Mostrando postagens com marcador 1998. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 1998. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Mestre Ambrósio - Fuá na Casa de Cabral (1998)



Naquele Brasil antigo / Perdido no desengano / Seu Cabral chegou nadando
E não preocupou com nada / Deu ordem à rapaziada / Mandou varrer o terreiro
"Me chame o pai do chiqueiro / que hoje eu quero forró, / Toré, samba, catimbó / Que eu já virei brasileiro-ô-ô-ô..."


Mealembro vagamente das comemorações dos 500 anos de descobrimento do Brasil. A ideia era de festa, mas o pau comeu e houve protestos em muitos locais e ocasiões. Hum, vejamos nós aqui que esse negócio de povo festeiro, sem consciência sóciopolíticaeconômica que 14 anos depois surpreende os fãs do megafutebol patrocinado pela tal de FIFA já aflorava...

Eita disquinho bom esse segundo do Mestre Ambrósio (que segundo o Wikipedia é banda de manguebeat?)! Banda efêmera, átimo, como diria nosso tamborista zé tatu. Três discos e se acabou. O primeiro saiu independente. Mais forte no conteúdo que na produção, algo que neste segundo já é aprimorado.

Vimos o Mestre aqui num mês frio qualquer em Curitiba (surpresa?), no antigo forró do vasquinho. Palco pequeno, quase de colégio. A plateia se espalhava pela (ex-)quadra poliesportiva do (ex-)clube. Nos cantos, vendia-se cerveja, caldinho de feijão e mocotó. Calamengau era uma espécie de nome coringa, aplicava-se ao espaço e a banda anfitriã da casa. Se não me engano, criada e gerida pelo “Ceará” que vi tocar sanfona com a camisa do Santa Cruz, vai entender (bem, pode ser minha memória que me apunhala pelas costas).

Oh-oh, sim, o disco! Mestre Ambrósio é, ou era neste disco, principalmente Siba (rabeca, guitarra, voz, letra e música). Siba não é de muita concessão, se arrepiaria torcendo o nariz para o supra-citado verbete da wiki. Siba curte mesmo é o som do interior de Pernambuco, do nordeste, música matuta (como atesta a autobiográfica Pé-de-Calçada). Forró pé-de-serra calçado na sua rabeca, já veja aí a diferença. Mas, a parte estas questões sociológicas, antropológicas, musicológicas ou outras lógicas quaisquer (das quais eu só começo a entender depois da terceira ou quarta ampola), a música deles é boa pra cacete! Siba tem um vozeirão potente, toca(ava, pelo menos no Calamengau) uma Gibson SG cristalina e tinha essa coisa de “forrabeca” que eu nunca tinha ouvisto antes. A faixa que dá nome ao disco, por exemplo, é a sua cara.

Mestre Ambrósio aproveita a oportunidade de, dispondo de melhor estrutura refazer três temas do álbum de estreia. Pessoalmente, não penso que tenha sido essencial. Mas o Mestre não é só Siba. São três percussionistas, Éder “o” Rocha, Sérgio Cassiano (que também dança e canta, num timbre e estilo completamente diferente de Siba), Maurício Alves e eventualmente Helder Vasconcellos (que também empunha o fole de 8 baixos) e mais o baixista Mazinho Lima. A formação pode sugerir algum paralelo com a Nação Zumbi, mas a realidade passa looooonge. Apesar da inclinação regionalista do conjunto, o som é mais variado (mesmo sem incluir o óbvio rock) e a percussão acompanha.

Neste Fuá destacam-se ainda Sêmen (Como posso saber de onde venho/ Se a semente profunda eu não toquei?), Pescador (Já faz tempo que eu sai de casa / Pra viver no mar), Os Cabôco que homenageia o carnaval de Olinda, e Chamá Maria (Toda noite é assim  / Toda festa é assim  / ... / Um brabo bate, um mole apanha / E o pagamento é que é ruim / ... / O fole emperra, a voz arranha / Eita, pisada sem fim!).
Ainda sairia um ótimo Terceiro Samba, menos Siba e mais Hélder e Sérgio Cassiano, e depois disso Siba se mandou para a Fuloresta e eu perdi o contato. Enquanto isso, o tempo passou e nada ficou mais atual que a última estrofe do Fuá:


Mas na hora da verdade
Quando passou a cachaça
Seu Cabral sentou na praça
Caiu na reflexão
Disse: "Esta situação
sei que nunca mais resolvo!"
Então falou para o povo:
"Juro que me arrependi
o Brasil que eu descobri
queria cobrir de novo!"



