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quinta-feira, 30 de junho de 2011

Cena Brasiliense: O Concreto Já rachou (Plebe Rude, 1985)




Brasília, capital da esperança. Brasília dos camelos, dos blocos e quadras, das zebrinhas e tesourinhas. Brasília, o eterno “autorama gigante”. Brasília das siglas. Brasília sem ruas, mas com esquinas. Brasília, fruto do traço do arquiteto. Brasília da seca e dos finais de tarde cinematográficos. Brasília dos centros comerciais, dos muitos porteiros e das pessoas normais.


A capital federal entrou para o mapa da música brasileira na década de oitenta, em meio à onda do rock brasileiro. Após o estouro das bandas do Rio de Janeiro e de São Paulo, foi a vez de Brasília apresentar-se ao mundo. Três bandas da cidade capitanearam o movimento: Legião Urbana (a mais cultuada), Capital Inicial (ainda em atividade) e Plebe Rube, a Suprema Trindade do rock candango. Todas as três formadas por uma garotada que sentia muito tédio na capital, mas era extremamente bem informado sobre música pop – em especial punk, pós-punk e new wave norteamericanos e britânicos.


A Plebe foi criada no início dos anos oitenta. Em sua formação original – eu chamaria de “clássica” – a banda tinha Phillippe Seabra (guitarra), Jander Bilaphra (guitarra), André X. (baixo) e Gutje (bateria). Foram esses quatro garotos que realizaram um dos discos seminais do rock nacional, O concreto já rachou.


Produzido por Herbert Vianna, O concreto... foi lançado em 1985, em pleno início da redemocratização do país. Trata-se, na verdade, de um mini-LP (sete canções em pouco mais de vinte minutos), algo pouco comum para o mercado brasileiro. A experiência deu certo, porém. Mais de duzentas mil cópias foram vendidas entre 1985 e 1986.


A primeira canção é “Até quando esperar”, hino de várias gerações. A música, um petardo, é um libelo contra as desigualdades econômicas e sociais e não perdeu a atualidade, mais de 25 anos depois de seu lançamento. “Até quando...” foi o carro-chefe do disco, tocou do Oiapoque a Jaú e colocou os meninos no miolo da cena musical brasileira, com direito aos Fantásticos e Faustões (que não existia àquela época) da vida. A seguir, “Proteção”, outra porrada de pouco mais de dois minutos. “Tropas de choque, PMs armados/mantém o povo no seu lugar”. Ecos de The Clash e Gang of four no cerrado.


A obra tem ainda as dispensáveis “Johnny vai à guerra” e “Seu jogo” e as fabulosas “Sexo e karatê” (acelerada em estilo ramoniano) e “Minha renda” (com a antológica frase “vou mudar meu nome para Herbert Vianna”). A última canção, porém, fecha o disco com chave de ouro.


“Brasília”, a música, sintetiza a vida na capital. “Brasília tem luz, Brasília tem carros/Asas e eixos do Brasil/Servidores públicos ali”. Duas guitarras toscas dialogam ao longo dos pouco mais de três minutos da canção. Para quem mora na cidade basta fechar os olhos e sentir-se em meio ao ambiente único do local.


Depois, veio a quase inevitável decadência. O álbum seguinte, Nunca fomos tão brasileiros, de 1987, pecou por certa grandiloqüência que não combinava com o punk dos rapazes. A Plebe ainda está em circulação, com nova formação (Clemente, ex-Inocentes, e Txotxa na bateria) mas com o velho pique.


Brasília, por sua vez, segue na velha rotina de muitos porteiros e pessoas normais.


Um rápido PS: a quem interessar possa, o livro O diário da turma 1976/1986 – a história do rock de Brasília, de Paulo Marchetti, conta em detalhes a história da Plebe & companhia.

