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sábado, 14 de maio de 2011

e depois do Sepultura...

Soulfly, Prophecy

...veio o Soulfly, banda do dissidente Max Cavalera, vocal e guitarra base da antiga banda.

Na verdade, esse nem é o primeiro álbum, é o quarto, mas como é o meu preferido, será o primeiro por aqui.

O trabalho de Max pós-Sepultura foi muito mais experimental, utilizando mais percussão e se misturando com muitos outros tipos de música, tais como rap, música eletrônica, mpb, metal industrial, world music (eufemismo para músicas de países 'estranhos'), música instrumental e, no caso específico desse álbum, reggae e música sérvia. Essa referência já aparece na capa, com referência ao Leão de Judá e também nos agradecimentos, onde Bob Marley aparece.
Aqui também há um misticismo que junta Rastafáris, deuses gregos, umbanda, Antigo Testamento e cristianismo.

A mistureba quase esquizofrênica aparece em quase todas as músicas e entre elas também, que diferem muito entre si mas, inesperadamente, o disco tem uma unidade na figura de Max, que também toca cítara, berimbau e é o produtor.

A faixa título começa com um barulho que remete à música eletrônica em loop, mas deve ter sido feita com um whammy ou outro oitavador em cima de uma nota da guitarra. Quando entra a banda é como se os portões do inferno se abrissem. Não é heavy metal típico, pois tem o tempo todo uma percussão tribal, por conta de Joe Nunez e Meia Noite, que dá uma cara mais original a todo o álbum. No meio ocorrem muitas mudanças, inclusive um break com cítara sobre uma base de guitarras pesadas e uma parte bem mais acelerada. O final tem uns vocais fantasmagóricos que já emendam com a segunda música, 'Living sacrifice', mais metal e reta, mantendo o peso e os vocais rasgados, mas trazendo um refrão mais quebrado. Mas o break do meio da música é um dos mais legais da história da música pesada, com várias guitarras se cruzando de um jeito muito interessante. Ainda tem uma outra passagem, mais percussiva (num ritmo de baião) e com 'atmosfera' e vocais falados, emendando num final pesado. Diferente, mas sem ser chato. Quer dizer, meus amigos aqui não são muito fãs de metal, fazer o quê? E os que gostam de metal, acharão o disco estranhíssimo.

Respira um pouco e segue com a porradaria 'Execution style', alternando momentos mais rápidos com passagens mais tipicamente metal, além de um solo cheio de tappings e outros malabarismos guitarrísticos.

'Defeat u' é thrash metal típico do estilo Max, curta e grossa.

'Mars' é uma das melhores, pela letra sobre o deus da guerra, pelo refrão sensacional, pela percussão mais uma vez além do metal.
"I am Mars, the God of war,
you bow to me like you did before"
Então o clima muda totalmente, entram violões de nylon e barulhinhos atmosféricos, a música se transforma num som quase acústico e mais pro fim num reggae inesperado e herege (pros bitolados do metal, que até hoje esperam a volta do Max pra antiga banda). Como diria o colaborador sumido Xampu 'Gêêênio'...

'I believe' inicia com uma guitarra limpa e cheia de efeitos, pra depois emendar na típica porradaria esperada. No meio aquelas mudanças extremas, com sons mais calmos, vozes corais de fundo e a voz falada de Max. Muita dinâmica, às vezes demais. Não é som para fracos de coração nem portadores de ouvidos frágeis.

'Moses' muda a dinâmica, começando bem lenta com metais latinos típicos de ska e vocais de dub-reggae, alternando com passagens mais pesadas e gritadas, desembocando num refrão quase reggae-pop com bateria quase new wave (!!) e retornando ao clima reggae com sopros. Parece estranho, mas funciona, o trabalho de arranjo e mixagem deve ter sido insano. Aqui há a participação dos Eyesburn, que acho que deve ser uma banda de reggae/dub.

Falando em participações especiais, o disco traz Danny Marianino em 'Defeat U', Asha Rabouin em 'I believe' e 'Wings', além de 5 faixas com o excelente ex-baixista do Megadeth David Ellefson.

'Born again anarchist' podia ser um típico punk hardcore, mas como tem aquela percussão atípica foge ao esperado, além de mais uma mudança radical com sons percussivos e teclados ambientes.

'Porrada' não é cover dos Titãs (o Sepultura gravou 'Polícia'), começando com uma vinheta com violões de nylon e depois começando - agora sim - um hardcore na velocidade de luz e uma letra em português totalmente dispensável. Tem uma passagem no meio estranha, quebrada com uma voz falando umas coisas incompreensíveis, e termina com uma batucada de samba.