[M]

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

ACÚSTICO BABY DO BRASIL (1998)



Então, continuando com o clima praiano e discos solo, prosseguimos com Baby, antes Consuelo, agora evangélica e Do Brasil.
Esse é um acústico atípico, porque não traz agregado ao título MTV que, ao que parece, não é proprietária do formato nem da palavra 'acústico'.
Animado e variado, o disco tem um pique de ao vivo mesmo, com aqueles gritinhos ridículos e tudo.
E uma banda de luxo: Lincoln Cheib (bateria e percussão), o saudoso Nico Assumpção (baixo) e Nelson Faria (violão).
Baby e Pepeu permaneceram no recém postado Novos Baianos até 1978, quando os dois decidiram sair e se dedicar a suas carreiras solo.
'O que vier eu traço', música que inicia o cd, vem justamente do primeiro disco solo da niteroiense Baby, emendando num medley ou pout-pourri alucinante com 'Apanhei-te cavaquinho/ Baião/ Samba do ziriguidum'.
Depois vamos pro repertório baiano, 'Farol da Barra' (Galvão/Caetano Veloso), num climinha bem leve e solto.
Sai pra bem longe da praia depois: 'Sampa', numa versão bem suingada e cheia de breques, com direito a solo de violão.
“E os novos baianos te podem curtir numa boa”
Voltando para a praia e prosseguindo no Caetano, vamos de 'Menino do Rio', uma homenagem ao carioca Petit, surfista e praticante de asa delta, composta especialmente para ela cantar para a trilha da novela 'Água viva', que meus amigos de blog (dizem que) não veem... É uma versão bem jazzistica, mas mantendo aquele arpejo inicial característico da música.
Brasilsilsil: 'O samba da minha terra' emendando com 'Aquarela do Brasil', em versões bem legais, animadas e cheias de gás e ufanismo, inclusive com ela fazendo a galera gritar 'Brasil'...
Esse medley é inusitado: 'Mania de você' e 'Is this love', mas combinou, ou melhor, mixou bem!
Essa é de autoria da Baby, linda linda: 'Um auê com você', cheia de brisa praiana...
Vamos de Gil agora: 'Esotérico', que começa bem solta e depois dá uma acelerada com percussão. Depois 'Super Homem', ainda do Gilberto Gil, numa versão original e bonita.
Um Djavan com aquele leveza, 'Mal de mim', bonita e com um ritmo com cara de praia...estou forçando, eu sei. Tem uma brincadeira improvisada entre a voz e o violão.
Tem até um sambinha da melhor safra do Chico, 'Estação derradeira'! Com muito balanço e até uma cuíca simulada pela super versátil voz da Baby.
'É', do Gonzaguinha, também é um samba da melhor qualidade, o cd tem um repertório excelente e que não deixa a peteca cair.
Momento solo de voz!! 'Brasileirinho' parece ter sido feita pra voz, velocidade, precisão e interpretação da Baby. Depois o violão entra (mas sai quando a música acelera, não dá pra acompanhar), mas a voz é realmente o show.
E para terminar, a música arquetípica dos Novos Baianos, 'Brasil pandeiro', numa versão de levantar o salão!

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Bloco Vomit - Never mind the bossa nova


Prosseguindo na bizarrice...
Agora justificado pelo fator 'como', no caso a formação e sonoridade carnavalesca.

O Bloco Vomit é formado por punks escoceses que vieram estudar percussão brasileira e nesta roupagem gravaram esse álbum com músicas punk.
Que é de 1997 ou de 1998, dependendo da fonte...

