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segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Jorge Ben 1969 ou De como eu descobri quem era o anjo

A carreira de Jorge Ben é repleta de renascimentos. Parece que de tempos em tempos as pessoas enjoam dele e na seqüência uma nova geração o descobre e se torna irremediavelmente fã. E este disco marca justamente o primeiro reencontro com o sucesso. Marca também a transição e renascimento para o que seria o som do Ben nos anos 1970 e que mudaria irremediavelmente a música brasileira. Transição que, ao invés de gerar um disco esvaziado, tateante, nos deixou uma penca de sucessos, arranjos memoráveis e sementes para muita coisa boa que ainda viria.

Um pouco de história, então. Após uma estréia arrebatadora, seus discos foram perdendo a força, a inspiração, ficando irregulares. Mas não foi só culpa dele. No final dos anos 1960 o Brasil estava bem diferente. E estranho. O clima zona sul carioca típico da bossa nova havia dado lugar à ditadura, aquartelada na seca e distante Brasília, e o típico maniqueísmo causado pelos regimes de exceção. Super sucintamente, a música de protesto tomou conta de um lado do ringue, enquanto a apolítica Jovem Guarda disputava com ela a atenção do público, que defendia seus preferidos nos festivais. No meio, o Tropicalismo surgiu misturando os dois lados e deixando muita gente confusa.

Se fosse pra classificar Jorge, que nunca foi muito chegado a política, a princípio seria junto a seus amigos de adolescência, Roberto e Erasmo. Mas não é tão simples, assim. Primeiro porque, embora andasse com uma turma que gostava de rock a onda dele sempre foi mais o samba. Depois porque seu jeito diferente de tocar não se enquadrava nem na bossa nova e nem no próprio samba, o que o levava a ser admirado, mas também criticado pelos puristas de ambos os grupos. Segue que ele também incorporaria cada vez mais influências da música negra americana, principalmente do funk, sem falar na percussão africana. Finalmente, os tropicalistas o adoravam e principalmente após esse disco, gravaram várias de suas músicas. Lógico que essas influências todas tiveram impacto em seu trabalho e esse disco é resultante dessa mistura.

O pé no passado fica claro nos arranjos de José Briamonte. Embora muito influenciados pelo que se fazia nos anos 1960, são inspiradíssimos e por si só já valeriam citar esse como um dos grandes discos já produzidos no Brasil. Dentre os meus preferidos estão os de Criola, Bebete Vãobora, País Tropical e Take it Easy my Brother Charles. Já o tropicalista Rogério Duprat introduz o que havia de novo na época e contribui com o clima psicodélico e bem mais experimental de Barbarella e Eu Descobri que sou um Anjo.


Por essa lista de sucessos já se percebe o quão inspirado estava o compositor Jorge, que parecia estar se dedicando bastante a suas musas. São seis ao todo. Começa com Criola; passa pelo amor possessivo em Domingas; o malandro enciumado em Cadê Teresa? e em “tenho uma Nega chamada Teresa”; a musa do sonhos, Jane Fonda, linda em Barbarella; e termina com Bebete.

Mas também há boa variedade temática. Suas contradições mostram a dificuldade inclusive dele próprio em se aliar a um ou outro grupo. País Tropical é uma celebração ufanista que poderia muito bem ser acusada de propaganda da ditadura. Por outro lado, Charles Anjo 45 é sobre o guerrilheiro Avellino Capitani, que na época vivia na clandestinidade. Além da psicodelia (Eu descobri que sou um anjo) e uma citação sutil ao movimento negro (Take it easy my brother Charles), onde ele faz um pedido que luta por direitos civis siga um caminho de paz.

Quanto ao seu violão, as mudanças na batida eram claras. E num arranjo cru, só percussão e violão, o disco termina lançando as bases para o que seria o samba rock. Gravado com o Trio Mocotó, que seriam parceiros constantes nos anos seguintes, Charles Anjo 45 é um show de simplicidade, força, ritmo e abre mil possibilidades que seriam exploradas por Jorge em seus discos seguintes e que nos dariam uma obra de riqueza poucas vezes igualada.

Finalmente, se não são suficientes todos esses argumentos, deixo alguns que pelo menos para mim são definitivos. Esse disco foi lançado no ano em que nasci e durante meus primeiros 5 anos era um dos preferidos. Uma época em que meus pais tentavam manter a coleção de vinis longe da minha pouca habilidade em manusear a agulha. Esforço inútil, porque eu empurrava uma cadeira para, escondido, alcançar a radiola e, assim, arranhar todos os discos que pude, principalmente meus prediletos, o que foi devidamente registrado numa foto que me flagrou com aquela capa colorida com um Jorge Ben psicodélico na mão. Não bastasse, o disco influenciou uma das minhas primeiras incursões literárias, quando aos 10 anos eu estava em dúvida entre ser cientista, astronauta ou escritor...

