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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Maquinado - Lucio Maia



Prosseguindo com a série discos solos de músicos de bandas, faremos hoje um agrado ao amigo Baiano (que vem reclamando dessa série propondo mesmo um boicote terrorista às minhas publicações...), que eu sei que gosta do Lúcio Maia, com certeza um dos mais criativos guitarristas da (já não tão) nova geração.
O Mateus não gostou muito...
Sua banda principal é a fodona Nação Zumbi, já resenhada algumas vezes por aqui. Não vou dizer que é a melhor (talvez se o Chico ainda estivesse por aqui...), porque não dá pra esquecer o Rappa, o Planet Hemp (que em breve também terá discos de membros solo por aqui e são vários), o Skank etc. Além disso também participou do disco de estréia do Soulfly (banda solo do Max Cavalera, ex-Sepultura, sob a cobertura de um pseudônimo, Jackson Bandeira, por razões contratuais de gravadoras) e do EP Tribe. Faz parte do grupo Seu Jorge e Almaz (faça esse post, Baiano!) e atualmente, para desgosto de alguns (não meu), toca na banda de apoio da Marisa Monte.Esse disco tem algumas conexões com a banda original, claro, pela sonoridade em algumas músicas (não todas) e participações dos caras da banda em algumas músicas também.
Ao disco então: a sonoridade é bem eletrônica, mesmo sem deixar de lado a guitarra, instrumento principal do Lúcio.
'Arrudeia' começa com barulhinhos e um baixo distorcido muito legal, mas a estrutura da canção lembra uma ciranda, se é que alguém presta atenção nisso... Tem uma voz processada com aquele efeito vocodermeio bizarro.
Na sequência 'Não queira se aproximar', um encontro hoje usual entre a música regional e a música eletrônica, com voz do Buia (??), samba e um sample sem crédito 'sai pra lá, peste'.
'Tranquilo' traz o finado Speedy (ex-Black Alien) na letra e voz, um som mais pesado e acelerado, um heavy rap, maneiro, que começa com uma declaração falada bandeirosa: “Aí, compadre, tá tranquilo, amigo? É, tô tranquilo também, tô aqui, tranquilão, cigarrão de skunk na mão, copão de domec na outra”...
'Alados' traz Siba (ex-Mestre Ambrósio) e, mesmo com uma bateria eletrônica, parece bastante com essa banda, tem mais cara de canção, com aquela típica estrutura circular.
'Sem concerto' é cantada pelo próprio Lúcio, com voz cheia de efeitos, diferente, mais batida e suingada mesmo sendo ainda eletrônica, guitarrinhas bonitas, assovios, cheia de detalhes, sempre ouvidos melhor num headphone, é bom lembrar...qualquer um que fotografar os pesadelos de quem não volta a dormirvai andando, olhando pro céu,estará sempre a um passo de cair"
'Dia do julgamento' é uma instrumental (tem umas falas esparsas em inglês, acho) viajandona, do tipo que a Nação Zumbi inclui nos seus discos, aqui com um scratch do PG e uma guitarra muito maneira do nosso guitar hero!
'O som' também poderia estar num disco da Nação e tem o Jorge Du Peixe na voz e na letra, além de outros da banda.O convidado agora é Rodrigo Brandão, do Mamelo Sound System, no hip hop sombrio 'Eletrocutado', suingada e eletrônica, com uma guitarra palhetadinha e discreta, Lúcio é muito bom mas discreto, toca pra canção.
'Despeça dos argumentos' traz o chato e sempre cansado Felipe S, do chato Monbojó, fica aquela cara de canção arrastada e que demora demais pra terminar...dispensável.
'Vendi a alma' é meio bossa nova com uns barulhos incômodos e temática heavy metal, bizarra e interessante, tendo o convidado Basa (nord lead, o que será essa porra?? e arranjo).
Vendi minha alma ao Diaboposso falar mal dele e da alma tambéme da sombra tirei um retratovou pregar no muro e não mostrar a ninguém”
'Além do bem' vem pra fechar bem o disco, trip hop chapado, com umas vozes etéreas lindas da Verônia Ferriani.
(Dão)

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Nem que seja pela última vez...



