de Caetano Veloso) e, depois, sumiu. A fórmula estava esgotada (ou ultrapassada, talvez). A marca do Magazine, porém, estava assegurada.


Kid Vinil continuou na cena cultural brasileira, teve programa na MTV e volta e meia aparece em algum evento rock´n´roll. Em meados dos anos noventa, trombei com ele na entrada de um show dos Ramones em São Paulo (“Kid, você pode arranjar para a gente uns ingressos do show?”). Mas essa é outra história...


[XAMPU]

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Fullgás, Marina



Seguimos com mulheres cantoras, músicas, compositoras. Apesar dessa aqui não ser das preferidas do Mateus. Mas mesmo assim ele tem disco dela; gosta muito de música também o camarada e maior contribuidor do nosso blog!


Marina apareceu pro mundo da música através da Gal Costa, que gravou uma música sua, 'Meu doce amor', em 1977, que nem sei se foi regravada por ela mesma.

Tem como grande parceiro o irmão, poeta e filósofo (elogiado pelo Caê no livro 'Verdade tropical', mas isso também não garante nada), Antônio Cícero, neste disco com 4 músicas, uma versão e um poema declamado junto com a irmã.


Esse disco é o primeiro do qual eu me lembro, também algumas músicas tocaram bastante na rádio, que era pra mim um grande fonte de acesso, sem as facilidades (e suas conseqüências nem sempre positivas, como o pouco valor a um arquivo e a perda de sentido de um álbum como obra fechada) da nossa internet, paraíso do download 'de grátis'(sic).


Belo disco. Marina nos anos 90 começou a se chamar Marina Lima, mas esse aqui ainda é da Marina.


Começa com a faixa-título, pop delicioso, com a voz aveludada e aquele arranjo de época, muitos e muitos teclados, bateria eletrônica (mesmo tendo à disposição o excelente baterista - e compositor - Lobão, que toca em várias outras faixas do disco), baixo e produção do visionário Arnolpho Lima Filho, o Liminha, que inclusive comparece com um solaço de baixo virtuosístico e empolgante no fim da música, mas que infelizmente quase sempre era o momento 'vai abaixando o som' nas rádios e nos programas de auditório.

Meu único senão é a frase 'você me abre seus braços/ e a gente faz um país' que eu sempre preferia cantar, mesmo sem rimar, 'você me abre suas pernas/ e a gente faz um país', com muito mais sentido, antropo e biologicamente falando.


A segunda música é uma versão para 'Ordinary pain' do genial Stevie Wonder, aqui chamada 'Pé na tábua' (?), mais um pop gostoso que desce redondo.


'Pra sempre e mais um dia', além de título legal, é uma música legal também, sendo os destaques discretos as levadas nos pratos e contratempos do baterista Lobão, mesmo acompanhando a bateria eletrônica.


'Ensaios de amor', co-autoria com Ana Terra, traz mais uma dançante com uns efeitos percussivos de voz muito interessantes. Muitos teclados, alguns bem interessantes, cortesia do mestre Nico Rezende.


Aí vem uma versão pra uma música do Rei e do Tremendão, inusitada porque cantada por uma mulher, afinal a música fala sobre um homem pra chamar de seu, 'Mesmo que seja eu'. Mas gêneros são fluidos, a cada dia mais. Aqui finalmente não tem bateria eletrônica e traz a sempre ilustre presença do senhor Paulinho Guitarra que toca...ah, fala sério! Boa versão. Acho que quem cantava essa era o Erasmo, confere, fãs?


'Me chama' é uma música linda, já clássica, que 'sofreu' muitas versões, até mesmo do Mestre João Gilberto (que inclusive alterou a letra, pra desgosto do autor; se fosse comigo eu até parava de compor...), mas acho que essa aqui foi a primeira gravação, toda bonita, com um arranjo crescendo, guitarra bonita e uma levada de bateria muito esperta do compositor Lobão.

"Nem sempre se vê lágrimas no escuro,

nem sempre se vê mágica no absurdo,

nem sempre se vê,

cadê você?"


'Mesmo se o vento levou' é uma pérola desconhecida, com mais um arranjo caprichado e bela letra.


'Cícero e Marina' é um poema declamado pelos irmãos, cada um sobre si mesmo, recíprocos cobras nos paraísos alheios.


'Veneno' é uma versão de um música italiana que desconheço completamente. Nelson Motta comete essa aqui, depois ele repetiria a dose no álbum de estréia da Marisa Monte, com a hiper-saturada 'Bem que se quis'.


