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sábado, 3 de janeiro de 2015

"Eu Menti pra Você", Karina Buhr


Cantora, compositora, percursionista, atriz, desenhista, ativista, enfim, Karina Buhr é uma artista completa. E como se não bastasse, os dois discos da sua carreira solo são tão bons que foi difícil escolher qual deles seria primeiramente selecionado para entrar nesse blog. 
Depois de muito escutá-los, resolvi falar sobre o primeiro. Com perdão do trocadilho, eu mentiria para você se dissesse que ouvi esse disco na época do seu lançamento, em 2010.  Não me recordo ao certo como que fui descobrir a Karina Buhr, mas creio que foi em 2012 através da internet e posso afirmar que foi paixão à primeira vista.
Baiana de nascimento, crescida em Recife, Karina Buhr é daquelas que se entrega de corpo e alma ao que faz. Embora eu ainda não tenha tido a oportunidade de assisti-la ao vivo (aguardo-a em Curitiba), já pude constatar em vídeos que seus shows são espetaculares. Sua música é carregada de energia. Seu suor, solidifica, vira pó.
Com currículo recheado de diversas manifestações culturais, em 1997 Karina Buhr formou a banda Comadre Fulozinha, com a qual gravou três discos[1]. Esse rico histórico certamente contribuiu para que seu disco solo de estreia já apresentasse uma sonoridade tão marcante, combinando canções ao mesmo tempo bonitas e fortes. Mas vamos ao disco em questão:
Depois de abrir com a canção que batiza o CD, na qual o sotaque pernambucano agrega muito à música e demonstra toda sua singularidade, o disco segue com a original “Vira Pó”, para emendar numa canção que é, para mim, uma das suas melhores: Avião Aeroporto.
“Porque o corpo humano tem a resistência perfeita
Se bate de leve, dói, bate de com força, mata”
Além de uma letra contundente, a música tem uma batida que nos remete ao mangue beat. No youtube tem algumas versões dessa canção nas quais ela dá um verdadeiro espetáculo. Recomendo a gravação no programa Na Brasa, com a participação da guitarra singular do Edgard Scandurra: https://www.youtube.com/watch?v=cltr2yXbn0M
“Dorme antes do míssil passar
Daqui a um segundo Eu posso não ter mais você
Você não mais que isso”
“Nassíria e Najaf” nos emociona ao falar do universo de crianças que vivem nessas duas cidades iraquianas fortemente bombardeadas durante a guerra do Iraque. Infelizmente, esse tema se mantém na Palestina, Afeganistão e outros tantos lugares, tornando a música tragicamente atual. Seu clipe é tocante: https://www.youtube.com/watch?v=aPx5e4BVlWI
O disco segue brilhantemente com “O Pé” e “Ciranda do Incentivo”, canção na qual é faz uma paródia com o mercado fonográfico:
“Eu não sei negociar...eu sei no máximo tocar meu tamborzinho e olhe lá...”
Depois vem “Telekphonen”, música experimental em que ela insere uma letra em alemão. Som completamente diferente, mas que vale a pena escutar. Nessa canção, ela faz uso do Theremin, instrumento musical eletromagnético criado pelo russo de mesmo nome, cujos sons são obtidos com movimentos da mão. Interessante.
Depois o ritmo diminui, sem perder o tom crítico em “Mira Ira”:
“Tá tudo padronizado
No nosso coração
Nosso jeito de amar
Pelo jeito não é nosso não
Tá tudo padronizado”
O ritmo volta a subir em “Soldat”, o verdadeiro poema cantado em ritmo punk-rock. Depois vem as igualmente boas “Esperança Cansa” (minha fúria odiosa já está na agulha) e “Solo de Água Fervente”.
“Essa tarde dourada que traz
felicidade pras pessoas normais”
“Bem vindas”, a penúltima canção, é mais uma que tem uma letra inspirada, mas dessa vez com um ritmo mais lento, quase como se fosse uma canção de ninar. Excelente.
“Hoje eu não tô afim
de corre-corre e confusão
eu quero passar a tarde
estourando plastico bolha”
O disco encerra com a criativa “Plástico Bolha”, afinal quem nunca quis passar uma tarde estourando plástico bolha.
Enfim, trata-se de um disco impecável do começo ao fim, que traduz muito bem a sua energia. Um som desses para nos encher de esperança de que não está tudo padronizado nos nossos corações.

