[LM]
sábado, 6 de outubro de 2012
Cidade de Deus - Antonio Pinto & Ed Cortes
[LM]
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
A vida em seus métodos diz calma (Di Melo - 1975)

Mestre do suingue fácil, de voz malandra, interpretação experta, forte, nordestina, daquele jeito pernambucano de tornar seu sotaque universal. É só ouvir esse seu único disco pra sacar o que eu tô falando. Tem suingue pra todo lado, bem na linha black brasileira, q se misturava com samba, funk, xaxado, MPB, soul, reggae, sem preconceitos.
Ele tem também aquela onda nordestina dos anos 1970 que veio com Fagner, Ednardo, Ze Ramalho, Alceu, aquelas misturas lisérgico-sertanejas, viajandonas, engajadas, surrealistas, Bob Dylan no sertão. Confesso que me empolguei tanto com o balanço que achava chata a parte lenta. Bobagem. Até porque, elas são metade do disco. É que o ritmo é tão gostoso que toma conta.
É questão de humor. Questão apenas de separar lado A e B, coisa q aliás ele num faz, mas deveria. Porque tem uma sequência dançante matadora que deveria estar definitivamente junta, pra galera poder tocar em festa sem preocupação de mudar a música. Ainda mais nos tempos dos LPs. E até faria mais justiça à parte MPB que acaba passando despercebida.
Mas ao que interessa...
O disco já chega chegando, com o baixo chamando a gente pra dançar Kilariô, convite aceito de cara pelos metais.
A poesia já é cheia de ritmo:
“Kilariô! Raiou o dia eu vi chover em minha horta.
Ai, ai meu deus do céu quanto eu sofria ao ver a natureza morta.
Tinha mandioca pra farinha e o milho pra galinha e o capim para vaquinha e o feijão quem compra gosta.”
Mas não é por causa letra que tô dançando enquanto escrevo essa resenha. A banda é um caso a parte, encontro de cobra criada: Heraldo do Monte, Violas e Violões; Cláudio Beltrame no contrabaixo (clap clap clap clap clap um monstro! Um dos baixos mais suingados e criativos que já dancei); Ubirajara, pai de Taiguara, no bandoneon; Dirceu, na bateria; Bolão, no sax; arranjos e violão, do maestro Miguel Briamonte; e o grande Hermeto Paschoal, nas flautas, teclados suingadissimos, arranjos e produção. Ou seja, num tem menino amarelo na parada.
A isso Di Melo junta sua divisão rítmica personalíssima, rara, contagiante, que deixaria Jackson do Pandeiro orgulhoso do pupilo. Lá pelas tantas, a(s) vocalista(s) (Eloá, você tava sozinha nessa ou tinha mais gente?) soltam um uuuuuuuuuuuu q se não te der tesão pode ter certeza que seu negócio não é mulher.
A segunda música é pura filosofia de vida, riponga, zen. Mas hedonista, como é que não, com esse ritmo? Os grngos sacaram e volta e meia ela aparece em alguma coletânea pelo mundo:
"A Vida em Seus Métodos Diz Calma
Vai com calma você vai chegar.
Se existe desespero é contra a calma
E sem ter calma nada você vai encontrar".
Anti-stress pra ouvir e dançar no trânsito:
“Calmas nas oficinas
nos postos de gasolina,
Principalmente nas maternidades,
hospitais e escolas”.
A terceira é Aceito Tudo, a bateria quebrando tudo.
Daí pula pra 7a música, pra manter a pista cheia. Pernalonga começa com um violãozinho jorgebeniano safado, preguicoso, pra logo atacar os metais e o baixo ir carregando a preguiça.
Depois, Minha Estrela:
“Minha Estrela, vi tua imagem refletida em meu espelho.
Parei no ar com teu jeitão frio e matreiro
E fiz voltar o teu sorriso prateado”.
Pra completar esse quarto de hora de alegria e diversão, Se o Mundo Acabasse em Mel deixa um recado pra galera estressada, desaceleraê, galera, e vamos curtir:
“Deu pane no nervo do cérebro.
Taquicardia e revertério.
Momentos trágicos e instantes sórdidos.
(...)
A ele eu dizia que queria morrer doce quando o mundo acabasse em mel.”
