sábado, 15 de dezembro de 2012
Moacir Santos - Ouro Negro
Um dos maiores da música popular brasileira.
Um dos maiores desconhecidos da música popular brasileira.
Um dos Músicos dos Músicos.
"A benção Maestro Moacir Santos que não és um só, mas tantos, tantos como o meu Brasil de todos os santos, inclusive meu São Sebastião" ('Samba da Benção', Vinícius de Moraes)
Um exemplo do improvável: "transformar um negrinho do interior de Pernambuco, nascido menos de quatro décadas após a abolição da escravatura e órfão aos 3 anos de idade, em um dos músicos brasileiros mais reconhecidos, nacional e internacionalmente, em todos os tempos" (trecho retirado, como vários outros desta resenha, do encarte do cd e do Songbook).
"Tom Jobim dizia que, no Brasil, é proibido ao aborígene sair da taba. Moacir Santos foi um dos que saíram e o Brasil fez desabar sobre seu nome um manto de silêncio. Pois chega de silêncio. Nanã sabe das Coisas e diz que chegou a hora de o Brasil saber de Moacir, reaprender Moacir, merecer Moacir" (Ruy Castro)
Veio do interior para Recife, depois João Pessoa, Rio de Janeiro, Los Angeles, mundo. Você não conhece? Nunca ouviu falar? Envergonhe-se.
"Moacir foi Maestro, por concurso, da Rádio Nacional. Todos os músicos profissionais, naquela época, iam estudar música 'superior' com ele. Era um professor sensacional, meio metafísico, explicava a harmonia, os intervalos entre as notas, as dissonâncias, usando como exemplo as estrelas. Fui estudar com ele essas 'sabedorias', ficamos muito amigos e por causa dessa amizade ele começou a me mostrar as composições que fazia no piano e não mostrava a ninguém. Tocava para mim as músicas e dizia: - Olha essa 'coisa' que eu fiz, escuta essa outra 'coisa'." (Baden Powell)
A palavra 'Coisa' é muito usada pelo Maestro, arranjador, compositor e saxofonista Moacir José dos Santos. Nascido em Flores do Pajeú (na verdade ali foi registrado, o local de nascimento deu-se em local incerto do interior de Pernambuco, entre Serra Talhada, Bom Nome e Belmonte), em julho de 1926 (mesmo ano de Miles Davis e John Coltrane). Entregue a uma família branca 'remediada', teve instrução ginasial e musical, para sorte nossa. Aos 14 anos, dominando vários instrumentos de banda, além de banjo, violão e bandolim, fugiu: Serrânia, Arco Verde, Recife, Catro, Timabúba, João Pessoa, onde se torna sargento-músico da PM, depois integrando a legendária orquestra de Severino Araújo, de mudança para o Rio, onde chega casado com Cleonice.
"Sempre tive o anseio em produzir músicas com a catalogação erudita, como por exemplo Opus 3, Nº 1. Quando Baden Powell foi estudar comigo e me convidou para participar do disco com o baterista americano Jimmy Pratt, na antiga Phillips, o engenheiro de gravação perguntou o nome da música e eu respondi: 'Isso é uma coisa'...Aí me ocorreu a ideia de numerá-las." (Moacir Santos)
Ingressando na Rádio Nacional, RJ, como saxofonista, frequenta bailes também. Mas ao contrário de muitos de seus colegas, estudou sempre e muito, formando-se em Regência e tendo como mestres Cláudio Santoro, Guerra-Peixe, H. J. Koellreuter, de quem mais tarde seria assistente, e Ernst Kreneck, com quem aprende as manhas do dodecafonismo.
"A África não deixa em paz o negro, de qualquer país que seja, qualquer que seja o lugar de onde venha ou para onde vá." (Jacques-Stephen Alexis, poeta haitiano)
Começa algum reconhecimento depois de promovido a arranjador e regente na Rádio, ao lado de Radamés Gnatalli, Leo Perachi e Lirio Panicalli, sendo eleito pelos colegas da Rádio 'o músico do ano'.
Teve muitos alunos conhecidos e reconhecidos na música popular brasileira: Paulo Moura, Sérgio Mendes, João Donato, Raul de Souza, Doum Romão, Bola Sete, Roberto Menescal, Geraldo Vespar, Chiquito Braga, Nara Leão, Dori Caymmi etc, o que o incluiu como um dos patronos da bossa nova.
Paralelamente, o maestro trabalhou com muitas e importantes trilhas para o Cinema Novo brasileiro, entre eles os filmes 'Seara vermelha', 'Ganga Zumba', 'Os fuzis', 'O beijo' e o mais importante, 'Amor no Pacífico (Love in the Pacific)', que lhe trouxe a oportunidade de trabalhar com uma orquestra de 65 excelentes músicos e lhe abriu o mercado internacional, levando-o a se mudar para os EUA, em 1967. Lá, gravou discos solos, um deles indicado ao Grammy, deu aulas e compôs trilhas para cinema (tendo trabalhado até na equipe de Henry Mancini), construindo uma sólida reputação como compositor, arranjador e docente, membro que era da Associação de Professores de Música da Califórnia.
Repito aqui o que já foi merecidamente reconhecido por grande parte da melhor crítica musical: Moacir Santos produziu, nas décadas de 60 e 70, a música popular mais sofisticada e ao mesmo tempo mais enraizada nas tradições afro-brasileiras.
À época do lançamento desse disco, uma coisa que se repetia muito era que a única crítica que o disco merecia era relativa ao título que, por ter sido patrocinado pela Petrobras, poderia remeter ao petróleo e não ao Maestro...