PS: para escutar, conhecer, ouvir, sugiro entrar no site dela, de onde se pode baixar ou comprar o disco:
http://www.karinabuhr.com.br/discos 
[Paul]




[1] Karina BUhr participou de rodas e côco e ciranda em Pernambuco, e integrou bandas como Eddie, Bonsucesso Samba Clube, Dj Dolores e Orchestra Santa Massa (com Erasto Vasconcelos e Antônio Nóbrega).

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Marcelo D2 canta Bezerra da Silva


Depois do dia do samba, 02 de dezembro, fazemos a nossa singela homenagem a esse gênero que agoniza mas não morre, principalmente a recriações como a do próprio D2, que o misturou ao rap (ou mesmo ao som mais pesado, como no primeiro disco do Planet Hemp).
Aqui ele é bem reverente ao Mestre da Malandragem, Bezerra da Silva, não misturando nada e mudando bem pouco as letras.
A capa é uma adaptação de uma do próprio Bezerra, do disco 'Eu não sou santo'...em vez de revólveres, como no original, aqui D2 usa microfones.
Não tem muito o que comentar sobre as músicas, são do repertório do Mestre Bezerra, que na verdade pouco compunha, garimpando as pérolas que gravava nos subúrbios, onde encontrava excelente compositores.

Começa muito bem, 'Se não fosse o samba'. Eu ainda prefiro nesse caso o original, que começa só com o vozeirão do Bezerra, mas vale muito a homenagem.
"E se não fosse o samba
quem sabe hoje em dia eu seria do bicho.
Não deixou a elite me fazer marginal
E em seguida me jogar no lixo"
(esclarecendo, 'do bicho' no dialeto carioca não quer dizer necessariamente ligado ao jogo do bicho, e sim ser marginal, do crime etc)

Seguindo vem muitas outras boas (claro que sinto falta de algumas geniais, como 'Bebeu demais' e 'Tem coca aí na geladeira'): 'Partideiro sem nó na garganta' e a genial 'A semente'.
"Meu vizinho jogou
Uma semente no seu quintal
De repente brotou
Um tremendo matagal (Meu vizinho jogou...)
Quando alguém lhe perguntava
Que mato é esse que eu nunca vi?
Ele só respondia
Não sei, não conheço isso nasceu ai
Mas foi pintando sujeira
O patamo estava sempre na jogada
Porque o cheiro era bom
E ali sempre estava uma rapaziada
Os homens desconfiaram
Ao ver todo dia uma aglomeração
E deram o bote perfeito
E levaram todos eles para averiguação e daí...
Na hora do sapeca-ia-ia o safado gritou:
Não precisa me bater, que eu dou de bandeja tudo pro senhor
Olha aí eu conheço aquele mato, chefia
E também sei quem plantou
Quando os federais grampearam
E levaram o vizinho inocente
Na delegacia ele disse
Doutor não sou agricultor, desconheço a semente"

(dialeto do Bezerra: patamo é aquela van antiga da polícia, o 'veraneio vascaína')

Mais na sequência: 'A necessidade' (cantada com alguém que não consegui descobrir no encarte, acho que é o  Leandro Sapucahy) e 'Bicho feroz', que um amigo insensato ou provocador já cantou (como músico contratado!!) numa festa de policiais...
"Você com revólver na mão é um bicho feroz
Sem ele anda rebolando e até muda de voz
( Isso aqui...cá pra nós )"

'Quem usa antena é televisão', 'Meu bom juiz' e 'Malandro rife' mantém a bola no alto, Bezerra merece.


'Pega eu' é um bordão muito usado 'nas internas' entre nós colaboradores do blog como provocação, mas a música é sobre um ladrão que se arrepende ao entrar num barraco de alguém muito pobre e aqui vem ela sorridente e quase igual à original.
"Eu não tenho nada de luxo
Que possa agradar um ladrão
É só uma cadeira quebrada
Um jornal que é meu colchão
Eu tenho uma panela de barro
E dois tijolos como um fogão
O ladrão ficou maluco
De vê tanta miséria
Em cima de um cristão
Que saiu gritando pela rua
Pega eu que eu sou ladrão!"

