Ok. Poderia começar a falar da Maria Rita por aquilo que ela não é: Elis Regina. O que deveria ser óbvio, muitas vezes tem que ser lembrado pela marolinha de desaprovação gerada com o lançamento deste seu primeiro disco, afinal as comparações (e apelidos, Maria Grita, Maria Irrita...) foram inevitáveis. Ok de novo. Suponha que fosse apenas mais uma cantora nova. Qual é o ponto de partida, quais são as influências para uma carreira que se inicia? Ora, sempre há um ponto de partida... Mas ela é filha da Elis, cantora gigante, mito da música brasileira... E também é filha, lembremos, de grande parceiro, maestro e arranjador da Elis, César Camargo Mariano. E porque ela deveria desprezar esta herança? Porque ele deveria se deixar influenciar pela Joanna ou pela Marina Lima ou outra miríade de mediocridades? Afinal a implicante adolescência e negação dos pais é uma fase que já passou de concorde e foi pra beeeeeem longe... (graças a deus!)
O fato é que a Maria Rita é uma delícia. Um tesão de mulher. Sua voz é extremamente erotizante e eretizante. Horas em que é pura malícia, que vai te levar pela mão e ensinar novos segredos, rebolados, ritmos, compassos, descompassos, taquicardias e respirações... Horas em que é menina, corpo nu a ser explorado, conquistado, apreciado e degustado à exaustão...
Isso que eu nem falei de música ainda! Ou falei? Afinal, música é o quê? Senão amor, sexo, e uns 10% de algumas outra coisas... Maria Rita não canta. Maria Rita te canta. É uma sereia, e eu não quero ser Ulisses, eu quero é cair no mar e não sair nunca mais, quero ser dela e ela minha, que eu me afogue e vire um personagem da saga de Jack Sparrow, pouco importa...
Tom Capone produziu esta jóia e, de maneira muito inteligente privilegiou o arranjo instrumental mínimo: bateria (Cuca Teixeira), baixo acústico (Sylvinho Mazzuca) e piano (o campineiro de Barão, Tiago Costa). Gratos somos, esta escolha realça a voz e o erotismo de Maria Rita. (Sou louco por ela, não vou conseguir terminar esta maldita resenha). Na escolha do repertório, a velha guarda vem com Milton Nascimento e Rita Lee (o que, mais uma vez vai lembrar demais a Elis, mas aqui uma nítida vantagem: nada de Ivan Lins!) misturada a novos talentos (outra coisa que a mãe adorava fazer), Marcelo Camelo e Lenine; e compositores menos conhecidos do grande público (Nonato Buzar, Paulinho Tapajós, Jean e Paulo Garfunkel, Renato Motha, Cláudio Lins...).
Se o disco abre com A Festa de Milton, O teu corpo moreno / Vai abrindo caminhos / Acelera meu peito / Nem acredito no sonho que vejo / E seguimos dançando / Um balanço malandro / E tudo rodando / Parece que o mundo foi feito prá nós / Nesse som que nos toca... logo vem Maria Rita Lee dizendo Agora Só Falta Você! (eu, Maria Rita? Diga logo, só falta eu?).
Esta aliás é uma aula de como reinventar uma música. Uma das minhas favoritas no imenso e fantástico repertório da rainha do rock, aqui foi genialmente desfeita e recosturada no formato flower trio (repare no pulso do baixo, a bateria sendo escovada e os precisos comentários do piano genial de Tiago), onde o fio que conduz à versão original é exatamente a melodia cantada levemente desacelerada, maliciosa, como quem quer e não vai entregar, Maria transforma em jogo de sedução o que era canção de desabafo da outra Rita...
Trilha de abertura de novela das oito (Encontros e Despedidas, Nascimento e Fernando Brant, de um disco bem mediano do mineiro na virada dos 80-90), Ritmos latinos (Dos Gardenias que ficou célebre no Buena Vista Social Club), Blues (Que é uma pena / Mas você não vale a pena / Não vale uma fisgada dessa dor...), Samba (Cara Valente, de Marcelo Camelo) e a mistura única rock-baião-frevo-funk acelerado na Lenínica Lavadeira do Rio, mostram que Maria Rita é pau prá toda obra e que Deus dá asas à sua cobra (como canta em Pagu, feminista e feminina parceria Lee-Duncan)...
Marcelo Camelo aliás, parecia estar fazendo a cabeça da intérprete por essa época já que foi contemplado com nada mesos que três composições neste seu disco de estreia. E neste Cara Valente a ala xiita do fã-clube da Elis se arrepia, pois os trejeitos, os timbres, a malícia, tudo faz parecer que Chico Xavier é quem estava no estúdio...
Além desta, Santa Chuva e Veja Bem Meu Bem completam o trio Los Hermanos no disco. E cá pra nós, as duas versões (não conheço Santa Chuva em outra voz...) são muito superiores às originais. Em especial esta última, uma linda canção sobre a solidão:
Veja bem, meu bem / Sinto te informar / Que arranjei alguém / Prá me confortar / Este alguém está / Quando você sai / Eu só posso crer / Pois sem ter você / Nestes braços tais...
Veja bem, amor / Onde está você? / Somos no papel / Mas não no viver / Viajar sem mim / Me deixar assim / Tive que arranjar / Alguém prá passar / Os dias ruins...
Enquanto isso / Navegando eu vou sem paz / Sem ter um porto / Quase morto, sem um cais /
E eu nunca vou / Te esquecer, amor / Mas a solidão / Deixa o coração / Neste leva-e-trás...
Veja bem além / Destes fatos vis / Saiba: traições / São bem mais sutis / Se eu te troquei / Não foi por maldade /
Amor, veja bem: Arranjei alguém chamado saudade!..
Ah, Maria Ritah...
[M]