Esse é um disco irretocável, mesmo sendo duplo. As músicas foram recriadas em cima dos arranjos originais, que haviam se perdido quando o selo Forma foi vendida à PolyGram (na época Philips e hoje Universal...), de vários discos: Coisas (Forma, 1965, este que já foi o disco mais valorizado no mercado dos vinis), Maestro (Blue Note, 1972), Saudade (Blue Note, 1974) e Carnival of Spirits (Blue Note, 1975).
Juntamente ou posteriormente (não tenho certeza) foram lançados o Songbook (que eu tenho mas pratico e leio pouco) e um DVD (que encontrei agora no site Livraria da Folha).
Muitos excelentes músicos participam do disco, entre eles Mario Adnet (que também o produziu junto com Zé Nogueira), Ricardo Silveira, Cristóvão Bastos, Marcos Nimrichter, Jorge Helder, Nailos Proveta, Teco Cardoso, Hugo Pilger, Jessé Sadoc, Marcelo Martins etc.
Algumas das músicas receberam letras (por Nei Lopes) e cantores: Coisa nº 8, Navegação (com Milton Nascimento), Sou eu (com Djavan), Orfeu (com Ed Motta), Maracatu, Nação do amor (com Gilberto Gil), Oduduá (com João Bosco), De repente estou feliz (com Joyce e João Donato) e Bodas de prata dourada (com Sheila Smith e Muíza Adnet).
A título de curiosidade, 'Coisa nº 6' tornou-se 'Dia de festa' com letra do Geraldo Vandré, gravada pelo próprio; aqui neste disco está a versão instrumental.
Comentar cada faixa seria uma tarefa muito além da minha capacidade de traduzir esta Música em palavras, além de ficar chato por todos os detalhes musicais, então dessa vez vou transcrever os comentários do próprio Maestro diretamente do encarte.
CD 1:
'Coisa nº 5 - Nanã': "Fico muito feliz de vocês terem gravado a versão original porque foi assim que ouvi e assim que fiz. É uma grande procissão."
'Suk-cha': "Foi uma rosa que ofereci à minha primeira nora que era coreana..."
'Coisa nº 6': "Essa música é uma festa..."
'Coisa nº 8 - Navegação': "A inspiração vem de uma música de Luiz Gonzaga, 'Vem morena' e um tema de filme americano, estrelado por Kirk Douglas, que tinha semelhança com a de Gonzaga. Apenas três notinhas foram suficientes para que construísse o meu tema. Se essas notas me impressionam é o bastante..."
'Amphibious': "Estava viajando de João Pessoa para Recife, era maestro da Rádio Tabajara da Paraíba. Assis tocava trompete na orquestra e tínhamos muita afinidade. Ele me mostrou a primeira parte do tema, que já havíamos batizado de Amphibious e em seguida, fiz a segunda..."
'Mãe Iracema': "É a história de José de Alencar, das duas tribos que estavam em guerra. Iracema flechou um índio rival, no olho, e ele não reagiu quando viu que se tratava de uma mulher. Ela correu para prestar socorro e então isso resultou em um grande amor entre os dois. Quando nasceu o filho ela pronunciou o nome Moacy que, em tupi-guarani, significa 'Oh, filho da minha dor'. Essa música é dedicada a todas as Iracemas..."
'Coisa nº 1': "Foi apenas um truque rítmico, um drible de Moacir Santos..."
'Sou eu [Luanne]': "Esse nome, Luanne, surgiu exatamente onde ele é cantado na melodia. Isso é coisa dos anjos..."
'Bluishmen': "Bluishmen são os negros que, de tão retintos, chegam a ser azulados. Esses são de uma tribo africana que fica na costa, na mesma direção do Ceará. Deve ter sido o mesmo lugar, na época que os continentes eram uma coisa só. A paisagem é a mesma, praias, coqueiros, palmeiras..."
'Kathy': "Foi feita a pedidos para a namorada do Rick, tropetista que tocava na minha orquestra nos Estados Unidos. Apesar do nome ter cinco letras, o fato da música ser em 5/4 é pura coincidência. Coisa dos anjos..."
'Kamba': "Essa foi composta logo que chegamos ao Rio, em homenagem ao nascimento do nosso filho. Cleonice estava na maternidade Clara Basbaum, em Botafogo, e quando liguei para saber notícias, ele havia acabado de nascer. Comecei a cantar esa música no trem, a caminho do hospital. Nessa época, morávamos ao lado de um terreiro, ouvia frequentemente cantos de umbanda, mesmo que não quisesse..."
'Coisa nº 9': "Isso é um lamento.''
'Orfeu [Quiet Carnival]': "Estava dando uma aula numa escola dos Estados Unidos, chamada Nova Music, quando terminei fui para casa e ouvi no rádio uma música que estava no hit parade das 10 mais, uma coisa muito repetitiva. Dessas eu faço uma dúzia na hora! Comecei a compor uma música cheia de repetições, mudando as notas no final de cada frase. Isso fez tanto sucesso entre os músicos, que diziam que ganharia o Grammy..."
'Amalgamation': "Estava começando um curso de música para cinema na USLA, no início dos anos 70 e comecei ese tema naquela época. Adoro quebrar formas tradicionais usando solos ad libtum antes de apresentar o tema. Essa música foi concluída há uns dois anos."
CD 2:
'Coisa nº 7 [Evocative]': "Uma brincadeira pianística..."