Pra completar a manjada 'Malandragem dá um tempo' ("vou apertar mas não vou acender agora", você conhece...), 'Minha sogra parece sapatão' (engraçadíssima, menos pras sogras), 'Na aba' ("na aba do meu chapéu você não pode ficar, meu chapéu tem aba curta, você vai cair e vai se machucar", sobre os pidões e folgados), 'Saudação às favelas' e 'Pai véio 171'.
Pra finalizar vem uma dedicatória do Marcelo ao Bezerra, um ídolo que se tornou um amigo e figura paterna, só com uma batucada ao fundo, expondo sua saudade e como está o mundo desde que ele se foi, em 2005. Ao final, parece que D2 realmente se emociona. Tocante.

Em homenagem aos compositores quase desconhecidos que o Bezerra e o Marcelo cantaram, segue a lista das músicas com seus autores:
"Se Não Fosse o Samba" (Carlinhos Russo/ Zezinho Vale)
"Partideiro Sem Nó na Garganta" (Franco Teixeira/ Adelzonilton/ Evaldo Gouveia)
"A Semente" (Felipão/ Roxinho/ Tião Miranda)
"A Necessidade" (Jorge García)
"Bicho Feroz" (Claudio Inspiração/ Tonho)
"Quem Usa Antena É Televisão" (Celsinho Funda da Barra/ Pinga)
"Meu Bom Juiz" (Beto Sem Braço/ Serginho Meriti)
"Malandro Rife" (Ary do Cavaco/ Otacilio da Mangueira)
"Pega Eu" (o Supra Sumo da Honestidade) (Criolo Doido)
"Malandragem Dá um Tempo" (Popular P./ Adelzonilton/ Moacyr Bombeiro)
"Minha Sogra Parece Sapatão" (Roxinho/ Tião Miranda/ 1000tinho)
"Na Aba" (Trambique/ Paulinho Correa/ Ney Silva)
"Saudação as Favelas" (Pedro Butina/ Sergio Fernandes)
"Pai Veio" (Luiz Moreno/ Geraldo Gomes)
"Caro Amigo Bezerra" (Marcelo D2)   

Produção de Leandro Sapucahy

Fontes de informação:
Discoteca nacional
Revista Época

(Dão)                                                                                                                                                 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Viola extrema - Moda de rock


Hoje, pra variar, um pingo de bizarrice e uma colherada de metal!
Esse projeto é muito legal, formado por dois violeiros, que já participavam do grupo Matuto Moderno, "uma banda que já toca o som caipira com uma pegada rocker: viola caipira com pedais de distorção, slide, teremim, o que puder ser utilizado para dar uma roupagem moderna e pessoal no som". Muita coisa estou copiando mesmo daqui:
http://www.modaderock.com.br

Antes uma discussão sempre produtiva, mais pela pergunta frequente do que pela impossibilidade de resposta definitiva: o que faz um disco ser brasileiro e, por consequência, poder ser postado aqui?
Em primeiro lugar, já aviso: vou postar aqui o que eu quiser. Isso aqui é para diversão, minha e de todos os colaboradores, principalmente. Se alguém gosta, ótimo; senão, foda-se.
Mas voltando à pergunta, já incluí aqui o do Tom com o Sinatra, e justifiquei pelo fator 'o que', tocavam música brasileira, bossa nova ou standards da música americana com arranjos próximos da bossa, o que os aproxima do fator 'como'.
Que também está presente aqui, afinal tocam viola. Mas também há o fator 'quem', os caras (Ricardo Vignini & Zé Helder) são brasileiros, o que justifica por exemplo todos os discos do Sepultura.

Esse fator 'como' será retomado em breve num dos discos mais bizarros que tenho em casa, e que, provavelmente, mesmo assim com muitas dúvidas, só agradará ao Mestre X, porque gosta de punk e ironia. Aguardem.

Outra coisa é que esse foi o primeiro disco virtual que comprei via itunes! Quase dez doletas...devia ter pesquisado e comprado o cd mesmo.