“Invisível DJ” , de 2007, foi o último disco do Ira! com a sua formação clássica. Trata-se de um disco que passou batido, sem ter músicas tocadas nas rádios (fora poucas exceções) e até mesmo sem merecer maior destaque por parte dos fãs da banda, cuja maior preocupação, logo em seguida, recaia sobre o futuro da banda, que enfrentou sua maior crise com a briga grave do Nasi com o irmão empresário e o restante da banda.

Mais além de ter sido o último disco, também marcou um período em que o próprio formato de venda já apresentava fortes sinais de crise, já que passou a ser mais fácil baixar na internet qualquer disco do que compra-lo em lojas especializadas.

Nesse cenário, eu como um fã, comprei o disco assim que foi lançado antes mesmo de ouvir qualquer música (e quando a banda ainda estava aparentemente unida), sem esperar muita coisa, mas me surpreendi com a qualidade do som.

O disco abre com a canção que batizou o trabalho, com a guitarra do canhoto Edgard Scandurra a toda velocidade descrevendo a dura rotina de uma funcionária que pega 4 ônibus por dia embalada pelo som do dj das rádios.

Em “Sem Saber pra Onde Ir”, na única composição do Nasi nesse disco, o vocalista já dava os sinais dos seus próximos passos:

Eu não vou continuar aqui sozinho
esperando você vir
tenho que continuar, a minha estrada prosseguir
sem saber aonde ir

O ritmo muda em “Eu vou Tentar”, uma levada mais sossegada de Rodrigo Koala em que os sinais do fim e da saudade continuam em evidência:

Hoje eu saio cedo
Sem saber se vou voltar
Caminho entre os carros
Deixo a rua me levar
Vou ser feliz
Longe daqui

(...)

Eu vou tentar fazer você feliz...nem que seja pela última vez.

Em seguida, “Mariana foi pro Mar” narra a vida de uma garota que ao enfrentar uma crise conjugal, deu a volta por cima ao melhor estilo. Trata-se de uma das canções mais divertidas desse disco e com som de fácil audição. Agrada a gregos e troianos.

O rock volta a toda em “Não basta o Perdão”, novamente com a temática da separação e da crise conjugal:

é o desafio, meu bem
eis a questão
é preciso o amor não basta o perdão

Depois de uma espécie de blues em “Culto de Amor”, o Ira! resgata uma canção da década de 1970 de Walter Franco, uma espécie de músico da vanguarda paulistana, com “Feito Gente”. Pra mim, esse é o ponto alto do disco, uma letra que parece escrita sob medida para a voz do Nasi:

Feito gente, feito fase.
Eu te amei, como pude.
Fui inteiro, fui metade.
Eu te amei, como pude
.

O disco segue com “Tudo de Mim” e “Universo dos seus Olhos”, para emendar com mais uma feliz parceria do Scandurra com Arnaldo Antunes em “A Saga”, ao melhor estilo do Ira! Sonzeira...

caindo, cai
descalço, vai
na beira da calçada

olhando, vê
assiste a quê
anda atrás de nada

catando lixo,
correndo o risco,
fazendo arruaça

chutando lata,
xingando placa,
fazendo ameaça
passa, passa

No final, a temática muda, abrindo espaço primeiramente para a crítica política em “O Candidato”, ainda que não muito inspirada (acho o ponto fraco desse disco) para fechar com a excelente “La Luna Llena”, cuja letra em espanhol casa bem com o tom revolucionário:

Déjenos un gran legado
De amor y resistencia
Tenemos siempre una nueva manera
De olvidar los sentimientos
Y el ódio y la ganancia
Se apoderan de nosotros
La guerra no escucha la canción
La guerra no tiene educación
No te da las buenas tardes
Buenas noches
Buenos dias
Fuego en su corazón
Y la luna está triste
Porque mira lo que hacemos
Aqui

Enfim ,trata-se do último suspiro do Ira! Meses após o lançamento desse disco ocorreu uma série briga que, a princípio, separou para sempre Nasi dos demais, deixando órfãos todos os fãs de longa data dessa banda. Felizmente deixaram como herança uma vasta obra com som marcante que continuará sendo escutada. E Invisível DJ certamente serviu para fechar com chave de ouro essa fase. Quem sabe com as voltas que o mundo dá eles não resolvem voltar a nos brindar com trabalhos desse calibre...Nem que seja pela última vez.

Para escutar o disco: http://grooveshark.com/#/album/Invisivel+Dj/3480309

[Paul]

PS: confesso que só depois de escrever (mas antes de postar) vi que o Mateus postou outro disco do Ira! recentemente...legal, serve com um diálogo.

sábado, 9 de julho de 2011

Mula Manca & a Fabulosa Figura, Amor & Pastel (2007)



Há uns meses, fuçando na internet tive a grata surpresa ao me deparar com um grupo que até então não conhecia: Mula Manca & a Fabulosa Figura. Não sei se foi a capa surrealista ou o nome quixotesco, mas o fato é que algo me chamou atenção e resolvi escutar uma música. Gostei e passei a escutar outras até decidir baixar o disco inteiro e fiquei animado com a descoberta pessoal.


No mesmo dia, apresentei a novidade para a Carol, minha namorada, com um leve receio de que ela, com maior rigor, se decepcionasse. Entretanto, não só isso não ocorreu, como ela se tornou rapidamente fã do disco, mais até do que eu.


Depois, pesquisando, descobri que se tratava de um quarteto Pernambuco (mais uma grata surpresa musical de lá) formado por Tibério Azul (voz, violão e canções) e Castor Luiz (voz, piano e canções), Dom Angelo (guitarra) e Bruno Cupim (percussão) e que Amor & Pastel, o disco em questão, era o 2º e foi lançado em 2007. No primeiro trabalho em 2004, a banda atendia pelo nome de Mula Manca & a Triste Figura.



Reparando bem, o Amor & Pastel apresenta, em sequencia, uma espécie de trilha sonora de um casal em crise. Começa com uma quase MPB “Se Lavo, Lavu”, com a voz masculina de Tibério Azul interpretando a esposa abandonada, tal como Chico Buarque em diversas canções. Em seguida, a bilíngue “Blond Girl”, que conta inclusive com um piano ao melhor estilo bossa nova para retratar a fossa do momento de crise:

No meu carro uma bossa
Um poça que tu gosta
Uma frase meio torta
Uma barriga em meu violão
Uma, duas luas
Uma cachaça, dois coração

Outro par me convidou...para dançar do lado de lá...eu vou. Em “Outro Par” surgem os primeiros sinais do desgaste da relação ao ritmo de um excelente samba de raiz, emendando em “Dinheiro” (uma das minhas preferidas), cuja letra criativa mexe com o imaginário da vida boa de um cara após ganhar dinheiro e esnobar a antiga paixão:

Paris! Europa! Chile! Argentina!
Girafas! Caribe! Charutos!
Hula - Hula! Baralho! Loiras!
Piscina na cobertura!
Massagem, passagem, uma bela paisagem!
Ah, você só vai olhar!


Com uma levada dos tempos do Iê-Iê-Iê, a introdução de “Dinheiro” remete muito à recente “Invejoso” de Arnaldo Antunes. Antes que surjam especulações maldosas, importante dizer que essa música do Mula Manca & a Fabulosa Figura é mais antiga.