'Coisa nº 2': "Antes de ir para São Paulo dirigir a orquestra da TV Record, participei de um curso de música internacional, em Teresópolis. Lá aconteceu um fato simples mas que me impressionou. N passagem entre uma aula e outra, uma moça deixou cair uns desenhos no chão e eu a ajudei a pegar. Ela estudava artes plásticas; começou então a me mostrar seus trabalhos e um deles era a pintura de uma rosa. Ela disse: 'Isso é Villa-Lobos' - apontando para a rosa. Mais tarde, em São Paulo, tive uma sensação parecida ao tocar um exercício simples, em Si Bemol, do Método de Czerny. Lembrei da história do quadro 'Villa-Lobos'. A inspiração veio dessa sensação..."
'Lamento astral': "Nós morávamos ainda em Nova Iorque, no final dos anos sessenta. Uma noite Cleonice passou mal, eu a coloquei no chuveiro e saí desesperado pela rua, atrás de uma farmácia. Foi assim que surgiu essa melodia na minha cabeça"
'Maracatu, Nação do Amor': "Antes de gravar o meu primeiro disco nos Estados Unidos, mostrei ao dono da gravadora Blue Note a trilha que havia feito para 'Amor no Pacífico'. Ele gostou, mas pediu que eu gravasse mais músicas ritmadas, nada tão doce como aquela trilha. Voltando para casa, olhei para o céu azul, me lembrei do Brasil e comecei a cantar essa coisa africana..."
'Coisa nº 4': "Foi como imaginei os negros fugindo das senzalas. A melodia, com as notas longas, significa a esperança..."
'Coisa nº 10': "Essa também é um truque musical..."
'Jequié': "Isso é uma inspiração no modo lídio. Coloquei esse nome por causa de uma viagem que fiz à minha terra natal e passei pela cidade de Jequié"
(nota minha: modos são 7, originados da cada nota escala maior, muito utilizados na Idade Média, antes e paralelamente ao sistema de tonalidades, 'primitivo' mas sempre redescoberto e reinventado; o modo Lídio é aquele que você ouve no tema dos Simpsons, por exemplo)
'Oduduá': "Pr uma incrível 'coincidência' os letristas da primeira versão não sabiam da minha história quando escreveram a letra. Só fui descobrir meu nome completo e minha idade exata na década de oitenta, nos registros da Igraja das Flores. Acho que os anjos contaram a eles..."
trecho da letra:
"Diz, Oduduá, quem sou eu?
Pra onde vou? De onde vim?
Quem me fez voar tantos céus
Navegar, tanto assim?"
'Coisa nº 3': "Fui assistir a um filme francês e ouvi, pela primeira vez, o som das ambulâncias de lá. Voltei para casa compondo..."
'Anon': "Anon quer dizer sem nome, vem de anônimo. É inspirada em uma marchinha de carnaval que ouvi quando era criança, em Recife. Não sosseguei enquanto não fiz alguma coisa com ela. A capoeira apareceu no caminho..."
'Quermesse': "Compus esse tema na época da Rádio Nacional. Paulo Tapajóes era meu amigo e prometeu interceder a meu favor para ingressar no quadro dos maestros. Disse a ele que aceitaria desde que não interferisse nos meus estudos com Koellreuter. Escrevi a melodia para trompa e foi o meu tema para o programa 'Quando os maestros se encontram'. Mais tarde, nos Estados Unidos, transformei na festa que acontecia no pátio da Igreja de Flores"
'De repente, estou feliz': "Esta foi para Cléo, completamente"
'Maracatucutê': "Um tema típico de Moacir Santos que, de vez em quando, aparece na minha cabeça..."
'Bodas de prata dourada': "Esta foi composta em homenagem aos nossos quarenta anos de casados. Achei que talvez não chegasse às Bodas de Ouro"
[Moacir e Cleonice estavam casados há 54 anos em 2001, ano de lançamento deste CD]
Moacir faleceu em 2006.
Faça um favor a si mesmo, ouça!
Links:
Wikipedia
Tese de pós na UESC
(Dão)
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Samba Esporte Fino (ou Carolina) - Seu Jorge
Continuando a 'saga', como disse o colaborador eventual e crítico do nosso blog - o amigo imaginário Baiano, vamos a um caso de especial sucesso, o ex-integrante (e talvez futuro, porque sempre pode haver um retorno) da quase desconhecida banda Farofa Carioca (que, claro, merece um post aqui pelo seu excelente primeiro disco; é único?).
É um bom disco, excelente pra ouvir no domingo no churrasco, inclui bons e criativos sambas, nas suas muitas vertentes (nisso o samba lembra o metal com muitas subdivisões): samba funk, samba de raiz, samba soul, pagode etc etc etc.
Lançado também no exterior, onde teve o nome de 'Carolina', inciou uma trajetória de sucesso do Seu Jorge, incluindo participações em filmes de Hollywood com direito à trilha sonora e tudo. Mas mesmo na parte musical, Seu Jorge é um dos maiores sucessos brasileiros no exterior hoje em dia.
O cara já foi morador de rua, tendo saído dela através do parceiro no Farofa Carioca, o Gabriel Moura.
O nome do cd é sensacional, mesmo os que não gostam do cara ou do disco têm que admitir.
A produção é do boa praça mezzo brasileiro mezzo americano que produziu muita gente: Mario Caldato Jr. juntamente com Seu Jorge e uma faixa (Em Nagoya eu vi Eriko') produzida pelo DJ Zé Gonzales e Daniel Ganja Man (ô nomezinho pala...).