Então vamos ao disco, dessa vez sem comentar faixa por faixa pra não entediar o Baiano: trata-se de várias canções de rock, hard rock e heavy metal que fazem parte do histórico de quase todo metaleiro dos anos 80, interpretadas com muita fidelidade, mas pela sonoridade, ficam às vezes irreconhecíveis pra quem não é obcecado e conhece todas os riffs e frases:

1. Kashmir (Led Zeppelin): perfeita, o Jimmy Page até tem uma viola e uma craviola, ficou linda mesmo (acho que vou comentar faixa por faixa...);

2. Master of Puppets (Metallica): essa versão acho até que o Mateus vai gostar mais do que da original, detalhista ao extremo, foi a que me motivou a postar o cd hoje, ouvindo e viajando na beira da piscina ontem de manhã (é, não trabalho todo dia, graças a Deus...), ao mesmo tempo a levada é bem violeira mas as linhas de guitarra são iguais!!

3. Norwegian wood (Beatles): mais uma que tem tudo a ver, começa com uma introdução meio livre e depois segue a original, sonoridade meio oriental, que também tem a ver com as violas;

4. In the flesh (Pink Floyd): essa acho a mais estranha, a eletricidade faz falta, mas de qualquer jeito ficou bonita;

5. Kaiowas (Sepultura): uma das poucas com mais improvisação em cima da base original, é a única com alguma percussão, por conta do 'palmeado e sapateado de catira' do Edson Pontes;

6. May this be love (Jimi Hendrix): essa ficou lírica, tem um arco  (aquela paradinha que usam pra tocar instrumentos de corda eruditos, viola, violino etc) no comecinho, cheia de virtuosismo;

7. Aces high (Iron Maiden): mais uma extremamente fiel às linhas originais de guitarra, mas o mais legal são as levadas aceleradas de viola;

8. Mr Crowley (Ozzy Osbourne): lindona também, explicita as raízes clássicas do Randy Rhoads, guitarrista do Ozzy na época dos primeiros discos, mas a levada é bem típica de viola, mesmo os solos estarem extremamente fiéis ao original;

9. Smells like teen spirit (Nirvana): uma das menos fiéis, demora-se pra reconhecer, mas quando começa a melodia não tem como não cantar junto; o solo é mais improvisado também, provavelmente pra fugir do original, que repete a melodia;

10. Hangar 18 (Megadeth): ficou com cara nova, bem legal e fiel às dobras de guitarra e levadas rápidas alternando com partes lentas;

11. Aqualung (Jethro Tull): termina bem o álbum, também fiel às guitarras, com as violas fazendo até aquela virada de bateria do começo, maneiríssima.

O legal, entre outras coisas, é que o disco é em estéreo total, você ouve uma viola de cada lado!!! Zé Helder no canal esquerdo e Ricardo Vignini no direito, dobras no centro em Kashmir, com participação especial de Renato Caetano no centro em Aqualung.

Produzido pelo Ricardo e mixado no Abbey Road!

(Dão)

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Efêmera - Tulipa Ruiz (2010)


Voz quente e marcante, afinada e afiada, sonoridade lúdica: Tulipa Ruiz, a novidade que veio dar à praia.

Sua música traz elementos inusitados, temas cotidianos tratados de maneira diferente, arranjos improváveis. “Efêmera” está cheio de referências – umas reais e outras imaginadas por mim.

Um cd pra lá de inventivo, super gracioso, dando aquela impressão de que tá todo mundo curtindo estar lá, fazendo aquele som.


Sem dúvida o cd traz na mochila muita Tropicália, mas junto tem muito da Vangarda Paulistana também – tá no sangue, já que seu pai, Luis Chagas, foi guitarrista do Isca de Polícia…

Mas também tem psicodelia, tem a alma da Rita Lee e muito de Tulipa, que compõe quase todas as canções.


“Efêmera” abre com som rasgado e regado a sopros e delicadeza. Dicção precisa, sotaque paulistano e amigas ao redor: Tulipa Ruiz está muito bem acompanhada com as vozes de Céu e Thalma de Freitas.