Como ele diz, coberto de razão: “Meu som não deixa nada a desejar para o que houve, há, e, haverá no mercado musical. Digo, repito, atesto, e, assino embaixo, sem medo de errar e sem falsa modéstia. É muito swing, balanço, molho, charme e malemolência, pois nem Santo Antonio com gancho consegue segurar.”
Esse disco deveria estar naquelas cápsulas cheias de coisas especiais que o ser humano faz e que de tempos em tempos são lançadas no espaço, de presente para alguma civilização “perdida” por aí, para eles saberem que apesar das merdas que a gente faz, de vez em quando manda bem. Se algum dia algum extraterrestre abrir a cápsula com esse disco, vai ter um monte de marciano chacoalhando as antenas, dançando, felizões, loucos pra pegar o primeiro bonde pro planeta Terra.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Carlos, ERASMO... (1971)

Tudo isso culpa do Mateus.
Bem, o domingo passou e naquela noite eu fui ao concerto da Céu e no meio do show ela começa a cantar uma música do Tremendão - daquele jeito bonito dela de cantar. A música era linda, forte e eu não a conhecia: “É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo”.
E aí pensei: se essa música estiver no Carlos, Erasmo, tá decidido! Resenho total.
E aqui estamos, Baiano e eu nessa viagem. Porque ao ouvir Carlos, Erasmo a primeira reação é essa: que viagem! Sem dúvida ele estava embarcando total numa viagem única, experimentando aqui e ali. Um Erasmo on the road com muita química percorrendo suas veias…
Naquela época a Jovem Guarda fazia parte do passado, o que o havia relegado ao ostracismo, que veio acompanhado por um processo por porte de drogas. Mas no ano anterior “Sentado à Beira do Caminho” havia estourado na voz de seu parceiro, que estava assumindo de vez o papel de grande cantor romântico brasileiro. Por outro lado a Tropicália havia bagunçado a MPB, misturando rock com samba, hino religioso com hino de time de futebol, guitarra com bossa nova. E Erasmo, que nunca deixou de ser roqueiro, no sentido filosófico, ficou meio perdidão, ali, sem saber direito o que fazer. Tava difícil entender alguma coisa.
Mas precisava? Talvez não. Erasmo deu dois e fez um disco de alma tropicalista, onde coubesse tudo o que sentia e quisesse, sem obrigações, sem precisar assumir falsos papéis ou imagens que não eram a dele. Não queria provar nada a ninguém, apenas fazer um disco honesto, franco, despido (“Eu não nasci pra viver mentindo. Sorrir em troca e morrer fingindo”). E já começa pela capa, uma foto de chapéu, camiseta velha sem mangas, bem hippie, rompendo totalmente com o passado Jovem Guarda. A luz é avermelhada de pôr de sol escaldante, ele sério, inconformado?, preocupado?, perdido?, ou tudo isso? E o nome - Carlos, Erasmo (essa vírgula é um charme!) – daquela maneira acadêmica de citar uma obra, só reforça o lado autoral.
O disco é bem diversificado, com letras e temas incomuns. Tem um pouco de tudo: tem rock, tem soul, funk (Mundo Deserto), contestação (É Preciso dar um Jeito Meu Amigo), tema de novela (Ciça, Cecília - Tema de Cecília), Jorge Ben (Agora Ninguém Chora Mais), Caetano Veloso (De Noite na Cama), Marcos e Paulo Cesar Valle (26 Anos de Vida Normal), Taiguara (na riponga Dois Animais na Selva da Rua Suja), Roberto e Erasmo (Gente Aberta), feminismo (Não Te Quero Santa), apologia à maconha (Maria Joana) ao lado de uma religiosa e curiosamente ambas em parceria com Roberto (Sodoma e Gomorra). Parece que ele estava perdidão e jogou todas as suas contradições no disco.
Como era um momento pessoal, Erasmo se cercou de amigos, não só nas composições, que foram fundamentais pro resultado do disco. Lanny Gordin, guitarrista onipresente entre os Tropicalistas; os Mutantes Sergio Dias, Liminha e Dinho, se multiplicam nas guitarras em riffs pesados, batida pop até solos totalmente blues, da maneira mais triste que se pode ser. Nos arranjos de Rogério Duprat e Chiquinho de Moraes, dão riqueza e diversidade. E nessa onda muitas vezes a percussão fala mais alto que a guitarra e as letras falam mais alto que a música. Muito bom!