Então, vamos às músicas... Seu Jorge, que de bobo não tem nada, começa pela jóia 'Carolina', samba suingadíssimo, começando tranquilinha só com violão, depois com os metais pegando fogo, num fraseado cheio de síncopa. Além da letra safadinha, cuíca aparecendo aqui e ali, cordas ali e aqui, refrão levanta plateia, um detalhe é que os arranjos e frases instrumentais dos versos vão mudando durante toda a música, assegurando que não se caia na mesmice: muito bom gosto e malandragem, no melhor sentido.
'Chega no suíngue' já se posiciona mais pro samba funk, difícil resistir ao balanço. Ainda tem uns barulinhos de sintetizadores vintage, um toquezinho de modernidade, afinal Mr Caldato tá na área. Os coros femininos mais uma vez levantam o astral.
'Mangueira' é um daqueles típicos samba de exaltação a escolas de samba e/ou comunidades, ou ambos como no caso aqui, que começa até citando 'Alvorada' do Cartola. Mais uma vez guitarras de fundo e voz em vocoder são o toque muderno da faixa. Samba funk maneiro e o duplo sentido 'melhor parada da cidade'...
Chega a vez do partido alto 'Pequinês e pitbull', com citações e semelhanças com o Zeca Pagodinho, sacadas engraçadas e a voz da Velha Guarda da Mangueira.
'Te queria' chega pegando fogo, mais acelerada, com metais mais uma vez travessos e um baixo muito legal, samba funk balançante, com mudanças espertas no andamento.
'O samba taí' é um daqueles sambas que tentam explicar de onde veio o samba ou, como aqui no caso, ra onde ele foi, ou melhor ainda, onde ele está: 'tá no sangue daquele que sabe sambar'. Clássico e tradicional, com direito a uma cuíca malandra e aquele coro das pastoras.
Aqui vem o destoante reggae 'Hagua' (sic), sobre a crescente escassez da água, aquela aboragem apocalíptica que só deve aumentar até o fim do ano de 2012 ou, se as profecias estiverem certas, até o fim do mundo...
'Samba que nem a Rita a Dora', nome infame...começa com uma citação de 'A Rita' e continua desenvolvendo a historinha por aí, citando mesmo o Chico, sambinha gostoso e redondinho. Estranho é um 'sem mais e sem menos' que ele solta lá no meio...
Uma lentinha pra variar, 'Madá' é bonita, com um baixo fretless e um trompete intercalando frases com a voz. Classuda.
'Funk baby' é bem discoteca, com vozes de fundo bem sensuais, meio estranha no disco.
Mais um reggae, 'Em Nagoya eu vi Eriko' é legalzinha. E só.
E para terminar, Seu Jorge traz Carlos Dafé, lenda soul, em 'De alegria raiou o dia', cheia de charme.
(Dão)
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Paulo Miklos, Vou ser feliz e já volto
Prosseguindo a série discos solos, entramos no vasto território de integrantes e ex-integrantes dos Titãs, que inclui este aqui do Sr Paulo Roberto de Souza Miklos, a banda Kleiderman (nunca ouvi este, só um vídeo que passava na MTV) e os bem sucedidos solos Arnaldo Antunes e Nando Reis.
É um disco muito bonito, mais pro calmo do que pro rock raivoso. Com violões em todas as músicas.
Começa muito bem, com 'Vai acontecer de novo', guitarras bonitas cheias de espaço, com licks de ritmo espertos do guitarrista Émerson Villani (que acho que já acompanhou os Titãs), que deixariam o Keith orgulhoso, e isso é uma armadilha pro Mateus, que também gostaria muito da música... Ainda tem a voz luxuosa da Paula Lima na resposta.
"A noite é pra se divertir
Vou ser feliz e já volto
Eu não tenho medo que me achem um tolo
Se quem é feliz parece agir como um louco"
'Mamãe disse...papai disse' continua na calma, com uma parte mais rock no meio.
"Gente que nunca faz o que sempre sonha em fazer
É o pior que pode acontecer: acordar
sem ter lembrança
Nada do que foi o sonho
Papai disse meu filho...
Você parece cansado
Mas tem um brilho nos olhos, meu caro
Mamãe disse querido...
Você está mais magro
Mas tem um brilho nos olhos, o danado"
'Todo o tempo' é mais uma belíssima canção, lentinha, com guitarras viajantes e belas. Aqui temos mais um auxílio luxuoso: uma lap steel guitar a cargo do mestre Luiz Carlini.
Aí o disco dá uma animadinha, 'O que você me diz' é mais rapidinha, com mais uma guitarrinha comentando a música e um sax tenor discreto por Ed Côrtes.
'Hoje' mantém a animação, guitarras com mais peso, um drive leve, mas que faz a diferença no peso. Tem até um vídeo! Com aquele visual loiro da capa do cd e do personagem do excelente filme 'O invasor'.
'Por querer' é um pop gostoso, com sax tenor novamente, mais presente, legalzinha, poderia estar em um disco da banda original.
Volta a calma viajante, com 'Lâmina de vidro'. Guitarras bonitas e com timbres bonitos, com o bônus de um solo de baixo pelo Lee Marcucci, outro que eu acho que também acompanhou o Titãs numa época, além do histórico com o Tutti Frutti, antiga banda de apoio da titia Rita Lee.
'Orgia' é uma música sensacional, letra e música, pra mim o ponto alto do disco. Além de tudo tem a voz da Marina Lima, pra deleite do amigo Zeba, se é que ele vai ter paciência de ouvir...