Um cover do Helmet, banda de metal industrial, 'In the meantime' é uma grata surpresa, principalmente pelo fato de ter ficado bem legal, apesar de toda quebradeira da música.

Como se tornou tradição nos discos do Soulfly, o disco traz uma instrumental calminha, 'Soulfly IV', muito bonita, que é seguida por uma também bela música inteirinha calma(!), 'Wings', com vocais femininos da já citada Asha Rabouin.
E termina com uma vinheta sem nome que parece música de circo!

Um disco variadíssimo, muito legal, que, claro, foi muito malhado pela imprensa metal... Tolerância elástica minha, dirão os detratores.
(Dão)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

No Paraíso... Céu (2004)


Que a música brasileira é cheia de grandes cantoras, belas vozes, elegantes, sensuais, e de muito bom gosto não é novidade. Mas quando uma nova cantora aparece com repertório novo, banda nova, cara nova, tudo novo, e de muito boa qualidade é sempre uma delícia. É o caso da Céu, que apareceu com este disco homônimo de 2004, onde a mistura da tradição, violão, cavaquinho, pandeiro e percussão típica do samba, com a modernidade de scratches e loops eletrônicos convive com tamanha suavidade que mal se percebe a inusitada mistura.


Em Lenda, Céu canta suavemente uma ameaça a príncipe encantado: num instante você vira sapo. É ela quem manda, e já avisa de saída. O choro Malemolência é executado com scratches acompanhando cavaquinho, e em Roda ela adverte caiu na roda ou acorda ou vai rodar... Lúcio Maia (ver posts anteriores, sobre o Futura da Nação Zumbi) é convidado para tocar guitarra nesta faixa. Rainha é minha música predileta, coincidentemente é a única que ela assina sozinha a composição. A música é levada por um baixo hipnótico que comanda o ritmo da seção percussiva e o naipe de metais. O refrão em forma de pergunta-resposta é um primor e na música toda, Céu contrapõe força e suavidade magistralmente.


10 Contados é um lamento acústico (na harmonia, porque o ritmo é recheado de loops eletrônicos) de saudade, bem-humorado e Céu faz voz e contracanto, ficou lindo! Segue Mais um Lamento, de saudade como o anterior, só que mais sóbrio. Neste “mais um lamento entre tantos já feitos”, Céu é mais mulher que a criança-adolescente do anterior. Concrete Jungle é um dos dois covers do disco, e ficou sensacional. Céu mais uma vez suaviza a Selva de Concreto e a ginga lenta do reggae fica mais suingada, mais abrasileirada aqui. Lúcio Maia, de novo, ajuda nas guitarras ao lado parceiro e produtor Beto Villares.


Véu da Noite é quase um jam session da banda já que o verso da música é mínimo. Uma concessão justa, já que a música ficou excelente, muito bem temperada na seção rítmica e com o balanço certo de guitarra, teclado e sopros. O chorinho Valsa pra Biu Roque vem em seguida, apresentando um formato mais tradicional só de voz, violão e bandolim. Ave Cruz é uma queixa, meu deus faça o favor de retornar o recado... o meu cabelo insiste em acordar despenteado. Até pra se queixar ela mantém o bom-humor. Essa aparentemente foi a música de rádio do disco, que apesar da roupagem eletrônica é um samba.


De João Bosco e Aldir Blanc vem O Ronco da Cuíca, que ficou excelente nesta roupagem moderna, mostrando que o caminho que seu som indica encaixa muito bem na tradição da MPB. O disco termina com o sambinha Bobagem e o delicioso Samba na Sola, um elogio ao povo brasileiro, antes de uma versão remix de Malemolência. A foto da capa ilustra o primeiro verso de Bobagem: minha beleza não é efêmera como o que eu vejo em bancas por aí... Só essa foto já vale o disco. [MATEUS]