Começa com “De Noite Na Cama”, que seduz pela bagunça, pelo tom festivo e pela graça que Erasmo imprime à música – colocou berimbau, surdo, chamou a Narinha e até a Dedé! Malandraço, ele transforma a música num soul-samba-rock delicioso! Cheia de malícia, na melhor linha da pilantragem e que chega a ser mais suingada que a do próprio Simonal, o que, convenhamos, não é uma tarefa das mais fáceis. Sem falar que a letra é um baita convite…
“É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo” tem a melhor vibe Roberto-Erasmo. Um deslumbre - a música, a letra, a voz, a viagem, a amizade, e também o inconformismo, a contestação:
“Mas estou envergonhado
Clama ele, convocando todo mundo. A liga rock-blues é escandalosa e me desculpe, aqui você não tem outra alternativa a não ser se tornar um escravo voluntário dessa trip.
Muito boa também é “Dois Animais na Selva da Rua” – rockão! – Tem aí uma vontade de reinventar, começar do zero, numa espécie de instinto misturado com sonho, completamente na onda on the road, hippie mesmo. E a música é gostosa , contagiante e te carrega longe…
“Eu vou fazer de você
E tome mais contestação. Amigar, casar sem a benção da igreja ou autorização do Estado, pecadores ilegais. E daí?, perguntava ele, se na essência somos puro instinto.
E o disco vai rolando, e Carlos, Erasmo vai crescendo, tomando conta dos quatro cantos da casa. E agora tô na curtição do “Mundo Deserto”. Arraso gritado, visceral.
O disco tem potência, tem vigor, tem tesão.
Presente de 2010!
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Jorge Ben 1969 ou De como eu descobri quem era o anjo
A carreira de Jorge Ben é repleta de renascimentos. Parece que de tempos em tempos as pessoas enjoam dele e na seqüência uma nova geração o descobre e se torna irremediavelmente fã. E este disco marca justamente o primeiro reencontro com o sucesso. Marca também a transição e renascimento para o que seria o som do Ben nos anos 1970 e que mudaria irremediavelmente a música brasileira. Transição que, ao invés de gerar um disco esvaziado, tateante, nos deixou uma penca de sucessos, arranjos memoráveis e sementes para muita coisa boa que ainda viria.Um pouco de história, então. Após uma estréia arrebatadora, seus discos foram perdendo a força, a inspiração, ficando irregulares. Mas não foi só culpa dele. No final dos anos 1960 o Brasil estava bem diferente. E estranho. O clima zona sul carioca típico da bossa nova havia dado lugar à ditadura, aquartelada na seca e distante Brasília, e o típico maniqueísmo causado pelos regimes de exceção. Super sucintamente, a música de protesto tomou conta de um lado do ringue, enquanto a apolítica Jovem Guarda disputava com ela a atenção do público, que defendia seus preferidos nos festivais. No meio, o Tropicalismo surgiu misturando os dois lados e deixando muita gente confusa.
Se fosse pra classificar Jorge, que nunca foi muito chegado a política, a princípio seria junto a seus amigos de adolescência, Roberto e Erasmo. Mas não é tão simples, assim. Primeiro porque, embora andasse com uma turma que gostava de rock a onda dele sempre foi mais o samba. Depois porque seu jeito diferente de tocar não se enquadrava nem na bossa nova e nem no próprio samba, o que o levava a ser admirado, mas também criticado pelos puristas de ambos os grupos. Segue que ele também incorporaria cada vez mais influências da música negra americana, principalmente do funk, sem falar na percussão africana. Finalmente, os tropicalistas o adoravam e principalmente após esse disco, gravaram várias de suas músicas. Lógico que essas influências todas tiveram impacto em seu trabalho e esse disco é resultante dessa mistura.
O pé no passado fica claro nos arranjos de José Briamonte. Embora muito influenciados pelo que se fazia nos anos 1960, são inspiradíssimos e por si só já valeriam citar esse como um dos grandes discos já produzidos no Brasil. Dentre os meus preferidos estão os de Criola, Bebete Vãobora, País Tropical e Take it Easy my Brother Charles. Já o tropicalista Rogério Duprat introduz o que havia de novo na época e contribui com o clima psicodélico e bem mais experimental de Barbarella e Eu Descobri que sou um Anjo.