O tema é recorrente, o querer, que inclui entre outras grandes músicas, 'O quereres', 'O que será que será' e 'Come as you are' (acho até que essa conexão merce um post no blog irmão, 1001 Canções).
"Não tenho nome
Eu tenho sede
Alimenta sua fantasia
Eu tenho fome
Eu tenho em mente
Uma grande orgia
Tudo o que eu mais quero
Você não tem
O que você tem
É só do que eu preciso
Tudo o que sempre quis
Eu não sou
Do que você precisa
É só o que eu sou
Não tenho rosto
Nada do que você possa
Se lembrar depois
Só o gosto
Por essas cenas
Que fazem você vibrar"
'Sem amor' é uma co-autoria do Paulo com o Arnaldo Antunes, mais uma belezurinha.
'Sinos entre os anjos' lembra muito o dedilhado da inédita música 'Desbalada', do meu amigo Mateus, será que ele já tinha ouvido? Música linda mesmo, pop romântico caprichado.
'O milagre do ladrão' (Leo Canhoto/Zilo) é uma daquelas músicas que conta uma looooonga história, no estilo 'Faroeste caboclo'. Aqui Paulo optou por um som bem country/blues, só com violão e dobro (by Luiz Carlini), maneiro! O original era sertanejo, que o Paulo descobriu no disco Clássicos sertanejos, de Chitãozinho e Xororó! Informação esta que eu descobri nesse bom artigo aqui:
http://cliquemusic.uol.com.br/materias/ver/paulo-miklos-nem-sempre-se-pode-ser-feliz
O disco foi produzido pelo Dudu Marote, mais conhecido pelas suas produções mais eletrônicas (Skank e Pato Fu).
A banda também conta com o baterista James Muller.
(Dão)
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Amor pra recomeçar, Frejat
Mais um da série de discos solos de membros de bandas, no caso aqui uma exceção, pois a carreira solo do vocalista e guitarrista se tornou importante, fazendo com que divida seu tempo entre a banda original e a carreira solo, tendo inclusive se apresentado no último Rock in Rio 2011 (surpreendentemente no Rio!) como artista solo. A abordagem é levemente diferente do Barão, mais baladas e sons um pouco mais frequentemente acústicos, mas ainda naquela área pop rock.Os colegas de banda colaboram ativamente, sendo co-autores em várias faixas, principalmente o tecladista e co-produtor Maurício Barros, que atua junto com o saudoso e finado Tom Capone em quase todas as faixas.
Esse primeiro é pra mim o mais interessante, mas os três que eu tenho tem sempre alguma coisa bem legal.
Começa com uns sons meio eletrônicos, o que dá a falsa impressão de ser uma vibe 'Puro êxtase', o que não é real, apesar do uso desse tipo de sons.
Mas a canção 'Som e fúria' (cujo título vem de Shakespeare) é isso, uma canção, boa e forte, com guitarras legais, vozeirão e um refrão pra levantar a galera.
"E não adianta levar o mundo nas costas
a vida é cheia de som e fúria"
'Quando o amor era medo' é linda, letra confessional e bela, leve com slide bonito, bandolim e mais acústica.
"quando o amor era medo eu achava melhor acordar sozinho
quando o amor era medo a vida era andar por entre espinhos"
'Amor pra recomeçar' chegou a tocar nas rádios que ainda tocam pop rock, tem uma letra muito interessante (que tem partes que tenho impressão de que foram extraídas de um poema do Vinícius de Moraes, mas não deram crédito...), (mais) uma baladona pra platéia cantar junto.
"quando vc fica triste que seja por um dia e não um ano inteiro
e q vc descubra q rir é bom mas q rir de tudo é desespero
desejo que vc tenha a quem amar
e quando estiver bem cansado ainda exista amor pra recomeçar"
Belas guitarras e um teminha ganchudo.
'Segredos' teve um video fofinho, de animação meio desenho, mais uma balada bela sobre nossas amadas...
Tem até um solinho de slide bonito além da orquestra dulcíssima com arranjo de Jaques Moerelenbaum.
"e eu vou tratá-la bem
pra que ela não tenha medo
qdo começar a conhecer os meus segredos"
'Eu não sei dizer te amo' é mais uma balada, quase desanima...mas é bonita.
Ainda bem que vem 'Homem não chora', belíssima, cheia de detalhes sonoros, início com guitarrona com phaser (aquele efeito viajante de turbina de avião), alternando com partes de voz e piano e uma letra excelente. Termina com um dos solos mais bonitos do Frejat, muito legal ouvir a vávula fritando no final da música!!
"meu rosto vermelho e molhado
é só dos olhos pra fora
todo mundo sabe
que homem não chora"
A seguinte é bem diferente, um quase samba meio Luiz Melodia, 'Mão-de-obra ilegal', com participação e co-produção do Max de Castro, além do Dé (ex-Barão), Maurício Barros e Peninha.
"eu vi uma mina maneira
andando com um soldado
parecia estrangeira e
eu agora ando armado
o meuirmão morreu
meu primo se perdeu
a minha mãe pariu
e o meu pai sumiu
meu nome é Pimpolho
só conheço o caos
é olho por olho
aqui vencem os maus"
Parceria com Lenine e Arnaldo Antunes! Só pra irritar os amigos que subestimam o Lenine...
'Ela' é balada, claro, mas bem na ambientação 'Lenine', um violão dedilhado com cordas belas, dinâmica com um crescendo no refrão...ouça antes de falar, Baiano...