“O Anjo – 18.08.80
Nessa época eu deveria ter três anos. Todos os dias eu ouvia um disco de Jorge Ben, em que ele cantava: ‘Eu descobri que sou um anjo’. E toda manhãzinha eu ouvia essa música.
Um dia eu e minha mãe fomos à missa e eu vendo uma estátua, perguntei:
- Mainha, o que é aquilo?
- É um anjo, meu filho.
- Ah, já sei! É Jorge Ben, não é?“

Jorge Ben
Universal Music 1969
1. 03:30
Criola Letra Áudio
2. 03:35 Domingas Letra Áudio
3. 03:26 Cadê Tereza Letra Áudio
4. 03:19 Barbarella Letra Áudio
5. 04:16 País tropical Letra Áudio
6. 02:36 Take it easy My Brother Charles Letra Áudio
7. 04:05 Descobri que sou um anjo Letra Áudio
8. 02:38 Bebete vãobora Letra Áudio
9. 03:10 Quem foi que roubou a sopeira de porcelana chinesa que a vovó ganhou da baronesa? Letra Áudio
10. 03:05 Que pena Letra Áudio
11. 04:55 Charles Anjo 45 Letra Áudio

[Luiz Marcelo]

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Gal Costa - Coisa mais linda que existe!





Gravado em 1968 para ser lançado em 1969 durante um dos períodos mais pesados da ditadura militar, o primeiro disco solo da Gal Costa pode estar longe de ser um dos mais marcantes da sua carreira, mas para mim trata-se sim de um registro histórico que merece constar dessa lista, ainda que por motivos pessoais.

Contrastando com o período tenso politicamente, que resultou no exílio dos colegas tropicalistas Caetano e Gil, Gal acaba optando por um disco que ainda cultivava suas raízes tropicalistas, a começar pela direção do maestro Rogério Duprat e temáticas ao mesmo tempo leves e provocativas.

Começando com “Não Identificado”, belíssima canção de Caetano Veloso que também gravou no disco próprio quase que paralelamente (já citado nesse blog), Gal já anuncia sua opção por “fazer uma canção de amor... para gravar num disco voador”. Confesso minha inveja pessoal, pois quisera eu ter a capacidade de compor uma canção de amor para alguém especial.

Em seguida, Gal passeia pelo xaxado em “Sebastiana”, para interpretar em seguida outra canção de Caetano, também gravada por ele no disco contemporâneo: “Lost in Paradise”.

Depois usa as metáforas típicas do tropicalista Tom Zé ao interpretar a aparentemente singela “Namorinho no Portão”, sem abrir mão da crítica velada ao momento político que o país atravessava:
Conheço esta onda...Vou saltar da canoa...Já vi, já sei que a maré não é boa....É filme censurado

Chega de Saudade! Em “Saudosismo”, interpreta novamente Caetano Veloso em uma bela homenagem à Bossa Nova.
Eu, você, nós dois
Já temos um passado, meu amor
Um violão guardado...Aquela flor
E outras mumunhas mais

As próximas marcam definitivamente sua opção pelo tom ao mesmo tempo romântico e provocativo, com a escolha de duas canções da dupla Roberto e Erasmo (que talvez admirados pela interpretação dela, no mesmo ano comporiam “Meu nome é Gal”, canção que marcou a sua carreira em seguida).

Primeiro com “Se você pensa”, uma espécie de recado à pessoa amada que se mantém indecisa:
É melhor pensar depressa e escolher antes do fim
Você não sabe e nunca procurou saber
Que quando a gente ama pra valer
O bom é ser feliz e mais nada, nada.
Recado dado, manteve a linha em “Vou recomeçar”
Não sei por que razão eu sofro tanto em minha vida
A minha alegria é uma coisa tão fingida
A felicidade já é coisa esquecida
Mas agora vou recomeçar
Não vou ser mais triste
Vou mudar daqui pra frente

O importante é a vida aproveitar... e recomeçar.

Atenção menina! ...É Preciso estar atento e forte!
Em “Divino e Maravilho”, de Caetano e Gil, a mensagem está claramente contextualizada. Essa canção inicia a seqüência de três que tornaram-se clássicas dela.

“Que Pena”..ela já não gosta mais de mim. Na canção de Jorge Ben, Gal faz parceria belíssima com Caetano para estabelecer um belo diálogo. O importante, novamente, é a volta por cima em alto estilo ao sair de uma relação:
Mas eu não vou chorar
Eu vou é cantar
Pois a vida continua

Mantendo a dupla com Caetano, segue com “Baby”, clássico incluído nesse disco após o sucesso no disco “Tropicália ou Panis et Circenses”, mas com um arranjo levemente diferente, em que sobressai um som orquestral. Majestoso!
Você precisa saber da piscina
Da margarina
Da Carolina
Da gasolina
Você precisa saber de mim


Em “Coisa mais linda que existe”, de Gil e Torquato Neto, Gal mantém o astral leve e carinhoso na dose certa.