Por essa lista de sucessos já se percebe o quão inspirado estava o compositor Jorge, que parecia estar se dedicando bastante a suas musas. São seis ao todo. Começa com Criola; passa pelo amor possessivo em Domingas; o malandro enciumado em Cadê Teresa? e em “tenho uma Nega chamada Teresa”; a musa do sonhos, Jane Fonda, linda em Barbarella; e termina com Bebete.
Mas também há boa variedade temática. Suas contradições mostram a dificuldade inclusive dele próprio em se aliar a um ou outro grupo. País Tropical é uma celebração ufanista que poderia muito bem ser acusada de propaganda da ditadura. Por outro lado, Charles Anjo 45 é sobre o guerrilheiro Avellino Capitani, que na época vivia na clandestinidade. Além da psicodelia (Eu descobri que sou um anjo) e uma citação sutil ao movimento negro (Take it easy my brother Charles), onde ele faz um pedido que luta por direitos civis siga um caminho de paz.
Quanto ao seu violão, as mudanças na batida eram claras. E num arranjo cru, só percussão e violão, o disco termina lançando as bases para o que seria o samba rock. Gravado com o Trio Mocotó, que seriam parceiros constantes nos anos seguintes, Charles Anjo 45 é um show de simplicidade, força, ritmo e abre mil possibilidades que seriam exploradas por Jorge em seus discos seguintes e que nos dariam uma obra de riqueza poucas vezes igualada.
Finalmente, se não são suficientes todos esses argumentos, deixo alguns que pelo menos para mim são definitivos. Esse disco foi lançado no ano em que nasci e durante meus primeiros 5 anos era um dos preferidos. Uma época em que meus pais tentavam manter a coleção de vinis longe da minha pouca habilidade em manusear a agulha. Esforço inútil, porque eu empurrava uma cadeira para, escondido, alcançar a radiola e, assim, arranhar todos os discos que pude, principalmente meus prediletos, o que foi devidamente registrado numa foto que me flagrou com aquela capa colorida com um Jorge Ben psicodélico na mão. Não bastasse, o disco influenciou uma das minhas primeiras incursões literárias, quando aos 10 anos eu estava em dúvida entre ser cientista, astronauta ou escritor...
“O Anjo – 18.08.80
Nessa época eu deveria ter três anos. Todos os dias eu ouvia um disco de Jorge Ben, em que ele cantava: ‘Eu descobri que sou um anjo’. E toda manhãzinha eu ouvia essa música.
Um dia eu e minha mãe fomos à missa e eu vendo uma estátua, perguntei:
- Mainha, o que é aquilo?
- É um anjo, meu filho.
- Ah, já sei! É Jorge Ben, não é?“
Jorge Ben
Universal Music 1969
1. 03:30 Criola
2. 03:35 Domingas
3. 03:26 Cadê Tereza
4. 03:19 Barbarella
5. 04:16 País tropical
6. 02:36 Take it easy My Brother Charles
7. 04:05 Descobri que sou um anjo
8. 02:38 Bebete vãobora
9. 03:10 Quem foi que roubou a sopeira de porcelana chinesa que a vovó ganhou da baronesa?
10. 03:05 Que pena
11. 04:55 Charles Anjo 45
[Luiz Marcelo]
sexta-feira, 3 de julho de 2009
As Aventuras da Blitz (1982)

Aquele seria o primeiro show da minha vida. Mas não foi... Embora fossem ficar populares, nos idos de 1982, numa cidade do interior, um show de rock era sinônimo de drogas e violência (e o sexo?). Como cantava a Blitz em De Manhã: “Eu tinha doze anos, ainda me lembro do dia, eu escutava o que mamãe dizia. Ela dizia: tome cuidado, tenha juízo, esse mundo é o cão”. Assim, do alto dos meus doze anos, fui obrigado a passar aquele final de semana chuvoso na fazenda.
Nós (eu, meus irmãos, primos e amigos) sempre passávamos as férias lá, no maior esquema Sítio do Pica-Pau Amarelo. A gente jogava bola, nadava no rio, andava pelas matas, caçava cobra, morrendo de medo de achar, montava bicicleta pelas estradas enlameadas, passeava de canoa, versões antigas do rafting, trekking, mountain bike, etc. que se praticam hoje. Bom demais!, mas naquele fim de semana parecia mais um castigo...