Eu poderia dizer de qual banda é cada música, mas isso pode ser lido aqui (em inglês, of course, my horse):
http://www.blocovomit.com/record/songs1.php

Mais informação sobre o samba punk (!!!):
http://www.terra.com.br/istoegente/42/divearte/musica_vomit.htm
http://euovo.blogspot.com.br/2009/03/que-diabo-e-samba-punk.html

O maneiro é que as músicas não perderam a pressão punk, à qual foi adicionada uma pitada de maracatu e um naipe de metais/sopros (trompete e saxofone) típica de bandas de frevo ou blocos de carnaval.

Algumas músicas tem uma cara reggae, ou melhor samba reggae ao estilo Olodum, como é o caso de 'Police and thieves', que foi conhecida pela gravação do Clash, mas na verdade é originalmente reggae e cujo autor é Junior Murvin. 'Love lies limp' também entra nessa área, mas é bem zoneada  confusa, até o solo de sax é outside...

Então aqui vão as músicas (sem comentários individuais, agora é sério, Baiano!!):

1. Do they owe us a living?
2. Jilted John
3. Teenage kicks
4. Police and thieves
5. Pretty vacant
6. Metal postcard (Mitageisen)
7. Oh bondage, up yours!
8. Love lies limp
9. Gambinda nova
10. Should I stay or should I go?
11. Roadrunner
12. D.T.'s in droichead (que é só uma batucadinha final)

O disco é dedicado a Chico Science. Daí o maracatu tradicional 'Gambinda nova' ter uma cara totalmente manguebeat.

Por hoje é só, pessoal, em breve retornamos com a saga de álbuns solo...

(Dão)

sábado, 17 de novembro de 2012

Otto - Samba pra burro


Esse aqui não deixa de ser um álbum solo também porque antes o Otto era percussionista da banda mundo livre s. a., mas ele ficou realmente conhecido como artista solo.
Excepcionalmente, farei um post minimalista, até porque o cd permite isso...

Há duas grandes músicas no disco, as duas primeiras: 'Bob' e 'Low'.

A primeira (que tem um video muito legal 'filmado ao contrário', se não viu procure no youtube) começa lentinha, com uns tecladinhos maneiros, depois vai crescendo, com os elementos entrando em camadas (recurso trazido da música eletrônica): bateria a princípio leve, baixo sintetizado, vozes, etc, uma música com muita dinâmica, como todo grande música. Além disso tem a participação da Bebel Gilberto, coincidentemente o outro cd que trouxe para talvez postar hoje, numa voz etérea e linda.

'Low' tem um groove sensacional, tecladinhos vintage, um baixão forte, boas vozes e uma percussão muito muito legal, juntando tudo com uma letra em francês (o cara morou em Paris por dois anos) resulta numa ótima surpresa.

As minhas expectativas depois de ouvir esse começo eram altas, claro, mas infelizmente as outras não correspondem...

Não que sejam ruins, mas ficam longe das ótimas iniciais, merecendo citação 'Tv a cabo/ o que dá na lama' (com o verso "acabo de compra um tv a cabo/ acabo de entra pra solidão, acabo") e 'Distraída pra morte' com uns sopros bem legais (fluegelhorn e trumpete a cargo do Walmir Gil).

O disco tem aquela cara de mistura experimental com percussões, rap com repente e forró, drum'n'bass e outros estilos de música eletrônica, até cantigas de roda entram, acertando às vezes, às vezes errando feio.

Mesmo 'O celular de Naná', que traz como música incidental 'O chapéu tá no alto do céu' de Naná Vasconcelos (que incrivelmente ainda não tem nenhum disco por aqui), é meio frouxa e o Otto dá umas derrapadas na afinação.

Mas é um disco que merece estar aqui, simplesmente porque as duas músicas iniciais são MUITO boas mesmo, excepcionais eu diria.

Há muitas participações especiais, incluindo membros da Nação Zumbi (Gilmar Bola 8, Pupilo, Dengue e Lúcio Maia), Fred 04, Skowa, Zé Gonzales, entre muitos, até mesmo Carlos Eduardo Miranda, citado como tocando 'porta' (????) na música 'Café preto'...

A produção é de Apollo 9 com participação do DJ Soul Slinger em duas músicas.

