sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
Tribalistas
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Tudo Azul....Tudo Azul meu Amor

Em 1999, paralelamente ao trabalho de cantora e compositora, Marisa Monte decidiu resgatar todo o trabalho da Velha Guarda da Portela, cuja comunidade em Madureira tinha forte relação (seu pai - Carlos Monte - tinha sido diretor da Escola de Samba). O resultado ficou belíssimo, a começar pelo encarte. Em uma época em que as gravadoras estavam reduzindo os custos e os CDs vinham com pouco material, Tudo Azul vai na contramão, incluindo letras cifradas e páginas azuis com trabalho artístico de primeira (fotos de Rodrigo Monte).
A seleção das músicas também foi digna de louvor,incluindo canções dos principais expoentes da Velha Guarda da Portela: Monarco, Alvaide, Chico Santana, Chatim, Manacéia, Áurea Maria, David do Pandeiro, Candeia, Alvarenga, Jair do Cavaquinho, Colombo, Casquinha, Ramon Russo, Casemiro da Cuíca, Alberto Lonato, Josias e Ventura, autores das 18 canções gravadas.
Com “Portela desde que eu nasci”, o disco inicia-se marcando terreno:
Eu sou portela ...Desde os tempos de criança...Ainda guardo na lembrança...Algo e vou revelar
Em seguida, a inspirada letra de “O Mundo é Assim” (Alvaiade) dá o tom ao mesmo tempo nostálgico e filosófico:
O dia se renova todo dia
Eu envelheço cada dia e cada mês
O mundo passa por mim todos os dias
Enquanto eu passo pelo mundo uma vez
Continuando com a clássica “Nascer e Florescer”, na Manacéa, na voz de Monarco e emenda com “Vai Saudade”, canção em que se destaca o cavaquinho de Jair do Cavaquinho (com o perdão da redundância).
A temática nostálgica prossegue nas músicas seguintes (“Vai Saudade” e Sabiá Cantador”), e acaba levando a memória do ouvinte a uma agradável tarde de sábado regado a cervejinha em uma mesa de bar, acompanhado de bons e velhos amigos.
Em “A Noite que tudo Esconde”, destaca-se a participação especial justíssima de Paulinho da Viola, que afinal de contas, é o responsável direto pela primeira constituição da Velha Guarda da Portela em 1970 (informação que consta do próprio encarte de Tudo Azul).
Depois de “Eu te quero”, “Volta meu amor” conta com a participação especial da própria Marisa Monte, e o resultado não poderia ter sido melhor: Uma canção belíssima:
Volta, volta, meu amor
Quero sentir novamente seu calor
O disco segue em melhor estilo com “Falsas Juras” (Eu já lhe disse.... Que não quero mais o seu amor porque... As falsa juras nos seus beijos... Me fizeram padecer) e emenda em “Tentação”, bela canção levada só com a cuíca e voz de Casemiro da Cuíca.
Você me abandonou...Ô ô eu não vou chorar...Mas hei de me vingar...Não vou te ferir...Eu não vou te envenenar...O castigo que eu vou te dar é o desprezo...Eu te mato devagar (...).A dor de cotovelo levada de forma alegre permanece dominante na canção “Você me abandonou”.
O rtimo cadencia em “Vem Amor” para acelerar novamente em “Benjamim” e emendar em “Tudo Azul”, canção que providencialmente batiza o disco, em referência não só ao bem estar, mas também à cor da tradicional escola de samba do Rio: “Tudo azul...Tudo azul...meu amor”.
A cadência mais lenta de “Minha Vontade” conta com a participação especial de Cristina Buarque para, em seguida, dar lugar ao ritmo do pandeiro e a cuíca em “Sempre o Teu Amor”.
Para finalizar, depois de mais uma participação do excelente cavaquinho de Mauro Diniz em “Corri pra ver” (ao todo participa de 4 canções), o disco encerra com a participação especial de Zeca Pagodinho, que divide o vocal com Monarco em “Lenço”: Pega esse lenço e não chora...enxuga o pranto, diga adeus e vá embora”.