'Mais uma vez' é uma música da certeira parceria Nelson Motta/Lulu Santos, que aqui comparece com guitarra (com um ebow bem diferente, segura uma nota, um solo limpo e uma slide guitar discreta), bateria digital (com um efeito estéreo criativo, melhor ouvido em fones) e teclado korg lambada (?!).


'Nosso estilo' fecha bem o disco, uma parceria dos irmãos com Lobão, com um baixão slap por Pedro Baldanza, guitarra pelo Toquato Mariano (produtor de sucesso hoje em dia) e aqueles 'ô ô ô' de fundo pelo Lobão (também melhor ouvidos com fone). Aqui os teclados tem um efeito mais criativo, alterando o pitch e criando um efeito tenso de trilha sonora.


"E esses caretas ficam mais e mais banais"

sábado, 8 de novembro de 2008

Raça Humana - Gilberto Gil (1984)



O Gil é garantia de viagem e "RAÇA HUMANA" (1984) é mais que um passaporte, é a viagem em si. Gosto muito de muitas coisas do Gil porque ele tem a curiosa força da osmose: entra sem pedir licença, se instala em cada pedaço do nosso corpo. O Gil é corporal, atiça tudo que é involuntário. E o segredo é se entregar para essa viagem, deixar o corpo se entregar aos sons, as poesias, as vozes. E esse cd fala de mim, fala de você – como uma sonda bem fininha, Gil vai em cada esquina da gente e canta lindamente o que ele pensa ser a raça humana.

A sonzeira começa com “Extra II”! É um rock abusado, desses que a gente enche a boca pra cantar! É um rock que é meio reggae, enfim, todas as moléculas dessa música resultam numa química perfeita, sob as melhores CNTP. E o Gil pra lá de inspirado inverte a importância das pessoas. O ninguém se transforma em alguém especial e único. “Essa aparência de um mero vagabundo/ é mera coincidência/ deve –se ao fato de eu ter vindo ao seu mundo com a incumbência/ de andar a terra, saber porque o amor/ saber porque a guerra/ olhar a cara da pessoa comum/ e da pessoa rara.
Essa música atravessa como um raio!

“Feliz por um Triz” chega aos gritos! Outro rock de matar que conta com a participação de Wally Salomão no vocal, Pedro Gil na batera e Liminha na maravilhosa guitarra. Essa música canta a nossa condição precária de pertencer à raça humana… Canta também nossa criatividade em viver a vida, canta a nossa safadeza interior, o nosso lado mais vivo. O lado que vibra mesmo estando por um triz. Acho que isso que é a esperança! É estar por um triz e de repente fica tudo bom…
Essa música não é uma delícia? “Chama-se o aladim da lâmpada neon”…

Outra a mil por hora! Eita Gil acelerado! Tudo corre nessa música! Em “Pessoa Nefasta” Gil exorciza o mal, a cobiça, o inferno, o baixo astral, a alma bissexta. E com a ajuda de todos os guias, do senhor do bonfim, da guitarra, da percussão e duma batida aguda recheada de lindos vocais que viram instrumentos musicais, Gil garante que tu pessoa nefasta pode se ver livre das dentadas do mundo.
Essa música é um arraso… Aqui o espírito é obeso e vaga como um pedaço de tábua no mar. O Gil conseguiu com muita graça, rapidez e poesia, adicionar todos os ingredientes da crença e do vocabulário dos terreiros à nossa vida moderna.

“Tempo Rei” chega slowzinha, do jeito que tem sido, transcorrendo, transformando, tempo, espaço, navegando todos os sentidos. Taí, a beleza do tempo…
Essa música é um hino: uma delicada escolha de palavras simples, de frases feitas que numa outra ordem, ganham cor e nos enfeitiçam.
Essa música, com essa voz mansa do Gil, com esse vocal doce do Ritchie, dá vontade de ir pro quintal, acender um cigarrilho, deitar na grama e olhar para as estrelas…

Vamos fugir? Assim, devagarinho, discretinho, de mansinho… The Waillers emprestam sua energia ao que há de melhor no Gil! Como não poderia deixar de ser…
Essa música inaugura o lado malicioso, sensual e delicioso do “Raça Humana”. Um reggae que transpira desejo, um reggae “onde haja só meu corpo nu junto ao seu corpo nu”. “Vamos Fugir” eu quero ouvir mil vezes! E de novo, tudo muito simples, tudo lúdico, num amor-brincadeira. Tudo muito simples para falar do mais difícil: a entrega.