Pra minha sorte (ou azar), a rádio local transmitiu o show e pude curtir (sofrer?) a energia da banda, que já nasceu no auge. Eu me lembro bem da primeira vez que os vi, no Fantástico. As gírias, as ironias, a temática adolescente, as referências pop (prestatenção na capa), mensagens subliminares, a conversa de mesa de bar, Fernanda Abreu deliciosa, e Evandro Mesquita, que com seu jeito Evandro de ser, perpetuado depois em dezenas de papéis na televisão e cinema, esbanjava carisma. Era tudo muito legal, muito diferente! Para quem cresceu ouvindo os discos dos pais (a MPB dos anos 70), não podia haver nada mais libertador, porque era a primeira vez que eu me identificava com uma banda/artista que era só meu.
Sei que a Blitz ficou careta, chata, as piadas foram perdendo a graça e eles acabaram pousando com Papai Noel num Maracanã lotado de crianças, criança que eu não queria mais ser. Mas passados quase trinta anos, talvez eu também esteja ficando careta, chato e minhas piadinhas ficando repetitivas. Sem problemas, o que importa é que minha namorada ainda ri delas e que a Blitz tem seu lugar reservado dentre as bandas que marcaram a minha vida. Eu não sabia, mas, como num rito de passagem ao contrário, naquele fim-de-semana eu comecei a virar adolescente.
As Aventuras da Blitz
1. Blitz cabeluda. Começa com uma vinheta, tipo Sgt. Pepper’s: “Espero que vocês gostem do disco, assistam o show, vejam o filme e leiam o livro”. Clássico!
2. Vai, vai Love. Fala da gata querendo ir pro Baixo Leblon e o cara argumentando: “Eu disse que não era bom. Acho Leblon-todo-dia, vicia. E você perde a classe, vadia. Desvaloriza o passe maninha”.
3. De manhã (aventuras submarinas). O cara acorda, preguiçoso, sol já alto, e passa o dia sonhando com musas de cinema, enquanto fica de bobeira. Antológica!
4. Vitima do amor. Um rock romântico, cheio de vocais legais.
5. O romance da universitária otária. De versos antológicos: “Era boa em línguas, mas não sabia beijar”; “Ser ou não ser, o que será que serei, o que será que eu vou ser”; “Eu não queria falar, mas agora vou dizer: todo mundo quer ir pro céu, mas ninguém quer morrer”.
6. O beijo da mulher aranha. Nada especial, mas me amarro nela, acho que pela melodia, os vocaizinhos, sei lá.
7. Totalmente em prantos. “Todo vestido bonitinho e não tenho onde cair. E sem nenhum lugar pra ir”.
8. Eu só ando a mil. Começa com uma vinhetinha, também: “Vocês ouvirão um som que abalará toda uma geração tchanraaammm Um som que marcará toda uma época. Vocês verão Blitz no melhor papel de sua carreira. Blitz amando, sofrendo, chorando e tocando como jamais alguém ousou tocar em toda história do seu rádio, vitrola ou gravador”. Perfeito! Uma das minhas preferidas.
9. Mais uma de amor. Mega sucesso! “Essa é mais uma daquelas manjadas estórias de amor que já aconteceram comigo, com você e com todo mundo”. A do geme-gemiiiiiiiii, uuuuuuuuuu!!!
10. Volta ao mundo. Boba, mas era engraçada. “Eu e meu amigo Julio. Julio, o tal do Verne. Dando a volta ao mundo”.
11. Você não soube me amar. “Sabe essas noites que você sai caminhando sozinho, de madrugada, com a mão no bolso, na ruuuuuaaaa”. Precisa falar mais?
12. Ela quer morar comigo na lua. O disco ainda tinha isso, duas músicas censuradas por causa de palavrões. Era a glória! No vinil, as duas últimas músicas vinham arranhadas, pra gente não poder ouvir. E essa nem sei por quê. Talvez porque falava “bundando”.
13. Cruel, cruel, esquizofrenético blues. Essa é a outra censurada. Fala de brilho... nos olhos. E da empregada que pegou no peru do marido. No peru de Natal, lógico. Tá, tudo bem, lá pelas tantas rola um “puta que pariu”.