“Do Amor” é sem pressa, como uma estória bem contada deve ser. E de repente uma surpresa! A música fica imensa, cheia de vida. Uma explosão. Uma tradução única do amor. E depois a música se recolhe e você volta à terra…

“Pedrinho” é safada. Começa como quem não quer nada e vira um sonzão cheio de malícia. Roquenroll com uma bateria e guitarra que me lembra muito “The Truth Is In The Dirty” de Karen Elson com Jack White.

Muito boas mesmo, as duas!


Em “A Ordem das Árvores”, Tulipa Ruiz swinguinifica Gil! Deita e rola em tudo que a Tropicália nos deixou de melhor. Descontraída, do avesso, a ordem das árvores não altera o passarinho!

Música deliciosa.

“Sushi” é linda. Músicafalada, estridente, certeira. Uma espiral de palavras e de sons que te embala numa viagem oriente.
“ Então, vem, chega mais perto

Devolve já meu coração

Que tal sair desse aperto

E decretarmos solidão a dois”


Um caso à parte – “Brocal Dourado” – psicoldelia e dancing days total. Artesanato musical. Astral e ritmo adequado para cabeças alteradas. História de amor bordado à mão e mix de sambinha, pedal valvulado.

“Da Menina” é Rita Lee nas suas viagens femininas. É toda uma estória: música-ritual que só a quase- mulher é capaz de decifar e reconhecer-se nela. Trilha sonora para as Marinas…

“Só Sei Dançar Com Você” é circular e envolvente. O som te teletransporta e te conta da parceria perfeita: a loucura conduzida suavemente e transformada num balé singular e a dois. “Só sei dançar com você, isso é o que o amor faz”. Maravilhosa, um jogo de esconde-esconde.


“Efêmera” medita sobre as palavras e permanece para sempre: Anti-Efêmera.

[ANDRÉA]

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

"Confraria da Costa", 2010...para não ficar à deriva




Quase todo mundo tem algum amigo que faz parte de uma banda local. E é muito comum que, em nome da amizade, a gente acabe indo aos shows e até comprando (ou ganhando) discos, mas não é costume dar muita atenção. Há alguns anos conheci Marcello, um arquiteto-guitarrista que tinha uma banda chamada Gato Preto. Nunca tinha escutado antes, mas arrisquei a ir a um show em Curitiba. E devo confessar que me surpreendi positivamente com a banda e o show: um som vigoroso, diferente e sobretudo, original.

Desde então, além de amigo, virei fã do grupo que há cerca de um ano passou a se chama “Confraria da Costa” e gravou um CD excelente com o mesmo nome.

Misturando sons de guitarra, baixo e bateria com bandolins, violinos e flautas, o Confraria abre o disco com “Homo Tudo Sapiens”, cuja introdução puxada pela flauta lembra o som do Jethro Tull. Letra original, irônica, cheia de trocadilhos: não há nada que homo não sapiens responder.

O ritmo pirata que caracteriza tanto esse som intensifica-se nas faixas seguintes com “Coisas piores acontecem no mar” e “À Deriva”, em que o violino do Jan não só dá o ar de sua graça, como é responsável por uma introdução matadora: Quem te deixou neste mastro à deriva sabia nada de navegação.

Na 4ª faixa, “És Cadavérico”, destaca-se, junto com a voz rouca do Ivan, o bandolim do Marcello Stancatti. Trata-se de uma das canções mais marcantes que levanta o público cativo durante seus shows, principalmente em Curitiba, onde tive oportunidade de testemunhar.

Como a vida de pirata não é só alegria, momentos de isolamento também são retratados, como em “Confidencial”: tranque a porta da minha casa..depois preguem as janelas...por um tempo eu acho ... vou me ausentar. Tempo para respirar...

A seguir, o “Canto dos Piratas” reforça mais ainda o espírito dos marujos. Difícil desassociar esse som com o balançar de um copo de rum ao ritmo de uma nau: A vida é cruel, e foge veloz, Ela vem lentamente, cala nossa voz, Cega nossos olhos, não tem pena de nós, Ela quer que nós, juntos, fiquemos tão sós. Outro detalhe interessante dessa canção, muito bem reparado pela Carol (também conhecida como minha namorada), é que as estrofes do refrão alternam-se ao melhor estilo de Construção, de Chico Buarque. Genial!