[XAMPU]

quinta-feira, 17 de março de 2011

20 anos de rock brasil cd 2


Continuamos a apreciação de mais um cd dessa coleção de 4.
O cd2 inicia bem, com a zen-surfista 'Como uma onda' do hitmaker supremo Lulu Santos, em parceria com o onipresente Nelson Motta. Belíssima e cheia de boas sacadas e timbres caprichados.
'Pro dia nascer feliz' foi mais uma música de sucesso do Barão Vermelho, a princípio gravada pelo catador de pérolas Ney Matogrosso. Rock'n'roll visceral e carioca, ponto alto de shows até hoje.
'Uniforme' é uma música fraca do Kid Abelha, que poderia estar melhor representado nesse cd, mas não fui eu que fiz a seleção...
O Ultraje a Rigor aparece com um clássico da new wave brasileira, só que com bateria de verdade. Mais uma letra genial do Roger, música pra dançar nas danceterias (como se dizia nos idos dos anos 80), solinho preguiçoso e interessante. 'Rebelde sem causa': "como é que eu vou crescer sem ter com quem me rebelar?".
'Música urbana', se não me engano - e eu me engano bastante, é uma música do Aborto Elétrico, banda primitiva do trovador Renato Russo, mas aqui vem embalada pela superprodução com metais synth quase cafonas, pianos suingados e aqueles conhecidos 'ô ô ôs' do Dinho. Gosto muito! 'E essa aqui eu dedico ao amigo distante Xampu, ilustre e feliz morador da nossa capital, onde as ruas têm o cheiro de gasolina'. E onde não têm?
Aí chega o Ira!, com uma clássica deles, 'Núcleo base'. Adoro o Scandurra, mas sinceramente nunca gostei da voz do Nasi, então sou suspeito em dizer que pulo essa música.
'Tédio' é uma música interessante e, como muitas da época (como 'Lágrimas e chuva' ou 'Fixação', por exemplo), é uma letra depressiva/obsessiva que devido ao som de festa(?) passa batida. O grande sucesso(??) do Biquini Cavadão!
'Até quando esperar' é das minhas preferidas. Desde o início inusitado com violoncelo passando pelas belas guitarras e aquele riff surpreendente de baixo. Mas acho a letra panfletária e quase chata. E continuo esperando a resenha de 'O concreto já rachou', promessa do Xampu...
'Beat acelerado II' nos lembra da figura deliciosa à frente da brazilian one hit band Metrô, da qual eu infelizmente não lembro o nome.
O grupo feminino e feminista libertário Sempre Livre (ótimo nome; o absorvente é anterior ao grupo? será que elas receberam royalties pela ideia??) aparece com a divertidíssima 'Eu sou free', seu grande sucesso(?), regravada por mais alguém de quem eu não lembro o nome. Se não me engano a Dulce Quental saiu daqui. O interessante é que a música é de co-autoria da global Patrícia Travassos (acho que é isso).
'Só pro meu prazer' é uma das Muitas excelentes músicas do grande compositor Leoni (a já citada 'Uniforme' é dele e do Léo Jaime - olha ele aqui de novo, Mateus), com seu grupo pós-kid Abelha Heróis da Resistência. Poesia musicada ('é tudo real nas minhas mentiras' etc), piano bonito com violão bonito, bateria real emulando bateria eletrônica, guitarra de fundo com ebow, caprichada.
O Zero foi uma das muitas bandas injustiçadas que ficaram pelo caminho, com um bom disco e algumas boas composições esquecidas. Era uma das poucas com um bom vocalista que realmente sabia cantar (além de tocar saxofone!). Além de um guitarrista com sonzaço. 'Agora eu sei' foi bem executada nas rádios pops e rocks, alavancada pela participação especial do pop star Paulo Ricardo. Bela música.
'Tempos modernos' é mais um dos hits do Lulu Santos. Clássico absoluto, foi regravado pela Marisa Monte no disco 'Barulinho bom'.
E pra finalizar o cd duplo vem a banda multi platinada dos grandes tempos de venda de discos, RPM, com uma música do seu segundo disco ('ao vivo'!!), 'Alvorada voraz', com a letra datada e pseudo rebelde. Teria sido melhor se eles tivessem caído de avião, não é verdade? Mas o apelo pop e o sonzaço são inegáveis.
Depois completo com os cds 3 e 4.
(Dão)