“Loteria” vem em ritmo de samba com bossa e o piano volta ter uma participação na curta “Escravo”, onde a crise do casal apresenta-se em sua plenitude: Preciso me humilhar ... E ser só coração...Ou levá-lo numa bandeja...Pra ver se você se comove.


Refletindo a sopa de sentimentos pós-separação, vem “Fórmula 1”: Leio as notícias no jornal...são iguais...Faço um chá pra nós dois..você se foi.. Mas hoje me deu uma sensação... um sentimento de grandeza... uma vontade de dizer...voe voe voe querida..voe voe voe meu bem.... Trata-se de um som que remete ao tempo da jovem guarda. Se fechar os olhos, até a voz lembra o bom e velho Tremendão em mais uma letra divertida e até surrealista.


O céu testemunhou... Cecilia aquela flor...Não murcha, parece que se apetece...Esta cada vez maior cá em mim . “Cecília” começa com letra e sons tristes, mas traz também boas recordações em ritmo alegre dentro da mesma canção:

Aí me recorda,
aquela história da gente dançar como um par
O mesmo baile, eu no mesmo traje e teu vestido insiste em rodar
Juras e beijos, abraços, um regaco escondido pra noite durar
O teu sorriso, cabelo comprido, um adorno com a flor no lugar


Deita aqui...Eu arrumei a cama pra nós dois...Esquece tua mala aí, aqui.... Em “Deita aqui”, uma voz feminina numa canção suave reflete a busca pela reconciliação. O diálogo entre o casal continua depois em ritmo de forró pé-de-serra com “Animal”, afinal sou o mesmo rapaz de cabeleiras longas. Música sensacional.


A trilha da história segue com dois sambinhas “Terra, Água e Sal” e “Paletó”, que retrata brilhantemente a nostalgia que surge após a separação consolidada:

Pouco me tem interessado ultimamente
É que a saudade manda mensagem súbita
Você não está pra me fazer um cafuné
E a leveza já precisa ser


Aos sons de passarinho e com uma bela levada, em "Varanda" a esperança renasce...ainda que sob a incerteza:

Não fique triste, me promete
Que se derrete quando eu voltar
Se eu voltar (...)


O ritmo acelera em “Pé no Chão” com uma letra quase surrealista para encerrar em clima de suspense com “Arrepio”.


Enfim, não sei se foram as múltiplas influências, a alternância entre tropicália, mpb, jovem guarda e mangue beat, ou ainda as letras bem humoradas, mas o fato é que Mula Manca & a Fabulosa Figura me conquistou definitivamente e esse disco transformou-se numa deliciosa trilha sonora do último verão, quando ao lado da Carol, passávamos tardes ensolaradas tomando cervejinha na piscina de brinquedo. A diferença é que, ao contrário do enredo do disco, o clima dominante era de plena harmonia. Valeu Mula Manca! Esperamos ter a oportunidade de ouvi-los em algum show futuramente.


Paul


Obs: para conhecer o trabalho deles, www.myspace.com/mulamanca


sábado, 13 de junho de 2009

Sim - Vanessa da Mata (2007)


SIM, o disco vermelho de Vanessa da Mata é um disco feminino. Começando pela capa, com aquela manta que parece uma mancha de esmalte sobre a areia, e que voa quando abrimos o encarte. Sua voz é bonita e cristalina, num balanço na medida entre a delicadeza e a braveza. Um pêndulo que só existe dentro de uma mulher.
Vanessa da Mata constrói um disco de sensações e sentimentos, que poderiam ser contados e cantados em grandes clichês, mas não, ela captura a magia do simples e o transforma em leveza. Deixa escorrer o desejo.
Seu disco tem um encaixe redondo, os fios se encontram numa poesia tranquila sem grandes surpresas no caminho. Talvez a surpresa esteja aí, nesse rio que corre manso. Seus sons são bons de ouvir, tem algo nisso tudo de misterioso, de atraente.