(LM)
domingo, 23 de novembro de 2008
Ao Vivo na USP – Gilberto Gil (1973)

Dessa vez vou falar de um disco que não foi lançado, mas descoberto. Trinta anos depois, foi encontrada uma fita com um show que Gil fez na Poli-USP em 1973 em protesto contra o assassinato dos estudantes Honestino Guimarães, à época presidente da UNE, e Alexandre Vanucchi Leme, pelo governo militar. Reza a lenda que o show, programado para meia hora de voz e violão, acabou durando três e foi repleto de estórias de Gil, bate-papos, interação com o público, num clima de intimidade que foi perfeitamente captado pela gravação.
As estórias são um ponto alto do show. Exemplo: o público pede Cálice, música dele e de Chico, prevista para ser tocada no Festival Phono 73, mas que na hora H o som foi desligado, para a irritação dos dois. Ele não só conta essa estória, como explica que como cada um iria cantar sua parte na apresentação, ele acabou não decorando a parte de Chico. Finalmente alguém da platéia escreve a letra em um papel para ele cantar. Terminada, ele pede pra ficar com o papel, pois não tinha a letra. Claramente viajandão, ele está no melhor da sua verve, da sua retórica gilbertiana (que nem nesse vídeo aqui http://www.youtube.com/watch?v=LfYM3iFG8qU).
Essas estórias saborosíssimas por si só já justificariam a citação desse disco, mas acima de tudo isso, há a música. Muito à vontade entre os estudantes, num show sem roteiro, como não se vê mais, ele vai desfilando canções próprias (Procissão, Expresso 2222, Back in Bahia) e do repertório de artistas que gosta, como Germano Matias (Senhor Delegado), Gordurinha e Almira Castilho (Chiclete com Banana), Dominguinhos (Eu só Quero um Xodó), João Gilberto (que lhe ajudou a entender Eu quero um samba), Clementina de Jesus (de quem ele evoca o espírito em O Sonho Acabou) e mostra consciência da importância e da qualidade da própria obra (“Não vai nenhuma vaidade, eu tô falando de fora de mim, agora. Eu gosto de Domingo no Parque, acho uma música belíssima. Se não fosse minha eu admiraria mais ainda”, fala aos risos, dele e de todos).
Gil dispensa justificativas, mas nesse caso vale um comentário. Caetano tem uma tese que a linha evolutiva da música popular brasileira se deu por meio de artistas que usavam o violão como instrumento preferencial de sua arte: Caymmi, João Gilberto, Jorge Ben e Gilberto Gil. E aqui a gente tem a oportunidade de ouvir o violão de Gil por inteiro, despido e, nesse caso, numa versão às avessas do rei nu, não há vestimenta mais rica. Ele passeia por sambas tradicionais, novos, xote, rock, bossa, afoxé, num largo leque de influências e interesses, todos transformados por sua forma personalíssima de tocar. Mostra em seu violão, na prática, a tese de Caetano. E depois de escutá-lo tocando, fica difícil não concordar com ela.
Luiz Marcelo
sábado, 22 de novembro de 2008
Por Pouco - Mundo Livre S/A (2000)

Como dizia Otto, Fred Zero Quatro é a mistura de Jorge Ben com The Clash. Difícil pensar numa combinação como essa, mas isso só se você ainda não ouviu Por Pouco. A variedade de ritmos (rock, reggae, rockabilly) e o discurso politizado do Clash estão presentes. O samba, bossa, samba rock, suíngue, lirismo, safadeza de Jorge Ben, também. A eles coloque-se uma pitada de Tom Zé e, pensando bem, não poderia haver melhor definição para este disco.
E uma palavra que une as três facetas é ironia. Tapa na cara, mas sem luva de pelica, nos melhores momentos, o disco serve de espelho da mediocridade da vida urbana brasileira do início do novo milênio, inútil, manipulada, que vem e vai no trânsito, no Jornal Nacional, no consumismo, no sonho da casa própria e na gostosa que sonhamos inutilmente um dia comer. Essa desilusão ganha um desenho extremamente sarcástico em Por Pouco, herdeira direta de Inútil, do Ultraje a Rigor, anti-hino da derrota das Diretas Já nos 80. Ela é um retrato do Brasil, o país das intenções nunca realizadas, da bola na trave, o país do futuro só que o ano 2000 chegou e a gente estava na mesma.