Um interlúdio carioca ixperto, 'Mais que perfeito', produzida pelo Max, mais suingadinha, com metais a la Tim Maia, guitarrinhas funky, pena que um pouco lentinha demais pro meu gosto.
'Você se parece com todo mundo' (Frejat-Cazuza), que tenho a impressão que já tinha sido gravada pelo Cazuza, é mais uma num clima acústico quase country, com slides e violões, letra amarga.
'No escuro e vendo' (Frejat/ Marisa Monte/ Arnaldo Antunes) é uma lentinha com o mais belo arranjo de cordas do disco por Jaques Moerelenbaum, linda canção, mas completamente diferente do repertório Barão.
'Voltar pra te buscar' é mais uma balada, esta mais rock, com banda (e que banda: Liminha no baixo, o Barão Fernando Magalhães na guitarra, João Barone na bateria e Maurício Barros), além das onipresentes cordas. Acho que o Frejat numa entrevista falou que era difícil resistir às cordas, eu entendo porque eu também sou assim, tenho muitos bancos de samples de cordas e sempre enfio... A música tem uma voz distorcida/processada e um bom solo de guitarra, coisa rara nesse disco.
Pra terminar pra cima, 'Sol de domingo' (Frejat/ Humberto Effe), um rock suingado com a cara do produtor da faixa, o Max de Castro, metais em brasa e mais um solinho de guitarra...
(Dão)
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
O paradeiro de Arnaldo Antunes em 2001
Comprei este disco no embalo dos anteriores do Arnaldo, principalmente Um Som (1998) do qual eu sempre gostei muito. Foi uma decepção. Na época, tentei escutar umas três ou quatro vezes e o disco não desceu, não rolou aquele conhaque Dreher... Engavetei. Anos mais tarde, ouvi uma de suas músicas (nem lembro qual) no rádio do carro. Achei muito boa! Cheguei em casa pensando: Eu tenho o disco com essa música em casa, tenho não? Coloquei o paradeiro pra rodar. E ele não parou...
Agradável surpresa, taí um disco que envelheceu bem... Fui ouvindo e degustando faixa por faixa. O problema (meu) com o disco talvez tenha sido porque o Arnaldo resolveu escapar da sonoridade que ele vinha polindo desde que saiu dos Titãs e que culminou em Um Som. De repente, quando o negócio tava bacana, ele resolveu, em vez de trazer mais do mesmo, (de leve) se reinventar e "andar à beira do precipício"...
Começa pela produção: Carlinhos Brown. Arnaldo desmontou a banda com a qual trabalhava (desmontou em termos porque Scandurra aparece ainda bastante, enquanto que Paulo Tatit e Zaba Moreau, aqui e ali) e juntou-se ao baiano para a empreitada. Na época ele já circulava bastante com ele e a Marisa Monte.
Provavelmente por conta da presença do Marrom, o disco traz uma sonoridade nova no catálogo do Arnaldo. Mais percussivo, mais sons, mais timbres... Sem descaracterizar o som típico da sua voz grave centralizada, enquanto os pequenos detalhes vão orbitando em volta.
Essa Mulher seria a música perfeita se a letra não fosse um lixo. Música é o reino do implícito, do não dito, do sugerido e ele opta por fechar este buraco com a letra. Talvez a sacada foi colocar num formato pop esta letra que beira o panfleto.
A faixa que dá nome ao disco, Paradeiro, é a (minha) melhor música do Arnaldo Antunes solo. Bem, nem tão só, a autoria é dividida com os tribalistas Carlinhos Brown e Marisa Monte. Ela que o acompanha de maneira brilhantemente apropriada nos vocais.
Haverá paradeiro para o nosso desejo dentro ou fora de um vício
Uns preferem dinheiro outros querem um passeio perto do precipício...
Uns vão de paraquedas outros juntam moedas antes do prejuízo
A vida é curta. Curta a vida enquanto ela se encomprida. Sou fã de carteirinha dessa letra. Não lembro na música brasileira de ninguém ter dado esse recado de maneira mais bela, e por incrível que pareça, mais (in)direta...
Se tudo pode acontecer, se pode acontecer qualquer coisa, um deserto florescer, uma vuvem cheia não chover... pode alguém aparecer e acontecer de ser você...
Linda balada, canção delicada... com uma guitarra reversa do mestre Edgard, um belo solo de sax de Roninho Scott, percussão na medida com Mr. Brown e a participação especialíssima de Guga Stroeter no vibrafone.
E já que o paulistoca andava se abaianando, Na Massa é fruto de uma feliz parceria com Davi Moraes (a música já aparecia em seu Papo Macaco). Lembra o pré-axé da Cor-do-som temperada com as guitarras maneiríssimas do Scanda, fazendo contraponto à levada rítmica do próprio Davi...
Debaixo d’água é a música com som disso mesmo. Brincadeira divertida com os nosso paraísos utópicos, debaixo d’água tudo é maravilhoso, mas... tinha que respirar! Seu contraponto é o rap-candomblé Cidade. De novo mostra o Arnaldo quase experimental, falando da cidade, dura realidade.
Cidade sem mar, mas com montanhas de neve de isopor, despedaçado sob o néon amanhecido, ruído de motor...