quinta-feira, 30 de outubro de 2008

LENINE IN CITÉ (parte I) - 2004


Lenine está realmente incitado neste disco. Incitado a dizer o que pensa e sente a toda a voz, descarregando toda sua energia em acordes, ritmos e melodias pra lá de inspirados. Gravado durante uma curta estadia de apenas dois dias no cité de la musique em Paris, durante a primavera e 2004, Lenine reuniu um power trio distinto para conduzir este show. A cantora e violonista cubana Yusa assumiu o baixo fretless de cinco cordas enquanto que a percussão ficou por conta do argentino “baiano aussi” Ramiro Mussotto. O formato (que consagrou entre outros, Hendrix e seu Experience, Clapton e o Cream) apesar de não ser muito usual quando se fala de MPB, se revela ideal ao longo do show, onde o trio exibe um entrosamento de veteranos. Nesta formação, ao vivo, o som fica mais cru, despido de efeitos típicos de estúdio (nada contra...) e assim a ênfase é mais nas canções. O que no caso de Lenine, convenhamos, é uma grande vantagem (eu lembro que comparei a formação de power trio com os deuses da guitarra dos anos 60, onde, apesar das ótimas canções do Cream e de Jimi, muitas vezes a ênfase era deslocada para o virtuosismo dos músicos, principalmente ao vivo). Aqui ele apresenta uma seleção de ótimas canções inéditas mescladas com alguns sucessos e releituras de discos anteriores.

Gostaria muito de escrever sobre as músicas como os posts de Infernal, Condom Black, Ao Vivo em Estúdio, Por Onde Andará Stephen Fry?...., de “dentro pra fora” e não ao contrário, mas acho que não consigo! O disco começa com uma sonoridade diferente daquela que era (então) típica em Lenine, com Do It, que é calçada num poderoso riff que Lenine leva no violão e, de cara, o power trio mostra o cartão de visitas. A letra desta música é um caso à parte:

Ta cansada? Senta
Se acredita, tenta
Se tá frio esquenta
Se tá fora entra
Se pediu agüenta...


Pode, à primeira vista, ser creditada a uma discussão de casal onde ele contra-ataca as reclamações dela, mas, ao longo da música (que não tem refrão, sendo somente uma sucessão de versos do tipo destes na primeira estrofe) esta impressão transcende a queixa em direção a todos os que costumam se queixar e apenas se queixar como se estas fossem suficientes para a resolução de seus problemas, numa atitude típica da classe média. E a advertência é clara: se foi falta, apite! Lenine começa incitado.

Segue o disco com Vivo, uma balada Leniniana com uma letra lindíssima e melancólica, (se) apresentando (com)o ser humano precário, provisório, perecível... Uma suposta redenção vem no final: E apesar... o que mais vale a pena é estar vivo. Lenine volta com toda a força, inspiração, energia e transpiração em Ninguém Faz Idéia, a melhor música do disco na opinião deste que escreve. Aliás, minha música favorita de todo o repertório deste bolchevique dos trópicos.... Como Do It, esta música é parceria de Lenine com Ivan Santos, que caprichou aqui. Mais uma canção sem refrão (o que a torna menos pop e mais difícil) onde o desfile de malucos e donas de casa, putas, babalorixás, de encanados, divertidos, a vanguarda e quem fica pra trás dá um colorido especial à canção que se baseia num ritmo contagiante levado pelo trio que, aqui sim, descobre um caminho mais alternativo para o formato se afastando da melodia e harmonização típica do blues-rock. E o recado completa a descrição do “vivo” dada na canção anterior: “ninguém faz idéia de quem vem lá”. Mas esse post já se prolonga e estou apenas na terceira música, vamos em frente!

A alternância entre baladas e pegadas tem seqüência com Todos os Caminhos, que sugere deixar uma brecha para surpresas e improvisos que complementam com graça nossos projetos de vida... A primeira das releituras deste disco, nunca foi tão atual: Rosebud (ou o Verbo e a Verba), música tirada de Falange Canibal (de 2002) antecipava então o crack das bolsas de 2008:

O verbo gastou saliva de tanto falar para o nada,
a verba era fria e calada.
O verbo não soube explicar depois,
porque foi que a verba sumiu.

E o (mini-)refrão coloca precisamente: Dolores?! Dólares... Onde as interrogações e exclamações vão por minha conta e podem ser lidos perfeitamente de outras formas. O samba “Virou Areia” poderia ser apenas uma canção ecológica, mas vai além disso perguntando:

Cadê a voz que encantava a multidão?
Cadê o passado, o presente a paixão?
Cadê a muralha do imperador?
Virou...
... areia


(E curiosamente esta canção vem na seqüência de Rosebud, o que coincidentemente lembra que a verba também virou areia, e que o verbo deve ir pelo mesmo caminho). Areia que simboliza a ausência de vida e que escapa suavemente pelos dedos....

[continua no próximo post... MATEUS]