Sempre há uma carta embaixo da mesa, sempre há uma carta fora do lugar. As apostas entorno dos jogos de cartas ou de um tabuleiro de xadrez também têm vez no ritmo dos marujos, assim como as trapaças que rodeiam esses jogos em “Embaixo da Mesa”.

A letra de “Certamente a mente mente” traz consigo, ao som encorpado que além dos por trombone, trumpete e saxofone, uma mensagem mais poética.

Em “caravela estelar”, o bandolin e o violino ocupam novamente lugar de destaque com uma sonoridade que nos faz viajar pelo mares negros.

O tom (waits) lamurioso e solitário de “Confidencial” volta com força em “Réquiem”. A influência do músico americano de voz rouca e composições intrigantes fica mais aguçada com o som de Trombone de Raule Alves. Só não perguntem quando eu vou voltar.

O disco fecha com outra canção que se tornou um clássico do Confraria da Costa desde o tempo em que se chamavam Gato Preto. “Não abra essa caixa com cobras” tem talvez o refrão mais conhecido e cantado por todos os fãs que acompanham os shows dessa banda. E a flauta ao melhor estilo Ian Anderson tornou-se uma das marcas dessa música.

Pela originalidade acompanhada de um som marcante, trata-se muito mais do que um daqueles grupo de amigos. Eu me arriscaria dizer que é uma espécie de gipsy-punk-rock, que mistura influências de Gogol Bordello, Jethro Tull e Tom Waits (não é a toa que sua imagem se faz presente na bela capa) com letras em português, em uma referência aos sons de piratas. Fui claro? Não?! Ainda bem... assim quem sabe levanta mais curiosidade a respeito. Basta abrir os ouvidos para o novo e certamente qualquer ouvinte de bom gosto também se tornará um fã.

Enfim... fazendo jus ao som pirata, o Confraria da Costa disponibiliza, oficialmente em seu site, o disco para baixar gratuitamente, sem frescuras: http://www.confrariadacosta.com.br. Acesse, baixe...e boa viagem.

[Paul]

sábado, 9 de outubro de 2010

Lero Lero - Luísa Maita (2010)


misto de tédio e mistério

meio dia / meio termo

incerto ver nesse inverno

medo que a noite tem

que o dia acorde mais cedo

e seja eterno o amanhecer

(misto de tédio e mistério – leminski)


Luísa Maita era um mistério. Lero Lero chegou nas minhas mãos no agosto gelado de 40 anos. Misto de mistério sem tédio. Uma poesia que só fui desvendar no agosto quente da Mountain Avenue.


E o cd foi se revelando devagarinho, na paz, como toda música ouvida pela primeira vez merece ser tratada. Abrindo com a sossegada Lero Lero, com voz de algodão acompanhada de um violão de batida marcante, Luísa Maita à vontade canta as coisas invisíveis e indizíveis da amizade. Uma música cantada em códigos. Códigos do olhar, da rua, da intimidade.


E assim segue, o cd todo desliza como se estivesse numa corda bamba. Os passos são lentos, mas a leveza e a graça são essenciais na travessia. É assim que eu escuto Lero Lero – a aspereza tratada com fragilidade.


O repertório é cheio de fatos cotidianos – amor, motoboys, uma pessoa andando de bici, o mar. É a simplicidade transformada em poesia do dia-a-dia: e tem um samba ali, uma música eletrônica aqui, uma cuíca lá e uma viola do outro lado. Luísa Maita em Lero Lero coloca notas musicais na rotina de São Paulo. As cores aparecem, mesmo na aparente ausência de cor. O caos gris flutua e se transforma numa viagem.


O som parece artesanal, saído de um ateliê. Lero Lero é cheio de conversas paralelas, de velocidade, de alegria, de rastros jamaicanos. “Onde é que aquilo ia dar/ E o medo vinha devagar/ Mas o desejo de sonhar tomava conta lugar”.


Lero Lero é um pedido de água, de trégua. É a poesia extraída de uma constelação nova. Supernova.

[ANDRÉA]