Essa alegria, o perigo
Eu quero tudo contigo
Com você perto de mim (...)
Coisa mais linda que existe... é ter você perto de mim

Considero essa passagem uma pérola: simples, que emociona.

O disco termina com “Deus é Amor” com a batida típica de Jorge Ben, cujo primeiro refrão me
faz recordar passagens recentes na minha vida:
Todo mundo vai embora
Pois a chuva não quer parar
Ninguém mais quer ficar
Só eu, sozinho, vou me molhar.
Mas eu tenho fé... que a chuva há de passar


Enfim... com a sua voz afinadíssima e belos arranjos, esse disco marcou de modo definitivo, para mim, o ingresso da Gal entre as maiores cantoras desse país.
[Paul]

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Um Anticomputador Sentimental (Caetano Veloso 1969)



Selecionar um ou outro disco do Caetano Veloso para compor essa seleta lista não é das tarefas mais fáceis. Entre tantas obras primas, já foram citados o “petardo” Cê (Dão) e Cores Nomes, um “caetano sem gelo e limão” (Mateus).

Como bom gosto não se discute, mas se compartilha, vou dar minha contribuição, incentivado pelo recente show que tive o prazer de assistir no Municipal na semana passada.
Trata-se de “Caetano Veloso”, de 1969, disco que conheci ainda na infância graças ao bom gosto musical da Nati, minha irmã.

Pessoalmente, creio que foi uma versão tropical do conhecido “álbum branco” dos Beatles, lançado menos de um ano antes desse, a começar pela capa igualmente branca (apenas assinatura do músico - pode não parecer, mas a capa está no início do post), passando pela ausência de um nome, até sua própria configuração, com músicas aparentemente contraditórias que travam um interessante diálogo. Mais do que influência, o disco do quarteto de Liverpool pode ter servido como inspiração.

O disco abre com a irreverente “Irene”, que de modo perspicaz, reproduz, ao som da guitarra, a famosa risada que ele tanto queria ver (homenagem à sua irmã). Reparem...

Depois, a melancólica “Empty Boat”, talvez uma das primeiras composições de Caetano em inglês. Embora pouco conhecida, seu belo arranjo consegue transmitir um vazio existencial que tão bem se encaixa em certos momentos da vida (duvido que alguém já não tenha sentido).

O ritmo volta a ficar alegre com o faceiro “Marinheiro Só” com seu bonezinho, repetindo a fórmula nas músicas seguintes: “Lost in Paradise” (outra composição em inglês, na sua preparação para o exílio) seguida pela carnavalesca “Atrás do Trio Elétrico” que dispensa comentários. Só não vai quem já morreu.

O fado lusitano se faz presente com “Argonautas”, que trouxe para camisetas do Brasil todo a frase Navegar é Preciso Viver não é preciso. Ao contrário de que muita gente pensa, o sentido que Fernando Pessoa empresta ao termo “preciso” não tem nada a ver com necessário, mas sim com exatidão. Seria a contraposição da navegação (com regras da ciência exata) com a vida (cujo fim ninguém conhece). Era Caetano às vésperas do exílio.

Na seqüência, interpretação da bela “Carolina” de autoria de Chico Buarque.
Eu bem que avisei, vai acabar, de tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei pra lhe agradar, agora não sei como explicar... só Carolina não viu.

Sensivelmente bela e ao mesmo tempo triste, parece que essa música serviu de inspiração para o batismo de tantas “Carolinas”, que certamente procuram outro destino.

O disco segue com tempero argentino no tango “Cambalache” para emendar com a belíssima “Não Identificado”, uma canção dizendo tudo a ela, que ainda está(ou) sozinho, apaixonado... uma canção de amor! De tão linda, essa música foi gravada e regravada várias vezes (Gal, Bethânia, etc), cada um com uma levada diferente, mas igualmente líricas. No youtube tem um depoimento da mana do Caetano seguida de uma interpretação que faz marear os olhos (http://www.youtube.com/watch?v=sJN_a8dy7kU),

E caso canção de amor não identificado não fosse suficiente para abrir olhos de Carolinas, Caetano não poderia ter se saído melhor na seqüência: Podemos ser amigos simplesmente... coisas do amor nunca mais, interpretando Chuvas de Verão, de Fernando Lobo. Momento sublime.
Para finalizar, quero o que não mereço....o começo, a poesia “Acrilírico”, com a participação do maestro do tropicalismo Rogério Duprat, seguida de “Alfômega”, do amigo Gilberto Gil, que deve ter servido de inspiração para que outro baiano – Carlinhos Brown - fizesse o também elogiado “alfagamabetizado” cerca de 25 anos depois.

Enfim.... só escutando mesmo todo o disco para sentir como essa profusão de estilos, ritmos e línguas que interliga um ie-ie-ie romântico com Carolina dos olhos fundos, passa de trio elétrico para o empty boat e mistura tango com fado produz um resultado tão genial.
[PAUL]

Segue link para baixar o disco: http://link-protector.com/176329/