E enxugando o pranto diante do término dessa preciosidade, o disco finaliza no melhor estilo. Com esse trabalho, Marisa Monte presta um grande favor a todos amantes da boa música, resgatando um trabalho que, antes de tudo, envolve emoção e sentimento, do tempo em que a música era, antes de tudo, uma manifestação cultural autêntica e não o ganha-pão de ninguém.
[Paul]
PS: para escutar o disco:
http://grooveshark.com/#/playlist/Dj+Paul+Velha+Guarda+Da+Portela+Tudo+Azul/62013188
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Verde anil amarelo cor de rosa e carvão, Marisa Monte
Dos 'medalhões' da MPB, esta é a única que faltava por aqui. Como a Andréa ainda não postou o primeirão, ao vivo, nosso preferido, começo por este aqui.
Tido como um dos melhores e pra mim o mais bem acabado, este disco marca algumas mudanças da Marisa, tais como a primeira produção dela própria, na verdade uma co-produção com Arto Lindsay (que já produzira o anterior, 'Mais'), além de reafirmar seu trabalho autoral e ao mesmo tempo ampliar o universo de seus colaboradores.
Nos bons tempos do mercado musical físico (o virtual continua a toda!), o disco vendeu mais de um milhão de cópias.
Estranhamente não consta no 1001 original, apesar da projeção internacional da artista.
O disco inicia com 'Maria de verdade' (Carlinhos Brown, parceiro cada vez mais presente na sua vida e obra), sutil, com voz e violão a princípio, depois permitindo a entrada da banda inteira, tornando a música até dançante, com um baixo de dar gosto. Belo início.
'Na estrada' (MM/Brown/Nando Reis, este também participando mais intensamente, se tornando mesmo marido se não me engano), mais uma quase acústica e cheia de vozes extras da própria cantora.
'Ao meu redor' (Nando Reis) traz como diferencial um trompete sinuoso e a mesma atitude acústica. Saltitante.
'Segue o seco' (Brown) deu origem a um video lindíssimo, sem esquecer que é uma bela e forte canção. Berimbaus e vozes de Brown ao fundo, antecipando o que seriam os Tribalistas.
Uma música de Lou Reed, 'Pale blue eyes', traz um aceno à cena americana. Boa e surpreendente escolha.
Em seguida, a belíssima versão de 'Dança da solidão' (Paulinho da Viola), com o auxílio luxuoso de Gilberto Gil no violão e vocais de apoio, sensacional, um dos pontos altos do disco!
'De mais ninguém' dialoga com o grupo Época de Ouro, do choro clássico carioca, mesmo a música sendo de Arnaldo Antunes e Marisa. Quase anacrônica, mas cabe no projeto abrangente do disco.
'Alta noite' já havia sido gravada pelo autor, Arnaldo Antunes, mas aqui ganha uma versão linda, acredito que com o saudoso violonista Raphael Rabelo. Belíssimas cordas ao fundo.
'O céu' (Marisa Monte/Nando Reis) é mais alegre e quase balançada, vc fica querendo dançar, seu corpo começa a querer sacudir, bem legal.
'Bem leve' (MM e Arnaldo Antunes) é fiel ao seu nome, meio valsa, violãozinho discretíssimo e um pandeiro dando o ritmo.
'Balança pema' (Jorge Ben) traz o balanço de volta, com violão, guitarra com wah-wah e bateria, com várias vozes da Marisa.
'Enquanto isso' (MM/ Nando Reis) traz mais vozes e uma narrativa bem legal (incluindo trechos em inglês by Laurie Anderson), além de belos violões.
Pra terminar com extrema classe, Marisa traz as pastoras da Velha Guarda da Portela pra fazer uns vocais lindos nessa canção que poderia ser um samba-enredo, se o carnaval de desfile suportasse sutilezas e cadenciamentos mais lentos. 'Esta melodia' foi um balão de ensaio do disco no qual a Marisa produziria esta mesma Velha Guarda, 'Tudo azul', que aparecerá por aqui inevitavelmente (é um dos meus discos de samba preferidos, inclusive pelo recurso sempre oferecido nos discos de MM: as músicas vem com letra e cifras com acordes!).