“Estamos quase sempre otimistas
Tudo vai dar quase certo
Pois o ano esta quase acabando
Depois de termos quase certeza
Que dento em breve teremos um quase alegre carnaval
Por pouco não trouxemos o penta
Quase acertamos na loto
Quase compramos a casa
Quase ganhamos o carro
A moça da banheira ficou quase nua
A gostosa da praia quase dá, não dá.
Desilusão que já está presente desde a primeira música. Com jeito de manifesto, o Mistério do Samba é imperativo em sua desconstrução de tudo o que o samba não é:
“O samba não é carioca
O samba não é baiano
O samba nao é do terreiro
O samba não é africano”
E por aí vai, como se dissesse, o samba é livre, “não tem mistério”, terminando na conclusão perfeita: “E como reza toda tradição, é tudo uma grande invenção”.
Nesse clima de desilusão, o disco encontra um espaço para o amor, em momentos carinhosos e safados. Que nem Mexe Mexe, composta por Jorge Ben, ele mesmo, que é Jorgebeniana até o último fio de cabelo, sem o menor pudor. Começa com uma levadinha no violão, boa de dançar, devagar, difícil não mexer pelo menos a perna embaixo da mesa. Na sequência vem o Melô das Musas, com um elogio explícito a Wânia, a mulher "com um dábliu maiúsculo, um dábliu formidável, bem maior que minha testa", gostosíssima, saindo do mar e “eu não vou sair daqui sem ver ela sair da água”.
Daí o ritmo acelera forte pra Treme-treme, versão de Shackin’ all over, que vira “se tremendo toda”, rock com clima Clashiano, nervoso. “O seu olhar me comanda e manda eu me mexer. E a tremedeira é rebatida pra você”. É nervosa também na ansiedade dele pela conquista e daí a tremedeira passa pra ela, vira um orgasmo.
E depois da transa, do sexo forte, vem aquela relaxada na cama. Meu Esquema, uma bossa suingada, sopros suaves, a declaração de amor mais masculina que conheço: “ela é meu treino de futebol, ela é meu domingão de sol, concerto de rock and roll, torcida gritando gol, playcenter, pista alucinada, inferninho, esporte radical, poderosa viciante, mas não faz mal, o que meu médico receitou, Rivaldo maravilha mandando um gol, minha chapação”. Lendo assim, parece ridículamente machista, mas Fred Zero Quatro dá a ela uma convicção que muda completamente a maneira como a gente entende cada palavra.
Mas esse é um lado do disco. O outro é o do discurso politizado que apesar de às vezes beirar o panfleto, tem também sacadas excelentes. É metralhadora giratória, e sobra pra todo lado: a violência urbana (“Algo me alvejou, ai, olha o sangueiro irm ão, segura que eu vou cair”, no samba Tomzeniano Super Homem Plus); a sociedade de consumo e o mercado (“O mercado vive em guerra... Não há lugar pra escrúpulos... Cedo ou tarde você vai se entregar ao mundo livre, não adianta, não há como escapar”, de Concorra a um Carro); os Estados Unidos em Lourinha Americana; as mega corporações, a Nike, o Congresso, os governos, os partidos e políticos em Batedores.
Dentro desta perspectiva, Por Pouco é o Cabeça Dinossauro dos anos 90. Retratos do país, cada um em seu tempo mostra quem éramos. O Cabeça, mais explícito em sua crítica às instituições, era raivosamente adolescente, portanto mais inocente, como a democracia, que engatinhava. Por Pouco faz o mesmo, mas com um cinismo de quem está ficando adulto, perdendo as ilusões. Pois é claro que nós crescemos, superamos a ressaca do impeachment, ganhamos a guerra contra a inflação, saímos da faculdade e agora precisamos conseguir um emprego, comprar uma casa e constituir família (lembram do início de Trainspotting?). Se sobrar tempo, quem sabe você não continua indo em busca de seus sonhos? Só que a essa altura você já começou a perceber que aquele futuro brilhante que sua mãe e sua avó tinham certeza que te esperava talvez esteja um pouco mais distante do que você pensava ("Droga, foi por pouco!").