(Dão)

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Paula Toller



Inicio aqui uma série com cds de membros (opa!) de bandas que gravam e lançam cds solo.
Inicio pela nosa musa Paula Toller, a cada dia melhor, em todos os sentidos. Pena que não consigo adicionar aqui a capa do cd, com certeza um dos pontos altos do dito cujo... (Mas o amigo Paul rsolveu isso!)
Não que o álbum seja ruim, pelo contrário, a voz dela hoje é um veludo, como por exemplo cantando quase sussurando numa das melhores músicas daqui, a versão da música 'Fly me to the moon' (Bart Howard), consagrada na voz de Frank Sinatra. Na época do lançamento acho que foi usada numa propaganda de bombom, Sonho de valsa se não me engano.
Antes dessa doçura, o cd começa apimentado, com 'Derretendo satélites', uma letra sexual que, diz a lenda, era claramente pornográfica, mas ela não me confirmou...Enfim, uma legítima fuck music, que merece até um remix pra usar no ato. Depois eu peço pra ela, assim que alguém me der o telefone dela.
'Eu só quero um xodó' deve ter centenas de versões, como boa música de solidão consagrada e com apelo românticuzinho (ui), então essa aqui tem que ter algo que a diferencie, no caso uma roupagem dance eletrônoca quase drum'n'bass. No fim o meio termo faz com que ela não seja tocada nem em baladas bregas nem em nights dance... Ainda tem um uuuuhuhu no final que lembra a Marisa e seus amigos tribalistas quando plagiaram o Sly e sua família Stone.
'Oito anos' lida com um tema muito interessane, a Paulinha tem boas ideias!, sobre aquela curiosidade infantil voraz sobre quase tudo e principalmente sobre aquelas perguntas que demandam muito tempo/esforço além de outras que não tem respostas... 'Uel uel uel Gabriel'.
'Alguém me avisou' (Dona Ivonne Lara) começa com uma guitarra com um drive bonito, depois cai no clima dance alternando com aquela vibe meio 'Puro êxtase' do Barão; mas vale a versão curtinha, essa música é bem legal!
Mais uma extraída do samba, no caso '1800 colinas' (Cracia do Salgueiro), agora num clima bem romântico, bonito pra quem está bem acompanhado, desde que ela (ou ele, sei lá qual é a dos meus amigos e leitores) não preste atenção na letra. Essa letra tem a vibe parecida com a de 'I still haven't found what I'm looking for' (U2).
Aí vem o ponto alto, 'E o mundo não se acabou' (Assis Valente), uma letra genial sobre o fim do mundo que não aconteceu e o comportamento desesperado ou animal que o cantante adota diante do fim próximo. Esse arranjo é mais próximo do maxixe (será que é isso? com a palavra os universitários...) original, menos eletrônico.
"Anunciaram e garantiram
Que o mundo ia se acabar
Por causa disso
Minha gente lá de casa
Começou a rezar...
E até disseram que o sol
Ia nascer antes da madrugada
Por causa disso nessa noite
Lá no morro
Não se fez batucada...

Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando
De aproveitar...
Beijei a bôca
De quem não devia
Peguei na mão
De quem não conhecia
Dancei um samba
Em traje de maiô
E o tal do mundo
Não se acabou..."
No caso nossa Paulinha safada dá uma atualizada na letra:
''peguei no pau de quem não conhecia
dancei pelada na televisão"
!!!

Mais uma com uns beats eletrônicos, 'Onde está a honestidade' (Noel Rosa, não se pode reclamar do repertório da bela cantora), apesar de eu não ser muito favorável à ideia de que toda fortuna é suspeita, se bem que a letra é muito mais complexa do que faço parecer...
A versão de 'Patience' (Guns'n'Roses, isso mesmo!) é uma boa surpresa, foge completamente da original violõezinhos e assobios, quase irreconhecível, bateria eletrônica vagabunda e um slide muito legal (até o amigo Mateus gostaria dessa...).
'Cantar' (Godofredo Guedes) é um samba clássico, e aqui ela não inventa, arranjo careta e belo, que fecha bem o disco.
"Cantar quase sempre nos faz recordar
Sem querer
Um beijo, um sorriso ou
uma outra aventura qualquer
Cantando aos acordes do meu violão
É que mando depressa ir-se embora
A saudade que mora no meu coração"

(Dão)



sexta-feira, 17 de junho de 2011

Noite, Lobão




Depois que o talvez último grande artista dos anos 80 apareceu por aqui (com a discordância do Mateus, antecipo), vamos mandar mais um dele. (Curiosidade: o post de 'O rock errou' teve que ser postado a partir de Guaíra...tempos globalizados e conectados, pero com alguns problemas de configuração brasiliense).