E em tempos de Obama, como não achar o máximo “A Mão da Limpeza”? Gil nessa música canta todos os rastros de um dos mais primitivos sentimentos humanos - o racismo. Com humor, ironia e uma musicalidade contagiante, a letra vai pontuando a vergonha, a mentira. O que eu acho incrível nessa letra é que ela não é ressentida. A sujeira ganha um sentido universal. Esse é o engajamento do Gil: o recado vem colorido, não é um recado preto no branco.

“Índigo Blue” inunda nossos ouvidos com a música de amor mais corporal que eu já ouvi. Um delírio, um arraso, uma coisa de enloquecer, exagero mais delicado e sensual impossível. “Índigo Blue” começa e você já tá de quatro!
O Gil faz nossa imaginação caminhar nas pontas dos pés pelo corpo feminino e depois pelo masculino como se esses corpos, de peles macias, fossem lindas paisagens… E ele vai cantando todas as nossas sensações durante a trilha. Covardia.
E tudo começa devagar, como se os corpos fossem terras estrangeiras, tudo sob o indigo blue. Mas aí os dedos ficam alegres e afoitos com a descoberta. Deleite puro! E os “músculos másculos dizem respeito/ a quem por direito carrega essa terra nos ombros/ com todo respeito”, vira “seu guardião, seu amigo/ seu amante fiel”. Ah…
Adoro o título!" Índigo Blue" é A estória de amor. Aquela em que a única voz que se pode ouvir vem do corpo. Em “Índigo Blue” são os corpos que viram amantes, mesmo que as mentes não queiram…

Depois de muito suar em “Índigo Blue”, “Vem Morena” chega alegre, com um baixo sacana e te convida de novo pra uma transa. É que para Gil (Luiz Gonzaga e Zé Dantas também), a Raça Humana é um espaço, um lugar, um ser onde acontece tudo – todos os sentimentos passam e param nessa estação. "Vem Morena” é uma música sem idade, ela veste qualquer um. Ela cutuca! E tem algo que me lembra Alceu Valença, acho que é pelo “approach” nordestino do fungado quente bem no pé do pescoço.

E Gil finalmente pulsa com sua “Raça Humana”. Todas as nossas contradições são traduzidas em beleza, em ferida acesa, em fogo e em saudade. Gil empresta palavras quase religiosas e constrói uma anti-prece. Da raça humana tudo se pode esperar – isso é o lindo e também o assustador. Mas para Gil somos a “Grande Síntese” – como num mosaico, onde diferentes cores se encontram num desenho único e possível.

É de esperança que estamos falando…
[ANDRÉA]


quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Vai passar nesta avenida um samba popular - Chico Buarque (1984)



1984. A ditadura se despedia dando lugar à Nova República.

Tudo Bem que Tancredo morreu em circunstâncias misteriosas, Ulysses sumiu num desastre de helicóptero e tivemos Sarney e Collor como os dois primeiro presidentes civis em 20 anos, mas até então estávamos comemorando, e muito. Em janeiro de 1985, a capital fluminense foi sacudida na cidade do rock, dando voz a vários artistas brasileiros (então) emergentes, como Lulu Santos, Kid Abelha, Eduardo Dusek, Barão Vermelho e Paralamas do Sucesso, que viriam a ser (boa parte d)a voz da juventude nacional pós-ditadura. Mas A VOZ nacional durante os anos de chumbo, lançou o hino que simbolizou todo o sentimento de uma geração "acostumada" com um vocabulário que incluía AI-5, DOI, DOPS, guerrilha, tortura, revolução, censura...

A melhor memória que eu tenho deste disco do Chico é lembrando dos meus tios e da minha mãe cantando Vai Passar a plenos pulmões... A outra é olhar as capas de disco do Chico lado a lado até 1984 e reparar que este disco vermelho, bem vermelho, definitivamente vermelho, com um Chico vestido de azul celeste, ensaiando uma sambadinha e um sorriso só pode ser uma comemoração. Na verdade o disco, como um todo, é até um pouco irregular (o que viria a se tornar uma constante nos trabalhos seguintes do compositor, infelizmente). Vai Passar (de Chico e Francis Hime) é um samba-hino, é a história recente do Brasil, não é música que possa ser comparada com outras, seria muita injustiça, pois transcende o aspecto meramente 'musical' da obra. Mas o disco ainda traz composições de primeiríssima grandeza, como Brejo da Cruz (que já adiantava que o fim do regime militar não resolveria 'todos' os nossos problemas, pelo contrário), Samba do Grande Amor (ironicamente, esta música até poderia ser entoada para a 'nova república' que ali nascia: tinha cá pra mim que agora sim eu vivia enfim um grande amor...: mentira!) e Pelas Tabelas (outra canção de apelo histórico-político). Participações de Dominguinhos em Tantas Palavras, João Bosco (em Mano a Mano) e Pablo Milanés (em Como se Fosse a Primavera) conferem charme especial ao disco, enquanto que Suburbano Coração, Mil Perdões e As Cartas são os pontos um pouco distoantes no disco.