Mas não tinha que respirar, né? Pelo menos não tem que ter esta preocupação (ainda): respirar é involuntário em meio a este caos... E ainda na trilha da invenção, temos O Mosquito. Um trip-hop semi-acústico. Gosto do som. Desentendo completamente a letra
Parceria de Arnaldo com Paulo Tatit e Sandra Peres, Do Vento já havia sido gravada pela Palavra Cantada num disco parceiro com as histórias de Ruth Rocha. A intenção é (era?) o público infantil, mas essa música é uma obra-prima... Linda melodia, uma letra que é um autêntico poema e o arranjo que canta uma música que já tem tudo, sem acrescentar demais e sem roubar a ênfase no essencial. Comentário embelezante, este é outro ponto alto do disco. Essa música é aquela que eu queria ter feito. E poderia morrer feliz.
Ainda canta Luzes de Paulo Leminski que ficou muito legal numa levada multi-violões... Essa noite vai ter sol é o comentário poético sem juízo de valor sobre a intervenção do homem na natureza na forma de noite. Aliás, depois do vento e da água, reparo que neste disco, Arnaldo trata dos assuntos da natureza de uma maneira não-dogmática, daí a parceria com Carlinhos ter sido extremamente feliz: a banda que ficou no disco anterior tinha uma sonoridade mais urbana, mais rock.
Atenção: essa vida contém cenas explícitas de tédio no intervalo da emoção... Arnaldo adverte já na abertura do disco, em poema musicado de Alice Ruiz. E este disco, quase que um retrato da vida, não poderia ser diferente. Nem tudo é legal (aliás, uma tônica do trabalho do Arnaldo, que gosta de misturar e, enfim, o resultado nem sempre agrada à todos, não é?), temos aqui uns intervalos de tédio...
Escurissíssimo é a música do disco a ser pulada. Hora de pegar uma na geladeira, tempo de ir ao banheiro e deschavear o que tiver chaveado demais... Santa também pode ser pulada, que não fará falta. O disco fecha com Lembrança Vó, que é uma vinheta totalmente Carlinhos Brown. Ficou interessante. No máximo.
Também me decepciona um pouco a versão bossa-nova do super Exagerado mais querido de todos (Cazuza), voz quase que só falada e violão, num formato que Arnaldo Antunes ainda viria a explorar em trabalhos posteriores, e que, cá pra nós, não é seu forte. Uma pena, porque a música é sensacional e merecia mais. De qualquer forma, mostra o cantor trilhando outros caminhos, arriscando à beira do abismo. Fazer o que? O disco é dele, pô!
Com tudo isso, Paradeiro é mais que um disco, é quase um emblema do Arnaldo Antunes. Honesto, livre e vivo.
[M]
sábado, 1 de maio de 2010
Café fresco e quentinho...
Pois é, um disco de chorinho pelo menos dentro de 1001... é o mínimo não? Este Café Brasil pode ser taxado de coletânea (o que na verdade não é), for export (o disco foi encomendado para ser lançado no mercado germânico/europeu) ou seja lá o quê. Pouco importa. Ou talvez até seja for export mesmo para ouvidos brasileiros mais acostumados à avalanche pop-rock que veio nos anos 80. Não entendo lhufas de chorinho e gosto muito pouco de música instrumental. Uma das poucas exceções é justamente o chorinho. O nome também parece não combinar com a música que sugere alegria ao invés de tristeza, talvez sejam os tons agudos do bandolim e do cavaquinho. (while my guitar gently weeps...). Chorinho que tem gosto de manhã ensolarada de domingo no coreto da praça. Acho mesmo o chorinho mais interessante que o samba e, infinitamente superior a tal da bossa nova. Se o samba fosse uma feijoada, o chorinho seria a couve.
Ah, o disco. A idéia é simples. Uma seleção de clássicos do choro (e não parece que qualquer chorinho é realmente clássico?) representado por seus maiores compositores, Jacob do Bandolim, Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Benedito Lacerda, Waldir Azevedo, Chiquinha Gonzaga, Paulinho da Viola... E de quebra uma seleção de intérpretes que não deixa dúvidas, misturando a virtuose instrumental de Altamiro Carrilho na flauta, Henrique Cazes no cavaquinho, Joel do Nascimento no bandolim, Rildo Hora na harmônica, Maria Teresa Madeira ao piano e claro, e nem poderia deixar de ser diferente, o Conjunto Época de Ouro; artistas que vão se revezando entre as faixas e que são acompanhados aqui e ali por intérpretes que não são tipicamente ligados ao choro como Marisa Monte, Martinho da Vila, João Bosco, Leila Pinheiro e Sivuca.
Os destaques são muitos. Onde sopra Altamiro Carrilho a felicidade é plena, e aqui ele toca em duas faixas. Especialmente em 1 x 0, choro do velho Pixinga, o dueto com o sax de Carlos Malta é de tirar o fôlego. Sarau para Radamés, choro de Paulinho com o próprio no cavaco e Rildo Hora na harmônica; Onde Andarás, de Caetano Veloso e Ferreira Gullar traz Marisa Monte fazendo o que sabe melhor: cantar. Mas o que ficou o chantilly deste café (se a vó fizesse chantilly pra pôr no café) é Sivuca sanfonando
[M]
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Noites do Norte ao vivo - Caetano Veloso (2001)

Pára de ondular, agora, cobra coral:
a fim de que eu copie as cores com que te adornas,
a fim de que eu faça um colar para dar à minha amada,
a fim de que tua beleza
teu langor
tua elegância
reinem sobre as cobras
não corais.
Caetano Veloso é fruta que perfuma com cor absoluta.
“Noites do Norte ao vivo” é mistura do velho com o novo - faz do velho o novo e o novo ainda mais novo. E celebra algo muito especial: música é um universo aberto onde se pode mexer, mudar, pôr e tirar - absorve transformação. A música pode ser um mar antes navegado, mas em que, a cada viagem, você pode descobrir uma parada nova. Isso é de uma liberdade incrível.