Outro dia estava a ouvir Depeche Mode e pensei em postar algo no estilo por aqui. Aí, pensei, pensei, pensei e vi que não tem nada nem próximo, pelo menos que eu conheça.


Então lembrei que o Lobão quando lançou este disco falava que parecia que só ele tinha ouvido Portishead e Nine Inch Nails no Brasil... (Mais um parêntese: Trent Reznor, do NIN, é pra mim o único gênio pós-Nirvana; e o mais incrível é que ele foi reconhecido pela supostamente estúpida indústria do entretenimento norte americano: ganhou um Oscar pela trilha de 'The social Network', numa premiação que ignorou 'Inception', a coisa mais legal depois de Star Wars e Senhor dos anéis...é, eu sou nerd sim).

Enfim, este é um disco de música eletrônica, 'hedonista e de direita' como acho que o autor declarou na época. Claro que com a cara do Velho Lobo, como diria meu amigo Xampu. Letras criativas e corrosivas, músicas dançantes (algumas) e convidativas à contemplação lounge (outras). Lembra em alguns momentos o 'Puro êxtase' do Barão Vermelho.

Até comprei a autobiografia dele - a preço de aeroporto...pressa.

Ao disco: 'A noite' começa elétrica com guitarra e depois entra a sonoridade mais eletrônica propriamente dita. No refrão fica meio disco, com uma guitarra em estéreo legal. Tem uma voz filtrada e uns barulinhos típicos da fritação dance.

"eu tô na paz, eu tô relax/ mas preciso de mais emoção"


'O grito' é das preferidas da casa, inspirada livremente no quadro do Munch, uma excelente letra. Até tem aqueles 'ô ô ô' típicos do Lobo e uma guitarrinha solo esperta com wah-wah (Sérgio Serra).

"a certeza da certeza faz o louco gritar"


'Sozinha minha' é muito legal também, com aqueles barulhos psicodélicos de trance, arrastada, chapada lounge. Boa pra se ouvir no escuro. Belas guitarras.


'A véspera' já começa mais eletrônica, boa pra mixar com aquele bumbo 'em um', voz meio distorcida, mais uma boa letra do nosso herói lupino.

"aí eu me pergunto: hoje é véspera de quê?

talvez hoje seja, simplesmente, véspera de nada"


'Hora deserta' traz um início que lembra a versão de 'Cena de cinema' que o Barão fez no disco citado...irônico, ainda mais com o Dé (ex-Barão) tocando baixo. Boas guitarras, mais uma boa letra. Gritos heavy ao final.

"halo de vida que exala das pequenas mortes

sexo, ascese

acaso, sorte"


'Meu abismo, meu abrigo' é daquelas boas baladas do Lobão, só que com roupagem eletrônica, vozes dobradas e filtradas em alguns momentos, guitarra criativa.


Aí chega a acidez total, crítica mordaz do espírito ixperto e do oba-oba vazio carioca, decadência pós 'vergonhosa campanha Rio 2004' e pré 'ganhamos a olimpíada 2016': 'Samba da caixa-preta', acelerada, precisa.

"salve samba, nos temos samba

esse é o arremedo de suingue, balanço, funk, telecoteco

esse é o aconchego indulgente das águas de março fechando o verão

esse é o narciso se achando esperto por não dar bandeira de afogado

se afoga narciso, pelo menos isso

(...)

Rio, me abraça com todos os seus restos

que eu sou tua cria, subproduto do subproduto

Rio, me abraça com a tua decadência que eu te chamo de

Maravilhosa precariedade na permanência"


'Me beija' diminui a tensão, guitarras suingadas, quase balada mais rock, com um rap no meio a cargo de Plínio Profeta.


'24 horas' foi a primeira composta pro disco, legalzinha, meio baladinha.