Depois dos tropeços naturais do processo de redemocratização, o samba popular parece que vai passando mais animado agora, e oxalá continue por muito tempo e acelerando... [MATEUS]

sábado, 6 de setembro de 2008

Metaaaaaaaaaaaal!!! (Metalmania - Robertinho do Recife - 1984)


Taí um clássico substimado do rock nacional! Só por que é metal...
Robertinho do Recife é incontestavelmente um grande guitarrista, trabalhando com vários medalhões da MPB (Fagner, Marisa Monte, Zé Ramalho etc), ganhando dinheiro com músicas infantis, experimentando com música erudita e cometendo equívocos tremendos como o Yahoo.
Como vocalista, ele é um excelente guitarrista, mas demos um desconto pra total inexperiência em gravar um disco de hard rock em 1984. Instrumentalmente o som consegue ser muito bom.
As composições são típicas do gênero: mulheres, mulheres, baladas, elementos da natureza ('Fogo', excelente!). 'Gata' é versão de 'Wild thing'. 'Corações e pernas' ainda é muito legal, experimente ouvir na estrada ou saindo pra noite.
'Assassina' teve sua radiodifusão proibida pela censura federal...bons tempos o caralho.
'Fantasia preto e prata' é a instrumental que abre muito bem o disco, com Robertinho mostrando toda sua habilidade e criatividade, além de um sonzaço.
O visual era também típico do hard rock, ou seja, ridículo: muito laquê, batom e maquiagem, além de modelitos horrendos. Lembro de dois programas de vídeos ancestrais: BB Video Roll (da record carioca) e um da globo que passava um show na praia. O primeiro, tenho em vhs, com uma performance no aniversário da radio Cidade no Hipódromo do Rio. O segundo com muita qualidade de vídeo global e aquele visual.
A música título tem um refrão pegajoso que, se fosse em inglês, talvez fosse mais legal ('bate o pé, bate a mão, a cabeça e o coração').
Contagiante e saudoso, pra quem gosta do metal.
Acho que não saiu em cd, pecado. Em compensação, baixe sem culpa: http://rapidshare.com/files/112096246/-_Robertinho_de_Recife_-_Metalmania__1984_.zip.html

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Eu não nasci de óculos, mas eu era assim (O passo do Lui - Paralamas do Sucesso - 1984)


Alguns discos que comentamos por aqui não são admirados puramente pela estética, mas fizeram (fazem?) parte de nossa vida, em particular daquela fase confusa e marcante que é a adolescência.
'O passo do Lui' é assim.
Trilha sonora de muitas festinhas, lembro muito bem de dançar lentinho com as meninas 'Romance ideal' (trilha perfeita da desilusão adolescente, além de um solo lindo do Herbert, que o Lulu se chateou porque substitui um que ele tinha feito), 'Mensagem de amor', 'Me liga' (mais uma adequada à ansiedade do dia seguinte).
Mas as que embalaram mesmo aquelas danças new wave estranhas com os braços girando feito helicópteros esquizofrênicos foram as mais agitadas: 'Óculos', 'Meu erro', 'Ska' (com o saxofone de Leo Gandelman) e 'O passo do Lui' (que poderia estar num disco do The Police, influência óbvia da banda).
O disco tem uma qualidade de som limpa, com espaço entre os instrumentos, poucos efeitos e poucos teclados, fugindo do som pasteurizado à época, com muitos reverbs, sintetizadores e vocais sobrepostos (som esse abraçado com gosto pelo Kid Abelha, mas isso fica pra outro post).
Completam o repertório 'Fui eu', 'Assaltaram a gramática' (de Waly Salomão e Lulu Santos, com participação vocal deste e de sua mulher, Scarlet Moon) e 'Menino e menina'.
Não é o mais original dos Paralamas, nem o que tem as melhores composições (apesar de estar longe de ser fraco nesse quesito), mas o que me vem à cabeça (e aos ouvidos na seqüência) quando quero visitar minha adolescência.