Não é fácil olhar pro nosso lado ruim. O Mundo Livre S/A teve a coragem de fazer isso, olhou o país, mastigou, regurgitou e vomitou Por Pouco em nossa cara. A gente pode até não gostar, mas vai ser difícil não se reconhecer nele. E ainda mais interessante é que apesar de toda a desilusão, o disco termina otimista, com as versões para Minha Galera, de Manu Chao, e de Garota de Ipanema, que exaltam coisas simples, como os amigos, a namorada, a praia. E nisso ele não consegue fugir de ser, ele mesmo, um espelho da contradição brasileira, sempre lidando com problemas que não consegue resolver, sonhando com coisas que não consegue ter, mas sempre otimista, exalando sensualidade e sempre disposto a curtir a vida.
Luiz Marcelo
Minas - Milton Nascimento (1975)
Tarefa difícil elogiar um disco de Milton. Não por falta de talento, que acho indiscutível. Grande voz, sempre bem acompanhado, repertório com diversos clássicos, e por aí vai. O problema é que ele ficou chato, virou uma mala sem alça. Obviamente que falo do artista, pois a pessoa é tão doce e tranquila que acho que qualquer um gostaria de bater um papo, trocar uma idéia. Ele, portanto, está longe de ser um Ivan Lins, porque aí também não dá, o cara é quase imbatível, sendo que eu tô dando o benefício da dúvida, porque não conheço ninguém mais chato.Mas voltando a Milton, depois que ele virou menestrel, cantou pra Tancredo, aquela super exposição, as músicas, sei lá, perdi a paciência e aí acabei esquecendo que o cara teve uma produção excelente antes disso. E por isso, não foi sem surpresa quando fui apresentado a este disco.
Minha reação inicial foi de desconfiança natural, “O mala do Milton?”, mas o disco já começa conquistando de cara com Paula e Bebeto, música incidental que abre e fecha Minas. Linda, com coro de amigos, coral de meninos, vocalizes de Milton, que acompanha tudo com o violão. E mais nenhum instrumento. Bonito demais! Curioso é que Paula e Bebeto, além de seu momento solo, também faz participação especial/incidental em Idolatrada e Saudade dos Aviões da Panair.
Saudade que é palavra chave no disco (e talvez em toda a arte de Milton), porque o disco não é sobre Minas Gerais, mas sobre a Minas de Milton, desde a sua infância no interior à BH do Clube da Esquina, dos Beatles, dos amigos, que em cada música é evocada em imagens, símbolos e lembranças levemente melancólicas, saudosistas, com um quê de triste. Que nem em Ponta de Areia, mais um hino ao passado, lembranças de um lugar e um tempo que não existem mais.
E referências, há várias, como a música sacra, trazida pelo coral, e que fez parte da infância de Milton e mesmo de sua formação como cantor; ao barulho de trem, em Gran Circo; além de vocalizes de Beto Guedes, seu velho parceiro e amigo, que também divide os vocais em Fé Cega, Faca Amolada. E há outros, como costumava ser entre eles: Wagner Tiso em vários teclados e na produção, Nivaldo Ornellas nos sopros, Toninho Horta na guitarra (em excelente forma, às vezes límpida, às vezes torta), todos eles artistas com produção individual respeitada, mas com a humildade de saber ser coadjuvante, ainda mais num disco que preza a simplicidade nos arranjos.
Arranjos que são um dos destaques do disco. Simples, mas sofisticados, essa mistura difícil é típica dos discos de Milton, que conseguiu grandes resultados nos anos 70. Isso fica claro em Norwegian Wood, dos Beatles, que ganha uma versão com belos vocais, divididos com Beto Guedes, uma banda, com guitarra, baixo, bateria e teclados, além de uma orquestra que consegue dar um ar dramático sem cair na suntuosidade. Desde o início percebe-se que é uma música familiar, mas demora até cair a ficha, mérito do trabalho de recriação de um clássico.
Milton produziu grandes discos e este sem dúvida é um deles. Daqueles que, mesmo quem, como eu, não é fã, gostam. Daqueles que são bons, mesmo transbordando todos aqueles clichês de Minas, da vaquinha, o morrinho, o riozinho, o trenzinho. É prova de que não se deve ter preconceitos na arte, para não corrermos o risco de perder belos momentos como os deste disco.
Luiz Marcelo