'Na poeira do mundo' tem um ar meio oriental, em parte por conta dos instrumentos de 12 cordas e o tema desértico, destoa um pouquinho do disco, mas tem sons ainda eletrônicos com percussão, com uma bateria mais orgânica no meio. Um teclado eventual lembra os clássicos discos do velho Lobo.


'Do amor' termina o disco, uma música mais etérea, com guitarras grandes. Tem uma citação bossa-nova com pianinho meio Tom Jobim. "Continente fissurado pelo conteúdo".


Produção de Humberto Barros (que também pilota os teclados), Lobão e Jungui (que também compõe as programações, texturas essenciais ao som do disco).

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Genival Lacerda: Tributo a Jackson do Pandeiro



O amigo e colaborador Zeba, em quem agora eu acredito devido ao Itupervastock 2011 (festa psicodélica ocorrida em um reino distante num tempo fora do tempo), me desafiou a postar Agnaldo Timóteo, se não me engano (e eu me engano bastante).
Não chegarei a tanto, pelo desconhecimento e desinteresse na obra do nosso pitoresco ex(?)-deputado.

Mas vou de brega e Genival é sensacional. Melhor ainda, tributo ao genial Jackson do Pandeiro. Além desse cd (pois é, eu ainda compro cds), eu tenho outro tributo, com bandas e artistas variados, que oportunamente será postado aqui também. Aqui há motivos pessoais: Jackson acolheu Genival em sua casa quando este chegou ao Rio de Janeiro em 1964.

Genival é um senhor de idade, 80 anos completados ou a completar em 2011, se ele ainda é vivo, fato que desconheço. Mas é safado o tiozinho paraibano...
Começou a carreira em 1956, mas só obteve maior sucesso em 1975 com 'Severina xique-xique'. Depois ainda emplacou 'Radinho de pilha' (que foi gravada inclusive pelo Camisa de Vênus) e 'Mate o véio, mate'.

Enfim, vamos ao presente cd: inicia com 'O canto da Ema', uma das mais conhecidas de Jackson, apesar de, como outras por aqui, não ser de sua autoria. Genival não mexe muito no arranjo original, até porque forró, xote e baião não tem muito o que inventar.
'Cantiga do sapo', esta de co-autoria de Jackson com Buco do Pandeiro (pô, onde esses caras arranjam esses nomes?), também mantém muito do original.
O cd tem 4 pout-pourris, o que permite que se toquem mais músicas em menos tempo (recurso inclusive utilizado pela já lendária banda The Xavados na festa citada). O primeiro traz 'Sebastiana/Vou buscar Maria/Forró em Limoeiro', sendo a primeira aquela que anima qualquer arrasta pé Brasil afora e adentro, as outras só fazem figuração, bonita, mas ainda figuração.
Já se segue outro pout-pourri: 'Forró em caruarú/Rosa/Falso toureiro', que são divertidas mas não famosas. Sem perder o pique, balançando o quadril e a pança do nosso Shrek forrozeiro.
'Baião do Bambolê' me deixa na dúvida sobre a diferença entre os estilos forró e baião, as músicas se seguem sem maiores alterações.
'Secretária do Diabo' podia ter sido gravada pelo Bezerra da Silva (que inclusive gravou coco no começo da carreira), pela malícia e narrativa do cotidiano. Vocês conhecem a história: aquela gostosa que vira a cabeça dos homens, mas só traz confusão. "Quando o diabo não vem, manda o secretário, eu não vou nessa canoa que eu não sou otário".
Mais um pout-pourri, esse com mais animação e 2 clássicos: 'Forró do Zé Lagoa/Na base da chinela/Um a um', sendo a do meio co-autoria do Jackson com Rosil Cavalcante.
Antes que eu me esqueça (e eu me esqueço bastante), o cd traz Dominguinhos e Oswaldinho nas sanfonas. Por que tantos 'inhos' na música brasileira?
O último pout-pourri (ou petit poir, como diz me amigo Both): 'Mané Gardino/Quadro negro/Forró em Surubin', que prossegue com a festa.
'Lamento de cego', de co-autoria de Jackson com N. Lima, traz mais cadência, é uma música cantada por um Genival mais emocionado, com uma voz que lembra o Gonzagão e o som ligeiramente destoante do cd. Traz também umas vozes femininas fazendo um belo fundo. A festa tá acabando, desce mais um xiboquinha!
As 3 últimas completam e finalizam bem o cd, com destaque pra muito legal 'Como tem Zé na Paraíba', seguida de 'Valsa Nenen' e 'Forró na gafieira'.
(Dão)

terça-feira, 21 de abril de 2009

Ainda brincando, a aventura continua (Canções Curiosas, Palavra Cantada, 1998)