Na voz de Caetano muita gente aparece em “Noites do Norte”. Todos gente de primeira: Gil, Jorge Ben, Lulu Santos, Tom Jobim, Waly Salomão, Luiz Melodia, Carlinhos Brown. Aparecem também aquelas pedras preciosas perdidas: Alain Tavares e Gilson Babilônia.
É um disco sem rumo, vai parando em vários portos, enfrenta águas mais ou menos turbulentas, mas é um disco fundamentalmente brasileiro e tropicalista. “Noites do Norte” permite misturas, permite interferências: fala da gente, das nossas heranças, do nosso jeito de amar, do nosso jeito de ser e de fazer rock e da nossa língua.
Parte da África na procura de explicação com a linda “Zumbi”, “Noites do Norte” ou a rápida “Sugar cane fields forever”. Mas na procura a nau se perde nas águas profundas do amor com a obra-prima de quase todos os tempos “Nosso estranho amor”, com a doce e deliciosa, dessas de cair de paixão, “Mimar você”, com “Dom de Iludir” funkeada – Caetano aí é perfeito na mistura de águas – com “Caminhos Cruzados” e finalmente com “Magrelinha”, que naquele amontoado de palavras, torna a poesia puro ecstasy.
Num rock profundo com muita percussão, música que eu queria pra mim, Caetano volta do fundo com “Tigresa”, maravilhosa. “Tropicália” que contém a agressividade sonora do rock surge para provar que o velho continua novo e ainda repleto de sentido. E do fundo surge também a nova “Rock’n’Raul”. Essa eu adoro e dispensa qualquer comentário.
Na marola, “Menino do Rio” chega com mais balanço, “Gatas extraordinárias” malandraça total e “Menino Deus” que fecha “Noites do Norte” já na praia, com sensação de missão cumprida.
"Você provocou
Tempestades solares no meu coração
Com as mucosas venenosas de sua alma de mulher
Você faz o que quer
Você me exasperou
Você não sabe viver onde eu sou
Então adeus
Ou seja outra:
Alguém que aguente o sol"
[ANDRÉA]
domingo, 19 de outubro de 2008
modnoC kcalB (Condom Black - Otto - 2001)

O branco que se pinta de preto, o branco que se emaranha nos sons negros. Esse é o Otto no CONDOM BLACK (2001).
Não dá pra começar a falar do cd sem falar do encarte: é um visual meio vermelho-preto-esfumaçado, meio sex shop, meio demoníaco, meio candomblé, meio cidade do Recife. E com muita inspiração e batuque de primeira, ele transforma essas imagens em música.
As músicas falam também de amor, mas no Condom Black não tem espaço para o amor puro, no Condom Black só cabe o amor carnal, aquele que dilata, aquele que procria.
O cd abre com “Dilata”, música com batida e vocabulário eletrônicos que com o vocal de Luciana Mello e um trompete discreto e delicado dão ao som um suingue e um charme todo especial.
Aí os Orixás começam a entrar em cena em “Anjos do Asfalto”, com o aviso de Exu dizendo que é melhor você se salvar! Música gostosa de ouvir, com um batuque manso e constante. Girando para a próxima, caímos na “Armadura”. O que eu adoro nessa música são as rimas, as palavras não convencionais para contar a busca da felicidade e do amor - “Armadura buracos de fechadura/ não tape mais, mulher/ a tua alma nua”. E sempre com um fundo eletrônico, melodioso, circular.
Aterrissamos em Cuba. Os sopros nessa música dão um sotaque caribenho incrível! Aqui mistura tudo: América do Sul, Caribe, Brasil, Cuba, rap, Xangô, Iemanjá, Papa. Um caldeirão tão familiar pra gente. E Cuba foi o nosso grande amor… A Babilônia e que se tudo aquilo é uma farsa, então disfarça…
Em “Dias de Janeiro”, “Londres”, “Por que” e “Retratista” (minha favorita...) o Otto acalma e volta a falar do amor de uma forma dilacerada, com uma poética maliciosa, quente, musical, ritmada, aérea e com perfume de rosa. Sempre com vozes femininas abafadas, porém muito vivas. É de uma sensibilidade muito masculina essa insistência do Otto em usar vozes femininas na música dele. E isso é uma característica também do “Sem Gravidade”, seu último disco (2003). Ele parece não conseguir falar de amor sem ter a contrapartida da mulher, como num jogo erótico.
O Otto vai pra rua com “Street Cannabis Street” e quando escuto essa música imediatamente me vem à cabeça a versão de um Bob Marley do século XXI, algo ligado ao futuro e que a gente deve perder o medo. É uma celebração de coisas que podem trazer prazer - cannabis, sêmem e as crianças. Tudo isso de uma maneira bem da rua, de sarjeta. Lindo!
E termino aqui falando de “Condom Black”, - resultado de todo o amor que o Otto foi cantando, batucando e nos eletrizando ao longo do cd. De tudo que é gostoso - do pau, do cu e da boceta, alguns dos personagens que habitam nossas vidas e nossas fantasias. E ele dá o último respiro e canta o maior presente: “o filhim” dele com a preta, fruto do amor das misturas: do preto com branco, do eletrônico com batuque, da natureza com a cidade e do homem com a mulher. Isso é o condom black!
[ANDRÉA]
sábado, 13 de setembro de 2008
Todo carnaval tem seu fim? (Bloco do eu sozinho - Los Hermanos - 2001)