“Vermelho” abre num crescente, com uma voz que vem de longe e vai chegando pertinho. Lânguida face. Os sons se misturam com barulhos de bolhas explodindo. Vermelho é o sangue: o quente que arde, o quente que queima, o calor que pede o aconchego, mas que traz o vazio, que deixa a alma na solidão. E a voz vai como veio, desaparecendo, sumindo, enquanto o mundo roda em vão.
Vermelho de pepper sauce.

“Fugiu com a novela” é um charme! Gostosa até de ouvir com esse som de triângulo, com essa percussão melindrosa… Gosto muito da inversão de papéis: Vanessa da Mata canta um homem que reclama a perda de sua mulher para a novela das oito e bem agora que o caso tava no tom! Perfeito! Esse homem que parece mais um gato, que gostava de ser alisado, que contava piada e ela gargalhava, foi abandonado…
A letra é uma crônica conhecida e capta justamente um lapso: o vão entre os dois lados de um mesmo homem – o que acariciava e às vezes nem tanto. Com graça e sem alarde, Vanessa toma da voz masculina para dar o recado: “A vida era boa ela não reclamava/ Agora vive longe, não sei mais nada/ Fugiu da nossa casa com a televisão”…
Acho que já sei! “Vermelho” é feminino nos temas, é discreto nos tons e isso já é uma super novidade!

“Baú” é o lado do pêndulo bravo da estória. Num ritmo mais rápido, com um órgão que traz uma sonoridade ácida à música, Vanessa numa imagem linda de morrer, quer jogar o moço no seu baú vivo e mágico, cheio de desenhos herméticos, livrinhos de receita e palavras de Dalai Lama. Tá louca pra transformar seu sapo em príncipe.
Essa música somos nós naquele desespero total quando a gente vê que o nosso moço tá enguiçado, patinando… É bem aquela coisa de mulher, que vai dando nos nervos… E lá vem um chocalho à la cascavel. Típico! Quem tem uma mulher em casa sabe do que eu estou falando!
Mas claro, a estória poderia ser cantada ao contrário… Essa música é meio como búzios quando jogados na mesa, é tudo uma questão de encaixe, de interpretação…

“Boa Sorte/ Good Luck” é um encontro de dois tecidos transparentes. Gosto muito. Acho super legal essa idéia de sobrepor a mesma idéia em duas línguas diferentes: como se a tradução não fosse possível quando estamos falando de sentimento, então temos a necessidade das duas vozes. Estamos aqui falando da riqueza das línguas, como se fosse um concentrado de cultura e um código que tenta colocar pra fora tudo isso. Cada língua com suas nuances, com suas palavras ora mais carregadas, ora menos, e, como se tivessem vidas próprias, elas conversam entre si, e a música é só um pretexto onde todas essas idéias deslizam. É super lindo! E o Ben Harper é um parceiro mais que perfeito! Ele, na sua bagagem musical, esbanja liberdade, encontros e poesia.

Os dedos percorrem os pretos e os brancos do piano que abre “Amado” e com a voz mais doce do mundo, Vanessa da Mata mata já de cara: “Fico desejando nós gastando o mar/ Pôr-do-sol, postal, mais ninguém”…
Que música de amor linda, cheia de um amor seguro, em paz e arrebatado de desejo. Todo mundo de bem merece um amor desse…
E essa música me lembra uma estrofe do Nando Reis, numa de suas milhões de melhores estrofes: “Corre a lua, por que longe vai?/ Sobe o dia tão vertical/ O horizonte anuncia com o seu vitral/ Que eu trocaria a eternidade por essa noite? Por que está amanhecendo?/ Peço o contrário, ver o sol se pôr/ Por que está amanhecendo/ Se não vou beijar teus lábios quando você se for?”. O Nando com o seu jeito de cantar o amor onde todas as células do corpo amam juntas e num tom muito mais louco de amor, tem a mesma vibração que Vanessa em “Amado”. Os dois estão hipnotizados pelo desejo.
Em “Amado”, onde até a sonoridade respira e transpira num movimento único, Vanessa da Mata canta um amor livre: no mesmo espaço onde lá fora passa o tempo sem você, é o espaço sim, onde tudo pode acontecer. Sem prisão.
Quero dançar com você…