Porque as crianças crescem, as canções as acompanham. O que era brincadeira vira curiosidade (mas sem deixar de ser totalmente brincadeira) e Paulo Tatit e Sandra Peres conseguem, com maestria mais uma vez, capturar este estado de espírito no fantástico Canções Curiosas.

Em homenagem ao cinquecentenário (putz! essa palavra existe?) do descobrimento o disco abre cantado em português (de Portugal) os versos de “Pindorama”. Em seguida uma composição (incompreensível) de Carlinhos Brown, que toca violão e percussão na faixa “Erê”, deliciosamente cantada pelo Coro das Primas. O disco segue com duas das melhores músicas de Arnaldo Antunes (em qualquer sentido que se considere as composições de Arnaldo!). A primeira delas é uma parceria com Paulo Tatit, “Criança não Trabalha” cuja letra é um simples desfile de palavras (como em O Pulso, dos Titãs) como bola, bicicleta, lápis, caderno, band-aid, sabão, cadarço... intercalado pelo refrão simples, fácil e direto (por isso genial): criança não trabalha, criança dá trabalho!. Em “Cultura”, temos o universo Arnaldiano (desculpem-me pela invenção do termo intelecto-piegas...) perfeitamente adequado ao espírito das canções curiosas, em frases como o girino é o peixinho do sapo, as raízes são as veias da seiva e assim por diante.

“O rato” é a historinha do roedor que queria se casar com a lua, mas acaba ficando com uma ratinha esperta mesmo. O infinito volta em “Trilhares”, de Paulo e Edith Derdyk (antiga colaboradora) que se dão conta (?!) das incontáveis estrelas no céu e grãos de areia numa praia. Em “Fome Come”, o assunto da fome é abordado (a la Comida, Titãs mais uma vez) na sua concepção mais ampla e de uma maneira talvez mais digerível (com o perdão do trocadilho) para o público que outro dia ainda ouvia as canções de brincar. A batida da percussão feita com latas e copos de plástico é um capítulo (e uma brincadeira) à parte. Um par de canções se segue descrevendo o diálogo entre uma boneca esquecida, abandonada e a menina que cresceu e agora tem outros interesses.

Num disco como este é muito difícil falar em ponto alto, mas eventualmente a gente tem uma preferida... Aquela música que a gente ergue o volume do sonzinho, seja lá qual for... Aqui é a homenagem que o santista Paulo Tatit faz ao eterno ídolo. “Pelé” é disparado, a mais bela homenagem musical jamais feita ao rei do futebol e uma das melhores músicas sobre futebol feitas em português, sem ficar nada a dever a qualquer uma das (muitas) canções de Jorge Ben sobre o tema. O sãopaulino Edgar Scandurra fica encarregado da guitarra e o ritmo sugerido por ele e Paulo (violão e baixo) é o de uma saudosista partida dos anos sessenta, narrada-cantada suavemente por Paulo, tempo que o futebol passava só no rádio, não tinha televisão e em que os torcedores iam ao estádio ver o rei jogar e não ficar o tempo todo se xingando e arrumando briga e distribuindo pancadaria.
Ele é, ele é, ele é
O nosso rei da bola, o rei Pelé
Ele é, ele é, ele é
O rei de toda a Terra
Que conquistou a coroa
Pelo toque do seu pé!


O disco termina com “Eu”, uma suposta autobiografia que mistura o norte e o sul do país nas origens do protagonista, e a dispensável “Gramática” que mais parece uma concessão de Paulo a seu irmão Luiz Tatit. O que não tira o brilho de mais um disco fantástico da Palavra Cantada, este Canções Curiosas, que as crianças de 0 a 100 adoram!
[M]