“Paçoca, suspiro, cocada, jujuba/ Quindim, bombom, churros, bomba”
Quindins, churros, bombons…
A única coisa que me vem à cabeça nessa música é esse monte de doces brilhantes e deliciosos. Pirraça é uma música visual! Eu juro que eu tô vendo um quindim bem amarelo aqui na minha frente…
Um sonho! Só de pirraça!

“Pensando em te matar de amor ou de dor/ Eu te espero calada”.
Em “Você vai me destruir”, Vanessa da Mata canta o que a gente também sente: o nó no peito do fim do amor. O som é dançante, feito mesmo para disfarçar a raiva, todo o desdém. A fúria dessa música também é bem feminina: a fúria que se mistura com a vontade de perdoar, de esquecer e de continuar amando com a potência do amor envolvente, aquele mesmo, aquele que te come, aquele cheio de contradição.

Gosto muito da bateria em “Absurdo”. A bateria leva a música, abre o caminho, marca o trilho.
“Absurdo” é uma música muito bonita, mas triste… “Cores, tantas cores/ Tais belezas/ Foram-se/ Versos e estrelas/ Tantas fadas que eu não vi”. Vanessa com tranquilidade, e escolhendo as melhores perguntas numa poética verde, deixa aqui seu recado.

“Ilegais” é a minha música favorita! É malandrinha, com balanço, com malícia. Me gusta!
Os backing vocals são discretos como devem ser, o eletronicozinho no fundo dando o tom, o trombone que aparece de curioso, enche um espaço e faz bonito, Vanessa da Mata funde tudo isso muito bem com sua letra dengosa.
É que não dá mesmo pra amar sem um dengo, né? Sem uma manha… Amar na legalidade? Tudo muito previsível? Demodé…
Eu adoro quando ela canta: “Desse jeito vão saber de nós dois/ Dessa nossa farra”.
Uma música gostosa, com um nome sensacional. E farra é farra… Nada mais sugestivo.

Me entrego total e acho uma verdadeira delícia a velocidade de “Quando um homem tem uma mangueira no quintal”! Uma música cheia de duplos sentidos, sem vergonha, cheia de siricotico e aventura. Essa música tem uma graça incrível, ela é toda livre, como numa trança solta, uma gostosura.
Fico viajando nesse quintal: com grama verde e com uns pedaços ainda com terra. Terra às vezes molhada pela água da mangueira. Um lugar pra poder brincar de amar, sem pensar no amanhã, aproveitar a tarde vazia.
É uma homenagem ao tempo livre, ao tempo vazio, ao deixar-se sair do sério.
E se é gostoso, por que não? Se é bem bom pro coração…
Let’s go?

[ANDRÉA]

domingo, 14 de setembro de 2008

Arnaldo Antunes Ao Vivo no Estúdio - 2007



Quando vi esse blog fiquei super a fim de dar o meu palpite também… fiquei na fissura de escrever sobre o Nando Reis, mas ainda tá difícil – é muita paixão para pouca crítica.
Resolvi então falar de um outro ex-titã e contar do Arnaldo Antunes AO VIVO NO ESTÚDIO (2007).

O Arnaldo é aquela coisa difícil, aquela coisa geométrica da poesia concreta traduzida para os ouvidos, e eu sei, tem hora que bicho, é muita linha reta! Mas esse cd tá lindo, super delicado e o Arnaldo tem esse jeito infantil de cantar os sentimentos humanos, que às vezes é quase uma canção de ninar. Fiquei pensando, pô, ele era tão punk nos titãs e agora com esse tom infantil, com essa voz macia. Mas tanto o punk como o infantil nos desconcertam, quebram as nossas pernas porque nos desarmam. Acho que é por isso que o Arnaldo me surpreende.

Logo nas primeiras canções do cd - “Qualquer”, “Saiba” e “Fim do dia” - a gente percebe esse poder infantil, essa mistura de sentimentos infantis com a realidade adulta. E o cd vai rodando e o Nando chega pra cantar junto a maravilhosa “Não vou me adaptar”. Nesse cd a música ganha uma versão alegre, cheia de reggae, tranquila de ouvir. Mistura feliz de dois ex-titãs! E o Nando com aquela voz desajeitada dele, sem pressa, vai cantando as difilculdades de virar gente grande…

Como não poderia faltar, o trio tribalista tá lá e canta “Um a um”. Apesar de não trazer nenhuma surpresa na versão, essa música é muito bonita e é muito legal essa estória de dividir o espaço com o amigos. E é isso, essa música fala disso, de aprender a dividir, e que quando é bom de se jogar, dá 1x1. E no encarte tem umas fotos lindas e a Marisa Monte tá no maior visual Frida Khalo! Aliás encarte pra mim faz parte do cd…

E tem também uma versão muito massa de “Qualquer Coisa” do Caetano. A introdução é linda, com um piano e uma guitarra forte, marcando quase que cada palavra. Com uns efeitos meio que eletrônicos durante. Ah é linda! É uma versão reta, sem muito tempo pra respirar, com as palavras claras e quase faladas.

Aí é a vez da “O que”, mais uma da fase titânica. Versão enxuta, só voz, guitarra e uns efeitos eletrônicos que parecem ondas. Essa só ouvindo mesmo! tá bem boa!

Mas acho que as surpresas maiores estão nas últimas duas faixas – “Luzes”, um poema do Leminski , que é uma coisa… ele transformou o poema num tango, com uma sanfona e uns violões de matar. É quando ele diz que “essa noite vai ter sol”. A música vai encorpando, enchendo nossos ouvidos, a sanfona vai ficando poderosa e tomando conta da cena.
Arnaldinho matou a pau nessa!

A impressão que tive, quando ouvi esse cd, foi que o Arnaldo tá a fim de paz, mas você só saca isso depois de ouvir o Edgar Scandurra fazendo aquela guitarra se descabelar em “Judiaria”.
Sem palavras.

[ANDRÉA]

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Onde Brilhem Seus Olhos - Fernanda Takai - 2007

Fernanda Takai tornou-se conhecida do grande(?) público como integrante do Pato Fu (que logo logo merecerá um post por aqui...), mas neste primeiro disco "solo" ela se revela uma outra cantora. Ainda que a produção e instrumentação tenha sido feita quase toda pelo marido/parceiro de Pato Fu, John, o disco gravado no estúdio caseiro do casal difere do trabalho da banda no "tom". A abordagem humorística típica do Pato fica muito mais sutil em favor das canções e da voz suave da Fernanda. A idéia de gravar músicas do repertório da Nara Leão partiu do Nelson Motta, co-produtor à distância, do álbum. Os arranjos trazem um pouco das colagens musicais típicas do Pato Fu, mas a instrumentação concentra-se no básico, guitarra-baixo-bateria (eletrônica, aqui) e eventuais teclados. O repertório é uma delícia, Com Acúcar com Afeto é minha favorita, junto com Insensatez que traz um solo lindíssimo de guitarra de ninguém menos que Roberto Menescal. O título do disco sai de um trecho da letra de Seja o Meu Céu (do Robertinho do Recife, uma rendenção pra quem torcer o nariz pra Metalmania, publicado aqui, foi mal Dão...), uma das melhores do disco também. Outros destaques são o fox-chorinho-trote Odeon, Diz que Fui por aí e Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos. Uma delícia de disco, presente da voz relaxadamente deliciosa da Fernanda e do trabalho instrumental caprichoso do John. É só ouvir... [MATEUS]